Uma linda declaração de amor escrita por Virginia Woolf

Uma linda declaração de amor escrita por Virginia Woolf

“Fico deitada & penso na minha adorada fera, que me torna mais feliz a cada dia & instante de minha vida do que jamais pensei ser possível. Não há dúvida de que estou terrivelmente apaixonada por você. Ponho-me a pensar no que estará fazendo, & tenho que parar porque começo a querer muito beijar você.”

Virginia Woolf, em um de seus diários.

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Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino

Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino

Acho que foi a Telma Scherer quem chamou este livro de “aula”. Ela tem razão. Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, é ideal para quem quer refletir sobre o romance como experiência escrita e lida. O livro é de 1979 e literalmente me deixou perplexo quando o li no século XX. Para minha nenhuma surpresa, logo tornou‑se um dos marcos da literatura pós‑moderna. É um romance sobre o ato de ler (e de escrever) um romance. “Você está prestes a começar a ler o novo romance de Italo Calvino…”. Já nessa primeira frase, o leitor é chamado a ser personagem de sua própria leitura — isso sem os apelos fáceis ao sobrenatural. A magia do texto nos chama. Se um viajante é absolutamente metaficcional, ou seja, faz-nos lembrar frequentemente — muitas vezes de forma irônica – de que estamos diante de uma obra de ficção. (E, não obstante, esta fato, sempre nos embrenhamos nas histórias e queremos saber mais).

A narrativa é dividida em 22 capítulos. Os ímpares são escritos em segunda pessoa (“você, Leitor”) e descrevem a tentativa do leitor de seguir sua leitura, que começa com um romance intitulado como o próprio livro. Os outros capítulos, os pares, são primeiros capítulos de outros romances que são interrompidos. Há diversos gêneros — realismo mágico, detetive, ficção científica, romance psicológico, amor –, sempre em fragmentos cortados abruptamente por uma “razão editorial” ou conspiração. Sim, é lúdico, mas totalmente decepcionante para quem quer mergulhar num fluxo ficcional contínuo. É um curioso livro sobre a estrutura e os mecanismos dos romances.

Assim, Se um viajante se desdobra em dez narrativas distintas — nenhuma delas concluída –, ao mesmo tempo avança o enredo central dos capítulos ímpares: a busca do Leitor (e da Leitora, Ludmilla) por um texto completo, assim como a busca do Leitor por Ludmilla.

Calvino explora o que chamou de “romances interrompidos”, operando por cortes sucessivos, mais ou menos o que Bolaño faz de forma menos explícita. Cada fragmento introduz um novo universo, cria uma expectativa, mas… Tchau. Essa frustração força o leitor real (sim, a gente) a se sair do conforto e da atenção de uma leitura linear. É um romance que propõe que “você” é o protagonista, fazendo com que o Leitor “real” (sim, a gente) seja confrontado com o Leitor do romance, num emaranhado de camadas. Calvino mistura leitores, narradores, autores e traduções apócrifas, questionando quem — ou o que — decide que a leitura terminou. Em cartas, Calvino confirmou que se reconhecia influenciado por Nabokov e Barthes, o que tornaria o romance também um ensaio sobre o romance.

Mas por que tudo isso é tão legal? Por que devemos nos submeter a este romance cheio de cortes? Porque nos mata — metaforicamente — como leitores. Porque nos corta o desejo. Porque é cômico ser maltratado e aqui nós não estamos falando em ser maltratado por um mau livro, mas por um muito bom. Porque os abismos narrativos não esvaziam o romance, mas tornam-se livros que ainda podem ser escritos. Porque pensa o fazer literário. Porque o monte de distrações, erros de impressão outros mistérios que cortam a fluidez, mostram que ler é viajar, mas também é se conhecer e se reconhecer. Porque é estilisticamente elegante e sutil. Porque Calvino está sempre bem humorado — é um gozador.

Se um viajante numa noite de inverno não é apenas inovador, é um convite à reflexão sobre o desejo que move a leitura. Não entrega histórias fechadas — oferece os cortes que tememos em cada bom livro. Autores falsificam, enganam. Leitores colaboram — a obra exige que você entenda que o livro só existe quando alguém se dispõe a lê-lo com atenção.

