O impacto deste livro em Portugal foi imenso. Isto deve-se ao fato de que o texto quebrava o mito de certa versão cor-de-rosa que boa parte da sociedade portuguesa seguia cultivando sobre o período colonial africano. Este teria sido muito mais um auxílio ao continente do que violência e opressão… Mas o livro de Isabela Figueiredo vai adiante de meras observações sociológicas, tratando da traição da autora às opiniões e à memória de seu pai, um colonizador daqueles bem típicos. Na verdade, Isabela sempre foi uma loira-negra, permanecendo solidária ao sofrimento dos negros e identificado-se com sua cultura. Seu pai era excelente como pai e a autora o amava, mas havia o lado B do colonizador que podia agredir funcionários e tinha a opinião de que todo e qualquer negro era incapaz de se organizar e era tolo, mesmo que sua pele tivesse sido salva por um deles, seu vizinho.
A autora sabe do que fala. Nasceu em Lourenço Marques, hoje Maputo, e permaneceu no país até alguns dias depois da descolonização. Na verdade, saiu fugida porque os colonizadores estavam sendo perseguidos. É um livro raro porque há pouca informação sobre a vida real nas colônias, mesmo sob a perspectiva dos retornados. e retornadas. Caderno de Memórias Coloniais (Todavia, 180 págs.) nos conta tudo isso em 51 brilhantes textos escritos na primeira pessoa do singular, sem poupar detalhes. O livro reescreve a história oficial, mostrando desde o racismo do dia a dia — nosso íntimo também no Brasil — até às agressões que sofreram os colonos depois do 25 de Abril.
O testemunho de Isabela nos mostra a diferença de tratamento através dos olhos de uma criança que se retirou do país aos 13 anos, também fala da exploração do trabalho — os “pretos do meu pai” — e o medo colonial que gera e justifica a violência.
Há também o sexo. Os colonos gostavam de transar com as negras e as pagavam na frente de seus maridos, humilhando-os. As mulheres dos colonos “compreendiam” tal atração: afinal, as negras estariam mais perto da natureza, teriam a vagina mais aberta (?), fácil e convidativa… Isso era o que elas diziam.
Porém, além de toda a informação, há a excelente escritora que é Isabela Figueiredo. Sua prosa é de primeira qualidade, ao mesmo tempo clara e lírica. Se fosse um livro comum, ficaria como documento. Seu sucesso de crítica e público deveu-se à linguagem de Isabela, que catalisa sentimentos, impulsiona e dá colorido adequado a tudo que é contado.
Já tivemos Ian McEwan no Fronteiras. Ele comentou um livro seu, Enclausurado, cujo narrador era um feto. Pois o narrador de O Vendedor de Passados é uma lagartixa. E esta conta a história de Félix Ventura, um negro albino que vende passados para quem não gosta do seu. Ou seja, ele prepara e vende árvores genealógicas, criando passados mais amenos e bonitos. Seus clientes são prósperos empresários, políticos e militares que têm assegurados belos futuros em Angola. Todavia, falta-lhes um passado digno. A lagartixa Eulálio vive nas paredes da casa de Félix acompanhando seu trabalho de comerciante. Conta-nos sobre a enorme biblioteca de Félix e dos recortes de jornais e revistas de várias épocas que guarda e consulta. Além disso, ele frequenta lojas de antiguidades e sebos, a fim de buscar inspiração. Afinal, o passado tem de ser plausível, se possível colorido e sedutor. E acaba negociando objetos comprobatórios, pois seu trabalho de “romancista” não vai para as páginas de livros, deve ser real, ou quase.
Um crítico escreveu algo assim: “Li Ao Farol da mesma forma como costumo comer chocolate, pretendendo fazê-lo aos poucos entre outros afazeres, só que logo me deu aquela vontade incontrolável de ler tudo sem parar”. Certamente isso não se deveu a uma trama envolvente, nem a casos românticos para os quais ele precisasse saber do desenlace. E realmente, os livros de Virginia Woolf quase deixam de lado a trama e se fixam nas minúcias humanas, mesmo que a seção central de Ao Farol fale de como uma casa se deteriora. O curioso é que sou um sujeito que pede alguma profundidade dos romances, mas a diluição de VW jamais me incomoda, pois há profundidade de observação — mesmo que seja de coisas secundárias –, assim como qualidade narrativa, clareza estrutural e estupenda criação de personagens.
