Não querem ser mães — e não são incompletas por isso

Não querem ser mães — e não são incompletas por isso

Não ter filhos é uma escolha tão legítima como ter. E pode ser um caminho de felicidade. Duas realizadoras espanholas mergulharam no “tema tabu”, reviraram preconceitos, descobriram histórias surpreendentes. Documentário [m]otherhood estará pronto em menos de um ano. Para desmistificar a maternidade como um conto de fadas

Do Publico.pt (Portugal)

Imagem do documentário [m]otherhood
Imagem do documentário [m]otherhood

A existência de um “instinto maternal” é para a filósofa Elisabeth Badinter “o maior engano da humanidade”. A mulher, ao contrário dos outros animais, não nasceu para ser mãe. E acreditar nisso, diz, é um “absurdo incrível”. Maribel Castelló adora crianças, é parteira num hospital de Valência, mas ser mãe está para ela fora de questão. Sarah Ficher, jornalista alemã, deixou meia Europa em choque ao dizer preto no branco, no livro Die Mutterglück-Lüge: Regretting Motherhood, por que razão se arrependeu de ser mãe. Estes são apenas três dos muitos depoimentos recolhidos por Inés Peris e Laura García para [m]otherhood, um documentário que quer mostrar que a escolha de não ter filhos é tão legítima como a de ter. E que sim: uma mulher pode ser “completa” sem ser mãe.

A ideia começou a surgir na cabeça da realizadora Inés Peris quando, de tão insistente, a “pressão social” para ser mãe se tornou incomodativa, contou por e-mail. Alguns amigos e conhecidos faziam-lhe a “eterna pergunta”: Quando serás mãe? Outros iam mais longe e atiravam comentários em tom de sentença: “Se te va a pasar el arroz” (o que, em português, será o equivalente a “estás a ficar fora de prazo”). Inés começou a prestar mais atenção ao assunto. Perguntou a amigas se passavam pelo mesmo. Procurou artigos, bibliografia. Investigou. E descobriu um enorme “vazio” no meio audiovisual: o tema era praticamente ignorado. Ao comentá-lo com a também realizadora Laura García, a viagem começou: juntas, estão a explorar o lado b da maternidade para contar o que ainda não foi contado.

A existência de uma grande pressão social para ser mãe não deixou a dupla surpreendida. Elas próprias passavam por isso. Mas a investigação trouxe à luz factos que foram, até para elas, algo inesperados. No processo de recolha de material, conheceram mulheres que têm tanta certeza sobre o facto de não quererem ser mães que estão dispostas a submeter-se a uma intervenção médica de esterilização definitiva. E muitas mulheres e homens que vêem a reprodução como um tema ambiental e de responsabilidade colectiva: alguns decidiram não ter filhos porque fazê-lo, no primeiro mundo, significa um perigo para a sustentabilidade do planeta.

Ainda um tabu?

Inés e Laura queriam perceber se a maternidade — e a opção de não ser mãe — continuava a ser uma questão envolta em tabus. E mesmo antes de partir para o terreno foram percebendo que sim quando, ao comentar com amigos e conhecidos o projecto que tinham em mãos, eles reagiam:

– Isso é muito interessante… mas sabem mesmo onde se estão a meter?

Não havia dúvidas quanto ao ponto de partida: “Claro que é [um tema tabu]”. Considera-se que uma mulher que decide não ter filhos tem algum problema psicológico, porque não é ‘natural’ não o querer. A partir daí, criam-se uma série de ideias pré-concebidas que ligam estas mulheres a pessoas que odeiam crianças ou que querem alcançar um elevado estatuto profissional, tipicamente masculino, a qualquer preço”, escreveram, a quatro mãos, ao P3. Algumas mulheres, contam, chegam a ser chamadas “alpinistas” ou, no mínimo, “ambiciosas” (no mau sentido da palavra) quando decidem não ser mães. “Isto acontece porque, tradicionalmente, a identidade feminina está muito marcada pela maternidade, sem a qual uma mulher seria sempre incompleta.”

A existência destes tabus não é um problema teórico. As realizadoras de [m]otherhood acreditam que eles se transformam em vários tipos de discriminações. “A mais direta” vinda diretamente da família e amigos: “As mulheres sem filhos são, em geral, menos tidas em conta, por exemplo nas decisões tomadas entre irmãos quando estes já são adultos”, contam. “Mais subtil” é a marginalização no local de trabalho e na sociedade em geral. E as etiquetas que lhes vão colando: são por muitos considerados egoístas, masculinas, ambiciosas ou incapazes de amar incondicionalmente. As realizadoras espanholas ilustram: “Nos meios de comunicação e outros espaços que geram conteúdos simbólicos como o cinema , as mulheres sem filhos são vistas como personagens más e socialmente discriminadas.” O exemplo clássico: a Cruella de Vil, vilã do filme 101 Dálmatas.

No próprio documentário — atualmente em produção e com lançamento previsto para o o final de 2017 ou início de 2018 —, a britânica Jody Day, criadora de Gateway Women, explica que estes preconceitos são “muito nocivos porque entram na nossa mentalidade desde que somos crianças”. Por isso, Inés e Laura gostavam de ver outras visões a serem divulgadas: “Precisamos de modelos positivos de mulheres sem filhos para que a sociedade se dê conta de quanto podem estas mulheres dar à vida colectiva e para que elas próprias tenham modelos com os quais se possam identificar e se sintam mais realizadas pessoal e socialmente.”

É que o lado nocivo destes discursos é algo para levar muito a sério. Muitas vezes, lamentam, estas mulheres experienciam “sentimentos de falta de identidade e pertença, porque quase não existem na sociedade modelos positivos que as representem”.

Maternidade = felicidade?

Voltando aos mitos. Há um que as duas realizadoras gostavam de ver definitivamente descomposto: o de que a maternidade é sinônimo de felicidade para todas as mulheres. Não é, dizem. “Normalmente, não se fala do facto de algumas dessas mães sentirem que têm de suportar a maior parte do peso, do esforço que significa ter uma criança. Nem do facto de o companheiro não assumir uma responsabilidade semelhante.” Outras sentem ainda que “o conto de fadas que lhes tinham contado não é bem assim e que a maternidade tem aspectos muito duros e dolorosos dos quais não se fala”. Ou, mais ainda, “declaram ter-se arrependido de serem mães”.

Orna Donath, socióloga israelita, é uma das entrevistadas do documentário. Em 2016, publicou um estudo com 23 mães que afirmavam ter-se arrependido de ter filhos — ainda que isso não significasse que não gostavam deles. “Elas explicam algo que a sociedade parece não estar preparada para encarar, já que a maternidade está idealizada socialmente e parece impossível que uma mãe possa dizer que, se soubesse o que significava a maternidade, se soubesse o que sabe agora que é mãe, teria decidido não ter filhos.”

Para as espanholas, este trabalho não só é importante para dar voz a estas mulheres como é essencial para pôr outras perspectivas em cima da mesa: saber que opções existem “pode ajudar a decidir melhor qual o caminho que elegemos para a nossa vida”. Porque, defendem, qualquer um é legítimo.

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Seria demais pedir grandeza ao senador Lasier Martins?

