A versão de Andris Nelsons que inaugura seu ciclo das gravações das Sinfonias de Mahler com a Filarmônica de Viena é muito digna de nota. É uma abordagem recomendada para ouvintes que valorizam interpretações ousadas, intelectualmente elaboradas e tecnicamente impecáveis — mesmo que isso venha às custas de um certo calor visceral. Não é recomendada para puristas que desejam uma Quinta Sinfonia tradicional, com um Adagietto romântico e uma narrativa dramática mais linear. Mahler linear? Ficaram loucos? A Quinta Sinfonia de Mahler é uma das obras mais monumentais e difíceis do repertório sinfônico — uma jornada de quase 80 minutos que parte da escuridão de uma marcha fúnebre e avança, através de tormentas e danças, rumo a um finale radiante. O problema é que Mahler não facilita: cada intérprete precisa decidir como contar essa história.
A sinfonia abre com a famosa fanfarra do trompete solo — um chamado que anuncia a Trauermarsch (marcha fúnebre). Nelsons conduz este movimento insistindo na solenidade do ritual fúnebre, sem pressa. O segundo movimento é uma explosão de fúria que contrasta com a marcha inicial. Aqui, Nelsons demonstra domínio da orquestração mahleriana — os metais soam poderosos e o diálogo entre seções é cuidadosamente esculpido. Uma joia. O terceiro movimento, um Scherzo vienense gigantesco para orquestra (com destaque para as trompas), é frequentemente um ponto polêmico. Mahler exige uma Viena dançante e vertiginosa — mas também um senso de estrutura para sustentar mais de quinze minutos de música. Nelsons inicia com leveza e alegria de viver, mas acho que essa energia se dissipa ao longo do movimento. Ou não? O famoso Adagietto para cordas e harpa é, para muitos, a alma da sinfonia — uma declaração de amor a Alma Mahler. Nelsons, porém, recusa uma leitura romântica. Ele o apresenta não como uma canção de amor, porém mais como uma tranquila meditação. Seu tempo é lento (cerca de dez minutos) e o tom é profundo e comovente, realçando a fragilidade e a introspecção. O Rondo-Finale é uma explosão de energia, com citações de temas anteriores que precisam soar como uma espécie de vitória. Nelsons conduz este movimento com “alegria e vivacidade”, e os últimos acordes são retumbantes.
Como considero Mahler um romântico tardio, herdeiro da tradição germânica, expressão extrema e obsessão pelos temas da morte e da transcendência, talvez Nelsons seja meio traidor, mas acho que não muito. Está tudo lá, só que sem derramamentos desnecessários.
P.S. — Para mim, esta sinfonia está muito associada ao covid. Em fevereiro de 2020, em nossa última viagem internacional, eu e Elena estávamos em Roma e vimos o último concerto na Academia Nacional de Santa Cecília antes de fechar em razão da pandemia. O grande Daniele Gatti foi o regente (regeu de cor). As primeiras máscaras já apareciam. Quando chegamos em Porto Alegre, ninguém usava ainda.