O livro trata da família Ramsay, casal, oito filhos e agregados em férias. A personagem central é a Sra. Ramsay, uma bela mulher que usa seu charme e trato social para manter a harmonia entre todos. Mas ela parece ser sabotada pelo próprio marido, um homem “do contra” e amargo.
O livro é dividido em 3 capítulos. A janela funciona como uma apresentação dos personagens, temperada pela inteligente e sutil dinâmica de Virginia. Tudo se passa em um só dia na casa de veraneio da família, próxima a um farol que James Ramsay, o filho caçula, deseja muito visitar. Só que a previsão do tempo conspira contra os planos. James alimenta ódio pelo pai, por ele ser tão grosseiro em suas colocações sobre o passeio. O tempo passa, além de mostrar a degradação da casa, revela acontecimentos cruciais na família Ramsay. Já O farol é o momento em que realmente acontece o tão esperado passeio, porém de uma forma muito diferente.
Ao Farol poderia ser um livro denso escrito em insistentes “fluxos de consciência”, mas é leve ao acompanhar o vaivém dos pensamentos, dos medos e vacilações de seus personagens. Estes são mostrados em extrema proximidade no microscópio de Woolf e a compreensão das pessoas é o que vale neste extraordinário romance. Que personagem notável é Lily Briscoe! Que descrições maravilhosas temos do que lhe ocorre enquanto pinta! Não são pensamentos extraordinários ou filosóficos — na verdade, pelo contrário, ela e os outros personagens são intelectuais bastante convencionais, do tipo que se encontra em muitos livros. Pode ser dito que eles não oferecem nada novo, mas um mundo interior muito semelhante ao nosso, com pensamentos completos ou incompletos e livres-associações as mais absurdas.
Excelente tradução de Denise Bottmann para a L&PM.
“Não sei qual deles é melhor: “Os Detetives Selvagens” ou “2666” “, questiona-se Eduardo Brandão, 64, tradutor brasileiro do autor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).
O primeiro livro foi o mais difícil para traduzir. Já o segundo, tomou mais tempo, ou melhor, mais de um ano para finalizar o volume.
Lançado um ano após a morte do autor, “2666” é composto por cinco romances, interligados por duas tramas — a busca por um autor recluso e uma série de assassinatos na fronteira México-EUA. Explicado por que a obra conviveu mais de um ano com Brandão.
Em entrevista à Livraria da Folha, ele descreveu como trabalha na tradução de uma obra, comentou sobre o processo narrativo de Bolaño, “que é mais anti-herói do que qualquer outra coisa”, entre outros aspectos. Com cerca de 140 obras traduzidas para a Companhia das Letras, o carioca começou a se dedicar à tradução de obras literárias e de ciências humanas, a partir da década de 1970.
Chegou a trabalhar como repórter do “Correio da Manhã” entre 1966 e 1968. Hoje, tem apreço especialmente pelas literaturas espanhola e hispano-americana contemporâneas.
Livraria da Folha: Bolaño faz com que o leitor sinta-se, em alguns momentos, agoniado com o desaparecimento dos personagens e surpreso com o retorno deles. No “2666”, vários personagens mal se cruzam nas histórias. Enquanto traduzia, você se sentiu perdido ou surpreso com o retorno de algum deles?
Eduardo Brandão: Não, porque eu já tinha traduzido outros romances dele como “Os Detetives Selvagens” (2006) e ele usa esse mesmo recurso. De certa maneira, ele [Bolaño] reproduz muitas vezes o que acontece na vida da gente. Você cruza com uma pessoa, conversa, conhece, de repente você nunca mais a vê, e talvez ela apareça lá na frente novamente em outras circunstâncias. Desse ponto de vista, o procedimento narrativo do personagem que vai, some e nunca mais volta a aparecer, é bem calcado na nossa realidade.
Livraria da Folha: O “2666” assemelha-se a uma matriuska –a cada “abrir” de histórias, outras aparentemente menores saltam à vista. Qual história do livro mais lhe impressionou?
