PGO I: Primeiro amor, de Ivan Turguêniev

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Em março deste ano, começamos a reunir grupos de leitura na Livraria Bamboletras, grupos da própria livraria. O primeiro livro que escolhi foi Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev. Eu tinha lido o livro há décadas numa edição portuguesa e gostara muito. Achei ainda melhor nesta releitura. Eu chamo estes grupos — os quais leem o mesmo livro a cada mês — de Pequenas Grandes Obras (PGO) ou Clube dos Clássicos Breves, mas os nomes não pegaram. A ideia é de ler livros grandes autores em pequenos formatos — não vamos solicitar a leitura de Moby Dick, mas por que não Bartleby? Ou A Morte de Ivan Ilitch em lugar de Guerra e Paz ou Anna Kariênina? Ou O Jogador em lugar de Crime e Castigo? Nada contra os livros longos — posso me considerar um dos Reis dos Calhamaços –, mas eu não gostaria que alguém me impusesse um livro enorme para ler em um mês. Todos nós temos nossas leituras e outras aspirações e não precisamos ser pautados de modo tão pesado, certo?  E também acho que a grandeza de um livro não se mede por sua espessura, mas pelo seu impacto e eco em nossa consciência, certo?

Porém… Como os 6 leitores deste blog sabem, tenho o vício de escrever resenhas. Parece que só finalizo a leitura de um livro após escrevê-la. Lá vai mais uma.

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Ao saber do argumento da novelinha Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev, logo as pessoas pensam em algo batido, já lido em livro ou visto no cinema. Novamente um adolescente apaixonado por uma jovem mulher? Acho até que o filme georgiano 27 Beijos Roubados é um pequeno roubo a Turguêniev. No filme, a menina promete cem beijos ao garoto apaixonado durante as férias, mas algo que descobrimos no final do filme fez com que ela ficasse devendo 27. Uma decepção. Apesar de breve, o livrinho de Turguêniev tem notável densidade emocional, psicológica e social — é um daqueles livros em que a aparente simplicidade esconde complexidades. Narrado como memória, o texto acompanha Vladímir, que revisita sua adolescência e o impacto devastador de sua paixão por Zinaída. Esse ponto de vista retrospectivo é decisivo: não se trata apenas de uma história de amor juvenil, mas de uma releitura madura de uma experiência formadora, em que o passado já está filtrado pelo tempo e pela perda. A narrativa, portanto, nasce da distância — e essa distância é o que lhe dá melancolia e lucidez.

O primeiro aspecto que impressiona é a forma como Turguêniev captura o caráter absoluto e açambarcante do primeiro amor. Não há medida, não há ironia interna no jovem Vladímir: ele ama com intensidade total, como se sua vida dependesse disso. Ele se derrama, se desmancha. Esse amor, no entanto, é recebido de forma hesitante e assimétrica. Zinaída, figura central e enigmática, exerce um fascínio quase cruel — cercada de um séquito de admiradores, ela alterna charme, manipulação e vulnerabilidade. A relação entre os dois nunca se equilibra: ele vive a experiência como revelação, enquanto ela joga um jogo. Essa diferença é fundamental para o efeito do livro.

O que Turguêniev constrói é, sobretudo, um curto romance de formação — uma passagem brutal da inocência à realidade. O momento decisivo da narrativa (sim, não convém revelar detalhes) desloca completamente o sentido do amor vivido por Vladímir e o insere numa dimensão mais complexa, onde entram poder, desejo e autoridade. A figura do pai, nesse sentido, é crucial: ela introduz uma camada trágica que transforma a história íntima em algo mais amplo, social, estrutural. O amor deixa de ser apenas sentimento e passa a ser também revelação do mundo adulto em sua ambiguidade moral.

A linguagem de Turguêniev acompanha essa transformação com precisão. Sua prosa é lírica, mas contida; sensível, mas nunca excessiva. Ele trabalha com olhares, gestos, silêncios e evita qualquer dramatização excessiva. Esse estilo cria uma tensão muito particular: os acontecimentos são intensos, mas narrados com uma serenidade que sugere compreensão tardia. A memória, aqui, não é apenas lembrança, mas forma de elaboração. É o passado sendo reorganizado pelas emoções do narrador.

Não obstante a voz do narrador, nota-se que não é somente ele que está sofrendo o primeiro amor. Se analisarmos a fundo, vamos encontrar mais dois primeiros amores acontecendo e em choque. (Isso explicaria a tradução do título do livro, que é Primeiro Amor e não O Primeiro Amor). Talvez o aspecto mais duradouro de Primeiro Amor seja justamente essa coexistência de intensidade e desilusão. O livro não idealiza o amor — pelo contrário, mostra-o como experiência e ferida. Amar, aqui, é aprender algo essencial e irreversível: que o outro não nos pertence, que o mundo não corresponde às nossas expectativas.

Ao final, o que permanece não é apenas a história de Vladímir, mas a sensação de que todo primeiro amor carrega em si algo de definitivo — não porque dure, mas porque marca. É uma experiência que inaugura não só o sentimento amoroso, mas também a consciência da perda. E talvez seja isso que faz deste livro uma obra tão persistente: ele não fala apenas do primeiro amor, mas da primeira vez em que compreendemos que crescer é, talvez, perder alguma coisa.

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