Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXII – Os Buddenbrook, de Thomas Mann

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXXII – Os Buddenbrook, de Thomas Mann
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Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de Os Buddenbrook — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje. O romance, que narra o auge e a queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um belo retrato — afiado, crítico e interessante — da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem e a tradição sucumbe à modernidade. Mann teceu sua narrativa com documentos reais da sua própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 26 anos em 1901, ano de do lançamento do livro, e talvez este seja o melhor romance longo que qualquer autor tenha escrito nesta idade.

Thomas Mann (1875-1955) veio da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, fechou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.

O que o funcionário do correio jamais imaginaria é que aquele romance de formação – escrito entre 1897 e 1900 – se tornaria um dos marcos definitivos da literatura europeia. A história do auge e da queda de uma família de comerciantes de Lübeck, ao longo de quatro gerações (1835-1877), é muito mais que uma simples crônica de costumes: é curiosa uma dissecação da alma burguesa. Digo isto, porque é um livro paradoxal — sofrido, monumental e leve de ser lido. Publicado em 1901, já tinha a marca de uma maturidade estética impressionante para um autor tão jovem.

Tratava-se de traçar a decadência de uma família de burgueses de Lübeck ao longo de quatro gerações, mas não apenas como uma sequência de fatos documentais, e sim como uma parábola complexa sobre a tensão entre valores éticos, pressões sociais, responsabilidades econômicas e pulsões íntimas. A ambição de respeito, conforto e continuidade social, que inicialmente impulsiona os Buddenbrook ao sucesso, converte-se, aos poucos, em peso incômodo: a busca por estabilidade econômica e reputação civil começa a dar errado, abrindo fissuras que o leitor acompanha com uma mistura de fascínio e desconforto.

O romance abre com uma cena emblemática: a família reunida para um almoço dominical na nova casa da Mengstrasse, em Lübeck. Todos os burgueses da cidade, empresários, advogados e representantes da igreja, comparecem. O velho Johann Buddenbrook, ainda vigoroso e pragmático, representa o espírito fundador – aquele que construiu a fortuna com trabalho árduo e confiança inabalável nos valores mercantis. Seu filho, o cônsul Jean Buddenbrook, já traz os primeiros sinais de fragilidade: é muito religioso, sentimental, um tanto inepto para os negócios, preocupado em preservar a respeitabilidade social.

Com a terceira geração, encarnada por Thomas Buddenbrook, a decadência torna-se palpável. Thomas é um homem dividido: dedica-se com esforço sobre-humano a manter a aparência de solidez da firma, mas sente-se consumido pela representação social que precisa sustentar. O narrador descreve com precisão cirúrgica como o cuidado obsessivo com a imagem exterior – o bigode sempre frisado, as casacas impecáveis, a postura irrepreensível – que esconde um esgotamento interior que prenuncia a ruína. A ironia trágica atinge seu clímax quando Thomas morre de forma quase grotesca: após uma extração dentária mal feita, cai na rua, coberto de lama e sangue, ele que jamais permitira uma mancha em suas roupas.

Se Thomas Buddenbrook é o herói trágico da decadência, seu filho Hanno é o germe da dissolução definitiva. Desde a infância, Hanno mostra aversão aos negócios e inclinação para a música, herdada da mãe, Gerda, uma talentosa violinista, mas fria e distante. Hanno é descrito como frágil, doentio, alheio às exigências práticas da vida.

A crítica literária contemporânea vê em Hanno o primeiro de uma linhagem de “artistas desviados” na obra de Mann – personagens que, por sua sensibilidade exacerbada, sua introspecção e sua incapacidade de se adaptar ao mundo burguês, estão fadados à doença, à loucura ou à morte. Hanno não é apenas o último Buddenbrook; é o símbolo da vitória da arte sobre a vida prática – ainda que essa vitória signifique a extinção da família.