Não sei mais o que escrever sobre um livro tão fácil de ler e tão difícil. Estou comentando um romance sobre a leitura, que faz pensar que ler é resistir ao fim, é recusar o fechamento. Por isso, e por ser esteticamente sedutor, é que é tão difícil de resenhar…

P.S. — Curiosamente, nunca vi este livro ser analisado em Oficinas de Literatura. Mas isso é outro tema…

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O Presidente, de Georges Simenon

O Presidente, de Georges Simenon

O Presidente está catalogado como um dos “romances sérios” de Georges Simenon. Os do detetive Maigret estariam no escaninho dos não-sérios. E, com efeito, trata-se de um livro ambicioso, um exercício plenamente justificado e bem sucedido.

Em um chalé na Normandia, um homem idoso observa o mar e a passagem do tempo. Ele é Augustin Bouville, ex-presidente do Conselho de Ministros da França (um cargo equivalente ao de primeiro-ministro). Ele foi uma das figuras mais poderosas da França, aquele sujeito que é uma espécie de reserva moral do país, que é sempre consultado e entrevistado durante as crises e tal. Aos 82 anos, debilitado por uma saúde já frágil, blindado por serviçais e enfermeiras, ele remói suas lembranças enquanto acompanha pelo rádio uma grave crise política que ameaça a República. Está perfeitamente lúcido. O contraste entre a grandeza do passado e a fragilidade do presente é o pano de fundo para um mergulho na natureza do poder e na irrelevância final.

É um romance político, mas é principalmente um estudo psicológico muito íntimo sobre o esvaziamento que sucede o poder. Simenon, conhecido por sua prosa econômica, direta e atmosférica, abandona aqui qualquer resquício de suspense policial para se concentrar na mente de quem já comandou uma nação e agora mal comanda seu próprio corpo.

A narrativa alterna-se entre o presente claustrofóbico de Bouville — seus rituais, sua dependência da enfermeira, sua visão embaçada — e as memórias de suas manobras políticas. Não é herói nem vilão, é um pragmático. Relembra as traições, os acordos nos bastidores. A pergunta que Simenon sugere e não faz é: tudo isso valeu a pena? O que sobra de um homem quando o poder o abandona?

A crise do rádio serve como um espelho cruel. Ele vê seus sucessores, outrora seus subordinados, repetindo os mesmos jogos, cometendo os mesmos erros, enquanto ele, que pensa poder contribuir, está reduzido a um espectro irrelevante. O poder foi apenas um empréstimo temporário.

A caracterização do Presidente é uma perfeição. Simenon explora com precisão a vaidade bem escondida, o tédio e a lucidez de um homem no fim da linha. Claro, o livro é uma reflexão desencantada sobre a política. Sugere que os mecanismos são cíclicos e que os homens que os operam são, no fundo, intercambiáveis e vulneráveis. O som do mar, o clima cinzento da Normandia e a quietude da casa refletem o estado interior do protagonista.

É um livro introspectivo para quem aprecia histórias que exploram as complexidades morais e a condição humana. Não tem grande ação nem enredo movimentado. O Presidente é um dos romances mais sérios e ambiciosos de Simenon. É um livro triste e profundamente inteligente.

Recomendo, mas só tem em sebos.

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Os cagões das letras

Fico feliz cada vez que leio um escritor se manifestando politicamente. Compreendo a necessidade de receber a grana das feiras que ocorrem em várias cidades e que são fundamentais para a sobrevivência, sei que os secretários “de cultura” são em maioria bolsonaristas ou evangélicos, mas saúdo a coragem dos poucos que vão de encontro à vulgaridade da extrema direita — para dizer o mínimo. Hoje li alguns falando sobre o início do julgamento, mas a maioria fica quieta com medinho, fazendo gracinhas com platitudes.

Gente, quem lê livros não é bolsonarista. Por exemplo, aqui na Livraria Bamboletras, até hoje, ninguém se identificou como tal.

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Sou eu, segundo o Óscar Fuchs

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4 poemas para o Dr. Milton Cardoso Ribeiro (1927-1993), meu pai

4 poemas para o Dr. Milton Cardoso Ribeiro (1927-1993), meu pai

MEU PAI
Ferreira Gullar

meu pai foi ao Rio
se tratar de um câncer
(que o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele examinou
o estojo com o nome
da loja, dobrou a nota,
guardou-a no bolso
e falou: quero ver agora
qual é o sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro

DISTINÇÃO
Carlos Drummond de Andrade

O Pai se escreve sempre
com P grande, em letras
de respeito e de tremor,
se é Pai da gente.
E Mãe, com M grande.

O Pai é imenso.
A Mãe, pouco menor.
Com ela, sim, me entendo
bem melhor: Mãe é
muito mais fácil
de enganar.

(Razão, eu sei,
de mais aberto amor.)

