A polícia da linguagem

A polícia da linguagem

Toda a literatura americana moderna se origina de um livro escrito por Mark Twain, chamado Huckleberry Finn (…). Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então.
Ernest Hemingway

Por e-mail, Ernani Ssó me envia duas colaborações para o blog — uma curtinha dele e outra um artigo do New York Times –, já que tenho discutido bastante por aqui o obscurantismo e o obscurantismo. Aliás, outro escritor, Gustavo Melo Czekster, fez referências ao mesmo tema nesta entrevista que fiz com ele. No artigo, Ernani Ssó inicia referindo-se às traduções de Huckleberry Finn feitas por Monteiro Lobato e Sérgio Flaksman. Devo ter lido a de Monteiro quando criança, mas reli o livro há poucos anos em tradução de Rosaura Eichenberg para a L&PM. Não lembro de como a tradutora verteu o “big nigger”, lembro apenas que era um excelente trabalho de tradução que invadia aquele terreno considerado inaceitável. Acontece que, deparando-se com uma bela história realista, gente do século XXI tem achado que ela ofenderia a religiosidade, os valores familiares e a moral. Seria inadequado para as crianças pois Huck não reza, detesta a escola e… E Twain ainda chama de nigger (the N Word!) o personagem Jim, talvez sua maior criação.

No blog Novo Resenhar Experientia encontro uma observação da própria Rosaura:

A palavra nigger incorporou com o passar dos anos uma carga de ódio que não tinha no tempo de Mark Twain, muito menos no tempo da narrativa. Àquela época, tratava-se apenas de uma forma comum de se referir aos negros. O próprio Mark Twain não empregava o termo, considerado de mau gosto pelas pessoas cultas (…)

Sim, ler Huck Finn e evitar a palavra nigger, a qual é indiscutivelmente degradante, é desejar que a América do Norte do século XIX seja bem mais limpinha, é desejar que ela seja como não foi. Twain não era racista. Pode ter sido educado no sul, porém, durante a maior parte de sua vida, ele criticou o racismo em cartas, ensaios e romances como uma manifestação maligna da desumanidade do homem para com o homem. Em uma carta escrita em 1853, Twain escreveu: “Eu acho que seria melhor ter meu rosto preto, pois nestes estados do Sul, os niggers são muito melhores do que os brancos”. Para terminar a lista de argumentos, tenho o que penso ser o maior deles: quem dizia nigger era o personagem Huck, não Twain. Se o menino sulista não utilizasse o termo, seria pra lá de artificial. Ou o religioso Dostoiévski representava ipsis litteris o ultra niilista Kirilov?

Finalmente, deixo Ernani Ssó e o NYT com vocês.

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A polícia da linguagem (por Ernani Ssó)

Em Huckleberry Finn, lá pelas tantas Mark Twain escreve “big nigger”. Monteiro Lobato traduziu por “negrão”. Sérgio Flaksman, nos anos noventa, por “escravo alto”, que pode ser uma opção muito bonitinha em termos políticos, mas literariamente é um desastre. Não é só que a expressão negrão seja mais forte. Ao alterar a frase, se altera o caráter do personagem que fala e, idiotia suprema, se confunde o autor com seus personagens. É mais ou menos a mesma coisa que acontece com essa gentalha que vê novela na televisão. Esses dias uma mulher deu um tapa na cara de uma atriz no supermercado porque a personagem dela na novela é muito assanhada, passa o marido pra trás.

Deu no New York Times

Trecho de um artigo de um tal Michiko Kakutani: “Será que ainda não aprendemos que retirar livros do currículo apenas nega às crianças o contato com obras clássicas da literatura? Pior, isso alivia os professores da responsabilidade fundamental de colocar esses livros em contexto – ou de ajudar os alunos a entenderem que Huckleberry Finn é na verdade uma acusação poderosa contra a escravidão (com o Negro Jim como seu personagem mais nobre), e usa essa linguagem controversa como uma oportunidade de explorar as dolorosas complexidades das relações raciais no país. Censurar ou editar livros das listas de leitura das escolas é uma forma de negação: é fechar a porta para as duras realidades históricas – reinventando-as ou fingindo que elas não existem.

“A tentativa de Alan Gribben de atualizar Huckleberry Finn (publicado em uma edição com As Aventuras de Tom Sawyer pela New South Books), assim como a afirmação de John Foley de que se trata de um livro antigo e ‘que estamos prontos para o novo’, ratifica a crença contemporânea narcisista de que a arte deve ser inofensiva e acessível; que os livros, peças e poesias de outras épocas e lugares deveriam de alguma forma se adaptar para se conformar às ideias democráticas de hoje. Um exemplo disso foram as iniciativas politicamente corretas da década de 80 para retirar Conrad e Melville da lista de grandes autores porque o trabalho deles não mostra muitas mulheres ou projeta atitudes colonialistas.

“Os textos originais dos autores deveriam ser propriedade intelectual sacrossanta, quer o livro seja um clássico ou não. Mexer nas palavras de um escritor revela tanto um orgulho extraordinário por parte dos editores, quanto a atitude desleixada de cada vez mais pessoas nessa época de mash-upssampling e livros digitais – a atitude de que todos os textos são substituíveis, que os leitores têm o direito de alterá-los como bem entenderem, que a própria ideia de autoria é ultrapassada.

“Os esforços para ‘desinfetar’ a literatura clássica têm uma história longa e pouco distinta. Tudo desde as Canternbury Tales de Chaucer até Charlie e a fábrica de chocolate de Roald Dahl vem sendo contestado ou já sofreu nas mãos de editores exagerados. Houve até versões purificadas da Bíblia (sem todo o sexo e violência!). Às vezes a necessidade de expurgar (senão banir totalmente) vem da direita, de evangélicos e conservadores, preocupados com a blasfêmia, linguagem profana e linguajar sexual. Grupos fundamentalistas, por exemplo, tentaram banir os dicionários por causa das definições oferecidas para palavras como quente, rabo, bola e ovos.

“Em outros casos o impulso de ‘limpeza’ vem da esquerda, ansiosa por impor sua própria visão de mundo multicultural e feminista e preocupada com ofender religiões ou grupos étnicos. A versão cinematográfica de Michael Radford para O Mercador de Veneza de 2004 (com Al Pacino no elenco) revisou a peça para omitir qualquer material potencialmente ofensivo, oferecendo um Shylock mais simpático e agradável e cortando questões difíceis sobre o antissemitismo. Mais absurdo ainda, uma companhia britânica de teatro em 2002 mudou o título de sua produção de O Corcunda de Notre Dame para O tocador de sino de Notre Dame”.

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Pela independência do Sul!

Pela independência do Sul!

A Catalunha nos inspira e neste sábado tudo vai mudar! A esmagadora vitória que certamente teremos no Plebiscito — pois só nós votaremos no Plebisul 2017 — irá nos separar do horroroso Brasil e iluminará nossas vidas. Serão 103 votantes que nos darão 99% dos votos. Será a maior Consulta Popular da América Portuguesa! Nossa nova moeda será o pila. O nome de nosso país novinho em folha será União Sul-Brasileira, doravante chamado USB. Nossa capital será Lages-SC. Inter, Grêmio e Brasil estarão na Série A. O Juventude na C. O hino do país será “USB é demais”, corruptela da imortal canção de José Fogaça. A data nacional será o 31 de setembro a fim de  representar a utopia que perseguiremos.

Imaginem as maravilhas! Paranaenses e gaúchos invadirão as praias catarinenses a cada verão. Seremos parlamentaristas e faremos nossa eleição proibindo os paranaenses de votarem até deixarem de ser tão conservadores. Neste jovem momento de nossa república, o primeiro-ministro será o atual governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, por ser um sujeito mais apagado que os outros dois governadores, por ter nascido em Lages e já estar adaptado à nova capital. Beto Richa e Zé Ivo Sartori serão deportados sem julgamento através de um conhecido mecanismo chamado Saída USB. O Diário Oficial será o Sul21.

No novo país estaremos livres de corrupção. Não há  conterrâneos nossos envolvidos em corrupção. Quem tenta acabar com a corrupção brasileira? Não é a República de Curitiba? Querem prova maior? Aí está! Os deputados federais e os senadores mais ridículos que temos — gente, por exemplo, como os gaúchos Darcísio Perondi, Osmar Terra e Luis Carlos Heinze, Ana Amélia e Lasier Martins –, assim como todos os políticos de carreira, participarão de nosso Churrasco da Independência no papel de carne.

