O novo prefeito saúda seus eleitores.
Porto Alegre, beira do Guaíba, hoje
Ontem à noite, enquanto você finalizava seu fim de semana, ocorria, em Brasília, um banquete oferecido por Michel Temer para seus aliados. Estavam lá cerca de 200 deputados com suas companheiras. Espumantes foram servidos em taças de cristal e o prato principal foi a PEC 241, cujo objetivo é o de limitar por 20 anos os investimentos em diversas áreas como saúde, educação e agricultura familiar. Vejamos o que mudaria.
Enviada em junho pela equipe de Michel Temer à Câmara dos Deputados, a proposta prevê que tais gastos não poderão crescer acima da inflação acumulada no ano anterior. Atualmente, os gastos com saúde e educação são vinculados à evolução da arrecadação federal. Algo bem razoável, porque a melhoria da educação e da saúde é elemento básico do desenvolvimento e hoje a situação é crítica nestas áreas. O governo determina, deste modo, que a coisa não vai melhorar. Por 20 anos. A 241 simplesmente ignora uma eventual recuperação da situação econômica do País.
A vinculação à arrecadação — que está na Constituição de 1988 — expressa conquistas sociais obtidas em décadas de lutas e que nossa elite quer pulverizar de uma só vez. A ideia expressa na Constituição tem o objetivo de fazer com que as áreas de educação e saúde — áreas fundamentais, não? — cresçam juntamente com o país, independentemente do governo que esteja no poder.
Dessa forma, o Novo Regime Fiscal proposto pelo governo Temer retira da sociedade e do Parlamento a prerrogativa de determinar anualmente o orçamento destinado a essas áreas, que só poderá crescer conforme a variação da inflação, não conforme a arrecadação. Talvez assim sobre mais dinheiro para investimentos, dizem eles, talvez referindo-se à corrupção.
A 241 é tida como uma das principais razões da aliança entre PMDB e PSDB. A proposta está afinada com a política de austeridade defendida pelos tucanos. E seria interessante para eles, que almejam o Planalto em 2018, vê-la aprovada sem ter o impopular ônus de serem os responsáveis por ela.
Autor da medida, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, classificou a PEC 241 de “dura” e fim.
O tema é urgente para o governo. Afinal, as próximas eleições são só daqui dois anos. É o momento para aprovar tudo o que for impopular. Aliado do governo, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), marcou para hoje (10/10) a primeira votação da PEC 241 no plenário da Câmara.

Para ser aprovada, a PEC precisa passar por duas votações na Câmara e também no Senado. A intenção do governo é liquidar as quatro votações ainda este ano. Como se trata de alteração constitucional, a aprovação depende do apoio de três quintos dos votos na Câmara e no Senado, ou seja, 308 deputados e 49 senadores.
Nos bastidores, a PEC 241 é tratada como uma espécie de teste. Se o governo não for capaz de aprová-la, também não conseguirá aprovar a reforma da Previdência, tampouco mudanças na legislação trabalhista.
E o pessoal tem falado pouco nisso. Chegou a hora de parar com a bobagem do Fora Temer — ele não vai cair mesmo — e dar atenção à realidade.
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O deputado Elvino Bohn Gass fez um vídeo bem claro explicando o que teria acontecido se a PEC 241 já existisse. Concordo com tudo o que ele diz, excetuando-se a utilização do termo “maldade”. Não é maldade, é apenas a visão de nossas elites.
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E o imposto sobre grandes fortunas… Nada, né?
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Este é mais um recado de nosso partido, o PUM.

A posição anti-política é política. É tolo pensar que se vota contra a política, vota-se por outra política. E isso ficou claro em muitas e muitas cidades do Brasil neste domingo.
