O Bartók de 1909 e o Quarteto de Cordas Nº 1

O Bartók de 1909 e o Quarteto de Cordas Nº 1

Oh, céus, dia desses liguei o rádio — sim, às vezes ainda faço isso — e estava tocando uma das músicas que mais amo: Contrastes, de Béla Bartók, para clarinete, violino e piano. A obra é baseada em melodias de danças húngaras e romenas e foi escrita em resposta a uma encomendada do genial clarinetista de jazz Benny Goodman em 1938, nos EUA, quando Bartók tinha se afastado do nazismo contra sua vontade — pois preferia enfrentá-lo e talvez ser morto. Contrastes é daquelas coisas que fecham levemente a garganta da gente e nos elevam alguns centímetros. Mesmo sendo considerada uma obra leve, ela nos mostra alguns abismos. E até o final mais agitado e quase-Poulenc me deixa emocionado.

Ouvindo o rádio, lembrei de que este ano tínhamos acertado de fazer o #BRTK140 aqui no PQP Bach. Ou seja, vamos postar a obra completa do húngaro no ano em que ele completa 140 anos de nascimento. Rale-se que são 140 e não um número divisível por 50.

Bartók merece. Em uma edição húngara, sua obra completa preenche apenas 29 CDs — o que, grosso modo, corresponderia a 29 horas de música — , mas são 29 CDs sem erros ou momentos fracos. E, além do mais, ele tem uma biografia espetacular, foi o fundador da etnomusicologia, viajou do interior da Turquia, Anatólia, Romênia e Bulgária até o norte da África coletando e aprendendo a real música do povo e não o que se pensava que ela fosse. Tem importância e profundidade em mais de um campo.

A música clássica nunca viveu em uma bolha. Sempre houve um fluxo livre de ideias cruzando a linha da chamada música artística e a música folclórica. Quando esta bolha estava ficando dura e impermeável no início do século passado, quando os autores passaram a virar as costas para a “baixa cultura”, ele foi lá e os fez ver o que estavam perdendo.

Na foto abaixo, em 1907, Bartók está gravando uma camponesa que canta suas músicas. Vejam que beleza.

Não há muito interesse genuíno em qualquer lugar do mundo por este ramo da ciência musical ”,

escreveu Béla Bartók em 1921, enquanto refletia desanimado sobre seus extensos estudos de música folclórica do Leste Europeu.

Quem sabe, talvez nem seja tão importante quanto acreditam seus fanáticos!

Bartók pode não ter sido muito apreciado em sua vida (1881–1945), porém, quase um século depois de escrever este lamento, o mundo alcançou o compositor e o etnomusicólogo pioneiro. Suas composições, incluindo os seis quartetos de cordas que compôs entre 1909 e 1939, são repletas de inovações inspiradas na música folclórica rústica que colecionou no interior do Leste Europeu com seu amigo e colega, o compositor e pedagogo Zoltán Kodály.

Enquanto Brahms usava motivos folclóricos estilizados em suas Danças Húngaras, Bartók explorou as técnicas que aprendeu com canções folclóricas autênticas. Essa abordagem atingiu seu apogeu em seus quartetos de cordas, que são um monumento do cânone erudito do século XX. Essas significativas obras de câmara continuam a desafiar os músicos. “Além do desafio técnico absoluto de executar partituras terrivelmente difíceis, as principais questões interpretativas têm a ver com encontrar um equilíbrio viável entre os extremos: complexidade e clareza, austeridade polifônica e influência folclórica”, escreveu o crítico musical Philip Kennicott em 2014. 

Béla Bartók na Anatólia (atual Turquia)

Nesta série, postaremos um monte de gravações dos quartetos de Bartók. Elas estarão divididas em 6 posts e cada texto focará em um dos dos quartetos.

Quarteto Nº 1 de Béla Bartók (1909)

É uma experiência interessante ouvir os últimos quartetos de Beethoven passando imediatamente para os primeiros de Bartók. Parece que a obra revolucionária de LvB recebe uma digna continuidade por parte do húngaro. Mais: este Quarteto Nº 1 parece um opus seguinte de Beethoven, talvez não pela música, mas pelo espírito das obras.

Mas foquemos nossa lente no húngaro. Para o jovem Bartók, o período de 1906-1909 marcou uma época de grandes mudanças e turbulências. No início deste período, ele pode ser razoavelmente descrito como um discípulo e admirador de Beethoven, Richard Strauss e Debussy, ao mesmo que iniciava seu caminho pioneiro na etnomusicologia, coletando e gravando música folclórica em seus cadernos e no cilindro de cera de Thomas Edison.

O Bartók de 1909 é recordado pela primeira mulher, Márta Ziegler, com quem era então recém-casado: “Ele compunha principalmente à noite. Durante o dia, estava ocupado a transcrever e a organizar as suas coleções de canções folclóricas gravadas em cilindros de cera para publicação ”.

Então, ao lado das influências eruditas, a música popular também estava se tornando uma força central nas próprias composições de Bartók, seja na forma de citações, seja de forma incorporada, integrada. Claro, nos anos seguintes, o ideal de BB como compositor seria o de absorver o espírito da música folclórica de tal forma que suas composições carregassem sua essência, em vez de apenas aludi-la. Ele esperava construir o edifício de sua própria música com base nas verdades expressivas que percebia nessas melodias.

Em 1907, Bartók estava passando por algumas, digamos, convulsões em sua vida pessoal. Ele tinha rejeitado o catolicismo romano de sua educação e se proclamado ateu, postura que manteve até o fim. Ao mesmo tempo, ele estava apaixonado pela jovem violinista Stefi Geyer. Contudo, acabou rejeitado pela moça e o Concerto para Violino que ele havia escrito para ela foi fechado em uma gaveta e só publicado post mortem. Mas a juventude é rápida e em 1908, um ano depois do breve e marcante caso com Geyer, Bartók casou-se com Márta Ziegler.

