Na manhã do dia 12 de janeiro, fomos ao Museu Pergamon (Pergamonmuseum), bem no centro da Ilha dos Museus. A Elena estava meio mal em razão do vinho do dia anterior, mas a visita ao Pergamon foi excelente. Este museu teve sua construção realizada entre 1910 e o final em 1930. Ele é organizado em 3 partes:
— a coleção de arte da antiguidade clássica, onde se destacam o enorme Altar de Pérgamo e as Portas do Mercado de Mileto, bem como belíssimos exemplares de escultura grega e romana;
— o Museu do Antigo Oriente Próximo, que, para além da grandiosa Porta de Ishtar, contém uma grande coleção de arte islâmica, com objetos provenientes da Antiga Babilônia e da Suméria;
— o museu de Arte Islâmica, com destaque para a Fachada de Mshatta, um palácio do século VIII descoberto (e roubado, claro) na atual Jordânia, bem como excelentes exemplares de artes decorativas islâmicas.
Por ano, o museu recebe aproximadamente 850 mil pessoas.
São bons esses assírios, né? Na falta do Porque hoje é sábado resolviam a coisa a sua maneira.
Gente, o que é isso?
O Facebook jamais aceitaria a arte assíria!
Abaixo, nossa heroína.
Mas
nada
disso
interessa.
Pois era o dia
de se despedir do Bernardo.
E almoçamos um belo almoço e caminhamos pela cidade.
Foi um daqueles momentos de saudade prévia em que a gente pode chorar a qualquer momento.
E que dá vontade de ficar abraçado para jamais esquecer do filho querido.
A causa a que devotei boa parte da minha vida não prosperou. Eu espero que isto me tenha transformado em um historiador melhor, já que a melhor história é escrita por aqueles que perderam algo. Os vencedores pensam que a história terminou bem porque eles estavam certos, ao passo que os perdedores perguntam por que tudo foi diferente, e esta é uma questão muito mais relevante.
ERIC HOBSBAWN na contracapa do livro “Pessoas Extraordinárias”
Então, o que é um texto de qualidade? É o que sempre foi: ou seja, enfiar a cabeça no escuro, saber saltar no vazio, sabendo que a literatura é basicamente uma profissão perigosa. É correr ao longo da beira do precipício: de um lado do abismo sem fundo, de outro, os rostos que você ama, os rostos sorridentes que você quer ver, e livros, e amigos, e comida. É aceitar essa evidência, embora, por vezes, pese mais a laje que cobre os restos dos escritores mortos. A literatura, como diria um andaluz, é um perigo.
ROBERTO BOLAÑO
O futebol é a última representação sacra de nosso tempo. No fundo é um ritual, mesmo que seja um passatempo. Enquanto outras representações sacras, até a missa, estão em declínio, o futebol é a única que nos restou. O futebol é o espetáculo que substituiu o teatro.
PIER PAOLO PASOLINI
Abaixo, um “.gif” de Pasolini jogando futebol e uma foto de sua squadra:
Pasolini é o primeiro em pé, à esquerda. O time é o do Casarta, de sua cidade natal, de mesmo nome, na região Friuli.
O Inter teve uma estreia tranquila sábado à tarde na Série B. Com três volantes — o fraco Fabinho, mais Dourado e Gutiérrez — e três atacantes móveis — Dale, Nico e Cirino –, o time saiu-se bem contra um adversário bem ruim. Ah, a Série B… Creio que vamos fazer um percentual bastante alto de pontos em casa, conquistaremos 50% dos pontos fora e vamos acabar líderes da joça.
Nico fez dois | Foto: SC Internacional
É um campeonato muito fraco e os últimos grandes que caíram voltaram facilmente. Atlético-MG, Corinthians, Botafogo e até o Vasco voltaram no ano seguinte. O Grêmio quase não voltou em 2005, mas estava mal preparado com Sandro Goiano, Nunes, Domingos, Lipatín, Marcel, Escalona e outras peças sem explicação… Não é nosso caso. Então, 2017 será um ano de muitos pontos, futebol feio e algumas goleadas como a de sábado.
Preocupa-me ainda o fato de estarmos com tantos goleiros machucados. O quarto goleiro Daniel mostrou-se estabanado e até deixou passar uma bola que fora buscar sozinho fora da área. Meu deus, o que foi aquilo? Depois correu de volta a agarrou a coisa antes que algum atacante do Londrina chegasse. Já pensaram esse jovem contra o Palmeiras? Acho que teremos que lançar mão de Danilo Fernandes e de seu pé recém operado em São Paulo.
Tu, Zago, deste finalmente uma entrevista bem posicionada. Disseste que temos que antecipar a classificação o máximo possível. Concordo. Nada de sustos ou aflitos. Aquilo é para os fracos.
O próximo jogo será na quarta, contra o Palmeiras, em São Paulo, pela Copa do Brasil. Na Série B, voltamos a atuar no sábado, contra o ABC, no Beira-Rio.
Mas saiba, Zago, não jogamos bem. A ruindade do Londrina pegou em nós durante boa parte da partida. Só que era impossível acompanhá-los 100%.
