Sonho com Caju

Sonho com Caju

Por alguma razão, eu queria ir ao Bairro, um local úmido na Zona Sul de Porto Alegre, que era habitado em sua esmagadora maioria por reacionários. Pedi um Uber e o cara me disse que me levaria até a entrada do Bairro, mas que jamais entraria naquele antro bolsonarista. Concordei.

Chegando no limite determinado pelo motorista, desci do carro e penetrei no Bairro. Era tudo sombrio, escuro mesmo, logo veio um ônibus. Entrei e perguntei ao motorista onde ele ia. Ele me respondeu que todos os ônibus do Bairro eram circulares, que nenhum me levaria para outro lugar que não o próprio Bairro.

— Dou voltas o dia inteiro. Trabalho 24/7. Não tenho folga. Só paro quando morrer.
— E se tu bater com o ônibus?
— Se bater, não sei o que acontece.
— OK — respondi.

Então o ônibus começou a andar pelo Bairro. Era lindo. A arquitetura era gótica, com edifícios enormes. O ônibus entrava nos corredores dos edifícios, belíssimos e úmidos, com água vertendo das paredes cravejadas de pingos. Tudo era grande, imenso e lindo, apesar de lembrar filmes de terror. Tinha muitas esculturas ameaçadoras. Vi alguns monstros de Goya transformados em pedra.

Desci do ônibus, pois avistei um local iluminado. Só podia ser um bar. Era e a placa da porta anunciava em giz branco:

HOJE, ÀS 23h,
SHOW COM O POWER TRIO
“LIBERTÉ, ÉGALITÉ & VAI SE FUDÊ”

Gostei da coisa e entrei. Pouca gente. Pedi uma garrafa inteira de cachaça Weber Haus amburana e esperei pelo show. O trio, somadas as idades, tinha mais de 210 anos. Liberté era baixista e vocalista, Égalité, guitarrista, e Vai se fudê era o baterista. Liberté era até razoável, Égalité era uma merda; quem salvava o grupo era o excepcional Vai se fudê. Parecia o baterista do Angine de Poitrine. Um sujeito exato, se me compreendem. No conjunto, eram bem ruins.

No intervalo do espetáculo, vieram sentar-se comigo. Liberté só queria saber da minha cachaça, Vai se fudê estava quieto e Égalité não parava de falar. De repente, Égalité disse que Vai se fudê estava muito deprimido porque queria que um amigo especial viesse a seu casamento que seria dali um mês.

— O amigo negou-se a vir?
— Não, nem foi convidado.
— E quem é ele?

Égalité me disse que era Paulo Cézar Caju. Fiquei surpreso e perguntei porque Vai não tentava contato. É que Vai queria que uma pessoa culta fizesse o convite, não um borra-bostas como nós. E Égalité me propôs ligar para Caju, pois achou que eu era suficientemente fino para tanto. Fiquei envaidecido. Com a falicidade dos sonhos, peguei o celular e liguei para Caju, que hoje mora na França.

— Caju? Ça va? Tudo bem? Teu amigo Vai se fudê quer a tua presença em seu casamento.
— Pelo Rio Grande do Sul, por essa escumalha, eu não movo uma palha. Mas pelo meu amigo Vai, vou, sim.
— Por que detestas tanto nosso estado?
— Porque tudo aí é falso.
— Mas tu não foste Campeão do Mundo pelo Grêmio?

Ouvi uma risadinha de escárnio da voz grave de Caju.

— Falso Campeão do Mundo — ganhamos um torneio ridículo patrocinado pela Toyota. Falso Grêmio — contrataram eu e o Mário Sérgio só para jogar aquele jogo. Aquilo não era o Grêmio. E jamais me valorizaram, valorizaram só o Mário Sérgio. Ele era branco, claro.
— Tá, mas tu vens pro casamento?
— Vou.

Todos na mesa se animaram. Falamos de música. Égalité confessou que ele, como músico, não existia, que era como a Égalité mesmo!

Corta.

Caju está na minha casa se arrumando para ir ao Bairro. Ele e sua mulher, uma deslumbrante senegalesa, estão se aprontando. São padrinhos de Vai. Caju sai do quarto com um terno cor-de-rosa. Vou causar no Bairro, ele me diz. Pegamos o Uber. Quando chegamos ao bar — o casamento seria lá –, o rosto de Vai se fudê iluminou-se ao ver Caju e sua senagalesa. Eu e Elena entramos atrás. Vai se fudê chorava dizendo meu amigo, meu amigo… A mulher de Vai, uma velhinha magrinha de olhos azuis, tinha lágrimas até no queixo.

E então eu acordei. Estava realmente comovido. Elena, a meu lado, toda coberta, aquecia sua bochecha direita no travesseiro. Mal ela sabia que também chorara ao ver o reencontro dos amigos.

Rivelino e Caju em 1972

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Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar, de Pär Lagerkvist

Encontro com o Mar (1962) é mais uma obra breve e profunda de Pär Lagerkvist. Novamente, a religião está presente, como em tantos livros deste ateu. Este livro é a continuação de A Morte de Ahasverus. E é uma continuação pra lá de estranha. Estamos no tempo das Cruzadas — Tobias consegue um meio de ir para a Terra Santa. Paga o comandante de um barco pirata para levá-lo. No meio do caminho, após uma luta, temos um longo monólogo de um dos integrantes da tripulação. O livro termina após este monólogo. Lagerkvist não está nem aí para questões de simetria ou para fechar os parênteses que abriu. O livro existe para mostrar o motivo pelo qual um padre abandonou a batina: a luxúria. Tudo diante de uma enorme mar enigmático, mais velho que todos nós.

