O Duelo, de Anton Tchékhov

O Duelo, de Anton Tchékhov

Nesta rara novela de Tchékhov — como todos sabem, ele se dedicava mais aos contos e às peças de teatro –, a gente fica imaginando que outras novelas e romances maravilhosos ele também poderia ter escrito. Aqui, neste O Duelo, a ideologia encontra o abismo humano. O Duelo vai muito além do confronto físico que lhe dá título, transformando-se num palco para algumas das grandes questões existenciais que assombravam a intelligentsia russa do século XIX.

A história se passa numa pequena cidade litorânea do Cáucaso, um microcosmo, onde Tchékhov reúne figuras que representam polos opostos da existência. De um lado, Laiévski, um burocrata de 28 anos, é a personificação do “homem supérfluo” da literatura russa. Trata-se um sujeito que se mudou para o campo com sua amante, Nadiéjda, com sonhos de uma vida simples, mas que se perdeu no jogo, na bebida e na inércia. Vive pedindo dinheiro para todo mundo. De outro, o zoólogo Von Koren, um darwinista social convicto, representa a razão fria e o pragmatismo mais extremo, vendo em Laiévski um ser inferior. Acharia melhor se este fosse eliminado para o bem da evolução da espécie.

Na verdade, há vários “duelos”. Não há apenas o duelo final entre os dois homens, mas também o duelo silencioso entre os amantes que já não sabem se se amam, o duelo ideológico entre o niilismo boêmio e a rigidez científica, o duelo individual entre sonho e realidade, que dilacera o protagonista por dentro e o duelo da própria forma, onde Tchékhov equilibra a concisão do conto com a amplitude do romance .

Von Koren é brilhante e tem razão em muitos dos seus diagnósticos sobre a inépcia de Laiévski, mas seu antídoto para o mal é um autoritarismo que beira o totalitarismo, tratando pessoas como “insetos e nulidades” em nome da humanidade, da evolução e da razão. Já Laiévski é patético e autodestrutivo, mas sua falência é profundamente humana.

Ao contrário do que se poderia esperar, O Duelo não se resolve na violência do combate. O clímax se desvia por um acaso, por uma intervenção casual. A novela termina numa nota de ateísmo, sugerindo que a redenção e a justiça não vêm de grandes gestos ideológicos, mas sim de pequenas correções éticas na vida cotidiana.

Esta é uma obra de realismo psicológico, uma boa análise de humanos em crise e um comentário atemporal sobre o perigo de se transformar pessoas em meros objetos de uma teoria. Para fãs de Tolstói, Dostoiévski ou Turguêniev, O Duelo é uma leitura essencial que, como bem disse um amigo aqui da livraria, nos lembra que, na maioria das vezes, “os duelos fazem parte da maneira como enxergamos o mundo”.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Como ser legal, de Nick Hornby

Como ser legal, de Nick Hornby

A médica Kate Carr divide seus dias entre o trabalho, os dois filhos pequenos, as contas a pagar e um amante sem graça, enquanto o marido cuida da casa e das crianças. O “trabalho” do marido resume-se a escrever uma coluna no jornal local do bairro de Holloway, Londres. São crônicas sobre como ele detesta tudo, principalmente as pessoas. Também escreve um livro, daqueles que jamais virão à luz. O título de sua coluna? Ora, O homem mais mal-humorado de Holloway. E ela, Katie, resolve se separar. Afinal, a relação com o marido dá-se através de sarcasmos dos quais ela é a maior vítima. OK, o sexo funciona, já o resto… Porém, após o anúncio da separação, David, o marido, decide mudar, transmutando-se num estranho gênero de boa pessoa.

A primeira parte de Como ser legal é realmente muito boa. Katie conta sua história demonstrando discreta raiva, além de boas doses de aversão ao marido e ao amante. Ela também tem perfeito senso do vaudeville onde está metida, mas com uma ponta de desespero real. Uma bela construção de Hornby.

Mas aí aparece BoasNovas, um curandeiro magricela e filósofo dotado de um discurso irritante de terapias alternativas. Ele cura David, o marido, de suas antigas dores nas costas. Mas faz mais: tira do coração de David a herança de anos de cinismo e a substitui por um amor inquestionável e abrangente à humanidade. A metamorfose, manipulada habilmente por Hornby, obriga Katie a questionar o que desejava. O novo David é tudo o que ela acreditava que queria que ele fosse: gentil, aberto, amoroso. Só que, infelizmente, ele também quer escrever livros de auto-ajuda, convence seus filhos a dar seus brinquedos a órfãos e, o pior de tudo, quer que BoasNovas more com eles. O tal BoasNovas é um baita chato que quer salva o mundo alterando as posturas pessoais da gente do bairro. A mudança tem que começar por algum lugar.

Enquanto tudo isso acontece, Katie é forçada a pensar na tolerância e sacrifício que está preparada para fazer a fim de melhorar a vida mundial ou a de seu bairro. Por exemplo, David e BoasNovas bolam um modo de incentivar toda a rua a levar um sem-teto para aqueles quartos que não são habitados de suas casas. Também fazem planos para erradicar a dívida mundial na mesa da cozinha e, em uma inversão, Katie se vê no papel de escarnecedora e cínica.

Quando as coisas começam a não funcionar, o livro cai muito. Assim, a história termina de maneira insatisfatória, oscilando entre a comédia social e os entediantes compromissos de fé e amor de David e BoasNovas. Hornby parece perder o rumo. Ou talvez as perguntas que este livro se faz sejam grandes demais para o autor e para a vida que ele descreve.

Hornby: lidando com uma canção maior do que o cantor?

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!