Fim de festa. Feliz depois de um churrasco capitaneado por meu genro Vicente Cortese com minha filha Bárbara Jardim, meu filho Bernardo Ribeiro, minha irmã Iracema Gonçalves, meu cunhado Sylvio Gonçalves e Elena Romanov, é claro.
Os maiores crimes contra a humanidade são cometidos silenciosamente.
Por exemplo, o chocolate Bis, que começou a ser fabricado pela Lacta em 1942, sempre teve 20 unidades por pacote.
Recentemente, passou a ter 16, mas manteve o preço, claro.
Se não tivesse sido cremada, minha mãe estaria se retorcendo no túmulo. Ela escondia Bis em seu guarda-roupa a fim de que seus filhos não comessem tudo. Só que não sabia quantos tinha. E esquecia de contar depois de começar a comer. Cada caixa tinha 20, mãe! Desculpe!
Voltando ao assunto principal: a Lacta diminuiu em 20% o pacote e manteve o preço. Confira em seu supermercado.
O River Plate não tem um mascote oficial. No entanto, a imagem de uma galinha passou a ser usada pelo clube depois de uma brincadeira da torcida do Banfield, da década de 1960, que soltou uma galinha branca com uma faixa vermelha, reproduzindo o emblemático uniforme. Quando o River entrou em campo, um torcedor do Banfield soltou uma galinha branca com uma faixa vermelha, reproduzindo o emblemático uniforme. A ave foi chutada para longe pelo atacante Más e depois sacrificada no vestiário do Banfield, o que hoje certamente geraria um escândalo mundial. A brincadeira teve enorme repercussão nos estádios e na imprensa argentina, a ponto de o inventor da gozação jamais ter revelado seu nome com medo de ser agredido pela torcida do River. Chegou a receber ofertas polpudas para aparecer em programas de TVs, mas sempre respondia: “Isto não paga o que vai acontecer comigo”. Ele está com 80 anos e continua exigindo anonimato.
Certa vez, os torcedores do Chacarita Juniors atiraram uma galinha para o campo. O goleiro Pumpido, do River Plate, quis afastar o animal e deu-lhe um pontapé. A ave teve morte imediata no gramado.
“Nem gosto de falar nisso”, confessa o arqueiro. “É um episódio feio da minha carreira.”
Goleiro do River, Nery Pumpido chuta uma galinha em jogo contra o Chacarita em 1984
Virginia Woolf nasceu no dia 25 de janeiro de 1882. James Joyce em 2 de fevereiro do mesmo ano. São 8 dias de diferença.
James Joyce publicou seu primeiro livro, Música de Câmara, em 1907. Woolf estreou na literatura em 1915, com The Voyage Out. São 8 anos de diferença.
A curiosidade leva a gente a lugares estranhos. Deste modo, descobrimos que, adulto, Joyce media 1,78m. E que Woolf media 1,70m. 8 centímetros de diferença.
Por justificadas razões, James Joyce escolheu o dia 16 de junho de 1904, uma quinta-feira, para a ação de Ulysses. Já Virginia Woolf marcou Mrs. Dalloway, um romance que também se passa em um dia, para uma quarta-feira também de junho, mas não nos disse dia nem ano. Talvez seja 8 dias antes ou depois do dia 16, mas já estaríamos forçando um pouco, até porque ela falou em meados do mês.
Ulysses foi publicado em 1922, Mrs. Dalloway em 1925, o que quebra de vez nossa numerologia.
Enquanto o Bloomsday é comemorado há décadas, o Dalloway`s Day é bem mais recente, o que talvez seja uma prova de tudo o que Virginia sempre disse: há a ausência da voz das mulheres.
Em fevereiro de 1922, logo após o lançamento de Ulysses, Virginia Woolf escreveu para sua irmã Vanessa, então em Paris: “Pelo amor de Deus, faça amizade com Joyce. Quero saber como ele é”. Ao que tudo indica, Vanessa fracassou em sua missão, porém, em abril, Virginia adquiriu um exemplar de Ulysses por caríssimas – na época – 4 libras. Quando fez a compra, trabalhava em um romance chamado Mrs. Dalloway em Bond Street.
Sim, Virginia leu Ulysses e escreveu em seu diário uma série de considerações que ficavam entre um decidido não gostei e o respeito. Após ler as primeiras 200 páginas, sentenciou: E Tom (T. S. Eliot), o grande Tom, acha que isso se equipara a Guerra e Paz! Parece-me um livro analfabeto e malcriado. (…) É claro que o gênio pode explodir na página 652, mas tenho minhas dúvidas.
Porém, ainda parada na página 200, ela elogiou publicamente o capítulo 6…
Após finalizar a leitura, novas críticas: Terminei Ulysses e acho que foi um erro. É genial, mas difuso e pretensioso. (…) Um escritor de primeira linha, (…) surpreendente; fazendo acrobacias. Lembrou-me o tempo todo algum colegial imaturo, cheio de inteligência e poderes, mas tão autoconsciente e egoísta que perde a cabeça, torna-se extravagante, barulhento, pouco à vontade, faz com que as pessoas gentis sintam pena dele, e as severas apenas se irritem. (…) mas como Joyce tem 40 anos, não amadurece mais. Não o li com atenção; & apenas uma vez; & é muito obscuro.
Enquanto isso, o amigo T. S. Eliot rebatia: Considero Ulysses a expressão mais importante que a era atual encontrou; é um livro ao qual todos devemos e do qual nenhum de nós poderá escapar. As palavras de Eliot se aplicam também a Virginia Woolf – não importa o quanto ela tentasse escapar de Ulysses – ela nunca conseguiu parar de pensar no romance de Joyce. Como observa Suzette Henke, Joyce era uma espécie de “duplo artístico, um aliado masculino na batalha modernista pelo realismo psicológico”.
Já Joyce não parece ter lido Virginia.
Há muitas coisas em comum entre Ulysses e Mrs. Dalloway. Ambos utilizam fluxo de consciência, referências ao passado, epifanias e histórias que se cruzam. Leopold Bloom sai de casa, trabalha, vai a um enterro, caminha pela praia, discute com um antissemita, vai a um bordel, pensa na mulher, volta, etc. Já Clarissa Dalloway flana por Londres a fim de comprar flores para um jantar que dará naquela noite, atravessa um parque, olha vitrines, volta. Notem que os verbos que cabem à Bloom são trabalhar e caminhar, já para Mrs. Dalloway são flanar e passear. Sim, há uma leveza que perpassa o livro de Woolf que é rara em Ulysses. Mas voltemos às semelhanças: ambos os livros dão espaço aos personagens que cruzam com os protagonistas e tocam em fatos bastante rotineiros assim como em outros nem tanto – a guerra no caso de Woolf e o papel da igreja na Irlanda, no caso de Joyce.
Woolf nasceu em berço de ouro e convivia com a nobreza e com os grandes personagens de sua época. Joyce foi um exilado sem recursos que teve lutar duramente pela sobrevivência e para ter sua obra reconhecida. Há outra curiosidade: o casal Leonard e Virginia Woolf tinha uma pequena editora, a Hogarth Press, e um dia eles escreveram a James Joyce a fim de rejeitar o manuscrito de Ulysses. Era muito longo, além da capacidade de sua editora, declararam os Woolf em carta. Era exatamente o tipo de declaração da qual eles teriam se ressentido e desconfiado como escritores.
Lendo Mrs. Dalloway, temos a impressão de que Woolf absorveu muito do livro de Joyce, por mais que o desgostasse.
São duas obras-primas, livros fundamentais da ficção moderna.