No navio estão o Capitão — homem minúsculo de voz frágil que governa a todos com mão de ferro –, o Gigante — especialista em pilhagens e ataques brutais –, Ferrante — movido por insaciável desejo de riquezas e pela pura maldade –, e Giusto — o pusilânime. Mas é com Giovanni que Tobias estabelece o vínculo mais profundo. Como o ex-padre acabou naquele antro de marginais? Criado pela mãe viúva para tornar-se sacerdote, vivendo na mais estrita observância dos dogmas, Giovanni sucumbe ao desejo sexual quando ouve a confissão de uma mulher casada atormentada por uma paixão adúltera. A voz e o hálito da mulher… O confessor, enredado pela voz, transforma-se em amante.

A escrita é característica do autor: austera, precisa, despojada. Cada frase parece medida para dizer apenas o essencial, e justamente por isso ganha densidade. Não há excesso emocional, mas uma contenção que intensifica o efeito. O leitor é tão convidado a acompanhar a história, quanto a habitar um estado de espírito. Como em outras obras de Lagerkvist, a busca pela fé é a busca pelo sentido. Não há como ir adiante. O mar, nesse contexto, pode ser lido tanto como ausência de Deus quanto como sua manifestação mais enigmática.

Para leitores que apreciam a ficção escandinava de inquirição filosófica — algo na linhagem de Ingmar Bergman –, Encontro com o mar é uma joia breve, densa e inesquecível. Não se trata de um romance de ação, mas de um longo e sereno confronto com as perguntas que não se calam: o que separa um padre de um pirata? A fé resiste ao desejo? E, acima de tudo, há paz possível?

Pär Lagerkvist

 

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O Inter, o Jornalismo e Nós, de Fabrício Falkowski

O Inter, o Jornalismo e Nós, de Fabrício Falkowski

Fabrício Falkowski é uma figura rara no jornalismo. Num mercado onde os profissionais estão sempre pulando de uma empresa para outra — seja por opção, seja pelos frequentes passaralhos (demissões) — Fabrício está há 27 anos no Correio do Povo, sempre cumprindo a função de setorista do SC Internacional. Ele começou lá em 1999 e permanece no posto até hoje. Neste livro cheio de detalhes deliciosos, ele conta os últimos 25 anos do Inter, de 2000 a 2024. Fabrício não é um repórter chapa branca. Pelo contrário, foi o cara que trouxe à tona a roubalheira que culminou na responsabilização e condenação do ex-presidente Vitorio Piffero e de seu factotum Pedro Affatato por desvio de valores para benefício próprio, entre 2015 e 2016 –, ano em que o Inter caiu para a segunda divisão pela primeira e única vez em sua história.

Um dos pontos mais interessantes do livro é o foco: Fabrício narra o dia a dia, mas também se volta para o processo jornalístico. Como se constrói uma notícia? Onde termina a informação e começa a opinião? E há o “Nós” do título — ou seja, o livro inclui tanto o autor como o torcedor que consome e se consome no clube e reage às informações. Pois é importante ter um olho na rede de expectativas, paixões e distorções.

O livro tem 412 páginas com fotos e muitos detalhes pouco conhecidos dos bastidores do clube. O texto é fluido, grudento, fácil de ler. Há pra todos os gostos. Há tragédia para quem é de tragédia, há a narrativa dos grandes feitos para quem quiser rememorar aqueles dias. Há também os períodos de pasmaceira. Fabrício viajava muito com o clube. Foi ao Mundial Fifa de 2006, por exemplo. A desgraça de 2016 está muito bem contada, assim como os bastidores dos já citados roubos de dirigentes. Apesar de ser escrito em primeira pessoa, cabem tanto observações pessoais do repórter como da evolução do jornalismo. Não se trata de jornalismo gonzo — ou seja, o repórter não é o protagonista, só se torna parte da história quando uma notícia sua muda os rumos do clube. 

Interessou-me muito a evolução ou involução do jornalismo esportivo. Fabrício fala no empobrecimento do jornalismo esportivo. É verdade. Antes, as entrevistas era frequentes e sabíamos mais dos profissionais. Os repórteres viam os treinos. Hoje, os treinos são fechados — precisa ser sempre assim? –, só os chatíssimos técnicos dão entrevistas e muitas vezes nem se conhece a voz dos jogadores que se ama ou detesta. É uma perda não sabermos quem é burro, quem é inteligente. Existem câmeras mostrando cada detalhe dos lances, mas não se sabe bem quem é o jogador, se ele é articulado ou se é um Jardel. Tudo ficou muito distante. Recentemente, Fabrício passou a perambular por assuntos também importantes — como o efeito da liberação das bets.

O Inter, o Jornalismo e Nós não oferece respostas fechadas, nem busca absolver ou condenar. Para mim, foi como ler um detalhado balanço de um tempo em que aconteceu literalmente de tudo. Um balanço que, de certa forma, é também a minha história como fanático do futebol.

Recomento fortemente aos colorados! Ah, o livro está quase de graça na Bamboletras: R$ 49,90.

Fabricio Falkowski

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25 de abril

25 de abril

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Nada destoou

Ontem, foi uma noite especial na Ospa. O Augusto Maurer voltou a tocar com a orquestra. No intervalo, uma mulher na plateia chamou a Elena para dizer que ela era muito elegante. Não foi a primeira vez, a Elena é da nobreza até de camiseta surrada em casa. O Brahms também esteve muito bem, apesar de não ter comparecido pessoalmente. Mas o fato curioso é que, no palco, estavam Elena e seu ex. E, na plateia, de forma dispersa, estavam eu e minhas duas ex. Parecia festival de repertório antigo. Cada um manteve seu lugar — o que, convenhamos, já é uma forma de harmonia.

