Analfabetismo (Algarismos, números e nomes), de Machado de Assis

Analfabetismo (Algarismos, números e nomes), de Machado de Assis

Machado de Assis – 15 de Agosto de 1876

Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

– Quando uma constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

– A nação não sabe ler. Há 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não lêem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, – por divertimento. A constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

Maurits Cornelis Escher (1898-1972)
Maurits Cornelis Escher (1898-1972)

Replico eu:

– Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições …

– As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas – “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.

E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.

Referências:

– ASSIS, Machado. Analfabetismo. In: Crônicas Escolhidas. São Paulo: Editora Ática S.A, 1994.

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Gustavo Melo Czekster: “O pior patrulhamento nem é o da sociedade, mas o autoimposto”

Gustavo Melo Czekster: “O pior patrulhamento nem é o da sociedade, mas o autoimposto”

20170928-gustavo-melo-czekster-nao-ha-amanha-204x300Publicado em 28 de setembro de 2017 no Sul21

Gustavo Melo Czekster é um homem que escreve. Passa seus dias escrevendo petições, recursos e ações e, ao chegar em casa, segue escrevendo contos, ensaios, romances. Como revelou aqui, escreve até dormindo. Teve que afastar o celular de si porque respondia dormindo às perguntas que lhe faziam nas redes sociais e, ao acordar, não lembrava de nada. Chegou a revisar textos dos quais não sabia uma palavra ao acordar.

Publicou dois livros de contos muito elogiados: O Homem Despedaçado, em 2011, e Não há amanhã, em março deste ano. Suas obras completas estão em computadores e em oito caixas de papelão que, segundo ele, estão cheias de insetos e ignomínias. Já prepara seu primeiro romance, que será sobre a grande violoncelista inglesa Jacqueline du Pré, cuja carreira foi tragicamente abreviada em razão da esclerose múltipla que a forçou deixar os palcos aos vinte e oito anos de idade.

Na entrevista que ele concedeu ao Guia21 no Bar Chopp Tuim, falou sobre seu segundo livro, sobre os dias que correm, a posição da literatura e da cultura no Brasil e sobre o pintou na conversa.

Gustavo Melo Czekster | Foto: Maia Rubim/Sul21
Gustavo Melo Czekster | Foto: Maia Rubim/Sul21

Guia21 — Comecemos pelo teu livro Não há amanhã. Há quanto tempo foi lançado e como tem sido a recepção?

Gustavo Melo Czekster — O livro foi lançado há seis meses e a recepção tem me surpreendido favoravelmente. As pessoas reclamam da fuga dos leitores, mas talvez o que esteja faltando seja escritores contando boas histórias. Tento fazer isso em meu livro. Também me surpreende a forma com que as pessoas têm interagido comigo. Muitos mandam mensagens com impressões e comentários. As redes sociais ajudam nisso, claro. Da minha perspectiva, a melhor parte de escrever é ver que nosso trabalho não é lido com indiferença. Vi exemplares do Não há amanhã bastante anotados. Claro que fiquei feliz.

Guia21 — Não há amanhã não é um livro fácil.

Gustavo Melo Czekster — Não, não é fácil e as pessoas parecem desafiadas a apresentarem interpretações para algumas das histórias. É muito interessante porque algumas vezes o que é comentado não passou pela minha cabeça, mas deve estar ali de alguma forma. Posso dizer que recebi leituras atentas.

Guia21 — São 30 contos no Não há amanhã. Apesar da variedade de temas há uma grande unidade. Como foi escrito?

Gustavo Melo Czekster — Quando eu planejei o livro, logo pensei: meu tema será o sentido. “O Homem Despedaçado” fora sobre a fragmentação humana — ou seja, sobre quantas pessoas existem dentro de nós mesmos — e agora meu tema será o sentido, que é um conceito com vários usos e significados. Aliás, o nome do livro era “O Sentido”. Quando fui pesquisar na filosofia, vi que o sentido é sempre associado a algo, o sentido da vida, da morte, etc. O único autor que chegou mais perto do sentido como conceito puro foi Camus em O Mito de Sísifo.  É o homem em busca de sentido diante de um mundo ininteligível, sem Deus e eternidade. Ele fala sobre o absurdo de pensar que a vida teria um sentido e que a única decisão efetivamente livre seria a dar cabo da própria vida. Mas o nome do livro foi alterado porque vários colegas acharam o título ridículo. Me avacalharam. Disseram que parecia autoajuda e que não era marcante. Então, voltei para casa, folheei Camus e encontrei a frase que diz que “O absurdo me esclarece o seguinte ponto: não há amanhã.” E então escolhi Não há amanhã. Ficou meio Sidney Sheldon, “Se houvesse amanhã”.

"Outra coisa que tem prejudicado a produção atual é a autocensura. A originalidade da história entra pelo ralo porque o escritor tem medo do que o pai e a mãe vão pensar..." | Foto: Maia Rubim/Sul21
“Outra coisa que tem prejudicado a produção atual é a autocensura. A originalidade da história entra pelo ralo porque o escritor tem medo do que o pai e a mãe vão pensar…” | Foto: Maia Rubim/Sul21

Guia21 — Gostei também de “O Sentido”, mas voltemos a um ponto inicial. Tu disseste que as pessoas têm lido Não há amanhã porque há poucas pessoas contando histórias.

Gustavo Melo Czekster — Sim, o que te leva a ler um livro de ficção? Ora, tu compra porque quer ler uma boa história. Afinal de contas, é isso que atrai na literatura em prosa desde que começamos a ler, só que hoje há uma curiosa massificação. Parece que os 6 ou 7 principais editores do país se reúnem periodicamente e decidem o que as leitores desejam ler. E então todos os livros saem mais ou menos iguais. Hoje, na minha opinião, a literatura mais excitante é aquela que está sendo publicada fora das grandes editoras. Porém, como as grandes se impõem junto ao público, as boas histórias, as coisas realmente diferentes, as coisas que prendem o leitor, estão fazendo falta. Há livros contemporâneos que a gente lê e depois pensa: o que eu acabei de ler? Que sentido tem isso? E o resultado é que a gente esquece logo. Quando alguém vai contar sobre o que leu, tem dificuldade para fazer um resumo em poucas frases… Normalmente as capas são maravilhosas, na maioria das vezes são livros bem escritos, mas que não nos dão a sensação de estarmos melhores ou piores com o livro, é puro entretenimento, falta interiorização. Alguns escritores querem o preto e o branco, certo e errado, sem ver que a realidade é nebulosa, que há uma zona cinza escura e outra cinza mais clara. Outra coisa que tem prejudicado a produção atual é a autocensura. A originalidade da história entra pelo ralo porque o escritor tem medo do que o pai e a mãe vão pensar, do que as feministas vão pensar, do que os deficientes e os políticos de todos os gêneros vão pensar. Isso é um crime contra a criatividade. Eu acho que temos que ser fiéis às nossas histórias mesmo que elas possam ofender alguém, mesmo que ninguém a leia. Acho que a voz autêntica é a única que pode devolver algo ao autor.

Guia21 — Falta sentido ou falta contar histórias?

Gustavo Melo Czekster — As duas coisas. Falta a sensação de imanência da arte. Por exemplo, Balzac nos envolve pela humanidade, sinceridade, pela história. Veja Anna Kariênina. Há uma certa perversidade na história que, bem, poderia acontecer conosco… O livro verbaliza coisas que talvez alguns de nós tenham vergonha de verbalizar. Eu poderia ser Kariênina em outras circunstâncias, em outro mundo. Hoje é difícil construir esta empatia com os personagens que são criados. Há uma postura blasé que diz que o autor não deve se envolver tanto com o personagem. Parece que os autores têm receio de mostrar muito de si em suas criações. Não há o pensamento de que o personagem é outra vida.

"Detetives, dragões e senhoras de 50 anos descobrindo o sexo..." | Foto: Maia Rubim/Sul21
“Detetives, dragões e senhoras de 50 anos descobrindo o sexo…” | Foto: Maia Rubim/Sul21

Guia21 — E temos boa literatura sendo produzida?

Gustavo Melo Czekster — Certamente, mas como disse, a boa literatura está correndo por fora, à margem. Por exemplo, os romances que são premiados não refletem a diversidade e a qualidade da literatura atual. É curioso: os grandes editores querem romances, dando absoluta preferência aos de detetive, aos de dragões ou aos de senhoras de 50 anos que descobrem o sexo. Um editor me disse isso uma vez e eu brinquei com a ideia de escrever um romance com detetives, dragões e senhoras recém liberadas. Seria um arraso. (risadas)

Guia21 — Com todas esta limitações…

Gustavo Melo Czekster — Sim, o patrulhamento. O pior patrulhamento nem é o da sociedade, mas o que é autoimposto ou que tenta se agregar a modas. A história pede um personagem X, mas o escritor usa um transsexual porque quer ser atual. Há também uma coisa forçada que impede vilões negros ou vilãs, por exemplo. O autor receia críticas do tipo “Quem tu pensa que é para dizer isso?” Não há desligamento do autor destes arquétipos, ele os procura para ser melhor aceito. Li recentemente um livro onde havia um relacionamento de 5 páginas entre duas mulheres. Não há problema nisso, só que não se sabe porque chegamos ali nem porque foi abandonado  subitamente. Ou seja, o escritor forçou a barra e a excrescência não contribuiu para o que interessa, que é contar uma história, que é o motivo pelo qual o leitor está na frente do livro.

Guia21 — Os escritores também têm medo de outras coisas, como de não serem chamados para eventos…

Gustavo Melo Czekster — Certa vez, contestei a forma de organização de um concurso. Vieram pessoas inbox me parabenizar pela coragem, mas dizendo que eu não esperasse ganhar prêmios… Bem, eu não escrevo pela possibilidade de prêmios. Até me sentiria tolhido se tivesse uma meta dessas. E, ademais, as pessoas simplesmente esquecem de quem ganhou. Tu lembra quem ganhou o Açorianos no ano passado?

"Eu não preciso me comportar, não preciso colocar a última e mais atual pregação ideológica na obra para vender -- não que isso funcione... | Foto: Maia Rubim/Sul21
“Eu não preciso me comportar, não preciso colocar a última e mais atual pregação ideológica na obra para vender — não que isso funcione… | Foto: Maia Rubim/Sul21

Guia21 — Não. Sei que eu ganhei em 2012 ou 13 um e ninguém sabe dele.

Gustavo Melo Czekster — (Risadas) Noto que pouca gente reclama, pouca gente protesta. Todos querem ser bonzinhos. Isso é muito de nossa época. Quase todos querem convites para feiras, para financiamento de livros, quase todos querem ver o governo comprando seus livros infantis, etc. E então o escritor não pode isso nem aquilo. Isto limita a literatura. Eu tenho a sorte de não viver da literatura. É uma sorte. Eu não preciso me comportar, não preciso colocar a última e mais atual pregação ideológica na obra para vender — não que isso funcione… Hoje, por exemplo, é muito difícil escolher um livro infantil. Dia desses fui dar um presente para uma criança e conferi o fato de que há muitos livros que, em resumo, eram a manipulação de uma história para agregar posicionamentos e não para contar uma história autêntica. Acabei nos clássicos.

Guia21 — Depois de Roald Dahl tem pouca coisa efetivamente interessante. Os personagens são ruins porque são ruins em razão de um trauma, coitados. Ninguém é ruim quis fazer uma maldade. Há medo da história?