Foi neste ambiente que surgiu o primeiro Quarteto de Cordas. É sua primeira obra-prima, que retrata vividamente os impulsos desta época de sua vida. É formado por 3 movimentos longos tocados em sequência, de uns dez minutos cada. Em uma carta a Geyer, Bartók descreveu o primeiro movimento como um “canto fúnebre”. O motivo de abertura, levado pelos dois violinos, é uma melodia do Concerto que ele escrevera para ela e, portanto, esse movimento pode simbolizar a morte dessa paixão. É um movimento dramático que, conhecendo a biografia de Bartók, ouço como que impregnado de desejo e perda. Há nela algo do romantismo germânico, principalmente nos dois clímax. No final do movimento, ele já esqueceu Geyer e há evidências de uma nova vida.

No segundo movimento, a música se acelera de uma forma que somos levados para bem longe do pesado fardo anterior. Não faz muito sentido dizer que a música desse movimento se parece mais com Bartók, mas creio que serei entendido… Diante de nós, um compositor está encontrando sua voz. O segundo movimento atinge um final etéreo e tranquilo.

O terceiro movimento é uma música enérgica, evocando a sensação de uma dança camponesa. Embora haja tensão e urgência no ar, o clima predominante é de bom humor. Ouvimos, também, a influência da música folclórica que Bartók começava a catalogar: as duas passagens culminantes do movimento apresentam uma melodia muito parecida com as canções folclóricas magiares que colecionava naquele ano. O compositor ainda estava a alguns anos de distância do período em que aspiraria a incluir o idioma folclórico em sua corrente sanguínea. Esta ainda é a música de um homem em visita o campo, fascinado pela alteridade exótica das melodias folclóricas que encontra. Mas, ao mesmo tempo, podemos sentir que ele está fisgado. A verdade é que Bartók apenas começava a arranhar a superfície delas e para cavar cada vez mais fundo em trabalhos futuros.

O estudioso e biógrafo de Bartók, Halsey Stevens, observa que “a liberdade contrapontística característica do tratamento de Bartók do quarteto de cordas, a extrema plasticidade com que as linhas individuais giram, mudam, combinam e se opõem já são perceptíveis no Primeiro Quarteto”. Além disso, “cada instrumentista é considerado um indivíduo, com o seu próprio fio de tecido; esta autonomia traz uma riqueza de texturas comparável a dos últimos quartetos de Beethoven”.

Deixo abaixo uma interpretação ao vivo do Quarteto Nº 1 não porque este seja um registro especial ou porque o vídeo realce especialmente a beleza da obra — apesar de ser muito bom! –, mas porque desta forma, com os músicos em ação, fica ainda mais clara sua dificuldade.

Etnomusicologia não é só ficar sentado no escritório…

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Bom dia, Abel (com os gols da demolição de ontem)

Bom dia, Abel (com os gols da demolição de ontem)

O Inter demoliu o velho Morumbi ontem à noite. Li por aí que nós tínhamos o melhor atacante do Brasil e ele se lesionou, então entrou o melhor atacante do Brasil e ele se lesionou, então entrou o melhor atacante do Brasil. Espero que este não se machuque. 5 x 1 no São Paulo, chegando à liderança após 7 vitórias consecutivas, não é todo dia.

Agora, vamos enfrentar nosso grande problema de 2020: o Grêmio. O tradicional adversário não é vencido há 11 Gre-Nais e nos ganhou a maioria destes. Para piorar, eles são Os Reis dos Empates. Dos 30 jogos que fizeram no Brasileiro, empataram 15. É tanto empate que eles perderam só 3 das 30. Ou seja, dá pra dizer que o Grêmio não perde e tem dificuldades para ganhar. Mas de nós eles ganham.

Abel arrumou o Inter. Mesmo sem Guerrero, Saravia, Boschilia, Moledo e Galhardo — todos jogadores fundamentais –, o time tem mantido um padrão muito alto. Para tanto, houve um espetacular crescimento de jovens como Yuri, Praxedes e Lucas Ribeiro, de experientes como Edenílson, Patrick, Moisés e Cuesta, de ascendentes como os eficientes Caio Vidal e Peglow e de craques como Dourado.

Sorte? Não! Capacidade de observação de Abel que, irritado pelas críticas que recebeu de só usar medalhões, olhou atentamente os jovens e a base.

Não me incomodo com a vingança de Abel. Ela é doce e não queria estar na pele do Alessandro Barcellos. Eu também contrataria Miguel Angel Ramírez. Afinal, o início de Abel foi uma tragédia e tudo indicava que ele morreria melancolicamente abraçado no sem-título Marcelo Medeiros. Mas o espanhol está contratado e a competência de Abel colocou todo mundo numa sinuca de bico.

Bem, eu não fui eleito presidente, minha função é de pagar em dia a mensalidade de sócio — e ela está em dia. Desta forma, apenas digo: “Resolve da melhor maneira, Barcellos! Pior é resolver perrengue de time que não ganha.”

E um brinde ao Spica!

E, Abel, que beleza! Bom Gre-Nal pra nós! Nem precisa golear, tá?

O que Abel disse ontem após o jogo:

“Quem está dando a virada são os jogadores do Inter. Eu faço parte de uma engrenagem. Eu sempre aprendi na vida a não me entregar. A cair e levantar. Sem nenhum orgulho, orgulho eu tenho dos meus jogadores. Mas ninguém ganha tantos títulos por acaso. O que aconteceu hoje não vai se repetir em 20 anos. Nós soubemos sofrer, controlamos o São Paulo e chegamos à vitória. Muita coisa foi treinada. Isso dá uma grande satisfação. É aquele negócio: os jogadores estão acreditando no trabalho, naquilo que se faz. Nós nos colocamos no bolo, na confusão. A vitória não nos transforma em favoritos. Goleada assim não se repete. Não vamos ter ou sentir qualquer tipo de soberba. Uma coisa é certa, o time jogou muito com a cabeça. Todas as decisões foram assim. Não vou dizer que foi uma atuação de campeão, mas teve a sorte que o campeão sempre tem. Espero que continue”.

