Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó, de John Fante

Pergunte ao Pó (1939), de John Fante (1909-1983) é excelente, certamente um dos grandes romances estadunidenses do século XX. Tem a energia da juventude, o humor de quem sabe rir de si mesmo e uma melancolia que só se revela plenamente depois da última página. É um livro sobre o fracasso e a esperança, sobre a esperança teimosa de continuar escrevendo, amando e vivendo. Nada da típica ascensão ou queda de um herói. Pergunte ao Pó faz algo mais raro: acompanha um jovem que ainda não sabe quem é, mas que acredita, com uma mistura de arrogância e desespero, que nasceu para ser escritor.

O carcamano Arturo Bandini chega a Los Angeles trazendo quase nada, mora de aluguel num quarto miserável, com poucos dólares no bolso e uma confiança quase insuportável em seu próprio talento. Pobre e faminto, ele escreve, sonha, passa fome comendo apenas laranjas, apaixona-se, mente para si mesmo e tenta desesperadamente um caminho.

A grande invenção Fante está na criação de Bandini. Ele é vaidoso, impulsivo, preconceituoso, ridículo em muitos momentos, mas também vulnerável e profundamente humano. Não pede a simpatia do leitor; conquista-a justamente porque nunca esconde suas contradições e as merdas que diz e faz. Sua voz oscila entre a grandiloquência e o desamparo, entre a ambição desmedida e a consciência de sua própria insignificância.

No centro do romance está a relação entre Bandini e Camilla Lopez, garçonete mexicana de temperamento forte. O amor entre os dois não encontra repouso. É uma dança feita de atração, ressentimento, orgulho e desencontros. Camilla desafia Bandini porque não cabe na fantasia que ele constrói sobre ela. Mas Pergunte ao Pó é também um romance sobre literatura. Bandini acredita que escrever o tornará imortal, que bastará publicar um conto para escapar da pobreza, do anonimato e da mediocridade. Aos poucos, descobre que a literatura não salva ninguém da vida. Escrever não elimina a fome, não cura a solidão nem torna o amor menos difícil. Ainda assim, continua sendo a única forma de dar sentido ao caos.

Fante escreve com uma prosa seca e veloz. Não há ornamentações. Cada frase parece nascer da urgência de quem conhece a precariedade. Sob essa aparente simplicidade esconde-se o orgulho dos derrotados, a dignidade dos esquecidos e a beleza dos pequenos instantes. Não é por acaso que escritores como Charles Bukowski reconheceram em John Fante um mestre. Muito antes da chamada literatura “suja”, Fante já escrevia sobre personagens comuns, derrotados e imperfeitos, mas o fazia com uma ternura que impede qualquer cinismo. Seus fracassados continuam sonhando.

Ao terminar Pergunte ao Pó, compreendemos que Arturo Bandini talvez nunca alcance a grandeza que imagina merecer. Mas também percebemos que sua obstinação em escrever, possui algo de profundamente comovente. É a história de alguém que insiste em transformar a vida em literatura, mesmo quando a vida parece responder apenas com pó.

A poeira do título? Não sei. Ele aparece nas ruas, no peitoril das janelas, no deserto que cerca a cidade. John Fante nos lembra que, se um dia quisermos saber quem fomos, talvez seja preciso perguntar ao pó.

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Obs. final: faltou dizer que Fante criou vários livros tendo Arturo Bandini como personagem principal. A coisa é bem bagunçada, pois alguns narram a vida pregressa de Bandini e outros o que virá depois e não foram publicados em ordem. Pergunte ao Pó é o mais famoso deles:

O Caminho de Los Angeles (The Road to Los Angeles, escrito em 1936, mas publicado postumamente em 1985)
Espere a Primavera, Bandini (Wait Until Spring, Bandini, publicado em 1938)
Pergunte ao Pó (Ask the Dust, publicado em 1939)
Sonhos de Bunker Hill (Dreams from Bunker Hill, publicado em 1982)

John Fante

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