Anotações para um debate sobre “Grande Sertão: Veredas”

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Riobaldo ama Diadorim desde o primeiro encontro, ainda na adolescência, quando atravessam juntos o rio São Francisco. Mas esse amor aparece para ele como algo perturbador, porque Riobaldo acredita estar apaixonado por um homem. E isso o perturba profundamente.

O romance inteiro é atravessado por essa tensão de amizade e desejo, admiração e medo, intimidade e repressão.

Riobaldo tenta nomear o sentimento de muitas formas: companheirismo, afeição, pacto de armas, encanto,
destino. Mas nunca consegue eliminá-lo.

E o extraordinário é que Guimarães Rosa não trata isso de forma psicológica ou militante. O amor entre os dois aparece como algo maior, quase metafísico — um amor que ameaça as categorias fixas do sertão, da masculinidade e até da identidade.

Diadorim, por sua vez, vive outra condição, talvez mais trágica: precisa existir socialmente como homem, carrega um segredo e transforma a própria vida numa missão de vingança.

E Riobaldo sente isso o tempo inteiro, mesmo sem compreender completamente, pois está numa confusão fraterna, erótica e mística, às vezes tudo ao mesmo tempo.

Por isso tanta gente diz que o romance não é apenas sobre jagunços ou sobre o diabo — mas sobre o mistério do desejo.

E o final reorganiza retrospectivamente toda a narrativa. Quando a identidade de Diadorim é revelada, não “resolve” o amor de Riobaldo; pelo contrário: torna tudo ainda mais doloroso. Porque percebemos que ele amou autenticamente antes de qualquer explicação possível.

Talvez uma das grandezas do livro esteja justamente aí: Rosa mostra que o amor verdadeiro frequentemente antecede os nomes que tentamos lhe dar.

Então Riobaldo era um mestre do sertão, um revolucionário por ser dono de uma linguagem do povo que ensina um doutor?

Sim — essa é uma leitura muito forte e bastante defensável de Riobaldo.

Ele não é “professor” institucionalmente, mas se torna uma espécie de mestre do sertão, alguém que assume a palavra e desloca a hierarquia tradicional entre cultura erudita e cultura popular.

Em Grande Sertão: Veredas, há um dado decisivo: Riobaldo narra para um “doutor” da cidade — um homem culto, silencioso, representante do saber oficial. Só que quem domina a narrativa é o jagunço. O doutor escuta; Riobaldo interpreta o mundo.

Isso é profundamente revolucionário.

Porque João Guimarães Rosa faz algo raro: ele não “traduz” o sertão para a linguagem culta. Ao contrário — ele obriga a língua culta a entrar no sertão e a se transformar.

Riobaldo:

inventa palavras;
desmonta sintaxes;
mistura oralidade, filosofia, religião e poesia;
cria pensamento através da fala.

Ou seja: ele não é apenas um personagem que fala “como o povo”. Ele é alguém que produz conhecimento numa linguagem própria.

E isso altera a relação tradicional entre:

letrado e iletrado;
centro e periferia;
doutor e homem comum.

Há momentos em que Riobaldo parece um:

filósofo popular,
teólogo intuitivo,
poeta oral,
metafísico sertanejo.

Quando ele pergunta:

“O diabo existe?”

não está fazendo folclore — está fazendo ontologia.

E talvez a grande ousadia de Rosa seja justamente esta: mostrar que o pensamento profundo não pertence exclusivamente à universidade, à cidade ou à linguagem acadêmica.

O sertão pensa.

E pensa numa língua própria.

Por isso Riobaldo pode ser visto, sim, como uma figura revolucionária — não porque faça uma revolução política organizada, mas porque sua fala implode hierarquias culturais. O homem tido como “rude” se revela portador de uma visão do mundo extraordinariamente sofisticada.

Talvez por isso o romance continue tão vivo: ele nos obriga a rever quem tem autoridade para pensar e para dizer o mundo.

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