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Das cagadas da vida

Às vezes eu fico muito triste pensando em todas as cagadas que fiz na vida. Só começo a melhorar quando lembro que não fui eu quem vendeu o John e o Carlos Miguel pra ficar com o Rochet e o Anthony.

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A Morte de Ahasverus, de Pär Lagerkvist

A Morte de Ahasverus, de Pär Lagerkvist

Gosto demais dos artistas escandinavos. Bergman, Vinterberg, Strindberg, Ibsen, Sibelius, Berwald, Hamsun, Blixen, Knausgård — todos ótimos. Para completar, amo o frio, me sinto muito bem com ele. Meu termostato corporal parece ter sido regulado na Finlândia que não conheço. Então, vamos a mais um livro do sueco Largerkvist.

A Morte de Ahasverus (li na edição de 1964 ao lado, mas o livro foi relançado em 2023 e pode ser encontrado) é uma novelinha bem curta. Se passa na época das Cruzadas, com aquele monte de gente indo estupidamente à Terra Santa. Contrariamente a O Sétimo Selo, de Bergman, aqui as pessoas estão indo e não voltando da jornada. Assim como Bergman era um ateu nascido em uma família altamente religiosa, Lagerkvist descreve-se como “ateu religioso” ou um “crente sem fé”. Sim, só fazem ateus assim na Escadinávia. O livro move-se entre a parábola e a meditação metafísica. Inserido no ciclo de romances que orbitam o universo religioso (como Barrabás e Encontro com o Mar), o texto retoma a figura lendária do judeu errante, Ahasverus, condenado à imortalidade por ter rejeitado Cristo. Mas Lagerkvist não se interessa pela lenda em si: ele a transforma num instrumento para pensar o paradoxo fundamental da existência humana — querer viver sem fim e, ainda assim, desejar a morte.

A narrativa tem algo de arcaico. Começa numa estalagem medieval, onde diferentes personagens — peregrinos, marginalizados, figuras errantes — se cruzam. Nesse cenário quase teatral, Ahasverus surge menos como protagonista tradicional e mais como um coadjuvante que ouve histórias de desejos e destinos. Ao seu redor, personagens como Tobias e Diana (velhos amantes) parecem responder a um chamado silencioso. Não sabem porque estão indo para a Terra Santa, mas estão indo.

Ahasverus, condenado a vagar eternamente, encarna uma ideia: a de que viver sem fim não é uma bênção, mas uma condenação. A morte, em seu contexto, deixa de ser ameaça e passa a ser desejada — é quase como uma libertação. O título já anuncia o paradoxo: a morte daquele que não pode morrer. Lagerkvist mantém o estilo que o caracteriza: linguagem despojada, austera, mas carregada de simbolismo. Não há explicações psicológicas nem desenvolvimento tradicional de personagens. Em vez disso, o livro avança em encontros, monólogos, diálogos e situações que mostram muitas dúvidas sobre a jornada.

Essa economia intensifica o caráter filosófico da obra: cada cena funciona como uma variação sobre os mesmos temas — sofrimento, fé, destino — criando uma atmosfera quase religiosa. Todas as falas dos personagens que não acreditam em deus citam-no em minúsculas. Só Ahasverus usa Deus. Isto — o fato dos descrentes falarem deus — é explicado em nota. A crença aparece como um enigma. Como em outras obras de Lagerkvist, o leitor fica perplexo diante do mistério. E talvez seja essa a sua verdadeira força — a de transformar uma antiga lenda em uma meditação moderna sobre a condição humana, onde viver e morrer deixam de ser opostos claros e passam a habitar a mesma zona.

Pär Lagerkvist (1891-1974)

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O Anão, de Pär Lagerkvist

O Anão, de Pär Lagerkvist

Já ouvi várias pessoas me dizendo que iam roubar minha edição de O Anão. O livro foi publicado pela Civilização Brasileira em 1970, época em que a editora era sinônimo de bom livro e de resistência à ditadura. Mas O Anão nunca foi republicado e virou raridade. Houve tempo em que o livro estava custando R$ 1000 na Estante Virtual. Hoje, sua cotação está bem mais baixa, o que não se reflete em sua qualidade. Li as 150 páginas de meu cobiçado volume em voz alta para minha mulher — um hábito nosso — e podem crer que o livro não perdeu nada após tantos anos.

Pär Lagerkvist é um dos tantos Nobéis de Literatura escandinavos. Todos são suspeitos, como o medíocre Jon Fosse. Só que eu garanto: li alguns de seus livros e o cara é muitíssimo bom, genial mesmo. O Anão é um romance curto, mas de uma força perturbadora que poucos livros alcançam. É escrito em primeira pessoa pelo próprio — um anão que vive numa corte renascentista italiana. Mais do que observar, ele encarna o ódio, o desprezo e uma visão radicalmente negativa da humanidade. A escolha desse narrador é decisiva: Lagerkvist não descreve o mal de fora, mas o faz falar. E essa voz é tanto mais inquietante quanto mais lúcida e coerente se apresenta.

