Atrás do balcão da Bamboletras (LXXX)

Entra uma moça bem bonita na livraria. É bem jovem e, paradoxalmente, tem cabelos grisalhos. Penso que ela deve ter muita personalidade ou ser uma pessoa excêntrica o suficiente para não se dobrar às modinhas. Ela me pede para ver os cartões. Respondo-lhe que temos poucos e que a maioria ainda é do Natal. Ela examina um a um e parece encontrar um adequado a seu propósito.

Então se aproxima do balcão, eu elogio seus cabelos, ela agradece e me conta que ainda não foi chamada de desleixada, mas que vai acontecer. Diz:

— Eu vou te pedir uma coisa muito pessoal.

Atender numa livraria pode ser muito divertido e já vou antegozando a surpresa que viria. Qual seria a “coisa pessoal”?

— É que eu estou grávida e hoje veio o resultado de qual é o sexo do bebê. Não olhei ainda, mas o resultado está no meu celular. Quero que tu leia e escreva no cartão se é menino ou menina. Vou dar o cartão para meu marido. Quero ver a cara dele ao saber. E então ele vai me informar. Achei um cartão bem bonitinho, olha.

Olhei e vi um cartão de Natal daqueles da Anna Cunha. Uma imagem bonita, naive, digna, de ateu, nem parecia um Jesus Cristinho e não tinha nada escrito nele. Ela tinha conseguido encontrar o que queria.

Peguei o celular dela a fim de ver o laudo. O sistema pediu o CPF. Ela o recitou número por número. O troço pediu depois uma senha.

— Ah, deixa eu ver com meu marido.

Ela ligou pra ele e me recitou a senha dígito por dígito. O laudo se abriu e eu me tornei a pessoa mais importante do universo. Li o sexo da criaturinha e peguei a caneta para escrever. Perguntei:

— Escrevo menino-menina ou guri-guria?

— Pera, deixa eu ver com meu marido.

Ela escreve no WhatsApp e recebe a resposta:

— Ele escolheu guri-guria.

Escrevi, botei um ponto de exclamação ao final, fechei o envelope e lhe entreguei.

— Agora vou pra casa e ele vai me dizer.

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Da Elena no meu aniversário

Um poema do pouco conhecido aqui, de Nikolay Gumilyov.

Bebê elefante

Meu amor por você agora é um bebê de elefante
Nascido em Berlim ou em Paris
Que anda, com pernas bambas
Pelos aposentos do dono do zoológico.

Não lhe ofereça baguetes
Não lhe ofereça grandes repolhos,
Ele só pode comer um gomo de tangerina
Um cubo de açúcar ou um bombom.

Não chore, minha doce, que em uma gaiola apertada
Ele se tornará o escárnio dos comuns,
Para que a fumaça dos charutos seja soprada em seu nariz
Por comerciantes ao som do riso de costureiras.

Não pense, minha querida, que o dia chegará
Quando, enfurecido, ele quebrará as correntes
E correrá pelas ruas
Como um ônibus, esmagando as pessoas aos gritos.

Não, deixe-se sonhar com ele pela alta madrugada
Em brocado e cobre, com penas de avestruz,
Como aquele Magnífico que outrora
Carregou para a trêmula Roma Aníbal.

(1920)

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Sabemos que ler poesia traduzida é como tomar banho de capa de chuva. (c)
Então, coloco o original no primeiro comentário.
Feliz aniversário, meu q u e r i d o!

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Pianistas 1

Pianistas 1

Certa vez, estava em Londres com minha filha Barbara. Eu amo a cidade, mas infelizmente talvez jamais volte pra lá. Evitemos os assuntos monetários, eles me fazem mal.

Pois estávamos em Londres e fomos a um recital de piano de um sujeito de cujo nome não lembro, mas que, se estava no Wigmore Hall à noite, tinha que ser MUITO BOM. Ele tocou Bartók, Beethoven e Schubert. Foi lindo. Daqueles recitais pra gente sair da sala eufórico.

Ao final, o público pedia um bis. Ele pediu para falar e disse algo assim:

— Amigos, hoje cedo, de madrugada, eu ainda estava em Moscou. Vim às pressas tocar para vocês em razão da doença do pianista X., como vocês sabem (eu não sabia nem de doença, nem que ele era o substituto de alguém). Estou bem cansado, porém vou dar o bis. Só que desta vez vou tocar a música que costumo tocar quase todos os dias antes de dormir e que não é um erudito. É algo para relaxar. Vou tocar Peace Piece, de Bill Evans. Não durmam, por favor.

