Sobre o dia 7

Sobre o dia 7

Trabalhar com livros já é um ato político nesse país, seja você autor, editor, tradutor, revisor, da equipe da editora, livreiro. Seja você leitor. Como tal, a Livraria Bamboletras não poderia deixar de pedir para votarmos domingo pensando em diálogo e liberdade, jamais em censura e cerceamento.

Afinal, somos a livraria de todos os gêneros. E esta é uma frase de sério duplo sentido.

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Reflexão simples sobre uma frase de Siddhartha Mukherjee: Preencher a vida

Reflexão simples sobre uma frase de Siddhartha Mukherjee: Preencher a vida

Na bela palestra de Siddhartha Mukherjee houve uma frase em que ele disse que, mesmo consciente da doença, a pessoa deve seguir preenchendo sua vida com coisas interessantes. Aliás, isso seria viver. E mudou de assunto. Concordo. E mais: digo que efetivamente não confio em pessoas que não leem, não se informam, não pesquisam, não ouvem música inteligente, não têm atividades culturais ou científicas. Viver é sobreviver e pré-viver, expressão que ele também usou, mas também é tentar o impossível de preencher o tempo de uma forma bonita. Essa é a razão pela qual valorizei tanto o post que compartilhei abaixo — do Gustavo Melo Czekster. Dos candidatos, a única que sei que lê é Fernanda Melchionna. Do resto, nada sei, pois eles não divulgam, sinal claro de seus vazios, de sua falta de preenchimento. É gente desinteressante, DESGRAÇADAMENTE ATIVA, que representa apenas o próprio desejo de participar ou empresas. Antes de votar, considerem isto.

(*) Música de qualidade seria aquela que nasce não de um produtor ou da modinha, mas de um autor que promova quaisquer diálogos ou confrontos com a cultura.

Siddhartha Mukherjee

 

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Negligência de governos destrói o Museu Nacional: acompanhe a sequência do corte de verbas

Negligência de governos destrói o Museu Nacional: acompanhe a sequência do corte de verbas

Um incêndio consumiu quase todo o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Há apenas dois meses, a instituição tinha comemorado os 200 anos de sua criação.

O Museu foi fundado por Dom João VI em 1818 e possuía o quinto maior acervo do mundo, com mais de 20 milhões de peças, e era referência para pesquisadores de várias áreas. Suas obras contavam uma parte importante da história antropológica e científica da humanidade.

Lá estava o fóssil — com mais de 11 mil anos — de Luzia, a mulher mais antiga das Américas, cuja descoberta nos anos 1970 alterou todas as pesquisas sobre a ocupação da região.

Também havia a reconstrução do esqueleto do Angaturama Limai, o maior dinossauro carnívoro brasileiro, com quase todas as peças originais, algumas com 110 milhões de anos.

Foi queimado igualmente o sarcófago da sacerdotisa Sha-amun-em-su, mumificada há 2.700 anos e presenteada a Dom Pedro 2º em 1876, e que nunca tinha sido aberto. A coleção de múmias egípcias e a de vasos gregos e etruscos evidenciam o perfil mundial do acervo, que também abrigava o maior conjunto de meteoritos da América Latina.

Porém Bendegó, o maior meteorito já encontrado no país com mais de 5 toneladas, sobreviveu intacto.

.oOo.

O Museu Nacional encontrava-se sob a guarda da UFRJ, ou seja, sofrendo com os cortes da Educação, recebendo apenas R$ 13.000 de manutenção mensal para seus 20 milhões de itens de História e Arte brasileira. Não me digam que o incêndio de hoje não é resultado das políticas da quadrilha — com Supremo, com tudo — que atualmente ocupa o Planalto, que não é resultado do Centrão que está destruindo o país há bem mais de um governo. Claro, o governo anterior igualmente não tratou nada bem a cultura — imaginem que o Museu teve de fechar as portas, em 2015, por falta de verbas para o pagamento dos funcionários, em pleno governo Dilma. Mas é agora que se orquestra um grande ataque à cultura. Os governos estaduais e municipais começaram a combater o meio cultural do país que não os apoia. Sartori e Marchezan estão fazendo o seu tanto do RS e em Porto Alegre, assim como Pezão e Crivella no RJ.

Aliás, no mesmo sentido, Bolsonaro defende a extinção do Ministério da Cultura… Ele pensa que uma secretaria seria o suficiente para tratar do assunto.

Vejamos: em 2014, ano em que as atenções estavam voltadas para as arenas da Copa do Mundo, foram repassados apenas R$ 427 mil para o Museu. Em 2015 foi ainda pior: R$ 257 mil. Subiu um pouco em 2016, R$ 415 mil. No ano passado, foram 246 mil e agora, no ano do bicentenário, somente R$ 54 mil. A estrutura apresentava sinais visíveis de má conservação, como fios elétricos expostos e paredes desencascadas, rachaduras na estrutura, sem falar na falta de dispositivos anti-incêndio. A Petrobras, através da Lei Rouanet, ajudou a manter o museu até a Lava a Jato. Com a crise da empresa, cessou o patrocínio.

Bem, o dinheiro destinado para a manutenção do Museu Nacional era equivalente a 10 auxílios-moradia do Judiciário. Agora, nem precisam mais ter esse gasto. Me apavora o fato de que o Theatro Municipal, o MAM, o Jardim Botânico, o Real Gabinete Português, a Biblioteca Nacional, etc., — para não falar em instituições de outros estados –, estejam sob as mãos de governantes como os nossos. Já o STF e o Congresso Nacional devem estar limpíssimos e conservadíssimos, ao menos seus prédios.

Foto: Mídia Ninja

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Quando aparecerá Haddad?

Será que o PT vai demorar muito a mudar esta estratégia maluca de não nomear Haddad como candidato, deixando-o fora dos debates? Alguém entende esta doidice?

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URSAL

URSAL

Gente, Ursal refere-se à imaginária União das Repúblicas Socialistas da América Latina. Cosa de loco.

URSAL

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Milton Ribeiro e PUM informam ao MBL e ao povo bolsomínion:

Milton Ribeiro e PUM informam ao MBL e ao povo bolsomínion:

– A Globo é comunista;
– O Papa Francisco é comunista;
– O Facebook é comunista;
– O Twitter é comunista;
– George Soros é comunista;
– O UOL é comunista;
– O Estadão é comunista.

