O que podemos saber, de Ian McEwan

O que podemos saber, de Ian McEwan

McEwan é um autor especialmente bom para resenhas que não contem demais do enredo, porque o que torna seus livros fascinantes — com as exceções de A Barata e Solar, livros que detestei — é justamente a forma como ele vai deslocando, aos poucos, aquilo que pensamos saber sobre as pessoas, o passado e até sobre nós mesmos. Há escritores que contam histórias para nos fazer esquecer o mundo, McEwan faz o contrário: conta histórias para nos lembrar que de como é estranho, frágil e misterioso o que julgamos conhecer.

Em O que podemos saber, McEwan parte de uma pergunta que parece simples, mas que logo se torna importante e abissal: o que, afinal, podemos saber sobre uma pessoa que já viveu, sobre um tempo que já passou, sobre uma vida que não é a nossa? O romance se constrói nesse espaço entre memória e imaginação, entre aquilo que os documentos preservam e aquilo que inevitavelmente se perde. E é justamente aí que a literatura aparece — não como uma máquina de recuperar o passado, mas como um modo delicado e inteligente de conversar com aquilo que desapareceu.

Por falar em inteligência, McEwan tem uma bem particular. Ele é mestre em transformar grandes questões em experiências íntimas. O futuro, a memória, o amor, a morte, a passagem do tempo e a nossa relação com as gerações que virão não aparecem como temas filosóficos. Ganham corpo em personagens, desejos, segredos e descobertas. O resultado é um romance que pensa sem jamais deixar de contar uma história.

Neste livro, há também uma espécie de melancolia muito bonita. Não apenas a melancolia diante do que já aconteceu, mas diante daquilo que não poderá mais ser conhecido. Toda vida humana contém zonas inacessíveis. Pessoas que amamos guardam pensamentos que nunca nos revelaram. Acontecimentos importantes são esquecidos ou varridos minuciosamente para baixo do tapete, sentimentos mudam de significado com o passar dos anos. Mesmo quando temos documentos, fotografias, cartas e testemunhos, nunca possuímos inteiramente uma existência.

A história desenrola-se em dois tempos. Em 2119, o mundo foi devastado por alterações climáticas e guerras nucleares que reduziram a população global à metade, afundaram boa parte da Inglaterra (transformado num arquipélago) e tornaram a Nigéria a grande potência. Neste cenário, Thomas Metcalfe, um professor de literatura, dedica-se a estudar o período de 1990 a 2030, uma época que ele chama de “era de ouro”, de abundância e liberdade. E de irresponsabilidade, claro.

A sua obsessão é um poema perdido: Uma Coroa para Vivien, escrito em 2014 pelo poeta Francis Blundy para a sua esposa e lido uma única vez durante um jantar de aniversário e nunca mais encontrado. O poema, uma complexa sequência de 15 sonetos, tornou-se uma lenda, envolto em mistério e especulação. Tom, juntamente com a sua companheira e colega Rose, vasculha os registros digitais do século XXI — e-mails, mensagens, blogs — na esperança de encontrar uma pista que o leve ao poema perdido.

A primeira metade do livro é narrada por Tom, que nos guia pela sua desajeitada investigação a um passado que só conhece através de arquivos. McEwan utiliza esta estrutura para nos fazer olhar para o nosso presente com olhos de estranhamento: o nosso excesso de informação, as nossas redes sociais, as nossas certezas científicas e as nossas estupidezes cotidianas são dissecados com uma curiosa distância crítica que nos faz rir.

A segunda metade, porém, reserva uma reviravolta típica de McEwan (que lembra a estrutura de Reparação). A narradora passa a ser Vivien, a esposa do poeta, que revela uma teia de segredos, amores proibidos e um crime brutal que nenhum arquivo digital poderia conter. É aqui que o romance atinge a sua maior profundidade: o que podemos saber, mesmo com acesso a toda a informação do mundo, é apenas uma fração do que realmente aconteceu. O título, que parece uma pergunta, revela-se uma afirmação melancólica: aquilo que podemos saber é limitado, fragmentado e sujeito à interpretação.

A escrita de McEwan é, como sempre, precisa e elegante. Ele constrói um futuro distópico que funciona como um espelho do nosso presente, refletindo as nossas ansiedades sobre as alterações climáticas, as guerras e o colapso da ordem global. Contudo, o autor não fica preso pelo gênero apocalíptico, que é apenas pano de fundo. A história que é, essencialmente, sobre o amor, a memória e a traição.

A beleza do romance está na forma como McEwan, de 78 anos, transforma a busca por um poema num veículo para questões universais. O que fica de nós quando morremos? O que sobrevive para além dos “likes”? Como é que o futuro nos julgará? O que podemos saber também é um romance sobre a distância. A distância entre uma pessoa e outra, entre o presente e o passado, entre aquilo que aconteceu e aquilo que conseguimos contar sobre o que aconteceu. Mas é também um livro sobre o esforço humano de atravessar essas distâncias.

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