Apesar da política, Londres é a melhor cidade do mundo e a embaixada do Equador em Knightsbridge parece ser um local especialmente quente. Que bom! Um dos maiores símbolos sexuais dos anos 1990 e o mais famoso asilado político de todos os tempos apaixonaram-se na embaixada. Depois de meses de especulação, esta semana a atriz Pamela Anderson e Julian Assange, um dos fundadores do site WikiLeaks, assumiram que estão mesmo namorando. O anúncio oficial foi feito no blog de Pamela. “Meu relacionamento com Julian não é segredo”, ela escreveu. “Ele é uma das minhas pessoas favoritas no mundo e o mais famoso e politizado refugiado do nosso tempo. Julian é um ser humano extremamente empático e se importa profundamente com o mundo. E, por causa do seu trabalho, fez alguns inimigos poderosos em alguns países, nos EUA principalmente”.
Quando questionada sobre sua relação com o fundador da WikiLeaks, ela riu e disse: “Bem, ele está ‘preso’, isso dificulta um pouco as coisas”. “Vamos ver o que acontece quando estiver livre. Mas tenho passado mais tempo com ele do que qualquer outro homem, o que é muito bom e estranho”, afirmou Pamela Anderson.
Assange recebe visitas de Pamela pelo menos uma vez por mês desde outubro do ano passado. Na última visita, ela levava Get a Life: The Diaries of Vivienne Westwood para o namorado.
Eu ia colocar o nome de Monteiro Lobato no título desta pequena crônica, mas achei que não valia a pena. Afinal de contas, ele é um caso especial: não há dúvida sobre o racismo de nosso mais famoso autor infanto-juvenil. Como exemplos maiores, temos o final de Urupês, onde a miscigenação é condenada na apresentação do polêmico personagem Jeca Tatu — que depois tornou-se o pobre esquecido por um governo omisso — mas que antes fora apenas um caboclo inferior e inapto. Para o autor, o caboclo era um “funesto parasita da terra”, “seminômade, inadaptável à civilização”. Tá bom.
Se isso já era público, em 2011 foi divulgada uma carta do escritor enviada a Arthur Neiva em 10 de abril de 1928, e publicada na revista Bravo! em maio de 2011. Ali temos Lobato defender a Ku Klux Klan e seus ideais.
“País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Ku-Klux-Klan, é país perdido para altos destinos […] Um dia se fará justiça a Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”.
Mas hoje estava pensando no branco mais negro do Brasil, aquele que paradoxalmente se auto-denominava “Capitão do Mato Vinicius de Moraes”. Durante o império, ou melhor, durante a época da escravatura, o capitão do mato era um empregado público, uma espécie de policial encarregado de reprimir os pequenos delitos ocorridos no campo. Na sociedade escravocrata brasileira, sua principal tarefa era a de capturar os escravos fugidos.
Capitão do mato, quadro de Rugendas, 1823
Normalmente eles eram escravos libertos, o que fazia com que fossem superiores tanto aos escravos e como aos pobres livres, porém ainda assim ficavam na última categoria como empregado público. Por serem em maioria de origem escrava, eram odiados pelos cativos, já que um dia os capitães tinham pertencido a mesma posição social que eles.
Geralmente formavam grupos que variavam de acordo com a quantidade de escravos fugitivos, trabalhando em conjunto com as forças militares da colônia. A função deles era impedir a fuga de escravos e capturar os que conseguissem fugir, então tinha dupla função: a de amedrontar e de reprimir. Não, não tinham a menor nobreza.
Com o tempo, a expressão capitão do mato passou a incluir aquelas pessoas que não eram funcionárias públicas, mas que, para ganhar uma grana, passaram a procurar fugitivos para depois entregá-los aos seus donos mediante prêmio.
O capitão do mato gozava de nenhum prestígio social, seja entre os negros que tinham neles os seus inimigos naturais, seja na sociedade escravocrata, que suspeitava que eles sequestravam escravos apanhados ao acaso, esperando vê-los declarados em fuga para depois devolvê-los contra recompensa.
Agora, que brincadeira foi essa de Vinícius — que cantava sambas, fazia a apologia do negro e ainda seguia religião africana — ter apelidado a si mesmo de capitão do mato?
Olhem só este trecho do Samba da Bênção:
Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
Hoje pouca gente lembra — às vezes até eu tenho dificuldades de lembrar –, mas por décadas trabalhei como programador, analista de sistemas e líder de desenvolvimento de projetos na área de TI. Foi lá que descobri que há um perfil de pessoa que é muito irritante para quem quer um boa equipe: os que possuem hipersensibilidade para encontrar objeções e baixa iniciativa para propor soluções. Em um primeiro momento, é bom contar com esses chatos; afinal, eles nos auxiliam a corrigir rumos, mas depois, com o processo em andamento, tudo o que queremos são saídas para os eventuais buracos, não gente meio paralisada, reclamando. Chega sempre o momento em que apenas se resolve.
Penso nisso quando vejo a esquerda — trincheira a qual pertenço — ostentando faixas de “Nenhum direito a menos”. Todos os governos, inclusive os do PT, sempre se referiram à Previdência como uma bomba-relógio. Então tomo como premissa a obviedade que hoje alguns negam, ou seja, de que há um rombo crescente na Previdência. E aí é que entram os Reis da Simples Objeção. Esses objetantes não se dão nem ao trabalho de propor alguma alternativa, só de opor o argumento de “não quero, não aceito perder meus direitos”.
