Notícia está aqui. E a foto abaixo, de Antonieta Pinheiro, colhida no Concerto de ontem, é linda.

Notícia está aqui. E a foto abaixo, de Antonieta Pinheiro, colhida no Concerto de ontem, é linda.

Todo mundo morre, mas algumas mortes, normalmente as que foram precedidas de vidas muito ricas, longas e frutíferas, nos deixam paradoxalmente tristes. Galina Vishnevskaya era uma imensa cantora, mas era ainda mais. Foi mulher de Rostropovich, amiga de Shostakovich e entendia como poucas a alma russa — que, como disse minha amiga Elena Romanov, é capaz de contar sua vida inteira e todos os seus problemas a um desconhecido, subitamente. São absolutamente eletrizantes suas atuações como a Lady MacBeth de Mtsensk (ópera de Shosta que alguém levou emprestado lá de casa) e como a Tatiana de Eugene Onegin, de Tchaikovsky.
Agora, quero ver alguém não fixar-se em Galina neste mau, sim, mau filme soviético de 1966 com a Lady MacBeth de Shostakovich. Ela era perfeita e é difícil tirar os olhos dela:

Ontem, às 19h30, houve um especialíssimo concerto na Igreja das Dores. A obra apresentada foi a Pequena Missa Solene, de Rossini. Tinha missa antes, e o padre fez atrasar o concerto. O público do concerto ficou lá fora, esperando sob imenso calor; Afinal, nossa religião é outra, é a da música. A apresentação foi muito boa, com destaque para o mezzo-soprano Angela Diehl, o baixo Daniel Germano, o coral Madrigal Presto e a dupla Olinda Alessandrini e Fernando Cordella, no piano e no órgão. Impressionou-me de forma muito forte o Agnus Dei, muito bem conduzido pelo regente João Paulo Sefrin.
Abaixo, deixo uma história que, de forma muito particular, descreve esta obra de Rossini. Deixei os comentários do post original, apenas acrescentando esta introdução.
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A Fernando Monteiro
Eu estava estudando na Itália, mas o tema de maior interesse, aquele sobre o qual me debruçava com verdadeira afeição, era Antonella, minha pequena e saltitante romana. Um dia, tivemos uma discussão acerca de algumas grosserias que, segundo ela, eu cometera, e ela rompeu nossa ligação.
Dias depois, telefonei-lhe e convidei-a para assistirmos à Pequena Missa Solene de Rossini, que estaria sendo apresentada na Parrocchia dell’Assunzione, no Tuscolano. Depois de alguma hesitação e surpresa – ela não esperava uma ligação minha, ainda mais sem referências a nosso impasse -, ela aceitou. Antonella amava a música de tal forma que eu não tinha como saber se a aceitação do convite significava um perdão ou a mera impossibilidade de recusar a missa de Rossini.
Caminhamos lado a lado, sem nos tocarmos. Tive todo o cuidado em ser verbalmente o mais gentil com ela, já que as circunstâncias não permitiam nada além. Quando a Missa começou, ela se riu. Disse em meu ouvido que achara engraçada a pobre instrumentação que Rossini utilizara. Passaram-se alguns minutos e notei que Antonella estava muito emocionada. Abracei-a e ela apoiou sua cabeça em meu peito. Enquanto lhe acariciava o rosto, sentia suas lágrimas molhando meus dedos. Soube que estava perdoado.
Rossini começou a escrever música muito jovem. Era prolífico e compunha, em média, duas óperas por ano. Então, aos 37 anos – enfadado do freqüente contato com cantores temperamentais e diretores de teatro ainda piores -, parou de trabalhar seriamente com música, tornando-a um divertimento pessoal. Riquíssimo e célebre, dedicou-se ao lazer e a um irônico e gentil convívio com todos, itens nos quais era mestre. Costumava promover freqüentes festas em sua casa. Ali, bebia-se champanhe, vinho, comia-se esplendidamente e ouvia-se música. Às vezes, Rossini apresentava ao piano peças de um certo compositor anônimo… O compositor ressurgiu surpreendentemente aos setenta e poucos anos publicando duas extraordinárias peças sacras – o Stabat Mater e a Petite Messe Solennelle (Pequena Missa Solene) -, além de peças para piano. Tais obras foram agrupadas sob o título genérico de Péchés de vieillesse.
Fomos a meu apartamento, onde nos amamos e dormimos como fazem os casais. Quando acordei, não vi Antonella. Havia somente um bilhete em italiano sobre meu criado-mudo. Meu amigo, fomos engolfados por um dos “pecados da velhice” de Rossini. O que aconteceu não tem nada a ver com nossa situação. Não me procure mais. Antonella.
Nunca mais vi minha pequena Antonella. Porém, ontem, recebi de um amigo uma gravação da missa de Rossini. Comecei a ouvi-la, mas logo interrompi a audição por pudor. Deixei todos dormirem para religar o aparelho de som. Então, enquanto minha mulher dormia, ouvi toda a gloriosa Missa, imóvel, sentado no escuro, sentindo a presença de minha adorável Antonella e de uma outra vida perdida.
Publicado em 30 de junho de 2012 no Sul21

José Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha, deixou de balançar a pança em 30 de junho de 1988, após anos comandando a massa e dando as ordens no terreiro dos anos 50 aos 80. Mas certamente o terreiro de Chacrinha era bem menos organizado que os de umbamba. Porém, antes de avançar, talvez seja melhor começar fazendo a apresentação do Velho Guerreiro aos jovens. Chacrinha foi um famoso apresentador de programas de auditório. Eram basicamente de programas de calouros. O candidato a cantor se inscrevia e ia ao programa mostrar seu potencial. Se cantasse bem era aplaudido e até poderia voltar e ficar famoso e fazer carreira; se cantasse mal, o apresentador acionava uma buzina e interrompia o cantor ou cantora, que era simplesmente defenestrado e às vezes humilhado. Isto seria impossível nos dias de hoje, haveria processos por danos morais. Quem era buzinado recebia o Troféu Abacaxi, o qual consistia num abacaxi.
Durante seus programas, Chacrinha vestia-se como o mais estranho dos palhaços — algo efetivamente esdrúxulo — e não parava um segundo de caminhar. Ignorava os câmaras que o perseguiam em um palco com mulheres dançando sem muita sincronia, pessoas que simplesmente estavam por ali e técnicos. Pessoas passavam na frente da câmara e Chacrinha os afastava como podia. Seus programas eram uma zona. Quando não sabia o que dizer, largava seus bordões. Chamava “Teresinhááááááá”, afirmava que “Quem não se comunica se trumbica” e, quando acusado de copiar ideias de outros apresentadores, dizia que “Na televisão nada se cria, tudo se copia”.