Gustavo Melo Czekster — Sim, é como o cavalo que refuga um salto numa competição de hipismo. Muitas vezes estou lendo uma história e sinto que tal coisa vai acontecer. Então vem um balde de água fria. Há o medo de desagradar, o escritor passa a evitar sutilmente certas palavras. Já vi discussões de casal onde ambos evitavam palavras pesadas… Às vezes sabemos que o personagem deve se encaminhar para um destino, que aquilo vai acontecer, que ele vai descobrir algo, vai abrir uma porta, mas o autor segura e decide ficar no comando. Ele pensa “isso é muito sombrio para meu personagem”. O sistema de causa e efeito é quebrado. Voltemos à Anna Kariênina: se ela quisesse ser boazinha o livro não seria a obra-prima que é. Mas ela é apaixonante,  vai se afundando e afundando. Imagina se Tolstói resolvesse que Anna voltasse atrás para ser uma boa mãe?

Guia21 — Por falar em censura e autocensura, o que tu achaste sobre o episódio do Queermuseu?

Gustavo Melo Czekster — Eu fui na exposição. Não tinha quase ninguém, nem seguranças em torno. Ela não me cativou nem escandalizou. Acho Caravaggio mais ousado. Também não encontrei pedofilia, nada. As pessoas veem o que querem ver. Eu não vou procurar obras de arte como comprovações de minhas teses. Quem viu escândalo estava procurando escândalo. Como é que as pessoas procuram isso? Por quê? O que eu vi foi uma desconstrução de várias imagens, mas jamais zoofilia, pedofilia, etc. Há duas semanas fui denunciado por pornografia pelo administrador de uma rede social porque postei uma pintura de Cézanne onde uma mulher amamentava seu filho. O outro seio aparecia nu. Ou seja, há o crescimento de um conservadorismo torto que é inclusive auxiliado pelas redes sociais. Nós já temos censura. E isso pode invadir a literatura. Por outro lado, chocar por chocar, escandalizar por escandalizar, envolvendo às vezes gratuitamente poder, sexo ou religião, é inútil. A arte tem que ter um objetivo. Por exemplo, Caravaggio usava prostitutas e mendigos para mostrar que aquilo existia. Acho que falta uma ideia além da provocação. Voltando à pergunta. acho que o Santander teve uma reação desproporcional e eu gostaria que os quadros fossem apresentados em outro espaços. Mas a mentalidade conservadora está se inserindo entre as pessoas mais jovens e vem subindo. A nova geração está chegando mais engessada, certinha, contida, sem ironia e isso gera conservadorismo.

"A nova geração está chegando mais engessada, certinha, contida, sem ironia..." | Foto: Maia Rubim/Sul21
“A nova geração está chegando mais engessada, certinha, contida, sem ironia…” | Foto: Maia Rubim/Sul21

Guia21 — Na época do lançamento de Tristram Shandy, os jovens eram mais conservadores que os velhos.

Gustavo Melo Czekster — Tristram Shandy é um livraço! Na época de Sterne, na Inglaterra, o mundo não estava, digamos, evoluindo. É o que ocorre também agora, estamos voltando no tempo. A pessoas estão usando palavras bélicas, ferozes, que buscam o confronto. São raros os ponderados, os que evitam as meras dualidades, buscando entender a complexidade do que acontece. Ninguém respeita professores, intelectuais, artistas, escritores, ninguém, é tudo no grito. O pessoal simplesmente não quer saber. Fico pasmo quando leio notícias de professores sendo agredidos — para mim, o professor não tem pele e osso para ser agredido.

Guia21 — Indo para o lado pessoal, qual é a tua formação?

Gustavo Melo Czekster — Eu sou advogado, mas meu mestrado foi em Letras, o que foi uma confusão porque existem termos comuns ao Direito e à área de Letras, com significados diferentes. Na época da dissertação, eu fiz uma lista de palavras que não poderia dizer de modo nenhum. Por exemplo, no Direito, a palavra “representação” tem um significado bem simples, porém, se eu utilizasse a palavra na área da Literatura, cairia num buraco negro teórico. No Direito, eu represento a parte X, eu a defendo, estou lado a lado, nas Letras eu substituo a parte. E, pior, desde Aristóteles se discute este segundo conceito de representação.

Guia21 — Tu dormes muito pouco, né?

Gustavo Melo Czekster — Eu tenho dificuldade crônica para dormir. Consigo descansar, repouso e passo bem o dia, mas acordo muito cedo. Às 3h30, 4h, eu já estou acordando. Vou ler, escrever, vejo filmes, às vezes quero sair, mas aí tenho receio não porque a noite está chegando, mas porque ela ainda não acabou. E devo ter um leve sonambulismo. Já respondi dormindo e por escrito coisas no celular. Ainda bem que com coerência e sentido. Hoje durmo com ele bem longe. Às vezes, as pessoas me agradeciam por respostas a coisas que não lembrava de ter lido e muito menos respondido. Era sempre um susto, mas vi que respondo educadamente, com sujeito, verbo e predicado. Parece até ser eu escrevendo… Provavelmente, ouço o sinal do celular e respondo dormindo. Tive que afastá-lo da cama. Esses dias cheguei a revisar um texto que me mandaram, dormindo. Bem, mas acordo muito cedo e às vezes vou para o Parque da Redenção quase de madrugada. Conheço os mendigos de lá, eles acham que sou um deles. Já tomei quentão de madrugada com eles. Eles têm grandes histórias para contar. Gosto muito de ouvi-los.

Guia21 — E os próximos planos?

Gustavo Melo Czekster — Estou escrevendo um romance sobre a violoncelista Jacqueline du Pré e o Concerto de Elgar. Sou fascinado pelo concerto e pela biografia de du Pré, além da ironia macabra da esclerose múltipla. Estou estudando um pouco mais de música para enfrentar o tema. O livro se passa durante uma execução do concerto de Elgar.

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Ficção do século XX tem menos participação feminina que a vitoriana?

Ficção do século XX tem menos participação feminina que a vitoriana?

A revista Cult publicou um estudo no mínimo surpreendente. A ficção do século XIX teria maior presença feminina do que a do século XX. Tudo culpa de uma excepcional geração que inclui as meninas da montagem abaixo: Emily Dickinson, Emily Brontë, Jane Austen, George Eliot, Mary Shelley e outras. Mas não seria apenas isso.

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O estudo foi matemático. Por meio de um algoritmo, pesquisadores das universidades de Illinois e Berkeley, nos Estados Unidos, descobriram que, em um século, a proporção de autoras caiu pela metade – dado que, a princípio, acreditaram estar incorreto, já que esperavam encontrar na literatura algum tipo de efeito da primeira onda do feminismo.

Ou seja, em 1850, romances escritos por mulheres representavam 50% das publicações do gênero e em 1950 eles mal chegavam a 25%. Antes de 1840, pelo menos metade dos romancistas era do sexo feminino, mas já em 1917 a maior parte dos romancistas considerados de “alta cultura” era homem.

O estudo chuta que houve uma gentrificação na literatura. No século XIX, escrever não era tão valorizado. Quando escrever passou a dar status, vieram os homens. Também pensa-se que a crítica literária, feita majoritariamente por homens ajudou a prejudicar as mulheres.

O cenário só voltou a ficar igual no final do século XX.

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Lançado pela Boitempo, “O Capital para Crianças” gera confusão e ofensas nas redes sociais

Lançado pela Boitempo, “O Capital para Crianças” gera confusão e ofensas nas redes sociais

Vô Carlito conta histórias para seus netinhos em O Capital Para Crianças, livro dos catalães Joan Riera e Liliana Fortuny. O lançamento é da Boitatá, selo infantil da Boitempo. A obra faz parte de uma série de lançamentos da editora que celebram os 200 anos de nascimento de Karl Marx (Trier, 5 de maio de 1818 — Londres, 14 de março de 1883). Pois é, Karl Marx, vô Carlito… Sim, claro, o livrinho é baseado em O Capital, de Marx, e o desenho não deixa dúvidas.

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A simetria é clara. Frederico fica pasmo ao ver que as meias — que produz e pelas quais recebe 25 cents — custam 2 libras no comércio. Daí a coisa parte, como no livro original. É claro que sem a incrível riqueza de detalhes de O Capital. Dia desses, vi o Ulysses de Joyce em quadrinhos. Ninguém reclamou, apesar de que lá tem sexo de todo tipo. Mas agora a editora Ivana Jinkings está sendo ofendida nas redes sociais pela ousadia de lançar tal obra infantil. Imaginem que a obra fala em “mais-valia” e greve, o que educaria toda uma perigosa geração de militantes de esquerda!

A mera notícia do lançamento do livro já foi suficiente para atiçar à loucura a mais parte estúpida da direita. Ivana está se defendendo das ameaças de alguns surtados. Não vamos reproduzir as ofensas aqui porque este é o blog da família brasileira e nossos sete leitores detestam baixaria.

Por outro lado, O Capital, célebre obra de Karl Marx está à venda, disponível a todos e sua leitura é recomendada a todos que estudam Economia, Ciências Sociais, etc. Não se trata de um livro apenas ideológico. É bibliografia essencial ao estudo e debate.

A editora planeja lançar dez livros relativos ao Ano Marx. Karl Marx e o Nascimento da Sociedade Moderna, de Michael Heinrich, e Karl Marx: Uma Biografia, de José Paulo Netto. Diferença Entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e a de Epicuro, a tese de doutorado de Marx, também será editada em livro. David Harvey lança Marx, Capital e a Loucura da Razão Econômica; e Domenico Losurdo, O Marxismo Ocidental. E mais: O Último Marx, de Marcello Musto; Escorpião e Félix, de Marx; A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels; e Estrela da Manhã: Marxismo e Surrealismo, de Michael Löwy.

O décimo é outro livro infantil: O Deus Dinheiro, de Karl Marx e Maguma.

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Noé, de Pedro Tamen

Noé, de Pedro Tamen

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quanto são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais cabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
— o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.

'Noah's ark on the Mount Ararat' de Simon de Myle (1570)
‘Noah’s ark on the Mount Ararat’ de Simon de Myle (1570)

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E a morte perderá o seu domínio, de Dylan Thomas

E a morte perderá o seu domínio, de Dylan Thomas

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.

Dylan Thomas, trad. Fernando Guimarães

Dylan Thomas
Dylan Thomas

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Maria – Uma Peça e Cinco Histórias, de Isaac Bábel

Maria – Uma Peça e Cinco Histórias, de Isaac Bábel

D_Q_NP_506905-MLB25117564480_102016-Q“Em cima de uns tijolos, havia um caldeirão com carne de porco cozinhando, que fumegava como fumega ao longe a casa paterna na aldeia, confundindo dentro de mim a fome e uma solidão sem igual”.

Isaac Bábel, no conto Meu Primeiro Ganso

Excelente livrinho lançado pela Cosac & Naify nos idos de 2003 e certamente apenas encontrável em sebos, como eu encontrei o meu.

Bábel viveu entre 1894 e 1941. Morreu vítima de grande violência física durante o stalinismo, que o prendera em 1939. Este livro mostra o enorme talento de um escritor que escrevia perigosamente, considerando a época. Mas vamos antes a uma curiosidade.