Os dois escritores morreram em 1941. Joyce em 13 de janeiro em Zurique e Virginia 74 dias depois, no dia 28 de março, em Lewes, próximo de Londres.
Quase tudo está dito no booktrailer abaixo, mas vamos lá. Durante a pandemia, um contrabaixista de orquestra sinfônica é convidado para uma gravação da Sinfonia dos Mil, de Mahler. A assim chamada Sinfonia é a de Nº 8 do genial austríaco. Trata-se de uma enormidade musical. Inclui orquestra, coro, solistas, órgão, mais a torcida do Galo e a do Inter. Claro que é complicado colocar mil pessoas num palco e a Sinfonia é normalmente interpretada por muito menos gente — o próprio compositor não aprovou este apelido “dos mil”, mas este permaneceu, ainda mais que alguns maestros, como Stokowski, apertaram de verdade mais de mil músicos num palco.
O convite era assim: como o tempo era de pandemia, a captação de som e imagem seria remota. Ou seja, cada músico receberia instruções detalhadas e gravaria sua parte em casa. Tudo seria depois juntado, como muitos fizeram durante aquele período. Na gravação resultante, a Sinfonia seria realmente interpretada por mil músicos. A ideia geral da obra de Mahler é a da redenção através do amor, fato que tem eco na boa história contada por Amarante, ele mesmo contrabaixista da Osesp desde 1994.
Acontece que um determinado músico, um contrabaixista argentino também convidado para participar da empreitada, busca contato com o narrador, seu colega de instrumento no Brasil. E os dois passam a conversar com certa frequência, primeiro através de e-mails e depois por videochamadas. Bem, o único spoiler que hoje sairá de minha pena é para dizer que não se trata de história gay.
Mas direi que se trata de um livro excelente que narra uma interessante aproximação. Narra sobre a construção de um elo que resulta em mudanças no presente. Como músico, Amarante tem total conhecimento e vivência da matéria musical envolvida e, como escritor, não fica nem um pouco atrás. A vida numa sinfônica, as querelas entre os músicos, o nascimento de uma amizade e de conhecimento mútuo, as motivações envolvidas de cada contato, tudo é minuciosa e extremamente bem contado, de forma a que o leitor grude de vez, desejando saber logo tudo.
Amarante não apressa as coisas como fazem os maus músicos. O andamento e o senso de estilo estão sempre corrretos. Sinfonia dos Mil é um livro envolvente, tranquilo e inteligente como um segundo movimento de Haydn, sem tonitruantes tutti de mil pessoas.
Quando subo no palco, lembro-me de “cantar” cada nota’… Angela Hewitt. Fotografia: Keith Saunders
Acontece com todos os pianistas: aquele momento aterrorizante quando você está no palco e não consegue se lembrar do que vem a seguir. Certa vez, meu ex-professor, Jean-Paul Sévilla, estava tocando as Variações Goldberg de Bach quando, ao final da Variação 7, não conseguia se lembrar como começava a Variação 8. No momento em que ele saiu do palco para encontrar sua partitura, ele lembrou, mas sua noite já estava arruinada. Depois aconteceu de Vlado Perlemuter sair de casa para a sala de concertos, quando questionado pela esposa se tinha esquecido de alguma coisa, um amigo lhe disse brincando: “O começo do concerto!” Quando, algumas horas depois, Vlado subiu ao palco em Paris para executar o Quarto Concerto para Piano de Beethoven (que começa com um solo de piano famoso), ele não conseguiu encontrar as notas. Minha própria vez chegou quando eu tinha 50 anos, tocando o Cravo Bem Temperado de Bach (todas as quatro horas e meia dele) de memória em Stuttgart. Foi parte de uma turnê mundial na qual toquei aquela obra gigantesca 56 vezes em 26 países. Naquela noite, no entanto, entrei errado na grande fuga em Lá menor do Livro 1 e não consegui encontrar como sair… Eu tive que levantar para ir buscar a partitura. Você se sente muito envergonhado — mas somos apenas humanos e às vezes isso acontece.
No geral, fui abençoada com uma memória excelente — suponho que alguns diriam até prodigiosa, já que executei as obras solo completas para teclado de Bach (com exceção de A Arte da Fuga), as 32 sonatas de Beethoven e quem sabe quantos milhões de outras notas da memória ao longo dos anos. Sempre pensei que seria uma boa ideia medir meu cérebro antes de memorizar todo aquele Bach e depois novamente para ver como ele havia se desenvolvido e mudado. Tarde demais agora. Aos 64 anos, ele definitivamente está diminuindo, e a memorização tornou-se uma atividade muito consciente, frustrante e demorada. Mas continuo nisso porque a memória é um músculo que precisa ser constantemente usado.
Quando você é um jovem pianista, a memória vem quase sem pensar. Uma grande parte dela é memória reflexa; acrescente a isso a memória auditiva (especialmente se, como eu, você tivesse ouvido absoluto), a memória visual (alguns pianistas, como Yvonne Loriod, que era casada com Olivier Messiaen, tinha uma peça memorizada depois de olhá-la apenas uma vez) e a memória de associação, e você tem um processo relativamente rápido.
Digo que eu “tinha” afinação perfeita porque ela diminuiu com a idade. Quando criança, eu conseguia nomear instantaneamente todas as notas, mesmo nos acordes mais complicados. Agora preciso de tempo para pensar nisso. A tonalidade perfeita está relacionada à memória: se uma fica fraca, o outra também. Todo mundo de uma certa idade que já encontrou esse problema. Isso torna a memorização uma tarefa muito mais complicada.
A memória é um assunto sobre o qual não gostamos de falar – é como o sexo, o amor e as crenças religiosas – muito provavelmente porque temos medo de perdê-la. É preciso coragem para admitir até para si mesmo que sua memória está falhando. Muitas vezes, amigos ou familiares percebem primeiro. Não devemos nos sentir envergonhados, mas sim abraçar esse sinal normal de envelhecimento e fazer tudo o que pudermos para manter nosso cérebro vivo. Fico chateada quando não consigo lembrar onde coloquei meu cartão de embarque, como aconteceu esta manhã em Heathrow (apenas para encontrá-lo no compartimento externo da minha mala, onde devo tê-lo colocado cinco minutos antes), quando não me lembro se tomei minha pastilha diária de TRH (terapia de reposição hormonal) — agora há algo que ajuda mulheres mais velhas com memória! –, e quando cometo o mesmo erro repetidamente ao aprender uma nova peça.
No verão passado, fui presidente do júri da competição de Bach em Leipzig, na qual os competidores podiam escolher se tocariam de memória ou com a partitura. (Com a partitura hoje em dia significa principalmente “com um iPad” acrescentado de um pedal para virar as páginas na tela, embora um concorrente tenha usado o aplicativo que permite fazer uma careta facial para virar a página – algo que achei profundamente desconcertante). Na idade deles, eu nunca teria sonhado em usar a partitura, mesmo para complicadas peças contemporâneas. No entanto, alguns deles o fizeram. Eles não poderiam ter gasto o tempo extra necessário para memorizar a música? Sei que a tendência hoje em dia é dizer que não importa, mas sei que quando consigo realizar algo com segurança de memória, isso me dá uma sensação maravilhosa de liberdade e realização.