Brandão: O que mais me chocou foram as histórias dos crimes no México, onde ele [Bolaño] faz uma espécie de “romance-reportagem”. Achava que era invenção, depois descobri que aquilo é pura verdade e continua existindo. Saiu outro dia no jornal.
Livraria da Folha: Você levou quanto tempo para traduzir o “2666”?
Brandão: Levei ao todo mais de um ano, mas houve algumas interrupções para fazer outras coisas não tão grandes. Não lembro exatamente quando comecei. Entreguei no começo do ano.
Livraria da Folha: A próxima tradução que você fará do Bolaño será a do “O Terceiro Reich”? Quando será lançado pela Companhia?
Brandão: Já traduzi. Vai ser lançado no ano que vem, mas não tenho certeza da programação.
Livraria da Folha: Como é seu ritmo de trabalho durante uma tradução? Você dedica quantas horas por dia? Tem uma disciplina, digamos assim?
Brandão: Sim, começo por volta das 10h e acabo lá pelas 23h30. De trabalho, deve dar umas 8h, contando as interrupções.
Brandão: O mais difícil de todos foi “Os Detetives Selvagens”.
Livraria da Folha: Por que?
Brandão: Porque são várias narrativas, há mais de cem narradores. Isso é mais complicado, porque ele consegue dar a cada um deles uma fala própria. Você tem que tentar reproduzir o jeito daquelas pessoas falarem. O mais complicado deles foi o Amadeu, um velho que queria bancar um jovem. Ele usa umas gírias jovens, mas bem defasadas. O jeito de falar dele, empolado, informal, criou um estilo.
Livraria da Folha: Você traduziu 140 obras para a Companhia das Letras. De literatura infantojuvenil à livros de história e filosofia. Qual tradução foi a mais complicada de ser realizada e por que?
Brandão: Os infantojuvenis me distraem mais. Foi “Os Detetives Selvagens” mesmo, inclusive pelo uso dos “mexicanismos”.
Livraria da Folha: Você recorreu a dicionários?
Brandão: Eu tive uma sorte danada com esse livro, porque acabei encontrando uma pessoa que me ajudou. Mandei um e-mail para essa moça. Ela conheceu o Bolaño lá no México e era da região onde passava boa parte das histórias do livro. Aquelas gírias “barra-pesada” que tinha ali [livro] só com ela mesmo.
Livraria da Folha: Cada parte do romance pode ser lida de forma independente. Você concorda com Bolaño ao defender que a obra fosse publicada em cinco volumes?
Brandão: Um volume foi a decisão mais sensata, inclusive foi a da viúva. Ele fez aquilo com uma preocupação não literária, vamos dizer assim, preocupado com os filhos e com a mulher. Apesar de ter histórias meio soltas, nenhuma é solta ali. Elas têm um ponto de contato.
Livraria da Folha: Na trama de “2666”, Archimboldi morreu em 2003. Em parte, ele mimetiza o que foi o século 20 e o que seria o 21. Na sua opinião, qual dos dois séculos ou nenhum deles o livro representa?
Brandão: Acho que ele está mais com o pé no 21, principalmente por toda essa questão do narcotráfico. Claro que isso já existia no século 20, de certa forma ele [Bolaño] anteviu.
Livraria da Folha: Bolaño gosta de adotar em seus romances heróis fracassados pela própria realidade na qual sobrevivem ou simplesmente anular a existência deles. Você acredita que a narrativa de Bolaño faz as vezes de herói de seus personagens e até do próprio escritor?
Brandão: Herói não, propriamente, é mais anti-herói do que qualquer outra coisa. A narrativa dele surge de uma maneira tão espontânea. Existe ali uma catarse.
Livraria da Folha: As histórias não se fecham, são deixadas no ar. Se pudesse escolher uma delas para finalizar, qual seria e por que?
Brandão: Eu não concluiria, adorei o livro assim.
Livraria da Folha: Você conhecia o Bolaño antes de traduzi-lo?
Brandão: Confesso que nunca tinha ouvido falar. O primeiro que traduzi foi “Noturno do Chile”, que achei meio estranho. Depois peguei “Os Detetives Selvagens”, adorei e virei bolañista. Quando traduzi “Os Detetives Selvagens”, não existia ainda a “bolañomania”. Agora está começando a sair um monte de coisa [refere-se às cartas e manuscritos que serão publicados], embora ele fosse reservado sobre sua vida.