Nas palavras do próprio Thomas: “Sempre haverá homens que têm direito àquele interesse pelo próprio eu e a essa observação minuciosa dos seus sentimentos: poetas que sabem dar forma segura e bela à sua vida interior privilegiada, enriquecendo assim o mundo de outras pessoas. Mas nós nada mais somos do que simples comerciantes; as nossas auto-observações são desesperadamente insignificantes”. A ironia, claro, é que quem pronuncia estas palavras é um comerciante – e quem as escreve é o poeta que venceu.

Como já disse, um aspecto fascinante de Os Buddenbrook é sua dimensão autobiográfica, que Mann nunca escondeu. A cidade de Lübeck é claramente identificável; as personagens tinham correspondentes reais na família do autor – e alguns parentes, como um tio que se reconheceu no desajeitado Christian Buddenbrook, reagiram com indignação, acusando-o de “sujar o próprio ninho”.

Mas o elemento mais intrigante é a origem materna de Mann. Sua mãe, Julia da Silva-Bruhns, era brasileira, nascida em Angra dos Reis, filha de um comerciante alemão e uma brasileira. Julia era bela e musicalmente dotada – características que Mann transferiu para diversas personagens femininas, incluindo Gerda, a mãe de Hanno.

Estudos recentes mostram como Thomas Mann via sua própria “mestiçagem” – entre a seriedade paterna alemã e a sensibilidade artística materna “latina” – como a fonte de seu talento, mas também como uma marca de degenerescência aos olhos da sociedade alemã da época, obcecada por pureza racial. Os artistas em sua obra são quase sempre “mestiços” – e é justamente essa condição híbrida que os torna artistas, mas também os condena.

As figuras femininas em Os Buddenbrook merecem grande atenção. Em contraste com a idealização da mãe nos escritos autobiográficos de Mann, o romance apresenta uma galeria de mulheres problemáticas. A avó Antoinette ama o luxo; a mãe Elisabeth é piegas e facilmente enganada por pastores hipócritas; Clothilde, uma parente pobre, é descrita como eternamente magra apesar de devorar quantidades enormes de comida; Clara, a irmã doentiamente religiosa, morre jovem.

A mais complexa é Gerda, esposa de Thomas e mãe de Hanno. Retratada como bela, fria, distante, ela só se anima ao tocar violino – e sua intimidade musical com o tenente von Throta, visita habitual da casa, é descrita com sutileza que mal disfarça o adultério espiritual (e talvez físico). É dela que Hanno herda “o sangue ruim, venenoso” que o desvia dos negócios para a arte.

A exceção parcial é Tony Buddenbrook, irmã de Thomas, que alguns críticos (e eu também) consideram a personagem mais cativante do romance. Tony é repetidamente sacrificada em casamentos de conveniência que fracassam, mas mostra uma resiliência notável, sobrevivendo a todos os outros membros da família e mantendo, mesmo na adversidade, uma lealdade obstinada ao nome Buddenbrook. É ela quem, nas cenas finais, ainda tenta preservar a dignidade do clã extinto.

Um dos momentos mais extraordinários do romance ocorre quando Thomas Buddenbrook, já em decadência física e espiritual, descobre um exemplar de “O Mundo como Vontade e Representação”, de Schopenhauer. A leitura do capítulo “Da Morte e sua Relação com a Indestrutibilidade do nosso Ser-em-si” provoca nele uma experiência quase mística. Thomas experimenta uma breve iluminação, sente-se libertado do peso da individualidade – mas logo retorna à sua existência mundana de comerciante e político, incapaz de integrar essa visão à vida prática. A ironia é que ele morrerá pouco depois, de forma inglória, sem a transcendência que vislumbrara.

Os Buddenbrook é muitas vezes descrito como um romance naturalista, herdeiro da tradição realista do século XIX – e de fato Mann utiliza todos os recursos desse estilo: descrições minuciosas, atenção aos detalhes materiais, construção cuidadosa do ambiente social. Mas há algo mais. A prosa de Mann já ensaia aqui os mergulhos psicológicos que atingirão seu ápice em A Montanha Mágica. O narrador alterna habilmente entre o olhar externo – capaz de descrever com precisão quase fotográfica as roupas, os móveis, os gestos – e a sondagem dos abismos íntimos das personagens.