E há muita coisa que a esquerda poderia trabalhar no caso: por que não criar uma proposta alternativa que combata, por exemplo, as desigualdades que permitem que ricas entidades religiosas não paguem impostos, as castas de super-aposentados como juízes, milicos, políticos e… funcionários públicos, a falta de taxação de grandes fortunas, a moleza na recuperação de débitos de empresas com o fisco, as pensões incríveis associadas às filhas de militares (4 bilhões de reais só em 2015), etc.?
Não, nada de criar nada. Na Reforma Trabalhista, também não existe nenhuma contraproposta consolidada para, por exemplo, diminuir a desigualdade que só vai aumentar com a Reforma. Só o “Nenhum direito a menos”. Gente, o governo, ilegítimo ou não, está aí fazendo a festa de seus financiadores. Há que fazer política.
Bertrand Russell ficaria apavorado com o Brasil. Ele dizia que a política era o “conjunto dos meios que permitem alcançar os efeitos desejados”. Aqui, o meio que a esquerda quer usar é o de bater o pé no chão. Acho que estamos é fodidos.
O Novo Hamburgo mereceu ganhar o campeonato, claro. Foi líder de ponta a ponta. Porém, quando Ernando marcou o gol contra, imediatamente lembrei do Luís Eduardo Gomes, colorado e excelente repórter do Sul21. Desde o início do ano ele diz que os caras que afundaram o Inter em 2016 não deveriam ser escalados nunca mais. Nunca mais. E Ernando, Paulão, Andrigo, Ferrareis e Anselmo fazem parte da lista. Hoje, o Louis teve mais razão do que nunca. O lance do gol do NH foi patético. A impressão foi a de que Ernando quis fazer aquilo, tão perturbado entrou em campo. Pareceu 2016 invadindo 2017. E a cabeçada de Ernando foi a única bola a chegar ao nosso gol durante todo o jogo…
Já que o site do Inter teve o cuidado de não publicar fotos de Ernando, coloco uma foto de quem o escalou. | Foto: Ricardo Duarte
De onde tu, Zago, tiraste a ideia de trazer Ernando justo para o jogo final? Nada contra a dignidade pessoal dos atletas da lista, só que eles não têm mais ambiente e são detestados pela torcida. Devem seguir suas carreiras em plagas distantes. Por que insistir? E havia Ceará na reserva, lateral direito acostumado a ser improvisado do lado esquerdo. Não seria uma opção mais inteligente do que improvisar um zagueiro na posição?
Ao final do campeonato ninguém mais lembra dos pênaltis surrupiados — houve mais um hoje — e dos gols perdidos. Futebol é resultado. Ninguém hoje dá bola para o fato de que o lesionado Danilo Fernandes não tocou na bola durante os 48 minutos do segundo tempo, quando o Inter teve uma escalação sem invenções. Porque não adianta, é imbecilidade falar nisso.
Ah, as invenções… Na minha opinião, o Inter perdeu a disputa no domingo passado ao entrar com três volantes em campo. Ou seja, tudo começou com a escalação de Anselmo e foi coroado pela entrada de Ernando hoje. E a Lei de Luís Eduardo Gomes permanece válida. Tu, Zago, conseguiste perder uma decisão de campeonato para um time tecnicamente inferior. Nos momentos em que pressionamos, isso ficou escancarado. O NH passava a dar chutões. Só que isso só acontecia quando estávamos atrás no placar. (Aliás, nunca estivemos na frente).
E não venha me dizer que tu mudas o jogo no intervalo. Tu apenas corriges erros evidentes.
Era a vez dos azuis, fazer o quê?, mas será que um dia tu saberás te impor e ganhar? Sei não…
Quando recebi este livro de Gustavo Melo Czekster, sorri imediatamente. Conheço o Gustavo. Ele é um cara simpático de 1,90m e tem o sorriso mais fácil do mundo. Invejo-o. Trata-se de um craque das fotos, algo que nem sempre é fácil para este que vos escreve. Porém, se eu tirasse uma foto com o autor de Não há amanhã, sei que sorriria de forma muito convincente. Inevitável. Parece um sujeito muito alegre. Mas… Ao ler os 30 contos de Não há amanhã, ficam claras as sombras de envolvem esta criatura que, de forma concomitante ao lançamento do livro, mudou sua foto de perfil no Facebook, antes sorridente, por uma muito séria (abaixo). Não vou especular.
Sempre que recebo um livro de um amigo, fico na dúvida se devo ler ou não. Porque é chato criticar pessoas que cruzam com a gente. Tenho graves problemas nesta área. Já dei palestras a respeito do tema de ser crítico em nossa província. Na palestra, contei sobre a Ospa, sobre alguns escritores que passaram a me negar cumprimento, sobre ameaçadores e-mails, sobre músicos que dizem que eu não entendo nada de nada, sobre pequenos linchamentos patrocinados por autores e músicos no Facebook que costumam dar o link de meu texto e perguntar para seus amigos: “Vocês concordam com este crápula?”. Quem está de fora, ri, enquanto eu procuro ignorar, o que é difícil às vezes.