Chacrinha revelou nomes como Roberto Carlos, Wando, Agnaldo Timóteo, Odair José, Nelson Ned e Raul Seixas, o que é um verdadeiro milagre quando se vê filmes onde o apresentador simplesmente seguia falando durante as apresentações. Quando o calouro chegava, ouvia a primeira pergunta – “Como vai, vai bem? Veio a pé ou veio de trem?”. Quando era bom, às vezes era colocado num trono. O que decidia eram os aplausos e os gritos do auditório após mais um bordão berrado por Chacrinha em voz forte e muito rouca: “Vai para o trono ou não vai?”. E, quando se confundia com as atrações do programa ou com o horário dos comerciais dizia outro de seus célebres bordões: “Eu vim para confundir, não para explicar!”. Nada mais verdadeiro.
Seus programas eram “A Buzina do Chacrinha” e “A Discoteca do Chacrinha”. A “Buzina” era para calouros e a “Discoteca” apresentava os sucessos musicais do momento. Depois ficou complicado identificar um e outro e eles acabaram fundidos em um só: “O Cassino do Chacrinha”.

Também havia a figura dos jurados, os quais destilavam seus estilos e teses no programa. Na verdade, faziam personagens, tipos que auxiliavam o clima de farsa e carnaval perpétuos: Carlos Imperial fazia o cafajeste; Aracy de Almeida utilizava seu real conhecimento musical para avaliar calouros e dizer absurdos; havia também o travesti Rogéria – uma novidade para a época (não o travesti, mas a aparição na TV) – ; mais Elke Maravilha, espécie de Chacrinha de saias; e o mal humorado bastião da moral: Pedro de Lara. Os jurados eram vaiados pela plateia enlouquecida quando descascava os calouros, enquanto os que estavam na primeira fila esfregavam o cabelo dele com as mãos. Outro elemento fundamental dos programas eram as Chacretes, as dançarinas. No início eram conhecidas como as Vitaminas da Chacrinha e faziam coreografias bastante simples. Recebiam nomes exóticos como o da mais famosa delas, Rita Cadillac. Também havia a Índia Amazonense, a Fernanda Terremoto e a Suely Pingo de Ouro, dentre outras.

Certo dia, quando o bacalhau encalhou nas Casas da Banha, patrocinadora de seu programa na TV Tupi, Chacrinha reverteu a situação facilmente. Durante um programa, por vezes virava-se de surpresa para o auditório com postas de bacalhau na mão: “Vocês querem bacalhau?”, e atirava o peixe para o auditório, onde a plateia disputava a tapa o produto. No dia seguinte, faltou bacalhau nas Casas da Banha. Deviam ter previsto. Chacrinha passou a distribuir bacalhau em seus programas, claro.
E o playback rolava enquanto cantores os distribuíam beijos em mulheres da platéia — magicamente seguiam cantando — e os “jurados” conversavam com o microfone ligado. Tudo assumidamente kitsch.
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Chacrinha nasceu em 1917 em Pernambuco, na pequena Surubim. Aos 17 anos, foi estudar no Recife. Começou a cursar faculdade de Medicina em 1936, aos 19 anos, e em 1937 teve o seu primeiro contato com o rádio na rádio Clube de Pernambuco ao dar uma palestra sobre alcoolismo. Era percussionista do grupo Bando Acadêmico e, aos 21 anos, viajou como músico no navio Bagé rumo à Alemanha. Porém, naquele exato dia estourou a Segunda Guerra Mundial e o jovem Abelardo acabou desembarcando no Rio de Janeiro com seu grupo. Foi tocar no rádio e acabou como sendo aceito como locutor na Rádio Tupi. Em 1943, criou na Rádio Fluminense um programa de músicas de Carnaval chamado Rei Momo na Chacrinha. Fez enorme sucesso a passou a chamado de Abelardo “Chacrinha” Barbosa. Nos anos 50, comandaria o Cassino do Chacrinha, ainda no rádio, no qual lançou vários sucessos da música brasileira, como Estúpido Cupido, de Celly Campelo, e Coração de Luto, de Teixeirinha. No programa, inauguro o estilo de misturar tudo a ruídos e conversas, como se estivesse no meio de uma festa.

Em 1956, estreou na televisão com o programa Rancho Alegre, na TV Tupi, na qual começou a fazer também a Discoteca do Chacrinha. Em seguida foi para a TV Rio e, em 1970, foi contratado pela Rede Globo. Chegou a fazer dois programas semanais: os citados Buzina do Chacrinha — com seus abacaxis e “Vai para o trono ou não vai? — e Discoteca do Chacrinha, de lançamentos. Chacrinha foi fundamental para consolidar a audiência da Globo junto às classes mais baixas da população. Quando a Globo adotou o glamour como padrão, a assepsia de suas produções acabou por expulsar Chacrinha. Ele foi para a Tupi e depois para a Bandeirantes — sempre com seu público. Retornou à Globo em 1982, onde ocorreu a fusão de seus dois programas num só, apresentado aos sábados à tarde.

Quem vê um programa do Chacrinha hoje, deverá chegar à conclusão de que se tratava de um comunicador e humorista absolutamente sensacionais. Porém, o espectador tiver tempo de ligar seu senso crítico, verá também um apresentador de humor cáustico que ria de tudo, mas principalmente do público que o adorava. Tudo bem, era um caso de amor. Porém, por incrível que pareça, mesmo o apresentador de um programa tão apolítico e non-sense foi incomodado pela censura. O conteúdo desta carta, escrita por Chacrinha em 1980, revela alguma coisa: “Já há um ano, a Censura de São Paulo vem tratando os meus dois programas de TV, Buzina e Discoteca do Chacrinha, com arbitrariedades censórias para as quais não encontro explicações razoáveis. Essas arbitrariedades começaram de certa feita, quando um censor paulista ligou para os estúdios reclamando das roupas das chacretes e de algumas tomadas de detalhes anatômicos.” O destinatário da mensagem era o presidente do Conselho Superior de Censura (CSC), Octaciano Nogueira.

