A Louca da Casa, de Rosa Montero

A Louca da Casa, de Rosa Montero

Eu não sei como este livro veio parar em minhas mãos. Trata-se de uma edição de 2005 da Ediouro e nunca o vi na Bamboletras e nem o comprei. Não lembro se alguém me deu de presente, mas agradeço muitíssimo a quem o tenha feito, pois é excelente.

A louca da casa é uma homenagem à literatura. O título do livro é extraído de Santa Teresa de Jesus, que chamou a imaginação de “a louca da casa”. E é disso que trata o romance-ensaio: de imaginação, de literatura, de processos, de invenção, de criação, do acaso. Montero aproveita todas estas e outras questões do fazer literário para refletir sobre elas e escrever capítulos cheios de referências e citações de outros autores, além de momentos autobiográficos que nem sempre precisam ser verdadeiros, pois como a própria autora aponta no post scriptum, “ toda autobiografia é ficcional e toda ficção autobiográfica, como dizia Barthes”. Por exemplo, há um caso pessoal a que é contado três vezes, mas cujo final é sempre diferente, para alegria do leitor mais, digamos, experimental, meu caso.

O livro está repleto de referências pessoais, muitas quem sabe fictícias, como o romance com o famoso ator ou a existência da irmã Martina. Seu gênero? Bem, é um romance, um ensaio, uma autobiografia. É a obra mais pessoal de Rosa Montero, uma viagem pelos meandros da fantasia, da criação artística e das memórias mais secretas.

A autora revela seu íntimo e sua relação com a escrita num jogo narrativo em que a literatura e vida pessoal se misturam em um coquetel com biografias de outras pessoas e autobiografia ficcional. Descobrimos que o grande Goethe lisonjeava os poderosos a extremos ridículos, que Tolstói era um louco, que Mark Twain talvez tenha morrido na infância — sim, verdade! –, que Montero teve um caso bizarro e hilário com um ator famoso. Mas não devemos confiar em tudo que a autora conta sobre si mesma: as memórias nem sempre são o que parecem.

É um livro delicioso sobre fantasia e sonhos, sobre os medos e dúvidas dos escritores, mas também dos leitores, mas é, antes de tudo, a quentíssima história de amor e salvação que existe entre os escritores e suas possibilidades. Ao final, como disse um resenhista espanhol, dá vontade de pagar Rosa pelo braço e dizer: “Menina, mas que histórias você acabou de me contar!”.

Este livro recebeu o prêmio Qué Leer 2004 para o melhor livro do ano, o Grinzane Cavour 2005 e o Roman Primeur 2006.

“Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo considera que está falando das mulheres; mas se um homem escreve um romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do gênero humano”.

Rosa Montero, ao afirmar que nunca teve intenção de escrever sobre mulheres

Rosa Montero

Nós, Mulheres, de Rosa Montero

Nós, Mulheres, de Rosa Montero

Este é um livro que traça perfis de mulheres. É uma compilação de todas as pequenas biografias — de mais ou menos dez páginas cada — que Rosa Montero publicou no suplemento dominical do El País. Como diz a autora:

Sempre tive grande simpatia por biografias, autobiografias, coleções epistolares e diários, sobretudo de personagens (tanto masculinos como femininos) do mundo das letras. Dessa an­tiga paixão nasceu a série de artigos reunidos neste livro: de­zesseis retratos de mulheres originalmente publicados no EL PAÍS Semanal. Quase todos aparecem aqui em versão am­pliada, livres que estão da estreita ditadura do espaço.

Não se trata, obviamente, de um trabalho acadêmico, nem mesmo de um trabalho jornalístico no sentido mais tradicio­nal da palavra. Não há, portanto, nenhuma intenção de cobrir campos, sejam eles geográficos, temporais ou profissionais: ou seja, não selecionei as biografadas para que representem a situação da mulher nas diversas etapas da história, nem para que haja um elenco adequado de culturas e países, e nem por serem as mais famosas. Para falar a verdade, mais do que eu as ter escolhido, foram elas que me escolheram: vou falar da­quelas mulheres que, em algum momento, falaram comigo. Aquelas cuja biografia ou diários me impactaram por algum motivo em especial, que me fizeram refletir, viver, sentir. Por­tanto, mais que uma visão horizontal e ordenadora, própria do jornalismo e do trabalho acadêmico, meu intento foi uma visão vertical e desordenada, própria daquela espécie de olhar tão especial com que às vezes (numa noite antes de dormir, num entardecer enquanto dirigimos de volta para casa) pen­samos vislumbrar, por um instante, a substância mesma do viver, o coração do caos.

E por que apenas mulheres? Justamente por essa sensação, que já mencionei, de abrir as águas quietas e extrair lá de baixo um monte de surpreendentes criaturas abissais. Além disso, ao ler biografias e diários de mulheres descobrimos perspec­tivas sociais inimagináveis, como se a vida real, a vida de cada dia, composta de homens e mulheres de carne e osso, tivesse seguido outros roteiros que não os da vida oficial, coligida com todos os preconceitos nos anais. Vejamos, por exemplo, o tema do amor da mulher mais velha por um homem jovem; dir-se-ia que essa relação, durante muito tempo considerada um fato extravagante e escandaloso, foi até agora (e em boa medida parece ser ainda hoje) uma completa exceção à norma­lidade. No entanto, nada como começar a mergulhar na vida das antepassadas para descobrir uma profusão espantosa de situações similares.

Bem, voltei. Voltei para dizer que achei que poderia ler o livro aos poucos, abordando uma retratada de cada vez e interrompendo a leitura. Mas aconteceu o exato contrário, eu comi Nós, Mulheres de cabo a rabo, rapidamente. Ou seja, Rosa Montero tem uma prosa absolutamente envolvente e eu me obrigava a passar de um texto a outro direto.

A seleção é dominada por artistas e mulheres de letras — George Sand, Simone de Beauvoir, Agatha Christie, Mary Wollstonecraft, Camille Claudel, Frida Kahlo. Das cientistas, a única que pertence ao campo das humanas é a antropóloga Margaret Mead. Há também algumas mulheres guerreiras (de armas e de comando de exércitos) e, sobretudo, aquelas que se dedicam à área de exatas, talvez as mais esquecidas em publicações normais, até porque se moveram em um ambiente tradicionalmente hostil para as mulheres.

Montero esclarece, ao referir-se aos seus critérios de seleção, que não está a tentar fazer uma hagiografia, que não está a tentar apresentar exemplos de “vidas virtuosas”. O despotismo e a crueldade de Irene de Constantinopla, a possessividade maternal doentia de Aurora Rodríguez, culminando no assassinato de sua filha, ou o pernicioso delírio messiânico da poetisa Laura Riding estão longe do que poderíamos considerar laudatório. Montero diz: “Eu sempre disse que teremos alcançado uma verdadeira igualdade social quando pudermos ser tão estúpidos, ineficazes e maus como alguns homens, sem sermos especificamente escolhidos para isso”.

Em qualquer caso, não se pode negar que é um livro informativo, muito bem escrito e planejado e que fornece dados interessantes e pouco conhecidos. Eu curti muito e RECOMENDO.