IMPRESSIONISTA
Adélia Prado

Uma ocasião, meu pai
pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos
numa casa, como ele mesmo
dizia, constantemente
amanhecendo.

NA HORA DE PÔR A MESA, ÉRAMOS CINCO
José Luís Peixoto

na hora de pôr a mesa,
éramos cinco: o meu pai,
a minha mãe, as minhas
irmãs e eu. depois,
a minha irmã mais velha
casou-se. depois,
a minha irmã mais nova
casou-se. depois,
o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa,
somos cinco, menos
a minha irmã mais velha
que está na casa dela,
menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela,
menos o meu pai, menos
a minha mãe viúva.
cada um deles é um lugar
vazio nesta mesa
onde como sozinho.
mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa,
seremos sempre cinco.
enquanto um de nós
estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Na foto, ele, minha irmã Iracema Gonçalves, eu e minha mãe. Éramos quatro.,

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Infinita, de Camila Maccari

Infinita, de Camila Maccari

Numa de suas entrevistas, sempre interessantes, Ingmar Bergman disse que às vezes obrigava seus personagens a fazerem coisas que ele mesmo não queria fazer. Esta é a impressão que tive ao terminar a leitura do ótimo Infinita, de Camila Maccari. Mas vou adiante sem spoilers, tá?

A personagem principal deste excelente romance decide que — atendendo a sugestões — precisa mesmo de um tempo para si. Sai cansada do trabalho e vai tomar uma cerveja num bar. O que seria relaxante acaba numa cena de triste comicidade. A cadeira onde está sentada quebra devido ao alto peso da usuária, que cai estatelada no chão. Ela levanta, tentando manter a dignidade, mas imaginando a qualidade de cena que protagonizou. O fato atinge algo essencial nela: o tamanho de seu corpo, exatamente aquilo que deveria passar despercebido. Este é o estopim de uma série de decisões que acontecem misturadas a memórias de fracassos pessoais, sucesso profissional, violências. É um corpo que, não adianta, sempre entrará no espaço social de forma inversamente proporcional a seu tamanho. Tanto maior, quanto mais exíguo.

Depois disso, a protagonista sem nome faz um levantamento emocional da gordofobia, do julgamento das pessoas, dos regimes que a levaram a perder e recuperar metade de seu peso, da falta do direito de existir — fato que ela até parece admitir, pois trabalha com eficiência e como uma condenada para que os colegas a amem e não vejam sua gordura… A narrativa vem em duas camadas: a primeira é a do quase gentil narrador onisciente, em terceira pessoa, e outra em itálico, muito mais acusatória e que trata a mulher por “você”. Claro que esta é uma voz interna, muito mais terrível.

Maccari é minuciosa. Detalha cuidadosamente os sentimentos para mostrar como tudo aquilo é cansativo.  Até as pessoas que a amam estão de olho. A voz em itálico responde às acusações gritando pai, se não fosse por isso, eu seria perfeita. Seu corpo é tema público, seja pelo emagrecimento (elogios), seja pelo aumento (silêncio, exame). Ainda sobre os pais: “Quando surgia cada vez mais gorda na frente deles, era como se o rosto dos dois se transformasse em um espelho e a única maneira de fugir de sua imagem refletida era não se colocando diante dela”.

A escrita está perfeitamente adequada ao tema. Sem grande poesia, a narradora fala sobre a gordofobia e sobre aquelas raras pessoas que não dão importância a seus processos e tentativas. Pouco a pouco, a narrativa torna-se mais cínica e feroz, o que é lindo de ler, pois este leitor não gosta da vida cor-de-rosa e sim da vida interessante… À moda Calligaris. O final do livro é extremamente elegante e simbólico.

Sem ilusões, Infinita não resolverá o problema de ninguém, mas fala de como os magros se apropriam e batem nos gordos. De como os “em forma” impedem o amor-próprio deles impingindo-lhes a rejeição e a autorrejeição. Claro que não é um livro confortável, mas há uma boa dose de consolo e reconhecimento nele. Calma, também não é uma aula de empatia, é uma narrativa realista e dura, que dá valor ao silêncio.

Recomendo.

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Bolsonaro (edição de colecionador)

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Ignóbil. Basculho. Baixo. Repugnante. Canalha. Deplorável. Mesquinho. Patife. Ordinário. Reles. Pulha. Sórdido. Torpe. Velhaco. Abominável. Detestável. Ralé. Biltre. Infame. Bandalho. Aberração. Calhorda.