Depois das risadas… Olha, o que o cara fez de Peace Piece foi de arrepiar até o dedão do pé. Durante a execução, eu estava até com medo de respirar, se me entendem. Não queria e não podia atrapalhar, seria um crime.

.oOo.

E a história de Peace Piece, de Bill Evans, é particularmente bonita porque a peça nasceu por acaso, durante uma sessão de gravação.

Evans estava trabalhando, em 1958, na trilha do filme Some Came Running, de Vincent Minnelli. O diretor queria uma versão de “Some Other Time”, de Leonard Bernstein. Evans começou a tocar no piano uma figura repetitiva, muito simples, com a mão esquerda: dois acordes que se alternavam continuamente. Sobre esse ostinato, começou a improvisar livremente com a mão direita. O que deveria ser apenas uma introdução acabou se transformando em outra coisa. O produtor percebeu o que estava acontecendo e tacou o dedo no botão de “Gravar”. Evans continuou improvisando — e nasceu Peace Piece.

O aspecto extraordinário está justamente na maneira como ela é construída. A mão esquerda repete obsessivamente um padrão de dois acordes, quase como um ground barroco, enquanto a mão direita parece flutuar sem nenhuma pressa, inventando melodias que não chegam a uma conclusão. Há pouquíssimo movimento, mas enorme quantidade de movimento interior. Evans consegue fazer com que pequenas alterações de intensidade, duração e articulação produzam a sensação de que a música está sempre mudando.

E há outra curiosidade deliciosa: Evans afirmou posteriormente que não planejou nem compôs propriamente “Peace Piece”. Para ele, a mão direita era uma improvisação que simplesmente aconteceu naquele momento. Por isso a gravação original, de 1958, tem uma qualidade tão particular: ouvimos um pianista descobrindo a música enquanto a toca.

Talvez seja essa a razão de Peace Piece continuar soando tão moderna. Ela está entre o jazz, a música de concerto e uma espécie de meditação — e antecipa, em certa medida, procedimentos que seriam explorados muito mais tarde pela música minimalista e pela improvisação contemplativa. É uma música de uma simplicidade enganadora: quanto menos Evans faz, mais profundamente somos obrigados a escutar. E o pianista de Londres, após maravilhosas peças escritas, nos fez levitar com aquela música não composta.

(Para Augusto Maurer, Francisco Marshall, José Beltrame Cusco, Norberto Flach e Rodrigo Nassif).

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Uma Ressurreição

Uma Ressurreição

Neste final de semana (sábado e domingo, às 17h) a Ospa apresentará uma extraordinária sinfonia que não tocava desde 2003. Um Concerto com a Sinfonia nº 2, “Ressurreição”, de Gustav Mahler, é algo para não se perder. Jamais. É uma obra que começa praticamente diante da morte — o primeiro movimento tem como ponto de partida o funeral de um herói — e vai ampliando progressivamente seu horizonte até chegar à ideia de ressurreição. Mahler transforma a sinfonia em algo maior do que uma composição puramente instrumental: uma espécie de percurso metafísico, no qual silêncio, angústia, memória e esperança vão encontrando seu lugar.

A música é monumental, mas sua grandeza não está simplesmente no tamanho da orquestra ou na duração. Está na capacidade de Mahler de fazer coexistirem, dentro da mesma obra, o sublime e o cotidiano, o solene e o grotesco, a delicadeza quase camerística e as forças descomunais da orquestra — são 200 músicos. Há momentos em que parece que estamos ouvindo a história inteira da música — Beethoven, Wagner, Schubert, a canção popular — sendo lembrada, transformada e, por que não?, ironizada. E há uma característica profundamente mahleriana: quando acreditamos ter chegado ao fim, a música parece abrir mais uma porta.

Uma curiosidade: Mahler levou vários anos para completar a sinfonia. O primeiro movimento foi estreado isoladamente em 1888, e somente em 1894, depois da morte do maestro Hans von Bülow, Mahler encontrou o impulso decisivo para concluir a obra. Conta-se que, durante o funeral de Bülow, ouviu o coral “Aufersteh’n” (“Ressuscitarás”), de Friedrich Klopstock, e percebeu que aquele texto oferecia a resposta que procurava para o final da sinfonia. Assim nasceu uma das mais impressionantes conclusões de toda a música sinfônica: não uma vitória triunfal sobre a morte, mas uma lenta, quase dolorosa afirmação de que a existência pode ter um sentido para além dela.

