Goran Bregovic está em Porto Alegre e a terra vai tremer

Pois é. Goran Bregovic fará hoje e amanhã, 8 e 9 de setembro, a abertura do Porto Alegre Em Cena de 2010. Ele já veio a Porto Alegre, todo mundo que eu conheço parece tê-lo visto, menos eu… Eu apenas tenho todos os discos. Mas, desta vez, já tenho garantido meu ingresso e os de toda a família. Vamos vê-lo hoje.


O show é Alkohol, cuja história já foi contada neste post. Bregovic vem com grande banda, a Wedding & Funeral Band — são os habituais metais, a guitarra, os tambores, o sexteto de vozes masculinas e as tais loiras búlgaras de cujas vozes meus amigos tanto falam. Sua chegada a um hotel qualquer de Porto Alegre poderá não ser tão feliz quando esta…

Al llegar al hotel en Buenos Aires me dieron un sobre que me habían dejado de parte de Sábato. Contenía un libro, Sobre héroes y tumbas, y una carta en la que me pedía disculpas por no acudir al concierto. Me explicaba que mi música le había salvado en momentos de depresión. Lo curioso es que cuando hice el servicio militar en Nis, en la época comunista, robé de la biblioteca del cuartel un ejemplar de ese libro. Lo tuve en mi casa de Sarajevo durante años y lo perdí. Con la guerra perdí todo, también mi biblioteca. Puedes empezar dos veces tu vida, pero no puedes empezar dos veces una biblioteca. Todas las cosas grandes que me han pasado están guiadas por cosas pequeñas que se vuelven grandes, como el libro de Sábato.

… mas espero que todo o enorme grupo tenha chegado bem e animado. Além das músicas de Alkohol, Bregovic e sua banda, em show de 2h30, vão tocar músicas de discos anteriores como A Divina Comédia: Inferno, o livro da alma e Karmen com Final Feliz.

Domingo, ele esteve em Brasília. O que houve? Ora…

Alguns juram ter sentido um tremor de terra na região do Museu da República na noite de domingo (5/9). O epicentro do fenômeno era a agitação de cerca de 6 mil pessoas pulando durante a performance do músico sérvio Goran Bregovic. O show de encerramento do Cena Contemporânea 2010 começou com Gas, gas, gas, do álbum Alkohol. Daí para a frente, a performance de Bregovic oscilaria entre momentos festivos até a bela eloquência de uma ópera. “Vamos executar algumas coisas que fiz para o cinema, ópera e músicas dos meus discos. Espero que gostem do meu show”, declarou em inglês.

Acompanhado da Orquestra para Casamentos e Funerais, formada por sete cantores, cinco instrumentistas de sopro, três violinos e um violoncelo, o músico segurou uma apresentação de mais de duas horas de duração. “Nós podemos nos apresentar em funerais de um político ou de gente comum. Mas não morra. Nosso cachê é mais alto em funerais”, brincou Bregovic. Em Kalashinikov, a plateia era convidada a gritar em coro: “Atacar!”. Momentos instrospectivos também tiveram espaço como em In the deathcar, do filme Arizona dream – Um sonho americano, uma das várias trilhas sonoras assinadas pelo músico para o cineasta conterrâneo Emir Kusturica.

Pela primeira vez em Brasília, o sérvio se apresentou justamente no dia mais seco do ano, com a umidade relativa do ar a 12%. “Eu ainda não pude fazer um passeio. Mas é quase um milagre que essa cidade exista. Não existe nada parecido no mundo”, concluiu. Como todo músico estrangeiro, Bregovic fez uma observação. “Venho ao Brasil sempre para saber que os músicos brasileiros são muito bons. Bem melhores do que eu”, declarou ainda no camarim.

“Para vocês, pode parecer que o nosso repertório é tradicional. Mas o que faço é música contemporânea”, comentou o artista sobre o próprio trabalho adotado por DJs do mundo inteiro. Na plateia, o músico Vavá Afioni analisava a apresentação. “Apesar do clima festivo, eles têm canções com cadências bem complexas. Todos são exímios instrumentistas”, observou. Mesmo depois do fim da apresentação, o público não arredou pé do museu.

Do Correio Braziliense.

Hoje, a Terra vai tremer em Porto Alegre.

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Expointer propõe mudanças na língua portuguesa

A mais importante feira agropecuária do sul do país foi muito mais propositiva do que suas edições anteriores. Após os ovinocultores terem vaiado Lula porque este estaria atrapalhando os negócios na última sexta-feira, os pecuaristas gaúchos paçaram a utilizar o “Ç” (Cê-cedilha) de forma indiscriminada e sistemática.

Vejam o que fez a TVE gaúcha, ao anunciar uma transmição no Jornal do Comércio (não, não é montagem):

Nossa reportagem foi hoje à tarde na Expointer e qual não foi noça çurpresa ao ver a adesão imediata à nova ortografia pecuarista:

Estamos muito felizes com o çuçeço iniçial da nova ortografia. Este blog já aderiu. E voçê? Adira logo, é çençaçional!

Com informações e imagens de Fernando Guimarães.