Desprezível. Pífio. Ignorante. Vil. Ribaldo. Soez. Jagodes. Cafajeste. Bronco. Inculto. Escapista. Néscio. Estúpido. Rude. Verme. Desgraçado. Maldito. Jumento. Monstruoso. Sádico. Burro. Insensível.

Mentecapto. Demônio. Desalmado. Incapaz. Covarde. Crápula. Incompetente. Doentio. Sociopata. Peste. Idiota. Energúmeno. Reaça. Desequilibrado. Imoral. Rato. Mandrião. Beócio. Abjeto. Descarado. Pusilânime. Enxurro. Choldra. Gentalha. Labrusco. Desrespeitoso. Cruel. Facínora. Atroz. Maligno. Cafona.

Execrável. Infando. Nefando. Zé Ruela. Inclemente. Mau. Sicário. Viperino. Tirano. Impiedoso. Desumano. Malfeitor. Celerado. Estrupício. Chorume. Louco. Escroto. Lixo. Inútil. Escória. Ogro. Mitômano. Ególatra. Tosco. Verdugo. Mentiroso. Cavernícola. Asno. Babaca. Déspota. Autoritário. Morte. Opressor. Tapado. Mandão. Autocrata. Desnecessário. Safardana. Prepotente. Abusivo. Injusto. Reacionário. Fascista.

Cínico. Animal. Desaforado. Histrião. Grosseiro. Vulgar. Paspalho. Malandro. Inconveniente. Sujo. Sem-vergonha. Obsceno. Brega. Charlatão. Perverso. Monstro. Ditador. Embusteiro. Horrível. Desnaturado. Carrasco. Egocêntrico. Mariola. Salafrário. Imbecil. Lunático. Bufão. Garganta. Farofeiro. Farsante. Oportunista. Indefensável. Broxável. Carniceiro. Irresponsável. Excrementíssimo. Marginal. Praga.

Traiçoeiro. Criminoso. Terrorista. Asqueroso. Cu de boi. Podre. Capiroto. Embuste. Lazarento. Indecoroso. Desmoralizado. Imprudente. Maléfico. Parasita. Delinquente. Seboso. Coisa-ruim. Quadrilheiro. Arrombado. Mau-caráter. Frouxo. Fracassado. Ressentido. Obtuso. Brutamontes. Cavalgadura. Descortês.

Lorpa. Pateta. Cretino. Parvo. Pacóvio. Inapto. Desqualificado. Pequi roído. Genocida. Usurpador. Golpista. Fujão. Investigado. Inelegível. Conspirador. Interrogado. Trapaceiro. Arbitrário. Insurgente. Enganador. Indiciado. Monitorado.

Preso.

Mariliz Pereira Jorge
Jornalista e roteirista de TV

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Julie Christie

Julie Christie

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Para iniciar o mês

Para iniciar o mês

Leio Tchékhov não porque ele seja um revolucionário ou porque ofereça uma visão em que a vida brilhe especialmente, mas porque ele acompanha seus personagens (e a nós) ao lugar do estreitamento da vida, onde somos pressionados por todos os lados. Entrar nos túneis de uma história de Tchékhov é sentir esse estreitamento que nos confunde e nos aflige — seja pela pobreza, pelo desespero, pela indolência ou pelas ilusões — e, ao mesmo tempo, compará-lo com a imensidão de nossas esperanças.

Depois, muitas vezes tomamos consciência de alguma bondade que nos acompanha àquele lugar estreito, em meio a toda a nossa aflição. Leia quase qualquer história de Tchékhov e você sentirá simultaneamente a pobreza da vida, as vaidades do ser humano e o poder da empatia.

Acho sua obra encorajadora precisamente porque cada personagem está humanamente contrário a seus destinos sufocantes. E Deus não existe, claro, permanecendo em silêncio, sem aquela algaravia toda de Dostoiévski. No entanto, o testemunho atento e observador de Tchékhov dessas pessoas em luta soa como uma espécie de amor muito profundo.

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Da vida

Da vida

Era 2013 e eu estava discutindo os termos de minha separação quando comecei a namorar a Elena. Fiquei só mês sozinho, nem isso, acho. Então, minha ex — que tinha se retirado voluntariamente de nossa casa — soube, voltou e trocou as chaves de casa. Fiquei temporariamente sem minhas coisas. Eu estava no trabalho e ela me avisou do fato. Tu não vai conseguir entrar.

Fiquei pasmo e irritadíssimo, e disse para a Elena que não iria a um concerto àquela noite. Minha ex provavelmente estaria lá. Elena disse que de jeito nenhum eu deveria mudar meus planos. Tá bom. Comprei cueca, meias e camisa nova, tomei um banho e fui ao concerto. Minha ex efetivamente estava presente. Ignorei-a.

