Como livreiro totalmente ralado financeiramente, acordei nesta manhã tão preocupado com as vendas como em bater nesse discurso de que o livro impresso é um “vilão ecológico”. Certo, admito, o livro é até um dos vilões, mas… está bem longe de ser o maior deles. Vejamos:
1. Um livro físico dura décadas, séculos. Qualquer e-reader tem bateria de lítio — obtido em mineração predatória — e vida útil de 5 a 7 anos, exigindo substituição.
2. O livro usa energia apenas na produção. O digital exige servidores (data centers) ligados 24h, que consomem água e energia elétrica constantemente para cada nuvem, cada download e cada sincronização.
3. O papel é 100% reciclável e biodegradável. Até a Macabéa o comia à noite com a finalidade de matar a fome. (Vá ler!). O plástico de capas de tablets e embalagens leva 500 anos para se decompor. Imagina a Macabéa comendo um celular!
4. Comércio local é igual a menos transporte: quando vendo livros presencialmente, evito o impacto de entregas individuais motorizados das compras online. Mais: dou preferência às bicicletas.
5. Se vendo usados, estou no topo da economia circular — prolongando a vida de um produto que já consumiu recursos, sem gerar novo gasto.
6. Livros encalhados não se tornam lixo tóxico.
7. Mais, o ganho ecológico é MAIOR: o livro transforma comportamentos.
8. Pessoas que leem são mais críticas, consomem com mais consciência e tendem a adotar hábitos mais verdes (se alguns não buscam os livros que reservam na Livraria Bamboletras não sou eu o culpado).
9. Um livro sobre sustentabilidade, natureza ou consumo consciente gera um efeito cascata positivo muito maior do que a mordida de carbono da sua produção. Até um livro Machado de Assis gera um efeito cascata, mas isso é conversa pra outro discurso.
10. Papel mata árvores? As árvores do papel são plantadas para isso. Se pararmos de comprar papel, essas florestas viram pasto ou soja, que emitem 10x mais CO2. Sim, nesse item parti pra ignorância!
11. Meu negócio não é anti-ecológico: é necessário. Cada livro que vendo é uma semente de pensamento crítico. E, ao contrário do que dizem, a indústria do papel é uma das poucas que colhe o que planta. O problema ecológico não está nos livros, está no consumo descartável — e livro não se descarta, a gente guarda, a gente empresta, a gente herda.
Então, venham à Bamboletras e salvem uma livraria.
Foto: minha biblioteca pessoal. O que tem de livro bom e biodegradável você não imagina.