Abri Não há amanhã, segundo livro de Gustavo — não li o primeiro — e, após o susto de ler seu prefácio histericamente laudatório — autoria de um sujeito que fala em “estonteante linha final” –, fiquei surpreso por sua alta qualidade. Estou com sorte porque, nos últimos seis meses, li três excelentes livros escritos por vizinhos: o de Nelson Rego, o de Julia Dantas, o de Iuri Müller e este. Ufa, vou passar mais um tempo sem problemas, já que desisti de escrever sobre a música de Porto Alegre.
Não há amanhã é um livro de 160 páginas e 30 contos que variam entre o curtíssimo — praticamente crônicas ficcionais — e o longo. Mas a característica principal é que, mesmo que autor transite bastante na área do fantástico, suas criações não são nada leves, ligeiras ou meramente mágicas. São histórias de impacto que não prescindem de um pós-prandial reflexivo. Eu não conseguia partir para a próximo conto sem parar para pensar sobre o que tinha lido. Algumas histórias são dignamente grandiosas, outras são irônicas, mas todas elas perturbam através de elementos representativos de fatos exteriores que amplificam o texto.
Gostei muito do insolucionável Problemas de Comunicação, do ofegante A Passionalidade dos Crimes, do curioso e igualmente ofegante Neve em Votkinsk, dos conselhos de Os que se arremessam, das multiplicações de Os problemas de ser Cláudia (que merecia perder seus 3 últimos parágrafos *), do mímico Mas não falam, das elegantes equações de A revolução como um problema matemático, da bela cena de O silêncio e do parque de Um outro sentido. Mas nada do restante é esquecível.
Os contos guardam fartas doses de unidade entre si e, repito, não são de modo algum literatura descartável, de entretenimento. Czekster consegue fabular e ser autenticamente filosófico, por todo o tempo. É literatura séria, até um pouco dura e sombria, onde o fantástico e a morte estão muito presentes.
Recomendo fortemente.
* Explico: como um devoto da ficção, não gosto quando entra certo “tom de tese”. Não estraga o conto, mas ele poderia ser perfeito, não?
Três volantes para jogar no Beira-Rio, Zago? Três volantes no Beira-Rio para depois decidir fora? Quantos colocarás em Novo Hamburgo? Quatro? Está certo que é um time da região de imigração alemã do RS, mas, veja bem, não é a Seleção da Alemanha, não nos meteria 7 x 1 mesmo se jogássemos como um time grande. Com este esquema, já tínhamos jogado mal em Caxias. E o que fizeste? Repetiste tudo, deixando D`Alessandro sozinho na armação. Viramos o primeiro tempo perdendo e o que tu fazes? Ah, tiras o volante Anselmo. E ganhamos o segundo tempo por 2 x 1.
O volante Anselmo é um problema. Achei legal ele beijar a criança que levava no colo antes dos hinos, mas foi só. Ele atrapalha os avanços de Dourado e, quando recebe a bola para passar, erra. Ao escalar Anselmo, tu esculhambas boa parte da mecânica do time. Além disso, paradoxalmente, os três volantes batem cabeça no meio de campo, deixando largos espaços ao adversário. O time parece mais seguro com dois. Anselmo pode ser um substituto do Dourado mas não jogar ao lado dele. Melhor entrar com Valdívia ou mesmo Roberson.
O volante Anselmo: logo depois, ele deve ter entregado a bola para mais um contra-ataque do NH | Foto: Ricardo Duarte
Dizem que a Folha de Pagamento do Inter gira em torno dos 7 milhões de reais e que a do NH bate em 150 mil. Isto indica que a qualidade técnica de nossos jogadores deve ser melhor. E é, tanto que fizemos dois gols num time melhor organizado do que o teu. O gol de Nico López foi uma pintura a que o NH não pode aspirar fazer. Só que eles são muito competentes como equipe e tu ainda não acertaste o time, além de dar mostras de medo.
Já o goleiro Keiller é um terceiro goleiro de 20 anos que está jogando em razão da lesão dos dois titulares. Ele falhou lamentavelmente no segundo gol do Noia, talvez no primeiro também. Mas não podemos responsabilizá-lo. Era uma decisão e é normal que ficasse nervoso. Espero que Lomba ou Danilo possam jogar em NH, pois o guri não merece essa fogueira.
A propósito, o Inter pode fazer a final do Gaúcho sem goleiro profissional. Como sabemos, Danilo Fernandes quebrou o pé, Keiller, o braço, e Marcelo Lomba está com uma distensão grave. Só temos 3 goleiros inscritos e o adversário, consultado pela Federação (pois é um caso não previsto no regulamento), não permitiu que o Inter inscrevesse um quarto. Diversão para o domingo que vem.
E como gostamos de cruzamentos, não, Zago? Brenner já cabeceia mal e hoje estávamos com Carlos que é tudo menos cabeceador. Parece que tudo leva à bola alta. O goleiro do NH cansou de sair tranquilamente para agarrar a bola em cruzamentos para ninguém.
Não sei se seremos campeões no próximo domingo, não vai ser mole, ainda mais se tu seguires complicando.
(Ah, Argel, que é MUITO MAIS INCOMPETENTE do que tu, acaba de ser demitido do Vitória).