A estrutura, centrada na sucessão de pais e filhos, confere ao romance uma coerência quase musical: cada geração repete, em tom menor, os temas da anterior, até que a melodia se extingue. Reduzir Os Buddenbrook a uma simples “saga de família” seria ignorar sua verdadeira grandeza. O que Mann nos oferece é uma meditação sobre a incompatibilidade entre vida prática e vida espiritual, entre o mundo dos negócios e o mundo da arte, entre a afirmação da vontade e a aceitação da morte.

A família Buddenbrook decai não porque seus membros sejam incompetentes nos negócios, mas porque a própria forma de vida burguesa, baseada na acumulação, na aparência e na perpetuação do nome, traz em si o germe de sua dissolução. O triunfo final da arte é também a confirmação da derrota: a arte floresce apenas onde a vida já não pode prosperar.

A decadência dos Buddenbrook é inevitável? Poderia ter sido evitada se as escolhas fossem outras? Hanno é vítima das circunstâncias ou herói trágico? O que Mann quer dizer ao fazer Thomas Buddenbrook ter uma experiência mística com Schopenhauer pouco antes de morrer de forma tão prosaica? Tony Buddenbrook é uma tola manipulada ou uma heroína resiliente? Até que ponto a figura de Gerda – a mãe musical e distante – reflete a visão ambivalente de Mann sobre sua própria mãe brasileira?

Bem, fui longe. Finalizando, Os Buddenbrook não é apenas o primeiro romance de Thomas Mann; é a pedra fundamental sobre a qual ele edificaria toda a sua obra. Nele já estão presentes todos os grandes temas que o acompanhariam pela vida: a relação conflituosa entre arte e burguesia, a doença como expressão da sensibilidade, a música, a sexualidade fluida que o próprio Thomas tinha, a morte como libertação, a ambiguidade da herança familiar.

Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…

Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro

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Vai escrever bem assim no raio que o parta!

Vai escrever bem assim no raio que o parta!

“Mas o pequeno Johann via mais do que devia ver; os seus olhos, esses olhos tímidos, castanhos e orlados de sombras azuladas, observavam demasiado bem. Não somente via a amabilidade certeira que o pai irradiava para todos, via também — via-o com perspicácia estranha e atormentadora — o quanto era difícil fazê-la; via como o pai, após cada visita, se tornava mais taciturno e pálido, como, de olhos cerrados e pálpebras avermelhadas, se recostava contra o canto da carruagem; com o coração horrorizado notava como, no limiar da casa seguinte, deslizava uma máscara por sobre esse mesmo rosto, e como, sempre de novo, uma elasticidade repentina se apoderava desse corpo fatigado… Ao ver tudo isso: mímica, fala, porte, atividade e comércio com outras pessoas, o pequeno Johann não tinha a impressão de que se tratava da realização ingênua, natural e semiconsciente de interesses práticos que o pai tivesse em comum com os demais e quisesse defender contra eles, mas sim um fim em si mesmo; parecia-lhe um esforço voluntário e artificial, onde, em vez do sentimento sincero e simples, tinha de trabalhar uma virtuosidade extremamente difícil e cansativa, para garantir a atitude impecável. Diante da ideia de que esperavam dele próprio que, também, um dia, se exibisse em reuniões públicas e agisse, falando e gesticulando, sob a pressão de todos esses olhares, Johann fechava os olhos, num arrepio de relutância medrosa…”

Thomas Mann, Os Buddenbrook, Décima parte, Capítulo 3, Pág. 551 — Tradução de Herbert Caro

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Thomas Mann: 20 mil euros de seguro

Thomas Mann: 20 mil euros de seguro

Em 1900, Thomas Mann enviou pelo correio a única cópia manuscrita de “Os Buddenbrook” — pagando um seguro de mil marcos, valor que fez o funcionário rir. Segundo o ChatGPT, seria algo como 20 mil euros hoje.

O romance, que narra a ascensão e queda de uma dinastia de comerciantes, revela mais do que a decadência de uma família: é um retrato afiado da burguesia alemã, onde laços de sangue e negócios se confundem, e a tradição sucumbe à modernidade.

