A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro

Estou terminando de ler a surpreendente novela do modernista português Mário de Sá-Carneiro “A Confissão de Lúcio”. Procurei no Google algum artigo que falasse sobre as questões de identidade sexual suscitadas pela obra, mas não encontrei quase nada, só algumas observações pudicas feitas por portugueses preocupados em negar ou esconder a homossexualidade – a meu ver inegável – do autor por trás de considerações oníricas… O simbolismo do livro é claro e não há problema algum em ser homossexual, o curioso é a forma com que os portugueses parecem querem proteger seu clássico das más-línguas. Para um clássico, o livro é muito descuidado. Foi escrito rapidamente em 27 dias.

Mário nasceu em 1890 e suicidou-se em 1916, em Paris, antes de completar 26 anos. “A Confissão de Lúcio” trata basicamente do triângulo amoroso formado pelo escritor Lúcio, o poeta Ricardo de Loureiro e a sua esposa Marta. Uma noite, em conversa com Lúcio e antes de conhecer sua esposa, Ricardo resolve revelar-lhe uma estranheza de sua personalidade. Deixemos a palavra a Sá-Carneiro:

Ricardo deteve-se um instante, e de súbito, em outro tom: – É isto só: – disse – não posso ser amigo de ninguém… Não proteste… Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afetos (já lhe contei), apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar… de estreitar… Enfim: de possuir! (…) Para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou homem ou mulher. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo, eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.

(As expressões grifadas são do original de Sá-Carneiro).

E Ricardo diz mais:

Entretanto estes desejos materiais (ainda não lhe disse tudo) não julgue que os sinto na minha carne; sinto-os na minha alma. Só com a minha alma po­deria matar as minhas ânsias enternecidas. Só com a minha alma eu lo­graria possuir as criaturas que adivinho estimar – e assim, satisfazer, isto é, retribuir sentindo as minhas amizades.

Depois, Ricardo casa-se com uma belíssima mulher, Marta. Lúcio a conhecerá e será seu amante, porém, mesmo com toda a intimidade adquirida, nunca saberá nada de seu passado ou de seus planos. Saberá apenas que ela também mantém casos amorosos com alguns outros amigos de seu marido. Depois, Lúcio, presa de loucos ciúmes dos outros e sem entender a aparente indiferença de Ricardo a tudo isto, resolve matá-lo e, matando-o, faz desaparecer Marta. É como se ela nunca houvesse existido.

Ainda Ricardo falando a Lúcio:

– Ai, como eu sofri… como eu sofri!… Dedicavas-me um grande afeto; eu queria vibrar esse teu afeto – isto é: retribuir-to; e era-me impossível!… Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuísse… Ah! mas como possuir uma criatura do nosso sexo.

E ele volta à lenga-lenga:

… Marta é como se fora a minha própria alma… estreitando-te ela, era eu próprio quem te estreitava… Satisfiz minha ternura: venci! Chegou a hora de dissipar os fantasmas… Repito-te: foi como se a minha alma, sendo sexualizada, se materializasse para te possuir…

Então ouve-se o tiro disparado por Ricardo contra sua esposa Marta, mas quem morre é Ricardo. No mesmo momento, Marta desaparece como que por encanto. É um suicídio, claro. Ricardo, dando um tiro em sua alma sexualizada e materializada, mata-se. Mas Lúcio é quem cumpre pena por ter matado o amigo.

Concordo com a portuguesa Maria Estela Guedes quando ela diz sobre Sá-Carneiro:

Ele, o Esfinge Gorda! Ora me parece a mim que o mistério maior da vida dele é não haver nela mistério nenhum. Lançar a dúvida na mente dos outros é a sua Grande Obra, rasgo francamente genial.

Genial? Nem tanto. O livro é muito curioso, simbólico e com prazo de validade vencido. Mas vale a pena lê-lo. Comprei-o por R$ 5,00, numa edição da Editora Moderna, 2001.

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Reparação, de Ian McEwan

Reparação é tudo o que não há em Reparação (Atonement), de Ian McEwan. A tradução brasileira acrescenta uma curiosa ironia ao romance em que Briony comete e procura reparar uma crueldade infantil, mas que não chega a conseguir. Os portugueses fazem melhor ao traduzir Atonement por Expiação, mas convenhamos, não é um nome bonito para um romance tão bom.

McEwan é um grande escritor, mas acho exagerados os tonitruantes elogios que este romance habitualmente recebe. Coloco Reparação em um nível muito alto, apenas discordo daqueles que o citam como “o melhor da década”, “o melhor que já li” e outras sandices do gênero. Menos, gente. É um livro esplêndido, em que McEwan mantém-se extremamente próximo dos personagens, detalhando suas ações a cada mínimo passo ou pensamento. Neste sentido, é ontológico no grau exato, não entrando na microscopia do argentino Saer, um parente próximo e ainda mais detalhista que McEwan.