Minha mulher é linda e russa e culta. E de origem judaica. Ela me disse que a impressão que Bábel causa é irreproduzível em outra língua, pois seus personagens judeus falam um russo muito primitivo, às vezes errado, utilizado por eles na época. Há muitas frases com expressões invertidas, provavelmente trazidas do ídiche e, quando alguém começa a falar desse jeito, sabe-se que é um judeu. Até hoje, quando os judeus russos se auto-ironizam — prática mais do que comum –, o estereótipo cômico é o de fazer inversões, entonações e inserções indiscriminadas de “então”, “pois”, “daí”, etc. Além do mais, o povo da revolução não era lá muito alfabetizado e Bábel deliciava-se reproduzindo seus erros nos diálogos. Ou seja, nem os russos de Bábel falavam corretamente. Os judeus falavam, por exemplo: “O que você quer o quê?”. Elena diz que eles começavam com uma pergunta e a repetiam no final… Então, ela acha que traduzir Bábel… Bem, o português utilizado nesta tradução é sempre perfeito. Mas Maria é uma peça de teatro cheia de judeus…

Ela diz que só a revolução culturalizou todo mundo, unificando o russo e tornando este modo de falar algo típico do passado. Quando estava muito irritada, sua avó, professora de alemão, também falava como os personagens de Bábel.

Um amigo de minha mulher, Yakov Soloveichik, filólogo e poeta, deu uma bela contribuição:

Penso que existem vários aspectos.

1. Para os judeus, a língua russa era estrangeira. A língua nativa era o iídiche. Falando em russo, eles apenas colocavam palavras russas nas frases que costumavam usar. É claro que seu russo era errado. Então, um certo estilo foi desenvolvido.

2. Odessa é uma cidade portuária. Em cada porto havia um jargão – uma grande quantidade de palavras emprestadas de uma variedade de línguas dos marinheiros visitantes.  Por sinal, no mar Mediterrâneo nos séculos 16-19, também houve um idioma falado apenas nos portos do Mediterrâneo – na Itália, Grécia, Israel, Espanha, Argélia, Marrocos, etc. Este idioma era uma língua franca que incluía elementos de todas as línguas mediterrâneas. As pessoas não eram muito alfabetizadas e, portanto, todas as palavras estrangeiras eram altamente distorcidas. Os portadores desta língua eram marinheiros e prostitutas portuárias, que vagavam de um porto para outro. A mesma coisa aconteceu em Odessa.

3. E o último – uma espécie de humor judaico, que está presente em todas as frases.
Das “Histórias de Odessa”:
Benya Creek conta a Froim Hrach:
– Froym, resolvi o seu problema.
– Como você decidiu, Benya?”
– Eu decidi que não era um problema.

E, bem, há duas vertentes de tradução. Uma que tenta a complicada tarefa de tentar reproduzir o original com seus erros e sonoridade em outra língua, e outra que apenas verte o conteúdo, opção tomada pelo tradutores deste livro.

Os contos deste volume são fruto da passagem de Bábel pelo Exército Vermelho, lutando ao lado de cossacos, contra os poloneses, entre 1920 e 1921. Já a peça Maria foca na miséria dos primeiros anos pós-revolucionários.

O belíssimo História do Meu Pombal versa sobre a vida de uma criança judia de Odessa, mostrando o anti-semitismo ucraniano. O menino não apenas precisa vencer o preconceito e a perseguição dos professores na escola — havia uma lei que ditava que, para cada 20 alunos matriculados na escola, apenas um podia ser judeu e isto gerava uma grande disputa no exame de admissão — mas ainda há os pogroms (pilhagens e assassinatos de judeus, realizados sob a aprovação das autoridades).

Em outra história, vemos a incapacidade do narrador de dar o tiro de misericórdia em um de seus colegas mortalmente ferido. Em outra, comprovamos como uma demonstração de violência dá autoridade a alguém. São contos excelentes.

A peça Maria — assim como o primeiro conto do livro Mamãe, Rimma e Alla — trata da decadência de uma família durante a Revolução. Os sobreviventes são obrigados a dispor de tudo o que tem, inclusive da filha. Filha de um general, Liudmila antes costumava frequentar a corte, mas agora tenta sobreviver seduzindo um judeu oportunista, três estropiados de guerra e um ex-príncipe que toca violino para trabalhadores. A outra filha, Maria, é a favorita do velho e encarna a salvação. Todos a esperam. Só que ela está ocupada, servindo ao Exército Vermelho. Os que ficaram apenas a esperam, sobrevivendo de migalhas.

Claro que, publicada em 1935, a peça nunca foi encenada. Quatro anos depois, Bábel perseguido pelo stalinismo. Preso em 1939, Bábel morreu dois anos depois. Durante uma transferência de presos, feita durante o inverno e a pé de uma cidade para outra, ele caiu de fraqueza. Foi deixado para morrer na estrada.

Isaac Babel
Isaac Babel

 Livro comprado na Ladeira Livros.

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O louco no espelho, de Lúcio Humberto Saretta

O louco no espelho, de Lúcio Humberto Saretta

O louco o espelho SarettaEste é um bom livro de crônicas sobre futebol e boxe — muito mais sobre futebol –, misturados com música e cerveja. Na verdade, Saretta nem fala muito de cerveja, mas dá vontade de ler O louco no espelho bebendo geladas num bar e, bem, eu li o livro dentro de um avião. Pena, porque tudo parece uma longa e agradável conversa. O cronista deriva de um assunto para outro até dentro de um mesmo texto, o que reforça o tom de conversação. As crônicas não estão ordenadas por temas nem cronologicamente, outro mérito do livro.

Saretta parece saber tudo de futebol, podendo escrever tanto sobre o artilheiro do Vasco da Gama nos anos 20 quanto sobre fatos mais recentes como a sequência de técnicos gaúchos na Seleção Brasileira. Para quem gosta do esporte e até para quem não gosta, vale muito a pena a leitura. Um fato que chama atenção no livro é o de o autor apresentar vários argumentos contrários ao boxe como esporte, mas sucumbir cabalmente ao fascínio daquele espetáculo. “Meu trabalho é machucar as pessoas”, diz o grande Sugar Ray Robinson, citado por Saretta.

O autor fala dos grandes, mas seus melhores textos são sobre os fracassados, viciados, bêbados, esquecidos, doentes ou azarados. A maioria dos textos são sobre coisas que não funcionaram. Heleno de Freitas, Jake LaMotta e Syd Barrett surgem como as grandes figuras que efetivamente foram nos textos de O louco no espelho.

Apesar da última observação, trata-se de um livro extremamente agradável e fluido, ideal para as férias. Eu curti e recomendo.

Lúcio Humberto Saretta aguardando para autografar alguma coisa
Lúcio Humberto Saretta aguardando para autografar outros de seus livros

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Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabucchi

Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabucchi

022148Quando finalmente os espanhóis conseguiram desembarcar nos Açores, em 1581, a invasão foi rapidamente rechaçada. Os açorianos aguardaram o exército espanhol sair dos navios e lhes lançaram manadas de touros enfurecidos morro abaixo, o que matou boa parte dos homens, fazendo o restante voltar às pressas e borrados para os navios. Até aqui, nada demais além dos touros, é claro. Mas só até aqui, quando lhes direi que, entre os que se salvaram, estavam Miguel de Cervantes e Lope de Vega, que recordou aquela ‘selvageria’ em seus poemas.

Antonio Tabucchi, em Mulher de Porto Pim (adaptado)

Este é um livrinho lá dos anos 80 escrito por Antonio Tabucchi, o escritor italiano mais português que já existiu. Apaixonado por Portugal, por Pessoa, Antero, pela cidade de Lisboa e que tais; tradutor de literatura portuguesa para o italiano, autor de vários e deliciosos pequenos livros — verdadeiros azulejos portugueses plenos de arte e poesia, formando um belíssimo mosaico –, Tabucchi escreveu seus últimos livros direto em português, pois não fazia mais sentido escrever em italiano. Teve também o bom gosto de casar-se com uma portuguesa. (Ah, as lisboetas!).

Neste Mulher de Porto Pim, sua lusofonia chegou ao ponto de levá-lo ao arquipélago de Açores a fim de lá pesquisar ficções, provavelmente do gênero baleeiro. Deu mais ou menos certo. O fato é que Tabucchi acabou foi fazendo uma bela crônica de suas andanças pelas ilhas e escreveu um conto bastante bom — Mulher de Porto Pim. Tudo isso entremeado de notícias históricas das ilhas.

É um livrinho delicioso de menos de 100 páginas. Como não amar Açores? No século XIX, principalmente à noite, os navegantes costumavam bater nas ilhas rochosas e naufragar. Então, os açorianos recolhiam os restos dos navios, pegavam suas proas por inteiro, cortavam-nas e construíam suas casas com elas. Explico: as casas eram triangulares, duas paredes eram a proa original e a terceira era a pedra do morro onde a proa era encostada. As janelas eram escotilhas e tudo, mas tudo lembrava o navio de onde fora retirada a casa. Dois viajantes ingleses que estiveram nas ilhas em 1839 ficaram atônitos com a beleza de algumas casas. Tudo — lanternas, assentos, mesas e até camas — quase tudo tinha sido retirado do mar. E as proas estavam lá enormes, pintadas de cores variadas…

Claro que o povo vive da pesca de baleias e todos os peixes e de seus rebanhos. Devia ser o máximo morar em uma proa…

Bem, eu curti muito a crônica de Tabucchi. Recomendo!

Tabucchi em algum lugar lusófono
Tabucchi em algum local lusófono

 Livro comprado na Ladeira Livros.

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As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez

As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez

As coisas que perdemos no fogoAs coisas que perdemos no fogo entrou para a lista de melhores livros de 2017 do Sul21. Dizem alguns amigos que a literatura argentina é, disparada, a melhor do mundo. E isso aconteceria há várias décadas.

Pois bem, este livro de Mariana é um exemplo que dá força a tal afirmativa. As coisas não é um livro de peso filosófico e muito menos erudito. Trata-se de contos magnificamente bem escritos (traduzidos por José Geraldo Couto) que oscilam entre a crítica social e o puro terror a la Stephen King. E é originalíssimo. E um belo exemplo de que a literatura popular também deve ser boa.

São doze contos, alguns realmente espetaculares. Outros têm o mérito de mostrar o mais desbragado terror misturado à realidade contemporânea da América Latina. Mariana Enriquez foi uma adolescente “leitora de Stephen King, das irmãs Brontë, de Ray Bradbury e de escritores de terror avulsos, surripiados entre nas livrarias de livros usados – além das histórias de fantasmas contadas pela avó, cheias de religiosidade misturada com superstições e criaturas assustadoras“. Não há melhor descrição para o que lemos. Apenas acrescentaria que os personagens vivem realidades muito próximas da nossa aqui no Brasil, o que torna tudo muito familiar, apesar do humor tipicamente platino.

O livro abre com o melhor conto do volume, O Menino Sujo, onde se tem um leque de temas bem construídos. A incapacidade para ajudar, a pobreza, um país sem direção, um auto-retrato da autora — ela mesma sub-editora do Página/12 e que se acha muito provocadora, bacana e rebelde, quando é apenas impotente.

A qualidade não cai. Em Teia de Aranha temos um retrato de macho realmente repugnante, Pablito clavó um clavito: uma evocação do Baixinho Orelhudo é absolutamente assustador, Sob a Água Negra traz uma juíza visitando uma favela e As coisas que perdemos no fogo é surreal. Todos são arrebatadores.

Como disse, o ambiente é 100% latino-americano. Há a nossa noção difusa de moral, as pessoas que se preocupam com os pobres batem de cabeça nas mais incríveis impossibilidades, a pobreza faz tudo para isolar-se e todos parecem estar (e viver como) loucos. Neste livro não há nenhum final feliz e quando não estamos falando de nosso continente, ouvimos a banda tocar a marcha do macabro, do bizarro e do apavorante.

Um livro sombrio, contemporâneo e muito, muito bom.

Recomendo.

Mariana Enriquez
Mariana Enriquez

Livro comprado na Bamboletras.