A Gorda, da portuguesa Isabela Figueiredo, é uma bela sátira a respeito da auto-imagem e do preconceito. Maria Luísa, a protagonista deste romance tão engraçado quanto cruel, é uma moça inteligente, boa aluna, voluntariosa e dona de uma forte personalidade. Porém, é gorda. Essa característica física a incomoda de tal maneira que parece colocar todo o resto em xeque: sua relação com o mundo, sua vida sentimental, suas posturas. Adolescente, sofre e aguenta em resignado silêncio as piadas e insultos de companheiros de escola. Adulta, bem, não vamos contar o livro, mas garantimos que muito bom, divertido e aberto. Escancarado, na verdade. Difícil não gostar dele.
A Gorda conta, na primeira pessoa do singular, a história de Maria Luísa, uma mulher que engorda na adolescência e assim chega à maturidade. Quando não suporta mais — física e moralmente — seu peso, parte para a cirurgia de redução do estômago. Pelas fotos da autora, podemos dizer que é quase certo que a história tenha alto teor autobiográfico. “Todas as personagens e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade.” É claro que Maria sofre humilhações na escola, cansaço e desgostos de amor – o namorado que a adora começa a mostrar-se envergonhado quando é visto com ela em público… Porém, narradas em estilo cru e direto, inteligente e poético, as desventuras da Maria que não se dobra facilmente não são uma leitura especialmente pesada, deprimente ou mesmo triste. Ela é tão viva, mulher e sagaz quanto a suas motivações que não dá para ter muita pena da gorda.
“Quarenta quilos é muito peso. Foram os que perdi após a gastrectomia: era um segundo corpo que transportava comigo.” Quando Maria faz a operação, sua vida muda, mas não pensem que este é um romance apenas sobre uma pessoa que engorda, sofre, retira parte o estômago e fica feliz.
A vida de Maria Luísa é esmiuçada com a crueza que anunciamos acima e esta não é uma desgraça apesar da profissão de professora, mesmo sendo filha única, mesmo confinada a um corpo que a isola socialmente, mesmo sendo uma parábola da solidão. Suas descrições da fome — sexual e alimentar — são arrebatadoras.
A figura materna é muito importante, assim como o passado colonial (Moçambique) de seus pais. “Gosto dela. Não a suporto. Quando morrer, não me resta mais ninguém. Nunca mais morre. Não morras.” A mãe também atrapalha a sensualidade de Maria, trazendo a repressão e o passado colonial para dentro da casa portuguesa. Ou seja, não é um romance que se foque apenas na questão do peso, mas no contexto social de Maria.
Destaco igualmente a prosa de Isabela Figueiredo, que usa o palavrão de forma explícita sem jamais perder a qualidade de seu texto.
Odisseu, rei de Ítaca, casado com Penélope, depois de ter se distinguido durante dez anos na guerra contra Troia, está voltando para casa, passando por uma série de aventuras e provações, ficando muitas vezes à mercê de feiticeiros, monstros e deuses vingativos. Penélope o aguarda fielmente, embora assediada por pretendentes – sempre tão gentis, como diria Chico Buarque — que aguardam no banco de reservas, ansiosos por entrarem em campo no lugar do marido desaparecido. Em super resumo, estas são as aventuras do herói Odisseu em sua volta à pátria.
James Joyce em Paris com sua editora Sylvia Beach.
Pois então abrimos o Ulysses de Joyce e vemos a paródia da Odisseia de Homero. A Penélope de Joyce, Molly, não é nada fiel. Bloom é um Ulisses nada heróico, é antes um judeu irlandês de vida comum, que sabe das traições de Molly e Blazes Boylan, mas não pretende lavar a honra com sangue.
Assassinato nunca, visto que dois erros não tornam um certo.
O livro, aliás, não possui situações extremas e apenas se atém a um imenso leque de experiências cotidianas.
Um trecho de Ulysses (Cap. 17, Ítaca):
Cada um que entra na cama imagina ser o primeiro a entrar enquanto que é sempre o último termo de uma série precedente mesmo que seja o primeiro de uma outra subsequente, cada um imaginando ser primeiro, último, único e só, enquanto que não é nem primeiro nem último nem único nem só.