PUM - Partido Utopico Moderado

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Lembram daquela exposição de mediocridade quando do impeachment de Dilma?

Lembram daquela exposição de mediocridade quando do impeachment de Dilma?

Gente, as eleições mais importantes são as para Deputado Federal e Senador. Nestes cargos é que fundamental influenciar, votando em quem não será depois Centrão. A palavra Centrão significa o grupo de deputados que apoia a quadrilha que ora ocupa o Planalto e que deverá estar com Alckmin e Ana Amélia.

Importante: o título deste post não defende Dilma, uma de nossas piores presidentes da história. Usei o episódio apenas como exemplo, pois foi ali que todos viram em quem votamos, quem é nosso Congresso. O que sei é que ignoramos o parlamento no período eleitoral e depois nos surpreendemos com sua ruindade, tolice e corrupção. Há que examinar o voto com lupa.

Foto: Portal da Câmara dos Deputados
Foto: Portal da Câmara dos Deputados

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Meu deus, Ana Amélia de vice?

Meu deus, Ana Amélia de vice?

Ana Amélia já confundiu Al Jazeera com Al Quaeda. Resta saber o que ela fará com Alckmin.

Ana Amélia Alckmin

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A cidade-mico de Porto Alegre abre edital para uma “ópera-rock” baseada na Revolução Farroupilha

A cidade-mico de Porto Alegre abre edital para uma “ópera-rock” baseada na Revolução Farroupilha

Com a concordância do prefeito (sim, aquele mesmo que diz não ter dinheiro para nada), a Câmara Municipal de Porto Alegre abriu um edital de R$ 350 mil para que seja composta uma ópera-rock baseada na Revolução Farroupilha. Bem, a época deste gênero musical já está mais do que finda, só podendo ser coisa de quem não acompanha nem de longe o movimento cultural, parecendo mais um projeto pessoal de um sem-noção.

Moda no final dos anos 60 e início dos 70, as óperas-rock foram puxadas pelo excelente The Who, cujo principal compositor, Pete Townshend, escreveu a pioneira Tommy — OK, a primeira foi A Quick One, também do The Who — e a melhor de todas, Quadrophenia. Depois o gênero diluiu-se e foi parar nos musicais, onde morreu há muitos anos. Uma ópera-rock era simplesmente uma série de canções interligadas que, reunidas, contavam uma história, sem chegar a ser um drama musical como os de Wagner.

Na época das óperas-rock, as pessoas se vestiam assim, meu caros edis.

The Who na época de Tommy.
The Who (Townshend, Daltrey, Entwhistle e Moon, da esquerda para a direita) na época das óperas-rock | Foto: https://www.thewho.com/ Divulgação.

Mais: além da Câmara propor uma composição de gênero anacrônico, a tal “Revolução Farroupilha” sempre esteve longe de ser uma unanimidade no estado, mesmo na época em que ocorreu. A própria cidade de Porto Alegre não a apoiou. Talvez fosse adequado a nossos vereadores darem uma olhadinha no brasão de armas da cidade. Lá está escrito o lema “Mui Leal e Valerosa”. Esta frase está ali por NÃO termos apoiado os Farrapos. Desculpem, a verdade é algo incontrolável mesmo.

Gente, a Revolução Farroupilha não foi a luta do povo rio-grandense contra o Brasil. Uma parte importante dos moradores da província lutou a favor do Império. Nem mesmo na região da Campanha, tida como base dos farroupilhas, havia unanimidade. Muitos dos líderes militares e grandes estancieiros, que ali viviam, eram legalistas.

E ainda mais: a Câmara de Vereadores financiando um tema que não diz respeito exclusivamente a Porto Alegre é, no mínimo, estranha.

Li em algum lugar que seria melhor montar uma ópera sobre o tema. Até concordo. Por que não? Afinal, elas ainda são compostas e são populares. É um gênero vivo em Porto Alegre, onde as montagens lotam teatros. Mas gostaria de sublinhar que já existe uma ópera chamada Farrapos, conforme lembra o tenor Antonio Telvio. Ela foi estreada em 1935 ou 36 no Theatro São Pedro e é de autoria de Roberto Eggers (1889-1984), que também compôs Missões. Eggers foi uma figura bem conhecida na cidade — dirigiu o Orfeão Riograndense e foi Diretor Musical das Rádios Gaúcha e Farroupilha.

Para terminar, por que não propuseram simplesmente um musical ou uma ópera gaudéria? Talvez uma ópera-funk? Ah, Pete Townshend, que estrago você fez na cabeça de nossos ignorantes edis!

The Who hoje: só Townshend e Daltrey. Moon e Entwhistle já faleceram.
The Who hoje: só Townshend e Daltrey. Moon e Entwhistle já faleceram | Foto: https://www.thewho.com/ Divulgação

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A sociedade dos empregos de merda

A sociedade dos empregos de merda

POR DAVID GRAEBER
Do Outras Palavras
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Como o capitalismo contemporâneo cria sem cessar ocupações inúteis, enquanto remunera muito mal as mais necessárias. Quais as alternativas? Garantia de trabalho? Ou Renda Cidadã Universal?

David Graeber, entrevistado por Eric Allen Been, na Vice| Tradução: Antonio Martins

Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, no final do século 20, países como os Estados Unidos teriam – ou deveriam ter – jornadas de trabalho de 15 horas semanais. Por que? Em grande medida, a tecnologia tiraria de nossas mãos tarefas sem sentido. Claro, isso nunca ocorreu. Ao contrário, muitíssimas pessoas, em todo o mundo, estão submetidas a longas jornadas como advogados corporativos, consultores, operadores de telemarketing e outras ocupações.

Mas enquanto muitos de nós julgamos nossos trabalhos muito aborrecidos, algumas ocupações não fazem sentido algum, segundo o escritor anarquista David Graeber. Em seu novo livro, “Bullshit Jobs: A Theory” [“Trabalhos de Merda: Uma Teoria”], o autor argumenta que os seres humanos consomem suas vidas, muito frequentemente, em atividades assalariadas inúteis. Graeber, que nasceu nos EUA e que já havia escrito, entre outras obras, Dívida: Os Primeiros 5000 anos e The Utopia of Rules [ainda sem edição em português] é professor de Antropologia na London School of Economics e uma das vozes mais conhecidas do movimento Occupy Wall Street (atribui-se a ele a frase “Somos os 99%”).