O livro é dividido em quatro seções muito distintas entre si. A primeira parte do romance passa-se num dia de verão de 1935 na casa de campo da família Tallis. A narrativa alterna seu ponto de vista entre Cecilia, irmã mais velha de Briony que tem por volta de 18 anos, Robbie, o agregado filho da faxineira da casa, protegido do patriarca Tallis, Briony (de 13 anos) e sua mãe Emily. Os artifícios narrativos de McEwan são muito inteligentes e requerem algum virtuosismo. A narrativa é lenta e nunca sabemos exatamente a sequência exata dos acontecimentos. Porém, conseguimos organizá-los pois, aqui e ali, cenas que haviam sido narradas do ponto de vista de um personagem voltam a ocorrer, agora descritas a partir de outro ponto de vista, permitindo outras interpretações. Essa relatividade, além de ser perturbadora, serve para que compreendamos os fatos e seu efeito estético é arrebatador.

O plot é muito semelhante ao do clássico de E. M. Forster, Passagem para a Índia. No livro de Forster, o Dr. Aziz leva a moderninha vitoriana Adela Quested para conhecer as Cavernas de Marabar, a “verdadeira Índia”. Algo então acontece e Adela foge morro abaixo, machucando-se muito. Adela acusa Aziz de tentar estuprá-la. O médico desce o morro preocupado, sem saber o que aconteceu com Adela, se está perdida no labirinto de cavernas ou não, e é surpreendido pela acusação. O Robbie de McEwan, após passar a noite procurando duas crianças fujonas, retorna vitorioso com elas nos braços e recebe a acusação de ter, durante sua procura, estuprado Lola, uma insinuante adolescente de 15 anos, prima de Cecilia e Briony. O testemunho de Briony — que sabemos fantasioso, imaginativo, vingativo, ciumento, preconceituoso e mentiroso — é absolutamente decisivo.

Não é uma cópia, longe disso; faço as comparações para demonstrar uma curiosa comunicação entre dois grandes romances ingleses. Se lá em Forster o tema é o preconceito inglês contra os indianos e a amizade, aqui o leque é muito mais amplo. Mas não nos adiantemos.

Na segunda parte, em 1940, Robbie já cumpre sua pena. Deixou a cadeia em troca de alistar-se como soldado na Segunda Guerra Mundial. O romance muda, torna-se mais ágil, menos interessante, quase comum. Mas é um trecho absolutamente necessário. Afinal, é a primeira expiação, a do inocente.

A terceira parte foca-se na expiação de Briony, ao tentar finalmente reparar seu erro. Aqui, McEwan volta a ser grandioso. É mostrada em toda a extensão as consequencias de um ato de crueldade. O autor espreme até a última gota a culpa de Briony, a relação do casal Cecilia-Robbie com um ato de inconcebível maldade e da gratuidade, o perdão, o remorso, a fantasia e a mentira. McEwan mostra-se um escritor do tamanho de seus temas e isso não é pouco: o desafio era complicadíssimo.

A quarta parte do romance é curta, 24 páginas. Traz Briony aos 77 anos, em 1999. Ficamos sabendo que ela é a narradora do romance. E que a reparação é-lhe negada de todas as formas possíveis.

É um tremendo romance.

No último encontro entre Briony, Robbie e Cecilia, Robbie pergunta:

“Você acha que eu estuprei sua prima?”
“Não.”
“E achava na época?”
Ela procura as palavras. “Sim, sim e não. Eu não tinha certeza.”
“E por que você tem tanta certeza agora?”
Ela hesitou, consciente de que ao responder estaria oferecendo uma espécie de defesa, uma justificativa, e que isso poderia irritá-lo ainda mais.
“Porque cresci”.

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José Saramago, Gabriel García Márquez e Ela

Dois escritores de línguas latinas, dois velhos, um com 83 anos, outro com 77, os dois ganhadores do Prêmio Nobel, ambos mestres reconhecidos mundialmente e homens de esquerda, publicaram livros em 2005. Como se não bastasse, o tema de As Intermitências de Morte e de Memória de Minhas Putas Tristes é o mesmo: a morte. E são, apesar de se utilizarem de abordagens inteiramente diferentes, excelentes romances, vivos, belos e otimistas, apesar do realismo de ambos impedir quaisquer frases menos claras do que esta de García Márquez: “Faça o que você fizer, neste ano ou em cem, você estará morto para sempre e jamais”.

E aqui cessam as semelhanças, pois talvez a intenção e a expectativa dos dois sejam diversas. Se Saramago escreveu um de seus melhores livros, uma obra muito ambiciosa e original, García Márquez criou um delicado divertimento, uma obra menor – o que não é demérito nenhum -, que fica no terreno do onírico e do poético. Porém, paradoxalmente, o livro de Saramago, aquele que não é um “divertimento”, é engraçadíssimo e posso dizer que há anos não ria tanto lendo um livro.

(Gostaria de acalmar meus 7 leitores dizendo-lhes que não contarei as histórias dos livros. Na verdade, duvido que alguém NÃO tenha comparado estes dois livros ainda. Mas pesquisei no Google e não encontrei nada… Adiante!)