Angela Hewitt se apresentando na sala de concertos St George em Bristol. Fotografia: Stephen Shepherd/The Guardian
Uma das falhas mais comuns dos pianistas é que passamos muito tempo tocando as notas e pouco tempo pensando no que estamos fazendo. “Pense 10 vezes e depois toque uma vez” já dizia o sábio Franz Liszt, que balbuciava mais notas por minuto do que qualquer outro (e que, junto com Clara Schumann, foi o primeiro pianista a tocar de memória – ato considerado arrogante pela público da época). Na verdade, o melhor trabalho de memória é feito longe do teclado – apenas olhando a partitura, memorizando seu dedilhado, as harmonias, os lugares onde é fácil errar, os intervalos, quantas notas há em um acorde, a dinâmica, o fraseado; nada é simples ou evidente demais para passar despercebido. Você deve se visualizar tocando a peça sem estar em um teclado. Então depois vá, toque e você ficará surpreso com o progresso que você fez.
Mesmo quando você está muito concentrado, o cérebro é constantemente assaltado por pensamentos estranhos e muitas vezes tolos. Como um pianista tocando de memória, você se treina para lidar com isso. Eu chamo isso de modo de dupla concentração. Tosse da plateia (as pessoas percebem que apenas uma tosse no lugar errado pode facilmente derrubar tudo?); o inevitável celular (sigo como se nada tivesse acontecido, senão piora as coisas); até uma vez tive um besouro subindo lentamente pelo meu braço nu durante uma fuga de Bach. Você tem que ser capaz de contar com sua concentração para passar, não importa o que aconteça.
Você também deve se treinar para pensar no que vem depois na partitura ou na memória — mesmo que apenas por uma fração de segundo. À medida que o cérebro envelhece, isso se torna ainda mais difícil, mas necessário. Acho que é por isso que os pianistas mais velhos em geral (Martha Argerich sendo a exceção) tendem a tocar mais devagar do que os mais jovens, para quem a velocidade costuma parecer o objetivo final. É também por isso que, como público, ficamos mais perturbados com os andamentos rápidos à medida que envelhecemos. É demais para nossos cérebros mais lentos processarem.
Aos 20 anos, morei no estúdio de um artista acima de uma filial do Banque Nationale de Paris por dois anos. O pessoal do banco sabia que eu era a única tocando no andar de cima, praticando, e eles afirmaram não se importar, exceto quando eu “tocava a mesma coisa repetidamente”. Para roubar uma observação do ator Roger Allam, a palavra francesa para ensaio é “répétition”, e é isso que você precisa fazer. Arranje um piano silencioso se isso deixar sua família ou vizinhos loucos; Costumo ter um em quartos de hotel quando estou em turnê.
Tocando com a Aurora Orchestra em Kings Place em Londres. Fotografia: www.kingsplace.co.uk/kplayer
Outra coisa que você pode fazer para treinar o cérebro é pensar em várias coisas ao mesmo tempo. Você pode praticar isso estando em um restaurante lotado e ouvindo duas ou mais conversas simultaneamente. Você precisará disso se estiver tocando uma fuga de Bach, que pode ter até cinco vozes, cada uma tão importante quanto a outra. Quando subo no palco, lembro-me de “cantar” cada nota; na verdade, quando pratico, estou constantemente cantando, tentando imitar a voz humana em um instrumento cujos sons são produzidos por martelos batendo nas cordas. Ao cantar, envolvo minha concentração e minhas emoções, assim como minha memória. Ao contrário do meu compatriota Glenn Gould, quando estou no palco ou em um estúdio de gravação, faço isso silenciosamente.
Se tudo isso soa muito cansativo então, acredite, é mesmo. Faça pausas quando sentir que seu cérebro está cansado e certifique-se de que ele receba todos os nutrientes de que precisa. Álcool e pílulas para dormir não ajudam – e é por isso que evito o primeiro e me recuso a usar o segundo. Nos bastidores das salas de concerto, tenho os alimentos para o cérebro prontos: sardinhas enlatadas, abacates, manteiga de amendoim, biscoitos de centeio, mirtilos, bananas e muita água.
Muitas vezes ouço as pessoas dizerem que não conseguem mais memorizar nada. Sim, mas você realmente tentou? Se você não é músico, pegue um poema, uma receita ou o telefone dos seus melhores amigos. Acima de tudo, não desista. Conheça o seu cérebro e trabalhe nele.
Sempre digo que não conseguiria decorar as obras completas de Bach e ter quatro filhos. Isso teria sido impossível. Eu não tenho nenhum. Mas tive uma vida maravilhosa na companhia de algumas das maiores mentes que já existiram, e para eles, e para meus pais músicos que me colocaram na frente de um piano de brinquedo aos dois anos de idade, eu sou para sempre grata.
Este concerto da Ospa apresentará 3 obras, duas de compositores brasileiros e em ordem contrária à cronológica. Começa com a obra mais recente:
Harry Crowl | E a Cidade Desperta (2017)
Apesar do nome, Harry Crowl (1958) é mineiro de Belo Horizonte e é um sábio, sendo, além de compositor, musicólogo e professor.
Quando conheci E a cidade desperta, logo me veio uma associação temática com uma canção que, musicalmente, não tem nada a ver com a obra de Crowl. Falo de Samba e Amor de Chico Buarque e que inicia com os seguintes versos:
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade, que arde
E apressa o dia de amanhã
(…)
OK, mas onde há pontos em comum com Crowl é neste verso aqui:
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade, que alarde
Será que é tão difícil amanhecer?
Será que é tão difícil amanhecer? Pois parece. Antes de compor esta peça, Crowl havia composto outra chamada Enquanto uma grande cidade dorme. Esta é muito quieta e sossegada, o que não acontece na que vamos ouvir no Concerto de hoje da Ospa. E a cidade desperta não é quieta. Assim como também não são sossegadas as motivações do compositor. A motivação nasceu de uma tentativa do prefeito de São Paulo, parece que Kassab, de apagar alguns grafites extraordinários feitos pelo artista brasileiro Eduardo Kobra, na verdade um grande muralista. Harry Crowl ficou indignado por pensar que aqueles grafites davam humanidade ao universo cinzento de concreto armado de São Paulo. E não vou discordar dele, do compositor.
Na obra de Crowl, à medida que amanhece, uma multiplicidade de cores e sons da cidade se revelam nos mais variados matizes através dos graffiti de artistas muitas vezes anônimos. Essas manifestações espontâneas, apesar das constantes tentativas de apagamento, seguem brotando dos muros e paredes como se fossem um grito de um mundo asfixiado. E a cidade desperta… propõe um diálogo com este meio de expressão artístico e é também uma homenagem ao artista brasileiro Kobra que, com suas criações imensas e fortemente coloridas, tem levado um alívio visual para espaços esquecidos ou abandonados das grandes metrópoles pelo mundo afora.
Como disse Chico Buarque em sua canção de 1970, é difícil amanhecer — ainda mais pensando no prefeito — e Crowl o faz de forma muito afirmativa, revelando que não está ao lado dos apagadores e de quem agride a arte. A explosão de vida que a cidade revela nos detalhes daquilo que antes era apenas sombras de construções, é mostrada com forte percussão, ostinati, em um virtuosístico solo de violino e outros solos de clarinete e trompete.
Heitor Villa-Lobos | Fantasia para Saxofone, W490 I. Animé II. Lent III. Très animé
Embora o saxofone apareça com destaque ao longo de toda a produção de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), a Fantasia para Saxofone é a única composição de Villa que tem o instrumento como solista. A peça, escrita em 1948, equivale a um pequeno concerto em três movimentos. Quando pensamos no saxofone na música brasileira, normalmente nos vem à mente o choro e Pixinguinha, mas a abordagem de Villa é inteiramente diversa. Na verdade, esta Fantasia poderia ser uma pequena bachiana.