O Gre-Nal:

Vamos conversar muito porque o lado anímico em um clássico decide. O Grêmio entra com um retrospecto favorável (11 clássicos sem derrota) e isso dá vantagem. Temos de trabalhar este lado. Assisti a pelo menos seis ou sete dos últimos Gre-Nais. O que eu senti? Um Inter intranquilo diante de um adversário calmo. Então, não podemos deixar o adversário em uma zona de conforto. Você não ter tanta ansiedade, não pode ser afoito diante de um time como o do Grêmio“.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Ainda o Spica…

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

El Roto de hoje

El Roto de hoje

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Os piores presidentes

Os piores presidentes

O pior presidente da história dos EUA está se despedindo. E o pior brasileiro está pedindo para acompanhá-lo. Hoje, o imbecil Ernesto Araújo confirmou que a China está complicando o envio de insumos para vacinas em razão das declarações de filhos do presidente e do próprio. Do próprio presidente e de Ernesto, podem escolher. E há Manaus, há aquele Ministro da Saúde e todo o genocídio. E os dribles da Índia e a logística….

Acho que chega. É pressionar pelo impeachment. Não dá mais. Se isso não é crime de responsabilidade, sei lá o que é. As pedaladas da Dilma não são nada perto deste anunciador da morte.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Sartori x Leite

Sartori x Leite

Eduardo Leite está atacando de apresentador do Show da Vacinação no RS. Vacinou cinco. Não tem talento pra coisa, mas está do lado certo e quer seu ganho político, claro.

Fico imaginando se o governador fosse o peemedebista Sartonaro. Acho que estaríamos chafurdando na mesma cloroquina do prefeito peemedebista Melo.

Ou seja, por mais estranho que pareça, o PSDB é muito melhor do que qualquer bolsomínion.

Simplesmente porque o bolsomínion está abaixo da linha mínima de humanidade.

Aliás, Bolsonaro é tão burro que chama a Coronavac de “Vacina do Dória”, fazendo campanha para seu adversário.

.oOo.

Este é mais um pitaco político do:

 

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Em 1913, era produzido o primeiro filme de Charlie Chaplin: Carlitos Repórter

Em 1913, era produzido o primeiro filme de Charlie Chaplin: Carlitos Repórter
Charles Chaplin em Making a Living ou Carlitos Repórter

Charles Spencer Chaplin ou simplesmente Charlie Chaplin estreou como ator de cinema com Making a living, de Henry Lehrman, filme de quase 9 minutos finalizado em 30 de novembro de 1913 – há exatos 100 anos – e lançado em 2 de fevereiro do ano seguinte. Tinha 24 anos. Como costumava acontecer na época, Making a living – traduzido para Carlitos Repórter no Brasil – se caracteriza por muita correria e desentendimentos.

Nesta primeira produção, Chaplin ainda não tinha o visual que o imortalizou. De casaco claro e com um bigode que contorna a boca, seu personagem parece decadente, mas de modo algum um mendigo. A produção é modesta, assim como todos as outras feitas – e são muitas, muitíssimas – durante o tempo em que Chaplin trabalhou para a Keystone Film Company.

No filme, Chaplin faz um vigarista que aceita um emprego como repórter. Ao presenciar um acidente, ele pega a câmera de outro repórter e corre para o jornal a fim de entregar as  fotos como suas. Carlitos Repórter deve ter servido para que ele chegasse a seu famoso personagem, O Vagabundo (The Tramp), …

… pois sua primeira aparição ocorreu logo no segundo filme, Kid Auto Races in Venice, também lançado apenas 5 dias depois:

A produção dos filmes curtos e mudos da época era realmente industrial. Só em 1914, Chaplin participou de 35 filmes, tendo sido roteirista e diretor de 21 deles. Em vários deles, foi O Vagabundo, em outros, fez diversos personagens, quase sempre cômicos.

The Tramp ficou conhecido como Charlot na Europa e como Carlitos no Brasil e na Argentina, apelido que tem perdido terreno para O Vagabundo. Como quase todos sabem, ele é um sem-teto pobretão que possui as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro. Além disso, é muito sensível do ponto de vista humano e à beleza feminina. Usa um fraque preto e gasto, calças largas surradas e sapatos em petição de miséria. Estes são bem maiores que seu número e as pontas dobram-se para cima. Na cabeça, um chapéu-coco e, para completar, uma bengala e um pequeno bigode semelhante ao de Hitler, mas um pouco maior.

Chaplin nasceu em 1889 em Londres. Sempre sentiu-se atraído pelo music hall e atuava atuando como ator numa excursão pelos EUA com a trupe de Fred Karno quando, no final de 1913, foi notado por Mack Sennett, que o contratou para seu estúdio, a citada Keystone. Inicialmente, ele teve dificuldades para se adaptar ao cinema. Quando viu Carlitos Repórter, Sennett pensou que cometera um erro ao contratá-lo. Foi Mabel Normand — atriz e comediante da Keystone — que o convenceu a dar a Chaplin uma segunda chance. Ela, aliás, escreveu e dirigiu vários de seus primeiros filmes. Só que Chaplin detestava ser dirigido por mulheres e os dois discutiam frequentemente. Por outro lado, os filmes faziam tanto sucesso que ele se tornara uma das maiores estrelas do estúdio. O esquema das produções era sempre o mesmo: ou seja, o mais desbragado pastelão.

Porém, em 1915, Chaplin assinou um contrato mais vantajoso com a Essanay Studios. Seus filmes ficaram mais autorais, já com a pitada de sentimentalismo que o caracterizaria. A Essanay era mais ambiciosa, seus filmes duravam duas vezes mais do que os curtas da Keystone. Ali, Chaplin também passou a manter um elenco fixo, no qual estavam a heroína Edna Purviance e os vilões cômicos Leo White e Bud Jamison.