As Intermitências de Morte pode ser dividido em duas partes; a primeira é a mais cômica e descreve o momento em que a morte desiste de matar os habitantes de um pequeno país. Este passa a crer-se como protegido por Deus, há euforia e atmosfera de orgulho no ar, porém a governo e a Igreja incomodam-se muitíssimo. Depois a morte volta a atuar, mas de outra forma, e acaba tendo sérios problemas com um habitante, o qual não consegue absolutamente matar. O caráter da Morte de Saramago é bem diferente do que vemos usualmente em obras artísticas. Trata-se apenas de uma burocrata com, digamos, excessivo poder e que organiza seu trabalho em fichas. Às vezes, ela se atrapalha, estando bem distante daquela Morte imaginada por Bergman em O Sétimo Selo e que aceita jogar xadrez com sua vítima, demonstrando ser uma jogadora suja e implácavel. A segunda parte dá notável e justo destaque à 6ª Suíte para Violoncelo Solo de J. S. Bach, que é eleita pelo autor como uma espécie de símbolo da imortalidade , o qual é respeitado e admirado até pela Morte. Aqui o romance torna-se mais reflexivo e lento, estamos dentro do terreno do destino inexorável e o senso de estilo de Saramago dobra-se e adapta-se perfeitamente a este clima, levando-nos a um final literária e literalmente arrepiante.

García Márquez optou por ser bem mais modesto. Se Saramago apresenta-nos a Morte “viva”, movendo-se e dialogando como Thomas Mann fez com o Demônio num dos capítulos mais gloriosos de toda a literatura, García Márquez dá a uma prostituta de 14 anos a representação da morte. O personagem principal e narrador, um jornalista de 89 anos ainda em atividade e que manteve-se solteiro por toda sua vida, pede uma menina ainda virgem a sua velha amiga cafetina, no dia em que completará 90 anos. Esta menina chama-se Delgadina, provavelmente uma ironia para com a figura da morte, sempre delgada e elegante em sua existência de puro-osso. Delgadina – sempre cansada do trabalho – costuma permanecer dormindo nas “noites de amor” com o velho, que parece descobrir pouco a pouco a vantagem de nunca acordá-la e de deixar-lhe apenas mimos, enquanto a jovem prostituta reclama para a cafetina o fato de nunca ser acordada e de ainda ser virgem… Porém, nem sempre ele conseguirá que seja assim.

Trata-se de um livro mais leve, poético e “fácil”, mas, se tivesse que sugerir leituras de férias a meus 7 leitores, sugeriria os dois livros; mas, se fosse obrigado a escolher apenas um, os mandaria direto ao assunto, direto a Saramago.

Para terminar, gostaria de destacar mais uma curiosíssima coincidência entre os livros:

García Márquez: Às quatro horas tentei me apaziguar com as seis suítes para cello solo de Johann Sebastian Bach, na versão definitiva de dom Pablo Casals. Acho que é o que de mais sábio existe em toda a música, mas em vez de me apaziguar como de costume me deixaram num estado da pior prostração.

José Saramago (utilizo a mesma grafia do romance): Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até as paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até a sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior para violoncelo de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou ter aprendido música para saber que havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos se escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua.

Sim, Bach, sempre ele, o homem de obras elas quase tantas como foram as da criação (ainda Saramago), Bach e suas suítes para violoncelo solo, aquelas mesmas que dou a tantos amigos, que falam como os homens, que trazem a humanidade em si e que podem tornar a morte humana, ao menos na arte.

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Sexo Anal [uma novela marrom], de Luiz Biajoni

O Biajoni, nosso amigo da Verbeat, fez o seguinte: escreveu a novela Sexo Anal e, antes de procurar uma editora, mandou confeccionar 180 exemplares para que os amigos e potenciais editores pudessem lê-los em formato agradável. Trata-se de um respeitável investimento. A quem não faz falta R$ 1.500,00? Pois o livro ficou bonito, com depoimentos de vários blogueiros na contracapa, com o Idelber e seus títulos numa orelha e com uma foto desnecessária do autor na outra.

Tenho que começar comentando o título da novela. Recebi-a na Primavera dos Livros em São Paulo e deixei-a sobre a minha mesa de autógrafos – estávamos em novembro, época do lançamento do Blog de Papel. Notei logo que as pessoas olhavam espantadas para o livro do Bia e depois para o meu. Tratei de virá-lo, escondendo sua capa. O Bia, há 100 metros da mesa e com olhos de lince, viu minha atitude e desesperou-se… Eu estava envergonhado de sua novela! Fato semelhante ocorreu numa sala de espera de um médico. Todo um mulherio desconhecido estava aguardando comigo e eu não quis ser identificado por elas como o cara que lê Sexo Anal. Sou um cara discreto, meio sem graça, aceitavelmente simpático. Então, peguei minha agenda, pus meu sexo anal dentro dela, sorri vitoriosamente para aquelas doentes e continuei minha leitura. Aliás, recebi importantes feedbacks e o Bia tem que saber disso: os homens dão gargalhadas com o título, as mulheres são discretas quando lêem “Sexo Anal”, mas o subtítulo “Uma Novela Marrom” causa-lhes rejeição e horríveis caretas. Quando a gente começa a ler, fica sabendo que a história em grande parte retrata a vida dentro da redação de um jornal da imprensa marrom, porém quem lê o título acha que o marrom alude a outra coisa… É um jogo de palavras bem ao estilo do Bia, porém minha irmã, a Claudia e também a bela Belly, do Mishappenings – que veio iluminar uma manhã meio chata aqui no escritório – torceram o nariz para a coloração da coisa. Sabemos que o cérebro feminino funciona diferentemente do nosso, muito mais simples.