Obs.: “Ninguém” é a soma de abstenções, votos nulos e brancos. Vejam abaixo como como no Rio e em BH, o “Ninguém” foi tão forte que nem teria segundo turno…
Resultado Oficial São Paulo
1. Ninguém: 3.096.186
2. Dória (PSDB): 3.085.181 (Candidato “Eu não sou político”)
3. Haddad (PT): 967.190
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Resultado Oficial Rio
1. Ninguém: 1.866.621
2. Crivella (PRB): 842.201
3. Freixo (PSOL): 553.424
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Resultado Oficial Curitiba
1. Ninguém: 360.348
2. Greca (PMN): 356.539
3. Ney L. (PSD): 219.727
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Resultado Oficial Porto Alegre
1. Ninguém: 382.535
2. Marchezan (PSDB): 213.646 (diz que não é nada — não tem posição política).
3. Melo (PMDB): 185.655
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Resultado Oficial Belém
1. Ninguém: 265.731
2. Zenaldo (PSDB): 241.166
3. Edmilson (PSOL): 229.343
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Resultado Oficial Belo Horizonte
1 – Ninguém: 741.915
2 – João Leite (PSDB): 395.952
3 – Alexandre Kalil (PHS) 314.845

PSDB ganha prefeitura de S. Paulo, que era do PT, com candidato milionário que diz não ser político. PSOL disputa no 2º turno prefeituras do Rio de Janeiro e de Belém. Por Luis Leiria, do Rio de Janeiro.
Por Luís Leiria, do Esquerda.net
Um primeiro levantamento do resultado das eleições municipais de domingo no Brasil tem de arrancar de três factos: houve uma importante vitória dos partidos da direita que apoiaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff, principalmente PSDB e PMDB; ocorreu o esperado desmoronamento do PT, que perde para o PSDB, já na primeira volta, a mais importante prefeitura do país, a de S. Paulo, cidade com uma população semelhante à de Portugal; e confirmou-se o crescimento do PSOL, que vai disputar no segundo turno (30 de outubro) as prefeituras do Rio de Janeiro e de Belém e se postula assim a ocupar, a médio prazo, o espaço à esquerda que o PT abandonou de armas e bagagens.
Marcelo Freixo, do PSOL, disputará o 2º turno no Rio de Janeiro
Como prevíramos num artigo anterior, Marcelo Freixo, do PSOL, afastou do 2º turno o candidato do PMDB e do atual prefeito e obteve uns sonoros 18,26% dos votos, quando a última sondagem lhe dava apenas 11%. Marcelo Crivella, pastor da igreja Universal e senador do PRB, que ganhou a eleição com um resultado inferior ao que lhe era atribuído pelas sondagens 27,78%, disputará com ele o 2º turno.
Note-se que a eleição do 2º turno, que se realiza a 30 de outubro, é toda uma nova eleição, até porque desta vez os candidatos têm as mesmas condições, nos debates de TV e nos tempos de antena, que agora serão iguais. No primeiro turno, Crivella tinha 1’11” de TV diária, e Freixo apenas 11”. E o candidato do PSOL foi afastado do primeiro debate da TV, só participando nos seguintes com muita pressão nas ruas e nos tribunais.
“Não podemos mais sair das ruas e das praças depois desta vitória histórica”, proclamou Freixo diante da multidão que se reuniu junto aos Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro, para comemorar o resultado. “Agora estão em disputa dois projetos muito diferentes para a cidade, o nosso, da esquerda, e o do Crivella. Os outros partidos terão de escolher entre um e o outro, ou se ficam indiferentes”, desafiou o candidato do PSOL, que já recebeu o apoio da candidata do PC do B, Jandira Feghali.
Destaque-se que nenhum dos dois partidos que disputarão a prefeitura do Rio no dia 30 é dos principais do sistema político brasileiro: o PMDB, que perde a Prefeitura, ficou relegado para os 16,12% e o terceiro lugar; e o candidato do PSDB ficou em 6º lugar com 8,62%; a candidata do PC do B, que era apoiada pelo PT e contou com a participação de Lula num evento da sua campanha, ficou em 7º lugar com 3,34%. De registar os preocupantes 14% do candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro, em 4º lugar.
O PSOL disputa também o 2º turno das eleições em Belém: o atual prefeito Zenaldo Coutinho, do PSDB, concorrerá contra Edmilson Rodrigues, do PSOL, que já foi prefeito da cidade quando era do PT. Dois outros candidatos do partido que tinham possibilidades de permanecer na disputa viram-se arredados do 2º turno: em Porto Alegre, Luciana Genro, que chegou a liderar as sondagens, ficou em 4º lugar com 12,06%, e em Cuiabá o Procurador Mauro, do PSOL, que ficou à frente em quase todas as sondagens, acabou em 3º lugar com 24,85%.