(Não se apavorem com os músicos fora do palco. É a multidão de almas penadas).

Programa:
Gustav Mahler | Sinfonia Nº 2 em Dó menor, “Ressurreição”
– Allegro maestoso. Mit durchaus ernstem und feierlichem Ausdruck (Com expressão totalmente grave e solene)
– Andante moderato. Sehr gemächlich. Nie eilen (Muito vagaroso. Sem pressa)
– In ruhig fließender Bewegung (Com movimento fluindo tranquilamente)
– Urlicht (Luz Primordial). Sehr feierlich, aber schlicht (Muito solene, mas simples)
– Im Tempo des Scherzos. Wild herausfahrend (No tempo do scherzo. Irrompendo de forma selvagem)

Solistas: Manuela Korossy (Soprano) e Edineia Oliveira (Mezzo-soprano)
Coro Sinfônico da OSPA
Coro de Câmara da PUCRS
Coro Masculino Ottava Bassa
OSPA
Regência: Manfredo Schmiedt

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O que podemos saber, de Ian McEwan

O que podemos saber, de Ian McEwan

McEwan é um autor especialmente bom para resenhas que não contem demais do enredo, porque o que torna seus livros fascinantes — com as exceções de A Barata e Solar, livros que detestei — é justamente a forma como ele vai deslocando, aos poucos, aquilo que pensamos saber sobre as pessoas, o passado e até sobre nós mesmos. Há escritores que contam histórias para nos fazer esquecer o mundo, McEwan faz o contrário: conta histórias para nos lembrar de como é estranho, frágil e misterioso o que julgamos conhecer.

Em O que podemos saber, McEwan parte de uma pergunta que parece simples, mas que logo se torna importante e abissal: o que, afinal, podemos saber sobre uma pessoa que já viveu, sobre um tempo que já passou, sobre uma vida que não é a nossa? O romance se constrói nesse espaço entre memória e imaginação, entre aquilo que os documentos preservam e aquilo que inevitavelmente se perde. E é justamente aí que a literatura aparece — não como uma máquina de recuperar o passado, mas como um modo delicado e inteligente de conversar com aquilo que desapareceu.

Por falar em inteligência, McEwan tem uma bem particular. Ele é mestre em transformar grandes questões em experiências íntimas. O futuro, a memória, o amor, a morte, a passagem do tempo e a nossa relação com as gerações que virão não aparecem como temas filosóficos. Ganham corpo em personagens, desejos, segredos e descobertas. O resultado é um romance que pensa sem jamais deixar de contar uma história.

Neste livro, há também uma espécie de melancolia muito bonita. Não apenas a melancolia diante do que já aconteceu, mas diante daquilo que não poderá mais ser conhecido. Toda vida humana contém zonas inacessíveis. Pessoas que amamos guardam pensamentos que nunca nos revelaram. Acontecimentos importantes são esquecidos ou varridos minuciosamente para baixo do tapete, sentimentos mudam de significado com o passar dos anos. Mesmo quando temos documentos, fotografias, cartas e testemunhos, nunca possuímos inteiramente uma existência.

A história desenrola-se em dois tempos. Em 2119, o mundo foi devastado por alterações climáticas e guerras nucleares que reduziram a população global à metade, afundaram boa parte da Inglaterra (transformado num arquipélago) e tornaram a Nigéria a grande potência. Neste cenário, Thomas Metcalfe, um professor de literatura, dedica-se a estudar o período de 1990 a 2030, uma época que ele chama de “era de ouro”, de abundância e liberdade. E de irresponsabilidade, claro.

A sua obsessão é um poema perdido: Uma Coroa para Vivien, escrito em 2014 pelo poeta Francis Blundy para a sua esposa e lido uma única vez durante um jantar de aniversário e nunca mais encontrado. O poema, uma complexa sequência de 15 sonetos, tornou-se uma lenda, envolto em mistério e especulação. Tom, juntamente com a sua companheira e colega Rose, vasculha os registros digitais do século XXI — e-mails, mensagens, blogs — na esperança de encontrar uma pista que o leve ao poema perdido.