Faço todo este blá-blá-blá porque a novela é muito boa e é uma injustiça pensar que trata-se de um título escandaloso a encobrir uma história chata e de prosa raquítica. Pelo contrário! O Biajoni é um escritor pop, o gênero de ficção que ele faz é pulp, ele está totalmente voltado a contar uma história e o faz com grande fluência (li as 200 páginas em três dias, o que é muito rápido para quem trabalha bastante como eu). Com personagens muito bem construídos, a novela grudou em mim e Biajoni – tudo para contar a história – usa bastante e habilmente um achado que funciona bem, acelerando a narrativa. Numa novela cheia de diálogos, o Bia faz assim, ó:

– Vamos voltar?
– …
– Vamos voltar ao que era antes… No final de semana vamos dançar, etc.

Aquelas reticências utilizadas como resposta no diálogo tornam desnecessárias grandes explicações. O leitor sabe que do outro lado está alguém ouvindo e que a frase anterior teve alguma repercussão. O conteúdo dela pouco interessa, o que interessa é que algo bateu do outro lado. Nós, com a nossa experiência, trataremos de dar-lhe algum significado. Isto acelera a narrativa e evita os parágrafos descritivos. Muito bom.

E a história de Virgínia, Luiz, Ana, do outro Luiz e de sua filha, entremeada do ambiente de redação de um pequeno jornal que sobrevive de manchetes sanguinolentas é muito boa. Virgínia é uma jornalista que namora Luiz, um funcionariozinho sem graça de um escritório de contabilidade que lhe dá aquilo que ela gosta. Só que ela o trai com seu médico e, por pura honestidade, conta para Luiz. O que vem depois é a história da crise entre os dois, onde participam o amigo legal (o outro Luiz), Ana (a homossexual interessada em Virgínia), a filha de Luiz e toda a fauna do jornal em que Virginia trabalha. Para perturbar ainda mais a namorada do funcionário, seu chefe passa a encarregá-la de trabalhos cada vez mais importantes dentro do órgão marrom que chefia, o que a faz pensar que Luiz não seria um bom investimento para uma jornalista prestes a tornar-se famosa, mas até tal ascensão é relativa… Bom, não vou contar tudo!

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Para não ficar só nos elogios, tenho algumas restrições ao final do livro e disse isto ao Bia. É uma questão de gosto pessoal. Acho que o livro deveria ir algumas páginas além, complementando a história da filha do Luiz. O que fazer se a considerei uma personagem especial e me preocupei com ela?

Como special guest star, temos um certo Alexandre, um sujeito absolutamente tarado por pés e que protagoniza patéticas cenas lambendo, beijando e etc. os pés das heroínas… Fazendo uma interpretação não autorizada, diria que Bia está “homenageando” seu grande amigo blogueiro Alex Castro, altíssimo intelectual e notório podólatra carioca, que fotografa e manipula os pés de suas amigas, às vezes criando uma verdadeira podoteca em seu blog.

Fico pasmo pela dificuldade do Bia em encontrar editora para sua novela. É pura diversão, não há teses, não irá mudar o mundo, não é auto-ajuda e… e daí? Sexo Anal é eficiente naquilo que se propõe – contar uma história grudenta e tornar interessantes – e são!, e devem ser contadas! – as vidas de pessoas absolutamente comuns. E, por favor, não pensem que é uma novela pornográfica ou erótica. Também é, mas penso que Sexo Anal sirva melhor à diversão do que à masturbação.

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Pó de parede, de Carol Bensimon

Observação inicial: Quando peguei este Pó de parede, logo pensei: ih, autora gaúcha, lá vem confusão. Acontece que alguns comentaristas sulinos ficaram nervosos quando achei apenas correto o romance Música Perdida de Luiz Antônio de Assis Brasil ou repetitivos alguns Noll. Há pessoas que vêem política, interesse e “intenções” suspeitas nessas curtas anotações diletantes a que chamo pretensiosamente de resenhas e cuja maior motivação é, singelamente, a de não esquecer o livro. Claro que nelas revelo o maior ou menor prazer que tive ao terminá-lo, mas, pô, nada de nervos, gente.

Carol Bensimon veio recomendadíssima: aposta de Luiz Ruffatto na Bravo!, artigo na Aplauso, além de elogios ouvidos aqui e ali a uma jovem escritora e é óbvio que comprei seu belo livro de estréia na Feira, obra da também gaúcha Não Editora.

Pó de parede é formado de três novelas na tradição de alguns volumes muito queridos meus: há as três clássicas de Tolstói na tradução de Boris Schnaiderman, Sonata a Kreutzer, A Felicidade Conjugal e A Morte de Ivan Illich; as três de Turguenev, O primeiro amor, Ássia e Águas primaveris; as três de Flaubert, Uma alma simples, A lenda de São Julião Hospitaleiro e Herodíade; as três de James, A lição do mestre, O desenho no tapete e A vida privada; ou seja, parece que os autores ou os editores gostam do formato do trio de novelas. Mas vamos ao livro.