Foi disso que lembrei quando vi Alexandre de Moraes todo feliz no jogo do Corinthians logo após ter sido sancionado por Trump.

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Atrás do balcão da Bamboletras (LXXIII): Direto do século XIX

Cada vez mais entram mendigos desesperados aqui na Livraria Bamboletras. Fome, simplesmente, está na cara deles. E a gente quase só recebe em pix e cartões. Eles não acreditam que não tenhamos cédulas ou que as moedas já tenham sido solicitadas.

Li hoje que a Argentina está numa situação social de século XIX, com poucos super-ricos e muitíssimos super-pobres. Não creio que nossa situação seja muito diferente.

Estou no meio, recebendo os mendigos e tentando não cair, apesar das pauladas do quase trilionário Bezos e sua horrenda Amazon.
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Obs. das 10h48: abri a livraria às 10h. Já entraram 2 pessoas pedindo dinheiro.

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Bruckner 7

Ainda reverbera o tremendo Concerto da Ospa da última sexta-feira. A grega Zoe Zeniodi, regente titular da Orquestra Filarmônica de Buenos Aires (Teatro Colón), e diretora artística do El Sistema da Grécia comandou uma linda apresentação da Sinfonia Nº 7 de Anton Bruckner.

Esta Sinfonia foi a obra que fez com que Bruckner alcançasse o reconhecimento. Sua combinação única de majestade e intimidade emocional é difícil de ser descrita. A lenta construção dos dois primeiros movimentos é algo está sendo executado continuamente no meu cérebro deste sexta à noite.

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O amor é um monstro de Deus, de Luciana De Luca

O amor é um monstro de Deus, de Luciana De Luca

Muito bom livro. Lírico, cheio de ritmo e sensualidade, este romance argentino, muito bem traduzido por Sérgio Karam, constrói um cenário desolador em uma pequena vila do interior do país. Sob o olhar autoritário da mãe, a filha e narradora vive em uma casa sufocante. O pai nunca esteve verdadeiramente presente, o irmão vive com os porcos — parece ter problemas mentais. A mãe administra o destino da família com mão de ferro e crueldade. Ela não espera nada dos filhos, afastando-os por não corresponderem às suas expectativas. Além deste ambiente opressivo, há uma infestação de moscas, uma greve de coveiros e o calor sufocante e insalubre. Sim, parece que a nova e excelente literatura argentina não usa meias palavras. Ou usa? Usa sim. Pois há muita poesia e beleza na prosa de De Luca. Seu expressionismo não detalha muitas coisas e nem desenvolve grandemente personagens, antes torna a narrativa uma fonte de possíveis metáforas. A filha  é uma mulher gigante — sofre de acromegalia. –, o que dá mais um passo em direção ao expressionismo.

O amor é um monstro de Deus é um romance curto e de grande impacto. O texto de De Luca nos lembra outras vozes femininas intensas, também vindas da Argentina, como a de Mariana Enríquez. Os personagens, todos mais ou menos anômalos, compõem um cenário e tanto que é amplificado por uma prosa poética e perturbadora, dando enorme substância ao que é contado. Tal como nos livros de Mariana Enríquez, ficamos hipnotizados.

Quando dois missionários mórmons chegam à cidade com suas pequenas Bíblias e lábia, a novela toma ares — ao menos para mim — um pouco cômicos. Tudo explode com a súbita demonstração de sexualidade da moça gigante, fato que não devo detalhar por causa dos inevitáveis spoilers.

Como disse, o livro serve à diversas metáforas e interpretações. A protagonista é vista como um “monstro” e isso serve para ser posta à margem por suas características físicas. A chegada dos missionários abre questões sobre espiritualidade, amor e violência. Mas, querem saber?, acho tudo isso meio bobo. Li o livro pela história e pelo texto grudento de De Luca.

Recomendo para quem busca literatura que provoca e desconcerta.

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Democracias, a opinião do PUM

🔴 Quem escolhe o presidente:?🇧🇷 Quem tiver mais votos 🇺🇸 Delegados
🔴 Contagem dos votos: 🇧🇷 Mesmo dia 🇺🇸 Semanas
🔴 Forma de votação: 🇧🇷 Urnas eletrônicas 🇺🇸 Cabine e correio (diversas vezes votos de cidades inteiras sumiram
🔴 Órgão competente: 🇧🇷 Tribunal Superior eleitoral 🇺🇸 Não tem
🔴 Dia da votação: 🇧🇷 Todos podem 🇺🇸 Apenas quem é liberado do trabalho (prejudicando pessoas de baixa renda)
🔴 Tentativa de golpe: 🇧🇷 Julgados e punidos 🇺🇸 Nada aconteceu.

