A primeira fase da reforma da CCMQ está efetivamente terminada?

A primeira fase da reforma da CCMQ está efetivamente terminada?

Em 20 de dezembro de 2013, a Casa de Cultura Mario Quintana estava assim:

Foto:
Foto: http://www.cultura.rs.gov.br/

Hoje, após as obras de restauro da fachada, quanta diferença!

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Informações da própria CCMQ dão conta de que a primeira fase do restauro — fachada, esquadrias, aberturas e telhado — estaria finalizada. A próxima fase será dedicada à acessibilidade e sinalização. Mas… O telhado está realmente finalizado?

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Porque hoje é sábado, Tina Casciani

Porque hoje é sábado, Tina Casciani

Chove muito sobre Porto Alegre; então, decidimos retornar a nosso mantra dos sábados.

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Fazia tempo que não tínhamos nossa festejada coluna conhecida como PHES.

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Hoje reaparecemos com esta bela magrelinha estadunidense,

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a — para variar — atriz e modelo Tina Casciani.

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Eu não sei nada a respeito dela e não vou pesquisar.

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Meus sete leitores (creio) não estão interessados nem nas informações biográficas,

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nem na trajetória da moça, a qual desejamos que seja uma boa atriz.

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As trajetórias que os interessam são, literalmente, as linhas mostradas no monitor plano

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que os fazem imaginar como tudo seria em três dimensões.

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A leitura de tais linhas, conforme o dia de meu leitor,

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pode transformar a compreensão em drama, romance, comédia ou amor.

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Ou quem sabe ele usa as linhas para buscar as entrelinhas, onde se lê

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o que não está escrito, o que ficou por dizer, o silêncio?

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Da recusa à complexidade

Da recusa à complexidade

Quando disse que não trabalharia para a Charlie Hebdo, Carlos Latuff estava apenas sendo coerente consigo, coisa que nem todos apreciam. Ele, assim como eu, é ateu, não antiteísta. A Charlie Hebdo é antiteísta, o que não justifica, obviamente, qualquer agressão a ela. Acho que há profundas e milenares questões culturais a serem respeitadas antes de serem combatidas sem maiores cuidados. Mas a maioria dos leitores são desatentos e incompreensivos. Muitos acham que a menor crítica à Hebdo significa “relativizar o assassinato de jornalistas”. Aliás, muita gente também confunde-se sobre posições políticas de Latuff. Como tenho a honra de ser seu amigo pessoal e de ter jantado e principalmente tomado carradas de cafés com ele — o dele sempre com leite — sei de seus posicionamentos. O cara é anti-sionista, mas não é contra os judeus. E, na raiz de todas as suas opiniões, está a crença de que não há democracia no mundo e de que a humanidade provavelmente acabará antes de ver isso. E, bem, sou tão cético quanto ele e acho que, se ele não duvidasse de tudo, não seria o chargista brilhante e planetário que é. Charge boa é contra, não a favor.

Charlie Hebdo

Aprovo tanto o assassinato do pessoal do Charlie Hebdo quanto aprovo que entrem atirando aqui no Sul21, onde estou neste momento. Por favor, não façam isso. Agora, como disse o César Miranda, os caras do Hebdo não eram tão bons de piada assim. Eram bons para chocar. Não acho engraçado botar a virgem Maria chupando um pau ou Moisés masturbando um porco. Na minha opinião, muito do que circulava no jornal era de mau gosto. O mesmo não vale para o engraçadíssimo A Vida de Brian, do Monty Python, só para dar um exemplo de sátira religiosa de primeira linha.

No mais, quero dizer que sou ateu, que acho o avanço das religiões na política um sinal claro de atraso, que acho que a religião deve se manter no âmbito pessoal, que não gosto que tentem me vender religião e que penso que tais superstições sejam inextirpáveis da humanidade. Um mundo sem religião é uma utopia.

Quando coloquei esta opinião no Facebook, teve gente que me acusou de dizer que “os caras da revista mereceram o atentado”. Se você também achar isso, digo você não é um bom leitor.

E agora, fala sério, você trabalharia na Charlie Hebdo?

hebdo ff

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Charlie Hebdo

Charlie Hebdo

Matar em nome de deus é converter deus num assassino.
José Saramago

hebdo

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Sete dias e sete disparates de 2015

Sete dias e sete disparates de 2015

1. Cora Rónai, de quem tinha tinha até esquecido, iniciou o ano ofendendo a presidente, mas depois desculpou-se. A filha de Paulo Rónai, este sim um grande cara, criticou até o andar desajeitado e deselegante de Dilma. Cora foi a grande estrela do feriadão de ano novo. Deve caminhar de forma ir-re-sis-tí-vel.

2. Outra estrela foi o novo governador gaúcho. O homem que não gosta de falar à imprensa suspendeu pagamentos de fornecedores por seis meses. Na verdade, acho que o gringo quer renegociar os débitos. Ao lado deste começo austero, Sartori pode sancionar aumentos para ele mesmo, seu vice, deputados e secretários. Aguardemos.

3. Anteontem, Vitório Piffero reassumiu a presidência do Inter. Ele parecia ter várias contratações na manga, mas não tinha não. Nós, os vermelhos, estamos passando opacas férias futebolísticas. Dizem que hoje o clube apresentará o lateral-direito Léo, reserva no Flamengo. Putz.

