Não morre porque é muito bom, pô! Mas, calma, vamos tratar de organizar os pensamentos. Mas, calma, vamos tratar de organizar os pensamentos. Afinal, li nas redes uma série de brigas, além de ofensas ao Nabokov (diz-se Nabôkav) e ele não merece isso. Vamos colocar o bola no chão e deter a correria adversária, pondo-os na roda. Lolita (1955) é um romance de Vladimir Nabokov narrado por Humbert Humbert, um intelectual europeu que desenvolve uma obsessão por Dolores, menina de 12 anos, a quem apelida de Lolita. Após se hospedar com a família dela, ele se casa com a mãe de Lolita, Charlotte, principalmente para ficar perto da menina. Humbert descreve Charlotte com um desdém visceral e cruel. Ele critica seu corpo — seios volumosos, idade, etc. –, seus gestos, seu sotaque norte-americano vulgar e seus modos provincianos e pretensiosos. Para ele, Charlotte representa tudo o que é banal e sexualmente indesejável — o oposto absoluto da ninfeta etérea e idealizada que ele busca em Lolita. Charlotte é, acima de tudo, o empecilho entre Humbert e Lolita. Ele a vê como uma guardiã irritante que deve ser tolerada, ludibriada ou afastada. O casamento com Charlotte é uma estratégia cínica para ficar próximo da menina.
Quando Charlotte morre em um acidente de carro, Humbert obtém a guarda exclusiva e embarca em uma longa viagem pelos Estados Unidos, durante a qual abusa e manipula Lolita repetidamente, apresentando o relacionamento como uma espécie de história de amor trágica. Conforme ela vai, digamos, crescendo, passa a resistir mais e mais a ele, acabando por fugir com outro homem ligado ao círculo literário de Humbert. Anos depois, Humbert a encontra casada, grávida e vivendo em condições modestas. Ela se recusa a voltar para ele, e ele reconhece tardiamente a enormidade do mal que causou antes de morrer na prisão enquanto aguardava julgamento pelo assassinato de Clare Quilty, o dramaturgo que sequestrou Lolita. Ele segue Quilty até sua mansão e o executa de forma premeditada.
Por que Lolita é relevante?
Simples, por ser um legítimo Nabokov, ou seja, uma obra-prima. O romance expõe como o charme, a eloquência e a autocomiseração podem disfarçar e racionalizar o abuso, tornando-se um texto fundamental para a compreensão da narrativa não confiável e do autoengano. Nabokov também utiliza o olhar obsessivo de Humbert para criticar a cultura estadunidense de meados do século XX — seus motéis, rodovias, publicidade e a mercantilização da juventude — de modo que o livro funciona também como um retrato satírico da tal Terra da Liberdade.
Nos debates contemporâneos sobre exploração sexual, consentimento e erotização de meninas na mídia, o romance permanece uma referência fundamental porque dramatiza a discrepância entre a narrativa do abusador sobre o amor e a realidade vivida pela vítima.
O que o livro tem de extraordinário?
A linguagem. A prosa de Nabokov é elaboradíssima e precisa — lúdica, ritmada — de modo que a narrativa pode parecer sedutoramente bela mesmo ao descrever atos horríveis.
O narrador. Humbert é um narrador não confiável, constantemente se justificando, minimizando o sofrimento de Lolita e apelando para a simpatia do leitor, o que torna o livro um poderoso estudo sobre manipulação.
A noção de estrutura. O falso prefácio e a confissão retrospectiva criam uma estrutura em camadas que constantemente chama a atenção para questões de culpa, testemunho e a diferença entre prazer estético e julgamento moral.
A divertida crítica cultural. A viagem através do país permite a Nabokov dissecar a cultura americana, o entretenimento de massa e o comercialismo vulgar, transformando o livro também em uma crônica de uma viagem sombria.
Pontos que podem ser alvos de críticas:
Risco de interpretação errônea por parte de gente burra ou louca. Como a narrativa é filtrada pela voz sofisticada e espirituosa de Humbert, alguns leitores se confundem, vendo-se meio seduzidos por ele, o que pode obscurecer a vítima que é Lolita.
A limitada interioridade de Lolita. Dolores raramente tem uma voz interior consistente. Para muitos críticos, isso sublinha a desumanização que Humbert lhe atribui, mas também pode dar a impressão de que o romance participa do apagamento que retrata.
Distância estética. Em entrevistas, Nabokov deu ênfase na arte e sua própria afirmação de que o romance é “sobre” estilo e imaginação, e não sobre estupro ou pedofilia. Tais afirmativas foram criticadas como evasivas ou frias diante do tema.
Potencial de fetichização. O legado cultural do livro — a moda “Lolita”, o marketing sexualizado e as adaptações suavizadas — mostra como sua crítica pode ser facilmente cooptada pela própria mercantilização de meninas que ele implicitamente condena.
Relevância geral hoje
O romance continua importante porque força os leitores a confrontarem como a linguagem pode embelezar a crueldade e como narrativas de “desejo mútuo” podem mascarar desequilíbrios de poder gritantes.
Em termos literários, é fundamental para discussões sobre ficção modernista e pós-modernista, confiabilidade narrativa e ética da leitura. Em termos culturais, continua a repercutir em conversas sobre assédio, aliciamento e a representação de menores na arte e na mídia.