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Bruckner 7

O livro de Lauro Machado Coelho, “O Menestrel de Deus”, sobre Anton Bruckner, é uma revelação espantosa. Considerado um quase deficiente mental em sua época, a gente ouve sua música e pensa que simplesmente não é possível. O cara era um gênio!

Na verdade — e o livro de Lauro deixa tudo claro –, Bruckner era um neurótico manso com baixíssima autoestima. A insegurança que tinha tornava sua vida um inferno. Para piorar, era um catolicão organista de igreja.

Mas tivemos sorte. Em seu isolamento de celibatário (óbvio que as mulheres também eram um problema para Anton), em sua introspecção, ele conseguiu criar uma obra espetacular. Aliás, um jovem judeu, muito sofisticado intelectualmente, costumava visitá-lo para conversar sobre música. Sim, Gustav Mahler sabia que Bruckner era o cara. Além disso, o velho não era antissemita.

E talvez a maior obra de Bruckner seja a Sinfonia N° 7, que a Ospa tocará sábado. Foi seu primeiro e único triunfo em vida, apesar do receio das críticas. Que também vieram, claro.

É muito bom ouvir a Elena ensaiando esta música extraordinária no mesmo quarto onde estou lendo.

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O meu Brasil na Copa de 54

O meu Brasil na Copa de 54

Vamos falar um pouco sobre a incrível participação do Brasil na Copa de 54? Esta Copa foi na Suíça. Guardem este nome: Suíça.

Pois é, o Brasil jogava contra a Iugoslávia para saber quem chegaria às quartas-de-final. Os iugoslavos não estavam entendendo nada. Afinal, um empate classificaria ambos e o Brasil se matava em campo. Os comunistas de Tito queriam um jogo amigo e o Brasil mandava pedradas. No intervalo, os caras resolveram avisar os brasileiros de que o empate servia aos dois, mas os brasileiros não compreendiam coisa nenhuma daquela língua estranha deles e ficaram com mais raiva ainda.

No final, o jogo acabou em 1 x 1. Os iugoslavos respiraram aliviados, enquanto os brasileiros foram para o vestiário — como costumam fazer — chorando. Só depois alguém conseguiu entender o regulamento e informá-los de que, de fato… Eles estavam classificados.

Então o Brasil foi jogar contra o melhor time daquela Copa: a Hungria. O jogo acabou 4 x 2 para eles. Quando o Mr. Ellis apitou o fim da partida, começou uma batalha. Puskas, que assistira o jogo das arquibancadas, desceu ao gramado e provocou Pinheiro na entrada do vestiário. O zagueiro quebrou uma garrafa na cabeça do húngaro. E todos os jogadores se envolveram em grossa pancadaria.

O técnico brasileiro, Zezé Moreira, viu um gringo de terno correndo e não teve dúvida, deu-lhe uma bordoada. O agredido era o Ministro do Esporte da Hungria. No setor reservado às estações de rádio, para a surpresa dos discretos suíços, o árbitro brasileiro Mário Vianna berrava nos microfones impropérios contra o juiz inglês. Lançando a tese de que a seleção fora vítima de uma conspiração comunista financiada por Moscou, Vianna tentou invadir o vestiário de Mr. Ellis a fim de aplicar-lhe um corretivo.

No Brasil, mais exatamente no Rio de Janeiro, as pessoas ouviram Vianna e ficaram indignadas. Como resultado e em desagravo à honra nacional, foram quebrar a Embaixada da SUÉCIA.

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Amazon não é livraria, por Nanni Rios

No Matinal

Se eu fizesse uma enquete aqui sobre os assuntos mais abordados numa livraria, imagino que surgiriam respostas bem diversas. Um pouco porque, de alguma forma, dá pra dizer que todo assunto é assunto de livraria. E também porque seu objeto e motivo principal de existir é o livro, logo uma livraria inspira e fornece muitos insumos para qualquer debate.

Mas tem um assunto que me chama especial atenção quando aparece, porque mobiliza paixões. Tanto de quem trabalha na livraria quanto de alguns clientes. É um assunto nada óbvio. Não é política nem religião. Também não é futebol.

Acho que o assunto que mais mobiliza paixões dentro de uma livraria é a Amazon. E não é um assunto raro.

