Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de A Morte de Ahasverus. E é uma continuação pra lá de estranha. Estamos no tempo das Cruzadas — Tobias consegue um meio de ir para a Terra Santa. Paga o comandante de um barco pirata para levá-lo. No meio do caminho, após uma luta, temos um longo monólogo de um dos integrantes da tripulação. O livro termina após este monólogo. Lagerkvist não está nem aí para questões de simetria ou para fechar os parênteses que abriu. O livro existe para mostrar o motivo pelo qual um padre abandonou a batina: a luxúria. Tudo diante de uma enorme mar enigmático, mais velho que todos nós.

No navio estão o Capitão — homem minúsculo de voz frágil que governa a todos com mão de ferro –, o Gigante — especialista em pilhagens e ataques brutais –, Ferrante — movido por insaciável desejo de riquezas e pela pura maldade –, e Giusto — o pusilânime. Mas é com Giovanni que Tobias estabelece o vínculo mais profundo. Como o ex-padre acabou naquele antro de marginais? Criado pela mãe viúva para tornar-se sacerdote, vivendo na mais estrita observância dos dogmas, Giovanni sucumbe ao desejo sexual quando ouve a confissão de uma mulher casada atormentada por uma paixão adúltera. A voz e o hálito da mulher… O confessor, enredado pela voz, transforma-se em amante.

A escrita é característica do autor: austera, precisa, despojada. Cada frase parece medida para dizer apenas o essencial, e justamente por isso ganha densidade. Não há excesso emocional, mas uma contenção que intensifica o efeito. O leitor é tão convidado a acompanhar a história, quanto a habitar um estado de espírito. Como em outras obras de Lagerkvist, a busca pela fé é a busca pelo sentido. Não há como ir adiante. O mar, nesse contexto, pode ser lido tanto como ausência de Deus quanto como sua manifestação mais enigmática.

Para leitores que apreciam a ficção escandinava de inquirição filosófica — algo na linhagem de Ingmar Bergman –, Encontro com o mar é uma joia breve, densa e inesquecível. Não se trata de um romance de ação, mas de um longo e sereno confronto com as perguntas que não se calam: o que separa um padre de um pirata? A fé resiste ao desejo? E, acima de tudo, há paz possível?

Pär Lagerkvist

 

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!