Em 24 de janeiro, publiquei no Face uma lista daqueles que seriam, na minha opinião, os 10 melhores romances brasileiros do século XXI.
Minha lista não é TÃO diferente da publicada neste domingo pela Folha. A ordem é alfabética.
– Budapeste, de Chico Buarque
– Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino
– Leopold, de Luís Antônio de Assis Brasil
– Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite, de Fal Azevedo
– O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório
– O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli
– O Drible, de Sérgio Rodrigues
– Os Supridores, de José Falero
– Pornopopeia, de Reinaldo Moraes
– Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves
Se há uma obra clássica que acho bem ruim é O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Hoje, ouvi uma bela definição do livro: é uma mistura do pior Thomas Mann e do pior Nietzsche, criada após demitirem o editor.
Sim, eu li tudo. 1200 páginas de total indireção.
Para piorar, o autor morreu antes de terminar. Mas acho — e nesta impressão estou muito bem acompanhado — de que o livro não teria fim, seria infinito.
Neste sábado (24), teremos o lançamento do livro IMITANDO OS NEGRINHOS, HEIN? – UMA HISTÓRIA POPULAR DO SPORT CLUB INTERNACIONAL. De autoria de Fabiano Neme (Condor F.C. – o uso político do futebol nas ditaduras da América Latina), o livro conta a história do Clube do Povo do Rio Grande do Sul pela perspectiva da cultura popular e de arquibancada.
Publicado pela editora De Letra Livros (@deletralivros no Instagram), IMITANDO OS NEGRINHOS, HEIN? inicia com a chegada da família Poppe a Porto Alegre e vai até a reinauguração do Beira-Rio, reformado para a Copa do Mundo de 2014.
Não se trata de um livro de história, mas sim de um livro de histórias. Assim, o leitor terá contato com crônicas que vão desde a uma reconstituição de um dia na vida do torcedor Charuto, passando pelo relato da polêmica entre Bráulio e os mandarins e pelo mítico “Grenal do Daniel Carvalho”.
Em fevereiro de 1844, Charles Dickens (1812-1870) pôde entender, feliz, que seu filho era um sinal da alegria universal. Anos antes, o mundo parecia mais inclinado a outra coisa. Em 1823, com menos de doze anos e “tão pequeno”, como lamentosamente disse, Charles foi retirado da escola e enviado para trabalhar a fim de ajudar a pagar as dívidas de seu pai.
John Dickens e a esposa, presos por dívidas em Marshalsea até se acertarem com seus credores, deixaram Charles com uma velha rabugenta que alugava quartos para crianças. De segunda-feira de manhã até sábado à noite, ele colava rótulos em garrafas de graxa de sapato em um armazém no Strand (Londres), guardando um pãozinho e um pedaço de queijo no armário da velha para suas refeições. Seu passatempo de domingo era visitar os pais na prisão. Depois de um ano, uma herança permitiu que seu pai pagasse o que devia. Libertado de Marshalsea, ele libertou Charles da fábrica de graxa, embora sua mãe preferisse deixá-lo lá…
Dickens pensava na infância como um inferno que sempre estava sujeito a retornar do passado para prendê-lo.
Envergonhado e profundamente ferido por sua provação, Dickens manteve-a em segredo e só revelou os detalhes em um livro de memórias que confiou a John Forster em 1847. Seu tom neste fragmento de autobiografia é desanimadamente irônico. “É maravilhoso para mim”, escreveu ele, “como pude ter sido tão facilmente rejeitado em tal idade”.
Com o mesmo ressentimento afiado, ele descreveu seu trabalho árduo como uma iniciação profissional, o início de sua “vida empresarial”. Sua tarefa era cobrir os potes com camadas de papel, aparar as bordas e, então, uma vez atingido o “nível de perfeição”, aplicar os rótulos impressos. “Perfeição” era sua piada amarga sobre um padrão estético. Ele declarou que, durante esse período, não recebeu “nenhum conselho, nenhuma orientação, nenhum encorajamento, nenhum consolo, nenhum apoio, de ninguém que eu possa lembrar, que Deus me ajude”.
Quinze anos depois, ele se referiu em uma carta à “miséria inesquecível daqueles tempos antigos” e tentou esquecê-la transferindo-a para “uma certa criança malvestida e mal alimentada” — uma criança abandonada, indigente e anônima que ele talvez tivesse visto na rua, seu Doppelgänger de tamanho reduzido. Invertendo a precedência biológica, Wordsworth sustentou que “a criança é o pai do homem” e esperava nunca perder o espírito infantil de “piedade natural” do qual sua poesia dependia. Dickens parafraseou essa declaração, mas frustrou sua alegre esperança em um relato de um passeio de infância no Household Words, quando descreveu um menino desleixado que então identificou como o “pai extremamente desconfortável e desonroso do meu eu atual”.
Foto de uma parede do Museu Dickens (a casa onde o escritor viveu), de Londres | Foto: Milton Ribeiro
Dickens manteve a visão fresca e vibrante que Charles Baudelaire invejava nas crianças, que “veem tudo como novidade” e parecem “sempre embriagadas”, mas sua euforia era sempre marcada pelo pavor. Em um dos poemas de Wordsworth sobre seus primeiros anos, um menino coloca as mãos em concha sobre a boca e sopra “piadas mímicas para as corujas silenciosas / Para que elas possam lhe responder”; o grito se transforma em gritos de alegria que Wordsworth resume sobriamente como “confluência selvagem / De estrondo alegre!”
Os garotos de Dickens são mais propensos a mendigar ou furtar bolsos do que a brincar pela paisagem em dueto com pássaros, e seu equivalente mais próximo a esses gritos poéticos surge em David Copperfield, quando um imundo negociante de roupas usadas — um “louco bêbado” que dizem ter se vendido ao diabo — apimenta cada uma de suas declarações a David com uma exclamação louca e estende essa explosão áspera a “uma espécie de melodia… como uma rajada de vento”.
Para Wordsworth, a infância era um paraíso perdido no tempo, mas que poderia ser recuperado no espaço, e ele o recuperava em suas perambulações pelas paisagens em que cresceu em Cumberland. Dickens, no entanto, considerava a infância um inferno sempre propenso a retornar do passado para prendê-lo. Na meia-idade, ainda olhava para o outro lado ao passar por Charing Cross, para não ver a rua que descia até o rio onde ficava a fábrica de graxa.
Duas trocas em Dombey e Filho transmitem sua convicção de que sua infância, em vez de ter sido perdida, lhe foi roubada. O Doutor Blimber, diretor da escola onde o desconsolado Paul está matriculado, faz uma pergunta retórica sobre seu aluno doente: “Vamos fazer dele um homem?” Paul responde: “Eu preferiria ser criança”, mas isso não é uma opção. Nem para Edith, que cinicamente se casa com o pai de Paul após a morte de sua primeira esposa. “Quando eu fui criança? Que infância você me deixou?”, ela pergunta à mãe, a coquete esfarrapada Sra. Skewton.