A “Vice” encontrou-se há pouco com Graeber para conversar sobre o que ele define como “emprego de merda”; por que os trabalhos socialmente úteis são tão mal pagos, e como uma renda básica assegurada a todos poderia resolver esta enorme injustiça.

Em primeiro lugar, o que são empregos de merda e por que existem?

David Graeber: Basicamente, um emprego de merda é aquele cujo executor pensa secretamente que sua atividade ou é completamente sem sentido, ou não produz nada. E também considera que se aquele emprego desaparecesse, o mundo poderia inclusive converter-se num lugar melhor. Mas o trabalhador não pode admitir isso – daí o elemento de merda. Trata-se, portanto, em essência, de fingir que se está fazendo algo útil, só que não.

Uma série de fatores contribuiu para criar esta situação estranha. Um deles é a filosofia geral de que o trabalho – não importa qual – é sempre bom. Se há algo em que a esquerda e a direita clássicas frequentemente estão de acordo é no fato de ambas concordarem que mais empregos são uma solução para qualquer problema. Não se fala em “bons” trabalhos, que de fato signifiquem algo. Um conservador, para o qual precisamos reduzir impostos para estimular os “criadores de emprego”, não falará sobre que tipo de ocupações quer criar. Mas há também partidários da esquerda insistindo em como precisamos de mais ocupações para apoiar as famílias que trabalham duro. Mas e as famílias que desejam trabalhar moderadamente? Quem as apoiará?

Até mesmo os empregos de merda garantem a renda necessária para que as pessoas sobrevivam. No fim das contas, por que isso é ruim?

Mas a questão é: se a sociedade tem os meios para sustentar todo mundo – o que é verdade – por que insistimos em que os trabalhadores passem sua vida cavando e em seguida tapando buracos? Não faz muito sentido, certo? Em termos sociais, parece sadismo.

Em termos individuais, isso pode ser visto como uma boa troca. Mas, na verdade, as pessoas obrigadas a tais trabalhos estão em situação miserável. Podem considerar: “estou ganhando algo por nada”. Bem, as pessoas que recebem salários bons, muitas vezes de nível executivo, certamente de classe média, quase sempre passam o dia em jogos de computador ou atualizando seus perfis de Facebook. Quem sabe, atendendo o telefone duas vezes por dia. Deveriam estar felizes por ser malandros, certo? Mas não são.

As pessoas contratadas para tais trabalhos relatam, regularmente, que estão deprimidas. E se lamentarão, e praticarão bullying umas contra as outras, e se apavorarão com prazos finais porque são de fato muito raras. Porém, se pudessem buscar uma razão social no trabalho, uma boa parte de suas atividades desapareceria. As doenças psicossomáticas de que as pessoas padecem simplesmente somem, no momento em que elas precisam realizar uma tarefa real, ou em que se demitem e partem para um trabalho de verdade.

Segundo seu livro, a sociedade pressiona os jovens estudantes para buscar alguma experiência de emprego, com o único objetivo de ensiná-los a fingir que trabalham.

É interessante. Chamo de trabalho real aquele em que o trabalhador realiza alguma coisa. Se você é estudante, trata-se de escrever. Preparar projetos. Se você é um estudante de Ciências, faz atividades de laboratório. Presta exames. É condicionado pelos resultados e precisa organizar sua atividade da maneira mais efetiva possível para chegar a eles.

Porém, os empregos oferecidos aos estudantes frequentemente implicam não fazer nada. Muitas vezes, são funções administrativas onde eles simplesmente rearranjam papéis o dia inteiro. Na verdade, estão sendo ensinados a não se queixar e a compreender que, assim que terminarem os estudos, não serão mais julgados pelos resultados – mas, essencialmente, pela habilidade em cumprir ordens.

E os empregos tecnológicos ou na mídia. Seriam, também, de merda?

Certamente. Por meio do Twitter, pedi às pessoas que me relatassem seus empregos mais sem sentido. Obtive centenas de respostas. Havia um rapaz, por exemplo, que desenhava bâners publicitários para páginas web. Disse que havia dados demonstrando que ninguém nunca clica nestes anúncios. Mas era preciso manipular os dados para “demonstrar” aos clientes que havia visualizações – para que as pessoas julgassem o trabalho importante.

Na mídia, ha um exemplo interessante: revistas e jornais internos, para grandes corporações. Há bastante gente envolvida na produção deste material, que existe principalmente para que os executivos sintam-se bem a respeito de si próprios. Ninguém mais lê estas publicações.

A automação é vista, muitas vezes, como algo negativo. Você discorda deste ponto de vista, não?

Certamente. Não o compreendo. Por que não deveríamos eliminar os trabalhos desagradáveis? Em 1900 ou 1950, quando se imaginava o futuro, pensava-se: “As pessoas estarão trabalhando 15 horas por semana. É ótimo, porque os robôs farão o trabalho por nós”. Hoje, este futuro chegou e dizemos: ”Oh, não. Os robôs estão chegando para roubar nossos trabalhos”. Em parte, é porque não podemos mais imaginar o que faríamos conosco mesmo se tivéssemos um tempo razoável de lazer.

Como antropólogo, sei perfeitamente que tempo abundante de lazer não irá levar a maioria das pessoas à depressão. As pessoas encontram o que fazer. Apenas não sabemos que tipo de atividade seria, porque não temos tempo de lazer suficiente para imaginar.

Pergunto: por que as pessoas agem como se a perspectiva de eliminar o trabalho desnecessário fosse um problema? Deveríamos pensar que um sistema eficiente é aquele em que se pode dizer: “Bem, temos menos necessidade de trabalho. Vamos redistribuir o trabalho necessário de maneira equitativa”. Por que isso é difícil? Se as pessoas simplesmente assumem que é algo completamente impossível, parece-me claro que não estamos em um sistema eficiente.

Um dos pontos mais interessantes do livro são suas observações sobre como os empregos socialmente valiosos são quase sempre menos bem pagos que os empregos de merda.