Seria demais pedir grandeza ao senador Lasier Martins?
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro
O senador gaúcho Lasier Martins | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro

Raul Ellwanger, em seu perfil do Facebook, raciocinou com lógica. Colocando-se no lugar do senador Lasier Martins, descreveu com clareza o que faria uma pessoa digna. Se Lasier garante e berra que sua mulher mente sobre as agressões que teria sofrido, deveria pedir licença do Senado, liberando-se do foro privilegiado. Ato contínuo, solicitaria investigação como cidadão comum pela Lei Maria da Penha. Seria exemplar, altivo, bonito, e talvez satisfizesse seus 2.145.479 eleitores, se estes estão realmente ligados em outra coisa que não no Jornal do Almoço.

Mas não. Ele se defende na tribuna, coisa que sua esposa não pode fazer, para gritar que o caso é “um conflito conjugal”, assunto da vida privada, e jurar que jamais agrediu uma mulher. Também acho que em problema de marido e mulher, não se deve meter a colher, mas houve uma denúncia então o caso virou um vaudeville, senador. É natural que a coisa esteja e seja pública, senador.

Hoje, soube que o escritor Luiz Paulo Faccioli criou um abaixo-assinado pedindo a renúncia de Lasier. Coloco o texto de Faccioli ao final deste post. Ele também clama por alguma grandeza por parte do senador. Não ocorrendo tal fato, tendo a pesar que Janice Santos não tem nada de louca — como acusou Lasier –, e que tem minuciosa razão em tudo o que disse. E desta vez nem vou nem reclamar que o Sr. assina coisas sem ler, tá?

Acabo de saber que, na contramão do combate à violência contra a mulher travado diariamente no país, a senadora Ana Amélia Lemos (PP) saiu em defesa do conterrâneo e ex-colega de RBS, senador Lasier Martins (PSD). “É muito difícil, num caso estritamente pessoal e particular, íntimo, porque é a sua palavra e a palavra da pessoa que o denunciou”, ela disse. Discordo, senadora, há corpo de delito e testemunhos. Não é briga de bugios.

Abaixo, o texto de Faccioli em seu abaixo-assinado:

Não fui eleitor do jornalista Lasier Martins na eleição para o Senado Federal, mas ele está sentado na cadeira de Senador da República para representar o estado do Rio Grande do Sul, portanto ele me representa, mesmo contra a minha vontade. Penso que, como cidadão gaúcho, estou no meu mais absoluto direito de exigir sua renúncia a partir de fatos recentes noticiados pela imprensa. Lasier Martins tem dado provas sobejas de que não honra o cargo que ocupa. Admite que assinou sem ler um documento de extrema importância, contrariando a razão de ser de sua atividade parlamentar e me deixando em dúvida sobre o que é pior, se verdadeiro o que ele afirmou ou se apenas uma mentira rasa para justificar a falta de caráter. Nesta semana foi obrigado a sair de casa, o apartamento funcional que o Estado paga para ele em Brasília, por decisão do STF, por causa de uma separação litigiosa e uma denúncia de agressão física por parte da esposa. Lasier Martins é uma vergonha e sua presença no Senado, uma afronta ao povo gaúcho! Haverá sempre alguém a argumentar que existem exemplos ainda mais vergonhosos protagonizados por Senadores vindos de outros estados da Federação. Mas eles não estão sob nossa jurisdição e não representam o RS nessa instância legislativa. Portanto, clamo aqui pela renúncia do Senador Lasier Martins, que será interpretada como um ato de grandeza e tentativa de salvar uma parte de sua questionável biografia.

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Darwin, Dickens e Thomas Mann só trabalhavam quatro horas por dia

Darwin, Dickens e Thomas Mann só trabalhavam quatro horas por dia

Nota do blogueiro: É uma pena não ser criativo como esses caras. Se fosse, saberia como viver.

De Carey Dunne, traduzido resumidamente por mim. Retirado daqui.

De acordo com um crescente movimento contra a postura workaholic, a chave para uma maior produtividade poderia ser trabalhar menos horas. A obra Em descanso: Por que você produz mais quando trabalha menos, do consultor Alex Soojung-Kim Pang, defende uma jornada de trabalho de quatro horas. “Décadas de pesquisa demonstram que a correlação entre o número de horas trabalhadas e a produtividade é muito fraca”, diz Pang, um estudioso visitante da Universidade de Stanford e fundador da Restful Company.

Um estudo do Instituto de Tecnologia de Illinois, ainda na década de 1950, descobriu que os cientistas que trabalhavam 35 horas por semana eram menos produtivos do que seus colegas de 20 horas por semana, enquanto que os trabalhadores que suavam 60 horas eram os menos produtivos de todos. Pesquisas mais recentes concordam.

“Algumas empresas, incluindo a Tower Paddle Boards, bem como muitas empresas na Escandinávia, descobriram que seus negócios cresceram — e a satisfação dos funcionários aumentou — depois de cortar as horas de trabalho dos funcionários”, diz Pang.

As rotinas diárias de alguns dos pensadores mais influentes da história também apoiam a noção de que estar descansado é crucial. “Quando você examina as vidas das figuras mais criativas da história, você se confronta com um paradoxo: eles organizam suas vidas em torno de seu trabalho, mas não seus dias”, escreve Pang.

O País da Cocanha, tela de Pieter Bruegel
O País da Cocanha, tela de Pieter Bruegel

Pelos padrões de hoje, o ritmo do naturalista britânico Charles Darwin e do escritor Charles Dickens era digno de vadios ou, no mínimo, de gente preguiçosa. Eles trabalhavam apenas de quatro a cinco horas por dia. O mesmo faziam os escritores Alice Munro, Gabriel García Márquez, W. Somerset Maugham, Anthony Trollope e Peter Carey, o cientista John Lubbock, o diretor Ingmar Bergman, o artista Arthur Koestler e o matemático Henri Poincare. “As horas que esses luminares gastavam em descanso deliberado”, Pang afirma, “eram tão importantes para seu trabalho como o tempo gasto realmente trabalhando. Quando paramos e descansamos adequadamente estamos investindo em criatividade”.

Enquanto muita gente queima pestana até tarde, as rotinas diárias desses escritores, matemáticos e cientistas deveriam encorajar você a deixar o trabalho mais cedo e descansar um pouco.

Em seus 73 anos, Charles Darwin conseguiu publicar 19 livros. Seu último, A Origem das Espécies, é possivelmente o volume mais influente na história da ciência. O tempo que Darwin passou fazendo trabalho científico — teorização, escrita e experimentação — geralmente consistia em apenas três períodos de 90 minutos por dia. Depois de uma curta caminhada matutina e café da manhã, Darwin trabalhava das 8h às 9h30, momento em que ele fazia uma pausa para ler, escrever cartas e ouvir um romance sendo lido em voz alta. Às 10h30, ele retornava ao trabalho e parava ao meio-dia para uma caminhada curta por Sandwalk, um local de Down, perto de Londres. Depois do almoço, mais cartas, uma sesta de uma hora e um lanche. Ele apenas retornava ao escritório entre às 16h às 17h30. Depois, convivia com a família e jantava.

“Se Darwin quisesse assumir um cargo numa universidade atual, jamais seria aceito”, escreve Pang. “Se ele estivesse trabalhando em uma empresa, seria demitido em uma semana.”