No novo país procuraremos melhorar paulatinamente o sotaque dos catarinas e faremos com que o pessoal de Floripa finalmente trabalhe. Vamos encher a USB de CTGs. Definidos moeda, capital, sistema de governo, limitações aos paranaenses, Saída USB e local de férias, mostramos agora nossa bandeira, a ser saudada sempre com um espeto sangrando na mão direita.

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Gente, um recado antes do Plebisul 2017: nossa demanda é justa, nossa escolha é democrática e pacífica e nossa causa está calcada firmemente em nossas tradições e história. Afinal de contas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná já existiam antes do Brasil. Temos séculos e séculos de história pré-brasileira. Nossa civilização é distinta. É hora de voltarmos às nossas raízes históricas. E temos uma economia pujante. O atual Rio Grande do Sul será o dínamo da nova economia. Estamos preparados para a nova nação. Será o fim.

Sul

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Caixa do estado falido para tudo, exceto para patrocinar blog de jornalista

Caixa do estado falido para tudo, exceto para patrocinar blog de jornalista

====== De meu amigo para certo ‘Grande Jornalista’ =====

Uma dúvida ácida:

Agora com patrocínio do Banrisul e do Governo do Estado (falido) o seu blog pode ser considerado como “Chapa Branca”?

Se o Sr. Despacito passar a colocar banners do DMAE / Procempa / PMPOA as críticas contra ele também vão sumir, como sumiram todas as críticas ao desgovernador (ao menos o Google não achou nada) ?

Abs!

====== Réplica do “Grande Jornalista” =====

eu te pergunto: o que tu tens a ver com isso?
o blog é meu e eu faço o que quero.
e tu tens a opção de não ler.
entendeu ou eu tenho que te enfiar goela abaixo?
Abraço? um caralho pra ti

====== E a tréplica de meu amigo: ======

Olá:

Respondendo tuas perguntas: se estás sendo patrocinado com dinheiro público, tenho a ver com isso sim, porque eu pago impostos como todo mundo. É bom saber onde o Sartori investe nosso (pouco) dinheiro.

E tens razão, não sou obrigado a ler teu blog, principalmente agora, que é patrocinado pelo PMDB. Ficou claro que o teu “lado” é o teu mesmo.

odio

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Sobre o obscurantismo bem intencionado

Sobre o obscurantismo bem intencionado

Casualmente, dois amigos meus geograficamente muito distantes começaram a debater ao mesmo tempo os julgamentos literários baseados em estereótipos. Funciona mais ou menos assim: você compara um personagem, o que lhe acontece ou como é descrito com um modelo previamente formatado e com a abordagem que seria correta. Tais modelos serviriam para respeitar às minorias, claro. Se a literatura distorce o estereótipo, ela está errada, pois deveria fazer justiça à ideia pronta. A  verdade ficcional seria estática, ou seja, a literatura não poderia reimaginar, reinventar, fabular ou fantasiar fora da casinha.

Como isso acaba a gente sabe. O estereótipo é uma das principais muletas do conservadorismo que invade esquerda e direita. Trata-se de uma postura preguiçosa, sem reflexão e “moralizadora”. Estou cansado de gente que se horroriza com autores que ultrapassam certos limites. Uma amiga minha deixou de ler um excelente livro de Baricco porque o autor chamou uma personagem de gorda e disse que ela reduzia os danos usando roupas adequadas. Tudo é muito previsível e chato, ao contrário do que costuma ser a boa literatura. E os julgadores invadem os espaços antes exclusivos da censura e do senso comum, procurando colocar-se entre o autor e o leitor, esse ser que seria um tolo sem discernimento. Ambos os amigos dizem que a academia — fora do Brasil, é claro — está fazendo naufragar esta forma de pensar. Daqui dez anos chega aqui.

Detalhe de um dos Caprichos de Goya
Detalhe de um dos Caprichos de Goya

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Requiem: uma alucinação, de Antonio Tabucchi

Requiem: uma alucinação, de Antonio Tabucchi

Requiem TabucchiNão hesito em chamar este Requiem: Uma Alucinação de obra-prima. Vamos manter a grafia original da palavra “requiem” sem acento porque o livro foi escrito diretamente em português de Portugal pelo italiano Tabucchi. Antonio Tabucchi (Vecchiano, 24/09/1943 – Lisboa, 25/03/2012) foi o italiano mais português de que tenho notícia. Chegou a se naturalizar. Ele era professor, escritor e tradutor de Fernando Pessoa. Amava o país. Ele escreveu vários excelentes pequenos livros e sua grande obra, como escreveu Simenon sobre si mesmo, foi o mosaico formado por estes pequenos romances. Todos são excelentes, mas por favor, este Requiem é um exagero.

Requiem: Uma Alucinação foi o único livro que Tabucchi escreveu diretamente em português. A obra é uma homenagem a Lisboa, a Portugal, a Fernando Pessoa e até a Saramago — vide os diálogos sem pontuação. Também se come muito bem neste livro. Lisboa, como se sabe… Bem, escrevo próximo do horário do almoço e é melhor deixar de lado aquela maravilhosa gastronomia. O livro é literalmente um sonho. No calor do verão português, o personagem principal deita, dorme e sonha. São 12h que começam em um encontro que não acontece. Este seria, supõe-se, com Fernando Pessoa, chamado de “O Convidado”. Calma, gente, o  encontro acontecerá ao final do romance.

Enquanto isso, veremos o personagem que sonha deambulando por Lisboa. Ele encontrará amigos quase todos mortos, andará de táxi, terá uma linda cena numa pensão onde descansará, entrará no Museu de Arte Antiga onde encontrará um Pintor Copiador de Bosch, conversará e suará muito no escaldante calor. É tudo muito verossímil, contado em tom de conversa ao pé do ouvido, mas é a realidade de uma alucinação. Em Requiem, é natural acertar as contas afetivas com os mortos. Pouco a pouco, o vaudeville vai diminuindo seu ritmo e tornando-se melancólico. Uma obra-prima.

Recomendo fortemente. A edição é da extinta Cosac; isto é, acho que só pode ser encontrada em sebos.

 (Livro comprado na Ladeira Livros).

Antonio Tabucchi (1943-2012)
Antonio Tabucchi (1943-2012)

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Eu estava no Jardim Botânico ontem à tarde

Eu estava no Jardim Botânico ontem à tarde

No sábado, hesitei em ir ao show de Hermeto Pascoal na Redenção. Meu medo era a chuva. Fui, deu até sol e bebemos cerveja enquanto assistíamos divertidamente o velho quebrar tudo. Já não posso dizer o mesmo sobre o concerto da Ospa no Jardim Botânico, domingo. Ou posso, porque o vento de 107 Km/h também quebrou tudo.

Foto de hoje pela manhã | Guilherme Santos/Sul21
Foto de hoje pela manhã | Guilherme Santos/Sul21

Eu estava lá. Elena, minha mulher, é violinista da Ospa e foi fazer a passagem de som às 16h30 enquanto eu lia um livro na beira do lago. Tudo muito tranquilo e bucólico, apesar do ar de chuva. Até escrevi um whats para o amigo que me dera o livro. Quando começou o concerto, às 17h50 — anteciparam o horário em 10 min para tentar escapar da chuva –, fui assistir. Vendo a tempestade se formar atrás do palco — gente, relampejava — escrevi outro whats para meu filho Bernardo, que está estudando em Berlim: Precisava de ti hoje, agora, para fazermos umas piadas. A Ospa está no Jardim Botânico e vai cair uma baita chuva. Vai ser uma correria louca. Alto potencial cômico.

Mas às 18h30, quando tudo começou, não foi nada cômico. Não era só uma chuva, era uma tempestade com fortes ventos e raios.

Eu corri para o palco quando começaram a chuva e ventania. Queria ajudar a Elena. Quando estava começando a subir a escada que dava acesso ao palco, a estrutura se inclinou na minha direção e dei um salto para trás. Caí na grama. Ainda deitado, olhei para conferir se a estrutura estava mesmo vindo abaixo na minha direção, mas ela tinha parado inclinada. Então voltei para a escada. Não pude subir porque já descia um monte de músicos com seus instrumentos. As caras eram de total pânico. Comecei a berrar pela Elena.