Foi uma das coisas que, pessoalmente, mais me chocou na fase da pesquisa. Comecei a tentar descobrir se algum economista havia observado o fenômeno e tentado explicá-lo. Houve antecedentes, na verdade. Alguns eram economistas de esquerda; outros, não. Alguns eram totalmente mainstream.

Mas todos chegaram à mesma conclusão. Segundo eles, há uma tendência: quanto mais benefícios sociais um emprego produz, menor tende a ser a remuneração – e também a dignidade, o respeito e os benefícios. É curioso. Há poucas exceções e não são tão excepcionais como se poderia pensar. Os médicos, é claro, são um caso notório: é evidente que são pagos com justiça e oferecem benefícios sociais.

Porém, há um argumento recorrente: “Não seria bom que pessoas interessadas apenas em dinheiro ensinassem as crianças. Não se deve pagar demais aos professores. Se o fizéssemos, teríamos gente gananciosa na profissão, em vez de professores que se sacrificam”. Há também a ideia de que se um trabalhador sabe que sua atividade produz benefícios, isso pode ser o bastante. “Como, você quer dinheiro, além de tudo?” As pessoas tendem a discriminar qualquer um que tenha escolhido um emprego altruísta, sacrificante ou apenas útil.

Aparentemente, você é pouco favorável à ideia de garantia de trabalho, defendida entre outros por Bernie Sanders [candidato de esquerda à presidência dos EUA], por preferir a garantia de renda cidadã.

Sim. Sou alguém que não quer criar mais burocracia e mais empregos de merda. Há um debate sobre garantia de trabalho – que Sanders, de fato, propõe, nos EUA. Significa que os governos deveriam assegurar que todos tenham acesso ao menos a algum tipo de trabalho. Mas a ideia por trás da renda universal da cidadania é outra: simplesmente assegurar às pessoas meios suficientes para viver com dignidade. Além desse patamar, cada um pode definir quanto mais deseja.

Acredito que a garantia de trabalho certamente criaria mais empregos de merda. Historicamente, é o que sempre acontece. E por que deveríamos querer que os governos decidissem o que podemos fazer? Liberdade implica em nossa capacidade de decidir por nós mesmos o que queremos e como queremos contribuir para a sociedade. Mas vivemos como se tivéssemos nos condicionado a pensar que, embora vejamos na liberdade o valor mais alto, na verdade não a desejamos. A renda básica da cidadania ajudaria a garantir exatamente isso. Não seria ótimo dizer: “Você não tem mais que se preocupar com a sobrevivência. Vá e decida o que quer fazer consigo mesmo”?

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Estônia será primeiro país do mundo com transportes públicos gratuitos

Estônia será primeiro país do mundo com transportes públicos gratuitos

Face ao sucesso da medida na capital, Tallinn, o governo da Estónia alocou uma parcela do Orçamento nacional para permitir que as restantes cidades possam disponibilizar o acesso gratuito aos transportes públicos para os seus residentes.

Do esquerda.net

Tallinn, a capital da Estônia, conduziu há cinco anos um referendo onde propunha a possibilidade de acesso gratuito aos transportes públicos, ao qual 75% dos eleitores votaram positivamente.

Para usufruir desta medida era necessário residir na cidade e pagar 2€ por um “cartão verde”. Esta medida não abrangia turistas e visitantes de outras cidades do país, que têm de pagar para usar os transportes públicos da cidade.

Esta medida provou ser de tal forma popular que agora o governo da Estônia está tornando gratuitos os ônibus de todo o país. A partir de 1 de julho, todas as cidades poderão implementar o acesso totalmente gratuito aos transportes públicos para os seus residentes.

Embora esta não seja uma medida obrigatória, quem o fizer receberá um financiamento adicional que constará no orçamento nacional do país para os transportes públicos.

“Não há dúvidas de que não só conseguimos cobrir as despesas, como obtemos lucro”, afirmou Allan Alaküla, chefe do gabinete da União Europeia em Tallinn, à PopUpCity. “Ganhamos o dobro daquilo que investimos desde a introdução dos transportes públicos gratuitos. Estamos contentes por perceber que há tantas pessoas motivadas para se inscreverem como residentes de Tallinn para acederem aos nossos transportes públicos gratuitos”.

Algumas cidades francesas e alemãs também estão a ponderar a introdução de medidas semelhantes de forma a reduzir o número de carros nas cidades e a poluição por estes causada. Também o País de Gales está a aplicar o acesso gratuito aos ônibus durante o fim de semana.

E Tallinn ainda é bonitin.
E Tallinn ainda é bonitin.

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Fala Luiz Pilla Vares: “Por uma Política Cultural Democrática”

Fala Luiz Pilla Vares: “Por uma Política Cultural Democrática”

Luiz Pilla Vares

Em 1989, ao assumir a Secretaria Municipal da Cultura, nomeado pelo prefeito Olívio Dutra, o grande Luiz Paulo Pilla Vares (1940-2008) escreveu um texto intitulado “Por uma Política Cultural Democrática”, que sintetizou em oito pontos o programa de sua gestão. Pilla Vares faleceu há dez anos e, talvez possamos dizer que ao morrer cedo, teve a vantagem de não ver a desmontagem da Cultura via Temer, Sartori e Marchezan. A seguir, os oito itens:

1. Responsabilidade do Estado: “Nunca, como nos dias de hoje, o Estado tem tanta responsabilidades para com a cultura. Vivemos numa época trágica, de sistemática destruição não apenas dos aparelhos e equipamentos culturais, mas da própria cultura (…) Procura-se, num país atrasado como o Brasil, deixar a cultura sujeita às leis do mercado, o que, em nossa caso, significa simplesmente negá-la”

2. Financiamento da Cultura: O Estado tem o dever de se portar como um Mecenas Moderno: “Temos necessidade de um pleno renascimento cultural e os órgãos estatais responsáveis devem criar o clima para isso em todas as áreas, das ciências humanas às artes plásticas”.

3. A cultura não é lazer: “Ela é muito mais do que isso: refere-se à condição humana e capacidade do ser humano de pensar sobre ela, isto é, pensar sobre si mesmo. A indústria cultural faz um movimento contrário. Move-se no sentido de neutralizar o pensamento”.

