Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami

Do que eu falo quando falo de corrida, de Haruki Murakami

Um livro simples e direto, de alguém que vive a corrida. Alguns de vocês sabem que eu, aos 68 anos, ainda corro. Nestes dias de canícula extrema, tenho sofrido um pouco, apesar de que minha ideologia de corredor é totalmente diferente da de Murakami. Eu corro sempre confortavelmente, naquilo que chamo de “velocidade de cruzeiro”, isto é, velocidade constante e sem dor. Com o calor deste dezembro-janeiro, paro nos 4 Km, pois tudo começa a ficar complicado. Não sinto dor, não tenho dificuldades para respirar, só sinto muito calor; na verdade, parece que alguém me desliga remotamente. Segundos antes de parar, não pretendia fazê-lo e fico surpreso quando paro. Sim, estou tomando todos os remédios que me prescreveram.

Neste livro fora da curva, Haruki Murakami transforma a corrida em metáfora de escrita e disciplina. Longe de ser apenas um diário de treinamento, Do que eu falo quando falo de corrida é um ensaio autobiográfico em que o autor examina o corpo, o passar do tempo e o silêncio — aquilo que sustenta sua literatura quando ninguém está olhando. Eu escrevi silêncio? Bem, quando ele corre, costuma ouvir rock, jazz ou eruditos. Voltemos: ao narrar maratonas e dores musculares, Murakami fala, na verdade, sobre persistência, escolhas e a estranha solidão de quem decide enfrentar a si mesmo todos os dias. Escrever seria como correr.

A prosa é calma e transparente, como quem pensa enquanto caminha. Não há heroísmo; há cansaço, limites, fracassos e uma ética quase artesanal: correr e escrever exigem rotina, humildade e paciência. O autor reflete sobre a passagem dos anos, sobre a relação entre arte e resistência física. É um livro de introspecção discreta, sem alarde.

Ou seja, o ponto central do livro não é a corrida em si, mas o modo como Murakami articula disciplina,  e rotina com o processo de escrita. Ele descreve o momento em que decide abandonar o bar que administrava para viver exclusivamente de literatura — e como a corrida surge em sua vida como uma prática que lhe dá método, fôlego e constância. O interesse do livro está na relação entre esses dois gestos paralelos: escrever todos os dias, correr todos os dias — ambos como tarefas pacientes e acumulativas.

Murakami evita grandes conclusões e nunca dramatiza suas experiências. Em vez disso, constrói um mosaico de pequenas cenas: treinos, viagens, competições, cansaços, fracassos discretos, satisfações modestas. A força do livro nasce justamente dessa contenção. Ele observa a si mesmo com distância, às vezes com humor, outras com leve melancolia. O resultado é um livro sobre tempo e trabalho — sobre aquilo que só se constrói lentamente, passo a passo, página a página. Murakami mostra que a escrita, como a corrida, não é feita de momentos épicos, mas de repetição, atenção e uma obstinada fidelidade ao ato de continuar.

Do que eu falo quando falo de corrida é, assim, um livro de memórias enxuto e elegante, que ilumina o cotidiano do escritor por dentro — e revela, sem didatismo, como a literatura também se articula com hábitos, insistência e, tá bem!, silêncio.

P.S. — Sim, sim, meus amigos, para dar este título a seu livro, Murakami pediu permissão para a viúva de Raymond Carver, autor de “De que falamos quando falamos de amor” (What We Talk About When We Talk About Love).

Hoje, Murakami tem 76 anos. Será que ainda corre?

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Bamboletras recomenda “Abandonar um gato” de Murakami, CDs de Vitor Ramil e ainda Pilar Quintana

Bamboletras recomenda “Abandonar um gato” de Murakami, CDs de Vitor Ramil e ainda Pilar Quintana

A newsletter desta quarta-feira da Bamboletras.

Haruki Murakami (1949)

Olá!

Calma gente, o gato acaba bem. O novo Murakami, Abandonar um gato, é formado por cenas corriqueiras da infância e da juventude do autor. Ao longo da narrativa, Murakami também traz à tona traumas familiares e de guerra, além contar sobre sua relação com o pai, com quem passou anos sem contato. Um baita livro! Também recebemos vários CDs — saudades dos CDs, né, gente? — de Vitor Ramil e recomendamos Os Abismos, de Pilar Quintana.

Uma excelente semana com boas leituras!