A primeira metade do livro é narrada por Tom, que nos guia pela sua desajeitada investigação a um passado que só conhece através de arquivos. McEwan utiliza esta estrutura para nos fazer olhar para o nosso presente com olhos de estranhamento: o nosso excesso de informação, as nossas redes sociais, as nossas certezas científicas e as nossas estupidezes cotidianas são dissecados com uma curiosa distância crítica que nos faz rir.

A segunda metade, porém, reserva uma reviravolta típica de McEwan (que lembra a estrutura de Reparação). A narradora passa a ser Vivien, a esposa do poeta, que revela uma teia de segredos, amores proibidos e um crime brutal que nenhum arquivo digital poderia conter. É aqui que o romance atinge a sua maior profundidade: o que podemos saber, mesmo com acesso a toda a informação do mundo, é apenas uma fração do que realmente aconteceu. O título, que parece uma pergunta, revela-se uma afirmação melancólica: aquilo que podemos saber é limitado, fragmentado e sujeito à interpretação.

A escrita de McEwan é, como sempre, precisa e elegante. Ele constrói um futuro distópico que funciona como um espelho do nosso presente, refletindo as nossas ansiedades sobre as alterações climáticas, as guerras e o colapso da ordem global. Contudo, o autor não fica preso pelo gênero apocalíptico, que é apenas pano de fundo. A história que é, essencialmente, sobre o amor, a memória e a traição.

A beleza do romance está na forma como McEwan, de 78 anos, transforma a busca por um poema num veículo para questões universais. O que fica de nós quando morremos? O que sobrevive para além dos “likes”? Como é que o futuro nos julgará? O que podemos saber também é um romance sobre a distância. A distância entre uma pessoa e outra, entre o presente e o passado, entre aquilo que aconteceu e aquilo que conseguimos contar sobre o que aconteceu. Mas é também um livro sobre o esforço humano de atravessar essas distâncias.

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A Montanha, de novo

A Montanha, de novo

Dentro da obra de Thomas Mann, sempre gostei mais de Doutor Fausto do que de A Montanha Mágica. Lá nos anos 80, eu dizia isto para o tradutor Herbert Caro, que, se bem lembro, não se posicionava, apesar de seu amor pela música.

Reli há pouco Os Buddenbrook, mas não abri nem A Montanha e nem o Fausto neste século. desde aquele época, a euforia pelo Fausto reduziu-se lentamente e ficou o afeto pela Montanha. É incrível como este romance permanece na minha memória. Nada do que é dito por Luisa Coquemala em suas ótimas aulas sobre A Montanha Mágica é totalmente estranho a mim. Às vezes me vêm expressões como “a luta pela alma de Hans Castorp”, “o filho enfermiço da vida” e ninguém pode bater a porta que já espero o consequente caminhar silencioso e sexy de uma russa. As expressões cômicas do livro — pois há, e muitas! — ainda estão tão presentes em minha memória quanto os capítulos “Neve” e “Politicamente Suspeita”. Qualquer hora dessas, a saudade de Settembrini vai apertar e volto ao livrão de Mann, certamente antes do Fausto.

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A favor dos livros, contra a nova modinha

A favor dos livros, contra a nova modinha

Como livreiro totalmente ralado financeiramente, acordei nesta manhã tão preocupado com as vendas como em bater nesse discurso de que o livro impresso é um “vilão ecológico”. Certo, admito, o livro é até um dos vilões, mas… está bem longe de ser o maior deles. Vejamos:

1. Um livro físico dura décadas, séculos. Qualquer e-reader tem bateria de lítio — obtido em mineração predatória — e vida útil de 5 a 7 anos, exigindo substituição.

2. O livro usa energia apenas na produção. O digital exige servidores (data centers) ligados 24h, que consomem água e energia elétrica constantemente para cada nuvem, cada download e cada sincronização.

3. O papel é 100% reciclável e biodegradável. Até a Macabéa o comia à noite com a finalidade de matar a fome. (Vá ler!). O plástico de capas de tablets e embalagens leva 500 anos para se decompor. Imagina a Macabéa comendo um celular!

4. Comércio local é igual a menos transporte: quando vendo livros presencialmente, evito o impacto de entregas individuais motorizados das compras online. Mais: dou preferência às bicicletas.

5. Se vendo usados, estou no topo da economia circular — prolongando a vida de um produto que já consumiu recursos, sem gerar novo gasto.