Depois de anos, isto é, de eternos 20 segundos, ela apareceu. A coisa toda, isto é, a cobertura do palco, caiu com uma segunda rajada, quando já estávamos longe. Acho que só a ajudei depois, para que saíssemos rapidamente do Jardim Botânico. A Elena queria ir para outra estrutura metálica e eu a dirigi para um lugar aberto que achei mais seguro. Afinal, ali nada de sólido vinha do céu. Só tinha chuva, ventania, carros e muita gente correndo…  Apenas a uma distância de uns 100 m do palco e sob uma árvore, abri o estojo da Elena para que ela guardasse o violino. Caminhamos até a entrada do JB dizendo coisas tranquilizadoras um para o outro do tipo estamos bem, vamos chegar em casa, tomaremos um banho quente, faremos chá, a chuva fria não vai nos matar, etc.

Aparentemente ninguém se feriu. Os danos de todos foram apenas materiais. Sorte. A Elena se gripou. Em mim, resultou numa dor de cabeça realmente enorme ali pelas 22h — certamente produto do estresse — e numa dor no dedão, porque, ao chegar em casa, no escuro e já sem os tênis encharcados, chutei uma cadeira com tudo. Está doendo até agora… Mas meu dedão não tem relação com o que aconteceu com o palco. Estou no trabalho e bem. A dor de cabeça está suportável.

Impossível não citar o casal de anjos Arthur Dias Eich e sua namorada-mulher-amiga que não perguntei ou esqueci o nome. Peço desculpas, mas é que estávamos nervosos e sob chuva fria fazia mais de meia hora. Eu perguntara em voz alta sobre quem ia para o Bom Fim, e ela, a moça, nos ofereceu carona. Arthur foi da Fabico, é amigo do Igor Natusch, leitor do Sul21 e me conhecia, vejam a coincidência. Por isso, lembro mais dele. Estamos gratíssimos A AMBOS.

É, nestes tempos de aquecimento global, não dá mais para brincar com o tempo.

 Foto de agora pela manhã. À esquerda, sob a ferragem , a escada que tentei subir | Foto: Guilherme Santos
Foto de agora pela manhã. À esquerda, sob a ferragem , a escada que tentei subir | Foto: Guilherme Santos/Sul21

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Bom dia, Guto (com os melhores lances de Inter 2 x 0 Santa Cruz)

Bom dia, Guto (com os melhores lances de Inter 2 x 0 Santa Cruz)

Havia um valor mais alto em jogo, Hermeto Pascoal se apresentava gratuitamente na Redenção, então não fui ao Beira-Rio nem vi jogo no Pastel com Borga da Sandra Giehl. Assisti quase tudo depois, mas terei a honestidade de não ser muito específico.

Dos últimos 11 jogos da Série B, ganhamos 10. Isso demonstra nossa atual superioridade sobre a esmagadora maioria dos adversários, mas é óbvio que tivemos uma semana com aquele gênero de debate imbecil de que aparentemente gostamos tanto. Ouvi de ti, Guto Ferreira, com todas as letras, a intenção de poupar jogadores, entrando com um time misto contra o Santa Cruz. A finalidade? Para se preservar para o difícil jogo contra o Paraná terça-feira… Meu deus.

Ah, se todos fossem iguais a você... | Foto: Ricardo Duarte
Ah, se todos fossem iguais a você… | Foto: Ricardo Duarte

Em um campeonato de pontos corridos, a estratégia dentro de campo pode ser complicada, mas fora do campo é simples. É conquistar pontos, quaisquer pontos contra qualquer time. Todos os pontos são iguais. Besteira entrar com time misto contra o Santa Cruz, SÃO TRÊS PONTOS.

Sofisticando um pouco a coisa: como o Paraná perdeu na rodada, nossa vitória de ontem equivaleu a uma vitória sobre eles. Foi como um confronto direto com vitória nossa. Nós ganhamos 3 pontos, eles zero. Simples.

Então, como o negócio é ganhar pontos, os jogos onde poderíamos atuar com um time de reservas seriam sempre os fora de casa. Os jogos em casa são os mais fáceis, onde devemos sempre garantir PONTOS. E há a questão do respeito ao torcedor do Beira-Rio. Ontem foram 27 mil almas.

Agora faltam apenas 3 vitórias e dois empates para chegarmos aos 65 pontos e à classificação para a Série A. Somos líderes com 54 pontos em 27 jogos, com a decente média de dois pontos por jogo. Estamos seis pontos na frente do segundo colocado — o América-MG perdeu em casa para o Oeste — e nove do quinto.

O que vi? Vi que os reservas Alemão e Carlinhos são inaceitáveis como laterais. Alemão, por exemplo, torna o Winck craque. Vi Pottker jogar novamente muito pouco. Vi Sasha voltar a inexistir na parte ofensiva. Vi Cuesta redemonstrar que é um baita zagueiro. Vi o time relaxar perigosamente. Vi Camilo entrando bem e Dale marcando dois gols — um de pênalti e outro de pé direito — e acabando com o jogo.

O Inter não fez boa partida, mas ganhou. Apesar do mau futebol, há que considerar que a Série B não é lá muito inspiradora. Acho que Camilo e Dale, juntos, podem dar certo desde que Camilo marque mais. E Pottker, por favor, tem que dar seu lugar logo para Nico López.

Nas entrevistas após a vitória, D`Alessandro deu algumas pistas de que vai falar sobre sua saída do Inter e sobre o que encontrou aqui no início do ano. Não deve ser uma delação premiada, mas tem tudo para ser sensacional. Já vou comprar pipocas para ouvir tudinho. A diretoria anterior merece muito.

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“Doutor, estou tendo uma crise de representação”

“Doutor, estou tendo uma crise de representação”

O paciente entrou no consultório com ar desalentado, deitou-se no divã e disse:

— Doutor, estou tendo uma crise de representação.

— Não me diga.

— Ninguém me representa e os que um dia se propuseram a isso, desistiram, mudaram, sei lá.

— Sim.

— Vi que a coisa era grave quando compareci em a audiência nesta semana e não encontrei meu representante, meu advogado. Não sabia mais quem era ele. Se o vi, não reconheci. Voltei para casa desesperado com a derrota na causa e, quando subi as escadas, cruzei com o síndico. Ele me disse que havia um vazamento no meu apartamento, só que, doutor…

psi

— Sim?

— Não votei nele. Ele não me representa.

— Acredito.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos até que o paciente disse:

— Meu Deputado Estadual não foi eleito.

— O Federal?

— Também não.

— Senador?

— Perdeu por pouco.

— Presidente?

— Votei na Dilma, que já não me representava.

— Votaste em quem não te representava… Grave… Prefeito?

— O Sr. me toma por quem?

— Desculpe. E Governador?

— O Sr. realmente está me desconhecendo!

— Creio que deve haver pessoas em posições de algum poder que lhe representem. Vereador?

— Sim, votei numa boa menina. Foi eleita.

— Viu?

— É pouco, doutor.

— E o teu trabalho, ele representa tuas capacidades, teu papel e a forma como és necessário à sociedade…

— O que faço representa meu chefe, não a mim.

O médico contém o riso e diz que aquilo é muito comum.

— E as bancadas da Bala, da Bíblia, do Boi, da Bola?

— Nada doutor. Com B só Balzac, Bach, Beethoven e Brahms.

— E os movimentos identitários?

— Meu deus, doutor. Eles chegaram a tal grau de certeza de sua superioridade moral que não posso nem encará-los. Sinto-me indigno. E não poderiam me representar porque é o lugar de fala que garante a verdade do que é dito. Não adianta estudar. E meu lugar de fala é uma bosta: branco, homem, hetero, mesmo que traído pela mulher.

— Opa.

— Minha mulher, poderíamos chamá-la de Molly, elegeu um representante para minha função.

— Ela é mole?

— Meu deus, doutor, falo de Molly Bloom. Cito Ulysses.

— Ah, sim.

O médico se remexe na cadeira.

— Minha mulher tem um amante. Ponto.

O médico queria mudar de assunto. Decidira que representação era o tema daquela sessão. Adultério ficaria para uma ou várias próximas.

— E aqueles teus B`s queridos? Bach, Beethoven, etc.?

— Shostakovich.

— Como?

— Shostakovich. A polícia stalinista vinha buscar as pessoas em suas casas, à noite. Eles não davam tempo para o cara se vestir. Era levado para “prestar seu depoimento” como estivesse, normalmente de pijamas ou cuecas. Era para humilhar mesmo.

— E daí?