4. Kátia Abreu disse que não há latifundiários no país. Ela é Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e latifundiária.

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5. Hoje um grupo muçulmano invadiu a redação de um jornal satírico em Paris, mais exatamente do Charlie Hebdo. Matou dez pessoas. Como parte da imprensa nanica e revanchista, fiquei preocupado.

6. Ontem, o piso dos professores foi reajustado em 13,01%, passando para R$ 1.917,78. O reajuste — corretíssimo e acima da inflação — torna cada mais longínquos os sonhos de Sartori e do secretário Vieira da Cunha. Novamente, ¡no pagarán!

7. O último disparate já foi citado por este blog: é a proposta de retorno do mata-mata no Campeonato Brasileiro, articulada pelo presidente do Grêmio Romildo Bolzan Jr. Detalhe: todos os outros campeonatos no Brasil já são mata-mata e sem público.

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8. Mas ontem à tardinha tivemos uma bela notícia. Só que é pessoal, gente.

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Vá entender! Grêmio articula a volta do mata-mata

Vá entender! Grêmio articula a volta do mata-mata
Romildo Bolzan: o mais novo chato a propor retrocessos
Romildo Bolzan Jr, inicia sua gestão propondo retrocessos. Não seria melhor montar um time para o Grêmio?

“Dá muito mais emoção, audiência e equilíbrio técnico ao campeonato”, disse de forma inacreditável o novo presidente do Grêmio, Romildo Bolzan Jr.

Equilíbrio técnico? Ele deve estar brincando, não? Pois, obviamente, o modelo mais simples e consagrado mundialmente, o de pontos corridos com jogos lá e cá, é o mais equilibrado e justo. Além do mais, já há vários torneios mata-mata em nossas vidas: a Libertadores, a Sul-Americana, a Copa do Brasil e até os famigerados Regionais.

Segundo Bolzan, a luta pelas “vaguinhas” na Libertadores e na Sul-Americana é a única coisa interessante nos pontos corridos. Ele esquece simplesmente das duas pontas: a do campeão e a do rebaixamento. Esquece também dos clubes que ficarão fora dos play-offs, obrigados anteciparem as férias em um mês, chorando a falta de renda e o prejuízo com as folhas de pagamento a vencer sem o time jogar. E mais, acho uma piada o Cruzeiro colocar em risco um Brasileiro após permanecer por meses na primeira colocação.

Na minha opinião, mata-mata é coisa para a TV, é para o telespectador, para aquele torcedor que só aparece na hora da final, o torcedor de ocasião. Quem acompanha os pontos corridos — aqui e na Europa — sabe que cada jogo, desde o início, é uma final. Mas, sei, é complicado explicar isso para quem não gosta muito de futebol. Ademais, esquecem que no mata-mata um time pode também disparar e ficar jogando na banguela, só esperando e escolhendo o melhor cruzamento. Pois o mata-mata torna meramente classificatórios os jogos de ida e volta .

E quem compraria um campeonato inteiro na TV se só um mês interessa?

Ora, Dr. Romildo, vai fazer time e não encha o saco.

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Mônica Salmaso tem o melhor CD de 2014

Mônica Salmaso tem o melhor CD de 2014

Após equivocar-se lamentavelmente numa questão sobre o crossover porto-alegrense há duas semanas, o jornalista de ZH Juarez Fonseca voltou a seu nível habitual fazendo publicar neste sábado uma bem fundamentada lista de melhores discos de 2014. Ele convocou uma série de críticos da área que chegaram à conclusão de que Corpo de Baile foi o melhor CD de 2014. Ganhou fácil, alcançando o dobro de votos dos segundos colocados. Fiquei feliz com o resultado, ainda mais considerando o grupo de votantes e mais ainda se pensar que comprei somente um CD de música popular em 2014 e este foi exatamente Corpo de Baile, de Mônica Salmaso. Pois é, não acompanho muito os lançamentos não eruditos.

(Fiquei também satisfeito ao ver a presença de meu amado Beck dentre os melhores do ano. Vou atrás de Morning Phase).

Corpo de Baile é um CD sensacional formado por 14 canções compostas pelos veteranos Guinga e Paulo César Pinheiro. Os arranjos são camarísticos e luxuosos, incluindo quarteto de cordas, violões, viola caipira, piano, madeiras e metais, além de baixo acústico e percussão. São assinados por gente como Dori Caymmi, Tiago Costa, Nailor “Proveta” Azevedo, Teco Cardoso, Luca Raele, Nelson Ayres e Paulo Aragão.

Mônica Salmaso e Guinga
Mônica Salmaso e Guinga

Mônica Salmaso é uma cantora sofisticada e que não faz concessões ao fácil. Não é uma cantora “pra cima”, não levanta o povo, mas é capaz de deixar uma plateia hipnotizada com sua técnica e musicalidade. Alguns destaques de um disco fantástico são o fado Navegante, a indígena Curimã, mais Sedutora e Fim dos Tempos. Boto a primeira e a última abaixo.