“Comandando a massa” em plena ditadura militar, Chacrinha ocupava uma posição curiosa no cenário político da época. A esquerda o acusava de promover a “alienação do povo”. Por outro lado, era vigiado pelos censores do mesmo regime, que o perseguiam não somente em razão das chacretes como pelas piadas “imorais e de duplo sentido”. (Outra de suas frases: “A melhor lua pra se plantar mandioca é a lua-de-mel”). Ou seja, para os militares, Chacrinha era suspeito por promover pornografia e atentar contra a moral; para a esquerda, promovia um entretenimento de massa que em nada contribuía para mudar a situação política do país.
Porém, o fato é que antes da ditadura, Chacrinha atirava bacalhau para a platéia, tocava a buzina para os calouros e provocava os jurados. Durante a ditadura, ele passou a atirar bacalhau para a platéia, a tocar a buzina para os calouros e a provocar os jurados.
Em outubro de 1987 recebeu título de “doutor honoris causa” da Faculdade da Cidade, no Rio.
Seu aniversário de 70 anos foi comemorado em setembro de 1987 com um jantar oferecido em sua homenagem pelo então Presidente da República, José Sarney.
Quando o programa acabava, dizia com ar sério: “Graças a Deus o programa acabou”.
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Selecionamos vídeos de alguns artistas nos programas do Chacrinha. A variação de estilos era intensa:
O clima geral desde a abertura do programa.
Com Wando…
Gretchen…
Raul Seixas…
E Gilberto Gil cantando Aquele Abraço.

O concerto de ontem da Ospa teve uma primeira parte bastante interessante. A primeira obra apresentada foi o famoso Adágio para Cordas de Samuel Barber. Se já era uma música conhecidinha, depois que se tornou trilha sonora de Platoon, filme de Oliver Stone, tornou-se parte do repertório de concerto. As cordas da Ospa estiveram impecáveis, mostrando-se translúcidas e leves na tristíssima melodia muito utilizada em velórios.
Depois veio Museu – Uma Canção de Vigília sobre um poema de Armindo Trevisan, do compositor e ex-diretor da Rádio da Ufrgs, Flávio Oliveira. O concerto era dedicado aos 55 anos da emissora, então os dois fatos devem ter alguma ligação. Ou não. Ao menos por mim, o belo poema de Trevisan (Museu, do livro A Serpente na Grama) não podia ser inteiramente compreendido na dicção dos cantores, porém, com o auxílio do programa, obtínhamos as legendas para o entendimento. Quando juntamos letra e composição, tudo cresce muito.
A primeira parte foi finalizada por Série Brasil 2000 nº 4 –Toronubá, excelente composição de Dimitri Cervo. É uma absoluta raridade a forma inteligente com que Cervo utiliza o minimalismo. Ele não torna suas composições meras proezas repetitivas. Há mudanças radicais de tons e ambientes, tanto que depois de um primeiro movimento, absolutamente furioso, há uma espécie de Réquiem onde todo o material temático é readequado e revisitado. Não, o que ouvimos não foi nada comum nem esquecível. Há intenções, conteúdo e significado na obra. Foi o ponto mais alto do concerto e merece um bis especial pela Orquestra Sinfônica de Sergipe:
O programa vinha coerente e certinho, mas então chegamos ao Rachmaninov de meu descontentamento, compositor homenageado “de fato” pela Ospa em 2012. Aqui, nada de conteúdo ou significado, é só beleza… Em Porto Alegre ouve-se mais Rach do que em qualquer outra cidade do mundo, incluindo as russas e americanas. O longuíssimo, vulgar e ornamental Concerto nº 3 para piano e orquestra — composto por Rachmaninov para ele mesmo aparecer — é um enfrentamento parecido com o clássico alagoano ASA de Arapiraca e CRB. Sim, os dois times não se marcam, pois o piano prefere tocar tão sozinho quanto os maiores craques do ASA em seus devaneios de cadenzas sem fim nem finalidade. Foram 42 minutos maçantes, mas que deixaram o público feliz. A pianista era muito boa e rápida, pena a música. Para tirar o gosto e melhorar o humor após a exibição de tantas vaidosas brilhaturas pessoais, passei a manhã ouvindo um CD do Dimitri Cervo e os três Concertos para Piano de Béla Bartók. Mas ainda estou em fase de recuperação.
P.S. — O CRB caiu para Série C do Brasileirão. O ASA ficou na B.
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Abaixo, Marilyn Monroe atenta a um daqueles prosaicômicos solos de Rachmaninov:

O primeiro concerto da Ospa ocorreu em 23 de novembro de 1950. A regência foi de seu primeiro maestro e diretor artístico, Pablo Komlós, e a orquestra interpretou obras de Weber, Mendelssohn, Berlioz e Beethoven. O gran finale veio com a Sinfonia Nº 3, Eroica. Deve ter sido uma noite e tanto e eu, sinceramente, não quero que seja verdade o fato de que a primeira obra executada tenha sido de autoria de Weber. Acho que isso machucaria a maioria dos admiradores da orquestra. Em função deste temor, encerro aqui o processo de pesquisas para este texto.
Aos 62 anos, esta senhora permanece sem teto ou, melhor dizendo, é jogada de um local para outro, como se costuma fazer com as vilas e a cultura em nosso estado. No início de 2013, nossa Ospa mudará novamente de ponto, ops, desculpem, de local de ensaios. Parece que sairá do cais do porto onde os integrantes da orquestra tiravam belas fotos de barcos e lagartos para o CAFF (Centro Administrativo Fernando Ferrari). Este seria seu penúltimo lugar de moradia, pois o Teatro da Ospa deve ficar pronto em 2014.
(Nas línguas eslavas, Ospa significa varíola; ignoro se estas mudanças de local são devidas a algum gênero de quarentena).
O que é notável é como esta sexagenária, mesmo sem moradia fixa e ainda negociando seu quadro — onde tenta reorganizar a instituição e colocar seus membros nas posições corretas através de concursos específicos — está bonita, com bom desempenho e, pasmem, é muito cortejada. Por exemplo, há alguns meses um grupo de melômanos quixotescos procura criar uma Associação de Amigos da dita cuja e, olha, como é complicado marcar reuniões! Já somos 3.082 admiradores e ninguém obteve ainda tocar na senhora. Céus, é muita pudicícia para quem é tão boa no palco.
Parece que segunda-feira haverá finalmente uma reunião. Está marcada. Serão 3.082 admiradores se pavoneando para a senhora de 62 anos. Esperamos alguma abertura.
De resto, parabéns a esta grande orquestra, a seus músicos e até a sua diretoria, que um dia irá render-se ao encanto de seus fãs!