PT esvazia-se
O Partido dos Trabalhadores, que já foi o terceiro maior partido do país em número de prefeituras, só garantiu, nas capitais, a vitória no primeiro turno de Rio Branco, capital do estado do Acre. Nas restantes capitais, o partido só disputa o 2º turno em Recife. O seu aliado PC do B disputa o 2º turno em Aracaju.
A maior derrota do PT ocorreu na capital de S. Paulo, onde Fernando Haddad ficou em segundo lugar, com 16,7% mas perdeu a eleição porque João Doria, do PSDB, suplantou os 50% dos votos válidos (teve 53,28%) e por isso foi eleito logo no primeiro turno. O PT perdeu ainda outras duas capitais, Goiânia e João Pessoa.
Na Grande S. Paulo, os candidatos petistas foram derrotados em cidades consideradas berço do partido, como S. Bernardo e Diadema, que eram governadas pelo PT mas onde os candidatos do partido ficaram em 3º lugar. Em Osasco, o prefeito Jorge Lapas fora eleito pelo PT mas transferiu-se para o PDT, e é nesse partido que irá disputar o segundo turno. Noutra cidade da Grande S. Paulo governada pelo PT, Guarulhos, o candidato do partido também ficou fora do segundo turno. Outro caso de prefeito do PT que decidiu mudar de partido foi o de Niterói, no Grande Rio de Janeiro, que abandonou o barco para não afundar com ele, e é como candidato do PV que irá disputar o 2º turno. Das 642 prefeituras conquistada em 2012, o PT já perdera 108, em casos, como o de Niterói, em que o prefeito se mudou para outro partido.
Governo Temer reforça-se com os resultados
O PMDB de Michel Temer deverá continuar a ser o partido com o maior número de prefeituras. E as vitórias do PSDB (que, depois de duas eleições sucessivas a perder espaço municipal, voltou a crescer e conquistou S. Paulo logo de primeira) e do DEM, que viu o seu prefeito reeleito em Salvador diretamente no primeiro turno, além de vitórias de outros partidos que apoiam o governo, também dão um confortável suporte ao governo de Temer.
A grande vitória do PSDB de S. Paulo foi arquitetada pelo governador Geraldo Alckmin, que decidiu lançar um homem de fora do aparelho político, o empresário e apresentador de talkshows João Doria Jr., para a prefeitura da capital paulista, numa candidatura que teve a ascensão de um cometa. Milionário que declarou ao TSE um património de 180 milhões de reais, Doria fez uma campanha em que se apresentava como “não político”, mas sim como administrador, que se propõe desestatizar S. Paulo, para aligeirar a sua máquina que, segundo ele, “é muito pesada e não anda”.
No total, 54 cidades vão a segundo turno no próximo dia 30 (só há 2º turno em cidades com mais de 200 mil eleitores), das quais 18 são capitais de estado.
Sou contra e acho graça. Não quero um país onde mais de um terço da população seja formada por paranaenses. Nem por gaúchos. Populações que elegem Beto Richa e Sartori merecem tsunamis, não um país.
Além do mais, vão querer me tirar o orgulho de ter nascido no mesmo país de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Manuel Bandeira?
Ah, e este tipo de campanha é crime, segundo nossa Constituição.
José Henrique Alcântara de Meireles disse tudo:
Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente. A única nota destoante foi uma fortuita cena em que mostraram o mordomo de filme de terror na tribuna. Há um círculo no inferno exclusivamente dedicado aos conspiradores, traidores e golpistas. Ver a cara do Michel Temer, naquele lugar, foi magnífico, pois restou evidente o quanto ele não tem nada a ver com festa, o quanto ele é visceralmente anti-Brasil, o quanto ele está empenhado em destruir as mais modestas aspirações de cidadania do Brasil que pretende surgir para o mundo a partir de seus genuínos talentos. Michel Temer é a morte.
Da BBC Brasil

Quando o polêmico presidente de Bielorrússia (Belarus), Aleksandr Lukashenko, pediu que a população “tirasse a roupa e trabalhasse até suar”, sua intenção era apelar aos conterrâneos em meio a uma das piores crises econômicas da ex-república soviética nas últimas décadas. Ele falou em tirar a roupa, porque o país vai de mal a pior e faz calor neste início de verão e todos estão usando roupas leves.