— E daí que Shostakovich passou a dormir vestido, preparado, para passar menos vergonha.

— E o que isso tem a…

— Depois ele pensou que seria melhor que não o pegassem dentro de casa. E começou a dormir no corredor. Quando ouvia o som do elevador, pegava a pasta e aguardava.

— Que loucura.

— Mas eles nunca vieram. A NKVD e a KGB nunca vieram.

— …

— E eu tenho medo do MBL, mas não apenas deles. Tenho medo de todos. E todos fazem linchamentos virtuais. Ninguém me representa.

— Escreva um textão no Facebook. Diga que respeita todo mundo. Os identitários, os punitivistas, a puta que o pariu, que cada um deve respeitar o espaço do outro, diga que acredita no diálogo e na democracia, que saúda respeitosamente cada degeneração. Não, não, não faça textão, responda a cada um de cada vez, sempre concordando. Depois volte aqui e vamos tratar do adultério em 30 sessões. Chama a Mole junto.

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Barbara Hannigan no pódio, sem terno

Barbara Hannigan no pódio, sem terno

Tradução amadora feita a partir deste original.

Dedico a tradução a minhas sete leitoras, e, em especial,
à Elena e a minha Bárbara com acento.

Quem disse que as mulheres não podem ser regentes? Bem, um monte de homens. Então, o que a famosa soprano Barbara Hannigan aprendeu desde que ela pegou a batuta e começou a brandi-la em um — choque! — vestido sem mangas?

Por Barbara Hannigan

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Quando eu tinha 10 anos, decidi que ia ser uma musicista. Eu não tinha certeza de que tipo, mas a regência não era algo que eu sequer considerasse. Crescendo em uma pequena vila na costa leste do Canadá nos anos 70 e 80, eu pensei que as mulheres só podiam reger coros ou, na melhor das hipóteses, orquestras escolares. Eu não sabia o que significava o sexismo. Além disso, eu adorava cantar e logo percebi que era isso o que ia fazer na vida.

Passei grande parte da minha carreira com o foco na música erudita contemporânea, trabalhando com os compositores em novas criações e explorando as obras do século 20. Um dos meus papéis favoritos é o de Lulu, de Alban Berg. Para mim, ela não é uma femme fatale nem a vítima que alguns dizem ser. Ela é uma mulher infinitamente fascinante, deliciosamente contraditória e que desafia os rótulos. E é sempre fiel a si mesma. Se ela usa salto alto e vestido ou uma roupa de ginástica vermelha e sexy, ela permanece confortável em sua própria pele até o final da ópera, quando, forçada à prostituição, organiza seu próprio assassinato a fim de escapar de um futuro que ela não poderá suportar. Ela é uma mulher extremamente poderosa. Incorporá-la em minha vida teve um enorme impacto sobre mim.

Chegar aos 40 anos foi doloroso para mim. Eu tinha ideias sobre o meu valor e lugar como performer e estes estavam relacionados com a minha idade. Comecei a evitar-me no espelho. Eu queria manter minha idade em segredo. Gastei depois muito dinheiro em cremes inúteis para o rosto. Em parte, isso tinha a ver com a minha vida de prateleira como cantora. Muitos de nós sentimos que temos uma data de validade estampada em nossas testas. Quando passamos dos 50, as vozes, especialmente os registros mais agudos e leves, perdem elasticidade, flexibilidade e beleza de tom. Eu estava sentindo a pressão do tempo.

Mas Lulu me ajudou a crescer. Cantei-a aos 41. Ela me fez perceber que eu não poderia estar mais preparada para cantá-la até exatamente essa idade — os meus anos de investimento, a experiência, as 20.000 horas de prática realmente faziam diferença. Eu tinha tudo o que precisava. Senti a confiança sobrevivendo à experiência.

Barabara Hannigan em Lulu
Barabara Hannigan em Lulu

Pouco antes, quando me aproximei dos 40 anos, eu também tinha começado a reger. Fiz minha estreia como maestrina no Châtelet em Paris com a ópera de câmara de Stravinsky Renard e com Mistérios do Macabro de Ligeti, onde cantava e regia. Foi uma experiência avassaladora, uma lição de humildade. O maestro é em parte servo, em parte líder e, na maioria das vezes, tem que apenas ficar fora do caminho. Ofertas para conduzir e cantar com grandes orquestras começaram a chegar. Sir Simon Rattle me pediu para executar Façade, de William Walton, com ele e os membros da Filarmônica de Berlim, em 2012, dividindo as tarefas de regência e narração entre nós.

É claro que o soprano é um campo só para mulheres. Com a regência, vi expandir-se para mim um campo dominado por homens. Eu realmente não penso em mim como uma pioneira — era simplesmente algo que eu precisava explorar como musicista. Mas, à medida que o tempo passava, percebia que o “feminino” estava agora ligado ao rótulo de “maestro”. Eu nunca tivera este rótulo como cantora.

Para Façade, eu usava roupas apropriadas para a teatralidade da peça — um vestido de noite sem alças. Um amigo comentou sobre a expressividade dos meus braços, e pareceu-me que isso era parte da minha força como maestrina. Quando eu fiz a minha estreia no Châtelet, que eu tinha usado um terno: muitas mulheres regentes usam roupas ou de gênero neutro ou algo parecido com um terno de um homem. Pensei que calça e jaqueta eram o “traje correto”. E usei também. No entanto, eu nunca uso terno na vida real! Desde Façade, passei a usar um vestido sem mangas para reger. É algo onde eu posso me mover e que cabe na música… Eu também não amarro meu cabelo para trás, a menos que ele esteja num mau dia. Tive feedbacks positivos sobre isso vindo de orquestras e audiências. Ninguém vê problema em eu não estar sobriamente vestida com um terno escuro. Porém, os críticos sempre observam minha roupa, o que não é algo que eles costumem fazer com regentes homens.

A discussão pública de questões de gênero é muito carregada. Pegajosa. Eu hesitei aqui e quase comecei a me censurar. Vasily Petrenko, o maestro Real Liverpool Philharmonic, e Bruno Mantovani, diretor do Conservatório de Paris, fizeram comentários depreciativos com o foco no feminino. Mesmo o professor Jorma Panula, fez comentários depreciativos na TV um ou dois dias antes de eu reger o Concertgebouw de Amsterdam. Mesmo que seus comentários não fossem pessoais, eu me senti terrivelmente ferida. Eu tinha recém trabalhado intensamente em conjunto com os músicos da orquestra em obras de Stravinsky, Schoenberg e Ligeti, e eles vieram criticar minha musicalidade e habilidade para reger com base no sexo, alegando que mulheres só deviam conduzir “música de mulheres”, como Debussy e Fauré. “Não é um problema”, disse Panula, “se as regentes escolherem obras mais femininas. Bruckner ou Stravinsky elas não devem fazer, mas Debussy é OK. Isto é puramente uma questão de biologia “.

Eu me pergunto se eles lamentam o que disseram.

Sempre que sou questionada sobre o assunto em entrevistas, eu aproveito para combater essas ideias. No início deste ano, a caminho de um concerto, eu li no New York Times que dois alpinistas finalmente alcançaram o topo do Dawn Wall. “Espero que [nossa conquista] inspire as pessoas a escalarem seus Dawn Walls secretos”, disse um deles. Eu subi no palco naquela noite energizada por essa citação. Eu a carregava comigo: reger tornou-se o meu próprio e nem tão secreto Dawn Wall. É uma daquelas poucas fronteiras finais em que há escassez de mulheres. Para mim, porém, a questão é muito mais complicada do que uma chamada de “Precisamos de mais mulheres regentes!” Reger é ter a musicalidade, a psicologia e a habilidade técnica reunidas em um raro tipo de liderança que é indescritível. E ela não é nem de homem nem de mulher. A convenção manteve o campo dominado por homens. Convenção e, é claro, algum sexismo cotidiano — porque antes de uma mulher ficar no pódio, ela precisa entrar em uma aula de regência na universidade, e antes disso, mesmo, ela precisa ver a carreira como uma opção viável, algo que eu não tive quando criança.

A jovem filha de um amigo me viu regendo na TV outro dia, e disse: “Mamãe, eu não sabia que deixavam as mulheres serem maestros”.

.oOo.

Abaixo, aos 6min39, Hannigan empurra Rattle e regê parte de Mysteries of the Macabre, de Ligeti. Divirtam-se com esta enorme artista.