Conhecido como um dos maiores e mais prolíficos pintores de Arte Moderna, Picasso foi um homem de muitos talentos. Pablo Ruiz Picasso (Málaga, 25 de outubro de 1881 — Mougins, 8 de abril de 1973), foi um pintor espanhol, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo que passou a maior parte da sua vida na França. É conhecido como o co-fundador do cubismo ao lado de Georges Braque, inventor da escultura construída, inventor da colagem e de uma variedade de estilos que ajudou a desenvolver e explorar. Dentre as suas obras mais famosas estão os quadros cubistas As Meninas D’Avignon (1907) e Guernica (1937), uma pintura do bombardeio alemão de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola. Além de diferentes formas de arte e materiais únicos, no entanto, Picasso também trabalhou em uma espetacular variedade de estilos. Essa abordagem estética em constante mudança é evidente em sua série de autorretratos, que ele pintou a partir dos 15 anos até 90 anos. Confira abaixo.
Jonathan Demme, falecido hoje, é o grande autor de O Silêncio dos Inocentes, Totalmente Selvagem, De caso com a Máfia e Filadélfia, mas nada do que fez, em minha opinião, compara-se com O Casamento de Rachel. Uma grande obra de arte.
O final de ‘O Silêncio dos Inocentes’ | Clique para ampliar
Curiosidade: Jonathan Demme usou a frase “A luta continua” para encerrar quatro de seus filmes, entre eles os conhecidos Filadélfia, de 1993, e O Silêncio dos Inocentes, de 1991. “A luta continua” foi um grito de guerra usado pela Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) durante a guerra que levou à independência do país, em 1975. A primeira ocorrência da frase parece ser um discurso de Eduardo Mondlane, líder revolucionário e ideólogo da nação moçambicana, em 1967: “Não há antagonismo entre as realidades da existência de vários grupos étnicos e a Unidade Nacional. Nós lutamos juntos, e juntos reconstruímos e recriamos o nosso país, produzindo uma nova realidade – um Novo Moçambique, Unido e Livre. A luta continua!”
O final de “De Caso com a Máfia’
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A personagem Kym (Anne Hathaway) parece carregar todos os pecados do mundo em O casamento de Rachel, imenso filme do diretor Jonathan Demme. Sim, o mesmo Demme de O Silêncio dos Inocentes, o mesmo do Hannibal Lecter inaugural, passou a investir num cinema menor, de caráter autoral e finalmente acertou a mão neste pequeno e originalíssimo filme.
O filme inicia quando o pai de Kym a busca na clínica de reabilitação para drogados — onde está “limpa” há nove meses — a fim de que ela vá ao casamento de sua irmã Rachel. Quando chegam na casa da família, onde a festa será realizada, Rachel começa a sentir a pressão. O pai é extremamente solícito, solícito ao exagero. Oferece-lhe tudo, comida, carona, é todo atenção para com Kym, a filha querida que retorna à casa. Mas é óbvio que ele está apenas exercendo controle sobre ela, informando-se onde está, oferecendo carona para que ela não dirija em hipótese alguma, observando o que consome. Quando Kym encontra-se com a irmã, fica sabendo que não é mais a “madrinha principal” do casamento. Rachel a substituíra por uma amiga. Explode o primeiro desentendimento e ela consegue voltar ao posto perdido. Então Demme estabelece algumas regras.
O diretor tem personagens muito claros e bem construídos, tem o conflito montado; enfim, tem um esqueleto, e escolhe preenchê-lo por uma série de cenas improvisadas. Por exemplo, os discursos dos personagens no ensaio para a festa são realmente atrapalhados, vivos, naturais — um ator chega ao ponto de encarar a câmera –, baseados naquilo que foi definido para cada um deles. É um grande momento do filme. Outra é a esplêndida cena do ensaio dos músicos, onde os atores parecem, e estão, jogados na frente da câmera, divertindo-se a valer dentro de seus personagens. A disputa entre o genro e o sogro sobre quem consegue colocar mais pratos na lavadora de louça é outro momento brilhante de Demme, que capta a brincadeira de modo inesquecível.
O mesmo vale para as reuniões do grupo de reabilitação de drogados. Na primeira vez, Kym não fala nada; na segunda, expõe que está há nove meses sem drogas — é aplaudida — e conta sua história: o vício, o descontrole e o acidente de carro que causara, matando o irmão menor. As pessoas ficam abismadas com o relato. É neste momento que ela diz a frase que uso como título deste post. O controle que ela sofre é correto? Sim e não. Afinal, ela está limpa. Está conseguindo controlar a si mesma.