Mann teceu sua narrativa com documentos reais da própria família, provocando escândalo em Lübeck. Tios e tias reconheceram-se nos personagens, acusando-o de expor seus segredos. O escritor, porém, defendia que a arte não inventa. O autor tinha 25 anos em 1900 e este livro talvez seja o melhor que um autor tenha escrito nesta idade.

Thomas Mann (1875-1955) ergueu-se da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, condenado pelo câncer, liquidou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro.

Foto: Thomas Mann em 1906.

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Uma abordagem pessoal no dia dos 140 anos de Thomas Mann

Uma abordagem pessoal no dia dos 140 anos de Thomas Mann

Thomas Mann

Sei lá se Thomas Mann está fora de moda — acho que está –, o fato é que ele foi um dos principais formadores deste que vos escreve. Casualmente, fui amigo do maior tradutor de Mann no Brasil, o Dr. Herbert Caro. Eu era um rapaz de uns 20 anos e o Dr. Caro, como o chamávamos, era 51 anos mais velho. Nossa principal ocupação aos sábados pela manhã, na King`s Discos, era a de discutir música, outras das especialidades dos dois mestres, Mann e Caro. Mas mesmo quando o assunto era este, Mann podia aparecer e não só através de seu romance Doutor Fausto, mas de seus comentários e opiniões a respeito.

Como quase todo mundo, conheci Mann através de Os Buddenbrook (tradução de Herbert Caro), o longo romance que publicou aos 26 anos. Depois fui para os pequenos Tônio Kroeger e A Morte em Veneza, empurrado pelo filme de Visconti. Quando conheci Caro pessoalmente, recém tinha lido uma tradução sua, a do maravilhoso A Montanha Mágica. De forma muito insistente, este livro, lido há aproximadamente 37 anos e nunca mais revisitado, permanece em minha memória e faz parte de minha vida interior. Às vezes brinco dizendo que a música é Politicamente Suspeita. Afinal, o personagem Settembrini diz, um tanto absurdamente:

A arte é moral na medida em que desperta. Mas que sucede quando ela faz o contrário? Quando entorpece, adormenta, estorva a atividade e o progresso? Também disso a música é capaz; sabe perfeitamente agir como ópio. Uma influência diabólica, meus senhores! O ópio é uma obra do Diabo, porque causa apatia, estagnação, passividade, inatividade servil… Há na música um elemento perigoso, senhores. Insisto no fato da sua natureza ambígua. Não exagero ao declarar que ela é politicamente suspeita.

E, quando estou irritado, consigo enxergar bem na minha frente o titulo do capítulo A Grande Irritação. Também lembro frequentemente do fascínio de Hans Castorp (minha senha neste computador!), “o filho enfermiço da vida”, pela bela e estranha Clawdia Chauchat e de como tal fascínio serviu para que Hans repensasse os argumentos de Settembrini e formulasse seus próprios pontos de vista. Lembro do capítulo onde o casal travava uma conversação em francês… Lembro também das digressões sobre a passagem do tempo no Sanatório Berghof.

Mas o livro de Mann que mais amo é outra tradução de Caro: Doutor Fausto. O romance tem o formato e as qualidades dos romances do século XIX, mas é o conteúdo é moderno. Começa como uma serena farsa, mas acaba sendo uma amostra do que se veria num inimigo intransitivo de Thomas Mann: Thomas Bernhard.

Leio Doutor Fausto como quem lê uma novela curta. Não noto nada ali que não contribua para compor a narrativa, nada me parece estéril, da primeira a última linha. O nazismo é apenas um viés da narrativa. Seu assunto principal, e Caro falava nisso, é a imortalidade e aquilo que Mann chamava de “a crise da arte ocidental”, tanto que quem irritou-se com o livro foi a Segunda Escola de Viena, na pessoa de Arnold Schoenberg. (Lembrem-se da nota que Thomas Mann teve que acrescentar ao final do livro, atribuindo as teorias dodecafônicas ao Harmonielehre de Schoenberg, e dizendo que associou tais teorias apenas a seu diabólico personagem em contexto fictício, etc.?)