6. Livros encalhados não se tornam lixo tóxico.

7. Mais, o ganho ecológico é MAIOR: o livro transforma comportamentos.

8. Pessoas que leem são mais críticas, consomem com mais consciência e tendem a adotar hábitos mais verdes (se alguns não buscam os livros que reservam na Livraria Bamboletras não sou eu o culpado).

9. Um livro sobre sustentabilidade, natureza ou consumo consciente gera um efeito cascata positivo muito maior do que a mordida de carbono da sua produção. Até um livro Machado de Assis gera um efeito cascata, mas isso é conversa pra outro discurso.

10. Papel mata árvores? As árvores do papel são plantadas para isso. Se pararmos de comprar papel, essas florestas viram pasto ou soja, que emitem 10x mais CO2. Sim, nesse item parti pra ignorância!

11. Meu negócio não é anti-ecológico: é necessário. Cada livro que vendo é uma semente de pensamento crítico. E, ao contrário do que dizem, a indústria do papel é uma das poucas que colhe o que planta. O problema ecológico não está nos livros, está no consumo descartável — e livro não se descarta, a gente guarda, a gente empresta, a gente herda.

Então, venham à Bamboletras e salvem uma livraria.

Foto: minha biblioteca pessoal. O que tem de livro bom e biodegradável você não imagina.

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A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (PGO VI)

Não chegaria a dizer que A Hora da Estrela é dividido em duas partes, mas sim que o romance muda profundamente de ritmo. Na primeira metade, quem ocupa o centro da cena é o “autor” Rodrigo S. M. Ele hesita, interrompe a narrativa, filosofa, questiona seu direito de escrever sobre Macabéa. É um texto cheio de desvios, em que Clarice parece desmontar o próprio ato de narrar. Ouvi que vários leitores ficam impacientes, porque a história parece nunca começar. Então, algo muda ali pela metade.

A partir do momento em que Macabéa ganha mais espaço, a narrativa flui com surpreendente naturalidade. Os encontros com Olímpico, a amizade ambígua com Glória, a consulta à cartomante, tudo passa a ter uma cadência muito mais rápida, quase vertiginosa. Rodrigo continua presente, mas interfere menos. É como se, depois de tanta reflexão sobre a dificuldade de contar aquela vida, ele finalmente aceitasse deixar Macabéa existir diante de nós. Há uma ironia nisso: o narrador passa páginas dizendo que não sabe como contar a história e, quando enfim começa a contá-la, percebemos que sabia desde o início. O livro deixa de falar principalmente da escrita e passa a falar da personagem.

Eu acrescentaria ainda uma interpretação. Talvez essa mudança de ritmo tenha também um efeito emocional. Na primeira parte, Clarice nos mantém à distância, fazendo-nos pensar. Na segunda, ela nos desarma. Quando chegamos ao final, já não estamos analisando Macabéa; estamos profundamente envolvidos com ela. Bem, não foi uma interpretação. Foi quase.

Essa é uma das razões pelas quais A Hora da Estrela é tão bom. O romance não apenas conta uma história; ele dramatiza o nascimento da própria história, até que, de repente, percebemos que já não estamos lendo sobre um problema literário, mas sobre uma mulher cuja existência passou a nos importar profundamente. É uma transformação quase imperceptível — e de enorme poder artístico.

Clarice Lispector escolheu como protagonista alguém que passaria despercebido por quase todos. O livro recusa qualquer grandiosidade. Não há heróis, feitos memoráveis ou reviravoltas espetaculares. Há Macabéa, uma jovem nordestina pobre que vive no Rio de Janeiro quase sem deixar marcas no mundo. Ela trabalha, sonha pouco, deseja pouco e parece ocupar um lugar onde a sociedade acostumou-se a não enxergar ninguém.

Mas Clarice Lispector transforma essa vida aparentemente insignificante no centro absoluto da nossa atenção. Como disse, o romance é narrado por Rodrigo S. M., um escritor que hesita o tempo todo diante da tarefa de contar a história de Macabéa. Essa hesitação mais que mero artifício, é uma reflexão sobre a própria literatura. Como narrar a vida de alguém tão vulnerável sem reduzi-la a um objeto de piedade? Como encontrar palavras para quem nunca teve voz?

A escrita é ao mesmo tempo delicada e cortante, alterna momentos de ironia, compaixão, humor e espanto, Cada interrupção do narrador, cada dúvida, cada comentário sobre a escrita, reforça a sensação de que estamos diante de um(a) autor(a) que não aceita respostas fáceis.