Mas a família segue pressionando. Rachel fica histérica porque o discurso de Kym no ensaio foi autocentrado e pontuado de ironias e pedidos de desculpas. O pai (Bill Irwin em atuação perfeita, sempre um passo atrás da intenção dos outros) tenta acalmar a situação, mas Rachel está em pleno acerto de contas e, em meio a ele, surpreende ao estabelecer nova vantagem sobre a irmã problemática: revela estar grávida. O pai será avô, fica enternecido; Kym fica furiosa, com razão. Todo o filme gira sobre a incapacidade de Kym atentar efetivamente ao que ocorre a seu redor, ela passa pelas coisas e não interfere, pois está inteiramente voltada para dentro de si mesma, no trabalho de Sísifo de “viver mais um dia” sem usar drogas. O que todos querem que ela consiga é, paradoxalmente, combatido pelos familiares. O papel de Kym é complicadíssimo. E Anne Hathaway é digna dele. Porém o time de atores é parelho. É impressionante a cena em que Rachel (a excelente Rosemarie DeWitt) negocia os lugares na mesa. Ela deseja ver Kym longe, em outra mesa. O rosto de Rachel, ao defender sua formação de mesa é exatamente o rosto que vi numa mulher quando falava sobre a parte monetária de sua separação: com o mesmo esgar, o mesmo sorriso cristalizado com olhos sérios, Rachel naquele momento é pura maldade e atenção. E Kym reage. Ou seja, o filme é um abrir feridas sem fim, quando tudo o que Kym deseja é fechá-las.
E é para entender o que lhe aconteceu que ela visita a mãe (Debra Winger). Ela quer fazer A Pergunta: por que foi deixada cuidando do irmão menor Ethan quando a mãe a sabia uma louca 100% drogada? Como resposta, recebe um tapa na cara de significado muito claro: “fique com sua culpa e seus problemas, não piore minha vida”.
O que impressiona no filme é que as cenas improvisadas empurram a narrativa, alterando-a e enriquecendo a realidade de forma arrebatadora. Várias vezes Anne Hathaway aparece em sua imensa solidão. Num determinado momento ela deseja dançar, mas dá a impressão que tem medo de soltar-se. Começa e para, recomeça e vai fazer outra coisa. A presença de músicos ensaiando e improvisando dá a senha e a dimensão da enorme (e perigosa) liberdade dada aos atores.
O filme é finalizado com coerência: o pai aparece com uma conviva e a apresenta a Kym, que ouve uma proposta de emprego. Ela não recusa, mas no outro dia retorna à clínica. Pois se Kym sabe que não quer um deus que possa perdoar seus atos, sabe também que ainda não é possível viver com sua família e amigos.
Demme não nega que suas maiores influências para a realização de O casamento de Rachel foram Robert Altman e o pessoal do Dogma 95. É flagrante. Eu acrescentaria que há um perfume, uma música, um ritmo de Tchékhov neste grande filme sem solução.
Ainda no dia 11 de janeiro, voltamos ao Piano Salon Christophori para a maior decepção musical da viagem. O repertório era fantástico: uma série de peças curtas para duos de violino, viola e violoncelo, cada um acompanhado por piano, finalizados com uma reunião geral no Quarteto para Piano Op. 25, de Brahms.
O problema não era o repertório, mas os executantes. A pianista era razoável. As cordas eram formadas por um violinista sem noção de estilo e algo lenhador, um violoncelista ainda pior, porém mais delicado, e uma boa violista, que faria furor em Porto Alegre tanto por sua competência como pela beleza. Deu quase tudo errado. A coisa foi fraquíssima. OK, são jovens, mas poderiam ser melhores.
Não consegui encontrar o nome dos caras ou do grupo. Sorte deles, porque vocês sabem como é o Google.
Bem, já contei como funciona o Piano Salon Christophori. Falei das peculiaridades do local e disse que a copa é livre para a plateia pegar cerveja, vinho ou água. Então, por pior que seja o recital, a gente sai de lá feliz, ainda mais quando encontra um cara como o Guilherme Conte, que estava no Christophori e que depois saiu para jantar conosco. Eu apenas o conhecia do Facebook.
O Bernardo, que já o conhecia, tinha-me dito que o Guilherme era o cara de voz mais bonita que ele conhecia. Olha, não me impressionou muito, gostei foi da companhia e da conversa do tranquilo palmeirense que estuda História em Berlim e cuja mulher é violista na Orquestra do Gewandhaus de Leipzig.
A Elena trouxera um vinho que conseguimos abrir após longa negociação com os donos do restaurante. Mentimos que era aniversário do Bernardo e que precisávamos comemorar com um vinho de sua escolha. Houve resistência, mas os caras acabaram trazendo abridor e copos. Jantamos muito bem.
O tal vinho era uma compra da Elena, que já o conhecia de outra viagem. Porém, como ela estava sem beber há meses, ele se instalou nela na forma de uma bela dor de cabeça. Não ocorreu nada de mais grave com o trio restante, nós apenas ficamos ainda mais felizes. Eu estava discretamente constrangido em razão dos bonitos e úteis presentes que ganhamos do Guilherme — legítimos grosseirões que somos, não trouxéramos nada para ele –, mas nada que empanasse o belo final de dia. O Facebook permite que conheçamos pessoas, mas não há nada como o prazer da presença.
Formação rochosa — ah, as formações rochosas… — no Arches National Park (EUA).
Na Capadócia, há uma outra bizarra coleção de rochas fálicas. Algumas delas têm 40 m de altura. Foram criadas por erupções vulcânicas há aproximadamente 9 milhões de anos. A erosão do vento e da água deixaram-nas assim. Os turcos falam em cones, pilares, pináculos, cogumelos e chaminés. Deixa eles.
Formação rochosa na Tailândia (conhecida como “A Vovó”).
Outra formação rochosa na Tailândia (conhecida como “O Vovô”).