Chaplin em 1915

Como os EUA dos anos 10 eram uma Torre de Babel, com imigrantes chegando de todas as partes do planeta, os filmes mudos de Chaplin atravessavam as barreiras de linguagem, sendo compreendidos por todos. Nesse contexto, ele se tornou uma celebridade, passando a almejar o controle total sobre sua produção. Em 1916, a Mutual Film Corporation pagou a ele 670 mil dólares para produzir uma dúzia de comédias durante o período de dezoito meses. Um exemplo da nova fase é o clássico Easy Street:

Em 1917, Chaplin migrou novamente, assinando um contrato com a First National para produzir oito filmes. Além de manter a autonomia conquistada, a empresa financiaria e distribuiria os filmes, além de lhe dar mais tempo para trabalhar. Concentrando-se na qualidade, ele construiu seu próprio estúdio em Hollywood e expandiu alguns de seus projetos para longa-metragens, como Shoulder Arms (1918), The Pilgrim (1923) e sua primeira comédia dramática, a célebre O Garoto (1921), o qual elevou ao estrelato o menino Jackie Coogan:

Em 1919, o inquieto Charlie Chaplin não queria mais depender do financiamento e da distribuição de empresas externas e fundou a United Artists com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith. E por lá ficou até o início da década de 1950. Todos os filmes de Chaplin distribuídos pela United Artists foram longas. As obras -primas vinham em série, como O Circo (1928) e Em Busca do Ouro (1925):

Apesar do cinema falado ter se tornado o modelo dominante no final da década de 20, Chaplin ainda resistiu até 1940. Durante o avanço dos filmes sonoros, produziu Luzes da Cidade (1931) e Tempos Modernos (1936). Esses filmes eram mudos, talvez falsamente mudos, pois possuíam música sincronizada e efeitos sonoros.

Tempos Modernos contém falas geralmente provenientes de objetos inanimados, como rádios ou monitores de TV. Isto foi feito para agradar o público da década de 1930, que já estava pouco habituado a assistir a filmes mudos. Além disso, Tempos Modernos foi o primeiro filme em que a voz de Chaplin é ouvida (no final do filme, na canção Smile, composta e cantada pelo próprio em dueto com Paulette Goddard). No entanto, a maioria dos espectadores considerou a obra como um filme mudo — e o fim de uma era.

O primeiro filme falado de Chaplin, O Grande Ditador (1940), foi um libelo contra o ditador alemão Adolf Hitler e o nazismo. Seu lançamento ocorreu um ano antes dos Estados Unidos abandonarem sua política de neutralidade para entrar na Segunda Guerra Mundial. Chaplin interpretou o papel de Adenoid Hynkel, ditador da “Tomânia”. O personagem era claramente baseado em Hitler e Chaplin, atuando em um papel duplo, também fazia o papel de um barbeiro judeu perseguido por nazistas. O filme também contou com a participação de Jack Oakie no papel de Benzino Napaloni, ditador de “Bactéria”, uma sátira ao ditador italiano Benito Mussolini e do fascismo; e de Paulette Goddard, no papel de uma mulher judia do gueto.

Dentro do ambiente político da época, o filme foi visto como um ato de coragem, tanto por seu ataque ao nazismo quanto pela clara representação de personagens judeus perseguidos de forma violenta. O Grande Ditador foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Ator (Chaplin), Melhor Ator Coadjuvante (Oakie), Melhor Trilha Sonora (Meredith Willson) e Melhor Roteiro Original (Chaplin).

O homem político

Chaplin fez parte do glorioso grupo de humanistas democratas da primeira metade do século XX, gente cujas opiniões eram ouvidas e consideradas como se fossem reservas morais da sociedade. Apesar de ser batizado pela Igreja da Inglaterra, Chaplin sempre se declarou ateu. Durante o período nazista, houve grande controvérsia a respeito de sua suposta ascendência judaica. Propagandas nazistas da década de 40 o retratavam como judeu. Investigações do FBI no final da década de 1940 também se concentraram nas origens étnicas de Chaplin. Mas não há documentos comprobatórios e, durante toda sua vida pública, ele se recusou a falar no assunto.

Charlie Chaplin em 1965

O posicionamento político de Chaplin sempre foi de esquerda, ao menos na noção norte-americana do termo. Durante a era macarthista, foi acusado de “atividades anti-americanas” e de ser comunista. J. Edgar Hoover instruíra o FBI a mantê-lo sob observação. A pressão do FBI para que Chaplin saísse dos EUA alcançou nível crítico no final da década de 1940, após o lançamento de Monsieur Verdoux (1947), considerado uma crítica ao capitalismo. O filme foi mal recebido e boicotado em várias cidades dos EUA, obtendo maior êxito na Europa, especialmente na França. Naquela época, o Congresso ameaçou chamá-lo para um interrogatório público. Isso nunca foi feito, provavelmente devido à possibilidade de Chaplin satirizar os investigadores.

O fim

Em seus últimos anos, juntamente com James Eric, Chaplin compôs músicas originais para seus filmes mudos e depois os relançou. Compôs a música de seus outros curta-metragens da First National: The Idle Class em 1971, Pay Day em 1972, A Day’s Pleasure em 1973, Sunnyside em 1974, e dos longa-metragens The Circus em 1969 e The Kid em 1971. O último trabalho de Chaplin foi a trilha sonora para o filme A Woman of Paris (1923), concluída em 1976, época em que Chaplin estava extremamente frágil, encontrando até mesmo dificuldades de comunicação.

tempos-modernos
Fontes: Site Oficial, AdoroCinema, Youtube, Chaplin: A Life e a Wikipedia.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

E o vento levou: a notável coleção de conflitos de um grande sucesso (que acaba de ser cancelado)

E o vento levou: a notável coleção de conflitos de um grande sucesso (que acaba de ser cancelado)
Clark Gable e Vivien Leigh: uma relação nada fácil

A produção de E o vento levou foi absolutamente conturbada. Os direitos de filmagem do livro de Margaret Mitchell foram comprados por 50 mil dólares pelo produtor David O. Selznick um mês após seu lançamento. O romance, lançado em 10 de junho de 1936, tornou-se rapidamente um grande sucesso. Três meses depois, já vendera um milhão de exemplares e, no ano seguinte, Gone with de Wind, um livro cheio de personagens odiosos ou meramente interesseiros, foi premiado com o Pulitzer. Foi o único romance da autora. Os direitos autorais recebidos pela obra e pela adaptação cinematográfica tornaram-na uma mulher rica, e ela, envolvida em atividades de filantropia, decidiu encerrar sua carreira literária. Morreu atropelada por um táxi poucos anos depois. O roteiro do filme não contou com a participação de Mitchell, que é de autoria de Sidney Howard. Porém, dentre os colaboradores havia os nomes grandiosos de F. Scott Fitzgerald e William Faulkner.