Villa-Lobos conheceu o saxofonista Marcel Mule em Paris na década de 1920, quando Mule tocou saxofone em uma das obras orquestrais de Villa-Lobos. Embora tenha sido escrita e dedicada a Mule, e originalmente especificasse o saxofone soprano , o instrumento ao qual Mule foi associado, a Fantasia não foi uma obra encomendada e não há indicação de que o compositor tenha se correspondido com o saxofonista sobre a peça antes de enviar-lhe a partitura completa em dezembro de 1948. Mule, no entanto, nunca executou o trabalho. Mule disse: “A peça não me empolgou naquela época principalmente porque era muito complicado de tocá-la no sax soprano.” Diante da relutância de Mule em tocar a obra, Villa-Lobos recorreu ao saxofonista brasileiro Waldemar Szpilman. Szpilman, no entanto, não possuía um saxofone soprano, que era o instrumento especificado por Villa-Lobos, e, como Mule, achava as notas mais altas muito arriscadas. Consequentemente, o compositor decidiu transpor a peça para um tom mais baixo e permitir o saxofone tenor como alternativa ao soprano. E é esta versão que vocês ouvirão hoje, Eu assisti a um dos ensaios e afirmo que o saxofonista Samuel Alves é esplêndido, com aquele paradoxo de ter um som forte e delicado ao mesmo tempo.
Joseph Haydn | Sinfonia nº 104 em Ré Maior, “London” I. Adagio – Allegro II. Andante III. Minuet. Allegro – Trio IV. Finale. Spiritoso
A Sinfonia Nº 104 em ré maior, de Franz Joseph Haydn (1732-1809), foi composta nos últimos anos de vida do compositor. Em 1790, após décadas trabalhando como músico da corte para a rica família Esterházy, a família reduziu seu salário e autorizou-o a viajar. Então, o compositor aceitou uma oferta lucrativa de Johann Peter Salomon, violinista e empresário alemão, para visitar a Inglaterra e reger novas sinfonias com uma grande orquestra. As chamadas Sinfonias Londres são as de número 93 a 104, sendo que esta última é a obra final de Haydn no gênero.
A invenção do quarteto de cordas é atribuída ao austríaco Joseph Haydn, que também ajudou a formatar as sinfonias. Na verdade, ele seria o pai da sinfonia. Ao contrário do normal, ninguém soube quem foi sua mãe. Haydn decidiu que as sinfonias deviam ter princípio, meio e fim, primeiros movimentos nas sonatas, nas missas e nos trios. Beethoven, em seu estilo grosseiro, desconsiderou e estragou esse belo modelo convencional.
O sentimento geral é de que Haydn podia ser tão bom quanto Mozart se não tivesse sido tão incuravelmente feliz durante a vida. Esse espírito de contentamento insinuou-se por toda sua música e diluiu-se. As últimas sinfonias foram compostas em Londres para ganhar dinheiro vivo, e a sombra do contrato que pairava sobre ele acrescentou-lhe aquela pitadinha de desgraça que tanto lhe faltara antes. Talvez somente um homem verdadeiramente sem coração poderia ter composto algo tão assombrosamente feliz quanto o final da Sinfonia Nº 88.
Existem muitas e muitas sinfonias que praticamente não são tocadas e que você pode considerar suas favoritas, mas o excelente comentário sobre Haydn é afirmar que o melhor de suas músicas foram as missas — e não haverá necessidade de falar sobre isso.
Peter Gammond — Manual do Blefador: Música
Orquestra Sinfônica de Porto Alegre Regência: Marcelo de Jesus (BRA) Solista: Samuel Alves (saxofone – BRA)
Data: 03/06/2023 17h
Local: Casa da Ospa
Av. Borges de Medeiros, 1501 – Centro Administrativo Fernando Ferrari
Ah, os russos… A Elena Romanov está lendo um volume enorme — lindo, todo ilustrado — publicado em 1958 na URSS. Trata-se de O Precipício, de Gontcharóv, o mesmo autor da obra-prima Oblómov.
Ler Gontcharóv e Bulgákov agora, Tchékhov e Tolstói em todas as idades, Dostoiévski e Liêrmontov na juventude, mais Brodsky, Nabôkov, Turguêniev, é todo um mundo. Dentre todos, meu preferido é o melancólico e compassivo Tchékhov.
Normalmente, eu seria absolutamente contrário a chamar o Moro de Marreco. Ele não escolheu grasnar, aquilo veio pré-instalado, não é culpa dele. Só que é tão bom chamar o Conje de Marreco, né? Eu o chamo assim. De Marreco. Sempre.
Aliás, cassem-no, e à Conja Olhuda também. Preciso voltar a achar meu apelido de criança injusto… Eu tinha pés muito grandes para meu tamanho e me chamavam de Pato, na verdade me chamavam de Qüem, que era a voz do Pato… Lembram do clássico da Bossa Nova “O Pato”? Pois é, veio dali. Um apelido cheio de referências culturais!
Injusto nada!, eu gostava do meu apelido e respondia que eu era todo proporcional, com TODAS as extremidades avantajadas…
Este livro, meu amigo, você apenas encontrará em sebos. Ele foi lançado em 1999 pela Cia. das Letras e, por ele, seu autor recebeu o Booker Prize de 1996. Merecido? Creio que sim. Mas é um livro bastante complicado, trabalhoso de ler. A história é semelhante a de Enquanto agonizo (As I lay dying), de Faulkner, mas, de resto, o livro de Swift é muito original.
Últimos pedidos (Last Orders) conta a viagem de quatro amigos londrinos que frequentemente se reuniam nos finais da tarde para beber e discutir as novidades num pub. Eles têm entre os 50 e os 60 anos — exceto o filho adotivo de um deles — e viajam até Margate para cumprir um último desejo de um ex-membro do grupo, recém falecido: o de espalhar suas cinzas no mar. É claro que todos conheciam as famílias de todos. E todos eles narram o romance, o que causa certa confusão no leitor mais desatento. Eu, por exemplo, li umas 150 páginas e estava adorando o livro, mas sabia que estava perdendo coisas por estar com a atenção meio vaga. Então, voltei ao início do livro com outra postura, a de me me dedicar seriamente a entender tudo, o que acabou sendo muito prazeroso.
Como curiosidade, digo que é um livro que não pode ser trasposto para a realidade brasileira. Um dos personagens é funcionário público, outro tem uma funerária e é muito bem sucedido, outro tem uma mecânica e também prospera, e ainda temos um feirante e um açougueiro (em cinzas). Não creio que os preconceitos de classe brasileiros pudessem juntar tal fauna. E são amigos de anos, todos conhecem quase todas as fofocas familiares uns dos outros. São como uma família, brigam e se ofendem, se acusam e se amam.
O livro é delicado, discretamente comovente e possui um belo erotismo em sua parte final. (Afinal, ficamos sabendo que o funcionário público tem educada e gentil fissura pela viúva). Tudo se dá durante a viagem — diálogos, risadas, brigas e lembranças individuais e coletivas. Por que fiz questão de relê-lo? Ora, porque me pareceu autêntico e parecido — em suas vidas confusas e emoções não expressas — com as histórias de amigos meus. Há pouca narração de fatos novos e muito fluxo de pensamento, o que torna o texto, como disse, difícil de seguir. A primeira pessoa do singular passa de um a outro alternadamente. Apesar de Swift colocar o nome do narrador como título de cada capítulo não é fácil de se achar. Então, fiz anotações de personagens e relacionamentos…
Na releitura, a história fluiu com suavidade, com cada um dos pontos de vista dos personagens principais girando, intercalados com a narração dos eventos atuais, feita por Ray (o funcionário público). E foi então que se revelou a enorme riqueza de Últimos Pedidos. Muitas referências e insinuações sutis se encaixaram como um quebra-cabeça. O estilo de Graham Swift é perfeito, esboçando imagens vívidas de personagens e ambientes sem descrições supérfluas. Os estratos da sociedade inglesa em que esses homens se enquadram são transmitidos sem esforço por meio do diálogo de seus pensamentos e conversas.