4. Cultura e cidadania: “cultura é um elemento essencial da cidadania. Chega de considerar a cultura como elemento secundário! (…) O desenvolvimento cultural traz consigo conteúdos críticos e reflexivos. Rompe o senso comum e tem incidência na própria política. Desenvolve a imaginação ativa em detrimento da imaginação passiva”.

5. Cultura e política: “Os órgãos do Estado não podem interferir na criação, concepção e posição dos sujeitos em qualquer nível. Pelo contrário, sua função é precisamente a de garantir a livre manifestação em sentido absoluto”.

6. Diálogo com a comunidade: “Nosso objetivo é criar uma política cultural permanente com a intromissão ousada e aberta da própria comunidade, de tal forma que as retrógradas tentativas de desmonte encontrem uma resistência eficaz na sociedade civil”.

7. Cultura erudita e cultura popular: “Existe apenas uma cultura na qual os elementos populares intervêm e proporcionam conteúdo (…) Uma política de descentralização cultural, como a que estamos começando a pôr em prática, pode derrubar o muro abstrato que foi erguido, inclusive com a ajuda de alguns setores da esquerda”.

8. Modernidade: “A cultura contemporânea é incompreensível sem o cinema, o vídeo, a televisão, o rádio, as ciências humanas (entre elas, a psicanálise), a poesia concreta, a fotografia, o teatro de rua, o rock and roll, as histórias em quadrinhos, que se conjugam às grandes criações várias vezes milenares da história da humanidade”.

Em grande parte, esta política foi implantada e contribuiu para que Porto Alegre se consolidasse como um polo cultural importante por muito tempo.

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A semana do amor

A semana do amor

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Sartori retira o controle público da TVE e da FM Cultura

Sartori retira o controle público da TVE e da FM Cultura

A partir de hoje, as emissoras passam a obedecer ao comando direto do órgão responsável pela propaganda e divulgação das ações do governo. Tudo isso em ano eleitoral, no qual Sartori é considerado pré-candidato, pelo MDB, à releição ao governo do Estado.

Sartori TVE FM Cultura

Nesta quarta-feira (11/04), o Diário Oficial do Estado publicou um decreto do governador, alterando a estrutura da Secretaria da Comunicação (SECOM). A principal mudança é a criação de departamento de Radiodifusão e Audiovisual, que irá absorver as atividades da Fundação Piratini caso a extinção se confirme.

Na prática, as emissoras passarão a sofrer a interferência direta dos governantes, já que a SECOM está submetida ao gabinete do governador. A própria secretaria é composta, neste momento, quase que exclusivamente por Cargos Comissionados, abrindo a possibilidade de contratação irrestrita de terceirizados e apadrinhados políticos para trabalhar na TVE e FM Cultura. Ao mesmo tempo, as primeiras realocações de servidores concursados da Fundação Piratini foram oficializadas hoje, diminuindo o quadro de funcionários de carreira.

O Conselho Deliberativo – órgão composto por representantes da sociedade civil e encarregado de zelar para que a programação das emissoras cumpra o caráter público e educativo – deixará de existir nesse novo modelo. As atribuições serão definidas apenas pelos interesses partidários, tanto que o decreto reitera repetidas vezes a prática das parcerias públicas-privadas. Em nenhum momento, porém, é detalhado quais serão os critérios para regular esses acordos.

Em dezembro de 2016, os advogados Antonio Carlos Porto Junior, representante do Sindicato dos Jornalistas, e Antonio Escosteguy Castro, representante dos Sindicato do Radialistas, haviam denunciado que a extinção da Fundação fere princípios constitucionais como o de liberdade de imprensa.

“A ideia de subordinar um órgão de comunicação pessoalmente ao governador do Estado ou a algum governante é algo que não encontra paralelo na história política há muito tempo. Nem na Alemanha dos anos 30 se tinha uma subordinação jurídica de um órgão de comunicação a pessoa do governante. Isso é uma violação expressa do artigo 220 de CF que estabelece que qualquer tipo de óbice a liberdade de informação e expressão é proibida”, afirma o advogado Porto Junior.

Fonte: Movimento dos Servidores da TVE e FM Cultura

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Religião e política

Essa perseguição e pressa para acabar com a terrível ameaça. A proteção da multidão a quem só resta um homem. Ele diabo e deus. Ele tudo. Tudo muito religioso. Até neste momento de absoluta crise política o Brasil mostra-se fundamentalista. Profunda vontade de vomitar.

É Páscoa. Ou o Homem será o Rei ou terá a Cruz. Não há espaço para viéses ou para a inteligência.

Enquanto isso, no Planalto, surfa uma quadrilha de muito mais de 40 ladrões.

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Um viés do péssimo planejamento gaúcho e brasileiro: o desmantelamento da Rede Ferroviária

Um viés do péssimo planejamento gaúcho e brasileiro: o desmantelamento da Rede Ferroviária

Este texto foi “causado” por dois fatos: o recebimento do mapa abaixo, que julgo chocante e também deste link, que descreve o único trem de passageiros diário do Brasil, ligando Vitória, no Espírito Santo, a Belo Horizonte, em Minas. A linha atende 42 municípios e a um milhão de passageiros por ano. Por que jogaram fora a malha ferroviária gaúcha?

VFRGS

Washington Luís foi o primeiro presidente a dizer tolamente que “Governar é abrir estradas”. Foi um de seus bordões de campanha, isso lá em 1928. Ele inaugurou, por exemplo, a Rio-Petrópolis, primeira rodovia asfaltada do país. Mas a estratégia só veio a acentuar-se de forma contundente no final dos anos 50, durante a presidência de Juscelino Kubitschek. A intenção era integrar o Brasil, principalmente com a transferência da capital para Brasília, além de industrializar o país por meio de montadoras de carros. Logo após a inauguração de Brasília foram construídas as rodovias Belém-Brasília, Brasília-Rio Branco e Cuiabá-Porto Velho, no intuito de estabelecer relações comerciais e proporcionar o povoamento em áreas mais afastadas do Centro-Oeste e da região Norte.