Essa semana mesmo aconteceu um desses momentos. Recebemos na Livraria Baleia um pedido de orçamento para aquisição de livros. Isso, a priori, é algo bem corriqueiro na nossa rotina operacional. E na grande maioria dos orçamentos que a gente manda, os preços são os “de capa”, que no jargão livreiro se refere aos preços sugeridos pelas editoras, sem qualquer desconto. A exceção é quando o orçamento pede muitos exemplares de um mesmo título, pois isso nos permite fazer uma compra maior junto à editora e negociar condições mais favoráveis do que no varejo, pois nas compras grandes, a gente ganha na escala.

Pois bem: no tal pedido, enviado pelo setor de compras de uma empresa, a solicitação era de 300 exemplares de um mesmo título. Por isso, conseguimos conceder um bom desconto. Ao menos era o que a gente achava.

Mandamos o orçamento no mesmo dia para o potencial cliente. E a resposta dele veio logo em seguida, com o tom da mais sincera indignação.

Entendedores já devem ter entendido o ponto da questão: ele tinha a expectativa de receber uma lista de preços ao menos parecidos com os da Amazon. Ele estava mais do que indignado: ele parecia decepcionado.

Eu fiquei preocupada com aquele retorno, não só por ser uma venda importante e significativa para o caixa da livraria, mas também pela janela de emoções que se abre sempre que alguém nos acusa (é sempre com paixão, como eu disse) de vender livros “mais caro do que a Amazon”, como se a livraria estivesse sendo desonesta, abusando nos valores e extorquindo quem gosta de ler.

Pode até parecer, mas esse último parágrafo não contém ironia. Eu sinto que é isso mesmo que as pessoas sentem quando descobrem a diferença de preços. E eu também sinto uma indignação profunda quando isso acontece. Porque não poderia haver acusação mais injusta.

Pois, voltando ao tal orçamento, eu parei tudo o que eu estava fazendo para redigir uma resposta que estancasse aquela indignação (a do moço do setor de compras e também a minha).

Fui cuidadosa, pois é assim que se lida com paixões. E também porque parti do pressuposto de que ele realmente não sabia como as coisas funcionavam.

Fiquei satisfeita com a resposta que redigi, no conteúdo e no tom. É sempre bom poder falar em nome de causas justas. E pensei depois que é bem possível que muita gente não saiba como essas coisas funcionam ou como diabos a Amazon oferece aqueles descontos inexplicáveis. Foi aí que decidi contar publicamente esse causo real, que me aconteceu essa semana, em pleno Amazon Prime Day, para dizer que, se esse é o seu caso, você não está só.

A quem interessar possa, reproduzo aqui alguns trechos didáticos sobre o funcionamento da Amazon em relação a livros:

“A primeira coisa a dizer é que a relação da Amazon com livros é diferente da nossa. E pra explicar melhor isso, vou te abrir alguns números: a gente trabalha normalmente com uma margem de ‘lucro’ de 35 a 40% sobre o preço de capa, variando de editora para editora. (…)

Enquanto isso, a Amazon pratica valores menores do que o preço de custo do livro, por mais estranho que isso possa parecer, pois o seu maior ganho não está numa eventual margem de lucro, mas sim nos dados de consumo que todas as pessoas atraídas pelas promoções fornecem a cada clique (é por isso, também, que não é possível fazer compra empresarial com CNPJ na Amazon, pois essa interação não é valiosa para eles). Isso é uma estratégia da empresa, que envolve também enfraquecer outros pontos de venda por meio da concorrência desleal com o objetivo de concentrar vendas e, com isso, poder ditar suas condições comerciais com as editoras.

Procurei o livro na Amazon, ele está com 35% de desconto. Pegue o que sobra e desconte mais impostos, taxa da transação financeira do site, embalagem, manuseio e outros serviços… e a conta não fecha. Entende?

Não vou nem me estender em outras questões éticas, que eu particularmente julgo relevantes, como relações trabalhistas abusivas, o fato de ser uma empresa estrangeira cujos impostos não retornam para a nossa cidade e a contrapartida cultural esperada de qualquer livraria, que, no caso da Amazon, é inexistente. E talvez aqui eu já esteja tratando de opiniões minhas… mas achei que poderia ser produtivo pontuar mesmo assim.

Dito isso, é óbvio que qualquer consumidor tem o direito de comprar onde quiser. E melhor ainda se for sabendo das informações que compartilhei acima.”

Por fim, o assunto já não era mais grana. Ao menos, não pra mim. Finalizei dizendo que a possibilidade de um desconto maior era, de fato, “irreal para qualquer livraria, tenho certeza. E, a rigor, Amazon não é livraria.”