É quase inacreditável, mas tudo o que é contado de forma romanceada em O Leão da Calábria aconteceu aqui, em Anta Gorda (RS) pertinho de nós, nos anos 20 do século passado. Não gostaria de entrar em polêmicas, só que… Será que os fatos narrados no livro explicam, alguma coisa de nosso estado e do Brasil? Falo dos dias atuais, claro. Bem, voltemos ao livro.
Nilson Luiz May narra a história do médico Michele De Patta, que há 100 anos emigrou da Calábria para chegar ao nosso estado. Recém formado e tendo trabalhado como médico na Primeira Guerra Mundial, Michele trouxe ao RS diversas técnicas desconhecidas ao povoado de Anta Gorda, atraindo a admiração dos clientes e o ódio dos curandeiros e de quem acreditava neles. A base da história é totalmente real — inclusive, no livro, há fotografias de De Patta, de sua família e de seu hospital. O autor romanceou a trama, claro, criando diálogos e alguns poucos personagens extras.
Imaginem que o médico italiano conseguiu erguer um hospital, a fim de ampliar e melhorar o atendimento à população local — afinal, muitos passavam por cirurgias e precisavam de tempo e de ambiente adequado para a recuperação. Porém, o ódio e a amizade do médico com um professor local, que era anarquista, complicou tudo. Aliados à ignorância, o poder público e o religioso — apesar do catolicismo da família De Patta — puseram tudo a perder.
Os fatos e a violência relatadas são quase uma antevisão do que ocorre em nossa época de negacionismos, alguns furiosos e de graves consequências. O livro é um thriller. May usa o suspense para contar sua desconcertante história. Logo no primeiro capítulo, sabemos que o hospital acabará incendiado. Durante a leitura, sabemos como e por quê. Sei que é um lugar comum dizer que a realidade supera a ficção e sou obrigado a repetir isso aqui.
Lemos o livro, levantamos os olhos e pensamos que aquilo só poderia ter sido inventado. Não foi. As certezas e a truculência da ignorância são, muitas vezes, imbatíveis. Não adiantou explicar, receitar, curar, operar e recuperar. A turba ficou ao lado dos negacionistas e do líder local, pouco preocupados com a ciência. E não me digam que 100 anos é muito tempo, não me digam. Afinal, a reação do governo brasileiro à gripezinha de 2020 estão bem próximos de nós.
May é médico e também um maestro seguro, controlando a narrativa de forma a que a gente leia tudo rapidamente. O livro gruda. Afinal, queremos saber até onde aqueles malucos vão.
A romancista e ensaísta Rosa Montero é, em âmbito mundial, uma das mais importantes escritoras em atividade. Há dezenas de livros e estudos acerca de sua obra. Autora dos excelentes A ridícula ideia de nunca mais te ver e Nós, Mulheres, teve seu A Boa Sorte lançado recentemente no Brasil. É seu primeiro romance onde o personagem principal não é uma mulher. Mas isso talvez seja falso, porque quem ilumina e altera as feições da história é uma personagem feminina. Dentro de uma narrativa fluida e misteriosa, conhecemos Pablo Hernando, um sujeito que some em uma pequena e decadente cidade espanhola. Assim que ele chega, à noite, de trem, compra um apartamento. O vendedor fica surpreso, pois o comprador quer fazer tudo imediatamente, em dinheiro, sem nem mesmo visitar o imóvel. Quem é Pablo Hernando? A polícia está atrás dele? Por que ele escolheu ficar em Pozonegro, onde não conhece ninguém? Então Raluca, funcionária do supermercado local, entra em cena. Ela é sua vizinha e tenta integrá-lo à comunidade. Até consegue um emprego para ele. A descida de Pablo aos infernos é muito bem descrita por Montero. Há medo, angústia, culpa, e também amor, generosidade e inocência. E a boa sorte.
A Boa Sorte é da Todavia, tem 256 páginas e custa R$ 74.90.
A tirania do mérito, de Michael Sandel
Neste livro, Sandel ataca um consenso que ainda reina em alguns meios, o da meritocracia. O livro defende que há um lado negro, um lado desmoralizante nela, ou seja, o de que se a pessoa não ascender socialmente, não terá ninguém para culpar além de si mesma. Inclusive, segundo Sandel, as elites de centro-esquerda teriam abandonado as velhas lealdades de classe para assumir um novo papel de moralizadores da vida. Isto seria particularmente cruel com quem não teve a melhor das formações, justamente as classes mais desfavorecidas. Porque os méritos são normalmente alcançados por quem estudou nas melhores escolas, não? Sandel reconhece o valor do mérito, mas trata de demonstrar como sua aplicação tornou-se tóxica. Segundo o autor, este seria o momento para iniciar um debate sobre a dignidade do trabalho e suas recompensas, tanto em termos de remuneração, como em termos de estima. Com a pandemia, percebemos como somos dependentes, não apenas de médicos e enfermeiras, mas também de entregadores e prestadores de quaisquer serviços, muitos deles transitando via de regra na economia informal. Esse livro traz o problema e sugere soluções para amenizá-lo. Ou seja, não é um livro de simples objeções.
A Tirania do Mérito é da Civilização Brasileira, tem 430 páginas e custa R$ 69,90.
Eu serei a última, de Nadia Murad
Este é o um relato autobiográfico do que Nadia Murad passou nos cárceres do Estado Islâmico e de sua fuga. Hoje, Nadia é ativista de direitos humanos e, em 2018, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Ela faz parte da minoria étnico-religiosa Iazidi. Há cerca de 800 mil iazidis no mundo, a maior parte localizada na fronteira do Iraque com a Síria. Seu povo pratica uma religião sincrética, o iazidismo, que tem elementos do cristianismo e do islamismo, tudo o que o Estado Islâmico não aceita. Em Eu serei a última, ela conta sua brutal experiência – os dias do cerco a sua vila, a prisão, a fuga e, afinal, sua chegada na Alemanha. Dizer que a história é intensa é pouco. Nadia Murad é vendida, torna-se escrava sexual – chama-se a “jihad sexual” – e sua fuga não foi exatamente planejada. A impotência de uma minoria perante o EI, o tráfico humano, o genocídio, os estupros, a vivência em uma sociedade cruelmente patriarcal, a doutrinação dos extremistas islâmicos, a conversão forçada ao islamismo, tudo é violento, porém há trechos leves, como os das lembranças da vida antes da invasão. Em cada página, ficamos nos perguntando como tudo isso (ainda) acontece e até onde o ser humano pode chegar.
Eu serei a última é da Novo Século, tem 394 páginas e custa R$ 69,90.