Uma infância alegre como a de Wordsworth era um luxo, como Dickens reconheceu ao escrever duas frases que acabou apagando do manuscrito de A Pequena Dorrit porque a verdade que contavam era cáustica demais: “Os pobres não têm infância. Ela precisa ser comprada e paga.” Na ausência de alguém para pagar, seu conto de Natal O Homem Assombrado e a Barganha do Fantasma nos mostra a criança desacomodada. Um fantasma tutelar aponta para um menino adormecido e o chama de “a última e mais completa ilustração de uma criatura humana, abandonado a uma condição pior que a dos animais, sem alívio de qualquer toque humanizador”. A criança é o fantasma quando jovem e, ao olhar para trás, ecoa o lamento de Dickens em suas memórias. “Nenhum amor abnegado de mãe, nenhum conselho de pai me ajudaram ”, diz ele. Ou seja, ele se compara, como Dickens poderia ter feito, a um pássaro expulso do ninho.
Dickens dota as crianças em seus romances com uma desolada presciência do que as aguarda. O Sr. Chillip, o médico que faz o parto de David Copperfield, mais tarde tem um filho, “um bebezinho franzino, com uma cabeça pesada que não conseguia sustentar e dois olhos fracos e arregalados, com os quais parecia estar sempre se perguntando por que havia nascido”, e em Bleak House, o bebê de Caddy Jellyby é um “pequeno neném de rosto velho”, tristemente pensativo em seu berço. Um dos Espíritos que visita Scrooge transita entre a primeira e a última era do homem. Ele é “uma figura estranha — como uma criança; porém, não tanto como uma criança, mas como um velho, visto por algum meio sobrenatural, que lhe dava a aparência de ter desaparecido de vista e estar reduzido às proporções de uma criança”.
Dickens foi repreendido por não permitir que seus personagens crescessem e mudassem; ele dificilmente conseguia fazer isso, pois via a vida como circular, em vez de evolutiva. Começo e fim se unem para comprimir o meio. A Sra. Skewton, por exemplo, usa um manto de viagem “bordado e trançado como o de um bebê velho”, e o avô da Pequena Nell ingenuamente se torna vítima de jogadores por ser uma “criança de cabelos grisalhos”. A emocionalmente adormecida Sally Brass em The Old Curiosity Shop “passou a vida em uma espécie de infância”; ao longo do caminho, ela consegue gerar uma filha ilegítima, que é igualmente atrofiada — “uma criança antiquada”, ela aparentemente esteve “trabalhando desde o berço”. Uma segunda infância talvez seja mais feliz do que a primeira, já que pelo menos terá um término definitivo.
Em Um Conto de Duas Cidades, Sydney Carton pergunta ao velho banqueiro Lorry se, na velhice, a infância parece distante. Lorry responde, comovente, que quanto mais se aproxima do fim, mais próximo se sente do começo: é “um daqueles gentis aplainamentos e preparativos do caminho”. O sentimento é recorrente em O Mistério de Edwin Drood, onde as lembranças carinhosas da “época da creche” em Cloisterham têm uma segunda volta quando aqueles que cresceram lá chegam às suas “horas da morte”.
Em um ensaio sobre suas frequentes visitas ao necrotério parisiense, Dickens fala da infância como um “período impressionável”. “A observação de uma criança inteligente”, diz ele, é notável por sua “intensidade e precisão”, e — certamente desnecessariamente — ele alerta “alguns que cuidam de crianças” contra levar seus pequenos protegidos em passeios para ver os cadáveres inchados pescados no Sena. Já é ruim o suficiente, acrescenta, mandar crianças para o escuro ou enclausurá-las sozinhas em um quarto como presas do “grande medo”; se você trata uma criança dessa maneira, “é melhor assassiná-la”.
Quando Wordsworth disse em O Prelúdio que “cresceu / Criado tanto pela beleza quanto pelo medo”, ele estava pensando em uma “impressionante disciplina do medo” muito mais branda do que o horror incapacitante experimentado por Pip no cemitério em Grandes Esperanças, quando o condenado Magwitch se ergue atrás das lápides, ou por Oliver Twist quando é levado para visitar Fagin na cela dos condenados. A disciplina de Wordsworth não se estende aos açoites administrados a David Copperfield por seu padrasto Murdstone; na pior das hipóteses, o medo de Wordsworth é sua sensação de reverência de que a natureza o repreende silenciosamente quando ele devasta uma árvore para se banquetear com sua colheita de avelãs.
O relato de Wordsworth sobre sua “época de semeadura” presta homenagem grata à terra verde como “a ama, / A guia, a guardiã do meu coração e alma / De todo o meu ser moral”. Aos seis anos de idade, Dickens tinha um equivalente amoral em sua ama, Mary Weller, que tinha apenas treze anos quando foi contratada para cuidar dele. Ele a homenageava como uma “barda” e pensava que ela devia ser descendente “daqueles terríveis e velhos Skalds”, os Skalds que recitavam poemas sobre heróis nórdicos.
À noite, como ele afirma em The Uncommercial Traveller, ela lhe contava histórias que eram “completamente impossíveis… mas nem por isso menos alarmantemente reais” — sagas sobre um assassino em série aventureiro, ou um construtor naval que faz um pacto diabólico e, como resultado, é forçado a navegar em um navio infestado de ratos, que roem as tábuas e o afundam, afogando todos os tripulantes. A natureza cuidou de Wordsworth “com uma espécie de mente maternal”, mas em vez de acalmar Dickens maternalmente, Mary o enviou para “os cantos escuros para os quais somos forçados a retornar, contra a nossa vontade”. Ele se referia aos cantos mais obscuros de sua mente: o que pode soar como uma punição também era uma iniciação literária.
Caneca vendida no Museu Dickens. Ela se refere a uma frase de Oliver Twist que ainda estava com fome e desejava comer mais. Claro que a comida lhe foi negada. Em resposta, ele recebeu risadas sarcásticas | Foto: Milton Ribeiro
Elaborando a Sra. Dalloway : como Virginia Woolf começou sua obra-prima
Por Mark Hussey, em 14 de maio de 2025 (na Literary Hub)
Virginia Woolf era desorganizada. Seus rascunhos remanescentes costumam estar manchados de cinza de cigarro ou de pegadas de cachorro. As grandes mesas de madeira que ela preferia em seus escritórios estavam cobertas de manuscritos, tinteiros, cinzeiros transbordando e os cadernos que ela mesma fazia, contornando cada página com um lápis azul grosso. Ela não escrevia à mesa, porém, sentava-se todas as manhãs em uma poltrona baixa, com uma tábua na qual colava um tinteiro equilibrada sobre os joelhos para apoiar o caderno no qual escrevia seus rascunhos. Ela acompanhava seu progresso, datando o trabalho do dia, às vezes somando quantas palavras havia escrito e anotando onde estava quando rascunhou um trecho específico.
À tarde, ela digitava na máquina de escrever o que havia escrito, revisando-o à mão e, em seguida, redigitando as páginas até que estivessem prontas para serem enviadas a um datilógrafo profissional e, em seguida, à gráfica. Ela também continuava revisando a fase de provas — uma vantagem de ser sua própria editora.
A vida de Leonard e Virginia Woolf tinha um ritmo definido pelo trabalho e pelas viagens entre suas casas em Londres e sua casa de campo. A Sra. Dalloway foi escrita em três lugares: Monk’s House, na vila de Rodmell, em Sussex; Hogarth House, na Paradise Road, em Richmond; e Tavistock Square, 52, em Bloomsbury (Londres). Anos antes de ela ou sua irmã encontrarem as casas em Sussex onde se estabeleceriam, Virginia imaginou para Vanessa um refúgio no campo com “uma pequena casa de campo entre as árvores, no fundo do jardim”.
