(…) Nunca saberemos quantos dos livros que hoje vou autografar serão efectivamente lidos além da página em que fica a dedicatória. Alguém chegará ao fim desses livros? A literatura sofreu uma transformação enorme.
Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard ou Fernando Pessoa a literatura percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso.
No início isso surpreendia-me. Depois percebi a razão: esses livros podem ser lidos sem grande esforço e praticamente sem bagagem cultural. A literatura mais exigente requer prática de leitura e formação cultural. Hoje a formação mudou profundamente. O conhecimento dos clássicos e das humanidades perdeu espaço. No seu lugar surgiu outra aptidão: conseguir obter depressa a maior quantidade possível de informação sobre qualquer assunto. As questões de que a literatura sempre tratou passaram para segundo plano.
É com enorme tristeza que digo que pertenço à geração dos escritores que se está a despedir de uma determinada ideia de literatura, da sua forma de criação, da sua influência na sociedade e do percurso em que um livro saía das mãos do escritor, chegava ao leitor e acabava por exercer algum efeito duradouro sobre a vida humana. Creio que esse ciclo chegou ao fim. (…)
László Krasznahorkai em entrevista a Isabel Lucas, no Ípsilon (publico.pt)