G.H. Hardy, um dos principais matemáticos da Grã-Bretanha no início do século XX, iniciava seu dia com café e uma leitura atenta das páginas de esportes dos jornais. Depois se concentrava na matemática das 9h às 13h. Jogos de tênis e longas caminhadas enchiam suas tardes. “Quatro horas de trabalho criativo por dia são o limite para um matemático”, defendia ele, de acordo com Pang. Um colaborador próximo de Hardy, John Edensor Littlewood, concorda, dizendo que a concentração necessária para fazer um trabalho sério era de “quatro horas por dia ou no máximo cinco, com pausas a cada hora”.

Depois de uma juventude notívaga, Charles Dickens, autor de mais de uma dúzia de romances, adotou uma programação chamada por ele de “metódica e ordenada”. Das 9h às 14h, ele escrevia em absoluto silêncio, Depois, almoço, diversão e nada de escrever.

O escritor alemão e prêmio Nobel Thomas Mann, que publicou o aclamado romance Buddenbrooks aos 25 anos, fechava-se em seu escritório diariamente das 9h até às 13h para trabalhar em romances. “Escrevo duas páginas por dia, não menos, não muito mais”. Após às 13h, só leitura, correspondência e passeios”, escreveu Mann. À noite, não todos os dias, ele passava mais uma hora revisando a produção matinal.

Em uma entrevista de 1984 para a The Paris Review, a escritora irlandesa Edna O’Brien falou sobre sua rotina diária de quatro horas de escrita: “Eu me levanto pela manhã, tomo uma xícara de chá e entro nesta sala para trabalhar. Nunca saio para almoçar ao meio-dia, nunca, mas eu paro em torno das 13h e 14h. No resto da tarde, dedico-me a coisas mundanas. À noite, eu leio, vou a uma peça de teatro ou a um cinema ou visito meus filhos. Nunca trabalho à noite.

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Em ano cheio de feriadões, prepare-se para três consecutivos em abril

Em ano cheio de feriadões, prepare-se para três consecutivos em abril

Esqueçamos por ora do Carnaval, do governo Temer, do Jucá, dos Renans, Maias e Sartoris. Façamos uma pausa na discussão destas Reformas obscenas.

O fato é que este primeiro semestre traz ainda quatro datas que permitem feriadão. E que vão ocorrer logo! O mês de abril terá três finais de semana seguidos com feriados prolongados, levando-se me conta o primeiro de maio.

As folgas consecutivas começam no dia 14 de abril, sexta-feira, quando se celebra a Paixão de Cristo. Exatamente uma semana depois, no dia 21 de abril, obviamente também numa sexta-feira, o calendário traz o feriado de Tiradentes. Mas há mais: o sábado e o domingo seguintes — 29 e 30 de abril — se unem miraculosamente à segunda-feira em que se comemora o Dia do Trabalhador. Um feriado religioso; outro histórico-político e um terceiro cheio de justiça e razão.

Fechando o semestre, haverá mais um feriado chega para animar a festa. Seja lá o que for, teremos a celebração católica de Corpus Christi (sempre uma quinta-feira) em 15 de junho. É um feriado opcional, mas não queremos nem saber.

No segundo semestre, há várias quintas-feiras que serão feriados. Ou seja, haverá todo um leque de possibilidades de folga.

Feriados em 2017

Confira abaixo feriados e pontos facultativos de 2017 a partir de abril:

  • 14 de abril (SEX):
    Paixão de Cristo (feriado nacional)
  • 21 de abril (SEX):
    Tiradentes (feriado nacional)
  • 1º de maio (SEG):
    Dia Mundial do Trabalhador (feriado nacional)
  • 15 de junho (QUI):
    Corpus Christi (ponto facultativo)
  • 7 de setembro* (QUI):
    Independência do Brasil (feriado nacional)
  • 12 de outubro (QUI):
    Nossa Senhora Aparecida (feriado nacional)
  • 2 de novembro (QUI):
    Finados (feriado nacional)
  • 15 de novembro (QUA):
    Proclamação da República (feriado nacional)
  • 25 de dezembro (SEG):
    Natal (feriado nacional)

feriado

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A Playboy ainda existe e até cria uma marolinha de confusão

A Playboy ainda existe e até cria uma marolinha de confusão

Eu nem sabia que a revista Playboy ainda existia. Então, quando surgiu a notícia de que eles colocariam uma gorda na capa, fiquei sem entender se era um relançamento em forma de paródia ou a própria revista. Sim, porque os padrões de beleza das revistas e da TV ignoram totalmente as mulheres acima do peso. E há lindas. Então, achei divertido que a certamente combalida Playboy fosse na direção contrária ao convencional corpo de modelo e também do horrendo — na minha opinião — padrão fitness. Mas o que não entendi mesmo foi o coral daquelas mesmas pessoas que antes reclamavam da objetificação deste gênero de publicações: agora o coro dizia a moça arrasaria, que ia se empoderar. Ri e esqueci da conversa.

Só que a revista recuou e colocou a plus size — termo aparentemente aceitável pelo politicamente correto — apenas na capa da edição digital… Exposta nas bancas, pode-se ver a habitual magra sem graça, fato que chocou a turma que estava aplaudindo e recolocou a revista na posição anterior de objetificadora e machista. Eu achei uma sacanagem com a Fúlvia Lacerda.

Então, quem procurava por isso nas bancas,

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encontrou isso.

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Ri novamente. Um jornalista escreveu: “A gorda é pra sair escondido. A de andar de mãos dadas na rua é a magra. A Playboy só reforçou isso”

De minha parte, digo apenas que as fotos da magrelinha fitness me faria procurar os artigos preenchidos por letrinhas na revista. Deve ter, né? Afinal, próximo do traseiro da menina, logo abaixo da envergonhada menção à Fúlvia, está anunciada uma entrevista com o ex-Secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Talvez seja interessante.

 

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Por um Judiciário menos desafinado!

clipboard01Ai ai que bom,
o Judiciário existe;
lutar, vencer,
é por você
que a gente persiste

É de chorar de rir a hiperkitsch auto-homenagem que servidores e magistrados do Tribunal de Justiça de Sergipe cometeu. Eu estava ouvindo o clipe e, ao mesmo tempo que ria, baixava o som para que as pessoas que moram comigo não ouvissem os disparates. Pois há a desafinação e há a letra… A canção que serve de base é We Are The World, sucesso de promoção de bons sentimentos gravado nos anos 1980 por um grupo norte-americano de estrelas pop. A autoria do original é de Lionel Richie. Esperamos que ele não tenha ouvido o desastre. A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de Sergipe apressou-se a informar que a gravação do vídeo não teve nenhum custo aos cofres públicos e que, bem, ele foi exibido durante um Encontro de Planejamento Estratégico, em agosto.

Viram? Muitas metas a cumprir causam estresse e podem resultar nisso.

Charlles Campos completa: Devia se fazer um vídeo de resposta por parte da população carcerária, que tem suas penas vencidas mas que continua presa, e todos os querelantes que aguardam anos seus processos parados na mesa dos juízes da comarca. Sugiro uma adaptação de “I have a dream”, do Abba.

