Entra uma moça bem bonita na livraria. É bem jovem e, paradoxalmente, tem cabelos grisalhos. Penso que ela deve ter muita personalidade ou ser uma pessoa excêntrica o suficiente para não se dobrar às modinhas. Ela me pede para ver os cartões. Respondo-lhe que temos poucos e que a maioria ainda é do Natal. Ela examina um a um e parece encontrar um adequado a seu propósito.
Então se aproxima do balcão, eu elogio seus cabelos, ela agradece e me conta que ainda não foi chamada de desleixada, mas que vai acontecer. Diz:
— Eu vou te pedir uma coisa muito pessoal.
Atender numa livraria pode ser muito divertido e já vou antegozando a surpresa que viria. Qual seria a “coisa pessoal”?
— É que eu estou grávida e hoje veio o resultado de qual é o sexo do bebê. Não olhei ainda, mas o resultado está no meu celular. Quero que tu leia e escreva no cartão se é menino ou menina. Vou dar o cartão para meu marido. Quero ver a cara dele ao saber. E então ele vai me informar. Achei um cartão bem bonitinho, olha.
Olhei e vi um cartão de Natal daqueles da Anna Cunha. Uma imagem bonita, naive, digna, de ateu, nem parecia um Jesus Cristinho e não tinha nada escrito nele. Ela tinha conseguido encontrar o que queria.
Peguei o celular dela a fim de ver o laudo. O sistema pediu o CPF. Ela o recitou número por número. O troço pediu depois uma senha.
— Ah, deixa eu ver com meu marido.
Ela ligou pra ele e me recitou a senha dígito por dígito. O laudo se abriu e eu me tornei a pessoa mais importante do universo. Li o sexo da criaturinha e peguei a caneta para escrever. Perguntei:
— Escrevo menino-menina ou guri-guria?
— Pera, deixa eu ver com meu marido.
Ela escreve no WhatsApp e recebe a resposta:
— Ele escolheu guri-guria.
Escrevi, botei um ponto de exclamação ao final, fechei o envelope e lhe entreguei.
— Agora vou pra casa e ele vai me dizer.