Fleming: 100% da direção nos créditos, de fato, 45%

As confusões e desentendimentos durante a produção foram incríveis. Talvez baste dizer que, apesar de nos créditos figurar apenas o nome do diretor Victor Fleming, este só tenha dirigido 45% do filme. Mas vamos a um resumo.

As filmagens começaram em 26 de janeiro de 1939. George Cukor estava escalado para dirigi-las. A primeira a desembarcar do projeto foi Bette Davis. Ela soube que Errol Flynn estava cotado para um dos papéis e pediu para sair de forma preventiva. Afinal, eles já tinha discutido violentamente no passado e não se suportavam. Mas sua decisão foi precipitada, pois Flynn nunca chegou a fazer parte do elenco.

Selznick escolheu — entre 1400 candidatas — Vivien Leigh para viver a heroína sulista Scarlett O’Hara. Ela era casada com Laurence Olivier, o que certamente influenciou na escolha. Cukor ficou indignado com o resultado do certame e abandonou a produção com apenas 4% do trabalho concluído. Aproveitando o, digamos, vácuo de poder, Selznick tomou conta de tudo, chamando Clark Gable para o papel de Rhett Butler e Fleming para a direção.

Boa atriz, só que inglesa… Que mau hálito…

Mas o conflito de egos entre os atores só poderiam ser medidos por sismógrafos. Vivien Leigh trabalhou nos sets de filmagem por 125 dias, recebendo a quantia de 25 mil dólares; já Clark Gable trabalhou por 71 dias e ganhou 120 mil dólares. Mesmo ganhando muito mais, Gable opinava ser um absurdo oferecer um papel essencialmente norte-americano a uma atriz inglesa. Paradoxalmente, nos corredores, durante as filmagens, todos achavam que Gable conquistaria Leigh também fora de cena, mas ela não o suportava e mais: considerava pouco profissional que ele deixasse o estúdio sempre às seis da tarde, pontualmente, todos os dias. Como vingança, ele comia cebolas e bebia licor poucas horas antes de gravar. Ela, é claro, não suportava seu hálito. Para completar, Gable dizia a todos que, quando a beijava, pensava num bife.

Se o desentendimento entre a dupla romântica não provocava baixas, o mesmo não se pode dizer dos restantes. Em meio às gravações, Fleming brigou com Vivien Leigh e Olivia de Havilland – que eram amigas e desejavam o retorno de George Cukor à direção –, e pediu demissão. Mas Gable adorava Fleming. Estranhamente, o demissionário alegou outro motivo para sair: disse que tivera um colapso nervoso e acusou Selznick. Para tentar finalizar a superprodução de quase quatro horas, foi chamada uma fila de diretores que trabalharam mas que foram sistematicamente demitidos após poucos dias: Sam Wood, William Cameron Menzies, Sidney Franklin… Ao final, Fleming recuperou-se e finalizou o trabalho.

David O.Selznic: o produtor, montador e verdadeiro tocador do projeto

Finalizou? Nem tanto. Foi Selznick e o montador Hal C. Kern que deram acabamento ao filme. Eles ficaram quase um mês cortando e cortando. A lenda diz que eles se fecharam no estúdio com 60 mil metros de película gravada ou, em outras palavras, 28 horas de material.

O filme foi lançado em 15 de dezembro de 1939. O resultado foi estrondoso sucesso. Considerando-se a inflação, é o filme com maior faturamento da história, além de o mais visto de todos os tempos. Foram 400 milhões de pessoas em todo o mundo. Atualmente, seu resultado financeiro seria de mais de 3 bilhões de dólares, ou seja, deixaria qualquer blockbuster na poeira. E custou para a MGM apenas cinco milhões.

O argumento da película de Selznick e Fleming, assim como o romance, estão inteiramente fora de moda, mas o filme é surpreendente por vários motivos. Em primeiro lugar pela proeza técnica em todos os campos. Apesar de nada naturalista, apesar de ser teatral, a narrativa é poderosa, a reconstituição de época é impressionante, a trilha sonora está no contexto e a fotografia é arrebatadora. Difícil acreditar que estivéssemos em 1939. Além disso, o desempenho de Vivien Leigh como Scarlett O`Hara é esplêndido. O filme ganhou 8 Oscar e saudado como obra-prima. Visto hoje, é excessivamente acadêmico e discursivo, além de ser um filme com um número altíssimo de maldades e casamentos por metro quadrado.

E o vento levou é uma grande história, literalmente. Em livro, são quase mil páginas de reviravoltas; em filme, são 241 minutos. Mas Mitchell e Fleming sabiam contá-la com brilhantismo.

O cartaz do filme

O filme, na sua primeira parte, mostra uma visão idealizada da sociedade branca do velho sul dos EUA. Os senhores de escravos são mostrados como protetores benevolentes, e a causa confederada como nobre defesa da terra natal e de um modo de vida. Essa civilização que o vento levou é definida assim na abertura do filme:

Existia uma terra de cavalheiros e campos de algodão chamada “O Velho Sul”. Neste mundo bonito, galanteria era a última palavra. Foi o último lugar que se viu cavalheiros e damas refinadas, senhores e escravos. Procure-a apenas em livros, pois hoje não é mais que um sonho. Uma civilização que o vento levou!