Para saber mais sobre o comércio de livros na Amazon e por que deveríamos evitá-lo (e como deveríamos regulá-lo), eu recomendo dois livros: Contra Amazon e outros ensaios sobre a humanidade dos livros de Jorge Carrion e Como resistir à Amazon e por quê de Danny Caine, ambos publicados pela Editora Elefante, que não fornece diretamente nenhum livro de seu catálogo para a Amazon.

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Farrenc & Zoe

Farrenc & Zoe

Penso que o destaque do próximo Concerto da Ospa — nesta sexta, 18, às 20h — seja a Sinfonia Nº 2 de Louise Farrenc (1804-1875).

As poucas mulheres compositoras estão reaparecendo e isto é muito bom, além de reparador e artisticamente enriquecedor. Durante muito tempo, a história da música erudita foi escrita como se tivesse sido feita apenas por homens. Mas isso não reflete a verdade: mulheres compunham, regiam, ensinavam e inovavam — embora com frequência fossem subestimadas ou reduzidas ao papel de exceção.

Com 15 anos, Farrenc passou a se interessar pela composição e entrou para o Conservatório de Paris. Como mulheres não podiam frequentar aulas na instituição, recebia orientações de forma privada. Logo, tornou-se concertista de renome. A fama lhe rendeu um convite para dar aulas no Conservatório onde estudara, tornando-se, assim, a única mulher, no século XIX, a ocupar de modo efetivo uma posição permanente na instituição, na qual trabalharia por mais de três décadas – recebendo um salário menor do que o pago aos professores homens, claro…

Berlioz escreveu que ela era “capaz de criar orquestrações com um talento incomum entre as mulheres”. Mais reticências… Não conheço suas obras, mas sei que ela faz uma música de inspiração nada francesa, reverenciando Beethoven, Mozart e Mendelssohn.

A regência será da grega Zoe Zeniodi (foto), de quem a Elena fala muito bem. “Gesto claríssimo e preciso”, disse ela hoje pela manhã, enquanto eu a acompanhava até a sede da Ospa.

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Os Óculos de Ouro, de Giorgio Bassani

Os Óculos de Ouro, de Giorgio Bassani

Espécie de ensaio para o O Jardim dos Finzi-Contini (1962), transformado em (bom) filme por Vittorio De Sica, Os Óculos de Ouro (1958) é uma novela curta, mas densa, parte daquilo que ficou conhecido como o ciclo dos “Romances de Ferrara”, no qual o autor disseca, com elegância e dor contida, a vida moral na Itália fascista, no período de entreguerras. É uma narrativa onde a intimidade do indivíduo e a violência da sociedade lutam em silêncio.

A história gira em torno do Dr. Fadigati, um respeitado otorrinolaringologista que se estabelece em Ferrara — ele é culto, educado, solitário. Traz à cidade um certo glamour, uma elegância que seus colegas não tinham. Mas há algo nele que escapa aos códigos burgueses da cidade. Por que ele não casa com uma das moças da cidade? Já sentiram o problema, né? Os círculos sociais fingem não ver aquilo.

Narrada por um jovem judeu (alter ego do próprio Bassani), a novela alterna o olhar sobre Fadigati e a experiência pessoal do narrador, que também vai se marginalizando por ser judeu num regime que começa a institucionalizar o antissemitismo. Quando Fadigati se envolve com um rapaz da cidade, sua reputação desmorona. O escárnio torna-se implacável. O narrador observa — e se vê espelhado na derrocada do médico. Ambos estão condenados não por suas ações, mas por aquilo que são, diante de um mundo que exige hipocrisia.

(As cenas passadas no trem, onde Fadigati frequentemente viaja com estudantes a fim de passar uns dias em Bolonha — para ver óperas e ter encontros –, são extraordinárias).

Sim, é um livro sobre o preconceito: tanto contra judeus quanto contra os homossexuais. Também sobre a classe média fascista: respeitável e cruel.

Giorgio Bassani (1916-2000) escreve com prosa clara, elegante e melancólica, como quem tenta conter a violência com formas perfeitas. O ritmo é calmo, mas carregado de tensão e afetividade. Nada explode — tudo apodrece. Não é apenas um livro sobre um médico homossexual e um jovem judeu. É, sobretudo, um livro sobre a postura de uma sociedade diante da diferença — e sobre o sofrimento de quem insiste em ser quem é.

Giorgio Bassani (1916-2000)

 

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