Eu achei o público pequeno. O Salão de Atos da Ufrgs estava com uma lotação de aproximadamente 70%. E, quando acabou o concerto, achei o público menos numeroso ainda. Pois o que ouvimos foi de tal forma grandioso e sublime que nos deixou menores. Ou maiores. Pois internamente me sentia como se tivesse crescido alguns centímetros. É um verdadeiro crime o fato de que tantos ensaios, com resultados tão bons, gerem apenas um concerto que, pior, não será repetido tão cedo. Mas deveria.
O único problema foi o de ter sentado ao lado de duas pessoas que não conseguiam calar a boca e que, curiosamente, guardam algum parentesco com uma importante figura da orquestra. Para completar, a menina grávida e sua mãe saíram estrepitosamente em meio ao último movimento. Encheram o nosso saco por mais de uma hora e, quando minha mulher pediu que parassem de falar, chamaram-na de “grossa”. Arrã.
A Sinfonia Nº 7 tem uma estrutura simétrica mais ou menos assim: um belíssimo e dançante Scherzo envolvido por duas ma-ra-vi-lho-sas “Músicas da Noite”, as quais são antecedidas e sucedidas por dois movimentos tipicamente mahlerianos, um sombrio e outro luminoso. Fazendo um esquema bem precário, é assim:
Sombras / Música da Noite 1 / Scherzo / Música da Noite 2 / Alegria
O maestro Ira Levin comprovou novamente sua extraordinária competência — ele já tinha regido a Ospa na Sinfonia Nº 1 de Mahler em julho do ano passado. Repito o que disse naquela oportunidade: ele DEVE ser convidado mais vezes.
Em casa, em CDs, costumo ouvir a sétima sinfonia retirando o primeiro e o último movimento. Fico apenas com as duas Nachtmusiken e com o Scherzo, que me é particularmente sedutor. Ontem, este esquema revelou-se em toda sua imbecilidade. A arquitetura da Sinfonia só faz sentido quando ouvida por inteiro. O caminho percorrido pela música só pode ser compreendido se sabemos seu início e seu seu final. Mais: os jogos timbrísticos entre os instrumentos e as melodias que são começadas aqui e desenvolvidas acolá, ou seja, toda a arte da composição e da orquestração de Mahler só podem ser sentidas e avaliadas ao vivo. Hoje, a Sétima é hoje outra sinfonia para mim.
Os destaques da orquestra foram muitos. O pessoal dos metais, o primeiro violinista Emerson Kretschmer, o primeiro violista Vladimir Romanov, todos os sopros e a percussão, as cordas, todos estiveram absurdamente bem numa obra que não é nada fácil.
Parabéns a todos os envolvidos. Na próxima terça-feira, haverá o retorno de Rach ao Salão de Atos, mas há muita coisa boa para trabalhar na memória. Agora mesmo estava ouvindo uma das gravações de Bernstein da Sétima. Sim, agora que a entendo melhor, é outra sinfonia.

Ontem, não teve concerto da Ospa. Porém, no último domingo, às 11h da manhã, minha mulher me acordou cheia de carinhos. Ela estava me enganando, porque não queria nada comigo: sua real intenção era a de me arrastar ao Salão de Atos da UFRGS. O programa não se parecia nem um pouco com aqueles dos Concertos para a Juventude do passado. Nada de programinhas simples, divertidos e dominicais para as famílias que estavam ou que iriam depois ao Parque da Redenção ali ao lado. Nada de programas pré-prandiais. O programa era totalmente adulto, destinado a… Bem, não sei a quem.
O que sei é que o horário e a discutível grife “Concerto para a Juventude” têm sido usados como escoadouro para que os vencedores dos Concursos Jovens Solistas possam enfim apresentar-se. Deste modo, o Concerto para a Juventude vê-se transformado em Concerto DA Juventude. Gostei mais da atuação sóbria do regente Thiago Santos do que de sua escolha da lastimável Abertura da Ópera Oberon, de Carl Maria von Weber para iniciar o concerto. Não chega a ser surpreendente que esta ópera tenha sido um rotundo fracasso. A Abertura já recomenda a fuga. É a música de um alemão que tenta ser italiano. Não dá certo.
Apesar da excelente performance do violista Gabriel Polycarpo — magérrimo e engraçado como só os pós-adolescentes conseguem ser, com um casaco grande demais para o cabide, tendo ficado cada vez mais torto durante a execução — , pô, convenhamos, o Concerto para Viola, Op. 1 de Carl Stamitz deve ser exigência de professor. Talvez seja muito bom para desenvolver a técnica do violista e o guri saiu-se bem demais, mas que musiquinha sem graça!

Já Thomas Konig Pires entrou nervoso, fazendo execícios para um pescoço certamente tenso. Coçou também as costas, impulso incontrolável em pessoas brilhantes e cheias de conteúdo (explico: tenho a mesma mania, coço as costas quando falo em público; então Thomas é um gênio). Então, ocorreu a mágica. Logo na primeira intervenção viu-se que o moço sabia o que tinha vindo fazer. O que eu antecipava como uma série de solos nervosos deu lugar a uma série de solos percussivos de alta qualidade. Eram as Tres Danzas Concertantes, do cubano Leo Brouwer, outra escolha meio estranha, mas vá lá.
A melhor obra da manhã foi Tributo a Portinari, de César Guerra-Peixe, certamente uma escolha de Thiago Santos, um bom jovem regente que tem a característica de saber receber os aplausos — fora do estrado, ao lado e ao nível dos músicos, demonstrando uma falsa vontade de ser como eles, como diria o Lebrecht. Mas é educado fazer isso!