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O Conto da Aia, de Margaret Atwood

O Conto da Aia, de Margaret Atwood

O Conto da Aia, de Margaret AtwoodNa área das distopias, creio que este foi o melhor romance que li. Não é pouca coisa. Para não irritar os admiradores de clássicos como 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Nós e outros, não pretendo entrar em comparações, apenas elogiarei o livro de Atwood.

É curioso. Assisti Margaret Atwood palestrar em uma Flip lá por 2004 ou 2005. Achei-a muito fraca e desisti de lê-la. A única coisa que lembro de sua palestra foi o fato de ela ter reclamado de seu agente literário, que lhe obrigava a uma rotina de festivais que nem sempre eram em locais com a paisagem e o ambiente de Paraty. Ela apontou o dedo para o sujeito e disse que pretendia se rebelar. Ela falava muito sério, pouca gente riu da irritada intervenção.

Rebelar-se é praticamente impossível na república teocrática e totalitária de Gilead. O livro é de 1985, mas recentemente voltou à moda, impulsionado pela eleição de Donald Trump e pela, dizem, excelente série televisiva homônima, The Handmaid’s Tale. E, como é um livro que trata basicamente de mulheres que são divididas em categorias, Atwood têm sido muito entrevistada e… Bem, tem decepcionado algumas de suas mais ardentes admiradoras que hoje participam do #MeToo não por defender abusos, mas a presunção da inocência dos acusados. É uma democrata clássica, alguém de moralidade e ética à antiga.

Mas vamos lá, sempre sem spoilers. Nas primeiras 150 páginas, o leitor não entende plenamente o funcionamento de Gilead. Atwood mostra-se uma mestra em jogar informações que vão nos deixando curiosos. Nem se importa de criar um conflito. Até que faz um balanço na página 173. Sim, um balanço.

As mulheres de Gilead são divididas em categorias, cada qual com uma função de Estado muito específica. Offred é uma Aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar depois que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas. As Aias são as mulheres não estéreis, que ainda podem engravidar. São úteros de duas pernas, receptáculos sagrados.

Elas são entregues a um Comandante que é casado com uma Esposa (outra categoria). Tais casais fazem parte de um escalão superior de governo. As Aias são obrigadas a fazerem sexo periodicamente com os Comandantes, sob o olhar de suas Esposas, até engravidarem. Depois de darem à luz, elas amamentam a criança por alguns meses. Ela e a criança são propriedade do casal. Elas têm nomes como Offred, que significa “of Fred” (“de Fred”) ou “pertencente ao homem chamado Fred”. Assim, ao longo da vida, uma aia pode ter vários donos e, portanto, vários nomes: Ofglen, Ofcharles, Ofwarren…

Após a bela introdução, a história toma direção e força assustadoras, mesmo que Atwood recorra a flashbacks. O livro é triste e atualíssimo, obrigando-nos a pensamentos pouco ortodoxos sobre liberdade, direitos, sanidade, poder, abuso e fragilidade.

Lê-lo é para quem tem estômago forte. O livro é violento, desconfortável, perturba mesmo. Publicado em 1985, o romance tem um pé na Revolução Islâmica de 1979, que transformou o Irã em uma república islâmica teocrática, e outro pé na Argentina, no roubo de bebês de presos políticos por parte de militares. Sem ser panfletário nem de leitura leve, O Conto da Aia é uma distopia que, anos depois de seu lançamento, voltou a ser lida e, certa ou erradamente, assimilada por uma nova geração de leitores.

Recomendo fortemente.

Atrás dessa carinha de santa tem um cérebro que vou lhes contar...
Atrás dessa carinha de santa tem um cérebro que vou lhes contar…

Livro comprado na Bamboletras.

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Laços, de Domenico Starnone

Laços, de Domenico Starnone

Laços D StarnoneUm tremendo livro que figurou entre os dez melhores do ano passado no Guia21. Que grande final! Na vida real, o autor Domenico Starnone é o marido de Anita Raja, a tradutora que estaria por trás do pseudônimo Elena Ferrante. Outros dizem, em hipótese mais inverossímil, que ele seria Elena Ferrante… Bem, se uma autora ou autor deseja permanecer anônimo, devemos respeitar tal opção, penso. E meu objetivo aqui é outro: é o de comentar rapidamente o excelente romance que é Laços.

Aldo e Vanda formam uma família convencional com seus dois filhos Sandro e Anna. Ele é professor e dramaturgo, ela é dona de casa. O livro é narrado em primeira pessoa por três vozes, as de Vanda, Aldo e Anna. O personagem principal é Aldo, o homem que abandona Vanda e a família por uma mulher mais jovem, Lidia. As consequências disso são analisadas em detalhe por Starnone, dentro de um romance sintético, de linguagem ágil e paradoxalmente densa. Não estarei dando um spoiler ao dizer que o casal se reconcilia logo no início do romance, após um hiato de anos. O que interessa aqui é o processo e vou passar longe do que há para se descobrir apenas nas duas últimas páginas. Tem toda a razão o crítico e escritor Carlos André Moreira ao dizer que a reconciliação de ambos é uma paródia rançosa. Que durará décadas. Na reconciliação, ensina Aldo, é preciso dizer “bem menos do que calamos”. Pelo visto no romance, muitíssimo menos. O adultério cometido por Aldo é bastante comum, banal, mas a narrativa do desmoronamento é envolvente. Ao fundo, há certeza de que a felicidade é frágil e de que os laços, esses são bem mais fortes.

Cada mudança de voz narrativa funciona como um furacão. Boa parte do que está organizado e coerente numa voz é desmanchado pela próxima. E a entrada em cena da voz da filha vem com o poder de uma muito eficiente máquina de demolição.

É claro que muita gente está fazendo comparações entre Laços e Dias de Abandono, de Ferrante. Mas vamos deixar pra lá.

Quando você comprar este romance da editora Todavia, procure esquecer o mau prefácio de Jhumpa Lahiri. Talvez seja melhor pulá-lo de vez. Já a tradução de Maurício Santana Dias é ótima.

Recomendo fortemente!

Elena Ferrante... Não, espera, Domenico Starnone.
Elena Ferrante… Não, espera, Domenico Starnone.

Livro comprado na Bamboletras.

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O motivo pelo qual Jorge Luis Borges não ganhou o Nobel em 1967

O motivo pelo qual Jorge Luis Borges não ganhou o Nobel em 1967

Tolstói não levou o Nobel, nem Proust, Joyce e Greene. Jorge Luis Borges não ganhou o Nobel, nem Nabokov, Virginia Woolf e Drummond. Mas todo ano são abertos os arquivos do prêmio de 50 anos atrás e descobrem-se coisas.

Jorge Luis Borges

Agora descobriu-se as razões, certamente esdrúxulas, que tiraram o prêmio de Borges em 1967. Estava decidido que o vencedor seria um latino-americano. Então Borges era franco-favorito, só que perdeu a láurea para o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. Os motivos? Ora, o então presidente do comitê do Nobel, Anders Osterling, achava o escritor “demasiado exclusivo ou artificial em sua engenhosa miniatura”.

A sumidade também barrou outros autores importantes. Um ano antes, em 1966, havia eliminado Samuel Beckett. Achava-o “niilista e pessimista”, fora do que considerava “o espírito da Academia”. Beckett acabou virando o jogo e recebeu o prêmio em 1969. O mesmo não aconteceu com Borges, morto em 1986 sem o Nobel.

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O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (nova tradução de Irineu Franco Perpetuo)

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (nova tradução de Irineu Franco Perpetuo)

O Mestre e MargaridaComo também aconteceu com o Ulysses de Joyce, este é o terceiro O Mestre e Margarida que leio. Ambos os livros têm três traduções no Brasil — na verdade, O Mestre tem quatro, mas uma é do inglês.

A primeira leitura foi feita em uma edição da Ars Poetica com tradução direta do russo por Konstantin G. Asryantz, Eu não indico, pois achei o texto truncado, nada fluido. Se não me engano, era uma edição de 1992 (não possuo mais o exemplar).

A segunda, igualmente do russo, era de Zoia Prestes e saiu pela Alfaguara em 2009. Já era bem melhor, mais ainda não de todo satisfatória.

Esta terceira tradução, de Irineu Franco Perpétuo (Editora 34) é excelente, sem dúvida, a melhor de todas. Porém, ainda houve outra tradução que desconheço, feita a partir do inglês. Ela foi publicada em 1975, pela Nova Fronteira, e em 1985, pela Abril Cultural. É de Mário Salviano Silva.

Importante informar que o texto utilizado por Irineu foi aquele estabelecido pela mais recente edição crítica russa. Acontece que Bulgákov jamais publicou seu livro em vida, tendo deixado várias versões dele. Os atuais estudos buscaram chegar o mais próximo possível do que seria o desejo do escritor.

Abaixo, republico um artigo que escrevi recentemente para o Guia21 a respeito de Bulgákov e sua obra-prima, quando dos cem anos da Revolução Russa, mas eu já tinha publicado outro artigo aqui no blog em minha antologia pessoal de 50 maiores livros.

Foi muito prazeroso percorrer as 408 páginas da nova edição. São 32 capítulos e um epílogo. 28 deles e mais o epílogo se passam basicamente em Moscou e 4 em Jerusalém — consistindo no fragmento do romance do Mestre. Então, vamos ao texto que não seria possível sem o auxílio de minha Elena Romanov.

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Stálin tinha real interesse por arte, costumando ir a concertos, óperas e peças de teatro. Foi ele, pessoalmente, quem assistiu, reprovou e fez proibir uma ópera de Shostakovich, por exemplo. Também assistiu quinze vezes — não é exagero — à peça Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov. Simplesmente adorou. Stálin também costumava telefonar de madrugada para assessores e outras pessoas quaisquer com quem tivesse assuntos a tratar. Sofria de insônia e, com sua fama, é claro que assustava quem recebia as ligações. Telefonou uma vez para Bulgákov após este lhe enviar quase uma centena de cartas pedindo permissão para emigrar. A lenda diz que foram várias ligações, mas uma aconteceu com certeza.

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O conteúdo desta ligação é bem conhecido. Bulgákov ficou com medo e teve receio de insistir quando Stálin disse que preferia que ele permanecesse na URSS. O líder prometeu-lhe um emprego em um teatro, o que acabou acontecendo. Assim ele encontrou trabalho no Teatro da Juventude de Trabalho de Moscou (TRAM), e depois no Teatro de Arte de Moscou. Neste século, o dramaturgo espanhol Juan Mayorga escreveu uma peça que começa com o famoso telefonema de Stálin para Bulgákov, chamada Cartas de Amor para Stálin.

Anos depois da conhecida ligação, Bulgákov tentou se tornar um escritor “soviético”, dento dos padrões do realismo socialista. Em 1939, ele começou a trabalhar em uma peça laudatória ao líder. Mas Stálin, ao ler os esboços, parece não ter ficado satisfeito e, sem falar com o autor, indiretamente proibiu Bulgákov de terminá-la, não permitindo o acesso do escritor e de sua esposa aos arquivos em Batumi, cidade georgeana onde Stálin iniciou sua vida política. A peça era cheia de clichês socialistas, nada era vivo. E o Secretário-Geral sabia como Bulgákov podia escrever.

Nós também. Bulgákov morreu em 1940 e sua maior obra, O Mestre e Margarida, veio a público somente em 1966-67. Ou seja, ela permaneceu desconhecida de seus contemporâneos. Mas ele já tinha publicado peças de teatro e outras obras em prosa, como as extraordinárias novelas Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro. Sua arte é de absoluto virtuosismo. Se o campo onde se sente melhor é o da sátira corrosiva, ele também sabia descrever cenários bíblicos, como fez em partes de O Mestre.

