As mais absurdas premiações do Nobel de Literatura

As mais absurdas premiações do Nobel de Literatura

Sou muito agradecido ao Nobel de Literatura, ao Jabuti e ao Booker Prize. Conheci vários grandes autores através destes prêmios, principalmente o Nobel, mas quando os caras erram, eles mergulham com vontade na lama. No próximo dia 8, quinta-feira, saberemos quem é o novo Nobel de Literatura. Agora, vou me divertir — talvez sozinho — dando uma passada pelas premiações mais absurdas do Nobel.

Peter Handke (2019)

Francamente, li três de seus livros… Eram de médios para fracos. Serviram para alguns bons filmes de Wim Wenders e só. Ele escreveu um romance que eu achei que era de brincadeira, mas não era: “O medo do goleiro diante do pênalti”. Ora, tudo o que o goleito não sente diante do pênalti é medo. Tomar o gol é normal, defender é virar herói e a vergonha fica para o batedor. O pênalti é a única execução onde o algoz pode virar vítima. Além do principal, que é ser um escritor apenas médio, é um fascista que apoiou o falecido líder sérvio Slobodan Milošević, condenado por crimes de guerra. OK, A Academia Sueca justificou que o prêmio era para a obra literária, não para as opiniões políticas do autor. Eles não encontraram em seus textos uma defesa explícita de genocídio. Eu também não. Só achei tudo bem rotineiro.

Bob Dylan (2016)

Piada. A vitória do cantor e compositor estadunidense é uma das grandes campeãs do absurdo. Premiar Dylan pareceu uma tentativa de “quebrar regras por quebrar”, sem aplicar o mesmo rigor literário usado com poetas mais… literários, digamos. Mario Vargas Llosa e Orhan Pamuk ficaram putos, dizendo que o prêmio deveria ir para um escritor. Subscrevo-os.

Patrick Modiano (2014)

Mais uma brincadeira da Academia Sueca. O equivalente francês de Le Clézio, do qual logo falarei: um escritor respeitado na França. Comecei a ler dois de seus livros, mas não suportei. E é raro eu abandonar um romance.

J. M. G. Le Clézio (2008)

Outro caso de “não é ruim, mas… fala sério!”.

Dario Fo (1997)

Ninguém entendeu. Virou piada até na Itália, seu país natal, que devia se orgulhar dele.

Eyvind Johnson e Harry Martinson (1974)

Esta premiação é frequentemente lembrada por um detalhe constrangedor: ambos os vencedores eram membros da Academia Sueca. Detalhe: eles concorriam com nomes como Graham Greene, Saul Bellow e Vladimir Nabokov. Eu me dou o Nobel, pronto!

Winston Churchill (1953)

Junto com Bob Dylan, talvez seja o caso mais “o que diabos está acontecendo?”. Churchill recebeu o Nobel de Literatura, não o da Paz, “por seu domínio da descrição histórica e biográfica, bem como pela brilhante oratória na defesa dos valores humanos elevados”. Ele realmente escrevia muito bem — mas a escolha parece uma mistura de literatura, prestígio político e circunstância histórica.

Pearl S. Buck (1938)

Pearl Buck vence fácil o campeonato de pior escritor(a) a receber o prêmio. Une-se constrangidamente a Prudhomme e Dylan como as piores escolhas. A Academia premiou-a “por suas descrições ricas e verdadeiramente épicas da vida camponesa na China”. Hoje, ela é muito menos prestigiada no cânone literário do que vários autores que ficaram de fora. E o fato de ter vencido enquanto Virginia Woolf e James Joyce estavam vivos…

Erik Axel Karlfeldt (1931)

Um dos casos mais estranhos. Nenhum presunto recebe o prêmio, mas este recebeu já morto.Era poeta sueco e, pior, era membro da própria Academia Sueca. Recusou o prêmio em vida em 1919, mas recebeu-o postumamente em 1931. Está morto também do ponto de vista literário.

Grazia Deledda (1926)

Muito difícil de justificar diante dos gigantes disponíveis. A Academia premiou sua obra de inspiração regional e pastoral, enquanto Joyce, Woolf e outros continuavam de fora.

Frédéric Mistral e José Echegaray (1904)

Um empate entre dois escritores que nem se conheciam. O prêmio de 1904 foi dividido entre o poeta francês Frédéric Mistral e o dramaturgo espanhol José Echegaray. A divisão foi tão estranha que gerou protestos: ninguém entendia por que Mistral, um poeta de língua provençal, não poderia ter ganhado sozinho. Ou Echegaray, né?