O romance é o canto de cisne de toda uma música e literatura que estava sendo abandonada. Um grande tema, ainda atual.

Meu respeito e, quem sabe, compreensão do livro de Thomas Mann faz com que eu releia sempre e saiba quase de cor toda a explicação do professor Kretzschmar para a Sonata Op. 111 de Beethoven, o capítulo VIII do livro. Muito mais conhecido é o diálogo com o Demônio (Cap. XXV), onde Adrian Leverkühn faz “alguns pequenos acertos” com o homem. São páginas arrepiantes e é curioso que, a partir da leitura do livro – lido quando tinha… de que ano é a tradução de Caro? … 1984? Então tinha 27 anos — passei a relacionar o diabo como algo que exala frio e não calor. Ah, as “impressões equivocadas” dos católicos… Não, nada de fogo, nada de diabinho infantil, estamos falando de um diabo real, meus amigos!

Doutor Fausto é uma história íntima, pessoal, ontológica. O texto fala muito ao sociológico, mas sempre de uma perspectiva íntima. Aquelas chatas argumentações que veem o livro como 100% político — seria uma metáfora do Nazismo e da Europa pré e pós-guerra — servem mais para A Montanha Mágica e o pré-guerra. Acho tão complicado reduzir o Fausto a tal modelo que bocejo só de pensar em reler o esforço de alguns comentaristas, que estreitaram um romance, cujo assunto principal é a mortalidade, a uma mera alegoria política.

A obra de Thomas Mann é imensa. Produzia 3 páginas por dia, todos os dias. Era uma máquina de reflexão e de escrever bem. Produziu romances, novelas, contos, escritos políticos e ensaios. Profundo analista psicológico e estilista consumado, Mann é um goethiano, herdeiro tardio da tradição idealista e romântica alemã e um dos principais autores modernos. Era um clássico em tempos revolucionários e conseguia refletir de forma original e particular o espírito de seu tempo. Sua obra apresenta planos sociais minuciosos, assim como um realismo psicológico preciso e de peculiar minúcia e particularidade. Expressou esteticamente do conflito entre a sociedade, o senso comum e o valor dado à vida — jamais esquecer do capítulo Neve, de A Montanha Mágica — contra o individualismo, o escapismo e o jogo artístico-estético.

Nascido em Lübeck no dia 6 de junho de 1875, Thomas Mann foi filho do comerciante Johann Heinrich Mann e da, curiosamente, da brasileira Júlia da Silva Bruhns, a quem destinou várias páginas descrevendo-lhe o carinho e os belos olhos escuros vindos dos trópicos. Ela escreveu que “A infância tropical na cidade colonial de Parati, cercada pela pujança da mata, as amas negras e as frutas tropicais, seria depois trocada pelas ruelas sombrias da antiga Lübeck, no norte da Alemanha.”

thomas mann sorrindo

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As contribuições de Carpeaux, Caro e Zweig, ilustres imigrantes que chegaram com a guerra

As contribuições de Carpeaux, Caro e Zweig, ilustres imigrantes que chegaram com a guerra
Carpeaux chegou em 1939 e foi trabalhar numa fazenda

Quem conheceu Otto Maria Carpeaux descrevia-o como uma espécie de monstro. O escritor José Roberto Teixeira Leite era seu amigo e desenhava assim a figura do austríaco: “Carpeaux foi um dos homens mais feios que conheci. Sua aparência neandertalesca, todo mandíbulas e sobrancelhas, fazia a delícia dos caricaturistas: parecia um troglodita, mas um troglodita que lia Homero e Virgílio no original, que se deliciava e ensinava sobre Bach e Beethoven, que diferenciava e palestrava sobre Rubens e Van Dyck”. Carpeaux também era gago. Carlos Drummond de Andrade, outro amigo, disse que, numa viagem de carro, ele foi citar Kierkegaard. “Começou a falar quando saímos de Juiz de Fora, Ki… Ki… Ki… e só completou o nome do autor dinamarquês em Barbacena, uns 80 quilômetros adiante’.