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Concerto da Ospa tem desnecessários insultos de cunho sexista

Concerto da Ospa tem desnecessários insultos de cunho sexista
Carla Cottini
Carla Cottini

É claro que Carla Cottini é bonita e eu estou longe de ser insensível à beleza das mulheres, só que há limites para as expressões de admiração, ainda mais dentro de um teatro. Quem chama de gostosa na rua ou assobia, na verdade está proferindo um insulto. Não tem graça, não aproxima, não nada, é pura ofensa, é dizer e sair correndo. Dia desses, uma colega reclamou que, toda vez que come um picolé na rua, ouve as óbvias grosserias associadas ao ato de lamber. Chamar de gostosa num momento íntimo é uma coisa, ser chamada de gostosa por desconhecidos é outra. É a falsa cantada que revela não somente descontrole e impaciência, mas também desinteresse real, agressividade, frustração e raiva por não poder meter a mão. E não pode mesmo, meu amigo. Acreditava que tudo isto estava claro, ainda mais para uma plateia que vai ver uma Cortina Lírica no Theatro São Pedro.

Pois ontem o soprano Carla Cottini apresentou-se no velho teatro com a Ospa. Linda, num raro vestido de bom gosto, ela ia mostrar sua arte e oferecer sua voz, não seu corpo. (Explico o “raro”: as divas costumam exagerar e ultrapassar por metros a linha da elegância. Ela não.) Mas recebeu assobios de significado inequívoco em sua primeira entrada e, depois, quando concentrava-se para soltar a voz, um espectador atroz largou um suspiro daqueles bem vulgares e inoportunos. Carla respondeu com um sorrisinho sem graça e tratou de ser profissional. Conseguiu.

Intermezzo: O público do Theatro São Pedro é de contumaz baixo nível. Aplaude entre os movimentos, faz comentários em voz audível, etc. É bem diferente do que acontece na Ufrgs. Fim do intermezzo.

Para mim, é um prazer ver uma bela mulher, ainda mais quando canta maravilhosamente como Carla. Também é um prazer ver qualquer um ou uma cantando maravilhosamente, mas confesso preferir o primeiro caso. Porém, quando um machinho imbecil assobia ou faz sons pseudo-sensuais em pleno teatro, não é engraçado e ainda faz com que todo fascínio caia escada abaixo. É bagaceiro, nada tem a ver com a arte. Agora, meu amigo, se tu precisas mesmo homenagear a moça, há bons banheiros no Theatro São Pedro e eles aceitariam silenciosamente tua masturbação. E seria menos escroto.

.oOo.

O clarinetista da Ospa Augusto Maurer, presente no concerto, já tinha escrito o mesmo em seu perfil do Facebook:

Sabem quando se sente vergonha alheia? Como ontem, no apupo à soprano por parte de um engraçadinho na cortina lírica da OSPA no Theatro São Pedro.

Só hoje li, ao arquivar o programa (pois presto pouca atenção a currículos artísticos, facilmente maquiáveis), que a moça, assídua solista nas raras casas de ópera nacionais, estudou canto na Espanha e também tem formação em artes cênicas, ballet clássico e jazz. Juro que não sabia onde me esconder. Orgulho de ser gaúcho.

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O Juramento de Hipócrates

O Juramento de Hipócrates

Há muitas versões, mas esta é a utilizada atualmente. É a Formulação de Genebra, adotada pela Associação Médica Mundial, em 1983. Leia abaixo o Juramento, mas principalmente a frase em negrito:
simers

Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade.

Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.

Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.

A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação.

Mesmo após a morte do doente respeitarei os segredos que me tiver confiado.

Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica.

Os meus Colegas serão meus irmãos.

Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente.

Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início, mesmo sob ameaça e não farei uso dos meus conhecimentos Médicos contra as leis da Humanidade.

Faço estas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra.

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Em razão do impacto ambiental, cidade alemã bane o café em cápsula

Em razão do impacto ambiental, cidade alemã bane o café em cápsula

Roubado daqui.
cafe 1

No princípio dos tempos era um inferno fazer café. Você era obrigado a usar coador de pano, um troço nojento que vinha em duas opções: sabor de 10 mil gerações de bactérias proliferando naquele pano de chão marrom, ou sabor de sabão, pois era impossível lavar direito.

Pra piorar você ainda tinha que esperar a água ferver e então despejar com precisão cirúrgica a água quente, mexendo o pó no fundo pra água não minar pelos lados e seu café virar água suja. A chegada da cafeteira elétrica e do coador de papel trouxe civilização ao café, mas os hipsters sedentários acham isso complicado demais, e inventaram isto:

cafe 2

Convenhamos, se o marido da dona Amal recomenda não pode ser coisa ruim.

É bem prático, admito, mas quem bebe café em quantidade industrial como eu se ressente de pagar R$ 2,00 por um cafezinho. EM CASA. E tem outro problema: essas cápsulas são um inferno pro pessoal da reciclagem. Manja quando mandam separar papel, metal e material orgânico? Uma cápsula dessas, com plástico, alumínio, papel e café usado é a amálgama de tudo que precisa ser separado.

Não existe ainda método prático para reciclar essas cápsulas, que estão se acumulando nos lixões. São 6 gramas de café para cada 3 gramas de cápsula, que nem biodegradável é. A situação é tão punk que John Sylvan, inventor da cápsula de café se arrependeu de sua criação, e nem tem uma cafeteira dessas em casa, diz que sai “meio caro”.

cafe 3

As pessoas têm consciência do impacto ambiental das cápsulas, mas elas são terrivelmente práticas: espere sentado se acha que alguém vai se coçar e voltar a usar filtro de papel, como um selvagem.

A atitude desta vez está vindo de cima para baixo: a cidade de Hamburgo votou por banir cafeteiras de cápsulas em todos os prédios públicos. É um começo, uma excelente atitude que tem o bônus de irritar um monte de hipsters. Deveria ser imitada por muito mais governos e empresas. Eu sou o último a fazer discurso de ecochato, mas quando o dano é evidente, fica difícil não concordar.

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O beijo na boca é universal?

O beijo na boca é universal?

Romeu – Em tua boca me limpo dos pecados. (Beija-a.)
Julieta – Que passaram, assim, para meus lábios.
Romeu – Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.
Julieta – Beijais tal qual os sábios.

WILLIAM SHAKESPEARE — Romeu e Julieta, ato I, cena V.

beijo na boca

Estudo prova que o beijo na boca é usado em menos de metade das sociedades humanas.

A sugestão de que o beijo no lábios era uma fonte de prazer universal para os humanos era recorrente. Afinal de contas, os chimpanzés e os bonobos fazem-no, e até abrem a boca e usam a língua. Mas não é verdade. Um estudo de William Jankowiak e Justin R. Garcia, publicado em julho de 2015, mostra que esse gesto apenas se encontra em menos de metade (46%) das 168 culturas estudadas pelos autores. Pelo contrário, outros tipos de beijos são usados por 90% das populações.

Parece haver alguns padrões para esta diferença. Por exemplo, em sociedades com diferentes classes sociais o beijo na boca costuma ser usado, mas em sociedades, como de caçadores, com pouca ou nenhuma estratificação social, não é comum. Isso demonstra que o beijo nos lábios é uma forma de demonstração de carinho muito culturalmente variável.

Por outro lado, como as tribos de caçadores costumam ser usadas como espelho das sociedades passadas, parece ser razoável, defendem os autores, que o beijo “romântico” tenha surgido numa altura relativamente recente da história humana. Uma exceção a esta conclusão dos autores do estudo é que em nove das onze comunidades do Círculo Polar Ártico as pessoas beijam-se.

