Onde fui me meter, né? Amo este livro, mas… Ele não chega a ter um “enredo”. Foi coisa de maluco tê-lo pautado.
Ao Farol é um livro que costuma intimidar leitores acostumados a esperar acontecimentos. A boa notícia é que, depois de algumas páginas, quase todos percebem que o enredo está acontecendo dentro das cabeças dos personagens. O romance deixa de ser “o que aconteceu?” para se tornar “como é estar vivo?”.
Eu não conduziria o encontro seguindo a cronologia da narrativa. Conduziria pelos grandes temas. Woolf escreveu um romance que parece música: há temas que aparecem, desaparecem e retornam transformados.
Grupo de Leitura – Ao Farol, de Virginia Woolf
Vou começar fazendo uma pequena provocação.
Se alguém me perguntasse “o que acontece em Ao Farol?”, eu responderia:
“Quase nada.”
Uma família passa férias numa ilha escocesa. Uma criança quer visitar um farol. Chove. Os anos passam. Algumas pessoas morrem. Finalmente alguém vai ao farol.
É só isso.
Mas também é um dos maiores romances do século XX.
Porque Virginia Woolf não queria contar acontecimentos. Ela queria contar aquilo que normalmente escapa à literatura: o fluxo da consciência, o movimento dos pensamentos, a passagem do tempo, aquilo que sentimos e nunca dizemos.
Talvez o verdadeiro protagonista do romance não seja nenhum personagem.
Talvez seja o tempo. Talvez seja a casa. Talvez seja o quadro de Lily Briscoe.
Primeira pergunta ao grupo
Como foi ler este livro?
Foi difícil?
Foi cansativo?
Foi hipnótico?
Quando vocês perceberam que precisavam mudar a maneira de ler?
(Deixar as respostas aparecerem.)
1. A família Ramsay
Perguntar:
Quem é a verdadeira protagonista?
Mrs. Ramsay?
Mr. Ramsay?
Lily Briscoe?
James?
Ou ninguém?
Comentar:
Os personagens são menos indivíduos do que diferentes maneiras de estar no mundo.
Mrs. Ramsay representa o acolhimento?
Mr. Ramsay representa a vaidade, a inteligência e a insegurança?
Lily representa a arte?
James representa o desejo?
2. O tempo
Perguntar:
O que vocês acharam da segunda parte (“O tempo passa”)?
É um dos capítulos mais estranhos da literatura.
Quase não há personagens.
Quem narra? A casa? O vento? O silêncio?
Comentar:
Em poucas páginas Woolf faz aquilo que Balzac faria em trezentas: resume uma década inteira.
Guerras. Mortes. Casamentos. Tudo aparece entre parênteses. É quase cruel. É como a própria vida.
3. A memória
Perguntas bem bobas:
Os personagens lembram ou inventam suas lembranças?
Existe alguma memória objetiva no romance?
Ou toda memória já nasce modificada?
4. O farol
Perguntar:
O que é, afinal, o farol?
Um destino?
Uma promessa?
A infância?
A verdade?
Uma ilusão?
Comentar:
O farol muda.
Mas talvez quem mude sejam aqueles que o contemplam.
5. Lily Briscoe
Perguntar:
Por que Woolf termina o romance com Lily pintando?
Por que não termina com o passeio ao farol?
Comentar:
Talvez porque o verdadeiro tema do livro seja a arte.
Como transformar uma vida inteira numa forma?
Como produzir sentido diante do tempo?
Quando Lily finalmente diz “Tive a minha visão”, não resolve todos os problemas.
Ela apenas consegue terminar o quadro.
Talvez seja isso que a arte possa fazer.
6. Algumas observações para discussão
Quem cria a beleza do livro?
• Mrs. Ramsay cria beleza através da convivência.
• Lily cria beleza através da pintura.
• Woolf cria beleza através da escrita.
São três respostas diferentes para a mesma pergunta:
7. Como enfrentar a passagem do tempo?
Perguntas finais
Qual personagem permaneceu com vocês depois da leitura?
Que passagem vocês gostariam de reler agora?
O livro mudou alguma ideia que vocês tinham sobre o que é um romance?
Vocês acham que Ao Farol é um livro triste?
Ou profundamente consolador?
8. Encerramento
Gostaria de terminar com uma impressão muito pessoal.
Poucos romances nos fazem sentir o tempo como Ao Farol.
Quando fechamos o livro, percebemos que as grandes mudanças da vida quase nunca acontecem nos momentos dramáticos.
Elas acontecem silenciosamente.
Enquanto estamos pensando.
Enquanto olhamos uma janela.
Enquanto alguém prepara o jantar.
Enquanto esperamos, um dia, finalmente chegar ao farol.
“Quem terminou Ao Farol achando que não entendeu tudo, provavelmente leu o livro exatamente como Virginia Woolf gostaria. Este não é um romance para ser decifrado; é um romance para ser experimentado.”
Isso cria imediatamente um ambiente de confiança. Muitos leitores chegam a Ao Farol com a sensação de fracasso, quando, na verdade, Woolf está propondo uma forma completamente diferente de leitura. Seu papel como mediador será mostrar que a aparente ausência de enredo não é uma deficiência do romance, mas a sua grande invenção. E acho que essa é exatamente a conversa que a Bamboletras sabe promover.
9. A Obra-Prima da Memória
Finalize com uma reflexão sobre o livro como um todo.
-
O que fica? Se o enredo é tão “sem enredo”, o que vocês levam do livro? É a sensação de ter estado dentro da mente de outra pessoa? A percepção de como a memória nos molda?
-
A “Visão” de Woolf: Por que este livro é considerado uma obra-prima do modernismo? Talvez porque, como Lily com seu quadro, Woolf tenha conseguido capturar algo fugidio e eterno ao mesmo tempo: o fluxo da própria vida.
10. Dica
Lembre-se de que em “Ao Farol” as conversas são sobre o que não é dito, e a ação está no silêncio entre as palavras. Incentive seu grupo a falar sobre como o livro os fez sentir, e não apenas sobre o que ele diz.
























Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de 

Fabrício Falkowski é uma figura rara no jornalismo. Num mercado onde os profissionais estão sempre pulando de uma empresa para outra — seja por opção, seja pelos frequentes passaralhos (demissões) — Fabrício está há 27 anos no Correio do Povo, sempre cumprindo a função de setorista do SC Internacional. Ele começou lá em 1999 e permanece no posto até hoje. Neste livro cheio de detalhes deliciosos, ele conta os últimos 25 anos do Inter, de 2000 a 2024. Fabrício não é um repórter chapa branca. Pelo contrário, foi o cara que trouxe à tona a roubalheira que culminou na responsabilização e condenação do ex-presidente Vitorio Piffero e de seu factotum Pedro Affatato por desvio de valores para benefício próprio, entre 2015 e 2016 –, ano em que o Inter caiu para a segunda divisão pela primeira e única vez em sua história.

Gosto demais dos artistas escandinavos. Bergman, Vinterberg, Strindberg, Ibsen, Sibelius, Berwald, Hamsun, Blixen, Knausgård — todos ótimos. Para completar, amo o frio, me sinto muito bem com ele. Meu termostato corporal parece ter sido regulado na Finlândia que não conheço. Então, vamos a mais um livro do sueco Largerkvist.

Já ouvi várias pessoas me dizendo que iam roubar minha edição de O Anão. O livro foi publicado pela Civilização Brasileira em 1970, época em que a editora era sinônimo de bom livro e de resistência à ditadura. Mas O Anão nunca foi republicado e virou raridade. Houve tempo em que o livro estava custando R$ 1000 na Estante Virtual. Hoje, sua cotação está bem mais baixa, o que não se reflete em sua qualidade. Li as 150 páginas de meu cobiçado volume em voz alta para minha mulher — um hábito nosso — e podem crer que o livro não perdeu nada após tantos anos.

Gabriel García Márquez, ao escrever Memórias de minhas putas tristes declarou ter-se inspirado neste livro de Kawabata, homenageando-o ao narrar uma história de amor não consumado com uma jovem adormecida. No livro de GGM, o velho protagonista não tem relações sexuais com a adolescente virgem. O encontro acontece de forma completamente diferente do que ele havia planejado. Ao chegar ao quarto, ele encontra a menina de 14 anos profundamente adormecida (dopada pela cafetina para acalmar seus medos). Diante da garota indefesa, o velho não tem coragem de acordá-la ou tocá-la. Em vez disso, ele apenas a contempla durante a noite, deita-se ao lado dela e também acaba dormindo. Na manhã seguinte, vai embora antes que ela acorde, sem nunca ter tido qualquer contato físico ou sexual com a jovem.

Ao saber do argumento da novelinha Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev, logo as pessoas pensam em algo batido, já lido em livro ou visto no cinema. Novamente um adolescente apaixonado por uma jovem mulher? Acho até que o filme georgiano 27 Beijos Roubados é um pequeno roubo a Turguêniev. No filme, a menina promete cem beijos ao garoto apaixonado durante as férias, mas algo que descobrimos no final do filme fez com que ela ficasse devendo 27. Uma decepção. Apesar de breve, o livrinho de Turguêniev tem notável densidade emocional, psicológica e social — é um daqueles livros em que a aparente simplicidade esconde complexidades. Narrado como memória, o texto acompanha Vladímir, que revisita sua adolescência e o impacto devastador de sua paixão por Zinaída. Esse ponto de vista retrospectivo é decisivo: não se trata apenas de uma história de amor juvenil, mas de uma releitura madura de uma experiência formadora, em que o passado já está filtrado pelo tempo e pela perda. A narrativa, portanto, nasce da distância — e essa distância é o que lhe dá melancolia e lucidez.