A primeira surpresa é a inventiva prosa de Carol. Ela tem um pensado trabalho de linguagem em que toda rebarba fica de fora, mas o resultado não é daquele gênero no qual a inteligência e o suor do autor acabam por sufocar quem lê; não, o resultado é leve, coloquial e poético. Seus diálogos, por exemplo, são ótimos, transcritos de forma pouco convencional, variando entre o formato utilizado por Saramago, o de Pedro Rosa Mendes e disposições que parecem poesia, soltas no ar. O texto é pontuado por analogias muito próprias e femininas, distantes de quaisquer clichês ou influências reconhecíveis. Sim, Carol Bensimon é excelente escritora.

Todas as histórias tem o ponto comum de referirem-se a casas. É como um jazzista que repete o tema tocado pelo solista anterior para dar unidade à música. A primeira história, A caixa, é muito bonita. Dividida em capítulos cujos títulos são os anos em que se passa a ação, A caixa acaba por ser um mosaico de onde emerge clara a amizade entre Laura e a narradora. Falta céu é a melhor das três novelas. É curta mas trata de um grande número de personagens contra um triste cenário de construção-desconstrução. É uma novela nada esquecível, realista, de boa história, personagens bem construídos e polifonia arrebatadora. Capitão Capivara é bem humorado e simples, possuindo o clima triste de alguns filmes de Allen e Altman, com personagens insatisfeitos vivendo num estranho Sanatório Berghof que faz marketing adoidado.

Boa escritora, poética e delicada, Carol Bensimon não fala de seu umbigo, não se apóia apenas em sexo e violência e muito menos naquela autenticidade “do caralho”. Acho que só faz parte da Nova Literatura por fazer literatura e ser bem novinha. 26 anos, imaginem.

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A pista de gelo, de Roberto Bolaño

Este é o primeiro romance do Bolaño, publicado em 1993. Se A pista de gelo ainda não apresenta a furiosa polifonia dos livros seguintes, já temos três narradores alternando-se para contar uma falsa história detetivesca. O livro poderia também chamar-se “Era para ser um whodunit…”. Não digo isso por achar que A pista de gelo seja um fracasso como livro policial — não se trata de um fracasso, longe disso –, mas para reforçar o tom de paródia que o romance mantém por trás de sua originalidade. Ou seja, ele não quer ser um whodunit.

É um livro leve, curto, onde se pode espreitar o grande autor que viria a seguir. Três personagens oriundos do mundo literário, o empresário com pretensões literárias Remo Morán, o poeta lúmpen Gaspar Heredia e o político filha-da-puta Enric Rosqueles contam e participam da história que se passa no balneário de Z, na Espanha, durante um verão. A ação gira em torno da patinadora Nuria para a qual Rosqueles constrói uma pista de gelo num palacete abandonado, onde ocorre um assassinato. O crime ocorre na segunda metade do livro — prova de que Bolaño diverte-se mais com as vozes e suas interações — e o responsável pela morte é revelado quase de má vontade, com se fosse uma concessão ao leitor que, afinal, há de querer saber alguma coisa sobre aquele assunto. O que sobressai no livro é a notável capacidade de Bolaño para construir personagens, as cenas sempre montadas de forma sedutora e sua prosa ágil. Mesmo não sendo um policial típico — e como seria com aqueles narradores? –, é impossível largar o livro antes da última página. Coisas de um grande autor.

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Dois livros d`Os Viralata: Branco Leone e Luiz Biajoni

Li dois livros editados pela Os Viralata, editora que penso ser de propriedade do Branco Leone. Um dia, os Viralata ainda editará(ão) algo de Milton Ribeiro, mas não temos pressa alguma e nunca fizemos nada nesse sentido nem em outro. É uma editora que trabalha sob demanda, você compra o livro e rapidamente eles o produzem para envio. Ou têm um estoque diminuto para enviá-lo rapidamente. Ao menos acho que é assim, nunca investiguei nem perguntei.

O primeiro que li foi Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone, de Albano Martins Ribeiro. É óbvio que, sendo neto de Manoel Martins Ribeiro, de São João do Loure, distrito de Aveiro, eu só posso simpatizar muito com o Albano de mesmos sobrenomes e santa terrinha.

O livro é formado por crônicas que foram posts. Não conheço os originais, mas a maioria delas merecem o status de crônica, enquanto outras nasceram e morrerão efêmeros posts. Estou convencido que o autor — qualquer autor — não sabe julgar sua obra. Eu, por exemplo, sempre estou tentando explicar que aquilo que as pessoas gostam é o pior de mim e que o bom é isso ou aquilo, mas elas sempre discordam. No livro do Branco, há uma tal disparidade entre a esmagadora maioria de textos bons e os poucos textos ruins que eu fico pensando o quanto sua filtragem passou pelo emocional e aí, meus amigos, é onde mora o perigo.

