Boa tarde a todas e a todos.
Há comparações literárias que parecem artificiais e há outras que, de tão sugestivas, acabam se impondo. James Joyce e Guimarães Rosa pertencem a mundos muito diferentes: um escreveu sobre Dublin, o outro sobre o sertão; um em inglês, o outro em português; um nasceu na Irlanda, o outro em Minas Gerais. (Aliás, Rosa nasceu em 1908 — enquanto Machado de Assis morria, ele nascia). Porém, voltando a nosso tema, leitores atentos têm frequentemente a sensação de que eles estão dialogando de alguma forma.
Ambos reinventaram a língua. Ambos seguiram a lição de Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Transformaram territórios locais em universos humanos.
Mas até que ponto essa aproximação é legítima? O que eles realmente têm em comum? E onde terminam as semelhanças e começam as diferenças?
Ah, tenho que apresentar a banda, a cervejaria, o escambau?
Eu sou Milton Ribeiro, livreiro, escritor e jornalista. Como jornalista, preparei várias perguntas para torturar nosso trio convidado.
Abertura: a comparação faz sentido?
- James Joyce e Guimarães Rosa tem realmente pontos em comum ou isto é apenas um clichê crítico?
- O que se ganha — e o que se perde — ao chamar GR de “Joyce brasileiro”?
- Se tivéssemos que apresentar GR a um leitor de Joyce, o que diríamos? E o contrário, apresentando Joyce a um leitor de GR?
A língua como invenção
- Em que medida Joyce e Rosa ampliaram os limites de suas respectivas línguas?
- Há uma diferença essencial entre os neologismos de Joyce e os de Rosa?
- Os dois reinventam a língua pelo mesmo motivo?
- O que acontece com a experiência do leitor quando a linguagem deixa de ser transparente — mero meio de referir-se a algo — e passa a chamar atenção para si mesma?
- Joyce e Rosa tornam a leitura mais difícil ou mais rica?
- É possível traduzir adequadamente escritores que reinventam a própria língua?
Universalizar o local
- Como Dublin e o sertão conseguem se tornar universais?
- Por que escritores tão profundamente regionais acabam alcançando leitores do mundo inteiro?
- O sertão de Rosa desempenha papel semelhante ao de Dublin em Joyce?
- Onde nasce a universalidade de ambos?
- Há algo especificamente irlandês e especificamente brasileiro que se perde quando falamos do aspecto universal dessas obras?
A erudição ocultya sob a oralidade
- Como explicar a convivência entre alta erudição e fala popular nos dois autores?
- Até que ponto o leitor precisa conhecer as referências culturais para apreciar suas obras?
- Como GR e Joyce usam sua erudição? Como a transformam em matéria narrativa?
- A oralidade funciona como máscara para uma construção extremamente sofisticada?
- O que aproxima um narrador sertanejo de Rosa de um narrador popular de Joyce?
- Quem é o interlocutor de Riobaldo? O próprio Rosa? Uma pessoa urbana e instruída? Um juiz? O leitor?
Os heróis errantes (ou anti-heróis)
- O que aproxima Riobaldo e Leopold Bloom?
- Podemos chamá-los de heróis ou já pertencem a uma tradição antiheroica?
- Em ambos os casos, a viagem é mais interior do que exterior?
- Como Joyce e Rosa transformam experiências aparentemente comuns em epopeias?
- Em que sentido Bloom e Riobaldo representam o homem moderno?
A ambição de reinventar o romance
- Joyce e Rosa mudaram o romance ou apenas levaram tendências já existentes ao limite?
- O que havia de radicalmente novo em Ulysses e em Grande Sertão: Veredas?
- Quais escritores contemporâneos ainda dialogam com essas experiências?
- A ambição formal desses autores aproximou ou afastou (assustou) leitores?
A musicalidade
- Como a música opera na prosa de Joyce e Rosa?
- A musicalidade é apenas uma questão de sonoridade ou também de estrutura?
- Há passagens que deveriam ser lidas em voz alta para serem plenamente apreciadas? (Quando comecei a ler Rosa, senti necessidade de falar o que lia).
- Que papel desempenham ritmo, repetição e variação em suas obras?
- É possível aproximar certas páginas de Rosa e Joyce de formas musicais específicas?
- O ouvido do escritor é tão importante quanto sua imaginação verbal?
Dizendo o indizível
- Que experiências humanas os dois tentam expressar que parecem escapar à linguagem comum? Que seriam impossíveis de dizer usando formar convencionais.
- O mistério ocupa lugar semelhante em Joyce e Rosa?
- Em que medida ambos são escritores metafísicos?
- O que significa afirmar que certos trechos de Joyce e Rosa devem ser sentidos antes de serem compreendidos?
Perguntas finais
- Se Joyce pudesse ler Grande Sertão: Veredas, o que provavelmente reconheceria como familiar?
- Se Rosa pudesse comentar Ulysses, o que mais o impressionaria?
- Qual é a maior diferença entre os dois autores?
- Afinal, o que explica que dois escritores separados por oceanos, línguas e culturas tenham produzido obras que parecem conversar tão intensamente?
- Talvez que a melhor pergunta seja esta:
“Joyce e Rosa reinventaram a língua porque eram gênios da linguagem ou porque havia certas experiências humanas que só poderiam ser alcançadas mediante a reinvenção da língua?”
Ela atravessa praticamente todos os temas e tende a gerar respostas muito diferentes, acho eu.
Coisas que lembrei agora (para pesquisar)
— GR leu Ulysses? Sabe-se o que ele pensava sobre Joyce?
— O metafísico em Rosa vem através da tentativa de Riobaldo de descobrir se o diabo existe, o que foi Diadorim e quem ele próprio se tornou. Existe o diabo?
O que é o bem? O que é o amor?
— Joyce pega um homem comum comprando rins para o café da manhã, andando pelas ruas, indo a um enterro, pensando na esposa, e o transforma num equivalente moderno de Ulysses. O romance sugere que o épico não desapareceu; ele está escondido dentro da vida comum. O que é uma consciência humana? O que significa existir dentro do tempo?
Riobaldo olha para o cosmos e pergunta pelo mistério.
Bloom olha para uma barra de sabão, para um anúncio de jornal, para um enterro, para uma lembrança qualquer — e Joyce sugere que o mistério está ali também.
Talvez por isso Rosa pareça um metafísico do sertão, enquanto Joyce é um metafísico do cotidiano.
Ai, que saco, pra que complicar, Milton?