É óbvio que a Ospa deve arranjar outro horário para seus Concertos da Juventude, mantendo os antigos Concertos para a Juventude com seus repertórios simples de trechos de obras do gênero João Carlos Martins, só que com que alguém mais barato, talvez um neobelardi inventado. Lembro da época em que a Ospa apresentava seus jovens solistas em concertos noturnos, muito mais adequados ao tipo de repertório normalmente escolhido. E lembro do tempo da Escola de Música da Ospa, onde estudou este ótimo Gabriel Polycarpo. Mistura de programa social e produção de material humano qualifica para as orquestras, a Escola está paralisada, prejudicando o aparecimento de novos gabriéis e deixando ociosos músicos que deveriam repassar sua experiência e conhecimento. Mas vou parar por aqui a fim de não me irritar, OK?

Faleceu ontem em Nova Iorque o compositor americano Elliot Carter poucos dias antes de completar o seu 104º aniversário. Carter é alguém muito particular: conseguia ser totalmente atonal e manter grande lirismo.
Ele foi extremamente produtivo em seus últimos anos. Publicou mais de 40 obras, entre seus 90 e 100 anos e mais de 14 depois que ele fez 100 em 2008, sem baixar a qualidade. Nas entrevistas abaixo, Carter nos ensina um monte de coisas.
Publicado pelo Sul21 em 10 de junho de 2012
Neste domingo, o cantor em cuja certidão de nascimento consta o imenso nome de João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira completa 81 anos. É um aniversário especial, pois coincide com o lançamento do livro João Gilberto, pela Cosac & Naify. Trata-se de um livro inteligente e oportuno — sua principal missão é a desfocar o João Gilberto como homem difícil, esquisito e maniático (palavra que não existe na língua portuguesas mas que faz uma falta tremenda), focalizando o músico, sua importância e originalidade. Já não era sem tempo. O livro não nega as confusões, hesitações, brigas, cancelamentos, nem o estilo de vida do cantor, apenas dá a devida importância a este fatos com os quais o ouvinte não tem contato quando este baiano de Juazeiro pega o violão, senta no banquinho e canta. E encanta, diríamos, em trocadilho que pisa a linha divisória e invade a área do mau gosto.

É um livro bastante esperado e que já nasce clássico — quanto mais não seja em razão de seu preço. Deverá figurar ao lado de outros clássicos como O Balanço da Bossa (1968), de Augusto de Campos, e Chega de Saudade (1990), de Ruy Castro. O livro da Cosac — lindíssimo, cheio de fotos como um livro de arte, valendo cada centavo de seus R$ 215 (512 páginas) — é organizado por Walter Garcia, professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, sob coordenação dos editores Milton Ohata e Augusto Massi. Dividido em quatro partes, João Gilberto traz ensaios e textos críticos escritos especialmente para o livro. Estes contextualizam a música de João na história da MPB e apontam afinidades entre sua produção e outras áreas da cultura brasileira. A obra também tem a proposta de ser uma compilação, um repositório de tudo o que já se escreveu de importante sobre João e que estava fora de circulação, além de apresentar uma seleção de entrevistas concedidas pelo cantor e reunir depoimentos de pessoas.
Num país onde muita gente não gosta de Elis Regina, por exemplo, por ela ter sido assim ou assado, e despreza João Gilberto por ele ser um ser humano complicado, o livro da Cosac parece ter vindo para equilibrar com ensaios sérios, o volume do farto anedotário que circula a respeito das esquisitices de João — tanto que possui um capítulo “desmitificador” chamado Antianedotário. “Este é um livro a favor”, diz Ohata. “Deixamos em segundo plano as histórias curiosas que aderiram à figura de João. Esqueça o homem que fez o gato se suicidar, que fala no telefone por código Morse, que só sabe reclamar do som e do ar-condicionado, que pede estranhos favores, que passa noites ao telefone, etc. Não por acaso, criamos a seção Antianedotário.
Na busca pela análise da música e das diferenças de João Gilberto, Milton Garcia trouxe o músico e professor Aderbal Duarte para demonstrar como se dá, na pauta musical, a famosa batida criada por João.
O livro leva a peito o que disse Vinicius de Moraes em 1964: “Eu sei que dentro da sua neurose, dentro da sua esquisitice, existe um lugar que ele rega diariamente com as lágrimas que chora por dentro. Um lugar que podemos chamar de Brasil, por exemplo”. Tem toda a razão. João Gilberto jamais deixou de traduzir o Brasil, de modernizá-lo em suas recriações musicais. Mas é complicado convencer o Brasil.

João ganhou um violão aos 14 anos e nunca mais largou. Nos anos 40, ouvia de Duke Ellington e Tommy Dorsey a Anjos do Inferno, Dorival Caymmi e Dalva de Oliveira. Aos 18 anos, foi para Salvador para cantar como crooner e logo depois para o Rio de Janeiro, onde fez parte do conjunto vocal Garotos da Lua. Sua história no grupo durou pouco. Cansados de seu comportamento — atrasos, faltas, etc. — os Garotos da Lua o demitiram num momento em que se tornava conhecido.
Em 1958, gravou dois compactos num estilo nunca antes ouvido e que inauguraram a bossa nova: “Chega de Saudade”/”Bim Bom” em julho, e “Desafinado”/”Oba-la-lá” em novembro. No mesmo ano, tinha acompanhado Elizeth Cardoso em duas faixas do LP “Canção do Amor Demais” (“Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e “Outra Vez”, de Tom), considerado outro marco inaugural na história da bossa nova.
As características que mais o notabilizaram foram a maneira de cantar em voa baixa, fugindo da tradição dos cantores do rádio, famosos por seus “vozeirões”. Também a forma de tocar violão traz uma batida diferente, que desloca o acento da tradicional batida de samba. Até hoje, não há concordância a respeito de quando começou a bossa nova. Alguns dizem que foram os compactos de 1958; outros que foi Canção do Amor Demais; outros dizem que foi Chega de Saudade (1959), primeiro disco solo de João Gilberto. Há muitas coisas em comum entre os três fatos: há Tom, Vinícius, mas principalmente há a famosa batida de João Gilberto, presente no violão de todos os trabalhos. Pouco sabem que a faixa-título do disco de João, Chega de Saudade, já aparecia no álbum de Elizeth.
O surgimento de Chega de Saudade marcou uma revolução na música brasileira. Foi um estrondoso sucesso no Brasil — onde os cantores e até mesmo João ainda eram crooners de voz empostada — , lançando a carreira do cantor e de todo o movimento da bossa nova. Além de Chega de Saudade no lado A, o disco — que mais parece uma antologia de clássicos — abria o lado B com Desafinado, de Tom e Newton Mendonça, e ainda continha Brigas nunca mais (Tom e Vinícius), Maria Ninguém (Carlos Lyra), Rosa Morena (Dorival Caymmi) e É luxo só (Ary Barroso), entre outras. Este disco foi seguido de outros dois, em 1960 e 1961, nos quais ele continuou apresentando músicas inétitas de uma nova geração de cantores e compositores, como Carlos Lyra e Roberto Menescal.
A influência de João Gilberto foi fundamental para toda a MPB que veio depois. Chico Buarque, Caetano, Gil, Nara Leão, João Bosco, até os atuais Fernanda Takai, Luiz Tatit e toda uma geração de cantores de pouca potência vocal são seus rebentos.
Além de hábitos exóticos, João Gilberto e seu violão carregam a música em suas entranhas. Prescidem de distorções, mixagens ou estratégias de engenheiros de som. Perfeccionista, ele percebe qualquer semitom fora do lugar, corrigindo o que pensa ser a surdez de alguns. Seu trabalho é via de regra impecável, dentro do mais alto senso de estilo. João Gilberto possui enorme discografia, porém seu acervo de novas canções cresce lentamente. É que ele vai polindo as velhas canções de parceiros da bossa nova ad infinitum, extraindo novas sonoridades e divisões, sempre surpreendendo.