Desde as primeiras páginas, percebe-se que o anão não é apenas um personagem, mas uma espécie de catalisador, afinal, ele provoca acontecimentos com suas ações. Ele não faz momices, é sério, pretende-se um conselheiro e aspira a ter a grandeza de seu príncipe. Além disso, despreza o amor, a arte, a religião e qualquer forma de compaixão, vendo nelas meras fraquezas. Sua existência parece ser definida pela negação do humano — e, paradoxalmente, é justamente isso que o torna profundamente humano. A vida na corte — com suas políticas, intrigas, traições e violências — parece ser seu habitat.

O anão se percebe como alguém à parte, quase de outra espécie, superior aos homens que despreza. No entanto, à medida que a narrativa avança, torna-se claro que ele é menos uma exceção monstruosa e mais uma caricatura de toda a situação da corte. Como diz o próprio, o que assusta nos homens não é o anão em si, mas “o anão que se esconde neles” — uma dimensão sombria que preferimos ignorar.

A ambientação renascentista funciona como cenário simbólico. Em meio à arte, à ciência e ao poder — elementos associados ao florescimento da época — Lagerkvist introduz uma presença que desmente qualquer idealização. O anão atravessa guerras, epidemias e conspirações, sempre revelando o quanto a civilização convive com a barbárie. Nesse sentido, o livro dialoga com o contexto em que foi escrito (em 1944), quando a Europa confrontava o horror — tema central na obra do autor.

A cidade-estado renascentista onde ocorre a ação não é clara, mas há um personagem chamado Bernardo, que é sem dúvida inspirado em Leonardo da Vinci, o que nos faz pensar no final do século XV. Também há referências a igrejas que se encontram na região de Florença. Ao mesmo tempo, o anão, narrador do romance, fala em criações como A Última Ceia, pintada em Milão… Além disso, o príncipe César Bórgia empregou Leonardo da Vinci como arquiteto militar… Desta forma, há muitas referências históricas dançando incontrolavelmente no contexto do romance.

Como disse, o anão é o narrador e tudo é contado alguns minutos ou horas após a ocorrência dos fatos e antes dos seguintes. Tal artifício faz com que todos os acontecimentos sejam quentes, contados de forma ofegante, e que O Anão planeje no papel seus próximos passos. Ou seja, a colocação do foco narrativo é muito inteligente, fazendo com que o leitor sinta a respiração do anão-monstro arquitetando suas vinganças, incorporando o mal e curtindo seu ódio de misantropo.

Ele obviamente ama a guerra, e quando lhe pedem para cometer um crime, ele o expande sob o pretexto de beneficiar o príncipe… Todos mudam durante o romance, todos mudam na cabeça do narrador, menos ele, que se mantém coerente da primeira à última página. Mesmo impressionado com a ciência de Bernardo, sente repulsa pela busca que este empreende para chegar à verdade e ao âmago das coisas.

A escrita é seca, direta, despojada — o que intensifica o impacto. Não há grandes explicações psicológicas nem tentativas de justificar o personagem. O mal não é analisado: é apresentado. E essa recusa de interpretação fácil é talvez o aspecto mais perturbador do romance. O leitor não encontra uma distância confortável. Ao contrário, é levado a reconhecer algo familiar. Afinal, convivemos com monstros como Netanyahu, certo?

Pär Lagerkvist (1891-1974)

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PGO II: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

PGO II: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

Gabriel García Márquez, ao escrever Memórias de minhas putas tristes declarou ter-se inspirado neste livro de Kawabata, homenageando-o ao narrar uma história de amor não consumado com uma jovem adormecida. No livro de GGM, o velho protagonista não tem relações sexuais com a adolescente virgem. O encontro acontece de forma completamente diferente do que ele havia planejado. Ao chegar ao quarto, ele encontra a menina de 14 anos profundamente adormecida (dopada pela cafetina para acalmar seus medos). Diante da garota indefesa, o velho não tem coragem de acordá-la ou tocá-la. Em vez disso, ele apenas a contempla durante a noite, deita-se ao lado dela e também acaba dormindo. Na manhã seguinte, vai embora antes que ela acorde, sem nunca ter tido qualquer contato físico ou sexual com a jovem.

Não apenas GGM ficou fascinado pela obra. Mishima a considerava uma obra-prima, talvez a maior da literatura japonesa. E Vargas Llosa escreveu: “Breve, bela e profunda, A Casa das Belas Adormecidas deixa no ânimo do leitor a sensação de uma metáfora cujos termos não são fáceis de entender”.

As interpretações mais correntes são:

1. A Metáfora da Morte e da Velhice (a mais aceita)

A interpretação mais forte e recorrente é que a casa e as jovens adormecidas representam a relação do homem com a morte.

As jovens são a morte: belas, jovens e silenciosas, elas aguardam os velhos em um quarto que mais se assemelha a um túmulo. Eguchi, o protagonista, deita-se ao lado delas como quem se prepara para o último sono. A impossibilidade de acordá-las ou ter uma troca real é a impossibilidade de dialogar com a morte.

O sono é um ensaio: cada noite passada ao lado de uma “bela adormecida” é um ensaio para a morte definitiva. Eguchi busca, nas palavras de Mishima, “dormir um sono como a morte” ao lado da beleza pura, na esperança de que essa experiência seja menos solitária e aterrorizante.

A “vida após a morte”: o fato de as mulheres estarem vivas, mas inacessíveis, cria um estado liminar. É como se os velhos estivessem experimentando um além onde a beleza existe, mas a interação e a consciência, não.

2. A Metáfora do Desejo Puro e Irrealizável

Outra leitura fundamental é que o livro explora o desejo em seu estado mais radical e impossível.