Acontece que o rublo, a moeda do país, sofreu uma desvalorização de 60% nos últimos meses e o índice de desemprego é estimado em 15% — porém, de acordo com as estatísticas oficiais, ele é de apenas 0,7%. É que o controle ferrenho de informações é uma das marcas do regime de Lukashenko, conhecido como o “último ditador da Europa”.
Mas os bielorrussos reagiram de forma sarcástica ao pedido do presidente, no poder desde 1994, ironicamente apelidado de ‘papai’ (batska, em russo). Nas redes sociais, diversos “nudes” surgiram, com a hashtag (aqui traduzida) #fiquenuetrabalhe.



Mas não foi apenas em imagens que os conterrâneos de Lukashenko protestaram. Canções de protesto parodiando a mensagem presidencial circularam pela internet.
Só que os nudes se mostraram mais populares, e não apenas em Belarus. Em países vizinhos, como Rússia, Ucrânia e os países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), imagens de pessoas nuas em ambientes de trabalho também viralizaram durante o fim de de semana. Interessante.
Do blog de Kennedy Alencar
Ao aceitar uma denúncia e uma queixa-crime por injúria contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), a Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) ajuda a civilizar o debate público no Brasil.
Foi uma decisão histórica. Fixou limites para a imunidade parlamentar, abrindo a possibilidade de punição a quem incita o crime de estupro e prega uma cultura de violência contra a mulher. É muito grave que um cidadão faça isso. Mais grave ainda na boca de um deputado federal, que faz leis e tem mais voz no debate público.
Na sua carreira, Bolsonaro é um político que cresceu explorando o preconceito, o ódio e a desinformação. Nos últimos dois anos, com o aumento da intolerância no debate público, viu um terreno fértil para prosperar.
O Supremo coloca um freio nesse comportamento, dando um alerta a autoridades públicas e formadores de opinião que incitam o ódio, o preconceito e crimes, como esse do estupro. No caso analisado, ele disse que a deputada Maria do Rosário, do PT gaúcho, não merecia ser estuprada. Ora, nenhuma mulher merece. Dizer que há mulheres que merecem o estupro é incitar esse tipo de crime.
Bolsonaro inspira a violência no debate público. Na semana passada, houve um protesto de simpatizantes de Bolsonaro na UnB (universidade de Brasília) que resultou em agressões. Uma manifestante disse que pagava impostos e logo depois emendou frases homofóbicas. Ora, pagar imposto é dever do cidadão e não dá direito de homofobia a ninguém. Ela era uma simpatizante típica do deputado.
Bolsonaro é um personagem menor da política, mas que está construindo uma candidatura presidencial pelo partido Partido Social Cristão. Chegou a ter 8% numa pesquisa presidencial do Datafolha, tirando votos de tucanos que apostaram na radicalização do debate público e colheram um fenômeno fascista.
Há espaço numa democracia para a manifestação de todas as correntes políticas, da esquerda à direita. Mas a democracia não pode permitir, ainda mais sob o manto da imunidade parlamentar, que um deputado incite crimes, preconceito e ódio.
O Supremo deu um primeiro passo para punir um caso que teve início em 2003, quando houve a primeira ofensa de Bolsonaro a Mário do Rosário numa discussão no Salão Verde da Câmara. Em 2014, quando ela rebateu críticas de Bolsonaro à Comissão da Verdade, ele repetiu a agressão que resultou na denúncia do Ministério Público. O STF decidiu bem ao analisar esse caso.
Isto é mera anotação, então, para efeito de organização, vou dividir o texto em três partes: a dos grandes jornais, presentes na mídia impressa e na eletrônica; a das mídias nanicas ou alternativas, muito mais presentes na mídia eletrônica do que na impressa; e a liberdade de expressão artística. Só pitacos.
A censura no Brasil acabou oficialmente no dia 3 de agosto de 1988, quando foi votada a Constituição Brasileira ainda em vigor, porém, dificilmente alguém poderá falar em plena liberdade de expressão, seja ela impressa ou eletrônica.
Falemos um pouco sobre a liberdade de expressão dentro da mídia tradicional. Boa parte do trabalho da grande imprensa é o de acomodar interesses, próprios e de anunciantes. As famílias Marinho, Civita, Mesquita, Frias, Abravanel, Sirotsky, Sarney e outras têm suas visões particulares estampadas em suas publicações. O jornalista que trabalha nestes órgãos necessita ter cuidado para não elogiar políticos ou políticas de esquerda, nem atacar anunciantes.