A origem, ou origens, evolutivas dos beijos são desconhecidas. Os autores falam tanto em teste de saúde de potenciais parceiros através do paladar ou, simplesmente, para testar o interesse romântico e compatibilidade sexual entre potenciais parceiros.

A referência mais antiga a um beijo na boca é numa escritura em sânscrito com 3.500 anos chamada Vedas. Jankowiak e Garcia descrevem, num artigo no portal Sapiens, que quando as tribos Thonga da África do Sul ou os Mehinku na Amazônia viram pela primeira vez dois europeus beijando-se, reagiram com repugnância perante comportamento tão nojento.

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Designer cria vibrador em que é possível guardar cinzas do falecido

Designer cria vibrador em que é possível guardar cinzas do falecido

Uma empresa de design criou um vibrador especial em que é possível guardar as cinzas do falecido. Além disso, o produto criado pelo designer holandês Mark Sturkenboom, inclui um compartimento para guardar iPhone e um difusor de aroma. O produto recebeu o nome de “21 Gramas”, já que é possível armazenar até 21 gramas de cinzas. A caixa na qual vem o vibrador é feita de madeira e polida à mão. Ela conta como uma chave banhada a ouro, que pode ainda ser usada como um colar.

“21 Gramas é uma caixa de memória que permite que uma viúva resgate as memórias íntimas de um falecido querido”, explicou Sturkenboom, que exibiu essa e outras criações na Semana de Design de Milão, na Itália.

vibrador cinzas falecido

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Um leigo lendo sobre assédio moral

Um leigo lendo sobre assédio moral

Por pura curiosidade (ou necessidade interna), eu, que gosto de ler só ficção ou ensaios sobre ficção, comecei a ler livros e publicações sobre dois outros assuntos: psicopatia e assédio moral. Procurei tanto livros quanto publicações esparsas na internet. Bem, psicopatia é uma coisa e assédio moral é outra. As duas coisas normalmente não estão misturadas e não sou vítima em nenhum dos casos, apenas observo coisas. É claro que eu li textos para não especialistas, mas escritos por gente que trabalha com isso. A coisa virou mania e eu pensava a cada manhã: hoje é assédio ou psicopatia?

Hoje vou de assédio.

Assedio Moral

A discussão sobre assédio moral está chegando com força no âmbito do serviço público e há de se espraiar. O assédio moral é uma coisa que se naturaliza e permanece. É uma forma de violência continuada que consiste na exposição da pessoa a situações constrangedoras e humilhantes, praticadas por uma ou mais pessoas. O comportamento do assediador tem o objetivo de deixar rente ao chão a auto-estima da vítima. Pouco ou nada do que ela faz presta. Ela é ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada, amedrontada, punida, ofendida ou desestabilizada emocionalmente. Sua saúde física e psicológica é colocada em risco, além de ver afetado, é claro, seu desempenho. Por iniciativa do chefe ou de um grupo, normalmente o ambiente se torna um “todos contra um” e o empregador ou seu representante costuma reforçar a pressão com uma bela lógica: Veja bem, se todos estão contra ti, quem está errado?

Obviamente, a vítima fica na dúvida se o problema não será ela. Será que eu atraio este tipo de coisa? Ou será que tudo não é paranoia minha e o que está acontecendo é normal?

O assédio por parte da chefia pode assumir a forma de gritos e humilhações públicas, enquanto que o do grupo aposta mais na propagação de boatos, isolamento, recusa de comunicações, fofocas e exclusão social. O processo é repetitivo e prolongado, minando resistências.

O objetivo é o de pressionar tanto que o assediado acaba por pedir demissão. Muitas vezes o coitado acaba por ser transferido. Porém, no serviço público, do qual não vai se demitir por ter estabilidade e uma melhor aposentadoria, a vítima costuma cair na passividade, ilhada em condições de humilhação e constrangimento. E sofre psicologicamente, muitas vezes deprimindo-se e adoecendo. Então, seus atestados médicos geram desconfiança e… maior assédio.

Às vezes, a própria organização incentiva ou tolera tais ocorrências por achar que vão aumentar a competitividade e produtividade, sendo sinal do tesão do grupo. Em organizações mais avançadas, são motivo de demissão por justa causa.

O assédio nem sempre é intencional. As práticas podem ocorrem com os agressores ignorando que os abusos são uma forma de violência psicológica. Isso não retira a gravidade do assédio moral e dos danos causados às pessoas, que devem procurar ajuda psicológica e/ou jurídica para fazer cessar o problema.

As vítimas de assédio moral não são necessariamente pessoas frágeis ou que apresentem qualquer transtorno. Muitas vezes elas têm características percebidas pelo agressor como ameaçadoras. Uma melhor formação causa inveja. A capacidade crítica também é ameaça — caso tipico: suas sugestões para melhorias no trabalho são primeiro rejeitadas como piadas e depois adotadas como ideias de outrem ou do grupo. As mulheres mais criativas estão dentre os alvos preferidos. Se forem negras ou estrangeiras, pior. Claro, as vítimas habitualmente são de grupos já discriminados na rua: mulheres, homossexuais, pessoas com deficiências, idosos, minorias étnicas.

Mas, como desgraça pouca é bobagem, criatividade e informação costumam estar presentes no perfil da pessoa que reage ao autoritarismo. E o grupo costuma tratar disso.

assedio moral pesadelo

Abaixo, deixo pra vocês a definição de assédio moral retirada de uma cartilha preparada pela ANDES/UFRGS. “Segundo constatação dos estudiosos do tema, há um perfil das vítimas muito marcante: são pessoas que resistem às investidas dos chefes, trabalham mesmo doentes, são capazes e criativas, e em sua maioria mulheres”:

“Caracteriza-se pela degradação deliberada das condições de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, frequentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o ‘pacto da tolerância e do silêncio’ no coletivo, enquanto a vítima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, ‘perdendo’ sua autoestima”.

O documentário abaixo, A dor (in)visível – Assédio Moral no Trabalho, é uma produção do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul (MPT-RS) – Procuradoria do Trabalho no Município (PTM) de Caxias do Sul; do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) em Caxias do Sul; e do Governo Federal.

E é muito ilustrativo.

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Elena e a guerra

Elena veio para o Brasil no começo de 1998. Era verão aqui, inverno na sua Bielorrússia e ela mal falava inglês. O português era-lhe inteiramente desconhecido, mas a vida estava difícil na Europa Oriental, às vezes era complicado até conseguir cumprir as necessidades mais básicas — como, por exemplo, comer –, mas ela tinha uma arma: uma sólida formação musical que a ensinara a tocar maravilhosamente o violino. E ela viajou algum tempo depois de seu marido na época, que já fora aceito na Orquestra do Teatro Amazonas, em Manaus. E Elena foi para o mesmo local a fim de fazer um teste.

Era uma jovem mãe com uma filha de 5 anos e uma gravidez de 5 meses. O avião da Aeroflot chegou 2 DIAS (!!!) atrasado ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, fazendo-a, é claro, perder a conexão para a capital amazonense. Era uma bielorrussa falando russo em Congonhas. Ou seja, ampliando o quadro, era uma mulher falando russo num local onde ninguém a entedia, acompanhada de uma filha pequena, um inquilino na barriga e mais bagagem. A confusão e o nervosismo já tomava conta de nossa heroína quando apareceu uma pessoa que conhecia a língua num balcão que não tinha nada a ver com o problema. A moça se apresentou e encaminhou Elena para Manaus.