Sem puxar o saco de meu futuro editor, aviso que os textos do Branco são engraçadíssimos. Ele tem o domínio de vários gêneros de humor e nos surpreende com coisas escrachadas e sutis, às vezes separadas apenas por uma linha ou nem isso. O humor escrachado de O Galaxão, onde quase adolescentes compram um Gálaxie na certeza de que, com ele, comeriam muitas mulheres; a cuidadosa escolha dos adjetivos e das analogias mais inusitadas em Picrato de Butesin, que me fez lembrar Dickens, talvez por livre-associação; o típico enrolador de Turmalino von Münchausen; o humor negro carinhoso de Um tio; a nostalgia de A senha; o hilariante Rivotril, uma história de alegria que eu e minha mulher lemos às gargalhadas dentro de um avião; a infância de A primeira gargalhada e a inteligência de A vida não imita a arte, mas deveria são os pontos mais altos deste livro, na minha sempre contestável opinião.

Li também a novela Virginia Berlim, de Luiz Biajoni. O Bia mudou e desta vez nos conta uma história rarefeita. Ele deixa que a imaginação do leitor preencha as lacunas de um enredo que deixa laços soltos e sem explicação. O foco narrativo parte da primeira pessoa do singular – um sujeito preso em seu apartamento por motivos que não declinarei aqui – e Biajoni dá ao narrador o mesmo conhecimento que temos ao contar nossas histórias de amor: um conhecimento parcial e extremamente insatisfatório. Essa falta de detalhes que seriam fundamentais numa novela convencional e a atenção masculina que o narrador dá a seu próprio sofrimento é a grande charme da narrativa. Detesto a simples idéia de um debate com Alex Castro – o homem gosta de briga mesmo! -, porém discordo quando ele escreve no prólogo que o estilo do Biajoni é não ter estilo e concordo quando ele diz que é suado e deu trabalho ser tão transparente — apesar de achar que o termo musical-geográfico “rarefeito” seja mais adequado do que transparente. Discordo porque Virginia Berlim é uma novela reveladora de que o Biajoni tem senso de estilo – outro termo roubado à musica – e trata cuidadosamente de não pisar sobre a linha que poderia levar a novela à detalhismos inúteis ou ao melodrama convencional. Como charme adicional, a novela vem com um CD com as músicas “ouvidas” no livro. Alex, tudo aqui é estilo, elegância… E eu gosto.

(A novela é tão boa que a gente chega a esquecer as opiniões do Biajoni sobre Jorge Luis Borges…)

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A Ocasião, de Juan José Saer e Niels Lyhne, de Jens Peter Jacobsen

Eu mesmo começo este texto pensando se não seria demasiadamente absurdo comparar o argentino Saer (1937-2005) e o dinamarquês Jacobsen (1847-1885).

Quem me convenceu a ler Saer foi a crítica argentina Beatriz Sarlo, que falou sobre ele com imenso entusiasmo na Flip de 2005. Como se já não bastasse, a Rascunho do mês de agosto fez nova reverência ao escritor que morreu em Paris, há 3 anos. Comprei seu romance A Ocasião (Cia. das Letras, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman) e estou absolutamente encantado com “a transformação de cenas banais em verdadeiras apoteoses descritivas”, para usar a expressão do crítico Moacyr Godoy Moreira, da Rascunho. É um romance de frases longas, cujo tema principal é a ausência e que, em seu ritmo e pela qualidade das descrições, realiza curioso diálogo dentro de mim com o notável Niels Lyhne de Jacobsen (Cosac & Naify, tradução de José Paulo Paes), o lírico fundador da escola naturalista na literatura escandinava, morto em Thisted, na Dinamarca, há 123 anos.

Os temas de um e outro livro tocam-se levemente. Se aqui há a ausência, ali há a despedida. E é só. Seus pontos comuns estão nas descrições de precisão microscópica que fazem com que cada atitude ou objeto nos chegue de forma distinta de qualquer outro. As diferenças entre atos de mesmo gênero vêm esmiuçadas até o ponto de serem únicas. Ambos donos de impecável precisão vocabular e de arrebatador virtuosismo, Saer e Jacobsen tornam seus dois romances lentos, mas nunca pesados. Não são leituras trabalhosas ou difíceis e minha experiência com Saer demonstra que só preciso retornar algumas linhas quando o pensamento foge, pois todos os detalhes significam, completam e “empurram” a narrativa. Ricardo Piglia tem toda a razão quando declara que “dizer que Saer é o melhor escritor argentino atual é uma maneira de desmerecê-lo. Para ser mais exato, é preciso dizer que é é um dos melhores escritores atuais em qualquer língua”. Já Otto Maria Carpeaux dizia que o Niels Lyhne de Jacobsen não era um romance, seria algo que dissolvia-se em quadros maravilhosos, como uma obra episódica de altíssimo nível. O mesmo se pode dizer de A Ocasião e o crítico Moacyr Godoy Moreira escreve “que há passagens que poderiam ser contos independentes, mas que, aos poucos colam-se como retalhos, servindo de arremate ao entendimento de alguns pontos obscuros da história”. Certamente o Lyhne deixa muitos mais pontos em aberto, porém deixo que um crítico dialogue com o outro até para me certificar de que minha comparação não é tão absurda quanto me parecia no começo.