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Abandonar um gato (o que falo quando falo do meu pai), de Haruki Murakami (Alfaguara, 112 páginas, R$ 64,90)

“Claro que tenho muitas lembranças do meu pai. É natural, considerando que vivemos sob o mesmo teto de nossa casa não exatamente espaçosa desde o momento em que nasci até sair de casa aos dezoito anos. E, como é o caso da maioria das crianças e pais, imagino, algumas das minhas lembranças do meu pai são felizes, outras nem tanto. Mas as memórias que permanecem mais vívidas em minha mente agora não se enquadram em nenhuma das categorias; envolvem eventos mais comuns. Quando morávamos em Shukugawa, um dia fomos à praia para nos livrar de um gato. Não um gatinho, mas uma gata mais velha. Por que precisávamos nos livrar disso, não me lembro. (…) Em casa, descemos da bicicleta – discutindo como sentimos pena do gato, mas o que poderíamos fazer? – e quando abrimos a porta da frente o gato que acabamos de abandonar estava lá, nos cumprimentando com um miado amigável.”

CDs de Vitor Ramil — Campos Neutrais / Avenida Angélica / Ramilonga – A Estética do Frio / Foi no mês que vem (coletânea)

Com preços variando entre R$ 39,90 a R$ 59,90, recebemos boa parte da obra de Vitor. Ele precisa de apresentação? Compositor, letrista, cantor e escritor brasileiro, nascido em Pelotas, Ramil é autor de doze álbuns, um melhor do que o outro. “Avenida Angélica” é seu último trabalho, onde ele coloca música em poemas de Angélica Freitas. “Foi no mês que vem” é uma coletânea de trabalhos anteriores regravadas por convidados especiais como Fito Páez, Jorge Drexler, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Pedro Aznar, os manos Kleiton e Kledir, a cantora Kátia B, o percussionista Marcos Suzano, o violonista argentino Carlos Moscardini e, entre outros, as revelações da nova geração porto-alegrense Bella Stone e seu filho Ian Ramil. Smos apaixonados por “A Estética do Frio”. Nossa que CD bom!!! Explora nossas rapizes de um modo muito especial. Para completar “Campos Neutrais” foi indicado ao Grammy Latino na categoria de “Melhor Álbum de Música Popular Brasileira”. É mole?

Os Abismos, de Pilar Quintana (Intrínseca, 270 páginas, R$ 69,90)

A menina Claudia mora com os pais em Cáli, na Colômbia, em um apartamento tomado por plantas. O ambiente, exuberante e bem cuidado, é um contraste, uma oposição à mãe indiferente que está em conflito com os caminhos de sua própria vida. Como muitas famílias, a de Claudia passa por uma crise, e basta o casamento de seus pais estremecer para que ela comece a entender a fragilidade dos limites que mantêm seu cotidiano. A partir da expectativa e de seu olhar atento e ao mesmo tempo inocente de criança, é a menina que narra os acontecimentos que abriram as fendas por onde entraram seus piores medos, aqueles que são irreversíveis e podem levar à beira dos abismos.

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As apostas — literalmente — para o Nobel de Literatura de 2021

As apostas — literalmente — para o Nobel de Literatura de 2021

Atenção, apostadores! O Prêmio Nobel de Literatura de 2021 será anunciado nesta quinta-feira, 7 de outubro, e as casas de apostas estão abertas.

Para quem desejar fazer sua fezinha e quiser ter uma noção do que os outros estão fazendo, consultei a Ladbrokes londrina. No ano passado, a vencedora Louise Glück teve apenas 25/1 de probabilidade, e os vencedores de 2018/2019, que foram anunciados em conjunto em 2019, estavam apenas um pouco mais perto do topo: Olga Tokarczuk tinha 10/1 e Peter Handke 20/1. Neste momento, a coisa está assim:

Annie Ernaux – 8/1
Ngũgĩ wa Thiong’o – 8/1
Haruki Murakami – 10/1
Margaret Atwood – 10/1
Anne Carson – 12/1
Jamaica Kincaid – 12/1
Lyudmila Ulitskaya – 12/1
Maryse Condé – 12/1
Peter Nadas – 12/1
Jon Fosse – 14/1
Don DeLillo – 16/1
Dubravka Ugrešić – 16/1
Hélène Cixous – 16/1
Javier Marías – 16/1
Mircea Cărtărescu – 16/1
Nuruddin Farah – 16/1
Can Xue – 20/1
Mia Couto – 20/1
Michel Houellebecq – 20/1
Yan Lianke – 20/1
Charles Simic – 25/1
Edna O’Brien – 25/1
Gerald Murnane – 25/1
Homero Aridjis – 25/1
Ivan Vladislavić – 25/1
Karl Ove Knausgaard – 25/1
Scholastique Mukasonga – 25/1
Xi Xi – 25/1
Botho Strauss – 33/1
Cormac McCarthy – 33/1
Hilary Mantel – 33/1
Ko Un – 33/1
Linton Kwesi Johnson – 33/1
Marilynne Robinson – 33/1
Yu Hua – 33/1
Zoë Wicomb – 33/1
Martin Amis – 50/1
Milan Kundera – 50/1
Salman Rushdie – 50/1
Stephen King – 50/1
William T. Vollmann – 50/1

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