Bjørnstjerne Bjørnson (1903)

Em 1903, o prêmio foi para o norueguês Bjørnstjerne Bjørnson. O problema? Ele concorria com Henrik Ibsen, seu compatriota e considerado o “pai do teatro moderno”. Ninguém monta Bjørnson fora da Noruega.

Sully Prudhomme (1901)

A primeira premiação foi linda. O prêmio foi para o poeta francês Sully Prudhomme, um autor que hoje está bem morto. Enquanto isso, Tolstói estava vivo e já era bem conhecido. 42 escritores e artistas suecos assinaram uma carta de protesto, manifestando sua admiração por Tolstói e sugerindo que ele deveria ter sido o escolhido.

.oOo.

Os Nobéis que deveriam ter sido:

1901 — Tolstói, em vez de Sully Prudhomme
Começar o Nobel sem Tolstói é uma pilhéria de mau gosto.

1908 — Henry James, em vez de Rudolf Eucken
A própria Academia confessou o crime depois.

1910 — Thomas Hardy, em vez de Paul Heyse

1926 — Franz Kafka, em vez de Grazia Deledda
Aqui começa a ficar doloroso. Kafka tinha morrido apenas dois anos antes, mas em 1931 o Nobel foi concedido a um mortinho.

1932 — James Joyce, em vez de John Galsworthy

1938 — Virginia Woolf, em vez de Pearl S. Buck
Aqui está ela, Pearl Buck.

1953 — Graham Greene, em vez de Winston Churchill

1964 — Carlos Drummond de Andrade ou Guimarães Rosa, em vez de Jean-Paul Sartre, por que não?

1974 — Vladimir Nabokov, em vez de Eyvind Johnson e Harry Martinson

1984 — Jorge Luis Borges, em vez de Jaroslav Seifert
Agora já estamos diante de uma espécie de emergência literária. Borges tinha 85 anos. A Academia ainda tinha tempo.

1997 — Thomas Pynchon, em vez de Dario Fo

2008 — Philip Roth, em vez de J. M. G. Le Clézio

2009 — Amos Oz, em vez de Herta Müller

2014 — Milan Kundera, em vez de Patrick Modiano

2016 — Don DeLillo em vez de Bob Dylan

2019 — Margaret Atwood, em vez de Peter Handke

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As apostas — literalmente — para o Nobel de Literatura de 2021

As apostas — literalmente — para o Nobel de Literatura de 2021

Atenção, apostadores! O Prêmio Nobel de Literatura de 2021 será anunciado nesta quinta-feira, 7 de outubro, e as casas de apostas estão abertas.

Para quem desejar fazer sua fezinha e quiser ter uma noção do que os outros estão fazendo, consultei a Ladbrokes londrina. No ano passado, a vencedora Louise Glück teve apenas 25/1 de probabilidade, e os vencedores de 2018/2019, que foram anunciados em conjunto em 2019, estavam apenas um pouco mais perto do topo: Olga Tokarczuk tinha 10/1 e Peter Handke 20/1. Neste momento, a coisa está assim:

Annie Ernaux – 8/1
Ngũgĩ wa Thiong’o – 8/1
Haruki Murakami – 10/1
Margaret Atwood – 10/1
Anne Carson – 12/1
Jamaica Kincaid – 12/1
Lyudmila Ulitskaya – 12/1
Maryse Condé – 12/1
Peter Nadas – 12/1
Jon Fosse – 14/1
Don DeLillo – 16/1
Dubravka Ugrešić – 16/1
Hélène Cixous – 16/1
Javier Marías – 16/1
Mircea Cărtărescu – 16/1
Nuruddin Farah – 16/1
Can Xue – 20/1
Mia Couto – 20/1
Michel Houellebecq – 20/1
Yan Lianke – 20/1
Charles Simic – 25/1
Edna O’Brien – 25/1
Gerald Murnane – 25/1
Homero Aridjis – 25/1
Ivan Vladislavić – 25/1
Karl Ove Knausgaard – 25/1
Scholastique Mukasonga – 25/1
Xi Xi – 25/1
Botho Strauss – 33/1
Cormac McCarthy – 33/1
Hilary Mantel – 33/1
Ko Un – 33/1
Linton Kwesi Johnson – 33/1
Marilynne Robinson – 33/1
Yu Hua – 33/1
Zoë Wicomb – 33/1
Martin Amis – 50/1
Milan Kundera – 50/1
Salman Rushdie – 50/1
Stephen King – 50/1
William T. Vollmann – 50/1

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O Conto da Aia, de Margaret Atwood

O Conto da Aia, de Margaret Atwood

O Conto da Aia, de Margaret AtwoodNa área das distopias, creio que este foi o melhor romance que li. Não é pouca coisa. Para não irritar os admiradores de clássicos como 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Nós e outros, não pretendo entrar em comparações, apenas elogiarei o livro de Atwood.

