Há os livros do detetive Maigret, mas convenhamos, Simenon ficou célebre sobretudo por seus romances curtos, intensos e econômicos, os chamados romans durs, em que a pesada densidade psicológica não depende da extensão. Por isso, quando ele escreve um romance mais longo — como O Testamento Maldito (ou a tradução literal, O Testamento Donadieu) — isso não é um acidente de percurso, mas uma escolha. Este livro tem 392 páginas, muitos personagens e traz estruturas mais amplas do que as dos dramas individuais. Aqui nós temos um painel de uma família decadente da pequena cidade portuária de La Rochelle, no oeste da França, de frente para o Atlântico Norte. Logo no primeiro capítulo, morre o patriarca dos Donadieu, que viviam — mulher, quatro filhos casados, netos e empregados — numa respeitável mansão na mui digna Rue Réaumur.
Depois de conhecido mundialmente, Simenon sempre foi cobrado para escrever uma grande romance… Como se já não os tivesse. Sua resposta era inteligente: “Meu grande romance é o mosaico formado por meus pequenos livros”. Porém, O Testamento Maldito parece mirar um patamar que raramente aparece em sua obra. Ele não chega a buscar o épico, mas cria um painel e assume uma ambição muito comum na literatura dos séculos XIX e XX: a exploração do peso da herança, da ordem familiar como destino, dos mecanismos silenciosos do poder burguês. Nesse sentido, dialoga com tradições comuns, mas filtradas por sua típica dureza e secura. É a história de uma decadência mais moral do que financeira.
Ele não acompanha apenas uma crise íntima, mas várias — descreve um organismo social inteiro que está em crise: a família, a empresa, o nome Donadieu como instituição. Ele são armadores, isto é, donos de embarcações mercantis que realizam transporte de cargas, dessas que Trump gosta de roubar. Ou seja, equipam, mantêm e exploram comercialmente navios, visando lucro. O romance narra o modo lento e natural com que a família produz o próprio sufocamento. O testamento que desencadeia o enredo não cria o conflito — ele apenas expõe o que já existia: ressentimentos e pactos que se sustentam pela conveniência.
Com sua prosa limpa, Simenon constrói um drama psicológico em que o peso da tradição vale mais do que os sentimentos individuais. Quase todos os personagens parecem condenados ao papel que herdaram: obedecer, proteger a reputação, preservar o patrimônio — ainda que isso custe a autonomia ou o afeto. E há os que desejam entrar para o clã.
O grande personagem do romance é Philippe, que chega para chacoalhar a família estabelecida, demonstrando que os filhos do patriarca eram, na verdade, uns inúteis. O modo como ele conquista Martine e passa mandar em todos é muito surpreendente. Outra grande criação é Michel, o filho conquistador de mulheres pobres. A ruptura dele com Eva é um grande momento do livro.
O romance avança em diálogos reservados e ambientes carregados, revelando aos poucos a lógica interna deste clã que transforma lealdade em prisão. Não há julgamentos: Simenon observa, com frieza, como o dinheiro, o nome e a continuidade familiar se sobrepõem à vida concreta das pessoas. O “maldito” do título brasileiro não se justifica. Não é o documento — é o destino compartilhado que ninguém consegue romper.
O Testamento Maldito se impõe como um dos grandes “romances duros” de Simenon: não é um policial, mais uma radiografia de uma família em que o que realmente assusta não é o crime, mas a normalidade que o ampara.



Alejandro Fabbri, jornalista e historiador do futebol argentino, constrói em Historias Negras del Fútbol Argentino um livro que foge deliberadamente da narrativa heroica e romântica do esporte. Em vez de gols decisivos, ídolos e conquistas, ele reúne episódios sombrios, desconfortáveis e, muitas vezes, esquecidos — desde arbitragens viciadas e jogos suspeitos até pressões políticas, violências de arquibancada e decisões de bastidores que alteraram destinos de clubes e jogadores.

Um livro simples e direto, de alguém que vive a corrida. Alguns de vocês sabem que eu, aos 68 anos, ainda corro. Nestes dias de canícula extrema, tenho sofrido um pouco, apesar de que minha ideologia de corredor é totalmente diferente da de Murakami. Eu corro sempre confortavelmente, naquilo que chamo de “velocidade de cruzeiro”, isto é, velocidade constante e sem dor. Com o calor deste dezembro-janeiro, paro nos 4 Km, pois tudo começa a ficar complicado. Não sinto dor, não tenho dificuldades para respirar, só sinto muito calor; na verdade, parece que alguém me desliga remotamente. Segundos antes de parar, não pretendia fazê-lo e fico surpreso quando paro. Sim, estou tomando todos os remédios que me prescreveram.