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Mikhail Bulgákov (1891-1940) nasceu em Kiev, na Ucrânia, que era então parte do Império Russo. Ele foi o primeiro filho de Afanasiy Bulgákov, professor da Academia Teológica de Kiev. Seus avôs eram clérigos da Igreja Ortodoxa Russa. No início da Primeira Guerra Mundial, voluntário na Cruz Vermelha, foi imediatamente enviado para o front, onde foi gravemente ferido em duas ocasiões. Em 1916, formou-se médico na Universidade de Kiev e depois, junto com seus irmãos, alistou-se no Exército Branco.

Após a Guerra Civil, com a derrota dos brancos e a ascensão do poder dos soviéticos, sua família emigrou para o exílio em Paris.  Apesar de sua situação relativamente privilegiada durante os primeiros anos da Revolução, Bulgákov viu-se impedido de emigrar da Rússia devido a um insistente tifo. Nunca mais viu sua família.

As lesões da guerra tiveram graves efeitos sobre sua saúde. Para aliviar sua dor crônica, especialmente no abdômen, foi-lhe administrada morfina. Ficou viciado, mas parou de injetá-la em 1918. O livro Morfina, publicado em 1926, atesta a situação do escritor durante esses anos. Em 1919, ele decidiu trocar a medicina pela literatura.

Elena Shílovskaya
Elena Shilovskaya

Em 1932, Bulgákov casou-se com Elena Shilovskaya, que seria a inspiração do personagem Margarida de sua novela mais famosa. Durante a última década de sua vida, Bulgákov trabalhou em O Mestre e Margarida, além de escrever peças, fazer revisões, traduções e dramatizações de romances. Alguns foram para o palco, outros não foram publicados e ainda outros foram destruídos.

20171021-tenorPara quem hoje lê Bulgákov, o fato do escritor não apoiar o regime comunista é apenas uma informação complementar. O que interessa é que ele foi o mais brilhante dos gozadores, dos zombeteiros. O autor ria da burocracia e dos governantes. Porém, como dissemos acima, Stálin adorava de uma de suas peças. Não obstante o amor do chefe, o escritor suportou grande assédio da NKVD, que chegou a procurá-lo em casa e prendeu-o em mais de uma ocasião.

Muitas evidências sobreviveram sobre a atitude do escritor em relação ao poder soviético na década de 1920.  Entre eles há artigos na imprensa branca e materiais de interrogatórios. Porém, curiosamente, os brancos o criticavam por ser pró-revolução e os revolucionários pelo motivo contrário. Para os comunistas, sua arte era um “brancovanguardismo” e ele seria um “reacionário social”; para os brancos, ele seria apenas um vendido. É curiosa a posição de admiração de Stálin, apesar da polêmica. Muitos escritores que não apoiaram a liderança de Stálin foram presos. Bulgákov não.

Bulgákov morreu de um problema renal em 1940, aos 49 anos.

Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Korovin com seu monóculo quebrado
Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Koroviev com seu monóculo quebrado

Em vida, Bulgákov ficou conhecido principalmente pelas obras com as quais contribuiu para o Teatro de Arte de Moscou de Konstantín Stanislavski. Foram muitas comédias e adaptações de romances para o teatro, casos, por exemplo, de Dom Quixote e Almas Mortas. Bulgákov também escreveu uma comédia grotesca fazendo com que Ivan, o Terrível, aparecesse em Moscou na década de trinta. Um sucesso.

20171020-um-coracao-de-cachorro-e-outras-novelas-mikhail-a-bulgakovEm meados de 1920, Bulgákov conheceu os livros de H.G. Wells e, profundamente influenciado, escreveu várias histórias com elementos de ficção científica. Um exemplo é a extraordinária novela Um Coração de Cachorro, onde Bulgákov critica abertamente — e com impressionante cinismo e ironia — a primeira década do poder soviético. Outro é a hilariante Os Ovos Fatais.

Morfina merece menção especial. Trata-se do diário de um companheiro do protagonista, o médico Poliakov. É uma crônica da autodestruição, escrita em termos perturbadores. Ele escreve no início do livro: “Eu não posso ajudar a louvar quem primeiro extraiu a morfina das cabeças das papoulas”. No mais, é uma história clínica escrita por um mestre. “Como viciado, eu declararia que o ser humano só pode funcionar normalmente após uma injeção de morfina, mas eu era médico”.

A grande obra-prima

A novela satírica O Mestre e Margarida, escrita para a gaveta, sem chances ou tentativas de publicação durante sua vida e que foi publicada por sua esposa vinte e seis anos após a morte do escritor, certamente lhe garante a imortalidade literária. Por muitos anos, o livro só pôde ser obtido na União Soviética como samizdat, antes de sua aparição por capítulos na revista Moskva. É o grande romance do período soviético e que contribuiu para criar várias expressões do dia a dia russo. É que um manuscrito do Mestre, destruído, constitui um elemento importante da trama e, de fato, Bulgákov teve que reescrever o romance após ter queimado o próprio manuscrito.

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Sabem aqueles livros que valem por cada palavra? Que é engraçado, profundo, social, histórico, existencial e grudento? Pois O Mestre e Margarida satisfaz todas as condições acima. A influência do livro pode ser medida pelo reflexo da obra não somente na cultura russa, mas na mundial. O livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, tem clara e confessa influência de Bulgákov; a letra da canção Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, foi escrita logo após Mick Jagger ter lido o livro, assim como Pilate, do Pearl Jam, e Love and Destroy da Franz Ferdinand, a qual é baseada no voo de Margarida sobre Moscou. Mas nem só a literatura e o rock homenageiam Bulgákov: o compositor alemão York Höller compôs a ópera Der Meister und Margarita, que foi apresentada em 1989 na ópera de Paris e lançada em CD em 2000.

O romance começou a ser escrito em 1928. Em 1930, o primeiro manuscrito foi queimado pelo autor após ver censurada outra novela de sua autoria. O trabalho foi recomeçado em 1931 e finalizado em 1936. Sem perspectiva alguma de publicação, Bulgákov dedicou-se a revisar e revisar. Veio uma nova versão em 1937 e ainda outra em 1940, ano de sua morte. Na época, apenas sua mulher sabia da existência do romance.

Uma versão modificada e com cortes da censura foi publicada na revista Moscou entre 1966 e 1967, enquanto o samizdat publicava a versão integral. Em livro, a URSS só pôde ler a versão integral em 1973 e, em 1989, a pesquisadora Lidiya Yanovskaya fez uma nova edição — a que lemos atualmente — baseada em manuscritos do autor.

Uma amiga russa me escreve por e-mail: “Eu tinha uma colega de quarto que lia apenas O Mestre e Margarida. Ela terminava e voltava ao início. E dava gargalhadas e mais gargalhadas. Na Rússia o livro foi tão lido que surgiram expressões coloquiais inspiradas por ele. A frase dita por Woland ‘Manuscritos não ardem’ é usada quando uma coisa não pode ou não será destruída. Outra é ‘Ánnuchka já derramou o óleo’, para dizer que o cenário de uma tragédia está montado”.

As cenas de Pôncio Pilatos, a do teatro, a do belíssimo voo de Margarida e a do baile são citadas aqui e ali com enorme admiração. E a fama é justa.

A ação do romance ocorre em duas frentes, alternadamente: a da chegada do diabo a Moscou e a da história de Pôncio Pilatos e Jesus, com destaque para o primeiro. O estilo do romance varia espetacularmente. Os capítulos que se passam em Moscou têm ritmo vivo e tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém estão escritos em forma clássica e naturalista. Em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Koroviev — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno Azazello e a bruxa Hella, sempre nua.

Arte: Elena Martynyuk
Arte: Elena Martynyuk

Moscou surge como um caos: é uma cidade atolada em denúncias e na burocracia, as pessoas simplesmente somem e há comitês para tudo. No livro, o principal comitê é uma certa Massolit (abreviatura para sociedade moscovita de literatura, que também pode ser interpretada como literatura para as massas) onde escritores lutam por apartamentos e férias melhores. Há também toda uma incrível burocracia, tão incompreensível quanto as descritas por Kafka, mas que formam uma atordoante série de cenas hilariantes.

Naquela Moscou o diabo está em casa e podem deixar tudo com ele, pois Woland e sua trupe demonstram notável criatividade para atrapalhar, alterar, sumir e assombrar. O escritor Bulgákov responde sempre à altura das cenas criadas. A cena do teatro onde é distribuído dinheiro e a do baile — há ecos dos bailes dos romances de Tolstói — são simplesmente inesquecíveis. Falei em Tolstói, mas a base de criação de Bulgákov é outro cômico ucraniano: Gógol.

O livro pode ser lido como uma comédia de humor negro, como alegoria místico-religiosa, como sátira à Rússia soviética ou como crítica à superficialidade das pessoas. Há mais pontos bem característicos: Bulgákov jamais demonstra nostalgia da Rússia czarista — apenas da religião — e Woland não está em oposição direta a Deus. Ele é como um ser que pune os maus e a covardia — é frequente no livro a menção de que a covardia é a pior das fraquezas. E as punições de Woland são criativas, desconcertantes.

Em 2006, o Museu Bulgákov, em Moscou, foi vandalizado por fundamentalistas. O museu fica no antigo apartamento de Bulgákov, ricamente descrito no romance e local dos mais diabólicos absurdos. Os fundamentalistas alegavam que O Mestre e Margarida era um romance satanista.

Mikhail e sua Margarida
Mikhail e sua Margarida

Nas imagens finais de O Mestre, Mikhail Bulgákov dá uma dura avaliação do mundo que encontrou. Ele seria infernal e sem esperança. Era óbvio que as tentativas de se tornar parte do mundo soviético falharam. Ele não entendia aquele novo idioma.

~ Curiosidades ~

A venda da alma

Sabe-se que Bulgákov foi muitas vezes ao Bolshoi para ver e ouvir a ópera Fausto, de Charles Gounod. Esta ópera sempre o animava, ele voltava feliz para casa. Mas, um dia, Bulgákov voltou do teatro em estado muito sombrio. Ele tinha começado a escrever sua peça sobre Stálin, Batumi. Bulgákov reconheceu-se na imagem de Fausto. Como escrevemos acima, a peça jamais foi concluída por ter sido indiretamente reprovada por Stálin.

Personagem desaparecido

Em 1937, nos 100 anos de aniversário da morte de Pushkin, vários autores apresentaram peças dedicadas ao poeta. Entre elas, havia uma de Bulgákov. Alexander Pushkin distinguia-se das obras de outros autores pela ausência do personagem principal. Bulgákov acreditava que a aparição do homenageado no palco tornaria tudo vulgar e insípido. Sua peça foi considerada a melhor daquele ano.

Tesouro

No romance A Guarda Branca, Bulgákov descreveu com bastante precisão a casa em que morara em Kiev. Lá, haveria um tesouro. Os novos proprietários da casa quase a derrubaram, quebrando paredes ao tentar encontrar o dinheiro descrito no romance. É óbvio que não encontraram nada e ainda ficaram irritados com o escritor.

História de Woland

Woland recebeu seu nome a partir do Fausto de Goethe. No Fausto, ele é citado apenas uma vez, quando Mefistófeles pede para que espíritos malignos abram espaço pois “O nobre Woland está chegando!” Em outros Faustos ele aparece como Faland ou Phaland. A primeira edição de O Mestre continha uma descrição detalhada (15 páginas manuscritas) de Woland. Esta descrição está perdida. Além disso, na versão inicial, Woland era chamado Astaroth (um dos demônios mais altos do inferno, de acordo com a demonologia ocidental). Mais tarde, Bulgákov o substituiu.