György Ligeti
Mysteries of the Macabre

London Symphony Orchestra
Sir Simon Rattle

Barbara Hannigan
Soprano

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Bom dia, Guto (com os melhores lances de Inter 2 x 1 América-MG)

Bom dia, Guto (com os melhores lances de Inter 2 x 1 América-MG)

Escrevi este texto durante a partida. Veja como tudo é previsível, Guto. 

O Inter entrou em campo com sua escalação habitual. Tu realmente não pensas em alternativas melhores para as posições de Alemão, Sasha e Pottker, os quais têm realizado atuações muito, mas muito insatisfatórias, Guto. Talvez sejam caras bons de grupo, mas eu acharia mais adequado que eles não fossem tão ruins de campo.

Não pude ir ao estádio ontem e só comecei a ver a partida aos 24 minutos do primeiro tempo. Devo ter perdido pouco. Logo vi que Pottker estava jogando lamentavelmente — errou duas jogadas fáceis em sequência –, tudo normal. E, imediatamente, em uma boa jogada de três jogadores que quase sempre estão bem, saiu o primeiro gol do jogo. Gol de Edeníson após troca de passes de Uendel e D`Alessandro. A vida nos surpreende, mas nem tanto assim.

O Bom,
O Bom,

Tanto não surpreende que logo o América empatou numa jogada pelo lado direito defensivo do Inter, o lado defendido por Alemão… Pois é, nosso lado direito tem Alemão, Edenílson e Pottker. Isto é, tem Edenílson e dois patetas. Não pode funcionar.

No início do segundo tempo, a maior das surpresas: Alemão fez uma jogada pela esquerda e cruzou para Pottker cabecear no travessão. Infelizmente, deus não conseguiu concluir seu milagre. O segundo tempo se desenrolava e eu vendo jogo entediado, só esperando um movimento da tua barriga, Guto. Mas nada de Camilo, nada de Nico, só Sasha e Pottker. Sim, nossa existência com um técnico que obedece aos empresários é complicada. Nós não mantínhamos a bola no ataque e o América-MG tentava contra-atacar. Respondíamos com faltas e ganhávamos cartões amarelos, coisa linda. O América tomava conta do jogo e eu de olho na tua barriga. Aos 13 min, eles perderam um gol feito.

o Mau
o Mau

Aos 14, Dale deixou Pottker cara a cara com goleiro. O ex-jogador da Ponte ia entrar com bola e tudo quando o goleiro fez obstrução faltosa fora da área. Lance óbvio de cartão vermelho, mas o juiz deu amarelo. Normal. Os Inter voltou a pressionar e os jogadores do América rolavam em campo, sempre machucadinhos. De entediante, o jogo passava a irritante. Aos 25 min, a barriga se mexeu: saiu Sasha, de pífia contribuição, e entrou Nico López. O uruguaio teria 20 min contra 70 de Sasha. Pobre do nosso time. Aos 35, Camilo entrou no lugar de Dale, cansado após fazer seu trabalho e o de mais dois.

e o Feio | Fotos do grande Ricardo Duarte / SC Internacional
e o Feio | Fotos do grande Ricardo Duarte / SC Internacional

Então passei a me divertir com as jogadas de Pottker. Ele girava e errava, tentava chapéus e perdia a bola. Mas, aos 40 min, Nico López mostrou que é melhor 20 min de um jogador de futebol do que 70 de uma farsa. Fez um golaço após passe de Camilo. A barriga sabe o que tem de fazer, mas talvez os empresários de Sasha e Pottker impeçam. Não peçam maiores explicações, desconheço os motivos profundos mesmo das coisas mais claras.

O juiz deu 8 minutos de descontos, beneficiando quem fez cera. Achei lindo. Em jogadas pelo lado de Alemão, o América-MG pressionou até o final, perdendo gols. Como sempre, o Inter recuou apavorado. Afinal, todos ali são mais ou menos filhos de 2016.

Agora, o Inter, apesar do mau jogo, é líder isolado desta barbada que é a Série B. Tem 51 pontos em 26 jogos. Faltam 12 partidas e 14 pontos para a classificação matemática. Estamos a nove pontos do 5º colocado. O próximo jogo é contra o Santa Cruz, sábado, às 16h30. Jogaremos sem Uendel e Nico López, que receberam o terceiro cartão amarelo. Não precisarás escalar o Nico, Guto! Teus amigos empresários ficarão felizes!

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Um Apelo à Razão Gremista

Um Apelo à Razão Gremista

Para o Grêmio pensar: em 2010, antes das semifinais da Libertadores, também houve uma parada. O Inter utilizou-a para contratar Celso Roth e acabou campeão. Reflita bem, Romildo, siga os exemplos que deram certo. Não invente numa hora grave como essa. O time está caindo, é a hora de trazer Roth.

A propósito, hoje faz 63 anos do último jogo do Festival de Inauguração do Estádio Olímpico.

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Bom dia, Guto (com os melhores lances de Náutico 0 x 1 Inter)

Bom dia, Guto (com os melhores lances de Náutico 0 x 1 Inter)

O Inter venceu o Náutico ontem à tarde e segue líder da Série B após 25 rodadas. Faltam 13 para terminar a Série B. Temos 48 pontos, a mesma pontuação do América-MG, mas com mais vitórias, 14 contra 13. Agora, estamos a 7 pontos do 5º lugar, o primeiro a não subir para a Série A. A prova de que a B é uma barbada é a forma insatisfatória com que temos atuado, normalmente com sucesso. Em condições normais, era para termos vencido a partida de ontem por 4 ou 5 gols de diferença — tal a ruindade do Náutico –, mas foi um jogo duro por culpa de um esquema de jogo tolo.

Damião: jogando muito e salvando a pele de Guto Ferreira | Foto: Ricardo Duarte
Damião: jogando muito e salvando a pele de Guto Ferreira | Foto: Ricardo Duarte

Que coisa horrível nossa atuação ontem à tarde em Caruaru, Guto. O Náutico na Zona de Rebaixamento da B e nós jogando com três volantes. Eu não sei quando acabará o sofrimento dos colorados. Subir será fácil, mas como não manteremos na A se somos geridos por gente medrosa, que pensa pequeno? Começamos a partida indo pra cima, depois deixamos um time mais fraco tecnicamente gostar do jogo. Estávamos nos impondo, mas recuamos quando Gutiérrez concluiu que estava fora do lugar, muito à frente… O cara é volante, não é e não será armador, Guto. E nos tornamos novamente o time que jogou contra o Juventude, com ousadia zero, criatividade zero. Estou num grupo do whats de colorados com um parafuso a mais e todos, todos, todos concordavam com o equívoco de colocar Gutiérrez no lugar de Dale e descreviam como jogaríamos. E o jogo foi como previmos. Nós não somos sumidades, Guto, tu é que segues a escalação que te impõe a diretoria ou tens muito medo.

Por que não iniciaste com Juan ou Camilo, substitutos naturais de Dale, jogamos da mesma posição?

O que me apavora é que pouco de 2017 servirá para formarmos um bom time em 2018, pois estamos ganhando jogos mais em função da fraqueza dos adversários e nossos maiores destaques — Damião e D`Alessandro — talvez tenham vida curta no clube. O primeiro está emprestado ao Inter e, dizem, vai para a China no próximo ano e o segundo é um craque 36 anos.

Ontem, tivemos vários jogadores (Alemão, Gutiérrez, Sasha e Pottker) com desempenho muito fraco. E Nico López, que sempre entra bem, segue na reserva. Esse é outro que poderá sair em 2018. Quem aguenta ser reserva de Pottker? No Inter, além de Damião, jogaram bem Cuesta, Edmílson e Uendel.

Nosso próximo jogo é quarta-feira, às 19h30, no Beira-Rio pós show do The Who. Eles vão fechar o show com Won`t get fooled again (Não seremos feitos de trouxas novamente). Lá há os versos: Meet the new boss, same as the old boss, o que serve não somente para Temer, mas para a diretoria atual do Inter, que parece ser a mesma anterior, a que nos conduziu para onde estamos agora.