O despertar de tudo, de David Wengrow e David Graeber
Este livro tornou-se rapidamente um clássico. Com bom humor e argúcia, O despertar de tudo revela que o passado não é aquilo que pensávamos e que a história da humanidade, tal como a conhecemos, traz um viés bastante equivocado. Dentre muitas fontes, os autores utilizam, por exemplo, textos indígenas para recontar a história. Graeber e Wengrow nos dão uma visão mais sofisticada de nossas origens, a partir de informações vindas da moderna arqueologia. O livro revela novidades a respeito da antiguidade, principalmente dos períodos “primitivos” anteriores à escrita. O que emerge é uma visão mais complexa e surpreendente, que é sintetizada de forma brilhante pelos autores. O livro também coloca em questão o mito explicativo que justificativa a desigualdade social entre seres humanos e a origem do ordenamento social hierárquico, corporificado no que chamamos de “Estado”. Acompanhado de vasto material bibliográfico, O despertar de tudo – nascido de uma longa troca de e-mails entre os autores – é coerente, convincente e provocativo, sublinhando a importância de nos mantermos sempre abertos para revisar nossos conceitos com base na ciência.
O Despertar de Tudo é da Cia. das Letras, tem 696 páginas e custa R$ 119,90.
Molly Grant estava curtindo a apresentação da Filarmônica de Los Angeles da Quinta Sinfonia de Tchaikovsky na sexta-feira no Walt Disney Concert Hall quando ouviu o que descreveu como um “grito/gemido” vindo do mezanino.
O exterior da Walt Disney Concert Hall
“Todo mundo meio que se virou para ver o que estava acontecendo”, disse Grant, que estava sentada perto da pessoa que supostamente fez o barulho, ao The Times no domingo em uma entrevista por telefone.
“Eu vi a garota depois que aconteceu, e presumo que ela… Bem, Foi muito bonito.”
Várias pessoas que assistiram ao Concerto da Filarmônica em LA na sexta-feira relataram ter ouvido uma mulher gemendo durante o segundo movimento da sinfonia.
O compositor e produtor musical Magnus Fiennes, descreveu o som no Twitter como o de uma pessoa tendo um “orgasmo alto e de corpo inteiro”.
Uma suposta gravação de áudio do momento — onde alguém pode ser ouvido chorando durante um trecho silencioso da música — estava circulando nas redes sociais. Os participantes que falaram com o The Times disseram que o clipe era semelhante ao que ouviram.
“Amigos que foram à Filarmônica de Los Angeles ontem à noite estão relatando que no meio do concerto uma senhora teve um orgasmo GRITANTE, a ponto de toda a orquestra parar de tocar”, twittou a jornalista Jocelyn Silver. “Algumas pessoas realmente sabem como viver…”.
No entanto, as pessoas presentes disseram que os músicos tocaram não pararam durante a confusão. A pianista clássica Sharon Su twittou que “verificou com alguém que trabalha no LA Phil e eles confirmaram” que a orquestra continuou tocando durante a comoção.
Ainda não está claro o que exatamente ocorreu na audiência. O Times entrou em contato com LA Phil para comentar, mas ninguém conseguiu identificar ou contatar a pessoa que fez o som.
Outros membros da audiência contestaram a teoria do orgasmo, afirmando que a mulher poderia ter feito o barulho ao acordar depois de ter adormecido. Alguns temiam que pudesse estar relacionado a uma condição médica ou emergência.
Um participante que estava sentado na fileira logo atrás da pessoa que fez o barulho disse que parecia que a mulher estava acordando de um ataque de sono quando fez o som.
“Muito rapidamente, ela meio que caiu nos ombros do parceiro e depois no colo dele. E então o corpo dela ficou mole”, lembrou o membro da platéia, que pediu anonimato para falar sobre o incidente. “Talvez uns cinco segundos depois, ela meio que acordou, e foi quando soltou um grito.”
O membro da plateia que estava sentado na fileira atrás da pessoa disse que já havia testemunhado uma pessoa com narcolepsia ter um ataque de sono, e o que ela viu no LA Phil parecia semelhante.
Depois que a mulher fez o barulho, seu parceiro e outra mulher sentada ao lado dela perguntaram se ela estava bem, e ela respondeu que estava, de acordo com a plateia, que relatou ter ouvido a conversa.
“Eu sei que outra pessoa mencionou que ela estava sorrindo, mas tenho certeza que ela estava muito envergonhada porque outras pessoas estavam olhando para ela”, disse o membro da platéia ao The Times.
Outro espectador enviou um e-mail ao The Times para dizer que ouviu o barulho, mas não achou que fosse um som de êxtase.
O programa de sexta-feira, dirigido pelo maestro Elim Chan, incluiu ainda a interpretação do Concerto para Violino “Caminhos Concêntricos” de Thomas Adès.
As notas do programa online de LA Phil incluem esta descrição do segundo movimento da Sinfonia nº 5 de Tchaikovsky :
“O delicioso tema principal foi adaptado para uma popular canção de amor. A orquestração habilidosa de Tchaikovsky, no entanto, eleva o clima do sentimentalismo ao alto romantismo. A melodia principal do movimento é apresentada em um solo memorável da trompa, seguido por outros atraentes solos de sopro.”
O agente musical Lukas Burton, disse que o som do membro da platéia foi “maravilhosamente cronometrado” dentro da “onda romântica” da sinfonia. “Não se pode saber exatamente o que aconteceu, mas parecia muito claro pelo som que era uma expressão de pura alegria física”, disse Burton. “Foi equivalente àquela cena em um filme em que alguém está falando alto em uma festa ou boate, e então a música para de repente e todos ouvem o que está sendo dito”.
Embora a explosão tenha sido claramente um momento incomum e surpreendente para um concerto de música clássica, Burton o descreveu como “bastante maravilhoso e revigorante”.
“Houve uma espécie de suspiro na plateia”, disse Burton. “Mas acho que todos sentiram que era uma expressão adorável de alguém que estava tão transportado pela música que teve algum tipo de efeito sobre eles fisicamente ou, ouso dizer, até sexualmente.”
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Christi Carras é repórter de entretenimento do Los Angeles Times. Ela foi anteriormente estagiária do Times depois de se formar na UCLA e também trabalhou na Variety, no Hollywood Reporter e na CNN.
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Aqui estão mais seis sinfonias que agregam valor de tipo íntimo:
1 Saint-Saens Sinfonia Nº 3 (aguarde o órgão)
2 Inextinguível de Nielsen (oh!, que maravilha!)
3 Strauss Sinfonia Doméstica (aviso aos pais: inclui cópula)
4 Szymanowski 3º: canção da noite (diz tudo)
5 Mahler Sinfonia Nº 7 (com duas músicas noturnas, duas!)
6 Scriabin Poème de l’Extase (diz tudo)
7 Malcolm Arnold: Toy Symphony
Um dos aspectos mais belos do ato da escrita, a meu ver, é a possibilidade de eternizar o cotidiano em palavras.
“Abra e Leia”, livro de contos de Milton Ribeiro (@editorazouk, 2021) é exatamente isto: um presente elegante que, ao ser desembrulhado, traz histórias que provocam lágrimas, riso, reflexão social, alívio à mente.
Também uma importante lembrança de que a vida “comum” é, em verdade, uma profusão borbulhante de pequenos grandes atos magníficos – ora sincrônicos, ora caóticos.
Atos estes que conduzem a leitora e o leitor a, invariavelmente, lembrarem de suas próprias perdas, ganhos, sortes, azares e amores vividos.
Como ocorre quando se escuta uma orquestra, Milton convoca também nossa subjetividade à interpretação: alguns contos parecem inacabados. Um convite à imaginação.
E, de fato, se não houvesse a palavra somada à imaginação, para onde iriam todas estas histórias?
Grata a ti, @miltonrib, por eternizá-las.
O autor que se propõe a observar a vida sob a lente do detalhe, do aparentemente banal – e nem por isso menos extraordinário – é um ser humano generoso, acredito.