O protótipo de Behemoth

Em russo, diz-se Begemot. O ultrafamoso assistente de Woland tinha um protótipo real, só que este não era um gato, mas um cachorro: o grande cão preto de Bulgákov chamava-se Behemoth. Esse cachorro era muito inteligente. Uma vez, quando Bulgákov estava comemorando o Ano Novo com sua esposa, logo após o relógio de parede dar doze badaladas, o cachorro também latiu 12 vezes, embora ninguém lhe tivesse ensinado.

Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons
Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons

Memória

Desde os primeiros anos de vida, Bulgákov demonstrou possuir uma memória excepcional. Lia muito. Diz a lenda que ele leu tantas vezes o romance Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que o sabia de cor.

Coleção

Bulgákov tinha todos os ingressos de teatro — peças, ópera e concertos — a que compareceu.

Crítica soviética

O escritor também colecionava, coladas em um álbum, recortes de jornais e revistas com críticas de suas obras. Dava ênfase às mais devastadoramente hostis. De acordo com Bulgákov, ali havia 298 críticas negativas e apenas 3 elogiosas.

Defesa de Stanislavski

A primeira produção no Teatro de Arte de Moscou de Os Dias dos Turbin foi garantida por Konstantín Stanislavski. Ele simplesmente afirmou que, se a peça fosse banida, fecharia o teatro.

Stálin e Os Dias dos Turbin

Stálin gostava muito da peça e assistiu-a pelo menos 15 vezes, aplaudindo com entusiasmo desde o camarote destinado a membros do governo. Oito vezes ele desceu para falar com os artistas após a peça, a fim de incentivar a necessidade da luta política na literatura.

Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgákov, com sua esposa Elena Shilovskaya
Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgákov, com sua esposa Elena Shilovskaya

(*) Com pesquisa de Elena Romanov

Livro comprado na Bamboletras.

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Cartas recém reveladas de Sylvia Plath citam abuso doméstico cometido por Ted Hughes

Cartas recém reveladas de Sylvia Plath citam abuso doméstico cometido por Ted Hughes

A correspondência inédita entre a poetisa e sua antiga terapeuta registra acusação de espancamento por parte do marido e o desejo explícito de que ela morresse.

Traduzido livremente do Guardian

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Numa carta dirigida a sua antiga terapeuta, Sylvia Plath (1932-1963) escreveu que seu marido, Ted Hughes (1930-1998), vencera. Isso dois dias antes de ela abortar o segundo filho do casal. Também escreveu que Hughes queria vê-la morta. É o que diz nas cartas de Plath. As duas acusações estão entre as revelações mais explosivas de uma correspondência inédita escrita durante um dos casamentos mais famosos e destrutivos da literatura.

Escritas entre 18 de fevereiro de 1960 e 4 de fevereiro de 1963, uma semana antes de sua morte, as cartas cobrem um período da vida de Plath que permaneceu até hoje desconhecido tanto para leitores como para estudiosos. A escritora norte-americana, que viveu estes anos na Inglaterra, era uma prolífica escritora de cartas e mantinha diários detalhados desde a idade de 11 anos. Porém, após sua morte, Hughes declarou que os diários de Plath daquela época foram perdidos, incluindo o último volume que, estranhamente, ele disse ter destruído para proteger seus filhos, Frieda e Nicholas.

Enviada sempre para a Dra. Ruth Barnhouse — o modelo para a Dra. Nolan na novela autobiográfica de Plath, A Redoma de Vidro, e que tratou o escritora nos EUA após sua primeira tentativa de suicídio em agosto de 1953 — a correspondência é entendida como os últimos textos sem censura escritos por Plath em seus meses finais, junto de algumas de suas poesias mais famosas, incluindo as da coletânea Ariel.

Assia Wevill
Assia Wevill

As nove cartas escritas após Plath descobrir a infidelidade de seu marido com sua amiga Assia Wevill em julho de 1962, formam o núcleo da coleção. Também estão incluídos registros médicos a partir de 1954.

O tratamento de Plath com Barnhouse terminou quando a poeta mudou-se para Inglaterra mas as duas seguiram uma amizade muito íntima que tem sido foco de estudo de scholars.  A correspondência revela uma intimidade tranquila e acolhedora, bem como um grande senso de humor.

Além de expor sua dor pela descoberta do adultério de Hughes, as passagens mais chocantes revelam a acusação de abuso físico (espancamento) sofrido por Plath pouco antes de abortar seu segundo filho em 1961. E na carta datada de 22 de setembro de 1962 — no mesmo mês em que os poetas se separaram — ela diz ter sido espancada por Ted. Vários dos poemas de Plath abordam o aborto, como Parliament Hill Fields.

A extensão do distanciamento do casal durante este período é revelada em outra carta da coleção, datada de 21 de outubro de 1962, em que Plath escreve para Barnhouse contando que Hughes lhe disse diretamente que a desejava ver morta. Embora Plath tivesse uma história de depressão e auto-agressão, e tivesse tentado se matar em 1953, ela apenas revelou tais episódios para Hughes após o casamento.

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As cartas foram escritas numa época em que Plath estava temendo por seu estado mental. Era o período da desintegração de um dos mais famosos casais literários do século XX. Hughes, nascido em Yorkshire, conhecera Plath enquanto ambos estudavam na Universidade de Cambridge em 1956. Hughes já era um poeta estabelecido e ela tinha ido a uma festa no dia 25 de fevereiro daquele ano com o desejo expresso de conhecê-lo. Quatro meses depois, eles se casaram e formaram rapidamente uma formidável e mutuamente benéfica parceria criativa que resultou na obra de Hughes, Hawk in the Rain, e na novela semi-autobiográfica de Plath, A Redoma de Vidro.

O fascínio público com o relacionamento era grande, ainda mais que a produção criativa de ambos se baseava em experiências de vida. Em outubro de 1962, Plath escreveu a maioria dos poemas que seriam incluídos em Ariel — publicado postumamente em 1965 — que inclui muitas referências e iconografias interpretadas como sendo sobre Hughes. Estes incluem as linhas em Daddy: “I made a model of you, / A man in black with a Meinkampf look / And a love of the rack and the screw” (“Eu fiz um modelo de você, / Um homem de preto com um olhar de Meinkampf / E um amor de cremalheira com parafuso”). Plath escreveu para sua mãe durante este período: “Eu estou escrevendo os melhores poemas da minha vida. Eles farão o meu nome”.

Décadas mais tarde, em Birthday Letters, de 1998, Hughes falou sobre seu tempo com Plath, sobre a tempestuosa ligação e as consequências da morte da mulher. O livro foi sua resposta final aos críticos feministas que, nos anos 70, acusaram Hughes a respeito do tratamento que dava a Plath. Durante esse tempo, ele foi várias vezes interrompido com gritos de “assassino” em suas leituras. A feminista norte-americana Robin Morgan publicou o poema The Arraignment, que começa com a frase “Eu acuso Ted Hughes”. Plath foi sepultada e na lápide lia-se Sylvia Plath Hughes, por insistência dele. Ela foi alvo de “vândalos” que removeram o sobrenome do marido, que sempre colocava o Hughes de volta.

Grave1Em sua coleção de 1998 Howls and Whispers, Ted citou uma das respostas de Barnhouse a Plath, em setembro de 1962, no poema de título: “And from your analyst: ‘Keep him out of your bed. Above all, keep him out of your bed’” (E se seu analista: Deixe-o fora da cama, deixe-o fora da cama). Em 2010, a aparente palavra final de Hughes sobre o relacionamento turbulento foi publicada sob a forma de seu poema Last Letter, que descreve o que aconteceu nos três dias antes de sua esposa morrer.

O nome de Hughes foi diversas vezes recolocado por ele na lápide de Plath
O nome de Hughes foi diversas vezes recolocado por ele na lápide de Plath

Bem, os estudiosos de Plath elogiaram a alta qualidade e as informações contidas nas cartas recém encontradas. Elas estão sendo publicadas em livro. O primeiro volume já saiu. O co-editor Peter K Steinberg disse: “É um incrível material que tinha ficado totalmente fora do radar”, Citando as poesias “sensacionais” que Plath escreveu em outubro de 1962: “É possível que Plath fizesse uma catarse ao escrever para a Dra. Barnhouse e que, ao fazê-lo, sentia-se livre para escrever aqueles poemas explosivos e duradouros”.

Andrew Wilson, autor de Mad Girl’s Love Song, sobre a vida de Plath antes de conhecer Hughes, disse que a correspondência com Barnhouse fornecem uma inestimável visão das origens de sua batalha contra a depressão. Elas formariam “o elo perdido” entre sua biografia e história literária. “Essas cartas parecem capazes de preencher certas lacunas de nosso conhecimento e lançam novas luzes sobre o casamento turbulento e controverso entre Plath e Hughes”, disse ele.

Por incrível que pareça, o arquivo chamou a atenção dos estudiosos da Plath após um vendedor de livros raros anunciá-lo on-line para venda.

Com todo o barulho provocado pela descoberta, Carol Hughes, a viúva do poeta, tratou de rebater: “As alegações feitas por Sylvia Plath em cartas inéditas para sua psiquiatra, sugerindo ter sido espancada por Ted Hughes, dias antes de ter abortado o segundo filho, são tão absurdas quanto chocantes para quem conhecia bem Ted”.

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Cansaço, de Álvaro de Campos

Cansaço, de Álvaro de Campos

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas –
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço…

Amada Negreiros, retrato de Fernando Pessoa
Amada Negreiros, retrato de Fernando Pessoa

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A noite da espera, de Milton Hatoum

A noite da espera, de Milton Hatoum

A noite da espera, de Milton HatoumFoi um choque iniciar e leitura de A noite da espera logo após ler Oblómov. Foi como cair num pântano após quilômetros de caminhada tranquila. O livro simplesmente não me envolveu e eu esperava muito dele. Imaginem que cheguei a dá-lo de presente a um amigo, na certeza de que era um excelente romance. Não é. E tinha tudo para eu gostar: era um romance escrito por um grande autor sobre a geração que esteve na universidade durante a ditadura militar nos anos 70, a minha geração. Tive vontade de abandoná-lo, mas fui até o fim. Logo de cara vê-se uma estrutura frouxa, como um tênis desamarrado. Fiquei esperando por alguma virada, mas nada aconteceu. Não tem boa trama, o conflito é contra algo que não se vê e que não parece perigoso ou incompreensível, o cenário é pintado com superficialidade, enfim, dá vontade de largar. O protagonista e narrador da história é desinteressante. Burro, até diria. Perdido na cidade, mudando de moradia a toda hora e, incrivelmente, refletindo pouco sobre os fatos de sua vida — a separação dos pais, o sumiço da mãe, o pai entusiasmado com a “revolução” dos milicos, os amores — Martim vê tudo passar sem intervir e, pior, sem refletir muito. O livro vai ficando cada vez mais difícil de entender em razão de sua superficialidade e péssima construção. Eu, como leitor, tive que anotar o nome dos personagens e como eles se relacionam, pois todos falam e agem igualmente, sem a menor distinção. São chatos nos dois sentidos. Todos dizem insignificâncias. A política também não é muito tocada. Só se sabe que há censura, perigo e corrupção. Bem, não é uma novidade. E onde ficou a trama, o romance, a tensão, a reflexão, a humanidade? Oblómov tinha setecentas páginas e este romance tem duzentas e poucas, só que muito mais longas. Um saco.