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Minha muito traumática internação

Minha muito traumática internação

Esses últimos dois dias foram horríveis. Em meu trabalho como jornalista, fui fazer uma entrevista numa clínica psiquiátrica e tudo correu normalmente. Fiz perguntas normais e estas foram respondidas de forma convencional. O resultado ia ser tedioso como quase todas as matérias. Quando saí de lá, me dirigi à parada de ônibus em frente à clínica para ir pra casa. Foi quando dois enfermeiros enormes vieram, me pegaram e me levaram de volta para dentro. Eu berrava e esperneava e, quanto mais fazia isso, mais eles tinham certeza de que eu fugira de um dos quartos. Eu disse que era repórter do Sul21 e um dos enfermeiros respondeu que ele era o Renato Portaluppi. O outro disse que era o Gilmar Mendes. Riram de mim. Passei a dar chutes e cabeçadas na porta e eles nem se voltaram para me olhar, só disseram de forma bem audível: ih, esse surtou de vez. Me deram umas injeções. Dormi, é claro. Quando acordei, tinham servido um café com pão e manteiga. Todos os talheres eram de plástico, que merda, eu estava a fim de fazer em pedacinhos o primeiro que entrasse. Roguei para falar com a Elena, com minha irmã médica, com meus filhos, com o bispo, mas eles tinham pegado meu celular e não queriam devolver. Também não quiseram me levar no passeio dos loucos devido a meu estado nervoso. Enfim, após 48 horas, consegui atrair um médico até meu quarto. Ele me conhecia dos blogs e do facebook. Pensou que eu postava sempre ali da clínica mesmo. Tive que explicar que costumava escrever em casa ou no trabalho, que deus e minha chefe me perdoem. Pedi por meus familiares e afinal vieram a Elena, a Iracema e a Bárbara. O médico pediu desculpas e disse que a parada na frente da clínica era um fake, nenhum ônibus parava ali, era só para pegar os fujões, mas que eu, boca-aberta, tinha ficado esperando e, já viu, pensamos que era um dos nossos. Agora, estou aqui digitando pra vocês já no meu celular, a camisa-de-força não é tão apertada assim. Consegui até coçar o sovaco.

Foto: AF Notícias
Foto: AF Notícias

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O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares

O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares

TORCICOLOGOLOGISTA-280Duas pessoas, ou excelências, como prefere Gonçalo M. Tavares, conversam sem parar sobre os mais variados e, às vezes, disparatados assuntos. Não há descrições, introduções, “palavras do autor”, nada disso. O que há são diálogos cerrados, como uma peça de teatro onde dois indivíduos (ou travessões) falam sem parar. São muitos capítulos, todos eles com títulos que parecem ter sido buscados nos romances ingleses do século XVIII. Dito assim, parece confuso, mas não é. O Torcicologologista, Excelência é um livro fluido em que a lógica é subvertida ou seguida de forma tão rigorosa que acaba em absurdo. Os assuntos são os mais variados. O livro inicia tratando de revoluções, e vai para qualquer lado, como a dança, a preguiça, o corpo, as ideias — há uma guilhotina que corta ideias tolas — , a moda, a tradição, a covardia, a coragem e a linguagem, a linguagem, a linguagem. É um livro cheio de filosofia e ironia, onde as pequenas e grandes questões individuais e coletivas têm o mesmo tamanho.

O Torcicologologista, Excelência mostra um escritor único, desses que nos provam que nem tudo ainda foi feito. Se as frases são claras, o todo é desconcertante e estranho. E com desvios. “Tudo o que é sério tem dois lados divertidos”, escreve Tavares. Desta forma, nada deixa de passar por sua máquina de experimentações que atenta moderada ou crassamente contra o sentido convencional das coisas.

Eu adorei o livro. Ele não apenas escancara uma superfetação de fantasias e possibilidades como aponta para um mundo impossível no Brasil literal e burro de hoje. Um mundo onde a linguagem nem sempre fala daquilo que deixa no papel.

Eu penso muito que a criação crítica sobre o contemporâneo é uma criação crítica sobre a linguagem, porque nas democracias grande parte das batalhas essenciais são linguísticas. E nós percebemos que a linguagem é uma máquina que pode funcionar de diferentes maneiras: uma máquina por vezes irônica, por vezes de manipulação, por vezes uma máquina de cercar, muitas vezes uma máquina de tentar explicar a realidade. Portanto a linguagem está sempre no centro da democracia. Felizmente, de alguma maneira, a arma foi substituída pelo verbo. E o que me parece interessante é que as pessoas deveriam ter uma espécie de manual de defesa da linguagem e não têm, um pouco como aprender uma arte marcial, aprender a estrutura da linguagem, a forma como ela funciona. E no Torcicologologista, os diálogos partem muito dessa ideia de que as frases não dizem apenas uma coisa, elas têm vários sentidos, podem ir por um caminho, ou pelo caminho oposto; que a linguagem pode ser sabotada, que a linguagem pode aparentar que está a falar de uma realidade mas está a falar de outra. Percebemos que a linguagem depende de quem a diz, pois mais importante que perceber a frase de alguém é perceber o que essa pessoa quer. De alguma maneira os diálogos andam muito à volta dessas ideias, pois o diálogo é uma maneira da pessoa dizer coisas que não sabia que sabia. É o outro, através de suas questões, de suas frases, que faz que eu diga algo novo para mim, portanto o diálogo não é um somatório de monólogos, é mesmo uma possibilidade de descobrir coisas diferentes. E nesse aspecto esses diálogos são claros herdeiros dos diálogos clássicos, de Platão, e daquela ideia socrática das perguntas até como uma espécie de tortura. São questões que de alguma maneira não têm resposta prévia e, portanto, provocam uma investigação individual. Nesse sentido O torcicologologista é um herdeiro desse mundo.

Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista
Gonçalo M. Tavares, talvez à espera de um torcicologologista

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Em carta, Freud diz que “A homossexualidade não pode ser qualificada como uma doença”

Em carta, Freud diz que “A homossexualidade não pode ser qualificada como uma doença”
Sigmund Freud (1856-1939)
Sigmund Freud (1856-1939)

Admiro Freud principalmente como escritor. Não sou da área psi e o li de forma desorganizada e meio boêmia. Seus textos de pensamentos claros e didáticos, além da escrita fluida e bonita traíam o gênio que estava por trás. Não entendo porque não ganhou um Nobel de Literatura. Pois em 1935, Freud respondeu por carta a uma mãe preocupada com seu filho homossexual. Afinal, ele se relacionava com outros homens!

Freud responde não acreditar que se tratasse de uma doença. Em um trecho, ele diz que a “homossexualidade não é nenhuma vantagem, mas ao mesmo tempo não é algo pelo qual alguém deva se envergonhar. Não é um vício, uma degradação e nada que possa ser classificado como doença”. Ele diz que não pode prometer abolir a homossexualidade, visando substituí-la por uma heterossexualidade.

Também cita exemplos de grandes pensadores e artistas que eram homossexuais. Platão, Michelangelo e Leonardo da Vinci. Abaixo, a carta traduzida:

carta-de-freud

19 de abril de 1935

Minha querida Senhora,

Lendo a sua carta, deduzo que seu filho é homossexual. Chamou fortemente a minha atenção o fato de a senhora não mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. Poderia lhe perguntar por que razão? Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem. No entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.

Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da antiguidade e atualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Michelangelo, Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito. Caso não acredite na minha palavra, sugiro-lhe a leitura dos livros de Havelock Ellis.

Ao me perguntar se eu posso lhe oferecer a minha ajuda, imagino que isso seja uma tentativa de indagar acerca da minha posição em relação à abolição da homossexualidade, visando substituí-la por uma heterossexualidade normal. A minha resposta é que, em termos gerais, nada parecido podemos prometer. Em certos casos conseguimos desenvolver rudimentos das tendências heterossexuais presentes em todo homossexual, embora na maioria dos casos não seja possível. A questão fundamenta-se principalmente, na qualidade e idade do sujeito, sem possibilidade de determinar o resultado do tratamento.

A análise pode fazer outra coisa pelo seu filho. Se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos e inibição em relação à sua vida social a análise poderá lhe proporcionar tranqüilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição.

Sigmund Freud

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Impregnado

Impregnado

Gosto de crianças. Tenho boas relações com elas e acho que sei como surpreendê-las. Quando meus filhos eram pequenos, fazia às vezes concorrência natural aos recreacionistas das festas infantis. (Também tenho uma estranha habilidade para fazê-las dormir). Sempre tratei de tirar meus filhos da frente da TV e dos jogos. Acho que as crianças ficam tempo demais na frente da tela luminosa, demais no videogame. Meus filhos — hoje na faixa dos 20 anos — nunca pediram videogame e, se a Bárbara via muita TV quando pequena, depois foi se afastando.

