Gosto demais dos artistas escandinavos. Bergman, Vinterberg, Strindberg, Ibsen, Sibelius, Berwald, Hamsun, Blixen, Knausgård — todos ótimos. Para completar, amo o frio, me sinto muito bem com ele. Meu termostato corporal parece ter sido regulado na Finlândia que não conheço. Então, vamos a mais um livro do sueco Largerkvist.
A Morte de Ahasverus (li na edição de 1964 ao lado, mas o livro foi relançado em 2023 e pode ser encontrado) é uma novelinha bem curta. Se passa na época das Cruzadas, com aquele monte de gente indo estupidamente à Terra Santa. Contrariamente a O Sétimo Selo, de Bergman, aqui as pessoas estão indo e não voltando da jornada. Assim como Bergman era um ateu nascido em uma família altamente religiosa, Lagerkvist descreve-se como “ateu religioso” ou um “crente sem fé”. Sim, só fazem ateus assim na Escadinávia. O livro move-se entre a parábola e a meditação metafísica. Inserido no ciclo de romances que orbitam o universo religioso (como Barrabás e Encontro com o Mar), o texto retoma a figura lendária do judeu errante, Ahasverus, condenado à imortalidade por ter rejeitado Cristo. Mas Lagerkvist não se interessa pela lenda em si: ele a transforma num instrumento para pensar o paradoxo fundamental da existência humana — querer viver sem fim e, ainda assim, desejar a morte.
A narrativa tem algo de arcaico. Começa numa estalagem medieval, onde diferentes personagens — peregrinos, marginalizados, figuras errantes — se cruzam. Nesse cenário quase teatral, Ahasverus surge menos como protagonista tradicional e mais como um coadjuvante que ouve histórias de desejos e destinos. Ao seu redor, personagens como Tobias e Diana (velhos amantes) parecem responder a um chamado silencioso. Não sabem porque estão indo para a Terra Santa, mas estão indo.
Ahasverus, condenado a vagar eternamente, encarna uma ideia: a de que viver sem fim não é uma bênção, mas uma condenação. A morte, em seu contexto, deixa de ser ameaça e passa a ser desejada — é quase como uma libertação. O título já anuncia o paradoxo: a morte daquele que não pode morrer. Lagerkvist mantém o estilo que o caracteriza: linguagem despojada, austera, mas carregada de simbolismo. Não há explicações psicológicas nem desenvolvimento tradicional de personagens. Em vez disso, o livro avança em encontros, monólogos, diálogos e situações que mostram muitas dúvidas sobre a jornada.
Essa economia intensifica o caráter filosófico da obra: cada cena funciona como uma variação sobre os mesmos temas — sofrimento, fé, destino — criando uma atmosfera quase religiosa. Todas as falas dos personagens que não acreditam em deus citam-no em minúsculas. Só Ahasverus usa Deus. Isto — o fato dos descrentes falarem deus — é explicado em nota. A crença aparece como um enigma. Como em outras obras de Lagerkvist, o leitor fica perplexo diante do mistério. E talvez seja essa a sua verdadeira força — a de transformar uma antiga lenda em uma meditação moderna sobre a condição humana, onde viver e morrer deixam de ser opostos claros e passam a habitar a mesma zona.

Fui ler o livro por indicação aqui do blog e achei muito bom. Filosófico, mas de praticidade para além da teoria. Comento aqui que procurei análise do livro no YouTube mas não encontrei nenhuma nos diversos canais de leitores vorazes que destilam lá suas impressões sobre tudo que é papel impresso. Fico com a impressão de que as três primeiras partes mostram mais Ahasverus que quer morrer e por isso vive, enquanto a última parte trata justamente do contrário quando ele vence Deus -> deus. A narrativa constrói um mundo angustiante de realidade brutal, tendo a parte do cadáver encontrado por Tobias me sensibilizado ao expor a morte como algo tão solitário. A morte do cão também é arrasadora, fazendo transparecer o caráter irremediável das nossas próprias ações. Não dá para voltar atrás na raiva que mata. Achei forte. Vim agradecer a indicação.
Muito obrigado pelo comentário.