Foi naquela época que o sistema ferroviário e hidroviário começaram a ser jogados no lixo em favor de transportadoras e montadoras. Hoje, no Brasil, só temos uma opção para a distribuição de produtos — nossas rodovias em mau estado — e nenhum governo posterior pensou em alterar a situação. As ferrovias têm uma ínfima participação na logística de transportes nacional, sem falar no irrisório número de passageiros transportados sobre trilhos. É bom esse pessoal da gasolina, do asfalto e dos caminhões!

Foi um erro clamoroso abandonar por completo as ferrovias. Erro que chegou ao máximo durante a ditadura militar, que fez enormes investimentos incompreensíveis, como a rodovia Transamazônica. É interessante dizer que o Brasil é o único país de grande área geográfica que promoveu tal processo de desmantelamento. Há inúmeras vantagens no transporte ferroviário — trens de carga, de passageiros, maior segurança, facilidade de manutenção, etc. — sobre o rodoviário.

Em 1992, durante o Governo Collor, a RFFSA (Rede Ferroviária Federal S. A.) foi incluída no Programa Nacional de Desestatização e, em 1999, durante o governo FHC, foi extinta, sendo criada a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), que ainda hoje é o órgão que fiscaliza e controla o pouco que sobrou do transporte ferroviário no país.

Revejam acima o que tínhamos no Rio Grande do Sul em 1939. Era uma respeitável malha ferroviária.

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Veja o vídeo do barraco: Barroso diz que Gilmar é leniente com crime de colarinho branco

Veja o vídeo do barraco: Barroso diz que Gilmar é leniente com crime de colarinho branco
Montagem a partir de fotos do STF
Montagem a partir de fotos do STF

Gosto muito quando alguém consegue fazer o Gilmar Mendes fazer aquele sorrisinho escroto que faz quando está nervoso. Barroso arrasou, tirou do sério o Ministro que adora Aécio.

Segundo Barroso, Gilmar destila ódio o tempo inteiro, não julga, não fala coisas racionais, articuladas e está sempre com raiva. Gilmar devolveu: “Então, presidente, tenho este histórico, e realmente na Segunda Turma que eu sempre integrei, temos uma jurisprudência responsável, libertária e não fazemos populismo com prisões.”

Barroso disse ainda que Dirceu – preso e condenado na Lava Jato – deixou a prisão por decisão da Segunda Turma, composta por Gilmar. “Ele só está solto porque a Segunda Turma determinou. Não transfira para mim a leniência que vossa excelência tem com o crime do colarinho branco.” (…) “Vossa Excelência vai mudando a jurisprudência de acordo com o réu. Isso não é estado de direito. É estado de compadrio. Juiz não pode ter correligionário”.

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O apelo de Thomas Mann à razão parece dirigido ao Brasil de hoje

O apelo de Thomas Mann à razão parece dirigido ao Brasil de hoje

Há 87 anos, romancista tentou alertar povo alemão sobre perigos políticos após Partido Nazista ficar em segundo lugar nas urnas. Para o Nobel de Literatura, Hitler não podia mais ser visto apenas como piada de mau gosto.

Por Ricardo Domeneck, na DW
sob o título Bibliothek: O apelo de Thomas Mann à razão

Thomas Mann

No dia 17 de outubro de 1930, há exatos 87 anos, Thomas Mann proferia no Beethoven-Saal, em Berlim, sua palestra intitulada Ein Appell an die Vernunft (Um apelo à razão). Ao mesmo tempo, membros da Sturmabteilung (SA), a milícia paramilitar nazista, tentavam perturbar o evento e impedir que o escritor falasse.

O contexto e impulso dessa fala do romancista alemão foi o resultado das eleições de setembro daquele ano, quando o Partido Nazista (NSDAP) conquistou 18,3% dos votos, sendo o segundo mais votado, atrás do Partido Social-Democrata (24,5%) e à frente do Partido Comunista da Alemanha (13,1%).

O escritor tinha naquele momento uma posição de grande autoridade intelectual na República de Weimar, tendo recebido em 1929 o Prêmio Nobel de Literatura. Ele já era o autor dos romances Buddenbrooks (1901) e Der Zauberberg (A Montanha Mágica, 1924).

Longe de ser visto como um autor engajado numa época que via o ativismo potente de Bertolt Brecht (grande desafeto seu) e outros autores, Mann disse em sua palestra que o tempo do “jogo puro” de Friedrich Schiller ou do idealismo estético havia chegado ao fim diante de tais perigos políticos.

Segundo o autor, era importante deter os nazistas, que buscavam de forma efetiva, aos gritos, tornar indissociáveis ideias de nação e sociedade. Ele analisou o contexto político e econômico do momento, sem poupar críticas aos efeitos desastrosos do Tratado de Versalhes sobre a sociedade alemã.

O engajamento de Mann na luta contra o fascismo encontrou também sua face literária em uma novela importante publicada naquele mesmo ano: Mario und der Zauberer. Escrita no ano anterior, chegava no mais propício dos momentos. É seu trabalho mais escancaradamente político.

O narrador descreve como, durante uma viagem à Itália, ele testemunha o poder de hipnose de um mágico chamado Cavaliere Cipolla. Este era capaz de criar com sua fala um clima de opressão em meio ao público que assistia ao seu espetáculo, controlando os espectadores até que um deles, o Mario do título, se revolta e o mata.

O momento era de tensão e angústia entre os espíritos democráticos da época: Josef Stálin consolidara seu poder na União Soviética, Benito Mussolini conclamava os italianos a recuperarem a glória do Império Romano, e o Partido Nazista começava a conquistar uma posição perigosa dentro da República de Weimar. O tempo de rir dos nazistas havia acabado.

Mann parecia decidido a convencer o povo alemão, ou ao menos a parcela que poderia ouvi-lo, de que Adolf Hitler não podia mais ser visto apenas como uma piada de mau gosto – como muitos intelectuais da época reagiram à sua gritaria até que ele chegou ao poder, em 1933, quando já era tarde demais.

Infelizmente, sabemos que naquele momento o apelo à razão de Mann junto a seus compatriotas não foi suficiente. O próprio Beethoven-Saal, onde proferiu sua palestra, foi bombardeado e destruído em 1944.