Durou décadas a ditadura em Portugal. A rigor, foram 48 anos entre os anos de 1926 e 1974. Só Antônio de Oliveira Salazar governou por 36 anos, entre 1932 e 1968, e a Constituição de 1933, que implantou o Estado Novo nos moldes do fascismo italiano com seu Partido Único, permaneceu até 1974, por 41 anos.
Capa do jornal república de 25 de abril de 1974 (Clique para ampliar)
Acabou em 25 de abril de 1974 numa revolução quase sem tiros. Morreram apenas quatro pessoas pela ação da DGS (ex-PIDE). A adesão aos militares que protagonizaram o golpe na ditadura foi tão grande que as cinco mortes mais pareceram um desatino final. O nome de “Revolução dos Cravos” foi devido a um ato simbólico tomado por uma simples florista. Ela iniciou uma distribuição de cravos vermelhos a populares e estes os ofereceram aos soldados, que os colocaram nos canos das espingardas.
Tudo fora bem planejado. A ação começou em 24 de abril de forma muito musical. Um grupo militar instalou secretamente um posto no quartel da Pontinha, em Lisboa. Às 22h55 foi transmitida por uma estação de rádio a canção E depois do adeus, de Paulo de Carvalho. Este era o sinal para todos tomarem seus postos. Aos 20 minutos do dia 25, outra emissora apresentou Grândola, Vila Morena, de José Alfonso. Ao contrário da primeira canção, a qual era bastante popular, Grândola estava proibida, pois, segundo o governo, fazia clara alusão ao comunismo.
Passados 38 anos, todos reclamam em Portugal. Tendo no centro do cenário a atual crise econômica, a esquerda considera que o espírito da revolução se perdeu, assim como várias das conquistas dos primeiros anos, enquanto a direita chora as estatizações do período pós-revolucionário, afirmando que esta postura prejudicou o crescimento da economia. O ex-presidente Mário Soares afirma que tudo o que ocorreu nos últimos 38 anos pode ser discutido e reavaliado, mas que a comparação entre o passado e o que há hoje é comparar “um passado de miséria, de guerra e de ditadura” com um país onde há “respeito pela dignidade do trabalho, pelos sindicatos e pela democracia pluralista”.
Deus, Pátria e Família (Clique para ampliar)
A ditadura iniciou em 1926 com o decreto que nomeou interinamente o general Carmona para a presidência da República. Após a dissolução do parlamento, os militares ocuparam todas as principais posições do governo. A ditadura teve o condão de unir todos os partidos que antes disputavam entre si. Eles enviaram uma declaração conjunta às embaixadas dos EUA, Inglaterra e França, informando que não reconheciam o governo. Em resposta, a repressão policial foi acentuada e todos os que assinaram a declaração foram presos em Cabo Verde, sem julgamento.
Todas as revoltas foram sufocadas enquanto os militares se viam às voltas com uma crise econômica. Havia duas correntes: uma representada pelo ministro das finanças, o general Sinel de Cordes, que desejava recorrer a um empréstimo externo e outra, de um professor de finanças da Universidade de Coimbra, Antônio de Oliveira Salazar, que pensava não ser necessário o empréstimo externo para resolver a difícil situação financeira do país. O empréstimo não foi feito em razão de que as condições exigidas eram inaceitáveis – quase as mesmas que a “troika” exigiu e levou atualmente. O resultado final do episódio foi o pedido de demissão de Sinel de Cordes e o convite a Salazar para a pasta das finanças.
O ditador solitário
Salazar impôs austeridade e rigoroso controle de contas. Obteve o equilíbrio das contas de Portugal em 1929. Na imprensa, controlada pela censura, Salazar era chamado de “o salvador da pátria”. O prestígio ganho junto ao setor monárquico e católico, além da propaganda, consolidavam pouco a pouco a posição de Salazar, abrindo espeço para sua ascensão. Ele se tornou o esteio dos militares, que o consultavam para tudo, principalmente para as reformas ministeriais. Enquanto a oposição era dizimada, Salazar recusava o retorno ao parlamentarismo e à democracia da Primeira República, criando a União Nacional em 1930, preparando a instalação de um regime de partido único.
Em 1932, foi discutida uma nova Constituição que seria aprovada no ano seguinte. Nela, é criado o Estado Novo, uma ditadura que dizia defender “Deus, a Pátria e a Autoridade”, principalmente a terceira, que depois foi alterada para Família. A ditadura portuguesa foi muitíssimo pessoal e revelava claramente o caráter de seu chefe. Salazar era uma estranha espécie de misantropo que governava um país ao mesmo tempo que amava a solidão e posava de inacessível. Suas palavras são surpreendentes, mesmo para um ditador. “Há várias maneiras de governar e, a minha, exige isolamento… O isolamento muito me ajudou a desempenhar minha tarefa e permitiu-me, no passado como hoje, concentrar-me, ser senhor do meu tempo e dos meus sentimentos, evitar que fosse influenciado ou atingido”. Muito católico, Salazar nunca casou e vivia entre padres. O cardeal de Lisboa, D. Manuel Gonçalves, disse dele: “é um celibatário austero que não bebe, não fuma, não conhece mulheres”, mas, a fim de afastar qualquer inclinação homossexual, ressaltou: “mas ele aprecia a companhia das mulheres e a sua beleza sem, no entanto, deixar de levar uma vida de frade”.