Tive duas vezes o prazer de ver Mônica Salmaso em ação — a primeira vez em Paraty, cantando músicas de seu repertório pré-2006, e a segunda no Theatro São Pedro de nossa leal e valerosa, interpretando exclusivamente Chico Buarque. Na primeira vez, em Paraty durante uma Flip, fui falar com ela após penar numa longa fila de autógrafos. Naqueles minutos em que esperei pensei em dizer algo marcante a ela, que é uma mulher comunicativa e simpaticíssima. Foi um considerável trabalho para meu limitado cérebro. Pensei ter encontrado a solução quando ecoei uma frase de Adoniran Barbosa que Mônica recém dividira de forma brilhante, conseguindo que sua tristeza e humor ficasse longe do patético, permanecendo dentro do habitat poético que merecia. Resumi e decorei direitinho o que devia dizer e, quando entreguei-lhe o CD para a assinatura e depois de dizer meu nome, despejei meu discurso. O efeito foi monumental. Ela se levantou subitamente como se o botão de eject tivesse sido abruptamente acionado, deu a volta na mesa e lançou-se sobre mim num daqueles abraços em que a gente fica balançando como se fosse um João Bobo. Parecia um reencontro de velhos amigos, separados há uma década.

— Ai, que felicidade ouvir isso. Aquele trecho é dificílimo, é o centro, o cerne da música e foi o maior trabalho entender como devia ser cantada. Fiquei anos tentando! Você é músico?

Na época, eu ainda não sabia que era um blogueiro recalcado e desqualificado, então respondi que era apenas um melômano.

E ficamos conversando por alguns minutos, pouquíssimos para mim e longos para o resto da fila, que ficou comentando quem era aquele cara que tinha alugado a Mônica… Depois lhe disse rindo que viera a Parati só para ouvi-la. Ela deu uma gargalhada:

– Ô gaúcho mentiroso. Você veio pra FLIP!

É.

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Tornar-se um Robinson Crusoe, uma boa ideia para jornalistas

Tornar-se um Robinson Crusoe, uma boa ideia para jornalistas
Moyenne Island Seychelles
Moyenne Island Seychelles

As Ilhas Seychelles estão perdidas no meio do Oceano Índico. Antigamente, eram muito visitadas por piratas. Não há nada próximo. A Moyenne é uma pequena ilha do arquipélago. Tem 9 hectares e fica ao lado da maior das ilhas. De 1915 até os anos 70, o local ficou abandonado, até sua compra por parte de Brendon Grimshaw, um bem-sucedido editor de um jornal de Yorkshire, Inglaterra. O que havia na ilha? Nada nem ninguém.

Até sua morte, em julho de 2012, aos 87 anos, Grimshaw foi o único habitante da Moyenne. Ele comprou a ilha por £8.000 em 1962 e, poucos anos depois, começou a fazê-la habitável. A obra foi feita pelo ex-editor com a ajuda de um local, Rene Antoine Lafortune. Após a primeira ajeitada, eles passaram a cobrar o correspondente a 12 euros por visita, o que daria aos visitantes a chance de vagar pela ilha, jantar com Brendon e relaxar na praia.

Enquanto isso, Grimshaw e seu amigo plantavam dezesseis mil árvores, abriam 3 Km de trilhas naturais, traziam e criavam tartarugas gigantes. Fizeram tudo sozinhos. Também deram respeitosa direção à incrível variedade de vida vegetal e de pássaros naturais da região. A tartaruga mais velha das atuais 120 chama-se Desmond e tinha 76 anos de idade, de acordo com Grimshaw em 2012. Ele a chamava de seu afiliado.

Hoje, a ilha vale 34 milhões de euros. Para melhorar, Grimshaw fez duas grandes escavações e encontrou indícios de esconderijos de piratas, mas nada de ouro. Atualmente, a Moyenne é um Parque Nacional e pode ser visitada como parte de viagens organizadas.

Pois é, após 20 anos de persistência, Grimshaw e seu assistente alcançaram seu objetivo de fazer Moyenne um Parque Nacional, agora conhecido como o Parque Nacional de Ilha Moyenne. Ele abriga mais espécies por metro quadrado do que qualquer outra parte do mundo. A ilha está a 4,5 quilômetros de distância da principal ilha.

Dizia Grimshaw: “Lentamente, as árvores cresceram e consegui água, luz e um cabo de telefone. No começo, nós não estávamos fazendo isso para tornar a ilha em um parque nacional ou qualquer coisa assim. Nós estávamos fazendo isso para torná-lo habitável para mim. Desde o momento em que pus os pés na ilha, sabia que era o lugar certo para eu morar”.

Brendon não foi um recluso. Ele adorava os visitantes e lamentava não ter casado. “Como eu poderia pedir a alguém para viver aqui? Nós não tivemos água corrente durante anos!”.

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Brendon e Rene
Brendon e Rene

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Feliz 2015

Feliz 2015
O operário Carl Russell senta a 400 metros do nível da rua acenando para o fotógrafo durante a construção do Empire State Building, em 18  de setembro de 1930.
O operário Carl Russell senta a 400 metros do nível da rua acenando para o fotógrafo durante a construção do Empire State Building, em 18 de setembro de 1930.

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Tom Jones

Tom Jones

Tom JonesTom Jones (1749) foi um dos livros que me deixou mais feliz. Li-o há mais de 30 anos. Alguns dizem que foi o primeiro romance moderno. Fielding parece admitir a novidade: “Como sou, em realidade, o fundador de uma nova forma de escrever, posso ditar-lhe livremente as leis que me aprouverem”. O magistrado Fielding era um cômico de primeira linha. Os capítulos são divididos em grupos antecedidos de pequenos e hilariantes ensaios introdutórios de duas ou três páginas. Como Sterne, faria 10 anos depois em seu Tristram Shandy, Fielding bate longos papos com o leitor. Machado faria o mesmo, não? É um calhamaço de mais de 800 páginas, mas os capítulos são curtos e têm com títulos que antecipam o que vai acontecer. 100% sarcasmo e ironia, 100% de situações e conjecturas absurdas.