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Igreja Universal do Roubo do Brasil

Igreja Universal do Roubo do Brasil

Bancada evangélica no Congresso, “bispos” eleitos prefeitos, aliados desde o tráfico à presidência da república, todos trabalhando para fazer do Brasil o primeiro estado teocrático da América do Sul.

Excelente e necessária matéria de Alexandra Lucas Coelho para a Sapo24

satan

1. Satanás está a bombar. De Porto Alegre ao Rio de Janeiro, de São Paulo a Campo Grande, de Brasília a Jundiaí, o capeta é top. No começo era só o verbo, um templo aqui, outro ali, bradando & brandindo o nome do demo. Mas, com a ajuda do dízimo e da infinita dor humana, hoje é o que se vê: ministros neopentecostais, bancada evangélica no Congresso, “bispos” eleitos prefeitos, aliados desde o tráfico à presidência da república, todos trabalhando para fazer do Brasil o primeiro estado teocrático da América do Sul.

Setembro-Outubro de 2017, por exemplo. Lá faz Primavera, pá, E, depois de passarem Agosto a excomungar Chico Buarque por conta das letras do novo disco, os neo-cons brasileiros identificaram mais uma frente de batalha: o museu pedófilo, zoófilo e sabe-se lá que mais. Aliás, atalhando, arte com nus ou sexo em geral. Portanto, são neo-cons com dois milhões de anos de atraso. O que seria um problema só deles se não tivessem cada vez mais poder.

2. Fui morar no Rio de Janeiro há sete anos. Pouco depois, deu-se o “escândalo” das fotografias de Nan Goldin que deveriam ser expostas na Oi Futuro, braço cultural da empresa de telecomunicações Oi. Primeiro, a Oi “descobriu” que havia fotografias de crianças nuas e pediu à curadora que as retirasse. Nan Goldin aceitou, mas depois a empresa pediu que qualquer fotografia com crianças fosse retirada. Nan Goldin sugeriu que pusessem uma tarjeta a dizer “censurado”. A exposição acabou por ser cancelada.

Recém-chegada como era, fiquei perplexa. Uma das principais fotógrafas contemporâneas vetada no Rio. Onde tinha estado o Rio nos últimos 50 anos, para não ir mais longe? Aquele nível de debate estava mesmo a acontecer na capital do fio dental, do show do corpo, do culto das “novinhas”? Sim. Bunda de fora pode, deve, mamilo não. Sim, o Rio de Janeiro — o Brasil — era esse paradoxo da moralidade em que topless podia dar prisão. Tal como mulher que abortava podia ser presa se não morresse. E entretanto estupro seguia sendo mato. E as crianças que obcecavam a classe média, entregues a babás vestidas de branco, as mesmas crianças que tanto tinham de ser defendidas de artistas imorais, podiam morrer nas ruas, e serem chacinadas por milícias, quando eram pobres e negras, o que no Brasil quase sempre coincide. Donde resulta que Satanás deve representar um risco só para crianças brancas, porque as outras já nasceram em risco, mesmo.

3. Sete anos depois, estes “escândalos” já não acontecem apenas com empresas. Passaram a acontecer também com instituições sem fim lucrativo, museus públicos, governantes eleitos. E deixaram de ser bissextos para se tornarem diários. Entre Setembro e Outubro, todos os dias houve notícia do bando de inquisidores a que podemos chamar Igreja Universal do Roubo do Brasil: IURB.

A IURB tende a prosperar num país como o Brasil porque vive da vulnerabilidade alheia, como todos os oportunistas. A desigualdade de origem favorece-a. O descaso do Estado é um combustível para ela. Onde as pessoas estiverem ao deus-dará, ela é pastora, recolhendo o dízimo. Com o projecto de ter um presidente. Tudo o que não lhe interessa, como governante, é que as pessoas se emancipem. Uma arte desafiadora, perturbadora, fora da caixa, será sempre sua inimiga. Alvo permanente.

A sequência de acontecimentos deste último mês — ou deveríamos dizer retrocedimentos — não é um acaso.

4. Primeiro foi o cancelamento em Porto Alegre, sul do Brasil, da exposição “Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que reunia 270 peças de 85 artistas, entre os quais Lygia Clark, Alfredo Volpi ou Cândido Portinari. Inquisidores indignados, liderados por um colectivo intitulado Movimento Brasil Livre (MBL), protestaram contra conteúdos “pedófilos”, “zoófilos”, além do desrespeito a Cristo, e o Santander Cultural encerrou a exposição.

Vale a pena ler o comunicado do Santander para confirmar o nível de auto-ajuda a que se chegou: “Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.” Representação confundida com apologia. Necessidade confundida com propósito. Motivação confundida com efeito. E que raio será a reflexão positiva? E o elevador da condição humana, será hidráulico? Ou terá ascensorista?

Tanto equívoco sobre arte e criação dá preguiça. Começar por onde? Pintura rupestre, a Bíblia, a Lolita do Nabokov, aquela passagem de “Em Busca do Tempo Perdido” sobre incesto homossexual? Proust, Joyce, Sade, só putaria. Os gregos em geral. Pompeia, claro. O Renascimento, cheio de pénis e mamilos. A própria da Capela Sistina. Se dependesse da IURB, não veriam a luz do dia. Nenhuma criança seria exposta ao David de Michelangelo. Sobretudo rapazes. Perante tamanho esplendor ainda dariam em “gays”, e era preciso curá-los.

5. Sim, porque ainda o Brasil não recuperara do caso Santander houve essa decisão nazi da Justiça do Distrito Federal que permite que os gays sejam tratados como doentes. Um juiz liberou a “cura gay”: isto aconteceu em Setembro de 2017. E aconteceu num país em que gays, LGBT em geral, são constantemente atacados, por vezes mortos. Portanto, um juiz veio dar força de lei à intolerância, à discriminação, à violência. Quem xingava e maltratava está mais autorizado para o fazer.

6. Mas não saia do seu lugar, porque segue-se o “escândalo” da performance “La bête”, com um artista inteiramente nu. É verdade, em 2017, quando os woodstockers já estão bem grisalhos ou foram desta para melhor, isso foi notícia no Brasil. E foi notícia porque os zelosos da imoralidade não tiveram dúvidas morais em tornar viral um vídeo que mostra uma mãe com uma filha observando o artista nu, e a criança a tocar-lhe no tornozelo. Horror, pedofilia! Pior, com dinheiro dos contribuintes porque isto se passava numa mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo. O museu ressalvou que havia três avisos sobre nudez, mas inquisidores foram manifestar-se lá, exigindo o encerramento, agredindo funcionários.

