O mais laico dos Réquiens, o de Verdi

O mais laico dos Réquiens, o de Verdi

Escrito após o concerto de domingo (13/09/2026) na Casa da Ospa.

Quem viu, viu.

Dos 3 maiores Réquiens — os de Mozart, Brahms e Verdi (sem desejar ofender Fauré, Britten e Ligeti) –, o de Verdi é o de texto mais interessante. Todos também têm uma baita história de como os autores decidiram por escrever um Réquiem, uma melhor que a outra, mas a de Verdi é especial. Não vou contar tudo aqui, só o essencial. O Réquiem é dedicado ao escritor Alessandro Manzoni e, como Manzoni na juventude, o compositor italiano foi ateu e anticlerical em seus anos jovens e maduros. Só quando envelheceu deu uma olhadinha para a igreja. O texto de seu Réquiem fala em Deus, mas, sejamos claros, apesar de belíssimo, é um “Réquiem de Terror”. Ele pede para Deus que a morte não seja o fim. “Oh, Senhor, não permita que a morte seja eterna”. Não há anjinhos, paraísos ou diabos, há medo.

A essência do Réquiem de Verdi é esta: não há uma “narrativa” de anjos e diabos no sentido tradicional que associamos a outras obras sacras ou à imaginação popular. Não tem Deus na porta te recebendo. O que Verdi faz é algo psicológico e humano. Ele transforma o texto litúrgico em um drama de medo, terror e súplica. Isso mesmo: medo, terror e súplica. Parece minha mãe quando entrava num avião.

O Réquiem de Verdi não é bem uma missa, é a ópera da alma humana diante do vazio (ou não). É a fé transformada em drama, o latim católico ganhando a intensidade do palco italiano. Verdi, mestre do conflito, compõe o encontro entre o terror e a esperança, entre o grito e o sussurro (obrigado, INGMAR BERGMAN).

O Dies Irae (Dia da Ira) é o centro da obra: é a sequência mais famosa e aterrorizante. Nele, um cataclisma rasga o céu. Verdi pinta um quadro de juízo final com tímpanos trovejantes, trompetes e coro em uníssono gritando de pavor. Não há diabos com tridentes, há medo.

Diferente, por exemplo, do Fausto ou de certas peças, Verdi não coloca anjos e demônios disputando a alma de cada um da plateia. O drama está todo dentro do ser humano, de ti, que és um pecador que implora por misericórdia, aterrorizado com a possibilidade da condenação…

Ou seja, a súplica é humana. Os momentos de paz não são coros de anjos, mas vozes humanas pedindo descanso, réquiem. Aprendam, crianças: “Réquiem” significa repouso.

O final é muito ambíguo: a obra termina com o Libera Me, que é uma das páginas mais tensas já escritas. A soprano canta “Libera me, Domine” (Livrai-me, Senhor) com uma intensidade que beira o desespero, e o coro responde com um sussurro talvez apavorado. Não há resolução gloriosa — apenas um exausto pedido final.

Escrevi tudo isto para deixar claro que Verdi não escreveu para a igreja: escreveu para nós. E, paradoxalmente, ao humanizar o sagrado, ao secularizar o sacro, toca aquilo que imaginamos como sendo o divino. É música que não consola — perturba. Querem uma frase de efeito? O Réquiem de Verdi é a prova de que o medo da morte pode ser tão belo quanto o amor pela vida.

Agora sobre a execução da Ospa. O coro foi incrível, projetando em alto e bom som para plateia todo o desespero da partitura. Gostei também dos 4 solistas, mas concepção foi o mais importante. Não sei se foi por ter pensado em tudo o que explicitei acima, mas o fato é que tudo foi passado de uma forma muito bela e clara. Manfredo Schmiedt montou tudo — digo “montou” porque este Réquiem é quase uma ópera — com grande musicalidade e olha que a última vez que vi este Réquiem ser tocado na minha frente foi na Filarmônica de Berlim…

Sim, estou eufórico por meu fim de semana terminar com baita música, mesmo que ele só faça dizer memento mori, memento mori, memento mori… Meninos, novamente aprendam, esta expressão latina quer dizer “lembre-se de que você vai morrer”.

E vai, né?

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