Flanar III: Roteiro para a moderação de grupos de leitura: A Promessa, de Damon Galgut

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O PGO V foi sobre “Passeio ao Farol”, de Virginia Woolf. Mas perdi o arquivo…

A Promessa, de Damon Galgut é um livro sobre uma família, mas também sobre a África do Sul, sobre uma promessa nunca cumprida, mas também sobre a dificuldade humana de agir moralmente. O romance evita julgamentos explícitos e confia na inteligência do leitor.

Abertura

“Quando vocês fecharam o livro, qual foi a sensação predominante? Gostaram do livro ou não?”

  • melancolia
  • frustração
  • admiração
  • tristeza
  • beleza
  • indignação

Essa diversidade já vai mostrar a riqueza do romance.

A promessa

Aparentemente o livro gira em torno de uma promessa simples. Rachel, antes de morrer, pede que Salome receba a casa onde vive.

“O título do livro é ‘A Promessa’. Qual é, literalmente, a promessa que dá nome ao romance? E, para além disso, que outras promessas — do país, da história, dos personagens — estão em jogo?”

 Há aqui uma camada histórica importante. O romance começa em 1986, pouco antes do fim do apartheid, e termina já no governo de Jacob Zuma. As promessas da nova África do Sul — a reconciliação, a redistribuição de terras, a justiça — também ficam por cumprir . Pergunta ao grupo: “A promessa da casa à Salomé e a promessa da nova África do Sul são a mesma coisa?”

“O narrador diz-nos, num certo momento, que não ouvimos muito sobre Salomé ‘porque não nos importamos em perguntar’. Como é que este gesto narrativo — o autor a apontar o dedo ao leitor — te afetou? Foi uma acusação?”

“No final do livro, Amor finalmente dá a Salomé a escritura da casa. Mas Salomé já é muito velha. Esta resolução chega tarde demais? É uma reparação genuína ou apenas um gesto simbólico?” 

 Mas… A promessa realmente é o centro do romance?

Ou ela funciona como símbolo?

Questões:

  • O que exatamente impede que a promessa seja cumprida?
  • Falta de dinheiro?
  • Burocracia?
  • Racismo?
  • Covardia?
  • Autoengano?

Talvez todos.

A família Swart

Vale discutir cada integrante.

– Manie

É realmente religioso ou usa a religião para aliviar sua consciência? O patriarca que promete e não cumpre. Como descreveriam a sua relação com a promessa? É má-fé ou simples esquecimento?

– Anton

Talvez o personagem mais frustrado do livro. o filho, outrora cheio de promessas, que se torna um homem deprimido e amargo. Acaba por se suicidar. Como é que a desilusão com a promessa da família se reflete nele?

  • Ele possui consciência moral?
  • Ou apenas consciência da própria mediocridade?

Como interpretar o assassinato que cometeu?

– Astrid

É a personagem mais adaptada ao novo mundo ou a mais superficial? a filha mais velha, obcecada com status e aparências. Morre num assalto. O que a sua morte nos diz sobre a violência na África do Sul pós-apartheid?

A indiferença (Manie), a superficialidade (Astrid)e a autodestruição (Anton).

– Amor

O próprio nome já sugere uma leitura simbólica.

Pergunta interessante:

Por que justamente Amor demora tanto para cumprir aquilo que considera certo?

Ela é uma heroína?

Ou apenas alguém menos hipócrita que os outros?

– Salome

Curiosamente, é uma personagem central que quase não fala.

Perguntas:

Por que Galgut escolhe esse silêncio? Por ela ser uma representação?

Ela simboliza toda uma população invisibilizada?

Vale notar que ela permanece presente enquanto quase todos os demais desaparecem.

A África do Sul

É impossível separar o romance da história sul-africana.

Sem transformar a conversa numa aula de História, vale lembrar rapidamente:

  • apartheid
  • fim do apartheid
  • eleição de Mandela
  • mudanças sociais
  • permanências

Pergunta importante:

A família muda tanto quanto o país?

Ou ambos mudam apenas na aparência?

A estrutura do romance

Talvez seja o aspecto mais inovador. O narrador faz algo incomum. Ele muda constantemente de foco. Entra na mente de personagens secundários. Às vezes conversa diretamente com o leitor.

“O romance está dividido em quatro partes, cada uma dedicada a um funeral — Mãe, Pai, Astrid e, finalmente, Anton. Apenas Amor sobrevive. O que é que esta estrutura de ‘quatro mortes em quatro décadas’ sugere? Porque é que Galgut terá escolhido organizar o livro assim?”

“O narrador — ou a voz narrativa — deste livro é muito peculiar. Galgut usa aquilo a que alguns chamaram ‘uma câmara de cinema’, com perspectivas que se alternam e se sobrepõem, por vezes no meio de uma frase. O narrador dirige-se ao leitor, faz apartes, comenta. O que acharam desta escolha? Funciona? Ou atrapalha?” Ele critica personagens, tira sarro deles. 

Pergunte:

Isso aproximou vocês do romance? Vocês aceitaram a cumplicidade?

Ou dificultou a leitura?

Outra pergunta:

O narrador parece improvisar enquanto conta a história?

  1. O tempo

O romance é dividido por quatro funerais.

Interessante perguntar:

Por que Galgut escolhe mortes como pontos de organização? Aprendemos mais sobre uma família durante um funeral?

Existe alguma cena de felicidade duradoura?

  1. Humor

Embora seja um livro triste, há muito humor. Um humor às vezes cruel.

Pergunte:

Vocês riram? Em quais momentos? Por que rir em um romance tão melancólico?

  1. O título

“A Promessa”. No singular.

Qual promessa?

A da mãe? A da nova África do Sul? A promessa de justiça? A promessa que fazemos a nós mesmos? Todas?

  1. O final

Experimente:

O cumprimento da promessa representa uma vitória ou chega tarde demais? É possível reparar décadas de injustiça com um único gesto?

O romance termina oferecendo esperança? Ou apenas resignação?

Algumas perguntas que costumam render boa conversa

  • Existe algum personagem verdadeiramente bom?
  • Quem desperta mais compaixão?
  • Quem desperta mais irritação?
  • O livro é político ou profundamente humano ou as duas coisas?
  • Vocês enxergam Amor como protagonista ou apenas como fio condutor?
  • O silêncio de Salome é uma escolha literária ou uma denúncia?
  • O que mais permanece na memória: os acontecimentos ou a forma como Galgut escreve?
  1. Encerramento

“No início parece que lemos a história de uma promessa não cumprida. Ao terminar, talvez percebamos que lemos algo maior: um romance sobre tudo aquilo que uma sociedade adia enfrentar — até que o tempo torna qualquer reparação insuficiente.”

“Se vocês tivessem que resumir A Promessa em uma única palavra, qual seria?”

As respostas normalmente convergem para termos como culpa, espera, memória, justiça, tempo, herança ou silêncio.

“Depois de tudo o que falamos, acham que a promessa foi cumprida, no final? E se foi cumprida, que significado tem esse cumprimento — tardio, simbólico e talvez insuficiente?”

“O livro termina com Amor a encontrar, entre os pertences de Anton, um romance inacabado com a nota: ‘Uma saga familiar ou um romance familiar?’ . O que acham que esta pergunta diz sobre o próprio livro que acabámos de ler?”

Na minha opinião, a força de A Promessa não está apenas na história da família Swart, mas na maneira como Galgut transforma um drama íntimo em uma reflexão sobre responsabilidade moral, privilégio, passagem do tempo e a dificuldade — individual e coletiva — de fazer o que sabemos ser justo.

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