Anteontem, vi uma nova e bela edição de Tom Jones. Custava R$ 10,00 na Nova Roma, sebo da Gen. Câmara. Adivinham onde está o exemplar? Vou reler, claro. Espero reencontrar um pouco da alegria da primeira leitura.

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Que venha 2015!

Que venha 2015!

champanheTenho algumas resoluções a não cumprir, mas é melhor ficar calado, né? Coisas de todos os tipos, a manter e a fazer. Vamos lá. Vamos tentar aguentar 2015. Chega desta desgraça de 2014. Vade retro.

~o~

Desejo a todos um ano novo de muitas virtudes e alguns pecados suaves e bem aproveitados.

Rubem Braga

~o~

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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Top 12: Grandes fotos de 2014

Top 12: Grandes fotos de 2014

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Como não adorar Tom Jones de Henry Fielding?

Como não adorar Tom Jones de Henry Fielding?

CAPÍTULO I
Introdução à obra ou lista de pratos do banquete

Um autor deve considerar-se não como um cavalheiro que dá um banquete particular ou de caridade, senão como quem dirige uma casa pública de pasto, na qual são bem vindas todas as pessoas em troca do seu dinheiro. No primeiro caso, é sabido que o hospedeiro proporciona as iguarias que bem entende; as quais, embora indiferente ou absolutamente desagradáveis ao paladar dos hóspedes, não podem ser criticadas; antes, pelo contrário, a boa educação obriga-os, exteriormente, a aprovar e elogiar o que quer que lhes seja colocado à frente. Ora, o contrário sucede ao dono de uma casa de pasto. Os homens que pagam o que comem insistirão em satisfazer o seu paladar, por mais delicado e fantástico que seja; e, se alguma coisa lhes for desagradável, reivindicarão o direito de censurar, insultar e livremente maldizer o seu almoço.

henry fielding

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Revelado pobre blogueiro recalcado

Revelado pobre blogueiro recalcado
Obrigado, Cassionei Niches Petry: Peter Lorre numa versão americana de Crime e Castigo (1935).
Obrigado, Cassionei Niches Petry: Peter Lorre numa versão americana de Crime e Castigo (1935).

Pra confessar que andei sambando errado
Talvez precise até tomar na cara

Chico Buarque — CORRENTE

Nunca vi tamanha pertinácia quanto à demonstrada por Tiago Flores em seu pedido de resposta a este desqualificado e recalcado… bem, blogueiro. E, nossa, que monte impressionante de títulos. E que trajetória! Que retórica! Como duelar com um homem desses? E quantos amigos no Facebook! Pois ele e seus amigos têm razão, sou um invejoso! A inveja é um sentimento difícil de lidar, é um sentimento que nos destrói e estraga por dentro. É quando vemos que outra pessoa é melhor ou possui algo que não possuímos. E isso acaba conosco. O invejoso é um ser que sofre, meus amigos. Parafraseando Roland Barthes, digo que, como invejoso, sofro quatro vezes: sofro por sê-lo, sofro porque me reprovo de sê-lo, sofro porque tenho medo de magoar o objeto de minha adoração e, finalmente, porque me deixo dominar por algo banal.

Direi a verdade, meus sete leitores, e a verdade é que invejo os cabelos de Tiago Flores. Eles são magníficos.

Cada vez que ele entra num palco, eu penso: que quantidade, que cor, que brilho, que hidratação! E, imaginando sua sedosidade, coço desconsolado meu crânio ralo, quase calvo. Sei que os cabelos são a continuação do cérebro. Que inveja. As volutas dos violinos nada são quando comparadas às mil concavidades, convexidades e espirais dos magníficos cabelos do maestro. Todos aplaudem seus cabelos. Toda a vez que ele para na frente da plateia, as pessoas não resistem e prorrompem em entusiástica vibração. Ele poderia reger nu, como num pesadelo, que seria ovacionado. Que cabelos magníficos!

Foto: David Alves / Palácio Piratini
Foto: David Alves / Palácio Piratini

Eu não desejo uma Ferrari, não desejo a glória, esnobo a megasena, não quero títulos — os do Inter me bastam –, não desejo as mais lindas mulheres, desistiria até da Juliette Binoche e da Elena se me fossem dados os magníficos cabelos de Tiago Flores. Trocaria tudo por eles. Por eles, esqueceria Pasárgada. Me mordo e emagreço só pensando neles. Não adiantam os condicionadores, os shampoos anti-queda, os creminhos, não adiantaria nada eu me tornar um metrossexual se não obtivesse os cabelos magníficos do maestro. Sim, confesso, sou como a bruxa má dos contos de fada. Quero aqueles cabelos para mim!

É este o meu problema. Recalque. Sou pior que Adorno falando sobre jazz. Não tenho a educação de Aury Hilário, a carreira de Juarez Fonseca, nem os cabelos de Tiago Flores. Que são magníficos. Como os de Dudamel. Como os de Sansão. Eu? Para que falar de mim? Sou apenas um invejoso.