Naquela casa de sonho, Virginia esperava ter um quarto com uma mesa, livros, um espelho e “um armário curioso, cheio de pequenas gavetas”, onde os filhos de sua irmã procurariam segredos. Woolf nunca teve um quarto na casa de sua irmã, mas no verão de 1921, ela ficou emocionada ao relatar que ela e Leonard estavam convertendo um galpão de ferramentas na Casa de Monk em um quarto de jardim. Teria grandes janelas através das quais ela poderia ver os prados de South Downs até o Monte Caburn.
Naquele quarto de jardim na Monk’s House, em agosto de 1922, Woolf anotou em seu diário alguns planos para o trabalho que desejava realizar naquele verão antes de retornar a Richmond no outono. Ela e Leonard voltaram para Londres de trem de Lewes em 5 de outubro. No dia seguinte, ela abriu uma nova página em um dos cadernos em que havia rascunhado seu terceiro romance, “O Quarto de Jacob” , para registrar algumas ideias sobre “um livro que talvez se chamasse ‘Em Casa’ ou ‘A Festa’. “O Quarto de Jacob” estava prestes a ser publicado, mas a mente de Woolf estava cheia de ideias para seu próximo romance. Ela pretendia que fosse um livro curto que terminasse com uma festa. O primeiro capítulo se basearia em uma história que ela acabara de escrever, “A Sra. Dalloway em Bond Street”. Isso, ela pensou, poderia ser seguido por outra história em que ela estava trabalhando, intitulada “O Primeiro-Ministro”.
Mas se os escritores modernistas nos ensinaram alguma coisa, é que nossa experiência do tempo raramente é linear, que sob a superfície de cada momento presente as correntes da memória correm profundamente. A própria Woolf escreveu que a vida “não é uma série de lâmpadas, dispostas simetricamente”, mas sim como “um halo luminoso… que nos envolve do início da consciência ao fim”. Portanto, embora aquele esboço em seu caderno represente Woolf começando a planejar seu próximo romance, reunindo ideias que vinham fermentando há algum tempo, não seria preciso vê-lo como “o” início de Mrs. Dalloway.
Podemos identificar muitas fontes para o mundo criado por Woolf em seu quarto romance, mas nenhuma inspiração original específica. Os personagens que povoam Londres em um dia de junho de 1923, dia em que Clarissa Dalloway dá uma festa e Septimus Warren Smith tira a própria vida, emergiram da imaginação da autora, moldada por suas memórias de crescer em Kensington, de viver a Primeira Guerra Mundial, de seus próprios colapsos mentais e até mesmo, como Clarissa diz no romance, de “pessoas com quem ela nunca havia falado, alguma mulher na rua, algum homem atrás de um balcão — até mesmo árvores ou celeiros”.
Na época em que a Sra. Dalloway começava a tomar forma, Virginia Woolf só recentemente começara a se sentir confiante como escritora, apesar de já praticar seu ofício por duas décadas. Quando Leonard leu o texto datilografado de O Quarto de Jacob em um dia de verão de 1922, ele disse a ela que era “uma obra de gênio”. Ela escreveu em seu diário que finalmente havia descoberto “como começar (aos 40) a dizer algo com minha própria voz”. Depois de “O Quarto de Jacob”, ela sentiu que poderia continuar como escritora sem precisar de elogios. Ela estava animada com o desafio de desenvolver o tipo de ficção experimental curta que vinha escrevendo desde 1917 na forma mais longa de um romance. “O Quarto de Jacob” mostrou a ela como ela poderia fazer isso.
Quando concebeu O Quarto de Jacob pela primeira vez , em 1920, Woolf era autora de dois romances mais ou menos convencionais (embora o aparente enredo de casamento do primeiro, “The Voyage Out”, seja descarrilado pela morte prematura de sua heroína), dezenas de ensaios e resenhas, e também cofundadora da Hogarth Press. Ela e Leonard lançaram sua editora com um panfleto contendo uma história de cada um deles, “A Marca na Parede”, de Virginia, e “Três Judeus”, de Leonard.
Ao começar a pensar na obra que se tornaria “O Quarto de Jacob”, Woolf também estava relendo seus dois primeiros romances, pois uma editora americana havia acabado de concordar em publicá-los nos Estados Unidos (ambos haviam sido publicados na Grã-Bretanha pela Duckworth, a empresa fundada por seu meio-irmão Gerald). Ela pediu a amigos que a avisassem, antes de enviar os livros para a América, se tivessem notado algum erro de digitação. Lytton Strachey a encantou ao dizer que, ao reler “The Voyage Out”, achou-o “extremamente bom”. Ele gostou particularmente da “sátira dos Dalloway” dela.
Clarissa Dalloway, a personagem mais famosa de Woolf, faz uma breve mas significativa aparição em “The Voyage Out”, uma figura glamorosa pegando carona com seu marido político, Richard, em um navio mercante com destino à América do Sul. Woolf disse a Vanessa Bell que Clarissa foi baseada em uma amiga de juventude, Kitty Maxse (nascida Lushington). Ela se lembrou em um livro de memórias de como a mesa de chá na casa alta de seus pais no número 22 do Hyde Park Gate havia sido “fertilizada por um fluxo arrebatador de beleza feminina” cujo “modelo de sagacidade, graça, charme e distinção era, sem dúvida, a adorável Kitty Lushington”. Kitty foi uma das que desaprovaram a mudança dos jovens irmãos Stephen para Bloomsbury em 1904, após a morte de seu pai, o eminente homem de letras do final da era vitoriana, Sir Leslie Stephen. Por meio de boatos, Woolf ouviu que Kitty não gostava de seu segundo romance, “Noite e Dia” — algo que Leonard ironicamente achou um grande elogio.
Diário de 6 de outubro de 1922:
Reflexões sobre o início de um livro que talvez se chamará “Em Casa” ou “A Festa”: Este será um livro curto, composto por seis ou sete capítulos, cada um completo separadamente, mas deve haver algum tipo de fusão. E todos devem convergir para a festa no final. Minha ideia é ter alguns personagens muito [ ], como a Sra. Dalloway em grande relevo: depois, ter interlúdios de pensamento, reflexão ou pequenas digressões (que devem estar relacionadas, logicamente, ao resto), todos compactos, mas não espasmódicos.
Os capítulos podem ser,
1. Sra . Dalloway na Bond Street.
2. O Primeiro Ministro.
3. Antepassados.
4. Um diálogo.
5. As velhinhas.
6. Casa de campo?
7. Flores cortadas.
8. A festa.
Um, mais ou menos, para ser feito em um mês: mas este plano é permitir algumas páginas bem curtas : intervalos, não capítulos inteiros. Deve ser divertido —
É uma discussão bem comum. Li ambos e, se Guerra e Paz é um oceano (imenso, cheio de correntes e vida), Anna Kariênina é um abismo (profundo, íntimo e vertiginoso). Eu escolho o abismo e não estou sozinho: tem muita gente boa que leu GP e se atira no abismo. Em AK, Tolstói tem uma precisão que Guerra e Paz, pela própria natureza épica, não exigia. Dezenas de personagens… Prefiro até o mais focado A Cartuxa de Parma. Sabiam que Tolstói podia dizer de cor a cena da batalha napoleônica que Stendhal descreveu na Cartuxa com o Fabrizio del Dongo totalmente perdido? No AK, cada capítulo avança como um movimento de sinfonia — nada está fora do lugar. Tb em AK, Tolstói constrói personagens de enorme profundidade. A desintegração emocional de Anna, sua obsessão, seus ciúmes e desespero são retratados com uma crueza que dói. Mas é claro que compreendo quem prefere GP. É uma questão de gosto. Não sou amante dos painéis, prefiro os microscópios.