Lá chegando, ela não conseguia acreditar. Saíra de Minsk com -35°C e chegara a Manaus com 35°C. Mas não eram só os 70° de variação. Quando saiu do avião, ela teve a sensação de que se chocara contra uma desconhecida parede de calor úmido. E a inacreditável umidade tornava qualquer movimento difícil, ainda mais grávida, com filha e bagagem. Detalhe: e tendo que cuidar de dois violinos — o dela e o da filha –, o que não é o menor problema de um músico.

Mesmo com a notória barriga, foi aceita na orquestra como violinista. Cada vez mais grávida, por assim dizer, e sem saber uma palavra da língua que hoje fala tão bem, costumava tomar banho, levar a filha para passear nas calçadas quentes, sujas e esburacadas da cidade, e voltar para tomar outro banho. E a vida ia se ajeitando. Porém, um dia, ela saiu para a rua e voltou rapidamente para o apartamento. Estava em pânico. É que algo de muito grave tinha acontecido. Entrara em pânico. Não havia ninguém na rua. O que ocorrera? Do que eles, os russos, não sabiam?

De repente, ela ouviu explosões e ficou tão agitada que quase fez Nikolay nascer prematuramente. Viera certamente para um país em guerra. Começou a chorar e a pensar numa forma de proteger a si e à família. Mas as explosões eram apenas a comemoração de um gol.

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Carnaval em Salvador: dez minutos é o tempo para uma rapidinha privê nas alturas

Carnaval em Salvador: dez minutos é o tempo para uma rapidinha privê nas alturas

capsula-durexVocês querem dar uma “rapidinha” no carnaval baiano? Isso será possível no Camarote Salvador. A marca de camisinhas Durex montará uma cápsula privê suspensa a 15 metros do chão onde os casais, quaisquer duplas, poderão entrar. A cápsula estará bem em cima do povão. Lá, será possível fazer de tudo, mas em 10 minutos. Esse é o tempo que cada casal terá dentro da cápsula. Melhor entrar preparado para não ser expulso no seco.

Camisinhas e lubrificantes estarão à disposição dos usuários, dentro da cápsula. Ela já foi testada no Rio em fevereiro de 2014, no Aterro do Flamengo, mas acabou sendo cancelada por falta de alvará.

A coisa começa nessa quinta-feira (12). O blog abstém-se de emitir opinião.

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A tragédia do Sistema Cantareira: mas não era para sermos o celeiro de água do mundo?

A tragédia do Sistema Cantareira: mas não era para sermos o celeiro de água do mundo?

Fico fascinado pelo provável fim do Sistema Cantareira. Mesmo sendo ignorante no assunto, busco informações diariamente. Trata-se de um gênero de tragédia que infelizmente deverá tornar-se comum nos próximos anos. Como o fazer político é cada vez mais campo de empresários e religiosos com uma minoria de quixotes, não vejo como escapar de uma sucessão de tragédias como essa do Cantareira.

Acompanhar o dia-a-dia do Sistema Cantareira é como acompanhar a marcha do placar de um jogo com atualizações on-line. O jogo parece previamente perdido, mas a atração que sinto por observar a decadência da coisa faz-me permanecer atento. Claro que não é uma questão pessoal. São Paulo viverá um cenário de enorme privação, dependente da vazão natural da água, sem reservas, o que fará com que o abastecimento de água ocorra, quem sabe, duas ou três vezes por semana, em horários limitados. E o atual sistema era para atender a 8 milhões de seres humanos.

Entendam, neste cenário, que não está muito longe de ocorrer, a população só será atendida se chover, já que não haverá água nos reservatórios. Como está agora, a matemática reencher o Cantareira e evitar situações extremas não é simples. Depende de chuvas muito acima da média, o que não deverá acontecer devido ao desmatamento, e diminuição do consumo. Não é nada divertido.

Toda esta situação crítica ocorre justamente na maior cidade do país que é — é ainda? — o maior manancial e celeiro de água do mundo. Os políticos, a grande imprensa e o Ministério da Agricultura não gostam de falar nisso, mas o caso do Cantareira é filho do desmatamento.

Existe uma relação entre as árvores, quaisquer árvores, com as chuvas. Basta ver que a mata que ronda Bombinhas, onde estou, gera chuvas diárias. Pouca gente lembra disso. As matas, a arborização urbana ou mesmo as plantas de jardim podem ajudar a aumentar a umidade da atmosfera, gerar nuvens de chuva, reduzir a irritação da poeira no ar e ainda diminuir o calor. E o que ronda o Cantareira é o desmatamento.

Os primeiros lances demonstram o desespero da Sabesp e a estupidez dos políticos. Eles querem apenas a diminuição do consumo, como se isso fosse resolver o problema. Na causa do mesmo, todos evitam falar. A partir da conta de fevereiro, serão cobrados 40% de multa para quem consumir até 20% a mais do que a média entre fevereiro de 2013 e janeiro de 2014. E quem ultrapassar 20% dessa média será multado em 100% sobre o gasto com água, o que representará metade de uma conta certamente alta.

Ampliar a produção de água de outros sistemas, como o do Billings e outros, são alternativas apenas viáveis, segundo os especialistas, a médio ou longo prazo, pois eles não foram projetados para demandas tão altas. Como o Cantareira atende a 8 milhões de pessoas, seria necessária fazer a ampliação dos sistemas existentes além de novas estações de tratamento. São coisas demoradas. Uma alternativa seria a de lançar água não tratada na rede, mas isso poderia contaminar os usuários. Seria água não potável, já pensaram?

Tem gente que fala em êxodo da população da cidade, como num filme americano de bomba nuclear, mas como isso ocorreria? Não sei.

Da raiz do problema — o desmatamento, o descontrole e desrespeito ecológico –, quase ninguém fala. Parece que a culpa é apenas das chuvas e estas são mandadas (ou não) aleatoriamente, por São Pedro.

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Tornar-se um Robinson Crusoe, uma boa ideia para jornalistas

Tornar-se um Robinson Crusoe, uma boa ideia para jornalistas
Moyenne Island Seychelles
Moyenne Island Seychelles

As Ilhas Seychelles estão perdidas no meio do Oceano Índico. Antigamente, eram muito visitadas por piratas. Não há nada próximo. A Moyenne é uma pequena ilha do arquipélago. Tem 9 hectares e fica ao lado da maior das ilhas. De 1915 até os anos 70, o local ficou abandonado, até sua compra por parte de Brendon Grimshaw, um bem-sucedido editor de um jornal de Yorkshire, Inglaterra. O que havia na ilha? Nada nem ninguém.

Até sua morte, em julho de 2012, aos 87 anos, Grimshaw foi o único habitante da Moyenne. Ele comprou a ilha por £8.000 em 1962 e, poucos anos depois, começou a fazê-la habitável. A obra foi feita pelo ex-editor com a ajuda de um local, Rene Antoine Lafortune. Após a primeira ajeitada, eles passaram a cobrar o correspondente a 12 euros por visita, o que daria aos visitantes a chance de vagar pela ilha, jantar com Brendon e relaxar na praia.