Não recomendo. E, digo-lhes, meus sete leitores, este é o primeiro volume de uma trilogia… Tô fora.

Livro comprado na Bamboletras.

Mídia promocional do programa Impressões do Brasil (TV Brasil)
Mídia promocional do programa Impressões do Brasil (TV Brasil)

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O Monty Python Michael Palin em Portugal: “O politicamente correto está impedindo o desenvolvimento da comédia”

O Monty Python Michael Palin em Portugal: “O politicamente correto está impedindo o desenvolvimento da comédia”

Michael Palin… Bem, quem não conhece Michael Palin? Ele é um dos Monty Python e se você não o conhece talvez não deva lê-lo, pois a desinformação denuncia alguém não muito familiarizado com a comédia, esta muito pouco religiosa e solene instituição. A biografia de Palin já garante que toda palavra sua torne-se importante, ainda mais quando ele se manifesta a respeito daquilo que exerceu como poucos — a tarefa de grandíssimo comediante. Os filmes dos Python, muitos com mais de 50 anos, ainda são vistos e de-co-ra-dos com devoção pelos fás no youtube. Se você ainda não os viu, não sei onde esteve nas últimas décadas.

Palin andou dando entrevistas e participando de eventos em Portugal na semana passada. Não posso evitar de copiar aqui duas matérias do sempre excelente publico.pt.

HUMOR

Um Monty Python em Viseu: “A Igreja achava mesmo que ia ser derrubada por A Vida de Brian?”

O politicamente correcto “está a impedir o desenvolvimento da comédia”, mas hoje Michael Palin não escreveria um sketch sobre o islão. Entrevistado por Ricardo Araújo Pereira, chamou centenas de pessoas à 3.ª edição do festival Tinto no Branco.

Por Joana Amaral Cardoso

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“Este homem não é um homem comum”, começou Ricardo Araújo Pereira, fazendo de uma fala do sketch do super-homem que arranjava bicicletas dos Monty Python a sua apresentação elogiosa de Michael Palin. Estes são dois homens da comédia e dos livros que tiveram “uma conversa completamente diferente”, claro, nesta sexta-feira à noite em Viseu perante centenas de pessoas — e sob um frio de rachar. Palin defendeu, num tempo em que considera que o politicamente correcto “está a impedir o desenvolvimento da comédia”, que “o humor ilumina tudo e nada [há de] demasiado sério que não se consiga defender contra o humor. A Igreja achava mesmo que ia ser derrubada por A Vida de Brian?”.

A conversa marcou a abertura da 3.ª edição do festival literário Tinto no Branco, inicialmente prevista para a Tenda Jardins de Inverno, mas depois transferida para o exterior do Solar do Vinho do Dão — o centro nevrálgico do evento — devido à prevista e confirmada afluência do público, que superava os 200 lugares previstos da tenda e assim encontrou espaço nos cerca de 600 lugares sentados disponíveis e muitos outros em pé. “Já alguém morreu?”, atirou a certa altura Michael Palin, dos Monty Python, escritor, viajante profissional, actor e apresentador de TV. Aos dez minutos de conversa ao ar livre, com sete graus nos termómetros, Ricardo Araújo Pereira já tinha puxado uma mantinha sobre as pernas. “Pareço uma velhinha”, disse a uma audiência que nunca deixou de sorrir e que terminou a hora de conversa com uma ovação de pé. “Isso, activem a circulação”, brincou Palin antes de abandonar o palco.

Esse palco pertencera aos dois, entrevistador e entrevistado, fã e ídolo. A conversa provou logo no título como os Monty Python são, entre muitas coisas, infinitamente citáveis. Comprovou que falar dos limites do humor, do politicamente correcto e, claro, de papagaios mortos não tinha rival no frio viseense. E solenizou-se então quando Ricardo Araújo Pereira, que acaba de lançar um livro de crónicas em torno do que descreve ser o seu reaccionarismo quanto a elementos tão variados quanto os novos media até à língua, perguntou a Michael Palin como achava que seria recebido hoje um sketch como o do lenhador travesti ou A Vida de Brian (1979). Palin responde: “É difícil saber, porque ainda são populares.”

O filme dos Monty Python (formados por John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Palin) foi recebido com boicotes, protestos e muito debate na época. A rábula do lenhador travesti é um dos intemporais números dos Python e o seu protagonista é Palin, que também escreveu sketches como aquele que ficou reconhecível pela sua exclamação “Ninguém espera a Inquisição Espanhola!”. Para Michael Palin, é uma questão em aberto saber “se se consegue agora escrever algo fresco sobre travestismo, transgénero ou autoritarismo religioso”.

O homem que é conhecido, como lembrou Araújo Pereira, como “o Python simpático” passou depois a responder à sua própria pergunta: “Escreveria hoje algo sobre o islão? Nem pensar, nem pensar, porque há por aí pessoas perigosas.”

“[Mas] gostaria de escrever sobre toda essa área da tolerância e intolerância. E gostaria de escrever algo sobre o politicamente correcto hoje, porque acho que está a impedir o desenvolvimento da comédia. Estamos todos a fazer coisas de que temos vergonha e a comédia é uma forma óptima de falar sobre essas coisas e de lidar com elas. São tempos diferentes daqueles quando escrevíamos comédia em 1969, em que tudo era um alvo em aberto, mas estranhamente acho que isso era porque no mundo na altura havia mais com que nos preocuparmos, a Guerra Fria, a luta pelos direitos civis, mas por alguma razão em Inglaterra podíamos falar sobre quase tudo através da comédia. Porque ninguém tinha feito isso antes.”

E chega à conclusão: “Olhando para os Python hoje, há provavelmente todo o tipo de coisas que seriam totalmente politicamente incorrectas. O que é estranho é que as pessoas ainda se riem delas, ainda vêem os programas, e não houve nenhuma insurreição civil, nenhuma grande religião encerrou por causa disso.”

Michael Palin considera-se “um sacana extremamente sortudo”, disse logo no pontapé de saída a Ricardo Araújo Pereira. “Escrever é o que mais gosto. É um acto criativo primário”, acredita, “ é algo que estamos sempre a aprender”. O Monty Python está em “Biseo”, como pronuncia atenciosamente, provavelmente sem saber porque arranca alguns risos da plateia — a troca do bê pelo vê e o ligeiro ciciar no esse aproximam-no ao sotaque da região, e a audiência reconhece-se. São fãs dos Monty Python de todas as idades, mas também fãs dos Gato Fedorento, que ocupariam Araújo Pereira com fotografias e autógrafos no final da conversa.

O humorista e colunista português quis saber muito sobre o grupo de que é admirador, sendo que já entrevistara Terry Jones e John Cleese no passado. É das “tensões” entre os vários Python que vêm alguns dos seus feitos, responde-lhe Palin. Elas eram “parte da dinâmica que fazia os Python funcionar”, essa trupe que já de si considera que “era em parte um acidente”. A voragem criativa era tal que era “uma força centrífuga” e a sua conhecida animosidade com John Cleese serviria o grupo no programa da BBC em que se estrearam, Monty Python’s Flying Circus (1969-74). “Eu cumpria a função do homem com quem o John se zangava. O que é muito importante. Ele tentava devolver o papagaio e eu dizia ‘Não, não, está só a descansar’.” Esse sketch é um dos que nomeia quando fala do processo criativo do grupo, um dos tiros certeiros que os pôs logo, numa primeira leitura, a rir “histericamente”. “O [sketch do] Ministry of Silly Walks foi mais trabalhoso.”

Michael Palin assume-se como um observador do comportamento humano. Tanto que é essa a sua leitura dos três filmes Python, que considera que Ricardo Araújo Pereira “levou demasiado a sério”. Por não serem, como enunciara o entrevistador, sobre os grandes temas de Deus, fundação de Inglaterra e sentido da vida, mas sim “sobre o absurdo do comportamento humano” na religião organizada (e esganiça a voz para imitar alguns dos seguidores de A Vida de Brian), “sobre o comportamento britânico”, sempre polido mesmo quando violento (“Oh, temos um Império. Oh céus, oh dear”, brinca sobre Monty Python e o Cálice Sagrado, de 1975) ou um filme que, concede, “ainda é bastante radical” — O Sentido da Vida, de 1983.

O encontro entre o Python e o Gato foi o grande chamariz do festival, que alia o vinho da região e a literatura e visa colocar Viseu na rota do turismo cultural. Conta também na programação desta sexta-feira com uma actuação de Benjamin e que ao longo do fim-de-semana terá ainda duetos conversadores com o crítico cultural Pedro Mexia, o escritor e ex-secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas, a historiadora Raquel Varela, o poeta Nuno Júdice ou o escritor Afonso Cruz, bem como entre Frei Bento Domingues e Carlos Fiolhais.

.oOo.

ENTREVISTA:

Michael Palin em Portugal: “A boa comédia é na verdade um protesto”

O Monty Python esteve em Viseu no festival literário Tinto no Branco para falar da comédia revolucionária que fez há 50 anos mas também sobre livros, Trump e viagens.

Por Joana Amaral Cardoso

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Horas antes de um encontro às cegas com Ricardo Araújo Pereira, que nunca tinha visto mas com quem aceitou conversar em Viseu, Michael Palin estava preparado para falar uma vez mais dos Monty Python. O grupo que formou com John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones é quase sempre o seu cartão de visita – embora, explica ao PÚBLICO, nem sempre isso aconteça nos festivais literários em países mais remotos onde a trupe não é tão conhecida.

Não foi o caso nesta 3.ª edição do Tinto no Branco, vinho Dão e livros, escritores e pensadores à conversa com provas de vinho à mistura no centro de Viseu. Uma cidade que não conhecia, também, e que assim cumpria dois requisitos para aceitar vir a um de tantos festivais literários que proliferam mundo fora. “Estou sempre interessado em falar sobre a escrita. Gosto de viajar e se há um festival num sítio que não conheço ou onde estive e quero voltar, isso é apelativo para mim. E quanto mais pequeno o festival mais gosto dele, porque conhecemos as pessoas e fazem uma diferença real — vê-se numa cidade pequena como Viseu.”

Michael Palin, encarnação de cavalheiro inglês e simpatia imune a feitos e fama, é um viajante inveterado que já seguiu os passos de Hemingway nas suas viagens, ou os de Phileas Fogg de Volta ao Mundo em 80 Dias, e que a BBC levou em inúmeros programas pelo globo. Nunca fez um sobre Portugal mas já visitou o país e suas cidades várias vezes, em férias. Tem editados em Portugal muitos dos seus livros de viagens, e também um único livro de ficção, Verdade e Consequência (Bizâncio, 2015). Trabalha agora num novo livro: “Estou a escrever a história da vida de um navio”, envolta tanto em mistério quanto em tragédia, a do HMS Erebus.

Depois de uma conversa com Ricardo Araújo Pereira que manteve mais de meia centena de pessoas ao ar livre numa fria noite de Viseu na sexta-feira, o adepto do Sheffield aqueceu-se com uma espreitadela ao Porto-Benfica. Horas antes, falava sobre a intemporalidade dos Python, pedagogia humorística, sobre Trump e o “Brexit”.

Alguma vez se cansa de falar sobre os Monty Python? Honestamente.
Canso-me se for pura repetição. Mas estou sempre grato por [haver] pessoas genuinamente interessadas nos Python e no facto de ainda resultarem, especialmente no estrangeiro porque é fascinante saber por que é que os Python ultrapassam fronteiras — [saber] o que as pessoas em Portugal, no Brasil ou na Polónia pensam sobre os Python. De cada vez tento pensar, da forma mais clara possível, na melhor resposta que dou.