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Telemann: Concerto para flauta doce, flauta transversa e cordas, TWV 52

Pura covardia. Sou apaixonado pelo grupo italiano Il Giardino Armonico e pelo grande George Philipp Telemann, o mais longevo e popular compositor da época de Johann Sebastian Bach, de quem era amigo. Este concerto, que ouço desde minha infância, me pegou primeiro pelo Presto final, que é aquilo que os compositores alemães da época entendiam por cigano. Ele começa no segundo vídeo aos 3min28. Depois, vi que todo ele era música da mais alta categoria. O corte final do concerto é um tanto brusco, mas ele está completo. O líder do Giardino, Giovanni Antonini, é o cara da flauta doce.

Movimentos: Largo, Allegro (no primeiro vídeo), Largo e Presto.

Ou, se a imagem insistir em não aparecer.

Ou, se a imagem insistir em não aparecer.

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As incríveis legendas chinesas para "A Vida dos Outros"

Muito legal a forma de integração das legendas em chinês ao filme A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen), tremendo filme de Florian Henckel von Donnersmarck. Em vez de deixar a tradução fora da imagem, no local onde ficam escritos os diálogos, o chineses escolheram integrar a tradução daquilo que aparece escrito na imagem a ela própria. Num primeiro momento, eu não notei a alteração; a coisa só ficou clara com a imagem do livro. É uma cena inesquecível do livro que precede a leitura da dedicatória e a afirmação “Não, é para mim mesmo”. Vontade de rever tudo… Baita filme.

Fonte: ChinaSMACK.

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Os Duelistas, de Joseph Conrad (e, secundariamente, de Ridley Scott)

Os Duelistas é uma novela escrita em 1908, mas parece ter sido criada para o cinema. É uma narrativa visual, toda ela imagem, ação e… , bem, honra. Ou será que a culpa desta notável novela me sugerir o cinema é de Ridley Scott? Pois, em 1977, Scott filmou a história com inigualáveis requintes visuais e grandes atuações de Keith Carradine e Harvey Keitel. Cada cena parece um quadro e as imagens vistas nos anos 70 me perseguiram durante toda a leitura.

O plot é o mais simples do mundo. Na França de Napoleão, no início do século XIX, os militares Féraud (Keitel) e D`Hubert (Carradine) envolvem-se numa disputa por uma ninharia que logo se transforma em animosidade. Eles duelam imediatamente — o que era proibido a oficiais franceses em tempos de guerra — , mas o primeiro duelo não acaba em morte e a honra não fica lavada. Então, duelam novamente e novamente, sempre de forma insatisfatória, até que… , bem, não devo contar o final. Conrad é um mestre. Assim como mal explica o motivo inicial da querela, ele, com sucesso, faz de tudo para que os leitores esqueçam o pouco que  disse sobre o início do ciclo de violência. Apesar da curiosidade de outros personagens, não retorna nunca ao tema e nem os duelistas o fazem. O motivo é simples: não interessa. O que importa é manter a honra. As cenas que Conrad cria para os duelos inconclusos são inteiramente críveis. A novelinha, também conhecida pelo título The Point of Honor, é uma joia.

D`Hubert é um estrategista que parece cada vez mais enfadado com os duelos sucessivos, apesar de se atirar a eles com todo o empenho — sempre a honra, a loucura. Seu adversário, Féraud, é um brutamontes cujo único interesse na vida parece ser o de reencontrar D`Hubert. A iniciativa é sempre dele. Eles pertencem a regimentos diferentes do mesmo exército e por vezes se cruzam nas batalhas. São cinco ou seis embates num período de quinze anos, tendo como pano de fundo as batalhas napoleônicas e sua derrocada final.

O absurdo, a irreflexão, a obsessão desmedida, o sentimento de “vazio” que a vida oferece sem uma boa confusão poucas vezes foram demonstrados com tamanha força. Indico ambos: o pocket da L&PM (só R$ 12,00 !!!) e o filme homônino, disponível em DVD.

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Paixão Côrtes é o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 2010

Ser patrono da Feira do Livro pode ser humilhante. Lembro da cara constrangida de Charles Kiefer, em 2008, de braços dados com Yeda Crusius e Mônica Leal. Aquele foi o alto preço cobrado pela vaidade. Lembro da cara “tô nem aí” de meu colega de daltonismo Carlos Urbim no ano passado. Já o folclorista Paixão Côrtes sempre militou na grande imprensa e receberá quaisquer companhias com naturalidade. Estive na cerimônia de escolha do novo patrono. Paixão fez um belo discurso desculpando-se pela idade (83 anos) e pelo marca-passo que o tornará um patrono comedido. Paixão é um Ariano Suassuna low profile. É menos talentoso e bem menos caudilho que seu colega nordestino, pois há um lado positivo em quem não consegue pontificar de forma tão completa.

Hoje li críticas à Feira de Porto Alegre. Seria apenas uma grande  livraria comercial. E há alguma que não seja comercial, mesmo dentre as simpáticas pequenas livrarias? Mas concordo com uma das críticas: há um fato que torna a de Porto Alegre e todas as Feiras — incluindo a Bienal de São Paulo e a Feira bonairense — iguais: são imensas e enjoativas livrarias com mais ou menos os mesmos livros. Mas há que saber usar o evento. Há uma interessante programação paralela que é gratuita e que apenas quem não se interessa por cultura pode ignorar. Em razão disso, ainda dou vivas à Feira de Porto Alegre.

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