O objeto sem sujeito: o desejo humano, especialmente na velhice, é frequentemente direcionado a um ideal. As jovens, ao estarem inconscientes, tornam-se o objeto perfeito do desejo: passivas, não rejeitam, não julgam, não têm vontade própria. São um receptáculo vazio onde o velho pode projetar todas as suas fantasias.

A ausência de relação: a grande ironia é que, para realizar seu desejo sem os entraves da realidade (a fala, a vontade da outra pessoa), Eguchi acaba por aniquilar a própria possibilidade de uma relação. Ele tem acesso ao corpo, mas não à pessoa. É o ápice do prazer solitário, uma fantasia que se torna real, mas que é vazia.

O desejo nostálgico: o que Eguchi realmente busca não é sexo, mas o contato com sua própria juventude perdida, suas memórias e vitalidade. As jovens são espelhos onde ele vê seu passado, um passado que não pode mais tocar.

3. A Metáfora do Japão Pós-Guerra e a Decadência Cultural

Numa chave sociológica e histórica, a casa pode ser lida como uma alegoria do Japão do pós-guerra sob ocupação norte-americana.

A casa como o Japão antigo: o espaço fechado, ritualístico, regido por códigos de silêncio e uma estética refinada, representaria o Japão tradicional, derrotado e envergonhado.

As jovens como a nação indefesa: as jovens virgens e drogadas seriam a própria nação japonesa, inconsciente, violada em sua soberania, mas mantida artificialmente “viva” e bela aos olhos dos estrangeiros (os velhos clientes).

A relação parasitária: os velhos (os EUA/ocidente) usufruem da beleza e da passividade do Japão, pagando por isso, mas sem jamais estabelecer uma troca genuína. O medo de Eguchi de que uma das jovens morra durante a noite reflete o medo de que o Japão “morresse” sob a ocupação.

4. A Metáfora do Olhar Masculino e da Objetificação da Mulher

Uma leitura feminista moderna vê o livro como uma alegoria radical do patriarcado.

A mulher como objeto: a casa é a materialização do “olhar masculino” levado ao extremo. A mulher é despojada de sua voz, de seu movimento, de sua consciência — ou seja, de sua humanidade — para se tornar um objeto de uso e descarte.

O velho como o poder: Eguchi não precisa seduzir, convencer ou pedir permissão. Ele simplesmente paga e consome. A anônima “mulher da casa” gerencia tudo, sendo uma cúmplice dessa estrutura de poder.

A violência estrutural: a violência do livro não está nos atos (que são, pelas regras, contidos), mas na própria premissa: criar um espaço onde a mulher é reduzida à sua função biológica de ser jovem, bela e virgem, enquanto o homem, mesmo decrépito e impotente, ainda detém todo o poder e o direito de consumir.

5. A Metáfora da Criação Artística

Uma interpretação mais metalinguística, adorada por alguns críticos, é que o livro é uma alegoria sobre o próprio ato de escrever.

O velho como o artista: Eguchi, imóvel, contemplando a beleza imóvel e tentando extrair sentido, memória e emoção dela, seria o artista diante de sua criação ou de sua musa.

As jovens como a obra de arte: a obra de arte (o romance, a pintura) está ali, bela, silenciosa e imóvel. Ela não responde, não dialoga. Cabe ao artista/leitor projetar nela seus significados, suas dores e suas memórias.

O ritual da criação: a ida à casa, o pagamento, a preparação do quarto, o deitar-se ao lado da beleza — tudo isso seria um ritual de criação artística, solitário e que acontece na fronteira entre a vigília e o sonho, a vida e a morte.

Em síntese:

A genialidade de Kawabata é que nenhuma dessas interpretações anula a outra. Elas coexistem. A casa é o corpo envelhecido que ainda deseja. As jovens são a juventude perdida e a morte que se aproxima. O sono é a impossibilidade de comunicação entre gerações, entre desejos, entre o eu e o outro. A transgressão está em desejar o que não se pode ter (a juventude, a vida, o outro). A beleza está em aceitar a derrota final e, ainda assim, contemplar o que é belo, ainda que esse belo seja uma ilusão fúnebre. O livro não oferece respostas fáceis. Ele oferece uma imagem perturbadora que cada leitor, como Eguchi diante da jovem, precisa contemplar e preencher com seu próprio significado.

(Elena, minha mulher, para quem eu li o livro em voz alta, disse que viu um enorme paralelo da obra com As intermitências da morte, indiscutível obra-prima de José Saramago. No livro de Saramago, a morte se afasta, aqui ela se aproxima. Muito).

Yasunari Kawabata em 1938

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PGO I: Primeiro amor, de Ivan Turguêniev

PGO I: Primeiro amor, de Ivan Turguêniev

Em março deste ano, começamos a reunir grupos de leitura na Livraria Bamboletras, grupos da própria livraria. O primeiro livro que escolhi foi Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev. Eu tinha lido o livro há décadas numa edição portuguesa e gostara muito. Achei ainda melhor nesta releitura. Eu chamo estes grupos — os quais leem o mesmo livro a cada mês — de Pequenas Grandes Obras (PGO) ou Clube dos Clássicos Breves, mas os nomes não pegaram. A ideia é de ler livros grandes autores em pequenos formatos — não vamos solicitar a leitura de Moby Dick, mas por que não Bartleby? Ou A Morte de Ivan Ilitch em lugar de Guerra e Paz ou Anna Kariênina? Ou O Jogador em lugar de Crime e Castigo? Nada contra os livros longos — posso me considerar um dos Reis dos Calhamaços –, mas eu não gostaria que alguém me impusesse um livro enorme para ler em um mês. Todos nós temos nossas leituras e outras aspirações e não precisamos ser pautados de modo tão pesado, certo?  E também acho que a grandeza de um livro não se mede por sua espessura, mas pelo seu impacto e eco em nossa consciência, certo?