Estando neste festival, pensa-se em como o trabalho dos Monty Python tem algo de literário na construção e estrutura de alguns dos seus sketches. Introduziram isso de forma consciente, quando escreviam?
Os Python reflectiam muita da informação que tínhamos adquirido na nossa educação e atirávamos para lá absolutamente tudo. Mas a ideia primordial era de que nunca devia ser um sermão, devia ser engraçado, ter um toque de leveza. Tivemos o [Marcel] Proust, por exemplo, e não havia muitos programas de comédia com Proust. Usámo-lo numa espécie de estúdio de televisão provinciano onde concorrentes tinham de resumir as obras de Proust em menos de 15 segundos [risos]. Lidámos com livros incrivelmente densos e complexos e confiámos no facto de o público saber que é um livro incrivelmente complicado e rico, que demora muito a ler. Conscientemente usávamos partes da nossa formação e ideias, temas. Lembro-me de um sketch muito engraçado que Eric Idle escreveu sobre dois homens a discutir a existência ou não de deus, enquanto estão a lutar – um era um bispo e um humanista. Usávamos conceitos intelectuais e tornávamo-los algo muito tonto.

Em Junho, doou mais de 50 dos seus cadernos e diários, cheios de ideias e esboços de sketches redigidos entre 1965 e 1987, à Biblioteca Nacional Britânica. O que o levou a fazê-lo?
Durante muito tempo escrevi e mantive cadernos de notas, farrapos de papel, envelopes, ideias apontadas e que estavam a apanhar pó em pastas em casa. Pensando no que faria com eles, foi claro que os Monty Python não são algo que vá desaparecer. Na verdade, quanto mais nos afastamos dos Python mais as pessoas estão interessadas na forma como trabalhei, mesmo sendo coisas com 50 anos. Dando isto à Biblioteca Britânica, as pessoas podem organizá-los, catalogá-los, fazer sentido deles e também disponibilizá-los a quem esteja interessado em escrever comédia. Eu teria muito interesse em ter visto os cadernos do [influente comediante britânico] Spike Milligan. E isto permite saber como era uma sessão de escrita dos Python.

Têm mais informação sobre os êxitos, mas também sobre as falhas, os erros, os obstáculos que tentavam ultrapassar ao escrever.
Sim, há lá muitos sketches que nunca chegaram à televisão e é muito interessante, olhando para o conjunto de uma obra, descobrir o que não foi usado, o que foi riscado. É quase mais interessante do que o que foi usado.

Não havia dúvidas, mas essa doação é mais uma forma de confirmação do lugar dos Monty Python no Panteão da cultura britânica. Para quem escrevia comédia com leveza, sente-se agora esse peso?
Estava meio à espera que eles dissessem que não era o tipo de coisa que queriam. “Estamos mais interessados em Virginia Woolf ou Kingsley Amis ou whatever”. Mas eles é que tomaram a decisão. Adorariam tê-los porque os Python tornaram-se não só parte da cultura mas também algo que é muito difícil de definir. Quanto mais houver para compreender, mais interessante será.

Os Python ainda são considerados um avanço, uma inovação na comédia. Não víamos isso assim na altura, mas é o que é agora. As frases dos Python são constantemente usadas: “always look on the bright side of life”; “o que é os romanos alguma vez fizeram por nós?”. As pessoas usam-nas a toda a hora, os jornalistas, os políticos. Margaret Thatcher: ela tentou usar o sketch do papagaio morto a propósito de um candidato do Partido Liberal. Alguém do seu aparelho lhe disse para o fazer mas ela não sabia bem o que era. “É de um programa de televisão”; “o que é isso?”. E disseram-lhe “é o Monty Python’s Flying Circus”; e ela disse-lhes “Monty Python… É um dos nossos?”, [do partido]. [risos]

O seu filme mais recente como actor, da autoria do escritor de comédia política Armando Iannucci (Veep, The Thick of It), é The Death of Stalin e centra-se na ambição, no poder e na imagem. Surge numa altura de suspeitas sobre conspirações entre políticos americanos e a Rússia, de tensões entre Theresa May e Donald Trump, de “Brexit” – é particularmente atempado?
A situação hoje é, de muitas formas, diferente. Mas [o filme] é sobre o poder, como se consegue o poder e como se mantém esse poder. Hoje, por oposição ao tempo de Estaline, em que havia papelinhos com os nomes das pessoas e as condenavam por isto ou aquilo, agora há a Internet e pode controlar-se de facto as coisas a partir do centro. Pode-se piratear, pode-se bloquear, ou lançar dúvida como faz Trump. As declarações públicas de Trump são todas tweets, o que é óptimo porque se só se é tido em conta por 140 caracteres, isso significa que não tem de se entrar numa discussão completa. O que é uma forma de manter o poder.

Trump, pelo que sei, ainda não mandou ninguém para as minas de sal, mas está interessado no poder, na forma como se mantém o poder, como se difama as pessoas, o que é muito importante. The Death of Stalin é sobre como o poder e a ambição distorcem e transformam as pessoas, de seres humanos inteligentes e credíveis em apoiantes de actos horrendos e de excessos. Não penso que estejamos nessa situação. Mas por todo o mundo há pessoas a agarrar-se ao poder fazendo coisas muito cruéis, por isso é relevante.

A comédia é particularmente necessária em momentos assim, ou é um cliché pensá-lo?
Não penso que seja necessária, penso que existe. A comédia é muito importante nas crises. Na Grande Guerra havia muito humor, as pessoas riem-se nas situações mais desesperadas. Há que assegurar que esse riso não é um riso de desespero mas um riso que seja de protesto. É isso que a comédia é, a boa comédia é na verdade um protesto. É dizer “olhem para esta pessoa a dizer estas coisas!”, “olhem para o cão atrás dele a fazer-lhe xixi na perna”. Mostrar quão transiente e quão vazios são muitos dos gestos dos poderosos. A comédia e o ridículo são uma parte muito, muito forte do protesto, para manter as pessoas debaixo de olho. As pessoas verdadeiramente poderosas não têm muito sentido de humor, porque a comédia é sobre rirmo-nos também de nós mesmos, e eles não conseguem fazê-lo.

É algo em que os britânicos têm sido muito bons e penso que é por isso que estamos na confusão em que estamos hoje – porque nos conseguimos rir de nós mesmos. Vamos ter de nos rir bastante nos próximos anos. É a única coisa que podemos fazer.

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Sobre livros não lidos e como falar sobre eles, por Umberto Eco

Sobre livros não lidos e como falar sobre eles, por Umberto Eco

Traduzido com extrema liberdade pelo autor do blog

Lembro-me vagamente de um magnífico artigo de Giorgio Manganelli, explicando como um leitor sofisticado pode saber se um livro vale a pena ser lido, mesmo antes de abri-lo. Ele não estava se referindo à capacidade muitas vezes requerida a um leitor profissional, ou a um leitor afiado e criterioso. Não estava se referindo àqueles que podem julgar um livro a partir de uma linha de abertura, de duas páginas, de uma olhada aleatória do índice ou muitas vezes da bibliografia. Isso é simplesmente experiência. Não, Manganelli estava falando sobre uma espécie de iluminação, de um dom que evidentemente alegava ter.

Umberto Eco
Umberto Eco

Em How to Talk About Books You Haven’t Read (de Pierre Bayard, psicanalista e professor de literatura) é explicado como você pode falar sobre um livro que você não leu, até mesmo para seus alunos, inclusive quando se trata de um livro de extraordinária importância. Seu cálculo é científico. As boas bibliotecas contêm vários milhões de livros: mesmo que se leia um por dia, leríamos apenas 365 livros por ano, cerca de 3.600 em dez anos, e entre as idades de dez e oitenta anos nós teremos lido apenas 25.550. É pouco. Por outro lado, qualquer italiano que tenha tido uma boa educação secundária sabe perfeitamente que pode participar de uma discussão, digamos, sobre Matteo Bandello, Francesco Guicciardini, Matteo Boiardo, sobre as tragédias de Vittorio Alfieri ou sobre as Confissões de um Italiano, de Ippolito Nievo, conhecendo apenas o nome e algo sobre o contexto crítico, sem ter lido uma palavra deles.

E o contexto crítico é o ponto crucial de Bayard. Ele declara desavergonhadamente que ele nunca leu Ulysses de James Joyce, mas que pode falar sobre isso aludindo ao fato de que é baseado na Odisseia, que ele também admite nunca ter lido na íntegra. Ulysses também é baseado em um monólogo interno, com a ação se desenrolando em Dublin durante um único dia, etc. “Como resultado”, ele escreve, “muitas vezes me encontro falando sobre Joyce sem a menor ansiedade”. Conhecer o relacionamento de um livro com outros livros geralmente significa que você sabe mais sobre o livro do que se tivesse lido a obra.

Bayard mostra como nós, quando lemos certos livros percebemos que estamos familiarizados com seus conteúdos porque eles foram lidos por outros que falaram sobre eles. Ele faz algumas observações extremamente divertidas sobre uma série de textos literários que se referem a livros nunca lidos, incluindo Robert Musil, Graham Greene, Paul Valéry, Anatole France e David Lodge. E ele me faz a honra de dedicar um capítulo inteiro ao meu O Nome da Rosa, onde William de Baskerville demonstra familiaridade com o segundo livro da Poética de Aristóteles no momento em que o segura nas mãos pela primeira vez. Ele faz isso pela simples razão de que ele infere o que diz a partir de algumas outras páginas de Aristóteles.

Um aspecto intrigante do livro de Bayard, que é menos paradoxal do que parece, é que também esquecemos uma porcentagem muito grande dos livros que realmente lemos e, de fato, nós construímos uma espécie de imagem virtual deles que não consiste tanto no que dizem, mas no que eles evocaram em nossa mente. Então, se alguém que não tenha lido um livro cita passagens ou situações inexistentes, estamos prontos a acreditar que estão no livro.

Bayard se interessa pela ideia — e aqui é a voz do psicanalista em vez do professor de literatura — de que toda leitura ou não-leitura ou leitura imperfeita têm aspectos criativos e que, enfim, os leitores fazem sua parte. E ele prevê a criação de uma escola onde os estudantes “inventam” livros que não precisam ler, já que falar de livros não lidos é um meio de autoconsciência.

Bayard demonstra como, quando alguém fala sobre um livro não lido, mesmo aqueles que leram o livro não percebem os erros. No final de sua obra, ele admite ter apresentado três falsas informações em seus resumos de O Nome da Rosa, O Terceiro Homem, de Graham Greene e Changing Places de David Lodge. O divertido é que, quando li os resumos, notei imediatamente o erro em relação a Graham Greene, fiquei em dúvida sobre Lodge, mas não percebi o erro em meu próprio livro. Isso provavelmente significa que eu não li atentamente o que Bayard escreveu, que eu simplesmente espreitei o texto. Mas o mais interessante é que Bayard não percebeu que, ao admitir seus três erros intencionais, assumiu implicitamente que uma maneira de ler é mais correta do que outras, tanto que ele foi obrigado a fazer um estudo meticuloso dos livros que cita para poder sustentar sua teoria sobre não lê-los. A contradição é tão evidente que faz pensar se Bayard realmente leu o livro que escreveu.

Extraído de Crônicas de uma Sociedade Líquida por Umberto Eco, traduzido do italiano para o inglês por Richard Dixon.

Umberto Eco era um romancista italiano, crítico literário, filósofo, semiótico e professor universitário.

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