É curioso. Assisti Margaret Atwood palestrar em uma Flip lá por 2004 ou 2005. Achei-a muito fraca e desisti de lê-la. A única coisa que lembro de sua palestra foi o fato de ela ter reclamado de seu agente literário, que lhe obrigava a uma rotina de festivais que nem sempre eram em locais com a paisagem e o ambiente de Paraty. Ela apontou o dedo para o sujeito e disse que pretendia se rebelar. Ela falava muito sério, pouca gente riu da irritada intervenção.

Rebelar-se é praticamente impossível na república teocrática e totalitária de Gilead. O livro é de 1985, mas recentemente voltou à moda, impulsionado pela eleição de Donald Trump e pela, dizem, excelente série televisiva homônima, The Handmaid’s Tale. E, como é um livro que trata basicamente de mulheres que são divididas em categorias, Atwood têm sido muito entrevistada e… Bem, tem decepcionado algumas de suas mais ardentes admiradoras que hoje participam do #MeToo não por defender abusos, mas a presunção da inocência dos acusados. É uma democrata clássica, alguém de moralidade e ética à antiga.

Mas vamos lá, sempre sem spoilers. Nas primeiras 150 páginas, o leitor não entende plenamente o funcionamento de Gilead. Atwood mostra-se uma mestra em jogar informações que vão nos deixando curiosos. Nem se importa de criar um conflito. Até que faz um balanço na página 173. Sim, um balanço.

As mulheres de Gilead são divididas em categorias, cada qual com uma função de Estado muito específica. Offred é uma Aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar depois que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas. As Aias são as mulheres não estéreis, que ainda podem engravidar. São úteros de duas pernas, receptáculos sagrados.

Elas são entregues a um Comandante que é casado com uma Esposa (outra categoria). Tais casais fazem parte de um escalão superior de governo. As Aias são obrigadas a fazerem sexo periodicamente com os Comandantes, sob o olhar de suas Esposas, até engravidarem. Depois de darem à luz, elas amamentam a criança por alguns meses. Ela e a criança são propriedade do casal. Elas têm nomes como Offred, que significa “of Fred” (“de Fred”) ou “pertencente ao homem chamado Fred”. Assim, ao longo da vida, uma aia pode ter vários donos e, portanto, vários nomes: Ofglen, Ofcharles, Ofwarren…

Após a bela introdução, a história toma direção e força assustadoras, mesmo que Atwood recorra a flashbacks. O livro é triste e atualíssimo, obrigando-nos a pensamentos pouco ortodoxos sobre liberdade, direitos, sanidade, poder, abuso e fragilidade.

Lê-lo é para quem tem estômago forte. O livro é violento, desconfortável, perturba mesmo. Publicado em 1985, o romance tem um pé na Revolução Islâmica de 1979, que transformou o Irã em uma república islâmica teocrática, e outro pé na Argentina, no roubo de bebês de presos políticos por parte de militares. Sem ser panfletário nem de leitura leve, O Conto da Aia é uma distopia que, anos depois de seu lançamento, voltou a ser lida e, certa ou erradamente, assimilada por uma nova geração de leitores.

Recomendo fortemente.

Atrás dessa carinha de santa tem um cérebro que vou lhes contar...
Atrás dessa carinha de santa tem um cérebro que vou lhes contar…

Livro comprado na Bamboletras.

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Flagrantes Flip 2004 III – Palestras, mesas

Antes de fazer algumas anotações sobre as palestras que assisti, faço registro de um telefonema recebido sexta-feira à tarde, 5 dias após o término da FLIP. Do outro lado estava Augusto Sales. Ele foi o organizador, junto com Mariana Ruiz, da Oficina Literária Veredas de Literatura, ministrada por Milton Hatoum. Para meu espanto, Sales começou a falar sobre a FLIP da mesma forma como eu começaria. Disse-me que ainda estava sem chão, que ainda não tinha conseguido voltar inteiramente ao Rio de Janeiro para trabalhar e seguir a vida. É a mesma impressão que tenho. Ao chegar em Porto Alegre, não fui trabalhar segunda-feira passada (ele chegou a seu escritório às 16h) e tudo o que fiz depois foi toldado pela certeza de que era meio sem graça. O que tinha graça havia ficara em Parati.