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O Poste de Vapor, de Ferenc Molnár

O escritor não sabe quando aprende.
FERENC MOLNÁR

É estranha a trajetória do húngaro Ferenc Molnár (1878-1952). Autor de crônicas em jornais húngaros, de livros infanto-juvenis — é dele o clássico Os Meninos da Rua Paulo –, de peças de teatro em sua maioria muito bem escritas mas sentimentalóides, acabou emigrando para os Estados Unidos onde tornou-se requisitado dramaturgo, principalmente para a Broadway. Várias de suas histórias cômicas foram passadas para o cinema em filmes de Henry King, Billy Wilder, Michael Curtiz e outros. Não era somente popular, mas um escritor respeitado. Imaginem que este autor da Broadway recebeu adaptações de Arthur Miller para rádio e o teatro e Tom Stoppard fez o mesmo modernamente. Molnár é um raro caso de sucesso popular e literário.

Mas isto ocorria separadamente, obra a obra: há um posfácio neste O Poste de Vapor que nos explica que Molnár produziu às vezes “para a literatura” e outras vezes “para o mercado” — expressões minhas. Concordo com o autor do posfácio: certamente, este livro pertence à parte literária de sua obra. O narrador é um jovem jornalista que descreve as loucuras de certo falso capitão, seu colega numa estação de águas termais, localizada na bela ilha Margarida, que fica entre Buda e Pest, no rio Danúbio.

As inverdades e loucuras do capitão dos hussardos, em si muito engraçadas, são apenas o primeiro plano de uma demonstração da inconseqüência de muitas atitudes — boas ou maldosas — e do oportunismo de outras. Não é um livro otimista ou que promova bons sentimentos ou de final feliz, mas é curiosamente sedutor e agradável. Vá entender.

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A trégua, de Mario Benedetti

Eis um excelente escritor. Muito pouco lido no Brasil, o velhinho Mario Benedetti está às vésperas de completar 88 anos. É um poeta, romancista, cronista e ensaísta uruguaio. A trégua é o diário de Martín Santomé, um viúvo de quase cinquenta anos, pai de três filhos, que vive há mais de vinte entre a criação dos filhos, o trabalho de contabilista e casos de uma noite com mulheres quaisquer. É um sujeito apagado e deprimido, um bom funcionário que detesta seu trabalho, mas que o faz bem; um pai que, com os filhos crescidos, recebe deles a indiferença e o desejo de distância. Tudo muda lentamente com a entrada de Laura Avellaneda como sua funcionária no escritório. Jovem, tímida, contida e muito inteligente, ela proporcionará uma trégua à vida de Santomé.

Dito assim, parece uma história como tantas outras, mas não é, não da maneira como o faz Benedetti. Fino observador, ele conta a história com o exato grau de minúcia, explorando principalmente a insegurança do viúvo em sua relação com uma mulher vinte e dois anos mais nova. É quase um estudo da solidão, da felicidade e do passar do tempo em forma de ficção. Vale a pena ler este pequeno romance com mais de cem edições em espanhol.

Minha única estranheza foi a forma como Benedetti refere-se ao homossexualismo antes do episódio do politicamente correto. Não é agressivo, porém não é nada compassivo. Compreende-se, o romance é de 1960.

Soube que a editora Alfaguara traduziu mais dois livros de Benedetti: El Buzón del Tiempo, lançado como Correio do Tempo, e Primavera con una Esquina Rota (ainda sem título). Mas fiquemos antes com A trégua. Indico fortemente.

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Incompletos, de Albano Martins Ribeiro (Branco Leone)

IncompletosEu acho mais simpático e engraçado Branco Leone, mas o outro nome também está adequado; afinal, meu avô chamava-se Manoel Martins Ribeiro, nascido em São João do Loure, Portugal.

De todos os autores que apareceram através dos blogs, Albano-Branco é o que mais gosto. E não li poucos. Vamos começar pelo título do livro. Fico na dúvida se Incompletos é uma referência aos personagens do livro — sempre em busca do outro (em alguns casos em fuga) –, ou se aponta para a estrutura voluntariamente fragmentária dos contos. É um belo título. E um belo livro. Os contos são curtos, parecem instantâneos de um fotógrafo muito indiscreto. São muito bem escritas “cristalizações do fugidio” amoroso, como diria Erico Verissimo, contadas na voz característica do autor, entre a bem-humorada indulgência e a absoluta crueza. A única coisa que me perturbou na coletânea foi a história da qual gostei mais. (sexta à noite, no purgatório) é a maior narrativa do volume – 28 páginas -, a mais fragmentária e a que me causou a estranha sensação de pertencer a algo maior, que não nos foi dado a conhecer… Queria mais, parece haver mais. Haverá? Talvez seja porque a mim, o sarcástico narrador deste conto fez lembrar o extraordinário narrador da obra-prima Homo Faber, de Max Frisch. Mas isso é problema meu. Tiago Casagrande, ao comentar o livro, escreveu que Incompletos era um livro rarefeito, daqueles que nos deixam com mais dúvidas que esclarecimentos. Perfeito. Quem quiser verdades estabelecidas que vá a outro quintal, quem quiser o prazer da leitura que venha aqui.