Há os livros do detetive Maigret, mas convenhamos, Simenon ficou célebre sobretudo por seus romances curtos, intensos e econômicos, os chamados romans durs, em que a pesada densidade psicológica não depende da extensão. Por isso, quando ele escreve um romance mais longo — como O Testamento Maldito (ou a tradução literal, O Testamento Donadieu) — isso não é um acidente de percurso, mas uma escolha. Este livro tem 392 páginas, muitos personagens e traz estruturas mais amplas do que as dos dramas individuais. Aqui nós temos um painel de uma família decadente da pequena cidade portuária de La Rochelle, no oeste da França, de frente para o Atlântico Norte. Logo no primeiro capítulo, morre o patriarca dos Donadieu, que viviam — mulher, quatro filhos casados, netos e empregados — numa respeitável mansão na mui digna Rue Réaumur.

Alejandro Fabbri, jornalista e historiador do futebol argentino, constrói em Historias Negras del Fútbol Argentino um livro que foge deliberadamente da narrativa heroica e romântica do esporte. Em vez de gols decisivos, ídolos e conquistas, ele reúne episódios sombrios, desconfortáveis e, muitas vezes, esquecidos — desde arbitragens viciadas e jogos suspeitos até pressões políticas, violências de arquibancada e decisões de bastidores que alteraram destinos de clubes e jogadores.

Um livro simples e direto, de alguém que vive a corrida. Alguns de vocês sabem que eu, aos 68 anos, ainda corro. Nestes dias de canícula extrema, tenho sofrido um pouco, apesar de que minha ideologia de corredor é totalmente diferente da de Murakami. Eu corro sempre confortavelmente, naquilo que chamo de “velocidade de cruzeiro”, isto é, velocidade constante e sem dor. Com o calor deste dezembro-janeiro, paro nos 4 Km, pois tudo começa a ficar complicado. Não sinto dor, não tenho dificuldades para respirar, só sinto muito calor; na verdade, parece que alguém me desliga remotamente. Segundos antes de parar, não pretendia fazê-lo e fico surpreso quando paro. Sim, estou tomando todos os remédios que me prescreveram.

Publicado em 1965, Trens Rigorosamente Vigiados é um clássico. É um daqueles romances curtos que parecem conter um mundo inteiro. Cravado na ex-Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas, o livro acompanha o menino / jovem Miloš Hrma, aprendiz de ferroviário, que vive à margem do conflito bélico, mas no centro de outro tipo de guerra: a do amadurecimento, do desejo, da vergonha e da fragilidade.

Minha cultura sobre livros policiais é mínima. Gosto muito de Simenon, um pouco de Rex Stout e li aquela maravilha chamada Edições Perigosas, de John Dunning. Nunca fui adiante. Soube pelo próprio Biajoni que o termo “giallo” (“amarelo” em italiano) refere-se a um tipo de romance policial publicado na Itália. O nome surgiu a partir de 1929, em razão das capas amarelas distintivas de uma popular série de livros de crime e mistério. Ficou bacana no nome do livro, né?


Diferentemente de suas novelas iniciais, as ótimas e sacanas Sexo anal: uma novela marrom, Bucet@: uma novela cor-de-rosa e Boquete: uma novela vermelha, A Viagem de James Amaro é muito mais sombria e introspectiva. E interessante. Também há sexo nela, mas o cerne está na amizade entre dois personagens que, bem… não transam: James e Alex.

Penso que o título deste livro de Franciel Cruz não seja irônico ou casual. Claro, são crônicas sobre futebol, mas também sobre aquilo que gira em torno dele: a infância, o humor, a pobreza, a sociedade maluca de nosso país. Tá pensando que tudo é futebol? fala do futebol como raiz de identidade e contradição. A pergunta provocativa do título — que parece vinda de alguém que detesta o ludopédio — pode ser alterada para o futebol está em tudo ou tudo pode ser futebol. Mais do que um livro de curiosas crônicas sobre o esporte ganha densidade ao se tornar um mapa de esperanças, ilusões e decepções — como aqueles que existem fora das quatro linhas.







Gosto muito de Muriel Spark (1918-2006). Seus pequenos romances são inteligentes, bem-humorados e sinceros. Não é muito difícil se identificar com um outro personagem, mesmo que haja um crime ou um fato muito lúgubre. Um eco muito distante (A Far Cry from Kensington, 1988) é um dos romances mais refinados e enigmáticos de Muriel Spark, um livro que combina a leveza irônica de seu texto com uma reflexão profunda sobre ética, memória e poder — tanto o poder da linguagem quanto o das pequenas tiranias cotidianas.

À margem do lago, de Naia Oliveira, é um pequeno livro de memórias, de afetos e resistência. Nascida nos anos 50 em Guaíba, do outro lado do lago que banha igualmente Porto Alegre, a autora nos convida a sentar à beira do tempo e escutar suas histórias que pulsam como uma coleção de instantâneos da vida, ou como “cristalizações do fugidio”, como dizia Erico sobre as fotografias. Naia transforma cada parágrafo em um pequeno caso — às vezes terno, às vezes duro — que revelam tanto a intimidade e os detalhes de uma infância à beira do lago quanto a intensidade de uma juventude vivida sob a sombra da ditadura militar. Lírico na simplicidade, forte na memória, é um testemunho delicado sobre viver, lembrar e não se calar. A prosa de Naia flui como as águas do Guaíba: calmas na superfície, mas carregadas de histórias no fundo.




O Presidente está catalogado como um dos “romances sérios” de Georges Simenon. Os do detetive Maigret estariam no escaninho dos não-sérios. E, com efeito, trata-se de um livro ambicioso, um exercício plenamente justificado e bem sucedido.

















