Os Supridores, de José Falero

O primeiro livro de José Falero esteve várias vezes na minha mochila para ser lido, mas sempre aparecia um cliente na Bamboletras pedindo Vila Sapo e lamentando-se de que não tinha mais… Então, eu abria a mochila e entregava o meu. Um dia, me disseram que tinha simplesmente acabado. Fim. Acabou. E eu fiquei sem conhecer Falero.

Agora, quando chegou este volume da Todavia, eu decidi que o primeiro era meu. Botei meu nome no exemplar e comecei imediatamente a lê-lo. Não me arrependi.

Falero é um tremendo narrador, um contador de histórias de primeira linha, alguém que muda da linguagem culta para a língua falada na periferia com total naturalidade. Sabe criar clima e tensão. O ritmo do livro é veloz, os diálogos são ótimos, o encadeamento entre cenas engraçadas e dramáticas é vertiginoso, fazendo com que tenhamos dificuldades em largar o livro sem ler o próximo capítulo.

Pedro e Marques trabalham como supridores num supermercado. Supridores são aqueles caras que tratam de não deixar as gôndolas vazias, repondo silenciosamente os produtos. Pedro é muito inteligente e dá explicações absolutamente incríveis — em seus termos — e lógicas para o que acontece com eles. Por que eles são uns fodidos? Quais direitos têm ou deveriam ter? Quem é dono do quê? Ele tem uma visão muito clara e marxista de sua condição e sabe explicá-la a seu modo, cheio de analogias e contextualizações originais. Sabe que trabalhar como supridor é algo sem a menor perspectiva. Explica isso a Marques, propondo um plano para virar o jogo trabalhando como traficantes num nicho pouco explorado pelos donos do tráfico. E a coisa funciona.

Falero evita os clichês, percorrendo caminhos pouco óbvios. Tudo indicava que seria uma história de ascensão e queda financeira. Errei. Não é apenas isso: há importantes informações de cunho sociológico sobre a desconhecida vida nas vilas de Porto Alegre e humor, bastante humor. O humor catalisa a ação, dando força, velocidade e interesse às cenas. Os Supridores não é apenas um romance sobre jovens pobres e espertos atrás de grana como um livro engraçadíssimo. O capítulo 17, O mais bem-guardado dos segredos, é um exemplo disso. Nele, o humor e um fato trágico para o esquema entrelaçam-se perfeitamente, comprovando que Falero é um narrador que sabe que os contrastes são fundamentais.

Claro que o momento final é triste, mas o percurso até a tragédia é o que mais interessa.

Gostei muito de Os Supridores, um livro trepidante e de boa história, narrado por uma voz original e muito brasileira. Para finalizar, tenho que sublinhar a boa observação da editora Todavia que pegou um excelente autor logo em seu segundo pulo.

Recomendo!

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