Ontem, lemos um capítulo absolutamente arrebatador de “Daniel Deronda” (1876). Trata-se da cena (Cap. XXIII) em que Herr Klesmer desencoraja Gwendolen a seguir uma carreira artística. É um momento especialmente incômodo, revelando muito sobre os temas da ilusão da emancipação feminina na obra de George Eliot (não esqueçam que Eliot era uma mulher).
Gwendolen, uma jovem bonita, orgulhosa e na pindaíba, considera se tornar uma cantora ou atriz profissional para manter seu status e independência. Ela acredita que seu talento amador e beleza sejam suficientes para o sucesso. No entanto, Klesmer, um pianista e compositor rigoroso (talvez inspirado em Liszt), desmonta suas expectativas com uma crítica honesta, fria e implacável.
Ele diz que o talento de Gwendolen é medíocre e que o mundo artístico exige disciplina e sacrifício — algo que ela não possui. Ele diz que fazer sucesso entre amigos e parentes provincianos é uma coisa, outra coisa é o mundo e suas disputas. Ele sugere que a sociedade não respeita as mulheres de talento medíocre, associando-as ao sexo fácil. Ainda mais quando são bonitas.
E volta aos méritos inexistentes da bela moça: você já tem 21 anos, deveria ter começado a estudar disciplinadamente há mais de sete anos. Está tarde.
Gwendolen fica humilhada, pois percebe claramente que a imagem que tinha de si era uma fantasia. Este banho de realidade fará com que ela arranje um casamento rico ligeirinho, aposto.
Mas George Eliot é genial e deixa um subtexto social: o da frivolidade da educação feminina da época, que preparava mulheres para serem “ornamentos” da sociedade, jamais para profissões sérias. Mesmo que Gwendolen quisesse independência, as opções para mulheres sem talento excepcional eram poucas — muitas vezes, apenas o casamento ou a pobreza.
Eliot, que vivia como escritora profissional, pode estar destacando parte do que viveu. Gwendolen, sem talento, sem opões, certamente acabará presa em um casamento. Já Eliot sempre foi a outra, a amante. Só casou bem mais velha, com um jovem, quando o primeiro morreu.
Voltemos. A intervenção de Klesmer não é apenas sobre arte — é sobre a dura verdade de que nem todos podem escapar de suas circunstâncias apenas pela vontade. Gwendolen, ao contrário de heroínas como Jane Eyre, não tem um talento salvador, e sua tragédia reside nessa limitação.
P.S. — O que faz Romola Garai ornamentando o post? Ora, ela atuou como Gwendolen numa série da BBC.
Quando a Elena esteve no hospital, adquirimos o hábito de eu ler livros em voz alta para ela. Claro, agora ela pode lê-los sozinha — aliás, mesmo no hospital ela podia ler, tanto que lia Nabôkov no original “para não perder a inteligência” –, mas ela diz que é fácil se acostumar com o que é bom. Chega a dizer que gosta da minha voz, o que julgo ser totalmente impossível.
Mas o que interessa é que estou lendo o maior de nossos calhamaços até hoje: trata-se de “Daniel Deronda”, de George Eliot e 700 páginas. DD não é um “Middlemarch”, mas é ótimo e cheio de detalhes inusitados para um romance vitoriano.
Quando do primeiro encontro de um casal, ela coloca as falas de cada um e, entre parênteses, o que um está pensando e observando no outro. É um trecho onde brilha o enorme virtuosismo da autora. Disse Marcelo Coelho que George Eliot não é uma artista que nos faça ver o mundo segundo uma perspectiva original, como Kafka fazia, mas, como Tolstói, é uma artista que nos faz ver o mundo de acordo com nossos próprios olhos. Só que “nossos próprios olhos” parecem ganhar lentes de aumento; e em toda a literatura ocidental poucas lentes são tão claras, tão penetrantes, como as que George Eliot nos oferece.
Eu sempre tive um caso de amor com os ingleses. Não pensem que eu ignoro o que fez o Império Britânico ou as posições recentes sistematicamente ao lado dos EUA. Não pensem que eu gostava de Thatcher, por exemplo. Na verdade, eu amo três coisas: a literatura inglesa, a cidade de Londres e seus habitantes.
Não sei se um dia voltarei à cidade da qual gosto tanto, mas vou tentar.
Agora, quando cheguei em casa após o Concerto da Ospa, soube que a BBC fizera uma pesquisa com scholars e críticos ingleses para votar nos melhores romances ingleses. Eu disse ingleses, então Joyce, Beckett e outros estão de fora. Também só tem romances na lista. Li os critérios e achei que, opa, esta lista será das boas.
Eram 100 romances e eu fiquei moralmente muito feliz com a lista. Disse aqui em casa que os três primeiros seriam x, y e z, e errei só o terceiro lugar, que apareceu em quarto. Disse que a lista estaria cheia de mulheres e está. Elas têm o “trio vencedor”. Me perguntaram: quantas estarão dentre os dez melhores livros? Respondi que cinco: George Eliot, Virginia Woolf, Charlotte e Emily Brontë e mais Jane Austen. Acertei o número, mas errei uma: Austen ficou fora do top 10, mas em seu lugar entrou Mary Shelley.
E, para meu pasmo, eu li TODOS os 25 primeiros colocados. Ou seja, minha anglofilia literária tem melhor foco do que meus óculos, atualmente.
É meio bobo ficar feliz com isso, mas eu fiquei, sabe?