Boa parte do enredo de Ulysses gira em torno do casal Molly e Leopold e de sua inaptidão para sentir prazer físico e emocional um com o outro. Seja através da narração onisciente, seja por monólogos interiores, o texto documenta minuciosamente abordagens sexuais inteiramente diversas de tentativas românticas do casal. E estas ocorrem sempre SEPARADAMENTE. Durante o curso do dia, Molly comete adultério com Blazes Boylan, enquanto Bloom envolve-se com práticas sexuais voyeuristas e masturbatórias. Mesmo que Bloom participe ativamente destes encontros, é curioso como Joyce obtém mantê-lo longe do estereótipo do fauno sedento por sexo e prazer. Bloom é o anti-herói, o low profile, o personagem simpático, agradável, amistoso e apagado. Mesmo o erotismo evidente de certas participações de Bloom, acaba diluído em gentileza e bonomia. Ele é mais pai e marido, possuidor de qualidades maternas, pacifistas, até femininas.
Ulysses é um texto que procura minar as noções de gênero. O romance não promove a superioridade masculina, mas sim eleva as mulheres e a feminilidade. Não só Joyce inverte a hierarquia social predominantemente masculina, como confunde a noção de gênero com a criação de um casal formado por um homem delicado e feminino e uma mulher decidida. Nesta combinação, o casal Molly e Leopold, está fora dos estereótipos da virada do século XIX para o XX, que definem a masculinidade como agressiva e dominadora e a feminilidade como passiva e reservada.
Salman Rushdie escreveu em seu ensaio The Short Story: “É muito comum que o que é pornográfico para uma geração, seja clássico para a seguinte”. A frase parece perfeita para Ulysses: enquanto a censura do início do século XX considerava o texto imoral e inadequado, ele agora oferece para nós um quadro riquíssimo para a exploração e análise da sexualidade de personagens extremamente bem construídos, sendo que um deles era “o homem comum”.
Bloom comporta-se estranhamente para um homem da virada do século. Arruma a cama, limpa o lençol, tem sentimentos de empatia para com a mulher grávida, preocupa-se com a filha, morre de saudades do filho morto, têm fantasias de que está grávido. Mais: Bloom sente-se inconformado e invejoso pela centralidade da mulher no processo dar à luz. Seis semanas antes de seu filho Rudy nascer, é visto comprando uma lata de alimento infantil, o que prova para seus amigos que ele não é bem um homem. Pior: dizem que ele, uma vez por mês, fica com dor de cabeça “como uma franguinha menstruada”. Também, como talvez uma mulher o fizesse, ele evita que Gerty o veja de perfil, quer que ela veja seu melhor ângulo. Depois, Gerty faz o mesmo.
Bloom não deseja impedir o adultério de Molly com Blazes Boylan. Ele chega a imaginar uma cena na qual entrega sua esposa a Boylan. Essencialmente, ele permite a infidelidade da esposa para que ela possa experimentar o prazer enquanto ele procura a sua própria e particular satisfação.
Em seu ensaio prévio à última edição do Ulysses, Declan Kiberd afirma que, na verdade, Bloom e sua esposa comportam-se como verdadeiros andróginos. Eles seriam “encarnações das palavras de Freud de que mulheres dominadoras e viris são atraídas e atraentes para os homens femininos”. A sensibilidade associada à feminilidade e a agressividade associada à masculinidade não funcionam para o casal. No entanto, as qualidades femininas de Bloom e as dominadoras de Molly não garantem uma vida sexual em comum e a impressão que fica é de uma incompatibilidade confortável para ambos. Antes do famoso monólogo de Molly, Bloom recapitula o primeiro encontro sexual com a mulher, em consonância com que já sabíamos: “Ela me beijou. Fui beijado. Estava à sua mercê e ela arrumou meu cabelo. Beijado. Ela me beijou.” (A simbologia adquire mais força quando ele recorda que Molly, em seu primeiro encontro, mastigou um pedaço de bolo e, beijando-o, colocou-o quente e mastigado em sua boca).
