Bartleby resiste a interpretações únicas. Quanto menos você explicar Bartleby, melhor a conversa costuma ficar. É como uma investigação coletiva de um enigma.
1.Abertura
“Há livros que nos impressionam por aquilo que revelam. Bartleby nos impressiona por aquilo que se recusa a revelar. Mais de 170 anos depois de sua publicação, ainda discutimos quem é Bartleby, o que ele quer e o que Melville pretendia dizer.”
“Qual foi o sentimento predominante ao terminar o livro?”
- pena
- irritação
- perplexidade
- humor
- tristeza
- admiração
A diversidade das respostas já introduz a riqueza do texto.
2. O narrador
Muitas leituras se concentram em Bartleby e esquecem que o narrador é igualmente fascinante.
- O advogado é um homem bom?
- Ele é generoso ou apenas deseja parecer generoso?
- O que sabemos realmente sobre ele?
- O conto é sobre Bartleby ou sobre o advogado?
Uma observação interessante: Sem o narrador, Bartleby seria apenas um excêntrico. O drama nasce da incapacidade do advogado de compreender o que tem diante de si.
“Quem é o personagem mais estranho deste conto: Bartleby ou o advogado?”
3. Chegue ao centro do livro:
“I would prefer not to”. “Prefiro não fazer” (LPM, Cassia Zanon), “Prefiro não” (Antofágica, Antônio Xerxenesky), “Prefiro não fazê-lo” (Cultrix, Olívia Kränenbühl), “Eu preferia não fazê-lo” (Record, A. B. Pinheiro de Lemos)
- Bartleby está recusando?
- Está protestando?
- Está adoecido?
- Está exercendo liberdade?
Mostre como a frase é estranha. Ele não diz:
- “não quero”;
- “não farei”;
- “recuso”.
Ele apenas “prefiro não”, “
É uma linguagem sem confronto direto.
Pergunta para o grupo: Por que essa fórmula nos desconcerta tanto?
4. Bartleby como símbolo
Aqui você pode abrir várias possibilidades.
Bartleby seria:
- um rebelde?
- um santo?
- um depressivo?
- uma vítima do capitalismo? (insegurança, adoecimento e morte de um trabalhador)
- um niilista?
- um homem que simplesmente desistiu?
O mais interessante é que o texto sustenta todas essas hipóteses sem confirmar nenhuma.
Você pode perguntar: “Qual interpretação mais convence vocês?”
5. O humor do conto
Muitas pessoas esquecem que Bartleby é muito engraçado.
- Turkey (bom de manhã, impossível à tarde);
- Nippers (irritável de manhã, produtivo à tarde);
- Ginger Nut;
- as tentativas absurdas do advogado de resolver o problema.
Melville cria situações quase cômicas em torno de algo profundamente trágico.
6. O final
Sem tentar resolvê-lo.
Perguntas:
- O final provoca tristeza?
- Revolta?
- Compaixão?
- Culpa?
E principalmente: “O advogado falhou com Bartleby?”
Essa vai gerar ótima discussão.
7. O finalzinho
Eu terminaria com uma pergunta ampla:
“Por que um conto tão curto continua sendo lido no mundo inteiro?”
E talvez com uma observação:
“Existem personagens que parecem pessoas. Bartleby parece uma condição humana. Em algum momento da vida, todos nós já sentimos vontade de responder ao mundo: ‘Prefiro não’.”
Para um grupo da Bamboletras, que parece gostar de literatura mais reflexiva, eu apostaria menos na crítica social e mais no mistério existencial. O que torna Bartleby inesquecível não é a denúncia de um sistema? Ou o fato de que ele toca uma região da experiência humana que reconhecemos sem conseguir nomear completamente.
8. O finalzinhoínho
“Ah, Bartleby! Ah, humanidade!” .
O narrador está exclamando por Bartleby (o indivíduo) ou pela humanidade (o coletivo falho)? Ele aprendeu alguma coisa no final ou apenas se livrou de um incômodo?
9. Perguntas para fechar
Alegoria do Trabalho Moderno: “Bartleby seria o santo padroeiro do ‘quiet quitting’ (demissão silenciosa) ou alguém que sofre de burnout profundo?” .
Resistência Passiva: “A frase ‘Eu preferiria não’ é uma forma de resistência política válida ou um sintoma de depressão e isolamento?” .
Sobre o Incompreensível: “Devemos tentar explicar Bartleby (excesso de trabalho, luto, loucura) ou a força do conto está justamente na sua recusa em ser explicado?”

















Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de 

Fabrício Falkowski é uma figura rara no jornalismo. Num mercado onde os profissionais estão sempre pulando de uma empresa para outra — seja por opção, seja pelos frequentes passaralhos (demissões) — Fabrício está há 27 anos no Correio do Povo, sempre cumprindo a função de setorista do SC Internacional. Ele começou lá em 1999 e permanece no posto até hoje. Neste livro cheio de detalhes deliciosos, ele conta os últimos 25 anos do Inter, de 2000 a 2024. Fabrício não é um repórter chapa branca. Pelo contrário, foi o cara que trouxe à tona a roubalheira que culminou na responsabilização e condenação do ex-presidente Vitorio Piffero e de seu factotum Pedro Affatato por desvio de valores para benefício próprio, entre 2015 e 2016 –, ano em que o Inter caiu para a segunda divisão pela primeira e única vez em sua história.



Gosto demais dos artistas escandinavos. Bergman, Vinterberg, Strindberg, Ibsen, Sibelius, Berwald, Hamsun, Blixen, Knausgård — todos ótimos. Para completar, amo o frio, me sinto muito bem com ele. Meu termostato corporal parece ter sido regulado na Finlândia que não conheço. Então, vamos a mais um livro do sueco Largerkvist.

Já ouvi várias pessoas me dizendo que iam roubar minha edição de O Anão. O livro foi publicado pela Civilização Brasileira em 1970, época em que a editora era sinônimo de bom livro e de resistência à ditadura. Mas O Anão nunca foi republicado e virou raridade. Houve tempo em que o livro estava custando R$ 1000 na Estante Virtual. Hoje, sua cotação está bem mais baixa, o que não se reflete em sua qualidade. Li as 150 páginas de meu cobiçado volume em voz alta para minha mulher — um hábito nosso — e podem crer que o livro não perdeu nada após tantos anos.