Conta-se muitas histórias — a maioria verdadeiras — de suas excentricidades. O cantor vive recluso, porém passa horas ao telefone durante a madrugada, conversando com amigos. Tem um jeito tranquilo e doce, mas já dispensou subitamente orquestras que ensaiaram com ele para tocar sozinho na hora do show. Também já fez muitas plateias passarem calor por não aceitar que o ar condicionado fosse ligado e costuma passar meses em casa, deixando os amigos preocupados por apenas alimentar-se através de teleentregas… Na noite de inauguração do Credicard Hall foi incompreensivelmente vaiado e chamou os espectadores de bêbados. Talvez seja um chato ou maluco, mas, desculpem, o maluco permanecerá como o maior marco de nossa música.
Obviamente, este comentarista considera pouco profissional cancelar shows subitamente e imotivadamente, mas pensa que não tolerar sons de celulares em shows, cochichos da platéia, ares-condicionados barulhentos ou caixas de som desreguladas não seja exatamente loucura.
Discografia:
Indicação de Alexandre Constantino. Sol é argentina e há pouco gravou o espetacular CD Duo, com Hélène Grimaud. Para quem tem rudimentos de alemão – eu tenho dois semestres feitos há três décadas no Goethe — , a entrevista após a música é bem legal. Entendi 23% dela, mais ou menos.

Em 17 de maio de 1890 estreava a Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni no Teatro Costanzi de Roma. Na mesma data nascia o Verismo musical italiano e, assim como na literatura, também na ópera a arte passava a imitar a vida, fugindo dos modelos históricos e míticos e mergulhando no cotidiano.
A violinista da OSPA, Elena Romanov, fez-me notar que, em 1892, apenas dois anos após a estréia na Itália, a Cavalleria já chegava ao Theatro São Pedro com a grande Companhia Lírica Italiana de Poltronieri e Bernardi. Achei interessante lembrar ao apreciadores da lírica que, no século XIX, era usual companhias profissionais de ópera italiana se deslocarem de navio para a América Latina iniciando seu circuito pelo Teatro da Paz de Belém, de 1869, descendo em direção ao Teatro de Santa Isabel de Recife, de 1850, Theatro São Pedro de Porto Alegre, de 1858 e Theatro Sete de Abril de Pelotas, de 1834. Depois seguiam para o Uruguai e Argentina. Em 1890, ainda não existiam o o Theatro Pedro II e o Municipal de São Paulo, o Teatro Amazonas, o Theatro Municipal do Rio e o Theatro José de Alencar de Fortaleza, entre outros.
Em 2012, durante este final de semana, no Theatro São Pedro, passados 120 anos, voltamos a ouvir a história de Turiddu Macca, um camponês siciliano que, ao retornar do serviço militar, encontra Lola, sua namorada, casada com Alfio, um rico caixeiro-viajante. Tomado pelo ciúme, ele seduz a jovem Santuzza e a usa para provocar a antiga namorada. Lola cai na armadilha e torna-se sua amante. Santuzza, ao descobrir a traição, denuncia os amantes para Alfio, que, para lavar sua honra, desafia Turiddu para um duelo que se conclui com a morte deste.
Foram 55 minutos de tensão e drama enriquecidos pela Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), coro e solistas.
O maestro Enrique Ricci transpirava segurança e carisma e, mesmo no espaço reduzido do pequeno teatro, o qual impedia movimentos de palco e limitava a atuação cênica, soube extrair interpretações emocionantes.
A orquestra e o coro estavam claramente seduzidos pelo maestro e havia congraçamento, integração, vontade. Quem estava na plateia sentia a música chegando como ondas, via-se as pessoas sendo transportadas pela obra. Eu mesmo, com a visão periférica, buscava meus vizinhos de platéia e via respirações, mãos e pernas que vibravam em sincronia com os acontecimentos do palco. A orquestra se transformou em praça e o coro sinfônico – com suas vozes treinadas pelo maestro Manfredo Schimiedt – foi o povo da Sicília, com sua religiosidade, alegria e drama.
A soprano Cláudia Riccitelli, foi uma apaixonada Santuzza, hipnotizando o público com uma expressividade sanguínea que a ajudou a superar as dificuldades do papel. A mezzo Luciane Bottona, destacou-se com uma mamma Lucia de ótima atuação cênica, voz segura, bem projetada e de lindo timbre. O barítono Sebastião Teixeira, apresentou um Alfio impecável com belos e sonoros graves. O tenor Richard Bauer, foi um bom Turiddu, destacando-se no dueto com Santuzza. A soprano Elisa Lopes encarnou satisfatoriamente a provocante Lola.
Momento memorável, casa lotada em todas as récitas, merecia mais e mais réplicas.