O excelente livro é da editora Os Viralata.

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Música perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Lv MusicapQuando Música perdida fez a final da Copa de Literatura Brasileira contra Um defeito de cor tive absoluta certeza de que o vencedor seria o elogiado livro de Ana Maria Gonçalves. Ora, Ana surgiu nos blogs, Um defeito de cor recebera críticas favoráveis de todo gênero e os julgadores, seus pares, acabariam por escolhê-la, mas não foi o que aconteceu. O vencedor foi Música perdida. Tive então outra certeza: a de que se tratava de um livro superior, de uma obra cuja premiação era inexorável. E, burro que sou, enganei-me novamente.

Assis Brasil adota seu habitual tom manso para contar a história do Maestro Mendanha. No início, tudo me interessava. O personagem principal e suas circunstâncias eram muito sedutoras, principalmente para alguém que, como eu, ama e convive diariamente com a música erudita. Tanto foi assim que foi um pouco complicado inferir o que estava me incomodando no romance. Só quando o autor apresentou Pilar é que ficou clara a planura e a débil construção dos personagens. Assis Brasil nega-se a invadir suas psicologias, preferindo sinalizar acontecimentos e transições com simbolos factuais que são tão claros, mas tão notórios, que funcionam como deselegantes semáforos. Três mortes casuais ocorridas num mesmo dia – recurso estranho para uma narrativa tão tradicional – e uma enorme culpa fazem o personagem fugir de Vila Rica para uma guerra no sul, mas ele, internamente, não parece padecer grande sofrimento simplesmente porque Assis Brasil não o descreve. O livro é todo feito de narrativas de fatos, parecendo mais um roteiro cinematográfico escrito em linguagem literária. Para acabar com meu humor, o autor dedicou-se a estragar o final de minha tarde de domingo – a hora do suicídio – adotando um tom grandiloqüente em seu gran finale, equívoco que ele já havia cometido no patético final feliz de Concerto Campestre.

Pretendo ler Um defeito de cor assim que o obtiver de volta. A empregada lá de casa o pegou para ler. Ela escolhe seus livros e costuma ter bom gosto: antes leu Lolita.

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Ássia, de Ivan Turguêniev

Assia Ivan TurguenievComparar Dostoiévski e Tolstói sempre me pareceu coisa de amador. Os dois são tão diferentes que parecem trabalhar em faixa própria. Tolstói tem melhor texto, se o encararmos do ponto de vista clássico, e, de certa forma, é um escritor que aspira à imortalidade. Ele a obteve com folgas… Já Dostoiévski é mais escabelado e moderno, fazendo com que sua prosa dobre-se aos personagens. Eu, que não sou bobo, não faço escolhas e gosto de ambos. Porém, havia outros enormes escritores circulando pela Rússia czarista e havia um que trabalhava na faixa de Tolstói. Era Ivan Turguêniev. Escritor de grandes recursos, criou algumas novelas perfeitas e um romance idem: Pais e Filhos.

Tenho especial consideração pelas novelas, estas narrativas que ficam entre o conto e o romance, seja em tamanho, seja em alargamento de intenções. Grandes escritores se dedicaram ao gênero. Kafka escreveu A Metamorfose, A Colônia Penal e outras; Henry James tem obras-primas como A Volta do Parafuso, Os Amigos dos Amigos, A Vida Privada, O Altar dos Mortos, a insuperável A Fera na Selva, etc.; Isak Dinesen tem Os Sonhadores e outras; Heinrich von Kleist escreveu uma inesquecível: Michael Kolhaas; Tolstói tem seu trio de ferro: Sonata a Kreutzer , A Morte de Ivan Illich e A Felicidade Conjugal; Goethe tem Werther. Estes exemplos foram os primeiros a me ocorrer, há muitíssimos mais.

Voltemos a Turguêniev ou Turguenev, como queiram. Quando vi que a Cosac & Naify tinha lançado a novela Ássia, animei-me imediatamente – seria ela um outro O Primeiro Amor, seria ela outra grande novela de Turguêniev? Não, não é tão boa, mas estão lá todas as características que fizeram deste russo um escritor tão singular. Lá está a prosa impecável do russo e lá estão os aristocratas inúteis de sempre, porém o narrador de Ássia é, além de inútil, um covarde emasculado. Ássia é uma jovem que se apaixona por ele. Só que o narrador fica confuso no momento decisivo e deixa a moça pensar que ele não a ama.

Este tema é um clássico em várias literaturas. Inclusive Machado de Assis constrói um de seus melhores e mais importantes contos sobre o tema do momento decisivo – o Missa do Galo (que é muito melhor que Ássia, bem entendido). Só que Turguêniev não deseja apenas mostrar um desencontro fortuito entre dois amantes, mas uma “história moral de sua geração”. Talvez por isto tenha criado um narrador tão inerte e irritante. Esta aristocracia russa, cuja psicologia é tão bem descrita neste livro e em grande parte da obra de Tchékov, mereceu plenamente a revolução que a sepultou.

Não ignoro que na literatura russa do século XIX havia eslavófilos e europeístas. Eu passei intencionalmente por cima desta esta classificação, OK?

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