O Mapeador de Ausências, de Mia Couto

O Mapeador de Ausências, de Mia Couto

Este é o segundo livro de minha biblioteca que vem direto de Moçambique. Ambos foram presentes do amigo e cliente da Bamboletras Jonas Fernando Pohlmann, que mora na capital Maputo. O primeiro foi este. E, se o primeiro foi ótimo, não sei nem bem o que dizer desta, sem exagero, obra-prima de Mia Couto.

Quando recebi o volume, pensei que se tratasse de um livro de memórias. Bem, ele é, mas de memórias ficcionais trabalhadas dentro de um romance de grande fôlego.

A ação ocorre em Moçambique ante e pós descolonização e conta a história de Diogo Santiago, escritor e poeta de Maputo, que viaja depois de muitos anos à sua terra natal, a cidade da Beira, nas vésperas do ciclone que efetivamente a arrasou em 2019. Ele foi com a finalidade de receber uma homenagem, mas também pretende descobrir detalhes acerca da história de seu pai, um também poeta morto em Beira ainda quando colônia. Trata-se de um regresso à juventude de Diogo. A trama de O Mapeador de Ausências não se completa até a última página. À medida que vamos lendo o livro, as lacunas que ele deixa abertas vão sendo preenchidas com conteúdos muitas vezes inesperados.

Diogo conhece Liana, que lhe repassa um verdadeiro dossiê da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) a respeito das atividades “subversivas” do pai de Diogo. Mia Couto vai empilhando documentos — inacreditáveis, tal sua a qualidade da prosa destes — e narrativas que vão e voltam no tempo.

Diogo é um branco, filho de Adriano Santiago, jornalista e poeta, e de Virgínia, uma mãe daquelas cheias de amor e senso prático. Do pai, ele recorda as duas viagens a Inhaminga — local de massacres cometidos pela tropa colonial –, a perseguição e prisão pela PIDE e, sobretudo o amor pela poesia. Na Beira, fica sabendo da misteriosa Ermelinda (ou Almalinda), quem sabe uma das (muitas) amantes do pai. Reencontra o criado Benedito (agora dirigente da FRELIMO), a bela e infeliz Camila Sarmento, o farmacêutico Natalino Fernandes, o inspetor da PIDE Óscar Campos e a tenaz e poderosa Maniara.

“É uma homenagem à cidade da Beira, que é a mãe desta história”, disse Mia. “É uma romance que se desenvolve a partir da minha memória sobre minha cidade”. O Mapeador mostra um poeta que vai à procura da sua adolescência e que percebe que aquilo que lhe é presente nasce da ausência de alguém.

No cenário, há não apenas a chegada do ciclone que destruiu Beira, mas a destruição de Inhaminga, cidade que foi praticamente riscada do mapa durante a guerra civil moçambicana. As descrições de Mia são soberbas.

Moçambique é tão pobre e sofreu tanto que é palpável a culpa de quem sobreviveu.

Recomendo fortemente.

Meu exemplar tem a assinatura de Mia Couto.

Mia Couto, sobre os hábitos no interior de Moçambique, no livro “O Mapeador de Ausências”

Mia Couto, sobre os hábitos no interior de Moçambique, no livro “O Mapeador de Ausências”

As regras de cortesia mandam: quem se reencontra, depois de uma longa ausência, precisa saber de tudo e de todos. É vital perguntar se o milho nasceu com fartura, se a chuva veio no tempo certo, se os parentes estão de boa saúde. Só depois de cumprir todo esse cerimonial, o visitante anuncia: “Pronto, agora já cheguei”. Nesse longo desfilar de novidades, não há lugar para más notícias. Está sempre tudo bem. Os infortúnios só são revelados depois que a conversa tenha firmado confiança. Em nenhum lugar do mundo um “bom dia” é mais verdadeiro.

Deixem eu me gabar…

Deixem eu me gabar…

O Jonas Fernando Pohlmann é um querido cliente da Bamboletras que mora em Moçambique.

Quando vem ao Brasil, além de visitar nossa livraria, traz pra gente uma lembrancinha. Bem, até hoje só trouxe lembrançonas!

No ano passado, ele nos presenteou com Balada de Amor ao Vento, ótimo livro de Paulina Chiziane ainda não lançado no Brasil.

E ontem ele nos trouxe O Mapeador de Ausências, de Mia Couto, ainda não publicado entre nós.

Com um detalhe, o livro veio autografado por Mia.