É difícil convencer uma criança que há outras coisas tão legais quanto ficar deitado como uma besta vendo TV ou ganhando habilidade com os dedos no videogame. Sempre disse a eles que os jogos os deixavam incrivelmente hábeis para os jogos e só. Em minha sistemática pressão antiTV, entrava em casa diariamente cantando em altos brados a música dos Titãs:

A televisão me deixou burro
muito burro demais
agora todas as coisas que eu penso
me parecem iguais

E, depois, vinha o golpe fatal que irritava minha filha e a “obrigava” a correr atrás de mim para me bater:

(…)
e agora eu vivo dentro dessa jaula
junto dos animais.

Pois dia desses eu fui ao futebol com o filho de um amigo. Ir a um jogo acompanhado de crianças é sensacional. É boné, salgadinho, sorvete, amendoim, mais salgadinho, água, o diabo. Mas vale a pena. Quando, já na arquibancada, veio o primeiro moço com a cesta de salgados, carregando todos aqueles quilos de gordura trans, e ofereceu seus produtos, ele respondeu:

— Não, agora não, recém comi um pão e um suco. Depois eu vou querer. Volta depois, tá? Obrigado.

É claro que o homem não ouviu nada após o primeiro não. Eu ria explicando a meu pupilo que não precisava dar um discurso, que era só dizer não, obrigado.

Mas, voltemos um pouco no tempo. Voltemos até nossa entrada na arquibancada. Antes do campo abrir-se para nós, eu o avisei:

— Te prepara para uma visão espetacular. Tu nunca vai esquecer disso.

Ele caminhou silenciosamente até a borda da arquibancada superior. Parei a seu lado e vi que ele estava pasmo, impregnado pelo ambiente. É lindo ver um campo de futebol iluminado, à noite. É uma coisa que só nós entendemos e que é impossível transmitir a quem não gosta de futebol. A melhor resposta para quem não entende nossa cara nestes momentos é a de Louis Armstrong quando lhe perguntaram qual era a graça que ele via no jazz: Man, if you gotta ask, you’ll never know. Se você tem que perguntar, nunca saberá.

Ou seja, o vírus inoculara-se nele. Não tive muito tempo para ficar nostálgico lembrando do dia em que meu pai me levara para ver Inter 1 x 0 São Paulo, em 1968, nem para recordar o ainda mais emocionante Inter 4 x 0 São Luís, a estréia do meu filho Bernardo no Beira-Rio, pois tinha que controlar o menino dando discursos encantados com tudo, mas principalmente com aquela atmosfera tribal… Logo depois, ele começou a demonstrar todo seu grande conhecimento de palavrões.

— Vai tomar no cu, seu juiz idiota do caralho. Enfia o apito no rabo!

Sim, foi um começo promissor, apesar de ele levantar a cada minuto, atrapalhando o pessoal de trás para torcer gritando:

— Vai, vai, vai, vai! Não!

Ou utilizando a mui contrastante variação:

— Isso, isso, isso, isso! Não!

Quando se dava conta de que tinha levantado novamente, pedia desculpas aos detrás, que riam, achando divertido o “descontroladinho”…

Foi muito divertido, claro. Um dia, nessa grande desilusão do crescer e amadurecer de cada um de nós, talvez ele queira reencontrar seu próprio deslumbramento com o mundo. Os escritores alemães (a começar por Goethe e seu Wilhelm Meister) criaram um gênero de romance muito próprio, aquele que trata da história pessoal da desilusão: o Bildungsroman. É o romance de formação, da edificação da individualidade, da incorporação da cultura. Mas nada disso ele reencontrará se ler este texto, talvez apenas dê risadas de sua falta de jeito.

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No país da cura gay, Ministro da Fazenda faz oração pela economia

No país da cura gay, Ministro da Fazenda faz oração pela economia
Marcelo Camargo / Agência Brasil
Marcelo Camargo / Agência Brasil

Henrique Meirelles foi convidado a participar de um encontro religioso na igreja Assembleia de Deus no Rio. Isso já era estranho, mas, como se não bastasse, ele não pôde comparecer e gravou uma mensagem na qual diz que tem os mesmos “valores das leis de Deus” dos evangélicos.

“Estamos juntos todos trabalhando, dentro dos princípios da ética, da idoneidade, do trabalho duro, porque eu me sinto muito à vontade para conversar com vocês porque temos os mesmos valores, são os valores das leis de Deus, visando crescer, visando colaborar com o país. Portanto, preciso da oração de todos e estaremos aqui trabalhando e conto com vocês”, afirmou incrivelmente o ministro da Fazenda. Ética, idoneidade, OK.

O absurdo da mensagem demonstra claramente que o homem é candidato à presidência de nossa pobre república.

#CuraDaIgnorância, precisamos já.

Como escreveu o Paulo Candido no Face:

Viado é incurável.
Sapatão é incurável.
E que falar desse bando de heteros? Tudo incurável.
Bissexual então, não tem cura nem de um lado nem de outro.

Sabe o que dá para curar e estava mais que na hora?

Ignorância.

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Salvador do Sul, novamente

Salvador do Sul, novamente

Escrevo com atraso esta pequena crônica de viagem pois saímos de Porto Alegre lá em 10 de agosto (quinta-feira) para ficarmos em Salvador do Sul até o domingo (13). Já conhecíamos a pequena cidade serrana e tínhamos adorado. Chegamos de ônibus por volta das 13h e fomos direto para o Apolo XII, um restaurante lancheria que fica na rua principal de Salvador. Como é bom sair de Porto Alegre e não apenas em razão de nosso prefeito! Em Salvador do Sul, as verduras não têm gosto de isopor. A gente come e repete o alface e a couve-flor, coisa que só se faz na capital se estivermos em severo regime ou se formos masoquistas.

Depois do almoço, ainda com as pequenas malas, subimos de táxi até o hotel Candeeiro da Serra, que já conhecíamos do ano passado. Tentando manter a felicidade de 2016, pedimos exatamente o mesmo quarto.

Bem, a Elena costuma carregar seu violino onde vai, mas desta vez ela parecia um pouco mais fanática do que o habitual. Chegamos ao nosso quarto, ela abriu o estojo do violino e foi tocar na sacada sem dar bola para o sol. Queria estar em forma.

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E seguiu mandando bala com a cidade atrás.

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Depois, saímos para fazer um de nossos passeios preferidos. Fomos até o Colégio Santo Inácio. A parte de trás do Colégio é especialmente bonita e tranquilizadora. Sempre ficamos um tempinho ali, sem querer muito ir embora.

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E caminhamos por uma estrada lateral que leva a um lago e a todo o tipo de subidas e descidas, sempre com bonitas paisagens.

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Lembro bem de nossos temas aquele dia. Estávamos especialmente a fim de falar a respeito do passar do tempo, da velhice e de outros fatos, digamos, inexoráveis. A coisa estava muito filosófica e, é claro, não conseguimos chegar nada que fosse conclusivo. Mas o que interessa é que a paisagem valia a pena.

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O absurdo é que este local da cidade está fechado para caminhadas no fim de semana. Os novos proprietários do Colégio e dos arredores simplesmente colocaram guardas que impedem a entrada de gente que só quer passear e olhar um dos locais mais legais que existem em Salvador do Sul. Descobrimos isso no sábado, quando tentamos repetir a caminhada. Os guardas nos avisaram que não poderíamos seguir, o que, desculpem, é de última categoria.

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A Elena estava perfeitamente natural. Só que estava estudando muito mais. A única estranheza real é que ela tinha ficado contrariada quando cheguei uma hora mais cedo para buscá-la na quarta-feira na escola da Ospa. Eu, obviamente, não sabia o que ela estava preparando.

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No dia seguinte, sexta-feira (11), anotei no Facebook:

Meu aniversário é apenas dia 19, mas acho que recebi hoje o melhor presente de aniversário de minha vida. A Elena Romanov fez toda uma preparação secreta. Levou-me até uma pequena igreja aqui de Salvador do Sul (a Igreja Matriz Velha), dizendo que queria estudar violino num espaço que não fosse acusticamente “seco” como nosso quarto de hotel. Pediu que eu levasse um livro para ler, a fim de não me entediar. OK. Lá chegando, após fazer algumas escalas, …

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… me pediu que eu fosse sentar em um lugar determinado e começou a tocar a Chaconne de Bach. No início eu achei “puxa, que bem tocado” para uma brincadeira improvisada, mas a coisa se estendeu de tal forma e com tamanha perfeição e musicalidade que primeiro me emocionei a ponto de ver surgirem algumas lágrimas e depois mais ainda porque me dei conta de que aquilo, talvez, fosse um presente imaterial para mim. Quando fui agradecer, apareceu um sujeito na igreja vazia falando para ela “Eu entrei aqui para fazer umas preces, mas depois disso já considero que tenha feito”.
Obrigado, Elena.
(Imaginem que ela decorou a enorme peça para que eu não pudesse saber de nada antecipadamente, vendo as partituras que ela levava).