100. The Code of the Woosters (PG Wodehouse, 1938)
99. There but for the (Ali Smith, 2011)
98. Under the Volcano (Malcolm Lowry,1947)
97. The Chronicles of Narnia (CS Lewis, 1949-1954)
96. Memoirs of a Survivor (Doris Lessing, 1974)
95. The Buddha of Suburbia (Hanif Kureishi, 1990)
94. The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner (James Hogg, 1824)
93. Lord of the Flies (William Golding, 1954)
92. Cold Comfort Farm (Stella Gibbons, 1932)
91. The Forsyte Saga (John Galsworthy, 1922)
90. The Woman in White (Wilkie Collins, 1859)
89. The Horse’s Mouth (Joyce Cary, 1944)
88. The Death of the Heart (Elizabeth Bowen, 1938)
87. The Old Wives’ Tale (Arnold Bennett,1908)
86. A Legacy (Sybille Bedford, 1956)
85. Regeneration Trilogy (Pat Barker, 1991-1995)
84. Scoop (Evelyn Waugh, 1938)
83. Barchester Towers (Anthony Trollope, 1857)
82. The Patrick Melrose Novels (Edward St Aubyn, 1992-2012)
81. The Jewel in the Crown (Paul Scott, 1966)
80. Excellent Women (Barbara Pym, 1952)
79. His Dark Materials (Philip Pullman, 1995-2000)
78. A House for Mr Biswas (VS Naipaul, 1961)
77. Of Human Bondage (W Somerset Maugham, 1915)
76. Small Island (Andrea Levy, 2004)
75. Women in Love (DH Lawrence, 1920)
74. The Mayor of Casterbridge (Thomas Hardy, 1886)
73. The Blue Flower (Penelope Fitzgerald, 1995)
72. The Heart of the Matter (Graham Greene, 1948)
71. Old Filth (Jane Gardam, 2004)
70. Daniel Deronda (George Eliot, 1876)
69. Nostromo (Joseph Conrad, 1904)
68. A Clockwork Orange (Anthony Burgess, 1962)
67. Crash (JG Ballard 1973)
66. Sense and Sensibility (Jane Austen, 1811)
65. Orlando (Virginia Woolf, 1928)
64. The Way We Live Now (Anthony Trollope, 1875)
63. The Prime of Miss Jean Brodie (Muriel Spark, 1961)
62. Animal Farm (George Orwell, 1945)
61. The Sea, The Sea (Iris Murdoch, 1978)
60. Sons and Lovers (DH Lawrence, 1913)
59. The Line of Beauty (Alan Hollinghurst, 2004)
58. Loving (Henry Green, 1945)
57. Parade’s End (Ford Madox Ford, 1924-1928)
56. Oranges Are Not the Only Fruit (Jeanette Winterson, 1985)
55. Gulliver’s Travels (Jonathan Swift, 1726)
54. NW (Zadie Smith, 2012)
53. Wide Sargasso Sea (Jean Rhys, 1966)
52. New Grub Street (George Gissing, 1891)
51. Tess of the d’Urbervilles (Thomas Hardy, 1891)
50. A Passage to India (EM Forster, 1924)
49. Possession (AS Byatt, 1990)
48. Lucky Jim (Kingsley Amis, 1954)
47. The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman (Laurence Sterne, 1759)
46. Midnight’s Children (Salman Rushdie, 1981)
45. The Little Stranger (Sarah Waters, 2009)
44. Wolf Hall (Hilary Mantel, 2009)
43. The Swimming Pool Library (Alan Hollinghurst, 1988)
42. Brighton Rock (Graham Greene, 1938)
41. Dombey and Son (Charles Dickens, 1848)
40. Alice’s Adventures in Wonderland (Lewis Carroll, 1865)
39. The Sense of an Ending (Julian Barnes, 2011)
38. The Passion (Jeanette Winterson, 1987)
37. Decline and Fall (Evelyn Waugh, 1928)
36. A Dance to the Music of Time (Anthony Powell, 1951-1975)
35. Remainder (Tom McCarthy, 2005)
34. Never Let Me Go (Kazuo Ishiguro, 2005)
33. The Wind in the Willows (Kenneth Grahame, 1908)
32. A Room with a View (EM Forster, 1908)
31. The End of the Affair (Graham Greene, 1951)
30. Moll Flanders (Daniel Defoe, 1722)
29. Brick Lane (Monica Ali, 2003)
28. Villette (Charlotte Brontë, 1853)
27. Robinson Crusoe (Daniel Defoe, 1719)
26. The Lord of the Rings (JRR Tolkien, 1954)
25. White Teeth (Zadie Smith, 2000)
24. The Golden Notebook (Doris Lessing, 1962)
23. Jude the Obscure (Thomas Hardy, 1895)
22. The History of Tom Jones, a Foundling (Henry Fielding, 1749)
21. Heart of Darkness (Joseph Conrad, 1899)
20. Persuasion (Jane Austen, 1817)
19. Emma (Jane Austen, 1815)
18. Remains of the Day (Kazuo Ishiguro, 1989)
17. Howards End (EM Forster, 1910)
16. The Waves (Virginia Woolf, 1931)
15. Atonement (Ian McEwan, 2001)
14. Clarissa (Samuel Richardson,1748)
13. The Good Soldier (Ford Madox Ford, 1915)
12. Nineteen Eighty-Four (George Orwell, 1949)
11. Pride and Prejudice (Jane Austen, 1813)
10. Vanity Fair (William Makepeace Thackeray, 1848)
9. Frankenstein (Mary Shelley, 1818)
8. David Copperfield (Charles Dickens, 1850)
7. Wuthering Heights (Emily Brontë, 1847)
6. Bleak House (Charles Dickens, 1853)
5. Jane Eyre (Charlotte Brontë, 1847)
4. Great Expectations (Charles Dickens, 1861)
3. Mrs. Dalloway (Virginia Woolf, 1925)
2. To the Lighthouse (Virginia Woolf, 1927)
1. Middlemarch (George Eliot, 1874)
Morreu Vargas Llosa, um grande autor que alterou seu posicionamento político até o ponto de ser detestado por muitos, inclusive eu. Mas seu “Conversa no Catedral” (*) foi um marco para este humilde leitor. Foi a primeira e arrebatadora demonstração de virtuosismo literário que amei. Gostei muito de outros livros também, como “A Guerra do Fim do Mundo”, “Travessuras da Menina Má” e “A Orgia Perpétua”, sobre Flaubert.
Hoje acordei com a memória insuportavelmente presente, fazer o quê?
Há exatos 84 anos, num 28 de março, Virginia Woolf, com 59 anos, tirou a própria vida ao entrar no Rio Ouse com pedras nos bolsos porque, tendo sofrido de crises recorrentes de doença mental ao longo da vida, a depressão que a atormentava intermitentemente estava retornando e ela não conseguia mais escrever.
É uma figura fundamental da literatura de seu e de nosso tempo. Seu trabalho sobrevive como uma contribuição significativa para nossa compreensão do início do século XX e como uma grande influência sobre escritores, especialmente mulheres, até hoje.
No primeiro comentário, deixo um link de um vídeo sobre sua vida e obra. Ele ajuda a entender a importância de Woolf e dá uma visão simples, mas informativa, do mundo literário de seu tempo.
Este é um livro curioso. Parece leve, parece que não chegará a lugar nenhum, mas é poderoso, muito poderoso. Pequenas coisas como estas foi finalista do Booker em 2022 e figurou na célebre lista dos 100 melhores livros do século XX publicada pelo New York Times. A autora Claire Keegan é irlandesa e, como tantos de seu país, tem uma escrita cheia de beleza e suavidade.
O romance é centrado no personagem Bill Furlong. O ano é 1985. Furlong é um pequeno empresário que vende carvão e madeira, mas que não gosta de ficar no escritório, prefere trabalhar num caminhão caindo aos pedaços, fazendo as entregas. É pai de 5 filhas e casado com Eileen. Todos vão à igreja aos domingos. Na superfície de tudo isso, Bill parece estar contente com sua vida e destino. No entanto, conforme Keegan vai desenvolvendo a história, aprendemos que as coisas não são bem assim.
Na cidade há uma Lavanderia de Madalena — também chamadas de Asilos de Madalena –, instituições comuns na Irlanda no século XX. O que eram? Eram essencialmente casas de trabalho para mulheres, especialmente para mulheres jovens e adolescentes que engravidavam fora do casamento. As Lavanderias eram administradas pela Igreja Católica e as famílias lá deixavam suas mulheres para que pudessem esconder suas gestações da sociedade. Uma vez que a criança nascia, ela era frequentemente retirada à força da mãe e posta para adoção. (Após investigações realizadas antes da desativação dessas casas, houve a certeza de que muitas das crianças nascidas nessas lavanderias eram simplesmente mortas). Embora as Lavanderias de Magdalena fossem particularmente severas na Irlanda, estabelecimentos semelhantes existiam em todo o mundo. Como revela o nome, essas casas prestavam serviços de lavanderia para os locais onde estavam implantadas.
Certo dia, quando Bill deixa lenha e carvão na igreja local, ao lado da lavanderia, ele encontra uma adolescente trancada no galpão de carvão. Ela está coberta de sujeira, passa frio e está aterrorizada. Ele a leva para dentro e as freiras recebem a garota e abafam tudo, agindo estranhamente. Tudo o que Bill consegue arrancar da garota é que seu nome é Sarah — o mesmo de sua mãe.