Os responsáveis pelo filme demonstraram certo amor pelos incêndios

Deste modo pouco realista, o filme apresenta uma visão simpática da sociedade sulista. Mas alguém se interessa por isso ou diz como Butler:  Frankly, my dear, I don´t  give a damn? 

Voltemos ao filme. O trio central de personagens é estupendo e atípico.

Frustrada por não conseguir se casar com Ashley Wilkes, Scarlett acaba se envolvendo com o charmoso aventureiro Rhett Butler. Scarlett é a bela mulher com o demônio no corpo. Orgulhosa, egoísta, geniosa, cabeça dura, é capaz de absolutamente tudo para conquistar o que quer. Tudo entremeado de rios de lágrimas, claro. Porém, antes de ordinária, Scarlett impressionava os leitores e espectadores por ser empreendedora, decidida e forte.

Já Rhett Butler é o canalha incorreto, uma estranha mistura de extrema sinceridade, sedução e esperteza. Talvez por isso seja perfeito para Scarlett. Se ela tem interesses, ele é debochado. Ela entorna bastante açúcar em uma relação entre duas personagens nada simpáticas. OK, ele lhe dá uns beijos, mas mantém-se na incorreção. O notável é que a química entre eles – com a Guerra ao fundo – funciona como poucas vezes se viu.

Como o lucro de todos os envolvidos demonstra.

Mas trata-se de um filme que morreu no início do século XXI. Ou foi cancelado. Após protestos contra o racismo da produção, a HBO retirou-a de cartaz. Gravado nos EUA antes de qualquer movimento contra a segregação, E o vento levou é racista como Monteiro Lobato e o hino do Rio Grande do Sul. Imaginem que, pelo filme, a atriz Hattie McDaniel ganhou o primeiro Oscar de artista negra na categoria de atriz coadjuvante. Porém, na festa, Hattie não pôde sentar-se na mesma mesa que seus colegas de elenco. Se era assim nos anos 30, não seria diferente nos anos que o filme retrata.

E, se antes a beleza plástica tirava o foco de questões mais sérias — que a própria autora escolheu como pano de fundo –, tudo finalmente mudou. Sim, Scarlett O’Hara sempre foi uma personagem antipática, confusa e sem escrúpulos. Ela contestava a passividade feminina e tomava as rédeas de sua vida, mas foi amoral do início ao fim. A personagem eternizou a postergação de decisões difíceis com seu frequente I’ll think about that tomorrow. Tomorrow is another day.

Só que, mais de 80 anos depois, Scarlett não terá o dia seguinte para encontrar uma alternativa. E O Vento Levou é sim reprodução de uma estrutura racista e só voltará ao cartaz quando o racismo diminuir muito, deixando de ser uma questão urgente.

Lágrimas: Vivien Leigh verte torrentes delas

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Marinho, Cruzeiro, Bolsonaro e o gerenciamento de crises

Marinho, Cruzeiro, Bolsonaro e o gerenciamento de crises

O Santos elimina o Boca Juniors da #Libertadores2020. Ao final da partida, seus jogadores cercam o diretor de futebol e, felizes, comemorando a vitória, pedem um pix. Eles se esforçaram muito no jogo, foram brilhantes. Os salários estão atrasados há dois meses.

Corta.

Após perderem para o último colocado Oeste, os jogadores do Cruzeiro saem irritados de campo. Jogaram mal, alguns foram displicentes. Vão ficar na Série B. E deram entrevistas falando mal do clube e dizendo que ninguém imagina o que é o ambiente onde têm que viver. Os salários estão atrasados há dois meses.

O prefeito Sebastião Melo compra 25 mil doses preventivas de cloroquina do governo federal. É o PMDB. Deve ser pagamento de um favor, algo assim.

Falta oxigênio em Manaus. Pacientes com Covid são mandados para outras cidades, que não querem recebê -los. Belém está agitada com a provável chegada de manauaras doentes.

E Bolsonaro, o palhaço idiota, o grosseiro e nojento pilantra cretino eleito democraticamente por milhões de ignaros? É tanta coisa que teria a dizer do genocida que nem sei por onde começar. Gerenciamento de crise…

Me faz um pix?

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Spica, a entrevista

Spica, a entrevista

Talvez alguns de vocês lembrem daquele post sobre o rádio Spica, meu amuleto futebolístico. Bem, eu colocarei o link como primeiro comentário. Ninguém é obrigado a ler todas as minhas bobagens, é óbvio.

Pois hoje fui entrevistado pelo SBT a respeito do rádio e das histórias que cercam o pequeno aparelho de 56 anos. Passamos desde a Samritzu, a fabricante japonesa que vendeu um milhão destes radinhos nos anos 60, pelas superstições de minha mãe — são incríveis –, pelos motivos que levaram minha família a ser toda colorada, pela final de 75 contra o Cruzeiro, pelas Libertadores e o Mundial e o conserto do rádio e seu “retorno triunfal” contra o Boca. Ufa!

Eu achei uma boa e divertida entrevista sobre um assunto bobinho. Vai ao ar num “Bom dia, Rio Grande” da semana que vem. Claro que a maior parte será cortada, mas foi um bom momento em que pude me distrair do mundo real.

Agradeço ao repórter Jeremias Wernek por ser tão leve e por ter feito voltar à tona partes boas de minha modesta biografia.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A história resumida do glorioso rádio Spica

A história resumida do glorioso rádio Spica

O famoso rádio Spica é o brontossauro dos dispositivos de áudio portáteis de hoje e foi a ponta de lança da revolução dos transistores. O primeiro rádio portátil comercial foi o Regency TR-1 (1954), desenvolvido pela Texas Instruments. Este foi o primeiro dispositivo para o consumidor a usar transistores em vez das válvulas. Ao se tornar portátil, o rádio foi democratizado, causando uma virada na história das comunicações. Foi um grande avanço.