E a ti que me acompanha por aqui, fica esta baita dica de leitura. 😊
Cerimônia de entrega – dia 24 de abril de 2023, Palácio Nacional de Queluz, às 16.00 horas.
Ao receber este prêmio penso no meu pai, o historiador e sociólogo Sergio Buarque de Holanda, de quem herdei alguns livros e o amor pela língua portuguesa. Relembro quantas vezes interrompi seus estudos para lhe submeter meus escritos juvenis, que ele julgava sem complacência nem excessiva severidade, para em seguida me indicar leituras que poderiam me valer numa eventual carreira literária. Mais tarde, quando me bandeei para a música popular, não se aborreceu, longe disso, pois gostava de samba, tocava um pouco de piano e era amigo próximo de Vinicius de Moraes, para quem a palavra cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais sensual de falar a nossa língua. Posso imaginar meu pai coruja ao me ver hoje aqui, se bem que, caso fosse possível nos encontrarmos neste salão, eu estaria na assistência e ele cá no meu posto, a receber o Prêmio Camões com muito mais propriedade. Meu pai também contribuiu para a minha formação política, ele que durante a ditadura do Estado Novo militou na Esquerda Democrática, futuro Partido Socialista Brasileiro. No fim dos anos sessenta, retirou-se da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em solidariedade a colegas cassados pela ditadura militar. Mais para o fim da vida, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, sem chegar a ver a restauração democrática no nosso país, nem muito menos pressupor que um dia cairíamos num fosso sob muitos aspectos mais profundo.
O meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô, mineiro, meu tataravô, baiano. Tenho antepassados negros e indígenas, cujos nomes meus antepassados brancos trataram de suprimir da história familiar. Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias sangue do açoitado e do açoitador, o que ajuda a nos explicar um pouco. Recuando no tempo em busca das minhas origens, recentemente vim a saber que tive por duodecavós paternos o casal Shemtov ben Abraham, batizado como Diogo Pires, e Orovida Fidalgo, oriundos da comunidade barcelense. A exemplo de tantos cristãos-novos portugueses, sua prole exilou-se no Nordeste brasileiro do século XVI. Assim, enquanto descendente de judeus sefarditas perseguidos pela Inquisição, pode ser que algum dia eu também alcance o direito à cidadania portuguesa a modo de reparação histórica. Já morei fora do Brasil e não pretendo repetir a experiência, mas é sempre bom saber que tenho uma porta entreaberta em Portugal, onde mais ou menos sinto-me em casa e esmero-me nas colocações pronominais. Conheci Lisboa, Coimbra e Porto em 1966, ao lado de João Cabral de Melo Neto, quando aqui foi encenado seu poema Morte e Vida Severina com músicas minhas, ele, um poeta consagrado e eu, um atrevido estudante de arquitetura. O grande João Cabral, primeiro brasileiro a receber o Prêmio Camões, sabidamente não gostava de música, e não sei se chegou a folhear algum livro meu.
Escrevi um primeiro romance, Estorvo, em 1990, e publicá-lo foi para mim como me arriscar novamente no escritório do meu pai em busca de sua aprovação. Contei dessa vez com padrinhos como Rubem Fonseca, Raduan Nassar e José Saramago, hoje meus colegas de prêmio Camões. De vários autores aqui premiados fui amigo, e de outras e outros – do Brasil, de Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde – sou leitor e admirador. Mas por mais que eu leia e fale de literatura, por mais que eu publique romances e contos, por mais que eu receba prêmios literários, faço gosto em ser reconhecido no Brasil como compositor popular e, em Portugal, como o gajo que um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim.
Valeu a pena esperar por esta cerimônia, marcada não por acaso para a véspera do dia em os portugueses descem a Avenida da Liberdade a festejar a Revolução dos Cravos. Lá se vão quatro anos que meu prêmio foi anunciado e eu já me perguntava se me haviam esquecido, ou, quem sabe, se prêmios também são perecíveis, têm prazo de validade. Quatro anos, com uma pandemia no meio, davam às vezes a impressão de que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de um governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Aquele governo foi derrotado nas urnas, mas nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça fascista persiste, no Brasil como um pouco por toda parte. Hoje, porém, nesta tarde de celebração, reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando seu espaço em branco para a assinatura do nosso presidente Lula. Recebo este prêmio menos como uma honraria pessoal, e mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e obscurantismo.
Quem não tem muita vivência na área da música de concerto talvez torça o nariz para o programa da Ospa desta quinta-feira (20), às 20h, na Casa da Música da Ospa, mas garanto que ele é de extraordinária qualidade.
O programa é o seguinte:
Johann N. Hummel | Concerto para Trompete em Mi Bemol Maior
I. Allegro con spirito
II. Andante
III. Rondó: Allegro
Franz Berwald | Sinfonia n° 3 em Dó Maior, ‘Singular’
I. Allegro fuocoso
II. Adagio – Scherzo – Adagio
III. Finale: Presto
Primeiramente, vamos pedir a ajuda de Adriano Brandão a fim de tentar descrever o que é Sinfonia Nº 3 de Franz Berwald, a “Sinfonia Singular”. O primeiro parágrafo é meu. Os outros são dele. O Adriano destaca os dois movimentos finais da sinfonia, mas, para mim, a grande surpresa e alegria é o primeiro movimento, apesar de eu achar toda a sinfonia linda.
Um dia, estava dirigindo para o trabalho e a Sinfonia Singular começou a tocar na rádio da UFRGS. Cheguei a meu destino ao final do primeiro movimento e não consegui sair de dentro do carro até o final. Eu simplesmente TINHA que saber o que era aquilo. Era 1989. Então, o locutor anunciou Franz Berwald? Berwald? Who the fuck is Berwald? Logo importei um vinil alemão e pude comprovar meu amor pela Sinfonia. Berwald é uma raridade. Você conhece outro compositor sueco? Dentre os escandinavos, você certamente conhece o norueguês Grieg, o finlandês Sibelius e o dinamarquês Nielsen. Eles são raros, né? E a Suécia não gerou grandes nomes. Franz Adolf Berwald foi praticamente ignorado enquanto era vivo. Por isso, teve que procurar uma outra ocupação. Berwald trabalhou como cirurgião ortopédico, e posteriormente administrou uma serraria e uma fundição de vidro. Hoje, ele é considerado o compositor sueco mais importante de seu século. Em 1976, a nova sala de concertos da Sveriges Radio recebeu o nome de Berwaldhallen. Berwald morreu em Estocolmo em 1868 de pneumonia.
Não são raros os casos de artistas totalmente esquecidos durante suas vidas e que alcançam certo status “cult” décadas ou mesmo séculos depois.
Apresento-lhes o sueco Franz Berwald. Personalidade curiosíssima, sobreviveu tanto a Schubert quanto a Mendelssohn e Schumann, seus contemporâneos, sem nunca ser plenamente bem-sucedido em viver de sua música. Aliás, várias vezes ele teve de empreender em áreas bem distantes, com sucesso bem maior: ortopedia, fisioterapia, vidraçaria…
Compôs quatro sinfonias, todas com subtítulos em francês. Apenas a Primeira, dita “Sérieuse”, foi executada em sua vida. Nunca ouviu as demais. Quando já estava bem velhinho, obteve o primeiro sucesso: sua ópera “Estrella de Soria” foi montada e bem recebida. O governo sueco reconheceu seus esforços, deu-lhe uma medalha, o indicou para o Conservatório de Estocolmo e… Berwald morreu. :-/
A posteridade foi-lhe muito mais receptiva. No século 20, principalmente, suas inusitadas e originais sinfonias foram redescobertas e enfim executadas, gravadas e aplaudidas. Hoje Berwald é reconhecido como o principal compositor sueco.