Porém… Como os 6 leitores deste blog sabem, tenho o vício de escrever resenhas. Parece que só finalizo a leitura de um livro após escrevê-la. Lá vai mais uma.

.oOo.

Ao saber do argumento da novelinha Primeiro Amor, de Ivan Turguêniev, logo as pessoas pensam em algo batido, já lido em livro ou visto no cinema. Novamente um adolescente apaixonado por uma jovem mulher? Acho até que o filme georgiano 27 Beijos Roubados é um pequeno roubo a Turguêniev. No filme, a menina promete cem beijos ao garoto apaixonado durante as férias, mas algo que descobrimos no final do filme fez com que ela ficasse devendo 27. Uma decepção. Apesar de breve, o livrinho de Turguêniev tem notável densidade emocional, psicológica e social — é um daqueles livros em que a aparente simplicidade esconde complexidades. Narrado como memória, o texto acompanha Vladímir, que revisita sua adolescência e o impacto devastador de sua paixão por Zinaída. Esse ponto de vista retrospectivo é decisivo: não se trata apenas de uma história de amor juvenil, mas de uma releitura madura de uma experiência formadora, em que o passado já está filtrado pelo tempo e pela perda. A narrativa, portanto, nasce da distância — e essa distância é o que lhe dá melancolia e lucidez.

O primeiro aspecto que impressiona é a forma como Turguêniev captura o caráter absoluto e açambarcante do primeiro amor. Não há medida, não há ironia interna no jovem Vladímir: ele ama com intensidade total, como se sua vida dependesse disso. Ele se derrama, se desmancha. Esse amor, no entanto, é recebido de forma hesitante e assimétrica. Zinaída, figura central e enigmática, exerce um fascínio quase cruel — cercada de um séquito de admiradores, ela alterna charme, manipulação e vulnerabilidade. A relação entre os dois nunca se equilibra: ele vive a experiência como revelação, enquanto ela joga um jogo. Essa diferença é fundamental para o efeito do livro.

O que Turguêniev constrói é, sobretudo, um curto romance de formação — uma passagem brutal da inocência à realidade. O momento decisivo da narrativa (sim, não convém revelar detalhes) desloca completamente o sentido do amor vivido por Vladímir e o insere numa dimensão mais complexa, onde entram poder, desejo e autoridade. A figura do pai, nesse sentido, é crucial: ela introduz uma camada trágica que transforma a história íntima em algo mais amplo, social, estrutural. O amor deixa de ser apenas sentimento e passa a ser também revelação do mundo adulto em sua ambiguidade moral.

A linguagem de Turguêniev acompanha essa transformação com precisão. Sua prosa é lírica, mas contida; sensível, mas nunca excessiva. Ele trabalha com olhares, gestos, silêncios e evita qualquer dramatização excessiva. Esse estilo cria uma tensão muito particular: os acontecimentos são intensos, mas narrados com uma serenidade que sugere compreensão tardia. A memória, aqui, não é apenas lembrança, mas forma de elaboração. É o passado sendo reorganizado pelas emoções do narrador.

Não obstante a voz do narrador, nota-se que não é somente ele que está sofrendo o primeiro amor. Se analisarmos a fundo, vamos encontrar mais dois primeiros amores acontecendo e em choque. (Isso explicaria a tradução do título do livro, que é Primeiro Amor e não O Primeiro Amor). Talvez o aspecto mais duradouro de Primeiro Amor seja justamente essa coexistência de intensidade e desilusão. O livro não idealiza o amor — pelo contrário, mostra-o como experiência e ferida. Amar, aqui, é aprender algo essencial e irreversível: que o outro não nos pertence, que o mundo não corresponde às nossas expectativas.

Ao final, o que permanece não é apenas a história de Vladímir, mas a sensação de que todo primeiro amor carrega em si algo de definitivo — não porque dure, mas porque marca. É uma experiência que inaugura não só o sentimento amoroso, mas também a consciência da perda. E talvez seja isso que faz deste livro uma obra tão persistente: ele não fala apenas do primeiro amor, mas da primeira vez em que compreendemos que crescer é, talvez, perder alguma coisa.

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Bestas Encurraladas, de Magnus Mills

Bestas Encurraladas, de Magnus Mills

Você não vai gostar de nenhum dos personagens de Bestas Encurraladas, de Magnus Mills, creio eu. Este é um romance meio comédia, meio sério, que mostra as “maravilhas” do trabalho assalariado. A gente começa a ler e acha tudo muito simples, mas há por trás uma boa e sofisticada engrenagem literária. A história acompanha um narrador sem nome, promovido a chefe de dois operários escoceses — Tam e Richie — que fazem cercas no interior do país. Sim, cercas para fazendas, para impedir a fuga de animais. A rotina é repetitiva: estacas, arame, tensão da cerca, trabalho duro durante o dia, pub à noite, outras tensões com os clientes, a chefia e o dono da firma. Mas, pouco a pouco, a rotina se deforma: acidentes estranhos, mortes tratadas com naturalidade, situações que deslizam para o absurdo sem jamais abandonar o mesmo tom burocrático. O resultado é uma narrativa que se move entre o realismo operário marxista e uma espécie de pesadelo kafkiano.