A mãe de Bill, Sarah, era adolescente quando engravidou de Bill. A família Wilson a acolheu e a deixou trabalhar como empregada da casa pagando-lhe uma pequena quantia, além de quarto e alimentação. Todos dizem a Bill que ele deveria ser grato pela gentileza da família Wilson — especialmente quando a alternativa poderia ter sido uma Lavanderia Madalena para sua mãe. No entanto, Bill parece meio cansado de ser grato. Sua frustração parece palpável ao longo do romance.
Enquanto ele constrói uma vida respeitável para si com sua esposa e filhos, a mãe adolescente de Bill é algo de que ele não consegue escapar. De muitas maneiras, ela parece seguir Bill por toda a sua vida e todos, incluindo sua esposa, usam a gravidez adolescente de sua mãe como uma resposta para qualquer momento em que Bill diga algo fora da linha da calma e da paz.
Quando ele vê Sarah no galpão de carvão, aquilo torna-se um fato importante para ele. Não havia serenidade naquele homem tão cordato, mas há paz no romance de Keegan até o final. Aliás, o final é uma joia de tão bem realizado.
Claire Keegan é uma mestra. Ela equilibra tristeza, delicadeza e perplexidade de uma forma extremamente bela. Os ressentimentos de Bill saem das páginas e parecem vivos, pulsantes. Porém, embora o assunto tenso e doloroso, ele alguma forma não é pesado.
Uma frase ecoa em nossa cabeça após a leitura. Ela aparece quando Furlong, meio perdido após suas entregas, pergunta a um homem na beira da estrada onde vai dar aquela estrada:
— Esta estrada vai dar onde você quiser, filho.
Um tremendo pequeno romance.
.oOo.
Obs.: há um filme homônimo baseado no livro. Bill Furlong é vivido por Cillian Murphy, porém o filme é bem ruinzinho.
Homo Faber é um romance do suíço Max Frisch (1911-1991) publicado pela primeira vez na Alemanha em agosto de 1957 — o melhor mês do melhor ano. É narrado em primeiríssima pessoa pelo protagonista Walter Faber, um engenheiro brilhante que viaja a trabalho pela Europa e pelas Américas. Mais ou menos como o Ricardo Branco era e fazia. Sua visão de mundo — lógica, probabilística e científica — é desafiada por uma série de coincidências incríveis, fazendo com que o passado ressurja. (Você, que está na minha TL e portanto é inteligente, já sentiu a jogadinha entre Homo Faber e Homo Sapiens, né? Se não se deu conta, fora daqui!)
O livro foi editado pela Guanabara em 1986 e relido por mim agora em voz alta para a Elena. É ótimo. Minha cara-metade também aprovou e queria que eu lesse mais a cada noite. Gostei muito das duas vezes que o li, apesar de algumas reflexões antiquadas.
É uma obra importante e curiosa, pois se fala de um tema bem comum — o de nossa fragilidade — também fala de outro mais incomum — da ilusão do controle que temos sobre nossas vidas. É um livro de uma introspecção também pouco usual: a de um engenheiro. Faber é um homem de meia-idade, especializado em engenharia mecânica, que acredita piamente na lógica, na ciência e no controle técnico sobre a vida. Ele viaja constantemente a trabalho, vivendo uma existência organizada e aparentemente imune ao caos emocional. No entanto, durante uma viagem de negócios tudo começa a se descontrolar, como não aconteceu com o Ricardo Branco.
A narrativa se desenrola em duas partes: na primeira, Faber viaja para a América Central e se envolve em um acidente de avião. Na segunda parte, numa viagem de navio, Faber encontra Sabeth, embarcando numa relação cujo caráter é melhor deixarmos de lado.
Faber representaria o homem moderno, que confia na tecnologia e na razão. No entanto, o acaso o força a se desequilibrar de sua posição. Pode-se dizer que Sabeth é filha de uma ex-namorada sua e acaba por expor sua fragilidade emocional e incapacidade de lidar com complexidades “das humanas”. Frisch critica a crença de que a ciência e a técnica podem resolver todos os problemas humanos, mostrando que a vida é cheia de ambiguidades e incertezas.
Max Frisch foi um arquiteto e escritor influenciado pelo existencialismo e por Brecht. O final do livro é de grande categoria, Frisch sabia mesmo como deixar a gente pensando.
Eu tento, tento, mas não consigo escapar dos calhamaços. Com aproximadamente 1000 páginas no mundo inteiro e 784 na edição de 1985 da Nova Fronteira, este livro me foi indicado por uma excelente e compreensiva leitora-amiga-cliente da Livraria Bamboletras. Ela lera o original em francês. Respondi que eu tinha um exemplar comprado em 1986 que jamais fora aberto por mim… Ela nem sabia que havia a tradução brasileira. Tive que obedecê-la, li o romance com enorme atenção e não me arrependo. Quando iniciei a leitura, ela reapareceu na livraria. Seu nome não é segredo: é Karina Maria. E ela reafirmou: “esse livro merece um monumento”.
Bela do Senhor (originalmente “Belle du Seigneur”), publicado em 1968, é um romance do escritor suíço, nascido na Grécia, Albert Cohen (1895-1981). Mas por que eu tinha o livro? Ora, porque Bela do Senhor fora elogiadíssimo em 1985 pela crítica brasileira (sim, tínhamos crítica literária), além de ter vencido o Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa de 1968 e também o Goncourt. A história gira em torno de dois personagens centrais que, estando juntos, vão pouco a pouco se isolando do restante do mundo.
A primeira é Ariane, a bela esposa do medíocre e arrivista diplomata Adrien Deume. O outro é Solal, um judeu grego brilhante e carismático, que é alto funcionário da Liga das Nações em Genebra. Solal é chefe de Deume na Liga das Nações. Ele fica obcecado por Ariane e, depois da mais estratégica e cínica das seduções, inicia um quentíssimo caso de amor com ela, chegando a uma relação que oscila entre a paixão sublime e o destrutivo.
Talvez seja importante saber que Albert Cohen era um judeu grego que trabalhou na Organização Mundial do Trabalho de 1926 a 1932, em Genebra. Ou seja, ele conhecia profundamente o ambiente onde Deume circulava. E, na primeira parte do livro o foco é dado a Adrien Deume, o marido traído. Ele é o perfeito puxa-saco. Não faz nada em seu trabalho, passando todo o tempo tratando de esquemas para subir de cargo na organização. Ele se vale de tudo, até da beleza da esposa, para obter destaque e galgar cargos. Em casa, a vida do casal Adrien e Ariane é um inferno, com os parentes de Adrien tentando se imiscuir em tudo, criticando a esposa que só dorme e toca piano, enquanto Adrien a protege. A vida de Solal, com um bando de folclóricos tios judeus, também não é muito fácil, mas ele consegue escapar deles com maior facilidade. É uma parte hilariante do romance: o livro satiriza a hipocrisia e o vazio da alta sociedade europeia, especialmente no contexto diplomático da Liga das Nações. O humor e a ironia expõem as falhas morais e éticas desta elite.