Pense em um Mendelssohn cheio de arestas: bizarrices, repetições esquisitas, trechos semi-estáticos, melodias estranhas, harmonias pontiagudas… Esse é o estilo de Berwald. Sua sinfonia mais representativa é a Terceira, a “Singulière”. O mais bacana dessa obra, de 1845, é o “encapsulamento” do scherzo DENTRO do movimento lento. Fora o finale de um vigor realmente impressionante, que chega até a lembrar Brahms ou Bruckner.
Vale conhecer. É divertido pacas. Nosso amigo ortopedista, fisioterapeuta e vidraceiro sabia compor sinfonias interessantes 🙂
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O Concerto para Trompete (Concerto a Trombe Principale) de Johann Nepomuk Hummel e ficou famoso lá por 1983, quando Wynton Marsalis lançou seu LP de estreia na música erudita. Lá estava — em extraordinária interpretação — o Concerto, ao lado do de Haydn e de uma peça de Leopold Mozart. Foi ali que o conheci e jamais esqueci dele.
Hummel escreveu o Concerto para o virtuoso vienense e inventor do trompete de teclas Anton Weidinger (assim como Haydn tinha feito antes). Ele foi escrito em dezembro de 1803 e executado no dia de Ano Novo de 1804 para marcar a entrada de Hummel na orquestra da corte de Nikolaus II, Príncipe Esterházy, como sucessor de Haydn. Há lugares, principalmente no segundo movimento, onde se acredita que Weidinger alterou a música para adequá-la melhor ao instrumento. Não se sabe se falou antes com Hummel.
Originalmente esta peça foi escrita em mi maior. A peça é frequentemente executada em mi bemol maior, o que torna o dedilhado menos difícil nos trompetes modernos em mi bemol e si bemol.
O Concerto é muito bonito. Tem um Andante belíssimo, assim como o Rondó final.
Ou seja, não perca!
Ensaio da Ospa em 19/04. Na foto, o maestro Mateus Araujo com o trompetista Diogo Gomes | Foto: Vitória Proença / Ospa.
Landscape with the Fall of Icarus, c.1555 (oil on canvas) by Bruegel, Pieter the Elder (c.1525-69); 73.5×112 cm; Musees Royaux des Beaux-Arts de Belgique, Brussels, Belgium; (add.info.: Icarus seen with his legs thrashing in the sea;); Giraudon; Flemish, out of copyright
Salman Rushdie está entre os que ficaram irritados depois que algumas passagens relacionadas a peso, gênero, saúde mental e raça foram reescritas
Há um grande debate no meio cultural inglês. Críticos estão acusando a editora britânica dos clássicos livros infantis de Roald Dahl de censura depois que ela removeu a linguagem colorida de obras como A Fantástica Fábrica de Chocolate e Matilda para torná-las mais aceitáveis para os leitores modernos.
Uma revisão das novas edições dos livros de Dahl estão agora disponíveis nas livrarias do país mostra que algumas passagens relacionadas a peso, saúde mental, gênero e raça foram alteradas. As mudanças feitas pela Puffin Books, uma divisão da Penguin Random House, foram relatadas primeiro pelo jornal britânico Daily Telegraph.
Augustus Gloop, o guloso antagonista de Charlie em A Fantástica Fábrica de Chocolate, publicado originalmente em 1964, não é mais “enormemente gordo”, apenas “enorme”. Na nova edição de As Bruxas, uma mulher sobrenatural se passando por uma mulher comum pode estar trabalhando como uma “cientista de ponta ou administrando um negócio”, mas não como “caixa em um supermercado ou digitando cartas para um empresário”.
A palavra “preto” foi removida da descrição dos terríveis tratores de O Fantástico Sr. Raposo. As máquinas agora são simplesmente “monstros assassinos e de aparência brutal”.
O autor vencedor do prêmio Booker, Salman Rushdie, está entre aqueles que reagiram com raiva à reescrita das palavras de Dahl. Rushdie viveu escondido por anos depois que o Aiatolá Khomeini do Irã, em 1989. emitiu uma fatwa pedindo sua morte por causa da suposta blasfêmia em seu romance Os Versos Satânicos. Ele foi atacado e gravemente ferido no ano passado em um evento no estado de Nova York.
“Roald Dahl não era um anjo, mas isso é uma censura absurda”, escreveu Rushdie no Twitter. “A Puffin Books e o espólio Dahl deveriam ter vergonha.”
As mudanças nos livros de Dahl marcam o mais recente conflito em um debate sobre a sensibilidade cultural, já que os ativistas buscam proteger os jovens dos estereótipos culturais, étnicos e de gênero na literatura e em outras mídias, e os críticos. Estes reclamam que as revisões para se adequar às sensibilidades do século 21 correm o risco de minar o gênio dos grandes artistas e impedir os leitores de confrontar o mundo como ele é.
A Roald Dahl Story Company, que controla os direitos dos livros, disse que trabalhou com Puffin para revisar os textos porque queria garantir que “as maravilhosas histórias e personagens de Dahl continuem sendo apreciados por todas as crianças hoje”.
A linguagem foi revisada em parceria com o Inclusive Minds, coletivo que trabalha para tornar a literatura infantil mais inclusiva e acessível. Quaisquer mudanças foram “pequenas e cuidadosamente consideradas”, disse a empresa.
Ele disse que a análise começou em 2020, antes de a Netflix comprar a Roald Dahl Story Company e embarcar em planos para produzir uma nova geração de filmes baseados nos livros do autor.
“Ao publicar novas tiragens de livros escritos anos atrás, não é incomum revisar a linguagem usada junto com a atualização de outros detalhes, incluindo a capa do livro e o layout da página”, disse a empresa. “Nosso princípio orientador tem sido manter as histórias, os personagens e a irreverência e o espírito afiado do texto original.”
A Puffin não quis se pronunciar.
Dahl morreu em 1990 aos 74 anos. Seus livros, que venderam mais de 300 milhões de cópias, foram traduzidos para 68 idiomas e continuam a ser lidos por crianças em todo o mundo.
Mas ele também é uma figura controversa por causa dos comentários antissemitas feitos ao longo de sua vida.
A família Dahl pediu desculpas em 2020, dizendo que reconhecia a “mágoa duradoura e compreensível causada pelas declarações antissemitas de Roald Dahl”.
Independentemente de suas falhas pessoais, os fãs dos livros de Dahl celebram seu uso de uma linguagem às vezes sombria que aborda os medos das crianças, bem como seu senso de humor.
A PEN America, uma comunidade de 7.500 escritores que defende a liberdade de expressão, disse estar “alarmada” com os relatos das mudanças nos livros de Dahl.
“Se começarmos a tentar corrigir os deslizes percebidos, em vez de permitir que os leitores recebam e reajam aos livros como estão escritos, corremos o risco de distorcer o trabalho de grandes autores e ofuscar as lentes essenciais que a literatura oferece à sociedade”, twittou Suzanne Nossel , o executivo-chefe da PEN America.
Laura Hackett, uma fã de infância de Dahl que agora é vice-editora literária do jornal londrino Sunday Times, teve uma reação mais pessoal à notícia.
“Os editores da Puffin deveriam ter vergonha da cirurgia malfeita que realizaram em algumas das melhores literaturas infantis da Grã-Bretanha”, escreveu ela. “Quanto a mim, guardarei cuidadosamente minhas antigas cópias originais das histórias de Dahl, para que um dia meus filhos possam apreciá-las em toda a sua glória colorida e desagradável.”