E o delírio avançou em dominó. Um ministro veio dizer que aquela cena da performance era crime. Um deputado, inflamado, criou a sua própria versão da performance: “Um marmanjo completamente nu de mãos dadas com três ou quatro crianças fazia uma apresentação cultural. O acto daquele pilantra, que estava nu no museu de artes modernas, não é só um ataque à moral do povo brasileiro, mas é para mexer com o subconsciente dos tarados do Brasil.” Ouvindo isto, outro deputado lembrou ao plenário que o deputado indignado fora flagrado a ver pornografia no telefone em plena votação da reforma política, e se defendera alegando que os amigos lhe mandavam “muita sacanagem”. O primeiro deputado tentou agredir o segundo. Um terceiro evocou com saudade instrumentos de tortura da ditadura, lamentando não poder usá-los no artista da performance. “Se aquele vagabundo fosse fazer aquela exposição (…) ia levar uma ‘taca’ que ele nunca mais iria querer ser artista e nunca mais iria tomar banho pelado.”

7. Como isto é contagioso, em Campo Grande (capital do Mato Grosso do Sul), deputados denunciaram uma exposição por pedofilia e obscenidade. Em Jundiaí (São Paulo), um juiz proibiu uma peça com uma atriz transgénero no papel de Jesus. Em Brasília, um deputado visitou o Museu Nacional Honestimo Guimarães por ter “recebido denúncias de que o local abrigava ‘conteúdo semelhante ao do Santander Cultural”.

Entretanto, no Rio de Janeiro, o Museu de Arte do Rio (MAR) anunciou que receberia a exposição “Queermuseu”, censurada no Santander de Porto Alegre. Mas o prefeito da cidade, Marcelo Crivella — “bispo” da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho do chefão Edir Macedo — produziu um vídeo para anunciar que não, que o Rio não quer uma exposição pedófila e zoófila. E não resistiu a uma pilhéria: “Saiu no jornal que ia ser no MAR. Só se for no fundo do mar. Por que no Museu de Arte do Rio, não.”

Resultado, o conselho que define a programação do MAR deliberara pela vinda da exposição, mas o prefeito deu ordem contrária e o museu é municipal. O MAR já declarou que não receberá a exposição.

8. Perante tudo isto, curadores, pensadores, artistas não ficaram parados, houve abaixo-assinados e outros movimentos. Entre muitos contributos para o debate, pareceram-me essenciais os que contrariam a ideia de uma guerra simétrica, como se duas partes estivessem a tentar impôr-se. Falso. Há uma parte em guerra, impondo cancelamentos e censura, como sistema. Quem não quer ver, não vê, protesta, critica. O que se está a passar no Brasil é outra coisa. É impedir a arte de existir, os outros de acederem a ela. Tudo em nome do bem, e vade retro satanás.

9. Esta semana, em Brasília, uma mãe de 47 anos foi ao cinema com a filha de 20, saíram do filme abraçadas. Um homem insultou-as como casal “gay”, depois bateu na cara da rapariga, a ponto de ela guardar um olho negro. Certamente ambas o provocaram com gestos suspeitos. E no Brasil de 2017, perante suspeita do maligno, um homem não é de ferro.

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Pela independência do Sul!

Pela independência do Sul!

A Catalunha nos inspira e neste sábado tudo vai mudar! A esmagadora vitória que certamente teremos no Plebiscito — pois só nós votaremos no Plebisul 2017 — irá nos separar do horroroso Brasil e iluminará nossas vidas. Serão 103 votantes que nos darão 99% dos votos. Será a maior Consulta Popular da América Portuguesa! Nossa nova moeda será o pila. O nome de nosso país novinho em folha será União Sul-Brasileira, doravante chamado USB. Nossa capital será Lages-SC. Inter, Grêmio e Brasil estarão na Série A. O Juventude na C. O hino do país será “USB é demais”, corruptela da imortal canção de José Fogaça. A data nacional será o 31 de setembro a fim de  representar a utopia que perseguiremos.

Imaginem as maravilhas! Paranaenses e gaúchos invadirão as praias catarinenses a cada verão. Seremos parlamentaristas e faremos nossa eleição proibindo os paranaenses de votarem até deixarem de ser tão conservadores. Neste jovem momento de nossa república, o primeiro-ministro será o atual governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, por ser um sujeito mais apagado que os outros dois governadores, por ter nascido em Lages e já estar adaptado à nova capital. Beto Richa e Zé Ivo Sartori serão deportados sem julgamento através de um conhecido mecanismo chamado Saída USB. O Diário Oficial será o Sul21.

No novo país estaremos livres de corrupção. Não há  conterrâneos nossos envolvidos em corrupção. Quem tenta acabar com a corrupção brasileira? Não é a República de Curitiba? Querem prova maior? Aí está! Os deputados federais e os senadores mais ridículos que temos — gente, por exemplo, como os gaúchos Darcísio Perondi, Osmar Terra e Luis Carlos Heinze, Ana Amélia e Lasier Martins –, assim como todos os políticos de carreira, participarão de nosso Churrasco da Independência no papel de carne.

No novo país procuraremos melhorar paulatinamente o sotaque dos catarinas e faremos com que o pessoal de Floripa finalmente trabalhe. Vamos encher a USB de CTGs. Definidos moeda, capital, sistema de governo, limitações aos paranaenses, Saída USB e local de férias, mostramos agora nossa bandeira, a ser saudada sempre com um espeto sangrando na mão direita.

sul2

Gente, um recado antes do Plebisul 2017: nossa demanda é justa, nossa escolha é democrática e pacífica e nossa causa está calcada firmemente em nossas tradições e história. Afinal de contas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná já existiam antes do Brasil. Temos séculos e séculos de história pré-brasileira. Nossa civilização é distinta. É hora de voltarmos às nossas raízes históricas. E temos uma economia pujante. O atual Rio Grande do Sul será o dínamo da nova economia. Estamos preparados para a nova nação. Será o fim.

Sul

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