Bom repertório, bom maestro, bom solista e uma orquestra inspirada fizeram ontem à noite um dos melhores concertos de 2012, talvez o melhor de todos. Foi o conserto do concerto, se me entendem. Chovia muito e a Assembleia Legislativa ficou com pouco mais da metade de suas dependências ocupadas, apesar do ingresso gratuito.
A primeira obra foi o famoso Concerto para Violino, Op. 64, de Felix Mendelssohn. É uma obra em três movimentos interligados que recebeu eficiente interpretação do solista nipo-germânico Koh Gabriel Kameda, sobre o qual tínhamos especial curiosidade. Afinal, o cara toca num Stradivarius de 1727. Kameda é um excelente violinista, as notas estão todas lá, mas acho que ele pecou na interpretação um pouco dura demais. Aquilo prejudica até o som privilegiado de seu violino. Meu entusiasmo por ele é limitado, mas tenho que dizer que o aplaudi muito. É que a memória do concerto de Mendelssohn ficou prejudicada pelo que veio depois e que foi muito, mas muito maior.
Ah, Kameda e a Ospa deram um bis com Oblivion de Astor Piazzolla. Engraçado, aqui Kameda perdeu a contenção, fazendo exatamente o que dele se esperava no Concerto. Enfim, coisas.
Tenho uma relação especial com a Sinfonia Nº 9 de Franz Schubert, apresentada após o intervalo. No dia 10 de dezembro de 1993, encontrei meu pai à noite num supermercado. Como sempre fazia com ele – e ele comigo – vim sorrateiramente por trás e fingi dar-lhe um encontrão. Depois, conversamos umas bobagens e nos despedimos. No dia seguinte, às 6h, ele estava estirado no banheiro de casa, morto, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Meio perdido, andei pela sala e resolvi abrir o CD Player para ver o que estava ali dentro. A última música que ele tinha ouvido fora a Sinfonia Nº 9, A Grande, de Schubert, com Claudio Abbado e a Chamber Orchestra of Europe. Nos dias posteriores, ouvi loucamente aquela música belíssima. Conheço-a em detalhes, claro. Qualquer psicólogo de farmácia dirá que eu tentei trazê-lo de volta através da Sinfonia, mas que ela não era tão grande assim. Mas, enfim, o concerto…
Ou o regente Pedro Calderón deu total liberdade ou foi muito bem compreendido pelos músicos. Isto era visível pela felicidade de todos. As cordas estiveram perfeitas numa obra longa em que elas trabalham o tempo inteiro.
O primeiro movimento inicia com um solo de trompa que foi executado na medida por Israel Oliveira. Todo o Andante – Allegro ma non Troppo recebeu a seriedade que merece, mas Calderón parecia ter a clara intenção de nos mostrar que seu Schubert era o dos lieder, o das canções. O segundo movimento (Andante con Moto)tem importante participação das madeiras e das flautas – destaques sempre e sempre para Viktória Tatour e Klaus Volkmann – e foi talvez o grande momento da noite. Há ali um tema puxado pelos segundos violinos que depois é “cantado” por toda a orquestra. Sim, ele foi “cantado” por todos os instrumentos como poucas vezes ouvi. Era pura felicidade dentro de uma melodia que nos remete novamente às canções schubertianas. Quem esteve lá ouviu. No Allegro Vivace que fecha a nona com algumas curtas referências a sua irmã de Beethoven, o entusiasmo de todos era tamanho que a batuta de Calderón acabou saltando de sua mão, voando sobre a cabeça dos spallas Omar Aguirre e Emerson Kretschmer, caindo atrás deles. Calderón seguiu o baile. Este Calderón – um argentino que deve ser octogenário — podia vir mais vezes, não? Ninguém vai se incomodar.
Foi maravilhoso. Gosto de observar a plateia na saída de shows, filmes e concertos. Ela saiu nas nuvens, vinda de um mundo absolutamente feliz. Estavam sem medo da chuva, também. Notei uma mulher que saiu à rua com total naturalidade e uma sombrinha na mão. Achei graça. Como prestar atenção a um mero guarda-chuva depois daquilo?
Programa
Felix Mendelssohn: Concerto para Violino, Op. 64
Bis: Astor Piazzolla: Oblivion
Franz Schubert: Sinfonia nº 9
Solista: Koh Gabriel Kameda
Regência: Pedro Calderón
AQUI, fotos da queima do inflável da Coca-cola na saída do show.
AQUI, fotos do show.
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O tom do show foi dado sem que nenhuma canção fosse apresentada. Quando o locutor anunciou o espetáculo que fechava a edição de 2012 do Porto Alegre Em Cena, a Prefeitura foi citada, recebendo imediatamente uma vaia. Logo depois, sozinho, Tom Zé entrou lentamente no palco carregando um maço de jornais. Começou a ler algumas manchetes, agradecendo aos jornalistas que organizaram suas — segundo ele — disparatadas respostas, tornando-as bonitas matérias. Quando chegou ao nome de Zero Hora, outra vaia. Então Tom Zé jogou longe seus jornais e ficou claro que o show teria enorme participação de um público que ama o cantor e compositor.
Antes mesmo da banda entrar, ele tratou de organizar o movimento, pedindo respeito aos seguranças e que as pessoas em pé na frente do palco se retirassem porque senão todo o Araújo Vianna seria obrigado a levantar. Todos colaboraram e o show começou, não sem antes ouvirmos a explicação para o rabo que Tom Zé trazia atrás de si. Ele ensinou que os faraós egípcios, quando visitavam a divindade, colocavam um rabo a fim de demonstrarem sua inferioridade em relação aos deuses. Com o mesmo, Tom queria deixar clara sua posição em relação a Caetano e Gil, os principais nomes da Tropicália.
Falta uma semana para Tom Zé completar 76 anos, mas ele parece ter 36. Canta com voz potente, dança as danças do nordeste erguendo os pés até quase a altura de sua cabeça e demonstra enorme felicidade de estar ali. Afinal, o mais anárquico e injustiçado membro da Tropicália recebe desde os anos 90 a contrapartida que não tivera antes. Como dissemos, o público o adora — todos os CDs trazidos pelo artista foram comprados antes da apresentação — , canta junto, aplaude muito e, entre as músicas, Tom lê os recados que recebe e ouve pedidos de canções. Um dos recados mais aplaudidos foi aquele que reclamava que o elevador da Casa do Estudante não funciona há um ano.
A base do show é seu último CD, Tropicália Lixo Lógico. As canções são efetivamente ótimas, altamente criativas, com destaque para Não tenha ódio no verão, O motobói e Maria Clara, Marcha-enredo da Creche Tropical e De-de-dei Xá-xá-xá. Entre elas, homenagens à Aristóletes e citações das Metamorfoses de Ovídio. Foi quando, ao final de uma canção, inesperadamente, foram subitamente desfraldadas faixas pela plateia. As faixas diziam “Praças Vendidas”, “Não ponha o toque de recolher na alegria” e outras palavras de ordem do movimento porto-alegrense Defesa Pública da Alegria. Um gosto vidro e corte perpassou a espinha deste comentarista que pensou estar voltando aos tempos da ditadura.
Sensível ao momento, Tom Zé foi até a margem do palco, pegou um papel e começou a ler o manifesto do movimento. Foi um episódio belíssimo e, a partir dali, o compositor passou a uma revisão de sua obra em ordem cronológica descendente. Nesta viagem ao passado, ele apresentou algumas de suas músicas inspiradas por avisos — as hilariantes Não urine no chão, Atenção passageiro, antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar — , até chegar ao clímax: a clássica 2001, imortalizada pelos Mutantes. No caminho passou por Augusta, Angélica e Consolação e muitas outras. O show foi encerrado por Xique-xique (“Sacode a cultura, sacode a cultura”). No bis, entre outras, Menina amanhã de manhã e Jimi Hendrix.
Sobre o novo Araújo há que dizer que a amplificação do som esteve bastante boa. Caminhamos por todo o auditório e não percebemos aqueles ecos e retornos de som do passado.
Durante o show, Tom Zé mostrou um dos cartazes trazidos pelo público, o qual dizia “Praças vendidas”. Ao final do show, um grupo pôs fogo em um inflável da Coca-cola. Também alguns manifestantes sentaram no gramado ao lado do prédio — cercado por grade desde a reabertura — , e foram retirados do local com truculência, segundo relatos. A Brigada Militar informa que não houve registro de nenhuma ocorrência, seja sobre o protesto, seja sobre a queima do inflável.