Antes de ser Otto Maria Carpeaux no Brasil, ele foi Otto Karpfen, um austríaco que estudou filosofia (doutorou-se em 1925), matemática (em Leipzig), sociologia (em Paris), literatura comparada (em Nápoles) e política (em Berlim); além de dedicar-se à música. Mesmo gago, ele falava e escrevia em inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, flamengo, catalão, galego, provençal, latim e servo-croata. Mas não sabia muito da língua portuguesa quando chegou ao Brasil no final de 1939, fugido da Alemanha nazista. Tinha pai judeu e mãe católica. Identificava-se como católico. Quando chegou, foi trabalhar no interior do Paraná, numa fazenda, no campo.

Stefan Zweig veio para uma série de palestras, voltou e morou com a esposa em Petrópolis.

O austríaco Stefan Zweig chegou aqui já famoso. Era um romancista muito popular. Judeu e austríaco, foi também poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo. Para as gerações mais antigas, Zweig era principalmente o autor de biografias. Escreveu várias: de Dostoiévski, Dickens, Balzac, Nietzsche, Tolstoi, Stendhal e uma famosíssima na primeira metade do século XX, de Maria Antonieta. Conseguiu o reconhecimento como romancista nas décadas de 20 e 30. Neste período, destacam-se os romances “Amok” (1922), “Angústia” (1925) e “Confusão de Sentimentos” (1927).

Em 1934 deixou o país e passou a viver na Inglaterra, entre Londres e Bath, onde se naturalizou cidadão britânico. Com o início da Segunda Guerra Mundial e o avanço das tropas de Hitler, o casal atravessou o Atlântico em 1940 e se estabeleceu nos Estados Unidos. Em 22 de agosto do mesmo ano, veio pela primeira vez ao nosso país. Ao todo, Zweig e sua esposa Lotte fizeram três viagens ao Brasil. Durante a primeira, entre 1940 e 1941 para uma série de palestras, escreveu:

“Você não pode imaginar o que significa ver este país que ainda não foi estragado por turistas e tão interessante. Hoje estive nas cabanas dos pobres que vivem aqui com praticamente nada (as bananas e mandiocas estão crescendo em volta), as crianças se desenvolvem como se estivessem no Paraíso — , a casa inteira, desde o chão, lhes custou seis dólares e, por isso, são proprietários para sempre. É uma boa lição ver como se pode viver simplesmente e, comparativamente, feliz — uma lição para todos nós que perdemos tudo e não somos felizes o bastante agora”.

É uma visão sociologicamente ingênua, mas demonstrava algum amor pelo país que adotaria.

Caro veio para o Brasil porque lhe disseram que era barato

O judeu Herbert Caro veio da Alemanha para Porto Alegre. Tinha em comum com Carpeaux a cultura literária enciclopédica e o profundo amor pela música. Na Alemanha, fora impedido de exercer a advocacia devido à promulgação das primeiras leis antissemitas pelo governo nazista. Primeiramente, refugiou-se na França, onde estudou Letras Clássicas na Universidade de Dijon. Para sustentar-se, dava aulas de latim e pingue-pongue – Caro havia integrado a seleção alemã de tênis de mesa durante seis anos e sido um dos dirigentes da federação de 1926 a 1933. Permaneceu um ano na França. Pressentindo a proximidade da guerra, buscou novo exílio. O Brasil surgiu como a melhor opção. Afinal, um amigo dissera que era um país barato de se viver. E Herbert Caro chegou a Porto Alegre em 7 de maio de 1935. Na mala, pouca coisa; no cérebro, um vocabulário de cerca de três mil palavras que aprendera em algumas aulas de português antes da viagem.

O vocabulário permitia que ele entendesse o Correio do Povo e pedisse informações na rua sem compreender perfeitamente a resposta. O ouvido ainda não estava acostumado. Seus conhecimentos de Direito eram inúteis e o doutorado em Filosofia também pouco valia na Porto Alegre da década de 30. O domínio de várias línguas proveu a subsistência nos primeiros anos e direcionou sua vida.

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