O grande trunfo do romance está justamente no tom. Mills escreve com radical economia: frases curtas, repetição de situações, diálogos mecânicos. É um livro sobre pessoas burras, eu diria. O estilo despojado cria um efeito curioso — quanto mais neutra a narração, mais perturbadores se tornam os acontecimentos. Há uma recusa total de dramatização: eventos potencialmente chocantes são tratados como parte da rotina, o que gera um humor sombrio. Essa monotonia de estilo transforma o livro numa espécie de fábula moderna sobre o trabalho.

Por trás da história de três homens construindo cercas, esconde-se uma alegoria. As cercas — que deveriam conter animais — parecem também simbolizar os limites que os vão organizar — regras, rotinas, hierarquias. O título, aliás, sugere essa ambiguidade central: quem são, afinal, as “bestas” a serem contidas? Os animais ou os trabalhadores? Ao longo do romance, a repetição da vida laboral se transforma em algoz. Os trabalhadores tendem a serem máquinas submissas e silenciosas.

O final é inquietante, com um pé em O Conto da Aia. O romance não oferece catarse nem explicação clara — pelo contrário, sua força está na recusa de fechar sentidos. À medida que a narrativa avança, o leitor percebe que foi capturado pela mesma lógica que aprisiona os personagens: repetição, obediência, aceitação do absurdo. É um livro curto, mas que permanece ecoando, como uma espécie de piada sombria que, quanto mais se pensa nela, menos engraçada se torna.

Este livro foi muito reconhecido e premiado, Mills foi finalista do Booker Prize com este romance. O autor conhece bem o mundo do trabalho assalariado e da obediência. Ele é um ex-motorista de ônibus elogiado por Thomas Pynchon.

Magnus Mills

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Feminicídios

Os feminicídios não param, ao contrário, aumentam. Li sobre um que aconteceu hoje. O cara deu 5 tiros na mulher e se suicidou. Por que há tantos homens despreparados para as frustrações da vida? Eles desconhecem a possibilidade de decepções? Esses homens chegam aos relacionamentos tão fracos emocionalmente que, quando enfrentam uma frustração — como um término de relacionamento, uma rejeição ou mesmo uma discussão cotidiana –, não possuem ferramentas psicológicas para processar a tristeza, a perda ou a insegurança? A única “válvula de escape” que lhes foi socialmente ensinada para demonstrar indignação ou intensidade emocional é a raiva, que, quando extrema, se converte em violência?

Tudo o que escrevi é muito óbvio, mas porque esta geração dos 30-40 anos mata suas mulheres?

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Sempre divididos

Sempre divididos

Eu acho que a esquerda e a meia-esquerda têm que se reunir como fazem os cardeais que decidem o próximo Papa. Só sairiam de lá com uma chapa única. Chega de perder eleições. Não estão vendo a decadência do RS? Menas egos, gente, menas. Pra mim tanto faz o nome, o importante é o recado único e firme, além de um bom projeto de governo.

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Bach, 341 anos

Bach, 341 anos

Meu pai ouvia muita música em casa e, no final dos anos 60, quando eu tinha uns 12 anos, iniciou-se uma luta: eu queria ouvir Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, The Who e Mutantes e ele seus sambas e compositores eruditos românticos. Tínhamos poucos pontos de concordância: Chico Buarque, Paulinho da Viola e a bossa nova em geral. Até hoje tenho dificuldades em ouvir Chopin, Rachmaninov, Schumann, Berlioz e outros. Não consigo realmente entender os românticos, à exceção de Brahms e dos tardios.

Naquela época, num fim de tarde que jamais esqueci, eu estava dentro do banheiro, me secando após um banho, quando fui obrigado a sair correndo para a sala, pois estava ouvindo algo absolutamente espetacular, lindo, inteligente, de força rítmica e pensamentos musicais profundos, algo nunca ouvido. Perguntei a meu pai o que era aquilo e ele me disse que era o Concerto Nº 3 de Brandenburgo, da autoria de um sujeito que se localizava como o campeão na mitologia dos compositores e que eu nunca tinha ouvido: Johann Sebastian Bach, o aniversariante de hoje.

Desde aquele dia, Bach se transformou numa espécie de companheiro de vida. Nunca me foi hostil, sempre me trouxe alegria e beleza. Celebrar seu aniversário de 341 anos é, de certo modo, celebrar nossa amizade — um pobre diabo apaixonado por um monumento — e a própria ideia de ordem no mundo — uma ordem que não exclui a emoção, mas a organiza, a eleva e a torna compreensível. Ninguém conseguiu unir com tamanha perfeição o rigor da arquitetura e a liberdade da expressão. Nele, tudo tem sentido, cada linha carrega uma intenção, e no entrelaçamento das diversas vozes surge algo que ultrapassa o humano — não por negar a experiência humana e suas grandezas e fraquezas, mas por levá-la ao seu grau mais alto de transparência e beleza.

Há em Bach uma espécie de confiança radical na inteligência e na lógica. Obras como o Cravo Bem Temperado, a Missa em Si Menor ou a Paixão Segundo Mateus (retirem o “São”, Bach não pôs “Sankt” no título) não são apenas composições: são sistemas vivos, universos autônomos onde emoção, fé e razão existem sem conflito. Seus contrapontos não são exercícios intelectuais estéreis, masturbatórios, mas uma forma de dar voz à complexidade do mundo — como se múltiplas verdades pudessem soar ao mesmo tempo, sem se anularem.