Originalmente, a fábrica que criou o Spica este rádio foi fundada em 1939, com o nome de JAPAN TRANSFORMER WORKS Co. Ltd., dedicada, como o próprio nome sugere, à fabricação de transformadores elétricos. Somente em 1945 mudou seu nome para SANRITSU ELECTRIC Co. Ltd.

A fabricação em série de rádios transistores da Sanritsu começou em 1955. A partir de dezembro de 1964, a fábrica produziu mais de um milhão desses receptores, sendo que o maior percentual de produção correspondeu ao modelo ST600 (fotos), que era exportado para todo o mundo.

O significado de seu logotipo, dois triângulos em vermelho estampados no mostrador cromado, correspondem às frequências de 640 Khz e 1.240 Khz, frequências atribuídas pelo governo norte-americano na década de 50 para transmissões especiais (ativação de alarme) em caso de guerra nuclear ou radiação perigosa neste campo. Em outras palavras, essas frequências não poderiam ser utilizadas ou interferidas por nenhuma estação e seriam utilizadas apenas em caso de ameaça nuclear para informar a população da eventualidade de uma ameaça atômica, tão preocupante e comum na época.

Esse sistema recebeu o nome de CONELRAD Controle de Radiação Eletromagnética -ou Eletrônica, (Controle Eletromagnético ou Eletrônico de Radiação) e foi instituído em 26 de março de 1951 pelo então presidente dos Estados Unidos, Harry Truman. Ficaria sem efeito em 5 de agosto de 1963, sendo substituído por outros sistemas mais sofisticados até o final de 1994.

Este rádio foi originalmente projetado e fabricado pela Sanritsu Electronic Co do Japão. Recebia estações AM (moduladas em amplitude), ou o que na época se chamava de onda longa.

Por ser portátil, era muito utilizado, podia ser carregado para qualquer lugar e era muito comum ver torcedores nos campos de futebol com um “ouvidinho” (o antecessor dos fones de ouvido) preso na orelha.

Utilizava 4 pilhas AA e cobria a faixa de 535 a 1605 Khz. O equipamento era um produto de excelente qualidade, a recepção era muito boa e o som nítido. À noite, você podia ouvir emissoras do interior, além de várias do Uruguai e da Argentina.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Quais serão as últimas rodadas dos líderes do Brasileiro

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O segredo das vitórias consecutivas do Inter

O segredo das vitórias consecutivas do Inter

Vou contar um segredo pra vocês.

Sabem por que o Inter ganha? Por causa do Spica. Sim, eu mandei arrumar o velho rádio de pilha de meu pai — fabricado lá em 1965. Esse rádio sempre deu sorte e vocês imaginam a data na qual o Daniel Morales da Silveira me devolveu o rádio em perfeito funcionamento?

Pois é, no dia do jogo contra o Boca. Depois daquele dia, foram 6 jogos e 6 vitórias. Todas ouvidas no Spica.

Não é o Abelão. É ele.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Oito jogos aqui, oito acolá

Pep Guardiola diz que um campeonato como o Brasileiro, em 38 rodadas, perde-se nas oito primeiras e ganha-se nas oito últimas.

(E o Milton diz: Quem larga mal tem que parir uma bigorna depois para subir. Empiricamente, mas de forma convicta, sempre ri daqueles técnicos que dizem “ah, o campeonato está muito no início, vamos recuperar”. É muito raro alguém recuperar. Não recuperam. Ou estão no bolo desde o início ou não entram nele).

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Lista dos livros mais vendidos na Livraria Bamboletras entre 01/dez/2020 e 10/jan/2021

1. E fomos ser gauche na vida, de Lelei Teixeira.
2. Os Supridores, de José Falero.
3. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.
4. Mulheres de Minha Alma, de Isabel Allende.
5. E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas, de Emicida.
6. O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.
7. Nós, mulheres, de Rosa Montero.
8. A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante.
9. Máscaras da Tricolina (ok, não é livro, mas olha só, Cássia Zanon!).
10. O Beijo na Parede, de Jéferson Tenório.
11. 1935, de Rafael Guimaraens.
12. Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro.

Uma lista de respeito!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Por que Bolsonaro é a favor do voto impresso, da cédula de papel

Por que Bolsonaro é a favor do voto impresso, da cédula de papel

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXXIII)

Atrás do Balcão da Bamboletras (XXXIII)

Liga uma senhora bem velhinha. Pela voz, é beeeem velhinha.

Eu faço minha impostação mais educada.

— O que a senhora deseja?

— Moço, eu estou sempre perdida no meio dos meus papéis. Graças aos céus hoje eu vi que tinha o IPTU com desconto para pagar. Último dia!

— Boa lembrança, a senhora me salvou. Tenho que pagar o meu também. Estou com o boleto, mas já ia me esquecendo dele — minto, pois já tinha pago o meu.

— O seguinte: o que me leva a lhe incomodar com este telefonema é que vi que tenho um cheque presente da Bamboletras. Ele deve ter uns 4 anos.

— 4 anos, Dona X ?

— Sim. E a minha pergunta é: o cheque presente de vocês CADUCA? — ela pergunta, colocando ênfase na último verbo.

— Não senhora, não caduca.

— Ai que alívio, moço! Quem terá me dado isto de presente?

Risadas.

— Escuta, vocês fazem entregas?

— Sim.

— Então me traz uma coisa boa como…

— Como quem?

— Como Philip Roth — ela me diz baixinho, como se fosse um segredo.

A Marca Humana já deve estar com ela neste momento.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Bom dia, Abel (com os gols de Ceará 0 x 2 Inter)

Bom dia, Abel (com os gols de Ceará 0 x 2 Inter)
A barriga de Guto Ferreira supera em muito a de Abel Braga — é o Gluto Ferreira… | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

O Inter fez um primeiro tempo simplesmente podre, com Marcelo Lomba e Rodinei comprometendo inteiramente e o resto do time parecendo perdido em campo. Não chutamos a gol, só o Ceará jogava. o Vozão perdeu 4 gols feitos…

Abel, tu tiveste sorte. Lomba também. Imaginei que nosso goleiro perdeu uma bola ao tentar driblar o centroavante do Ceará… Olha, Lomba está com o prazo de validade estourado. Nunca foi um grande goleiro e agora está mal. Enquanto isso, Rodinei era envolvido sistematicamente pelo lado esquerdo do ataque adversário.