Ontem tivemos um concerto regido por João Carlos Martins na Ospa. No passado, Martins foi um grande pianista, um excelente intérprete de Bach, mas depois uma série de acidentes e circunstâncias fizeram com que ele perdesse o movimento das mãos. Hoje, aos 72 anos, Martins atua como uma espécie de André Rieu brasileiro, regendo música ligeira e batucando lamentavelmente um piano com os três dedos que ainda lhe atendem. Vê-lo tocando é triste tanto para os olhos como para os ouvidos, é algo que busca despertar nossos sentimentos de pena, que toca muitas pessoas facilmente suscetíveis a situações do tipo ele-está-lutando-contra-a-adversidade ou e-mesmo-assim-ele-é-feliz. Não é proibido e muita gente gosta, mas, na minha opinião, a vaidade de Martins é tão grande que mesmo a exposição de suas deficiências como pianista serve a seu ego sedento de espectadores. E ele encontrou um público que ouve seus discursos e o aplaude, feliz. Não é mais arte, não é mais música erudita, é a utilização de prestígio para tocar movimentos sinfônicos ou nem isso. Ontem por exemplo, ele apresentou um retalho do Bolero de Ravel, pois talvez lhe falte resistência física ou não sinta interesse do público numa audição integral.
Antes de perder os movimentos das mãos, Martins teve uma rumorosa passagem pela Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo. O prefeito era seu amigo Paulo Maluf. Atualmente, Martins é réu em um processo onde é acusado de corrupção. Segundo o revista Veja (há links na página):
Como empreiteiro dono da Paubrasil, o pianista recolheu quase 20 milhões de dólares em caixa dois para as campanhas de Maluf. As construtoras Paubrasil e Entersa, das quais Martins era sócio, cometiam fraudes contábeis para esconder do Fisco o quanto faturavam e a maneira como empregavam seus recursos. Desta forma, ficavam livres para financiar as campanhas do político. Em 1993, ano em que Paulo Maluf assumia a prefeitura de São Paulo pela segunda vez, a Receita Federal descobriu que a Paubrasil – empresa do pianista João Carlos Martins – havia recebido doações clandestinas para as campanhas eleitorais de Maluf nos anos 1990. A proprietária de um imóvel alugado pela Paubrasil denunciou que ali funcionava uma confecção que fazia uniformes para a empresa e também material de propaganda de Maluf. Em 2009, o caso de corrupção rendeu-lhe uma condenação a dois anos e nove meses de prisão – período substituído por pena restritiva de direitos – por crime contra a ordem tributária. O maestro entrou com recurso e aguarda julgamento.

A Ospa é uma orquestra pública, financiada pelos contribuintes através de impostos, e penso que devemos considerar dois aspectos. O primeiro é o artístico. A Ospa deve servir ao que der e vier? Ontem, a exigência artística era tão rala que a orquestra entrou despreocupada, sem a menor concentração, tocando mal obrinhas populares que tiraria normalmente de letra, talvez irritada com a indulgência para consigo e para com o público. Porém, observando as caras das pessoas que assistiam o concerto, via-se um indiscutível encantamento de gente que normalmente não comparece aos concertos. Isso é educar e formar público? Certamente NÃO. Uma experiência de décadas nos diz que aquelas pessoas não irão aos concertos “sérios” e transcendentes, onde serão tocadas obras completas do modo como foram compostas. O público de ontem era formado basicamente por pessoas de mais de 40 anos que estavam com pena do pobre pianista com dificuldades. Na última oportunidade em que esteve em Porto Alegre, Martins apresentou um curta metragem com sua história artística e médica. Houve lágrimas na plateia… Era um público de Hebe Camargo, não o da música. Como se comprova nos países onde a música é mais desenvolvida, não é com concessões que se atinge a música erudita, é com o acesso fácil a ela. Neste quesito, os casos da Venezuela e da Inglaterra — eu escolho pegar como exemplos países bem diferentes — são absolutamente exemplares.
O outro aspecto é o moral. OK, o caso de Martins ainda não foi inteiramente julgado. Coube recurso e este é um direito seu. Porém um governo do PT deveria pagar um cachê — certamente dos mais altos cachês deste ano — justamente para um apoiador de Paulo Maluf acusado de corrupção? Precisa mesmo? E o estado legalmente pode pagar alguém com as acusações que pairam sobre o ex-pianista? Para fazer aquilo não seria melhor resgatar da aposentadoria o maestro Tulio Belardi e seus concertos populares onde ele até cantava tangos para a mesma plateia extasiada?
Bem, deixo para meus sete leitores estas interrogações.