Milton Ribeiro
Crítico submergente
Recalcado
Sem trajetória, talento ou carreira
Blogueiro

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Porque hoje é sábado, porque estou fascinado por cabelos… (*)

Porque hoje é sábado, porque estou fascinado por cabelos… (*)

Os maestros adoram cabelos espetaculares. Mesmo os mais dotados de talento…

bernstein

… acham que ele influencia o desempenho, senão iriam mais ao cabeleireiro.

dudamel hair

Bem… Esses aí — Bernstein, Dudamel e Rattle — devem viver nos institutos.

Simon Rattle

Já outros, como Levine, gostam da coisa mais selvagem.

James Levine

Obviamente, Karajan tinha uma tricofilia altamente dramática, um saco.

herbertvonkarajan

Ozawa era e é impetuoso até hoje.

ozawa hair

Stéphane Denève faz o gênero loirinho fófis.

Deneve_Stephane

Alondra de la Parra é aguardada em Porto Alegre.

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Em Porto Alegre, dizia eu.

alondra de la parra

Arman faz o gênero careca cabeludo.

Nurhan Arman

André Rieu faz crossover competente e ainda toca, coisa que nem todos.

andre-rieu12

Riccardo Muti é sósia de meu amigo Ricardo Branco.

Ïðåçèäåíò ÐÔ Âëàäèìèð Ïóòèí ñ ñóïðóãîé Ëþäìèëîé ïðèñóòñòâîâàë íà êîíöåðòå îðêåñòðà ìèëàíñêîãî òåàòðà "Ëà Ñêàëà"

Frank Zappa não era bem maestro, mas entra na lista pela beleza.

zappa

O cara aí embaixo só vem confirmar a tese.

beethoven-hair

Mas alguns consideram-se vencedores só com uma barbicha.

Jaap van Zweden and the Dallas Symphony Orcherstra in the Amste

Alondra… Vem pra Porto Alegre, querida!

ALONDRA DE LA PARRA2

(*) Depois explico, tá?

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O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura

O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura
A edição da Boitempo
A edição da Boitempo

Leonardo Padura sabe que não é Tolstói, mas que seu tema podia ser tão imenso ou maior quanto o de Guerra e Paz. A história do exílio e assassinato de Trotski e a de seu algoz Ramón Mercader, se bem circunstanciada e contada, tinha o potencial de mostrar o que foi boa parte do século XX, com a história da perversão e morte (e das mortes de seres humanos) de sua maior utopia, indo desde a Revolução de 1917 até a Guerra Fria. Raras histórias são tão amplas temporal e fisicamente. Só para comprovar o caráter cosmopolita do livro, basta saber das andanças de Padura durante os cinco anos de pesquisas e de escritura do romance: Espanha, para saber da participação de Mercader na Guerra Civil Espanhola; Moscou, é claro, atrás da história de Trotski e de seus primeiro exílios no Cazaquistão e na Turquia; Paris e interior da França, em novo exílio. E também Dinamarca e Noruega, por onde o russo passou antes de chegar ao México, país onde o russo encontraria a morte através da picareta de Mercader.

Após levar a picareta na cabeça, Trotski ainda lutou com Mercader, impediu sua morte, gritando "Não o matem! Esse homem tem uma história para contar!!' e sobreviveu um dia.
Após levar a picareta na cabeça, Trotski ainda lutou com Mercader, impediu sua morte, gritando “Não o matem! Esse homem tem uma história para contar!’, e sobreviveu um dia.

Mas O homem que amava os cachorros (Boitempo, 592 páginas) não é um documento histórico e sim um romance, um romance que se atém com toda a fidelidade aos conhecidos episódios e à cronologia dos anos finais de Trotski. Nem tanta fidelidade foi possível com Mercader, o homem que trabalhou no Ocidente para os russos sob diversos nomes e disfarces e cuja história é tão fácil de reconstruir quanto adivinhar as feições daqueles homens que Stalin fazia sumir das fotografias históricas da Revolução Russa.

Cadê o Trotski que estava aqui?
Cadê o Trotski que estava aqui?

O livro de Padura é excelente. A escolha pelo ritmo de thriller foi acertada, assim como a alternância de capítulos dedicados a Trotski, Mercader e ao futuro autor do livro, perdido, sem temas, comida ou perspectivas em Cuba. É claro que os diálogos do romance são inventados, mas não são artificiais ou inverossímeis. Para melhorar ainda mais, o livro cresce de forma espetacular a cada página, dando dimensão humana a todos os personagens, fugindo inteiramente dos discursos e do jargão dogmático, até ridicularizado por Padura. Graham Greene ficaria feliz de ler O Homem que Amava os Cachorros.

A história é narrada no ano de 2004 pelo personagem Iván, um aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana e que, a partir de um encontro enigmático com um homem que passeava seus cães numa praia de Havana, retoma os últimos anos da vida do revolucionário russo Liev Trotski e de Mercader, voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola e encarregado de executá-lo por Stalin. O dono dos cães, que Iván passa a denominar ‘o homem que amava os cachorros’, confia a ele histórias sobre Mercader, de quem conhece detalhes íntimos. Diante disso, o narrador reconstrói a trajetória de sua vítima Liev Davidovitch Bronstein, mais conhecido como Trotski, teórico russo e comandante do Exército Vermelho durante a Revolução de Outubro, exilado por Joseph Stalin após este assumir o controle do Partido Comunista e da URSS. Ramón Mercader é um homem quase sem voz na história. Ele recebeu, como militante comunista, uma única tarefa — eliminar Trotski. São descritas sua adesão ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, a mudança de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético, numa série de revelações que preenchem uma história pouco conhecida e coberta, ao longo dos anos, por inúmeras mistificações.