Enquanto isso, Grimshaw e seu amigo plantavam dezesseis mil árvores, abriam 3 Km de trilhas naturais, traziam e criavam tartarugas gigantes. Fizeram tudo sozinhos. Também deram respeitosa direção à incrível variedade de vida vegetal e de pássaros naturais da região. A tartaruga mais velha das atuais 120 chama-se Desmond e tinha 76 anos de idade, de acordo com Grimshaw em 2012. Ele a chamava de seu afiliado.

Hoje, a ilha vale 34 milhões de euros. Para melhorar, Grimshaw fez duas grandes escavações e encontrou indícios de esconderijos de piratas, mas nada de ouro. Atualmente, a Moyenne é um Parque Nacional e pode ser visitada como parte de viagens organizadas.

Pois é, após 20 anos de persistência, Grimshaw e seu assistente alcançaram seu objetivo de fazer Moyenne um Parque Nacional, agora conhecido como o Parque Nacional de Ilha Moyenne. Ele abriga mais espécies por metro quadrado do que qualquer outra parte do mundo. A ilha está a 4,5 quilômetros de distância da principal ilha.

Dizia Grimshaw: “Lentamente, as árvores cresceram e consegui água, luz e um cabo de telefone. No começo, nós não estávamos fazendo isso para tornar a ilha em um parque nacional ou qualquer coisa assim. Nós estávamos fazendo isso para torná-lo habitável para mim. Desde o momento em que pus os pés na ilha, sabia que era o lugar certo para eu morar”.

Brendon não foi um recluso. Ele adorava os visitantes e lamentava não ter casado. “Como eu poderia pedir a alguém para viver aqui? Nós não tivemos água corrente durante anos!”.

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Brendon e Rene
Brendon e Rene

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Sobre o caso Idelber Avelar, o recado de um escaldado

Sobre o caso Idelber Avelar, o recado de um escaldado
Fazer o quê? Não resisti à imagem de um pinto triste
Fazer o quê? Não resisti à imagem de um pinto triste

Quando, avisado por um amigo, li o post de Lola Aronovich, fiquei estupefato e estupefato. Estupefato pelo conteúdo que é, no mínimo, altamente privado, e estupefato pela tolice de Lola. Pensei imediatamente nos malefícios da vaidade e no amor aos cliques da paladina. Pois aquilo, na minha opinião, foi um impulso bobo em busca de uma fama que apenas a levará ao pagamento de uma bela indenização. E o pior é que ela, desculpando-se e lamentando falsamente o desassossego que causava a seus leitores, ainda escreveu mais dois ou três posts a respeito do caso. E ainda não os deletou…

Tenho certa experiência nesta coisa de blogs x justiça. Certa vez, ofendi a escritora Letícia Wierzchowski em uma crítica a uma coluna que ela publicou em ZH. Fui processado por ela. Nos primeiros dias, cheio de razão, fiquei indignado, mas logo depois meu travesseiro começou a me dizer umas coisas estranhas e convenci-me de que, bem, ela tinha toda razão em ofender-se. Por um milagre, semanas depois, ela propôs retirar a ação, desde que eu sumisse com os textos. Aceitei imediatamente. Pura sorte, porque iria bailar muitíssimas canções polonesas na justa.

Depois fui processado pela atual vereadora Mônica Leal e, não obstante tivesse boa dose de razão, fui condenado. Paguei a ela um valor bem alto para um pelado como eu. Não pretendia pagar, mas até o inventário da minha mãe estava embargado…

Fico pasmo que Lola, as(os) autora(es) daquele blog O estranho caso do prof. e outros que se manifestaram em termos definitivos de condenação de um “poderoso machista manipulador” — prevendo até mesmo o final da carreira acadêmica de Idelber — não tenham se dado conta de que uma pessoa que não tenha agredido nem forçado fisicamente suas parceiras, não é um criminoso, segundo nossa lei.

Eles terão que provar ou que houve crime em enviar privadamente mensagens e imagens pornográficas ou que Idelber manteve casos com menores. Se não comprovarem isso, melhor prepararem uma boa poupança. Sugiro que passem seus bens para amigos ou parentes. Essas pessoas necessitarão desfazer esta afirmativa do Idelber, feita hoje em seu perfil do Facebook — Sim, gosto de sexo. Sim, falo muito de e faço muito sexo. Com quatro regrinhas claras: consensualmente, com adultas, jamais com chefes ou subordinadas e em privacidade.

Algo me diz que não conseguirão. Várias(os) já estão chamando o professor de arrogante. Mas nenhum juiz condenará a possível arrogância de Idelber.

Finalizando, acho que o Idelber não tem nada a comemorar, nada mesmo, ele só perdeu; mas quem o ataca não tem noção das leis sob as quais vive. Na justiça, há que produzir provas, provas incontestáveis. Vejamos se aparecerão. Acreditem, aqueles prints não valem nada para efeito de justiça.

P.S. — A maioria de meus sete leitores sabem que sou amigo do Idelber. Ele esteve hospedado em minha casa com seus dois filhos e ninguém de minha família foi assediado. Foram três ou quatro excelentes dias. Nada de pintos.

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De como funciona o pacto da mediocridade e outros pactos

De como funciona o pacto da mediocridade e outros pactos

A experiência é real e foi conduzida por um cientista norte-americano chamado Harry F. Harlow (1905-1981). Achei fascinante.

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro colocaram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas.

Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água gelada nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas.

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Passado mais algum tempo, nenhum macaco tentava subir mais a escada, apesar de ser tentadora a visão da fruta predileta tão próxima dos olhos. Então, os mesmos cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que o pobre fez foi subir a escada para colher as belíssimas bananas, sendo retirado de lá imediatamente pelos outros, sob uma chuva de pancadas.

Depois de algumas surras, o novo integrante assimilou a ideia do grupo e não tentou mais subir a escada, apesar de continuar lambendo os beiços cá debaixo.

Um segundo macaco foi substituído, e o mesmo aconteceu, tendo o primeiro macaco substituído participado com alegria e entusiasmo do corretivo que o grupo impôs ao segundo novato.

Um terceiro macaco foi trocado, e repetiu-se o fato. E assim fizeram com o quarto, e finalmente com o quinto e último dos veteranos. Deste modo, todo o grupo foi substituído.

Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.

Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria:

“Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui.”

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Walk On The Wild Side

Walk On The Wild Side

fazendo xixiO título da grande canção de Lou Reed talvez não tenha relação direta com meu assunto. Afinal, o livro de Nelson Algren que inspirou o filme e a canção é uma longa pergunta sobre o motivo que leva algumas pessoas sem rumo a tornarem-se mais humanas e interessantes do que os certinhos. Não vou analisar se eu e a Elena somos certinhos ou não, mas o fato é que nós fazemos algo docemente perigoso quase todas as noites. Quando é possível, a gente sai para caminhar. Simplesmente isso. E vamos aprendendo sobre a cidade.

Não chega a ser um passeio pelo lado selvagem, mas certamente é um passeio sem policiamento. O pessoal do roubo tem nos ignorado nas caminhadas pelo Bonfim e arredores. E têm razão, pois levamos apenas nossos corpos dentro de roupas mais ou menos velhas. Dia desses, fomos até o Garcias`s lá na Av. Praia de Belas, tomamos uma canja e retornamos. O Google Maps diz que foram 3 Km até lá. 6 ao todo. E fizemos tudo isso sem ver um guarda. Digo a vocês, meus queridos sete leitores, que só vi policiamento à noite em nossa cidade nos dias da Copa do Mundo. E lhes digo, quando ela está bem, não é possível impedir que a Elena saia para passear à noite. Ela adora e comecei a gostar também.