Publicado em 1965, Trens Rigorosamente Vigiados é um clássico. É um daqueles romances curtos que parecem conter um mundo inteiro. Cravado na ex-Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas, o livro acompanha o menino / jovem Miloš Hrma, aprendiz de ferroviário, que vive à margem do conflito bélico, mas no centro de outro tipo de guerra: a do amadurecimento, do desejo, da vergonha e da fragilidade.

Minha cultura sobre livros policiais é mínima. Gosto muito de Simenon, um pouco de Rex Stout e li aquela maravilha chamada Edições Perigosas, de John Dunning. Nunca fui adiante. Soube pelo próprio Biajoni que o termo “giallo” (“amarelo” em italiano) refere-se a um tipo de romance policial publicado na Itália. O nome surgiu a partir de 1929, em razão das capas amarelas distintivas de uma popular série de livros de crime e mistério. Ficou bacana no nome do livro, né?


Diferentemente de suas novelas iniciais, as ótimas e sacanas Sexo anal: uma novela marrom, Bucet@: uma novela cor-de-rosa e Boquete: uma novela vermelha, A Viagem de James Amaro é muito mais sombria e introspectiva. E interessante. Também há sexo nela, mas o cerne está na amizade entre dois personagens que, bem… não transam: James e Alex.

Penso que o título deste livro de Franciel Cruz não seja irônico ou casual. Claro, são crônicas sobre futebol, mas também sobre aquilo que gira em torno dele: a infância, o humor, a pobreza, a sociedade maluca de nosso país. Tá pensando que tudo é futebol? fala do futebol como raiz de identidade e contradição. A pergunta provocativa do título — que parece vinda de alguém que detesta o ludopédio — pode ser alterada para o futebol está em tudo ou tudo pode ser futebol. Mais do que um livro de curiosas crônicas sobre o esporte ganha densidade ao se tornar um mapa de esperanças, ilusões e decepções — como aqueles que existem fora das quatro linhas.







Gosto muito de Muriel Spark (1918-2006). Seus pequenos romances são inteligentes, bem-humorados e sinceros. Não é muito difícil se identificar com um outro personagem, mesmo que haja um crime ou um fato muito lúgubre. Um eco muito distante (A Far Cry from Kensington, 1988) é um dos romances mais refinados e enigmáticos de Muriel Spark, um livro que combina a leveza irônica de seu texto com uma reflexão profunda sobre ética, memória e poder — tanto o poder da linguagem quanto o das pequenas tiranias cotidianas.

O Primeiro e o Segundo Homem é um livrinho que efetivamente merece o tom de reverência que lhe é habitualmente reservado. Publicado em 1988, esta coleção de contos ocupa um lugar distinto, mais ou menos o mesmo que Guimarães Rosa ou Simões Lopes Neto ocupam — sem comparações. É aquele lugar entre o mito e a memória, o sagrado e o cotidiano, ou do cotidiano tornado sagrado. O gaúcho rural de Luiz Sérgio Metz (1952-1996) é o missioneiro e é bem diferente dos arquétipos literários comuns ao gauchesco. O protagonismo de índios guaranis em vários dos contos é uma das bem-vindas anormalidades que mudam o imaginário do leitor. Metz — seus amigos o conheciam mais pelo apelido de Jacaré — constrói narrativas de uma alta densidade poética que parece brotar ou da terra ou do sonho. Seus personagens habitam um mundo arcaico, quase bíblico, violento e nostálgico, todos falando gauchês, porém carregando ecos profundos da experiência contemporânea: a pobreza, a solidão, a culpa, a perda do sentido, o trabalho que ofende. Metz escreve com uma intensidade que me fez lembrar do lirismo seco de João Cabral — Não sei porque estou me esforçando para encontrar paralelos para um livro tão diferente, denso e musical.

À margem do lago, de Naia Oliveira, é um pequeno livro de memórias, de afetos e resistência. Nascida nos anos 50 em Guaíba, do outro lado do lago que banha igualmente Porto Alegre, a autora nos convida a sentar à beira do tempo e escutar suas histórias que pulsam como uma coleção de instantâneos da vida, ou como “cristalizações do fugidio”, como dizia Erico sobre as fotografias. Naia transforma cada parágrafo em um pequeno caso — às vezes terno, às vezes duro — que revelam tanto a intimidade e os detalhes de uma infância à beira do lago quanto a intensidade de uma juventude vivida sob a sombra da ditadura militar. Lírico na simplicidade, forte na memória, é um testemunho delicado sobre viver, lembrar e não se calar. A prosa de Naia flui como as águas do Guaíba: calmas na superfície, mas carregadas de histórias no fundo.

Os dois últimos livros de 




O Presidente está catalogado como um dos “romances sérios” de Georges Simenon. Os do detetive Maigret estariam no escaninho dos não-sérios. E, com efeito, trata-se de um livro ambicioso, um exercício plenamente justificado e bem sucedido.