Os anunciantes. Dificilmente um grande anunciante do jornal será criticado. Ele sustenta o jornal e quem paga a festa escolhe a música. Então, a loja ou o fabricante que tem anúncios de página inteira dificilmente será criticado por alguma ação, postura ou fato que o envolva. Mas há mais. Às vezes, os próprios grupos de comunicação têm outras empresas associadas, tais como construtoras, vinícolas e outras. E o jornal protegerá os produtos de seus afilhados, obviamente.
E há algumas coisas que acho duvidosas, apesar de permitidas.
Um grande jornal de Porto Alegre começou a veicular “gratuitamente” uma série de anúncios de uma determinada loja sob a condição de que tivesse participação nos lucros. É claro que os concorrentes desta loja reagiram, pagando anúncios… no mesmo jornal. E o jornal passou a ganhar dos dois lados. Eles chamam isto de “abrir mercado”. Não é proibido fazê-lo, mas talvez não seja uma interferência lá muito ética.
Para deixar a vida da grande imprensa mais confortável, o grosso das verbas publicitárias federais – mesmo durante os governos do PT – continuaram em seu caminho para os grandes grupos, que apenas não cresceram durante este período em razão do surgimento da internet.
E estes oligopólios existem incrivelmente à margem de uma Constituição que não regulamenta a atuação da mídia. A Constituição diz, vagamente, que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio” (parágrafo 5º do artigo 220), porém apenas uns poucos grupos privados controlam os meios de comunicação através de “redes” de afiliadas cuja “formação” não obedece a qualquer regulação. Só a RBS tem doze emissoras de tevê no RS. Tinha mais nove em SC. E apresenta boa parte da programação da Globo.
Evidentemente, a concentração dos meios de comunicação resulta em pouca pluralidade de informação. Para piorar, assim concentrada, a informação vem de uma elite econômica que não costuma ter horizontes muito longínquos de si.
Já a mídia alternativa caracteriza-se principalmente por sua pobreza. Ela não tem TVs ou rádios e poucas são impressas. Usam a internet, onde também os grandes grupos trabalham. Os anunciantes não lhe dão muita importância. As próprias agências de propaganda dizem que a diferença do discurso dela em relação à grande mídia é assustadora para seus clientes. O jornal onde trabalho tem 100 mil seguidores no facebook e 1,5 milhão de acessos mensais. Não é pouca coisa e não houve mês em que não tenhamos crescido. Mesmo assim, poucos anunciantes se arriscam.
Como são empresas sem muito capital, tudo o que não desejam são processos na Justiça. Mesmo que os ganhem, o custo dos advogados podem ser fatais para seus modestos fluxos de caixa. Esta é a forma de intimidação que sofrem.
Imaginem que já vi processos movidos por brigadianos cujos rostos apareceram em matérias de jornal. Eles estavam fardados, trabalhando, mas disseram que suas imagens foram utilizadas e prejudicadas. Já ouvi alguns autores de ações deste tipo serem questionados por juízes. E fica claro que quem sugeriu o processo a eles foram seus superiores.
O próprio ministro do STF, Gilmar Mendes, processou por danos morais Guilherme Boulos, coordenador do MTST, por um artigo que este escreveu criticando a atuação do magistrado. Gilmar pedia R$ 100 mil. Perdeu a ação, mas poderia ter ganho. E Boulos deve ter gastado o que não tem com advogados.
Já eu fui processado pela atual vereadora Mônica Leal. Não vou entrar em detalhes, mas perdi. Paguei 11 mil. Adivinhem se sigo criticando e rindo de Mônica. É óbvio que não.
Depois disso me senti como ela queria: intimidado. Não tenho 11 mil para distribuir a cada texto que publico. Muita gente sentiu peninha e até pensei em pagar por vaquinha virtual (crowdfunding ou financiamento coletivo). Mas não tive cara de pau suficiente. Paguei do meu mesmo. Ou seja, aqui a falta de liberdade de expressão é estabelecida pela intimidação.