Mercader na época do assassinato e após cumprir pena de 20 anos, já em Havana ou Moscou
Mercader na época do assassinato e após cumprir pena de 20 anos, já em Havana ou Moscou

Note-se que Mercader, Trotski e Ivan, todos eles, são “homens que amavam cachorros”. E um detalhe: o caso amoroso de Frida Kahlo e Liev Trotski, ocorrido sob o olhar digno de Natália Sedova é tratado com discrição, sem lances espetaculares. Apenas aconteceu por iniciativa do casal e desaconteceu a partir da elegante reação de Sedova.

Leon Trotsky (second right) and his wife Natalya Sedova (far left) are welcome to Tampico Harbour, Mexico by Frida Kahlo and the US Trotskyist leader Max Shachtman - See more at: http://www.historytoday.com/richard-cavendish/trotsky-offered-asylum-mexico#sthash.AAMNOTcG.dpuf
Leon Trotski (segunda, à direita) e sua esposa Natália Sedova (à esquerda) são recebidos no Aeroporto de Tampico, no México, por Frida Kahlo e o líder trotskista norte-americano Max Shachtman

Obra indicada a todos que não tenham saudades de Stalin, pois seu autor diz claramente: “Trotski podia ser duro, mas era um político; Stalin era um psicopata”.

trotski

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Desinformado, pobre blogueiro recalcado e formatado

Concedo direito de resposta ao maestro Tiago Flores, que se julgou atacado por este post. O pedido foi feito por e-mail e imediatamente atendido.

Num recente post em seu blog, o blogueiro Milton Ribeiro fez críticas desqualificadas e rebaixou o debate a respeito de música erudita e popular ao pior nível já visto, citando inclusive Aury Hilário, que coloca sua opinião sobre o tema sem jamais ser ofensivo. No caso de Milton, que atacou universidades, artistas, regentes, público e empresas financiadoras de iniciativas culturais e até mesmo o jornalista Juarez Fonseca, há uma clara vocação à critica esvaziada, motivada, talvez, por recalque.

A Orquestra da Ulbra, dirigida e regida pior mim, citada no referido post, realiza, em média, 25 concertos por ano. Destes, ao menos 20 são de execução da música orquestral tradicional com obras do período barroco, clássico, romântico, século XX e XXI. São realizados, anualmente, cerca de quatro Concertos Dana com repertório popular de diversas linguagens: rock internacional, rock nacional, tradicionalista, entre outros. Diferentemente do que diz em seu blog, os concertos não misturam dois gêneros musicais. Ora, tocar música popular com orquestra é apenas utilizar outros instrumentos na execução das obras, e não há mistura de gêneros. O que acontece é mistura de timbres. Isso se faz tanto na música erudita quanto popular.

É puro desrespeito dizer que os concertos são “pura vulgaridade” [sic] e que tocar música popular com orquestra é “bagaceiro” [sic]. Comentário que revela tremendo preconceito do comentarista.

Os concertos Dana são realizados desde 2001 e se consolidaram como uma iniciativa de grande repercussão na agenda cultural do Estado. Para além da atração do público jovem, que a partir deste contato acompanha outros concertos tradicionais, uma importante troca cultural e promoção de artistas nacionais e locais é oportunizado por esta experiência. Entre os artistas que já se apresentaram com a Orquestra nos ditos “bagaceiros” [sic] concertos estiveram Zeca Baleiro, Yamandu Costa, Edu Lobo, Nico Nicolaiewsky, Fernanda Takai, Vitor Ramil, Kleiton & Kledir, Victor Hugo, Bebeto Alves e Antonio Villeroy, apenas para citar alguns. Além disso, realizei em 2014 outros concertos “vulgares” [sic]: OSPA com Gilberto Gil e Orquestra da ULBRA com Lenine. Os artistas convidados adoraram o trabalho. O público ficou extasiado. Os músicos participantes sentiram-se honrados. Porque a música popular não pode ser tocada por orquestras?

Num de seus comentários ofensivos, o blogueiro utiliza (sem autorização) foto de Concerto da Orquestra da Ulbra com a legenda: “Ulbra acabando com os Beatles”. O referido concerto teve público recorde no salão de Atos da UFRGS em quatro edições, além de 42 músicos (entre os melhores de Porto Alegre) em palco. Para realização deste concerto foram contratados arranjadores reconhecidos, sem contar que o referido espetáculo ganhou, em 2008, Prêmio Açorianos – importante reconhecimento da cultura local promovido pela Prefeitura da Capital com júri especializado.

O espetáculo foi bastante elogiado e os profissionais envolvidos, sem exceção, falaram entusiasticamente bem do show. Não eram arranjos fáceis ou mal escritos como citado o blog. Alguns, inclusive, muito complexos. Apenas para que se tenha uma ideia, nomeio alguns eruditos professores do IA da UFRGS como Fernando Mattos, Daniel Wolff e Lúcia Carpena envolvidos no projeto. Por isso, inicio este texto de esclarecimento referindo-me ao blogueiro como um crítico vazio, um comentarista não especializado que vem prestando um desserviço a quem quer se informar sobre música e cultura em nosso estado.