O desfecho, tão conhecido quanto devastador, não encerra apenas a história de Macabéa. Ele nos obriga a perguntar que destino reservamos às pessoas invisíveis e qual é o papel da arte diante dessa realidade. Mais do que um livro sobre pobreza ou exclusão, A Hora da Estrela é uma reflexão sobre a dignidade humana. Clarice Lispector nos lembra que toda vida, por mais anônima que pareça, contém uma grandeza que merece ser reconhecida. E talvez seja essa a verdadeira hora da estrela: o instante em que alguém, finalmente, é visto.

Acho que essa é a obra em que Clarice mais claramente demonstra que a literatura não existe apenas para contar histórias, mas também para devolver humanidade àqueles que a realidade costuma deixar à margem. É um romance que termina, mas continua fazendo perguntas muito depois da última página.

.oOo.

O humor em A Hora da Estrela é uma das coisas mais sofisticadas do romance — e muitas vezes passa despercebido porque o final é tão devastador. Mas Clarice é frequentemente engraçada, só que de um jeito muito particular: um humor desajeitado, absurdo, melancólico. Macabéa é involuntariamente cômica. Suas frases, suas interpretações literais, seus desejos modestíssimos (um cachorro-quente, um creme de beleza, ouvir a Rádio Relógio) criam situações engraçadas. Mas o leitor ri e, imediatamente, sente um desconforto: estamos rindo da ingenuidade dela ou da pobreza do mundo que a cerca?

Também há muito humor no narrador Rodrigo S. M. Ele é exagerado, dramático, contraditório. Às vezes parece um escritor parodiando escritores. Quando faz declarações grandiosas sobre sua missão literária e logo em seguida se desmente, Clarice está brincando com a figura do intelectual atormentado. Eu diria até que existe um quê de Machado de Assis nesse aspecto: um narrador que conversa com o leitor, interrompe a narrativa, comenta suas próprias limitações e ironiza a si mesmo. Em A Hora da Estrela, o riso vem sempre acompanhado de um pequeno susto. Clarice nos faz rir para que percebamos, um segundo depois, que o objeto do riso é também uma pessoa profundamente vulnerável. Talvez seja por isso que o humor do livro permaneça na memória: ele não serve para aliviar a tragédia, mas para torná-la ainda mais humana.

É um riso triste o que nos ocorre quando ela não quer deixar a conversa com o namorado morrer e pergunta, ao passar em frente a uma ferragem:

Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?

É uma pergunta engraçada, mas também devastadora. Ela revela o esforço desesperado de Macabéa para manter viva uma conversa, para estabelecer um vínculo, para existir diante do outro. Ela não sabe seduzir, não sabe flertar, não sabe conversar. Então recorre ao primeiro objeto que encontra na vitrine. Rimos da inadequação da pergunta e, um instante depois, sentimos uma enorme compaixão por aquela moça que simplesmente não aprendeu os códigos da convivência. Vejam bem, aqui o humor nunca é uma pausa da tragédia, ele é uma forma da tragédia.

Quando Macabéa diz

“Eu sou datilógrafa, virgem e gosto de Coca-Cola.”

nós sorrimos. Mas não porque ela seja ridícula. Sorrimos porque ela acredita que essas três informações bastem para definir uma vida. O humor nasce da pobreza das categorias disponíveis para ela, não de sua pobreza como pessoa.

Clarice constrói Macabéa de tal maneira que ela nunca se torna um símbolo abstrato da pobreza. Ela continua sendo uma pessoa singular, com pequenos gostos, pequenas obsessões, pequenas alegrias. Isso é decisivo, porque impede que o romance se transforme numa tese social. Macabéa não representa apenas “os pobres”, ela é Macabéa.

E, finalmente (já escrevi demais!), há uma observação muito pessoal que faço: costuma-se dizer que Clarice escreveu um romance sobre uma pessoa invisível. Eu iria um pouco além: ela escreveu um romance sobre o ato de observar. Rodrigo aprende a olhar Macabéa. O leitor aprende a olhar Macabéa. E, terminado o livro, talvez aprendamos a olhar de outro modo as pessoas que cruzam diariamente o nosso caminho.

É aí que, para mim, reside a verdadeira dimensão ética de A Hora da Estrela. A literatura não salva Macabéa. Mas talvez salve alguma coisa no leitor: a capacidade de perceber que nenhuma vida é pequena demais para merecer atenção.

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