E creio que outro gênero de pressão é feita sobre os artistas. Se um escritor combativo escrever contra um prefeito ou governador, poderá perder rendimentos. É que hoje uma das principais fontes de renda de escritores e músicos são os festivais e feiras. Os autores passaram a viver de suas participações em eventos. Não há mal nenhum nisso. Porém, quando um deles se posiciona, acaba por decepcionar 50% e fecha mercado para si mesmo.
Se você, por exemplo, for convidado por uma Secretaria de Cultura do PSDB e se declarar eleitor do PSOL, deixará de ser convidado. Então, atualmente, boa parte dos autores brasileiros são chapa branca, isto é, agradam a quem estiver no poder. A maioria demitiu-se da nobre posição histórica de serem uma espécie de consciência de suas sociedades. Eles não opinam e, obviamente, não influenciam suas sociedades. Vários deles são especialistas em aderir ao novo Secretário de Cultura. Claro que, se conseguem uma boa relação com PT, PMDB e PP, significa que nunca fizeram comentários políticos públicos, ou seja, sempre praticaram a autocensura.
A notícia do estupro de uma menina de 17 anos no RJ por mais de 30 homens, do vídeo da moça desacordada com os genitais à mostra, do orgulho dos criminosos que teriam vingado uma traição amorosa, todo este absoluto horror combina demais com as declarações imbecis, machistas e bravateiras de um Bolsonaro — “Você não merece ser estuprada”, disse ele — e com a confissão de Alexandre Frota na televisão de já ter estuprado — sob risos da plateia. Fico até com vergonha das mulheres.
Antes de tudo, um detalhe: o maior doador individual da campanha do atual Ministro da Saúde para deputado, em 2014, Elon Gomes de Almeida, é sócio do grupo Aliança, uma administradora de planos de saúde.
Pois bem, em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, o atual Ministro da Saúde, o famigerado Ricardo Barros (PP-PR) revelou com toda a clareza o projeto político do governo de Michel Temer com relação à Saúde, explicitando que “o país precisa rever o direito universal à saúde”, e que “quanto mais gente puder ter plano, melhor”.
Barros afirmou que pretende criar uma equipe para rever protocolos da área e descobrir se há fraudes na aplicação dos recursos. Ele defendeu, no entanto, que “quanto mais gente puder ter planos de saúde, melhor porque vai ter atendimento patrocinado por eles mesmos, o que alivia o custo do Governo em sustentar essa questão“. Ora, então para que pagamos o SUS? Para usá-lo somente para receber uma merreca de aposentadoria? Qual é a razão deste duplo pagamento? É a mesma questão na educação. Pagamos impostos, mas, se queremos uma educação melhor para nossos filhos, pagamos também colégios particulares. E o que é o estado mínimo? Não é aquele que garante, saúde, educação e segurança? Pois não chegamos ainda lá.
(O país tem 2 milhões de profissionais e trabalhadores do SUS, parte dos quais constituem as 40 mil equipes de Saúde da Família, com cerca de 265 mil Agentes Comunitários de Saúde, milhares de estudantes de cursos de graduação e pós-graduação na área de saúde, milhares de gestores que atuam em mais de cinco mil municípios desse imenso país, lutando para garantir o acesso universal a serviços de saúde. A Constituição Federal de 1988 consagrou “Saúde como Direito de Todos e Dever do Estado” e instituiu o SUS como Sistema de Saúde Pública universal e equitativo, tentando inscrever o Brasil no rol dos países civilizados).
Arthur Chioro, que dirigia o Ministério da Saúde até antes da última reforma ministerial de Dilma, afirmava constantemente que faltavam recursos e que era necessário que houvesse outras fontes para suprir o sistema, com a provável volta da CPMF. Cortes, entretanto, nunca fizeram parte dos planos. O país gasta aproximadamente 7% de suas Receitas Correntes Brutas com o sistema. Para o Movimento Saúde Mais Dez, que reúne mais de cem entidades do setor, seria necessário elevar esse valor para 10%.
Hoje, ao meio-dia, a mesa de direitistas do Tuim estava impossível. Primeiro. o quarteto afirmou que Temer estaria sendo boicotado pela mídia (?). Depois, decidiram que os pais dos alunos deveriam reformar as salas destroçadas dos colégios públicos gaúchos. Não chega a ser um absurdo, mas ninguém considerou que tais pais — da parcela mais pobre da população — têm enooooooorme tempo livre e, cada um deles, complicadas lutas de subsistência pela frente. Ah, ninguém explicou se o estado daria o material para as reformas… Possivelmente não, pois um deles, absolutamente encantado com a ideia, falou em colocar uma placa na entrada com o nome de todos os pais que reconstruíram o colégio. Também não falaram na segurança e na garantia de um serviço que não seria o mais profissional do planeta.
