Dois tesouros e uma rotina

Eu não desejo provocar reações hostis daquele comentarista do blog. A descoberta foi obra de Augusto Maurer. Cliquem aqui. É o céu.

Mas há igualmente consolo para quem busca outros horizontes. Está aqui outro GRANDE tesouro, na verdade o que mais ouço, pois é sensacional trabalhar no micro com uma janela dessas em background.

Copa Suruga. Sim, foi minha atividade matinal, claro. Não confundam com outras atividades. A Suruga de hoje pela manhã foi esta.

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Há coisas que só o Impedimento…

Pasmem, o pessoal do Impedimento está fazendo uma vaquinha para enviar um repórter a fim de fazer uma cobertura decente de Brasil x América-MG, sábado, em Pelotas. Como escreveu Beethoven na partitura do Quarteto Op. 135: Muß es sein? Es muß sein! Precisa ser assim? Precisa ser assim! Tal o nível da “grande imprensa” gaúcha…

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Milton versão portuguesa

Ora, pois pois, recebi minha cidadania portuguesa. Não que tenha algum interesse em me mudar ou mesmo em conhecer os parentes de meu pai. Dia desses, a internet me permitiu saber que há alguns Ribeiros nos endereços esperados em São João do Loure, distrito de Aveiro. Um deles é dono de um motel. Vi fotos dos quartos. Talvez conseguisse um test drive gratuito lá. O que gostaria de saber mesmo é porque Manuel Martins Ribeiro, meu avô, deixou Portugal. Certamente foi a pobreza que empurrou aquele homem à aventura de vir trabalhar como estivador no cais de Porto Alegre, depois conseguiu abrir uma padaria (enfim, é o caso típico do portuga chamado Manuel, dono de uma padaria chamada Lisboa…). O que gostaria de saber seriam os detalhes, as circunstâncias todas e isso só com ele (veio com quem, por que metade da família ficou, ele era da parte pobre dos Ribeiro?, etc.). Acho que sempre fomos realistas. Já tive contatos com descendentes de ucranianos que eram parentes da princesa Anastácia… Outros diziam que ela estava no navio que os trouxera. Já ouvi narrativas de imigrantes italianos que eram nobres e ricos, muito ricos na Itália. Ora, ninguém vinha para o Brasil por ser rico. Há poloneses com histórias incríveis também. Lendas e lendas.

Diziam que meu avô era um grande piadista e bem-sucedido mulherengo. Nas fotos, sempre sorri muito. Era mais bonito do que meu pai e eu. Morreu em 1960, quando eu tinha 3 anos. Parece que ficou muito feliz quando soube que se segundo neto era varão, pois tal fato garantiria a continuidade do nome Ribeiro, um sobrenome raro, exclusividade nossa. Não lembro de nada, mas soube que ele gostava de me atirar para o alto e depois pegar, coisa que sempre fiz com meus filhos. Costumava amarrar fios em notas de dinheiro que deixava na calçada em frente à padaria. As brincadeiras do filho eram mais punks, meu pai tinha a mania de cuspir em quem afagava seus belos cachinhos. As pessoas concordam que minha avó, Maria Nazaré, prima-irmã do marido Manuel e que morreu em 1954, era uma santa. E eu tenho a cara dela, como minha mulher descobriu, surpresa. Todos gente comum. Sua filha, minha tia, aprendeu a tocar piano e era professora do instrumento; mas quem adorava música era meu pai, que chegou a compor valsas… Uma delas, Férias de Julho, era dedicada a mim e minha irmã. Sei a melodia até hoje. Às vezes, ele sentava no piano e dava um recital de… Férias de Julho. (Era uma geração de pianistas. Minha mãe também tocava, preferencialmente tangos, fato que fez com que seu professor – o maestro Leo Schneider – fechasse violentamente a tampa do piano em suas mãos. Ela estava divertindo as meninas do internato que dançavam quando chegou o maestro. Ele queria que ela tocasse apenas clássicos, não aquela música degenerada…) Mas, voltando à nossa casa, um dia, o piano sumiu. Todos o haviam abandonado e o utilizavam para largar suas coisas. Minha mãe se irritava com aquilo e vendeu-o.