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Por sorte, tenho gravadas as três vezes que ela tocou a Chaconne naquela manhã, mas ela me proibiu de mostrá-las. Ah, os músicos… A Chaconne é das mais belas peças que conheço. Foi escrita após Bach saber que sua primeira mulher tinha falecido. Como disse meu amigo Marcos Nunes, a partir dela ele percebeu, ainda adolescente, “que a vida humana é muito mais complexa que todos os adjetivos do mundo, e a palavra angústia, com todo seu amargor, tem algo que expressa a condição humana, mas que a gente só tateia ouvindo a Chaconne”Eu a ouvi pela primeira vez numa viagem ao Rio de Janeiro, logo após ter feito 18 anos. Era um concerto em alguma sala, talvez na Cecília Meirelles recém inaugurada. A primeira sensação foi a de ter sido derrubado, tal a beleza e a angústia da peça. Depois, com o passar dos anos, essa angústia passou a um segundo plano e, para mim, hoje ela é uma peça belíssima e triste, pela qual sou fascinado. A Elena sempre soube disso, é claro.

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Na sexta-feira, seguimos nossa subidas e descidas por Salvador e reencontrei uma conhecida amiga do ano anterior (foto acima). Ela me reconheceu imediatamente. Os cães sabem quem gosta deles. Sempre ou quase.

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Também fomos ao nosso café preferido na cidade, o da Loja Dautys.

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Como fizéramos em 2016, tentamos tirar fotos nossas refletidas nos espelhos da loja, mas este ano não deu tão certo.

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Salvador do Sul permanece para nós como uma espécie de refúgio das agitações da vida profissional e da cidade grande. Um local onde o ar que se respira parece trazer de volta meus pulmões e os avós cruz-altenses, por onde se pode passear cumprimentando alegremente desconhecidos e onde os passeios a pé são os melhores. Mas a cidade tem que manter SEMPRE ABERTOS os caminhos em torno do Colégio Santo Inácio, por favor.

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Agora, se a cidade já estava ligada à Elena, também está ligada ao mais belo presente que já recebi, assim como ao casal que administra o excelente hotel Candeeiro da Serra, Carla Specht e Alex Steffen, que receberam, trataram e nos engordaram extremamente bem em nossas duas visitas. Nossa, quanta coisa boa tem naquele café!

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Finalizando: na foto acima, a Elena prepara mais uma execução da Chaconne, agora no nosso quarto do hotel.

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Bom dia, Guto (com os melhores lances de Inter 3 x 0 Figueirense)

Bom dia, Guto (com os melhores lances de Inter 3 x 0 Figueirense)

O Inter voltou a ocupar a liderança do Campeonato Brasileiro da Série B após vencer o Figueirense por 3 x 0 numa tarde horrivelmente chuvosa no Beira-Rio. (Eu não fui, vi em casa, Guto. Deixo esse gênero de heroísmo para os jovens). Voltamos ao primeiro posto beneficiados pelo empate de sexta entre Ceará e América-MG, o que deixou os mineiros a nosso alcance. Agora o Inter tem 45 pontos com 13 vitórias. O America tem os mesmos 45, mas com 12 vitórias, primeiro critério de desempate. Informamos que o quinto colocado — o primeiro a não subir para a Série A — é o famigerado Juventude, que tem 40 pontos e que perde para o Paraná no segundo critério de desempate, o saldo de gols. Então, estamos a 5 pontos de distância da desgraça. É pouco.

O próximo jogo do Inter é no próximo sábado contra o Náutico, em Caruaru, às 16h30. O time pernambucano, como sempre, está aflito ou, melhor dizendo, já está acomodado horizontalmente em seu velório. Mas vocês sabem: o Inter gosta de tentar recuperar mortos e só falta uma mão cair para fora do caixão em nossa presença.

Faltam 14 rodadas e, com mais 20 pontos, estaremos livres da maior vergonha de nossa história. Jamais devemos esquecer os responsáveis por nossa queda no ano passado. Citamos novamente e nominalmente os caras, para que todos possam decorar: Fernando Carvalho, Vitório Piffero, Carlos Pellegrini, Argel Fucks, Celso Roth e alguns outros. Mas vamos ao jogo de ontem.

Sasha ensaia um pas de deux no meio da chuva. Bonitinho, não?
Sasha ensaia um pas de deux no meio da chuva. Bonitinho, não? | Foto: Ricardo Duarte

Não foi uma partida brilhante do Inter. Fomos apenas razoáveis. O jogo iniciou e de cara fizemos o primeiro gol. Uendel cruzou e Pottker entrou de carrinho para fazer 1 x 0. Claudio Winck quase marcou o segundo aos 11 min, mas o Figueirense teve uma chance claríssima de gol com Henan aos 21. Danilo Fernandes fez uma defesa milagrosa. Este primeiro tempo teve um Inter acomodado em campo. A chuva estava fria, deveriam correr mais para compensar, mas Edenílson fazia péssima partida, D`Alessandro pensava numa cama quente ausente, e Pottker sumiu após seu gol e do fiasco de querer passar e passar a bola para Damião quando ele mesmo deveria ter feito o segundo. Por falar nele, Damião era o único que estava realmente com tesão.

O segundo tempo parecia ser um bom momento para Juan, mas o que estou dizendo… Desculpe, Guto, sei que jamais é um bom momento para o menino.

Voltamos para o segundo tempo com um pouco mais de entusiasmo e não demorou para o segundo gol sair. Aos 7 min, D’Alessandro cobrou escanteio e Leandro mergulhou — era o dia perfeito para isso — entre os zagueiros para cabecear. Era o 93º gol seu com a camisa colorada, o quarto neste ano.

O último gol só saiu aos 37 min do segundo tempo quando Uendel fez grande jogada, invadindo a área a dribles e servindo Nico López para marcar o terceiro gol. Foi o 14º do atacante uruguaio, que isolou-se na artilharia da temporada.

Foi uma partida pobre contra um adversário que está louquinho pra cair. Resumindo, nosso primeiro tempo foi triste, com uma pequena melhora no segundo. Mesmo assim, o Figueirense pouco incomodou.

D’Alessandro está suspenso novamente pela sequência de cartões. Sim, Recife é longe, Dale. Depois, tem um ônibus até Caruaru. Um saco, né? Este é o nono (9º) cartão do gringo na Série B. O homem é uma usina amarela de reclamações. Não poderíamos ter Gutiérrez no lugar de Dale e Nico no lugar de Pottker, Guto? Porque Sasha já senti que é aquele cara amado pelo treinador, o que o torna imexível.

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Leituras no Estomago Café

Leituras no Estomago Café

Descobrimos há poucos dias o Estômago Café ali na subida da Miguel Tostes. O local é ótimo, a comida e os petiscos veganos são sensacionais, mas tem mais. Sobre as mesas estão os livros de um grande leitor. No caso de uma grande leitora, a proprietária Júlia Fraguas. Não são livros de literatura comum, mas excelentes livros que foram lidos e anotados. Os livros anotados são coisas vivas, digo eu, um contumaz riscador e sublinhador deles, além de dialogador com autores ausentes, muitas vezes mortos.

Como sabemos, todo apaixonado por livros gosta de que falem bem de literatura, de que lhe elogiem os hábitos e a estranha forma de vida que o faz carregar livros para perto de si, como se fossem objetos transicionais. (Sabe aquele paninho, bichinho de pelúcia ou qualquer objeto que sirva de apoio emocional para a criança na infância? Pois é, o nome daquilo é objeto transicional e é fundamental porque tem a função simbólica de produzir conforto, segurança e sensação prazerosa). O que está escrito entre os parênteses acima parece a definição de livro para algumas pessoas…

Pois bem, estava aguardando uma pessoa lá no Estômago e comecei a fotografar alguns trechos presumivelmente sublinhados pela Júlia. O resultado está aí embaixo.

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