Porém, é claro que o que mais me impressiona é a humanidade dessa grandeza. Bach jamais escreveu para a posteridade, mas para circunstâncias concretas — igrejas, cortes, alunos, ocasiões específicas. Ainda assim, dessa prática cotidiana nasceu uma música transcende qualquer ocasião e que nos fala de perto ainda hoje. Ouvi-lo é perceber que o tempo não diminui certas obras — ao contrário, torna-as mais necessárias. Porque em Bach encontramos uma forma de equilíbrio — uma promessa de que, mesmo no caos, a harmonia é possível.

Bach não precisa de defesa (quem precisa é o Inter) — ele se impõe por si mesmo. Mas hoje é o dia de você ouvir uma de suas Paixões, um de seus prelúdios, uma de suas fugas ou beber uma cerveja — como as que ele produzia. Que a música de Bach continue a nos ensinar que o rigor pode ser apaixonado, que a fé pode ser artesanal (e pessoal, por favor), que o tempo — esse mesmo tempo que hoje nos faz lembrar de sua data de nascimento — pode ser, por alguns instantes, suspenso. Bach foi um presente que recebemos. O mais duradouro, o mais profundo, o mais sublime dos presentes.

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O vídeo que o Eduardo Bueno (Peninha) acaba de soltar no YouTube…

O vídeo que o Eduardo Bueno (Peninha) acaba de soltar no YouTube, chamado “Banqueiro preso, banqueiro Souto” é muito notável, principalmente na metade final. Havia um Banco Souto na época do Império que dominava o mercado. Esse banco quebrou como o Master. Foi um choque tal que a quebra do banco foi citada em “Quincas Borba” e no “Triste Fim de Policarpo Quaresma”.

Uma das coisas que me chamou a atenção foram as crônicas da época lidas pelo Peninha. Eram escritas por mestres, OK, mas seus temas eram sobre o povo que tinha perdido sua grana e sobre a quebra. Hoje, só se fala na quebra, na suruba, parece que esta, a quebra, não afetou um monte de gente com pouca grana. Acho que falta humanidade às coberturas. Nelas, Vorcaro é um canalha, mas parece que não roubou ninguém. Não é dada voz aos prejudicados.

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Para surpresa geral, o Conselho de Curadores da Orquestra Sinfônica de Boston…

Para surpresa geral, o Conselho de Curadores da Orquestra Sinfônica de Boston subitamente demitiu Andris Nelsons. Disseram que seu contrato, que termina em 2027, não será renovado. É um fato incompreensível, dado o excelente trabalho de Nelsons como chefe da BSO. Vide suas gravações para a DG.

Hoje, ao chegar para trabalhar, Nelsons foi recebido na porta do teatro pelos músicos da orquestra. Lágrimas e lamentos foram derramados de ambos os lados.

Não há sinal do presidente da BSO, Chad Smith, nem da presidente do Conselho, Barbara Hostetter. Aqui de longe, posso imaginar o motivo. O tal Conselho de Curadores deve ser um bando de velhinhos endinheirados que querem um repertório mais conservador. Foi assim que tiraram Bernstein de NY décadas atrás. Tipo “só quero ouvir as mesmas coisas, não me venham com novidades”.

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O César Calejon tem toda a razão

O César Calejon tem toda a razão

O César Calejon tem toda a razão: o único homem que tem poder neste país e que é legitimamente de esquerda é o Flávio Dino. Ele estabeleceu, nesta segunda-feira (16/3), que a aposentadoria compulsória não pode mais ser aplicada como punição máxima para magistrados que cometem infrações disciplinares graves. A partir de agora, a sanção mais severa deve ser a perda do cargo, o que acarreta a interrupção imediata do pagamento de salários.

(Precisamos de uns dez Dinos).

Imagina você ser um juiz, cometer crimes e ser premiado com uma aposentadoria recebendo seu último salário. É como receber férias vitalícias. A decisão de Dino vai para votação do STF. Só falta, né?

(Enquanto isso, ninguém ajuda Cuba).

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O Agente Secreto deixou centenas de filmes…

1. O Agente Secreto deixou centenas de filmes atrás de si para chegar ao grupinho de pretendentes ao Oscar. É meio burro qualificá-lo como “perdedor”.

2. O Oscar pouco interessa para a sobrevivência de um filme. Basta ver a pífia lista dos últimos vencedores. Tudo esquecível. Basta ver que Hitchcock, Kubrick, Lynch, Altman, Welles, etc., nunca receberam um Oscar. E fiquei apenas dentre aqueles que trabalharam nos EUA. O Agente Secreto, com sua linguagem original e provocativa, ficará. Tenho certeza.

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Quinta-feira, ao errar uma jogada…

Quinta-feira, ao errar uma jogada…

Quinta-feira, ao errar uma jogada, a tenista n° 1 do mundo Aryna Sabalenka gritou bem alto um sonoro “Put@ que o pariu!”. O pessoal da transmissão caiu na risada, “Opa!”. Acontece que a bielorrussa é noiva de um brasileiro, um certo Georgius Frangulis, se não estou enganado.

É bom que ela saiba que há importantes precedentes de brasileiros com bielorrussas.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXXVI)

[09:28, 05/03/2026] X: Bom dia. Vcs ainda têm aqueles lindos banquinhos pintados?

[10:05, 05/03/2026] Livraria Bamboletras: Tu vais dar risada (ou ficar indignada) quando eu te disser que o cara deixou de nos mandar banquinhos porque não nós não éramos (e nem somos) bolsonaristas.

[10:09, 05/03/2026] X: Putz… Desisto de comprar então… Vai ver eram horrorosos!

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