Então, começa o caso Solal-Ariane. A história de amor entre eles é avassaladora e, uma vez iniciada, eles realmente são empurrados um em direção ao outro. O ambiente político antissemita tira tudo de Solal, menos seu dinheiro: ele perde posição e reputação. O ambiente moral torna-se opressivo para Ariane e só lhe resta agarrar-se a Solal. E aí nós temos o amor, o grude total. o ciúme, as brigas e o enfado. Há momentos brilhantes em que Solal e Ariane não se suportam mais e mantém a relação apenas devido à situação lá fora. Temos uma análise franca e implacável das ilusões e desilusões que as relações podem trazer. Nunca havia lido um romance que descrevesse com tanto detalhe o tédio a dois, as necessidades de variações — sejam elas quais forem — e o silêncio histérico, por assim dizer.
O livro é uma mistura de paixão, tragédia, ironia e profunda reflexão sobre as identidades. Cohen cria um universo grandioso e íntimo. O relacionamento entre Solal e Ariane é marcado por uma força quase mítica, podendo ser tanto uma fonte de transcendência quanto de autodestruição.
Há um capítulo onde Solal passeia sozinho por Paris observando as paredes dos prédios cheias de pichações antissemitas. Ele até compra um jornal que defende a eliminação dos judeus para poder passear mais despercebido. Deixa-o visível sob o braço. Às vezes, enfia o nariz nele. Sua identidade não é aceita. Sua busca por amor, a necessidade de ser novamente reconhecido — agora que ele não é mais nada — reflete uma luta mais ampla contra a marginalização e o exílio. Por trás dos múltiplos detalhes, há inteligentes reflexões sobre a solidão e a incomunicabilidade. Solal e Ariane, apesar de sua conexão intensa, estão presos em suas próprias angústias e inseguranças. É notável como Ariane tenta mantê-los juntos com diversos estratagemas enquanto Solal apenas observa pensando “coitadinha, inventou essa agora, será que vamos nos divertir ou vamos seguir fingindo?”.
Albert Cohen é um mestre. Sua prosa é cheia de digressões poéticas, diálogos afiados e descrições verossímeis. O estilo varia muito, indo desde o vaudeville para o erótico, passando por fluxos de consciência sem pontuação. É Joyce e, ao mesmo tempo, um Proust meio alucinado. O lírico e o satírico convivem bem, criando um texto comovente e estimulante do ponto de vista intelectual.
Deixo-lhes sem dizer o final, claro.
Lendo outras resenhas, soube que Bela do Senhor é frequentemente comparado a clássicos como Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, e O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, devido à sua profundidade psicológica e à sua exploração do erotismo e do amor. No entanto, nenhum dos citados tem o humor ácido, a visão desencantada e profundamente humana da vida. Poderia falar em uma ode ao nosso desespero, medos, amor… Enfim, uma ode à nossa complexidade.
P.S. — Até pelo tamanho e lentidão com que a história se desenvolve, Bela do Senhor é infilmável. Mas foi filmado. Fujam. É um horror. Acho cômico que Ariane, descrita no livro com bunda grande e tudo grande, tenha sido vivida pela modelo russa Natalia Vodianova, uma mulher magérrima e, a despeito da beleza, 100% anti-Ariane, cujas formas são bem descritas. Também a escolha de Jonathan Rhys Meyers para o papel de Solal é uma piada. O mesmo, aliás, ocorreu com Keira Knightley vivendo a arredondada Anna Kariênina. Por que a caracterização de personagens fictícios não é respeitada como as caracterizações de personagens reais? Parece brincadeira com os leitores.
Eu lia pouco durante a infância, muito pouco. Queria era jogar futebol. Lia revistinhas da Disney nos dias de chuva e olhe lá. Observava minha irmã parada, totalmente concentrada com um livro aberto, mas não tinha vontade de fazer o mesmo. Quem me acordou para a literatura foi Erico Verissimo com seu O Tempo e o Vento. Só depois dos 15 ou 16 anos, passei a avaliar se era melhor permanecer em casa ou me divertir com os amigos. E normalmente ficava em casa enfiado num livro. Meus pais achavam que eu tinha que sair mais, ver pessoas, só que eu preferia ficar lendo. Por ter começado tarde, meu conhecimento de literatura infanto-juvenil é mínimo. Comecei pelos livros dos adultos, por aqueles que minha irmã e pais valorizavam. Começo esta resenha assim porque não sei como classificar este Kafka e a boneca viajante. A estrutura do livro é de uma fábula. O tema é a infância, mas também é a elaboração de uma perda. Por outro lado, não podemos esquecer que há Kafka, já muito doente, levando a sério o fato de uma menina ter perdido sua boneca. Vou tentar explicar melhor.
A história entre Franz Kafka e a menina Elsi é um episódio tocante e pouco conhecido da vida do tcheco. Esse evento ocorreu nos últimos anos de vida de Kafka, quando ele já estava gravemente doente (sofria de tuberculose) e vivia em Berlim, em 1923-1924. Kafka, durante seus passeios por um parque em Berlim, viu uma menina chorando, muito triste pela perda de sua boneca preferida. Seu nome era Elsi e estava inconsolável. Kafka decidiu fazer alguma coisa. Inventou uma história, disse que a boneca não tinha desaparecido, mas viajado. Ele explicou que a boneca lhe enviara uma carta e que sua profissão a de “carteiro das bonecas”. No dia seguinte, ele traria uma carta da boneca Brígida para Elsi. E durante três semanas, Kafka escreveu cartas diárias para Elsi, supostamente, é claro, enviadas pela boneca. Esforçou-se muito para escrevê-las sem que Elsi desconfiasse de nada. Nessas cartas, ele descrevia as aventuras da boneca em suas viagens pelo mundo, sempre em tom poético. Essas cartas não apenas confortaram a menina, mas também a fizeram acreditar que sua boneca estava vivendo uma vida emocionante e cheia de descobertas.
Esse episódio revela alguma coisa sobre Kafka. Apesar de sua obra literária estar associada ao absurdo, à angústia e ao pessimismo, ele demonstrou empatia e capacidade de se conectar com o mundo de uma criança. E tentou transformar a dor de Elsi em uma experiência feliz. Porém, as cartas que Kafka escreveu para Elsi não foram preservadas, e o episódio só foi conhecido graças ao relato de Dora Diamant, companheira de Kafka na época. Houve muitas tentativas de localizar Elsi e as cartas, mas nada foi encontrado. Houve um historiador que passou décadas atrás dos textos.
Kafka e a Boneca Viajante (no original, Kafka y la muñeca viajera) reconta essa história comovente entre o escritor e a menina Elsi. É uma ficção inspirada pelo episódio real. Claro que o livro é enormemente emocionante e mesmo este calejado leitor teve vontade de se desmanchar lendo o relato. Há uma sensação de estranheza — os excertos das cartas não são nada Kafka! –, porém como ele escreveria para uma criança? Alguém sabe? De forma esperta, Sierra i Fabra tenta capturar a essência do gesto de Kafka, destacando a empatia e a criatividade para transformar a dor de uma criança em uma experiência mágica. E também sobre o problema de um adulto que precisa parar de escrever diariamente para uma criança e voltar a sua obra. O livro é uma homenagem ao poder consolador da literatura. É como uma janela para um momento íntimo.
Creio que é um livro que visa um público mais amplo, incluindo jovens leitores. O autor usa uma linguagem simples e poética — algumas vezes verbosa –, com flechadas certeiras e piegas que me atingiram sem piedade. Claro que me senti injustamente traído ao ver meu sombrio e pessimista autor — também muitas vezes cômico, na minha opinião de leitor — ser tratado como um ser cheio de bondade. AMO Franz Kafka de uma forma que só eu sei. AMO aquele mais obscuro Kafka. Mas não há porque pensar que o Kafka dos livros que conhecemos não fosse capaz de um ato de consolo como o relatado. Sensibilidade não lhe faltava.