Por fim, seguindo a lógica do blog, o próximo ataque é “O que estas orquestras têm feito… repertório nhemnhemnhem para ignorantes, com a desculpa da formação de público”. De todas as ofensas descritas, esta é a pior, passando totalmente dos limites do respeito. Chamar o público de ignorante é de uma arrogância sem proporções. A ideia não é formar público e sim proporcionar à comunidade contato com orquestra, conhecer novos instrumentos e novos timbres. Não é preciso desculpas para tocar música popular. Tocamos porque gostamos, porque o público assiste e porque tem muito valor.

Repito aqui as palavras do Juarez Fonseca: deixe-me trabalhar em paz e, por favor, pare de escrever sobre música sem informação e sem formação. Dê solidez e embasamento às suas palavras ou serão apenas formas mortas da (in)formação. Aliás, não se compare ao referido jornalista mencionando que ele deu uma “escorregada”. Ele é um dos mais respeitados comunicadores do estado, e a diferença entre a carreira de vocês é a grande prova disso.

Tiago Flores
Músico Regente
Diretor artístico da OSPA
Diretor Artístico da Orquestra de Câmara da Ulbra

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Qualquer coisa sobre o encantamento amoroso

Qualquer coisa sobre o encantamento amoroso
Ela e um bobalhão aí
Ela e um bobalhão aí

Ninguém tem vontade de falar de amor, se não for para alguém.
Roland Barthes — Fragmentos do Discurso Amoroso

O psiquiatra Flávio Gikovate tentou explicar o encantamento amoroso ou aquela mágica que nos dá o clique da fascinação e do arrebatamento. É um assunto que me interessa, pois, quando não esperava mais, tive o maior clique amoroso de minha vida no ano passado, aos 56 anos. Repentinamente, voltei a meus anos jovens. Quando não estava trabalhando ou fazendo algumas dessas coisa chatas a que nos obriga a maturidade, esquecia-me do restante da vida e passava a divagar longa e apaixonadamente sobre o ser amado. E passaram a acontecer coisas que eu quase já havia esquecido, como o prazer de apenas observá-la fazendo qualquer coisa. Ela não precisava estar tocando violino para ser admirada, poderia estar apenas cortando o pão durante o café da manhã ou fazendo outra coisa única e maravilhosa, como amarrar seus tênis. Pois o ser amado insiste em apresentar-se como algo novo e exclusivo. A característica mais marcante do ser amado, seja ele qual for, é ser “totalmente único e totalmente original”, ao passo que o amante, eu, no caso, é sempre ordinário, comum, não merecedor do ser que ama, como talvez tenha dito Barthes.

Flávio explica que o encantamento amoroso “não acontece por acaso e de modo mágico”. E coloca três ingredientes que considera fundamental na escolha sentimental: “o fato daquela pessoa despertar algum tipo de entusiasmo erótico, a presença nela de alguns ingredientes particularmente agradáveis para o aquele que se encanta e também um aspecto claramente racional relacionado com a admiração. Cada um desses elementos tem seu peso e, de alguma forma, todos participam do fenômeno, aparentemente mágico, que faz com que uma pessoa neutra se transforme, em pouco tempo, em alguém essencial e único, longe de quem parece impossível imaginar a continuidade da vida”.

Não vou falar do componente erótico, pois não creio que meus sete leitores estejam preparados para isso. Mas é claro que ele é fundamental e facilmente confundido com o amor. Também costuma ser péssimo conselheiro. Muitas vezes, o interesse que é detonado por uma característica física é pulverizado por um erro crasso de conjugação verbal, por exemplo. Então passemos aos próximos itens.

Às margens do puramente sexual estão a aparência, a voz, o caminhar, o olhar, os gestos, o modo de abraçar, o cheiro. Há outras admirações no campo intelectual. O humor, a resposta inesperada, e tudo que envolve a expressão, incluindo a roupa, que tem de ser colocada no campo da expressão, pois ela nos agrada e desagrada tanto quanto o que diz o ser amado.

Aos itens acima são somados outros ingredientes mais, digamos, psicológicos (ou patológicos). Pessoas com baixa autoestima admiram os mais seguros? Os tímidos admiram os expansivos, os apaziguadores valorizam os agressivos? Não sei. Sempre achei estranha aquela coisa de alguém ver um casal que não tem nada a ver um com o outro e dizer: “Como eles se completam!” Com minha habitual delicadeza interna, costumo pensar: “Se completam uma merda! Vão se detestar em um ano!”. Esse negócio de se completar, de preencher um ao outro, deve ser muito chato fora da cama. Gera atritos. Acho que um casal que cultiva gostos semelhantes deve estabelecer mais e melhores diálogos, tornando a relação mais interessante.

Apesar de seu total desconhecimento — “Um Gre-Nal é Grêmio contra quem?”, perguntou-me ela no ano passado — ela tem suportado até meu futebol. E ajudamo-nos mutuamente. E dividimos os gastos. E vamos muito bem. E não sei como acabar este texto improvisado. Até porque nada acabou e tenho ainda a sensação de que a procurava há incontáveis anos.

