O Anão, de Pär Lagerkvist

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Já ouvi várias pessoas me dizendo que iam roubar minha edição de O Anão. O livro foi publicado pela Civilização Brasileira em 1970, época em que a editora era sinônimo de bom livro e de resistência à ditadura. Mas O Anão nunca foi republicado e virou raridade. Houve tempo em que o livro estava custando R$ 1000 na Estante Virtual. Hoje, sua cotação está bem mais baixa, o que não se reflete em sua qualidade. Li as 150 páginas de meu cobiçado volume em voz alta para minha mulher — um hábito nosso — e podem crer que o livro não perdeu nada após tantos anos.

Pär Lagerkvist é um dos tantos Nobéis de Literatura escandinavos. Todos são suspeitos, como o medíocre Jon Fosse. Só que eu garanto: li alguns de seus livros e o cara é muitíssimo bom, genial mesmo. O Anão é um romance curto, mas de uma força perturbadora que poucos livros alcançam. É escrito em primeira pessoa pelo próprio — um anão que vive numa corte renascentista italiana. Mais do que observar, ele encarna o ódio, o desprezo e uma visão radicalmente negativa da humanidade. A escolha desse narrador é decisiva: Lagerkvist não descreve o mal de fora, mas o faz falar. E essa voz é tanto mais inquietante quanto mais lúcida e coerente se apresenta.

Desde as primeiras páginas, percebe-se que o anão não é apenas um personagem, mas uma espécie de catalisador, afinal, ele provoca acontecimentos com suas ações. Ele não faz momices, é sério, pretende-se um conselheiro e aspira a ter a grandeza de seu príncipe. Além disso, despreza o amor, a arte, a religião e qualquer forma de compaixão, vendo nelas meras fraquezas. Sua existência parece ser definida pela negação do humano — e, paradoxalmente, é justamente isso que o torna profundamente humano. A vida na corte — com suas políticas, intrigas, traições e violências — parece ser seu habitat.

O anão se percebe como alguém à parte, quase de outra espécie, superior aos homens que despreza. No entanto, à medida que a narrativa avança, torna-se claro que ele é menos uma exceção monstruosa e mais uma caricatura de toda a situação da corte. Como diz o próprio, o que assusta nos homens não é o anão em si, mas “o anão que se esconde neles” — uma dimensão sombria que preferimos ignorar.

A ambientação renascentista funciona como cenário simbólico. Em meio à arte, à ciência e ao poder — elementos associados ao florescimento da época — Lagerkvist introduz uma presença que desmente qualquer idealização. O anão atravessa guerras, epidemias e conspirações, sempre revelando o quanto a civilização convive com a barbárie. Nesse sentido, o livro dialoga com o contexto em que foi escrito (em 1944), quando a Europa confrontava o horror — tema central na obra do autor.

A cidade-estado renascentista onde ocorre a ação não é clara, mas há um personagem chamado Bernardo, que é sem dúvida inspirado em Leonardo da Vinci, o que nos faz pensar no final do século XV. Também há referências a igrejas que se encontram na região de Florença. Ao mesmo tempo, o anão, narrador do romance, fala em criações como A Última Ceia, pintada em Milão… Além disso, o príncipe César Bórgia empregou Leonardo da Vinci como arquiteto militar… Desta forma, há muitas referências históricas dançando incontrolavelmente no contexto do romance.

Como disse, o anão é o narrador e tudo é contado alguns minutos ou horas após a ocorrência dos fatos e antes dos seguintes. Tal artifício faz com que todos os acontecimentos sejam quentes, contados de forma ofegante, e que O Anão planeje no papel seus próximos passos. Ou seja, a colocação do foco narrativo é muito inteligente, fazendo com que o leitor sinta a respiração do anão-monstro arquitetando suas vinganças, incorporando o mal e curtindo seu ódio de misantropo.

Ele obviamente ama a guerra, e quando lhe pedem para cometer um crime, ele o expande sob o pretexto de beneficiar o príncipe… Todos mudam durante o romance, todos mudam na cabeça do narrador, menos ele, que se mantém coerente da primeira à última página. Mesmo impressionado com a ciência de Bernardo, sente repulsa pela busca que este empreende para chegar à verdade e ao âmago das coisas.

A escrita é seca, direta, despojada — o que intensifica o impacto. Não há grandes explicações psicológicas nem tentativas de justificar o personagem. O mal não é analisado: é apresentado. E essa recusa de interpretação fácil é talvez o aspecto mais perturbador do romance. O leitor não encontra uma distância confortável. Ao contrário, é levado a reconhecer algo familiar. Afinal, convivemos com monstros como Netanyahu, certo?

Pär Lagerkvist (1891-1974)

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