Salazar e Franco: colaboração e frieza
Tal como fazia na vida privada, Salazar criou uma curiosa política e um bordão não menos. Praticava uma política de isolacionismo internacional sob o lema Orgulhosamente sós. Atuava de forma tortuosa. Apoiou Franco na Guerra Civil de 1936, mas manteve com este uma relação fria e desconfiada. Durante a Segunda Guerra Mundial, agarrou-se à neutralidade como se disto dependesse sua vida. Talvez tivesse razão. Próximo ideologicamente do fascismo italiano, Portugal não hostilizou o eixo Roma-Berlim-Tóquio, apesar de ter tornado ilegais os movimentos fascistas, prendendo seus líderes. Comprou armas, mesmo durante a Guerra, tanto na Alemanha quanto da Inglaterra, evitando o confronto e a adesão. Acendendo uma vela para cada um dos lados, Salazar aceitava dar vistos a judeus em trânsito vindos da Alemanha e da França. Também concedeu aos Aliados uma base nos Açores.
O ditador foi homenageado por Fernando Pessoa.
Antonio de Oliveira Salazar
Antonio de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequencia regular…
Antonio é Antonio.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…
Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…
Bebe a verdade
E a liberdade,
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné,
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé,
Mas ninguém sabe porquê.
Mas, enfim, é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé:
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.
Após a Segunda Guerra Mundial, manteve a política do Orgulhosamente sós, mas nem tanto assim, pois Salazar desejava permanecer orgulhosamente só, porém, com suas colônias. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional e a ONU passaram a defender políticas de autodeterminação dos povos em regiões colonizadas. Salazar ignorou o fato, levando o país a sofrer consequências negativas tanto do ponto de vista econômico como culturais.
Charge de 1957, publicada em jornal clandestino
Internamente, a violência da democracia de fachada de Salazar não ficava nada a dever a suas congêneres latino-americanas. O Estado Novo tinha sua polícia política, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), a qual era antes chamada de PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e depois de DGS (Direção-Geral de Segurança). Em comum, a perseguição e morte aos opositores do regime. O regime autoritário, mas sem violência é uma fantasia que muitos católicos portugueses gostam de manter, pois a Igreja Católica sempre era citada por ele. Até hoje, alguns saudosos de Salazar misturam fascismo e catolicismo.
Em março de 1961, ocorreu uma chacina de colonos civis no norte de Angola. A resposta de Salazar foi uma Guerra Colonial chamada Para Angola rapidamente e em força. Depois, novas guerras em Guiné e Moçambique, sempre com o propósito de permanecer orgulhosamente só, mas com as províncias ultramarinas sob sua bandeira. As Guerras Coloniais tiveram como consequências milhares de vítimas e forte impacto econômico sobre o país, tendo sido uma das causas da queda do regime.
Salazar foi afastado do governo em 27 de Setembro de 1968, após uma grave queda em casa, o que lhe causou uma trombose cerebral. Seu fim foi digno de opereta: naquele 1968, o então Presidente da República, Américo Tomás, chamou Marcello Caetano para substitui-lo. O curioso é que, até morrer, em 1970, Salazar continuou a receber “visitas oficiais” como se fosse ainda o presidente do país, nunca manifestando sequer a suspeita de que já o não era, no que não foi contrariado.
Negociações para a rendição da PIDE/DGS, no dia 26 de Abril de 1974. Fotografia de Joaquim Lobo.
O longo inferno foi finalizado pelo 25 de Abril, tal como o conhecem os portugueses. O Movimento das Forças Armadas (MFA) foi composto por oficiais intermediários da hierarquia militar, na sua maioria, eram capitães que tinham participado na Guerra Colonial e que foram apoiados por oficiais e estudantes universitários. Este movimento nasceu por volta de 1973, baseado inicialmente em reivindicações corporativistas das forças armadas envolvidas nas guerras coloniais, acabando por se estender a protestos contra a ditadura. Sem grande apoio e com a adesão em massa da população à Revolução dos Cravos, a resistência do regime foi praticamente inexistente, registrando-se apenas cinco mortos em Lisboa pelas balas da famigerada DGS.
Após o 25 de abril, foi criada a Junta de Salvação Nacional, responsável pela nomeação do presidente da República. Assim, em 15 de Maio de 1974, o general António de Spínola foi nomeado presidente.
Estabilizada a conjuntura política, prosseguiram os trabalhos da Assembleia Constituinte para a nova constituição democrática, que entrou em vigor no dia 25 de Abril de 1976, o mesmo dia das primeiras eleições legislativas da nova República.
Tanto Mar, de Chico Buarque
Sei que está em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
O super-gremista Mauro Messina, sócio do melhor sebo de Porto Alegre, o Ladeira Livros, ficou muito mal após a eliminação do Grêmio no Campeonato Gaúcho. Está agindo estranhamente. Imaginem que ele me mandou a foto abaixo, dizendo: “Parecem tu e a Elena”. Só que são Arthur Miller e Marilyn Monroe.
Mauro, foi só um jogo de futebol. Outras vitórias virão e, com elas, a recuperação. Afinal, vocês são imortais, lembra?
(E, incrivelmente, a Elena não sabe andar de bicicleta…).