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Eu gostava

Eu gostava
Desenho de Carlos Latuff
Desenho de Carlos Latuff

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Uma reflexão sobre o crossover porto-alegrense

Uma reflexão sobre o crossover porto-alegrense

Aury Hilário protesta que antes havia menos salas e mais música erudita em Porto Alegre, que as orquestras da Ulbra, da Unisinos e os tais Concertos Dana dão generosos espaços para roqueiros, nativistas e MPB. E tem razão. Porto Alegre tornou-se um grande palco da música de crossover — termo usado na música para designar canções que apresentam junções de dois ou mais gêneros musicais. Na minha opinião, resumindo em duas palavras, trata-se de pura vulgaridade. São orquestras universitárias que talvez contem com patrocínios e que deveriam divulgar alguma cultura diferenciada, mas que preferem agradar um público que, na verdade, quer reconhecer músicas de sua preferência em uma roupagem orquestral e mais nobre, ignorando que a melhor versão dos Beatles é a que tem o grupo de Liverpool e o melhor nativista é aquele que traz o cheiro de capim e os sapatos sujos de terra vermelha. Misturar terno e gravata com modelos populares é apenas e simplesmente bagaceiro.

Foto: Divulgação
A Ulbra acabando com os Beatles, dois já morreram | Foto: Divulgação

O que estas orquestras têm feito, e muito, é repertório nhemnhemnhem para ignorantes, com a desculpa da formação de público. O que nunca ocorrerá. Não há como formar público para Shostakovich tocando Beatles… Beatles forma plateia para… BEATLES!!! Aury diz, com toda a razão:

Temos todo o direito de duvidar da eficácia dessa estratégia [de captação de público]. O que pode vir a ocorrer é a redução do já restrito mercado de trabalho dos instrumentistas e cantores líricos e o nosso afastamento das salas de concerto.

Neste sábado, em Zero Hora, Juarez Fonseca deu uma bela escorregadela em sua brilhante carreira. Acontece com todos. Tentando acalmar a pequena comunidade erudita de Porto Alegre, ele chegou a um argumento de patético paroxismo e confusão, finalizando assim seu texto:

Acho que poderiam ser menos corporativistas – em alguns casos até preconceituosos – e deixarem os maestros Antônio Borges-Cunha e Tiago Flores trabalharem em paz. Quanto à preocupação com a “perda de espaço”, posso lembrar, por exemplo, que Vivaldi vem sendo tocado há mais de 300 anos. Bach, quase o mesmo. Mozart Beethoven, ali perto. E o Chopin de Nelson Freire, desde 1830. Todos (e centenas de outros) gravados sem parar pela Deutsche Grammophon. A chance de a música erudita perder espaço para o rock, em Porto Alegre, é praticamente zero. Então, keep calm…

Não sei nem responder a acusação de “corporativismo”. O corporativismo representa interesses econômicos, industriais ou profissionais. Bem, meu caro, Aury é médico e eu sou um colega seu. Não sei de qual corporativismo estamos falando. Estamos aqui pela cultura. Mais: a música erudita é bastante vasta e inclui até contemporâneos nossos bem divertidos e formadores de público.

Justificar pelo número de execuções de Bach, Vivaldi, Mozart e Beethoven pode ser facilmente rebatido pelo número de execuções dos artistas populares em rádios, TVs, iPod, mp3 e iTunes de toda a população, que os ouve a pé, em ônibus, nas salas de espera e até trabalhando.

A questão é muito maior, mas eu gostaria de focalizar três itens. O primeiro é a feiura da coisa. Ouvindo os arranjos — a maioria péssimos, redutores — que são escritos para esses artistas não eruditos, nota-se claramente que suas músicas pioram e que a orquestra poderia ser facilmente substituída por um teclado qualquer, talvez vestido de terno e gravata. Aquelas harmonias são ridículas desde que Claus Ogerman tentou sistematicamente acabar com o genial João Gilberto.

O segundo é que a justificativa para a existência de tais excrescências sonoras deve ser o público, que acha bonitinho ouvir seus Beatles ou seu Nenhum de Nós sob uma roupagem amenizada. Até as vovozinhas poderão curtir a música que sai pasteurizada e sem nada de seu espírito original das cordas assépticas da orquestra. É a morte da morte. Morte de uma orquestra que poderia dedicar-se a algo mais digno de seu estilo e história e morte da vivacidade de uma música que reaparece morta, estrangulada sob o peso de um anacronismo digno de um Paul Mauriat ou de um Ray Coniff, sem nunca chegar ao (baixo) nível de um André Rieu, que pelo menos dedica-se a eruditos ligeiros. Mas esqueci, há mais uma morte: a da sonoridade da orquestra. Esta é um organismo acústico e, nesses concertos de música popular, elas aparecem amplificadas, elétricas, como símbolo de uma sofisticação inexistente. Se o sentido é escutar a orquestra tocando, com suas nuances e espacialidade, acaba-se a experiência quando todo o som da mesma sai de um par de caixas de som.

O terceiro item é que essas orquestras devem receber algum tipo de incentivo governamental para suas “atividades culturais”. Afinal, são ligadas a universidades. Mas as universidades não estão nem aí para o desenvolvimento de uma boa orquestra ou de determinada contribuição artística para a comunidade. Filha bastarda da universidade, essas orquestras servem mais aos músicos que engordam seus salários com cachês. Para eles, sim, serve a facilidade de tocar roquezinhos em concertos. Fazem-no com uma mão nas costas, sem nem precisar estudar. Que ganhem seu dinheiro — que não é muito — honrando a música para a qual estudaram.

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