E depois querem que a gente volte do almoço tranquilo e bem humorado. Pergunto, pode-se dizer que isso seja um descanso? Melhor mergulhar numa leitura qualquer e esquecer do mundo ao redor. Ele pode ser horrível.
Abaixo, fotos de Carlos Latuff tiradas hoje pela manhã no Colégio Paula Soares, em pleno centro de Porto Alegre. Imagina como estão as da periferia.
O primeiro vídeo é uma propaganda cívica da época da ditadura militar, desencavada pelo meu amigo Fernando Guimarães. Passava na TV a cada intervalo comercial e todos a conheciam de cor. Coloquei-a ontem no Facebook e um bando de gente veio dizer que lembrava da letra… “Este é um país que vai pra frente, Ô Ô Ô… De uma gente amiga e tão contente Ô Ô Ô… Este é um país que vai pra frente / De um povo unido de grande valor / É um país que canta, trabalha e se agigante / É o Brasil de nosso amor”. É inesquecível para quem tinha via televisão na época. Que morte horrível.
O segundo vídeo é mais longo e entrava só pelo rádio, acho. Ouvíamos a toda hora “Eu te amo, meu Brasil” com Dom e Ravel (primeira versão) e depois com Os Incríveis que, aparentemente, quiseram gravá-la. Como a primeira, é uma marchinha. Fez enorme sucesso, embora jamais tocasse em minha casa, é claro. Era uma “arte” paralela incentivada pelo governo numa época de ouro de nossa MPB. Enquanto algumas rádios tocavam Chico, Tom, Caetano, Milton, etc., outras, mais populares batiam no civismo, e na promoção do amor ao país. Enquanto isso, havia o bipartidarismo que deu origem ao atual PMDB e a tortura grassava..
Maquiavel ensina que o pior tipo de principado é o herdado porque o príncipe não teve qualidades pessoais para conquistar o poder. Ele lhe caiu nas mãos e seu reinado será marcado pela instabilidade, já que diante da crise o príncipe não saberá como agir, pois não foi preparado para isso.

O golpe está dado. Vivemos numa republiqueta latino-americana onde um gangster, Eduardo Cunha, aglutina interesses da Fiesp, bancos privados, empreiteiras, EUA, multinacionais do petróleo, fundamentalistas evangélicos, etc. — todos auxiliados por uma imprensa que os governos petistas só fizeram adubar — e faz cair um governo. E não pensem que morro de amores por Dilma.
As forças econômicas atuam à revelia da democracia e da sociedade. Alguns ridicularizaram Paraguai e Honduras. Hoje, somos iguais. O desfecho da história está decidido há meses. O que nos resta agora é a luta diária em todos os espaços.
Espero que o governo Temer não tenha paz, pois se tiver, meu amigo, prepare-se. A insegurança jurídica já está aí, tendo em vista a posição facciosa das instituições que deveriam zelar pela ordem democrática. Haverá forte tentativa de retrocesso social.
Mais: o governo Temer procurará reduzir em muito os direitos sociais e trabalhistas conquistados em lutas de várias décadas. Infelizmente, prevejo greves, perdas, instabilidade e violência.
E, mesmo com a notória exceção dos EUA, o mundo já nos trata como merecemos: como um paisinho instável de segunda classe. Com nosso Congresso BBB (Bala, Boi, e Bíblia), votado por uma maioria inteiramente apolítica, é o que somos mesmo.
As especulações sobre os futuros Ministérios são de arrepiar. Vai dar até para esquecer Katia Abreu na Agricultura, que será substituída por Blairo Maggi, o Rei da Soja… O nível é rasante, cheio de velhos conhecidos nossos.
Hoje não é dia do enterro do PT, é o dia do enterro de 24 anos de estabilidade de um discutido presidencialismo de coalizão. Por ironia, esse período teve um impeachment em seu início e terá outro em seu final.
Os próximos dois anos podres, violentos e, fundamentalmente, necessários apenas para que permaneçamos como nação periférica e desigual.
Uma pena.