Depois, no segundo tempo, o time voltou mais organizado e acabou por obter uma importante vitória. Vitória dos meninos do time, não dos medalhões (aqui façamos justiça e Edenílson, que esteve bem durante toda a partida).

Agora temos Goiás e Fortaleza no Beira Rio, depois pegamos o São Paulo fora de casa. Temos tudo para encostar antes de chegarmos à capital paulista. Claro temos que combinar com os russos. Pelas lesões dos dois goleiros, Daniel deverá será o titular contra o Goiás. Pois é, parece que os deuses estão ajudando. Mas temos que ganhar em casa da turma de baixo.

O São Paulo é o líder com 56 pontos em 28 jogos (próximos 3 jogos: Santos (c), Athlético (f) e Inter (c)).

O Inter é o vice-líder com 50 pontos em 28 jogos (próximos jogos: Goiás (c), Fortaleza (c) e São Paulo (f)).

Mas…

Os seguidores tem um jogo a menos e estão bem perto. São eles:

O Atlético-MG com 49 pontos em 27 jogos (próximos jogos: Bragantino (f), Atlético-GO (c) e Grêmio (f)),

o Flamengo com 49 pontos em 27 jogos (próximos jogos: Ceará (c), Goiás (f) e Palmeiras (c)) e

o Grêmio com 48 pontos em 27 jogos (próximos jogos: Fortaleza (f), Palmeiras (f) e Atlético-MG (c)).

O jogo atrasado de Grêmio e Flamengo é justamente um Grêmio x Flamengo em Porto Alegre e o do Atlético-MG eu não sei qual é…

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Um lindo texto de Nina Paduani que repasso para a Elena

Um lindo texto de Nina Paduani que repasso para a Elena

Sim, para a Elena que, como eu, ama Londres. A Embankment Station, Elena, é aquela para onde a gente ia a fim de chegar ao Southbank Center do outro lado da ponte, à National Gallery, à St. Martin-in-the-fields, à Trafalgar, ao Covent Garden, etc.

Por Nina Paduani

pouco antes do Natal de 2012, os funcionários da estação de metrô Embankment, em Londres, viram uma mulher visivelmente perturbada na plataforma. ela ficava perguntando para onde a voz tinha ido. eles não entendiam o que ela queria dizer. “a voz?” sim, a voz, ela respondeu. o homem que diz “cuidado com o vão”. ah, é isso? não se preocupe, disse a equipe do Embankment. o aviso ainda existe, apenas o atualizaram. novos sistemas digitais, vozes eletrônicas. diante de sua feição de tristeza, a equipe perguntou se ela estava bem.

“aquela voz”, explicou ela, “era meu marido.”

a mulher, uma médica de família chamada Margaret McCollum, explicou que seu marido era um ator chamado Oswald Laurence. Oswald nunca foi famoso, mas ele se tornou o cara que gravou todos os anúncios da Northern Line nos anos 1970.

e Oswald morreu em 2007. a morte de Oswald deixou um vazio imenso na vida de Margaret, mas uma coisa a confortou mais do que qualquer outra: todos os dias, a caminho do trabalho, ela ainda ouvia sua voz.

por cinco anos, isso se tornou sua existência. ela sabia que ele não estava realmente lá, mas sua voz, sua memória, sim. para todos os outros, era apenas mais um anúncio como tantos outros sem importância no sistema de som da estação. mas para ela, era o fantasma do homem que ela ainda amava. e que agora a havia deixado para sempre.

a equipe do Embankment se desculpou e prometeu, no entanto, que se a gravação antiga ainda existisse, eles tentariam encontrar uma cópia para lhe dar. Margaret sabia que isso era improvável, mas agradeceu a todos e se despediu.

no dia de ano novo de 2013, Margaret McCollum sentou-se na plataforma da Embankment Station, indo trabalhar como sempre. quando, dos locutores, uma voz que era familiar para ela soou. a voz de um homem que a amou tanto. e que ela nunca pensaria que ouviria novamente. “mind the gap”, disse Oswald Laurence.

uma força tarefa foi voluntariamente formada. arquivos foram escaneados e fitas antigas foram encontradas e reformadas. várias pessoas tiveram que trabalhar para localizá-los, recuperá-los e digitalizá-los. outros tiveram que mudar o código do sistema de anúncio, e ainda outros tiveram que preencher papéis e correspondência para autorizar a exceção. mas juntos, eles deram voz a Oswald novamente.

e é por isso que ainda hoje, em 2021, quem quer que desça para a estação Embankment em Londres e pare na plataforma da Northern Line, ouvirá uma voz completamente diferente dizendo ‘mind the gap’, uma voz que já não existe mais em qualquer outro lugar do metrô de Londres.

é o Oswald. falando para a Margaret.

(eu hoje conheci essa história linda e quis contar para vocês.)

Margaret McCollum

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O PUM fala sobre o pragmatismo da política real

O PUM fala sobre o pragmatismo da política real

Estou lendo muita gente dizer que faltam só 2 anos e Bolsonaro sai. Não, senhoras e senhores. Se a coisa seguir assim, faltam 6 anos para ele sair.

Por isso o movimento que Tarso faz em direção a Doria é tão importante. É hora de abraçar o inimigo para não permanecer internado com o diabo.

Se não surgir um oposição ampla, com gente de várias colorações, adeus, ele vem de novo com sua vulgaridade, bravatas, filharada e um imenso etc.

Sei que há léguas a nos separar e egos a aplainar. Mas sei também quanto é preciso, pá, navegar.

Não é hora para veleidades ideológicas. O processo de retorno a um governo progressista vai demorar muitos anos.

 

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!