Gostaria de ter assistido mais palestras na FLIP. Infelizmente, a venda de ingressos foi uma confusão. Havia pouca coisa disponível para compra antecipada na Internet, mas muitos convidados do Unibanco não se interessavam por nada daquilo e quase sempre conseguíamos entrar comprando ingressos na última hora.

Não vou fazer uma avaliação das diversas mesas, apenas anotarei algumas afirmativas que tiveram valor pessoal, que disseram algo a mim. Tais anotações têm valor somente dentro deste âmbito, o pessoal. A maior decepção da FLIP foi a palestra de Margaret Atwood. Com voz monocórdica, de matemática uniformidade, ela conseguiu pôr toda aquela excitação para dormir. Para piorar as coisas, insistia em contar piadas de escritores. As piadas até que eram boas, mas trata-se de péssima piadista. Uma piada é formada por piada + piadista. Quando falta um dos dois… Fiquei de tal forma mal-humorado que, lá pela metade, demiti-me da palestra e fiquei pensando na vida. Havia muito em que pensar, havia a excelente Oficina com Milton Hatoum e, naquele mesmo dia tínhamos assistido à melhor das mesas… mas poucos estiveram lá. Falo sobre Luiz Vilela e Sérgio Sant`Anna. Nenhum deles tem vocação para showman, apenas têm muito a dizer e o fazem com graça. A partir de agora, vou citar desorganizadamente algumas declarações de memória. Espero não alterá-las muito.

Milton Hatoum (citando Borges): A pintura está no espaço; a literatura, no tempo.

Vilela: Todos nós que escrevemos hoje, um dia fomos leitores; isto é, fomos influenciados por um ou outro ou muitos escritores. Mas há uma coisa fundamental: a influência não cria nada – nem que o cara copie! -, apenas desperta coisas dentro de nós.

Vilela: Há regras para escrever um conto? Parece que Henry James deixou um monte de regrinhas prontas. Respeito James, porém mando suas regras à puta que o pariu. Preciso de liberdade.

Sant`Anna: Olha, gosto muito do Machado de Assis, mas de vez em quando ele é um saco! Leio Machado e penso “lá vem ele com aquela ironia” e ele vem mesmo. É um mestre, mas às vezes é um saco.

Mediador da mesa do Vilela e do Sant`Anna (um cara ótimo, esqueci seu nome): Atenção, jornalistas. A manchete da FLIP de amanhã é SÉRGIO SANT`ANNA DIZ QUE MACHADO É UM SACO. Risadas.

Hatoum: Um romancista precisa de concentração e muita dedicação para escrever. No Brasil é complicado, todo mundo tem que ralar muito para ganhar a vida. O melhor para um romancista é receber uma bolsa na Suíça. Funciona assim: você vai para a Suíça, comete um grave delito e vai preso. Então recebe de graça uma prisão com todo o conforto e escreve seu romance. O que acham?

Sant`Anna: Acho incrível quando a Bravo declara mortas as vanguardas. Será que isto dá Ibope? Guimarães Rosa, homenageado desta FLIP, tão imitado e lido, era retaguarda?

Miguel de Sousa Tavares: Começou sua exposição declamando uma poesia de sua mãe, a imensa Sophia de Mello Breyner Andresen, morta havia 8 dias, e deixou todos encantado com sua argumentação defendendo o romance histórico e contando casos e piadas. Foi o campeão individual da FLIP. Quando fui pegar-lhe um autógrafo, chamei-o de MST. Ele riu e disse que tinha um xerox ampliado de uma capa da Folha de São Paulo que dizia, em letras garrafais: “MST invade Brasília”.

Chico Buarque: Os escritores gostam de dizer que não lêem seus contemporâneos e que seus preferidos são Flaubert, Dostoiévski e Kafka. Todos dizem isto, só muda a ordem dos nomes.

Atwood: É desumano ter de divulgar seu próprio livro quando de um lançamento mundial. A gente pára de escrever. Você não deveria fazer isto comigo, Liz Calder. A editora Liz estava ali ao lado, como mediadora.

Vilela: Recebo um monte de livros de novos escritores. Na maioria das vezes, só leio o primeiro parágrafo. Por exemplo, se o cara começa assim: “O astro-rei escondeu-se por detrás da montanha…”, faço o seguinte: confiro se não é uma paródia e, se não é, desisto na hora. Quase todos os livros não me dão nenhum trabalho.

Vilela: Os leitores acham que, para a gente escrever, basta sentar e a coisa vai saindo. Nada disto, isto só nos acontece no banheiro.

Sant`Anna: O Vilela lê seus textos sentado, deitado e em pé. Diz ele que a perspectiva da leitura depende muito da postura adotada… Vilela confirmou tudo depois.

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