Há um escritor na família. Era irmão de minha avó, viveu sua vida no Rio de Janeiro e atendia pelo nome artístico de Cardoso Filho. Meu pai achava seus livros uma merda.

Então, em resumo, não conheci quem me deu a cidadania, apenas os filhos dos imigrantes. Do ponto de vista cultural, herdamos muitas coisas deles – do ponto de vista material, puf! –, mas quem deverá aproveitar a cidadania é minha filha, que poderá utilizá-la para estudar fora, se quiser. Meu filho tem 18 anos e não obterá vantagens por ser maior de idade. E eu, quando for à Europa, agora não preciso mais entrar na fila dos não comunitários, serei considerado cidadão de primeira linha. Além do mais, na improvável hipótese de desejar ir aos EUA, entro direto sem me humilhar no Consulado em São Paulo.

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A Máquina de Ser, de João Gilberto Noll

Eu teria tudo para gostar de João Gilberto Noll. Ele escreve indiscutivelmente muito bem, tem uma voz pessoal, distinta e acho-o muito inteligente nas entrevistas — cheguei a fazer anotações durante algumas para não esquecer de respostas especialmente brilhantes. Como se não bastasse, ele é portoalegrense como eu e, como eu, ainda vive na cidade. Mais: com surpreendente freqüência, vejo-o entrar nas mesmas sessões de cinema que eu e, na penúltima, ainda na fila do ingresso, pude observá-lo abrir a bolsa para pegar A Máquina de Ser com uma cara que interpretei de como de desaprovação. Ele lia a página 114… Mas Noll é uma pessoa reservada; ou seja, nossa “relação” nunca irá evoluir para o diálogo.

Comecei dizendo que teria tudo para gostar de seus livros e sigo confessando estar cansado de seu narrador, sempre na primeira pessoa do singular. “Há pouco tempo descobri que o meu protagonista é sempre o mesmo”, disse ele à Entrelivros. Puxa, ele descobriu isto só há pouco tempo?

Este narrador é alguém que observa-se na solidão e daí parte. Nesta coletânea de 24 contos, houve momentos de entusiasmo e de decepção e não é casual que os momentos mais satisfatórios foram aqueles em que Noll conseguiu afastar-se do protagonista que conta a história.

O que me incomoda é que tal narrador solitário leva a história a situações previsíveis, ao menos para mim, que conheço quase toda a obra do gaúcho. Imaginem que quando ele parte de sua solidão para um situação maior, consigo prever até a linguagem que ele vai utilizar para se encalacrar lá. Fica chato e nem a prosa inventiva do autor me salva do enfado.

Li algumas outras opiniões e ninguém parece ter restrições a este narrador e nem dizem que os contos são bastante desiguais. Deve ser um problema meu. Belos contos que demorarei a esquecer são O berço, Alma naval, Noturnas doutrinas, Rudes romeiros, Biombos, Na divisa, A máquina de ser e Na correnteza. Como disse acima, são contos onde o eterno narrador de Noll ou está excepcionalmente de folga – caso de O berço – ou está em conflito com outros personagens. Porém, ao menos minha relação de melhores contos de A Máquina de Ser está de acordo com quase todas as outras listas, o que me faz pensar se não está todo mundo enjoado do tal narrador.

Num livro tão bem escrito por Noll e bem cuidado pela Nova Fronteira, acho inconcebível que a segunda metade da “orelha”, escrita por Paulo Scott, não tenha sido censurada. É inútil ler aquele amontoado de adjetivos e analogias que só serve para dar a impressão de que trata-se de um ajuntamento mal costurado de histórias sobre todos os temas do mundo, o que não é absolutamente verdade.

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Bill Evans, Waltz for Debby

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