Outra coisa. A Elena passou anos andando pela cidade de carona. A vida sem carro é uma novidade para ela. E ela faz elogios à cidade. Quem nasceu aqui não a valoriza, mas ela garante que é uma bela cidade. Ao menos do ponto de vista visual, pois a parte olfativa não é muito boa. A esquina da Santo Antônio com a Irmão José Otão — sim, a Vasco muda de nome na João Telles — tem uma árvore ao lado de um ponto de táxi. A árvore serve como mictório do pessoal. Que tal colocar um banheiro químico ali, prefeito? No fim de semana, próximo ao Bar Beco, a Av. Independência também ostenta um indisfarçável cheiro de mijo. Como há enormes filas para entrar no bar, é óbvio que a garotada se alivia ali mesmo na calçada. O cheiro só fica melhor depois da chuva.

Bem, se fazer xixi a céu aberto é algo selvagem, caminhar nas ruas de Porto Alegre é mesmo Walk On The Wild Side.

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O sucesso estrondoso dos shows do Monty Python mostra que o humor ainda é feito de inteligência

O sucesso estrondoso dos shows do Monty Python mostra que o humor ainda é feito de inteligência

Por Harold Von Kursk | No Diário do Centro do Mundo | A escolha dos esquetes foi do blogueiro

Nos anos 70, a série Monty Python Flying Circus ofereceu uma visão distorcida e absurda sobre o estado das coisas e rapidamente tornou-se um clássico cult. Os Pythons elaboraram um fluxo de consciência que criou momentos inesquecíveis de êxtase cômico. Qualquer busca rápida no YouTube vai encontrar clipes sublimes de seus melhores esquetes — a Loja de Queijos, o Ministério das Caminhadas Idiotas, a Canção do Lenhador, o Papagaio Morto etc.

Os Pythons são deuses imortais do riso. Eles levaram o humor a um estado de arte da mesma maneira que Jackson Pollock evoluiu do “gotejamento” para o expressionismo abstrato. Monty Python tornou-se um ponto de referência cultural, da mesma forma que iconoclastas como RD Laing, Louis Althusser, Albert Camus, Ali Farka Touré, Nina Simone, Andy Warhol, Pete Seeger. Ainda estão na vanguarda da nossa consciência depois de se separarem. O Monty Python foi originalmente concebido como um ataque frontal completo ao que era então conhecido, naquela era, como o “establishment”.

Como Timothy Leary, o professor de Harvard que se tornou um guru do LSD e aconselhou as pessoas a “se ligar, sintonizar e cair fora”, a gangue Python convidou-nos a olhar para a sociedade moderna como uma espécie de gigantesco hospício onde é difícil explicar por que é que nós fazemos o que fazemos. Tudo com inteligência e sem a vontade primeira de ofender, praga de 99% dos comediantes de hoje, que escondem sua falta de talento atrás do politicamente incorreto.

Este mês, os cinco Pythons restantes – John Cleese, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin e Terry Gilliam – estão se reunindo no palco da O2 Arena, em Londres, realizando seus primeiros shows ao vivo em mais de 40 anos. As cinco apresentações iniciais lotaram. Eles tiveram de marcar mais cinco (15, 16, 18, 19 e 20 de julho). O show do dia 20 será transmitido ao vivo para mais de 400 cinemas.

Os Pythons estão até mesmo invocando o fantasma de Graham Chapman (o rei Arthur de “Em Busca do Santo Graal”) através da holografia e convidaram a atriz Carol Cleveland, veterana do programa de TV, para a briga.

Há algo esplendidamente original sobre a marca Python na comédia. Em vez de tornar-se advogados, banqueiros ou burgueses gordos, o bando formado em Cambridge (Cleese, Chapman e Idle) e Oxford (Jones e Palin) desenvolveu uma filosofia em quadrinhos não ortodoxa e irreverente. Terry Gilliam foi o último a se unir ao grupo, um artista gráfico americano que criou o famoso pé roxo que esmagava as coisas na telinha e cujas imagens pop / psicodélicas acrescentaram uma dimensão extra à série (Gilliam viria a se tornar um diretor de cinema conhecido por “Brasil” e “Medo e Delírio em Las Vegas”).

O “Monty Python Flying Circus” passou na BBC entre 1969 e 1974. Seu humor era era tão surreal para os padrões normalmente sisudos que foi quase um milagre que eles atingissem um público de massa.

Os Pythons estavam à frente de seu tempo e ainda hoje o seu humor ressoa. Ninguém foi capaz de imitar ou capturar seu brilho. O Saturday Night Live chegou mais perto durante os anos dourados com Dan Aykroyd, John Belushi, Gilda Radner, Eddie Murphy e Bill Murray, mas não alçava vôos nas mesmas alturas.

O Monty Python capturou a desumanidade e a indecência da sociedade moderna. Odiavam a burocracia, a intolerância, o conformismo, o conservadorismo, a pompa, e o rolo compressor estéril de uma sociedade ocidental decadente que atropelava os valores humanos em prol do expansionismo corporativo. Em sua incursão no cinema, os Pythons amplificaram suas paródias macabras.

Quem pode esquecer quando o rei Arthur e seus seguidores se aproximam de um castelo para ser insultados, atormentados e perseguidos por guardas franceses arrogantes no filme “Em Busca do Santo Graal”? Pode haver algo mais insano do que a idéia de uma turma de cavaleiros gays desonestos e gigantes que habitam a floresta e que dizem “Ni”?

“A Vida de Brian”, que em seu lançamento foi denunciado por direitistas e teólogos, na verdade apresentou um retrato bastante preciso dos movimentos políticos da época. O filme segue um personagem fictício infeliz chamado Brian, que nasceu ao mesmo tempo em que Jesus e está, inadvertidamente, destinado a ser o messias. Recentemente, o Reverendo Professor Burridge, decano do King’s College de Londres, a quem o papa Francisco deu um prêmio por seus estudos, declarou que “a representação de movimentos messiânicos no filme, na Judeia do século I, ofereceu provavelmente um retrato mais preciso do contexto histórico do que muitos filmes de Hollywood sobre Jesus “.

Quem mais poderia encerrar o filme num clímax em que os revolucionários crucificados cantam e pedem para “sempre olhar para o lado mais alegre da vida?”

O mundo ama o Monty Python, tanto por sua capacidade de desafiar formas ortodoxas de pensar e de se comportar como por sua capacidade inigualável para celebrar as contradições fundamentais da existência. Com precisão cirúrgica, eles continuaram martelando nossos ossos até vermos como boa parte do que aceitamos como normal diariamente é de fato lixo absoluto.

Ao vivo, o Monty Python representa seus números clássicos com ajuda de telões e outros recursos modernos. Cantam e dançam. Está lá até o jogo de futebol de filósofos. A rigor, não há novidade. Mas essa é a sabedoria da trupe. Quem vai aos shows dos Rolling Stones esperando ouvir as canções do novo disco está no lugar errado. “O nosso grande problema agora é que a plateia conhece os scripts muito melhor do que nós”, disse John Cleese. No dia 20, o Monty Python estará definitivamente morto. Enterrado. Terá deixado de existir. Longa vida ao Monty Python.

O Monty Python, hoje
O Monty Python, hoje

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