Jorvi Sierra i Fabra (1947) é um conhecido escritor infanto-juvenil catalão, mas, sabem?, este livro não me pareceu ser um típico exemplar do gênero.
O título faz referência a um plano militar secreto (e maluco) de Winston Churchill concebido ao final da Segunda Guerra Mundial. Churchill era um ser bastante raro: um conservador anticomunista que sabia escrever e se expressar com brilho. Ele queria que os aliados ocidentais combatessem a ocupação soviética da Europa Oriental. O objetivo era impor a vontade dos Estados Unidos e do Império Britânico à União Soviética. Foi o início da Guerra Fria. Essa malfadada ideia sugere o tom do livro: uma história onde o impensável e o absurdo acabam com qualquer lucidez remanescente, gerando uma superfetação de mentiras. (Superfetação? Vá ao dicionário, ué).
Importante dizer que este é o livro que conta, nos mínimos detalhes, mas como se fosse ficção, o rumoroso caso Vanessa Barbara versus André Conti e seu Conselho Consultivo de 14 machos.
Como Vanessa Barbara costuma fazer, há uma mistura entre a “ficção” que é contada — a ascensão e debacle de um caso amoroso — com casos políticos da Segunda Guerra e críticas resumidíssimas dos filmes vistos pelo casal. Tudo isso caminha de forma paralela, regido pelo ritmo intenso de Vanessa. O texto é ultra fragmentado, com seções curtas e constantes mudanças temáticas. Difícil de saber que virá depois, se fatos políticos, o dia a dia, e-mails, citações, notas esparsas, sinopses de filmes, etc. A própria diagramação do livro contribui para esta impressão de fragmentação. Há mudanças de fontes e vazios. Para o meu gosto, o trecho da felicidade do casal é longo demais, mas talvez minha sede de sangue estivesse em alta devido às redes sociais. Nesta parte, que poderia chamar de ascensão, há a mais bela crítica que li de Se meu apartamento falasse (The Apartment), de Billy Wilder. Eu quase chorei lendo. Adoro este filme tanto quanto Vanessa.
Mas voltando, a parte do amor é meio longa mesmo. São várias declarações de parte a parte. É como estar ouvindo a Primavera de Vivaldi e ver um pássaro pousar na sua janela. Não dá, é muito açúcar, melhor enxotar logo o bichinho. Claro que isto serve como contraste para o que virá, mas achei exagerado.
Porém, o livro cresce espetacularmente quando a paranoia toma conta de “Lia”. O pior da paranoia é quando ela — que seria impensável para as pessoas equilibradas — se comprova e se amplifica até o inconcebível. Pois o pior é o paranoico ter razão e dar-se conta de que até minimizou as coisas. É para enlouquecer de vez e Vanessa descreve brilhante e acumulativamente o processo de descoberta. A comprovação revela-se pouco a pouco, alterando-se como um caleidoscópio a cada mentira e chegando efetivamente a uma traição inacreditável, definitiva, bem mais grave do que ir a um motel repetidamente com uma conhecida ou um monte delas. Lemos a descrição de uma traição completa, cabal, radical, profissional, dessas que obriga o traído a se esconder no meio da selva e lá desaparecer. Dessas que deveria obrigar o algoz trocar de lugar com a vítima.
Vanessa expõe os fatos, mas não cria um dramalhão mexicano. Em uma das epígrafes da última parte, ela usa Boris Vian: “O humor é a delicadeza do desespero”. Sim, ela o mantém. E ainda conta curiosidades como o fato de a lei de Hong-Kong permitir que uma mulher traída mate seu marido adúltero, desde que o faça com as próprias mãos, ao passo de que o homem pode usar qualquer coisa, até um lança-foguetes. E conhecemos a expressão “névoa do infiel”, cuja definição você conhecerá logo que comprar o livro na Livraria Bamboletras (WhatsApp 51 99255 6885).
A forma pública que o caso tomou nos últimos tempos surpreende, o que não surpreende que ele permaneça ainda na cabeça de “Lia”, apesar do prazo máximo para traumas de 13 anos e meio estabelecido pela sumidade Pedro Dória.
Tá, vai ler o livro e não me enche. Tem na Bamboletras, já disse.
Pesquisa realizada em conjunto entre as universidades de Michigan e Stanford garante que a leitura de ficção traz diversos benefícios, entre eles a redução do stress e a empatia. Mas vamos nos ater hoje aps fatos médicos. Ela também proporciona uma melhoria na área da memória, pois coloca teu cérebro para trabalhar a imaginação, fundamental para a memorização de longo prazo. O processo de envelhecimento reduz pouco a pouco nossas habilidades cognitivas, entretanto essa perda pode ser recompensada com atividades intelectuais estimulantes. Uma outra pesquisa feita pela Dra. Natalie Phillips (Montreal Cognitive Assessment) investigou o papel da atenção nas modificações que a leitura faz no cérebro. Ela comparou uma leitura dispersa com uma leitura mais engajada, onde entramos pra valer na história. A conclusão foi que a leitura dispersa não aumenta muito a atividade cerebral. Mas aquela em que você se gruda na história faz você aumentar sua atividade cerebral de maneira significativa. Ou seja, a leitura que desperta mais o seu interesse, que mais envolve, é justamente aquela que vai trazer maiores benefícios. Em outras palavras, LÊ AQUILO QUE TU GOSTA, VIVENTE!
Esta é uma ótima notícia para os clientes da Livraria Bamboletras. Afinal, aqui nós temos uma curadoria que pode auxiliar você a encontrar aquele livro que vai grudar em ti que nem chiclete.
A filha de Tolstói, Tatiana, amava Tchékhov. O pai adorava o escritor. A mãe disse que, se ela casasse com ele, jamais teria um travesseiro confortável, talvez só um pano de algodão vermelho para colocar a cabeça, ou seja, que ela seria pobre. Tchékhov fez fortuna, apesar de doar quase tudo o que recebia. Algumas mães vou te contar… A filha casou com outro. Tchékhov era um homem bonito. Eu acho.
Até os 13, 14 anos, eu era um mau aluno, só lia quadrinhos e jogava futebol. Minha mãe ficava louca na certeza de que estava criando um idiota. Não que ela estivesse de todo errada, ainda mais quando me comparava com minha irmã, brihante em tudo até hoje.
Mas então veio a Sarinha, a professora de português e literatura que todo mundo deveria ter. A Sarinha mandou a gente ler O Tempo e o Vento. Minha mãe pegou O Continente da estante e me entregou a coisa com aquele sorrisinho tipo agora eu quero ver.
Não comecei a ler imediatamente, mas alguns colegas sim. A Sarinha reservava os 15 minutos finais de cada aula para sentar com os alunos que estavam lendo o livro a fim de discuti-lo com eles. As discussões eram de igual para igual, ela usava os nossos termos, a nossa expressão. Aquilo foi se tornando tão bom que logo todos estavam lendo para poder participar. A Sarinha tinha 1,50m com carisma de muitos centímetros a mais. Logo me agreguei ao grupo de leitores e não saí dele até agora, mais de 50 anos depois.
Hoje de manhã, lembrei daquela professora do ensino público. (Aliás, fui 100% do tempo do ensino e universidade públicas).