Ulysses borra a distinção entre os sexos. No episódio “Penélope”, o famoso monólogo de Molly, o leitor entra nos pensamentos dela na cama ao lado de Bloom, que dorme ao final do dia. O monólogo revela a promiscuidade de Molly, suas lembranças de relacionamentos anteriores e memórias de família. Quando lembra da amamentação da filha, ela recorda que algumas vezes amamentou simultaneamente também a Bloom: “Eu pedi para ele chupar meus seios, ele disse que o que saía era doce e mais espesso do que o das vacas”. Enquanto muitos acharam e ainda acham isso o cúmulo da pornografia, talvez seja melhor relacionar a cena à sugestão de que a mulher pode ser a provedora familiar ou que pode rebaixar o homem a uma posição infantil.
Porém, em qualquer hipótese, o texto de Joyce afunda e afunda a masculinidade.
Como o capitalismo contemporâneo cria sem cessar ocupações inúteis, enquanto remunera muito mal as mais necessárias. Quais as alternativas? Garantia de trabalho? Ou Renda Cidadã Universal?
David Graeber, entrevistado por Eric Allen Been, na Vice| Tradução: Antonio Martins
Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, no final do século 20, países como os Estados Unidos teriam – ou deveriam ter – jornadas de trabalho de 15 horas semanais. Por que? Em grande medida, a tecnologia tiraria de nossas mãos tarefas sem sentido. Claro, isso nunca ocorreu. Ao contrário, muitíssimas pessoas, em todo o mundo, estão submetidas a longas jornadas como advogados corporativos, consultores, operadores de telemarketing e outras ocupações.
Mas enquanto muitos de nós julgamos nossos trabalhos muito aborrecidos, algumas ocupações não fazem sentido algum, segundo o escritor anarquista David Graeber. Em seu novo livro, “Bullshit Jobs: A Theory” [“Trabalhos de Merda: Uma Teoria”], o autor argumenta que os seres humanos consomem suas vidas, muito frequentemente, em atividades assalariadas inúteis. Graeber, que nasceu nos EUA e que já havia escrito, entre outras obras, Dívida: Os Primeiros 5000 anos e The Utopia of Rules [ainda sem edição em português] é professor de Antropologia na London School of Economics e uma das vozes mais conhecidas do movimento Occupy Wall Street (atribui-se a ele a frase “Somos os 99%”).
A “Vice” encontrou-se há pouco com Graeber para conversar sobre o que ele define como “emprego de merda”; por que os trabalhos socialmente úteis são tão mal pagos, e como uma renda básica assegurada a todos poderia resolver esta enorme injustiça.
Em primeiro lugar, o que são empregos de merda e por que existem?
David Graeber: Basicamente, um emprego de merda é aquele cujo executor pensa secretamente que sua atividade ou é completamente sem sentido, ou não produz nada. E também considera que se aquele emprego desaparecesse, o mundo poderia inclusive converter-se num lugar melhor. Mas o trabalhador não pode admitir isso – daí o elemento de merda. Trata-se, portanto, em essência, de fingir que se está fazendo algo útil, só que não.
Uma série de fatores contribuiu para criar esta situação estranha. Um deles é a filosofia geral de que o trabalho – não importa qual – é sempre bom. Se há algo em que a esquerda e a direita clássicas frequentemente estão de acordo é no fato de ambas concordarem que mais empregos são uma solução para qualquer problema. Não se fala em “bons” trabalhos, que de fato signifiquem algo. Um conservador, para o qual precisamos reduzir impostos para estimular os “criadores de emprego”, não falará sobre que tipo de ocupações quer criar. Mas há também partidários da esquerda insistindo em como precisamos de mais ocupações para apoiar as famílias que trabalham duro. Mas e as famílias que desejam trabalhar moderadamente? Quem as apoiará?
Até mesmo os empregos de merda garantem a renda necessária para que as pessoas sobrevivam. No fim das contas, por que isso é ruim?
Mas a questão é: se a sociedade tem os meios para sustentar todo mundo – o que é verdade – por que insistimos em que os trabalhadores passem sua vida cavando e em seguida tapando buracos? Não faz muito sentido, certo? Em termos sociais, parece sadismo.
Em termos individuais, isso pode ser visto como uma boa troca. Mas, na verdade, as pessoas obrigadas a tais trabalhos estão em situação miserável. Podem considerar: “estou ganhando algo por nada”. Bem, as pessoas que recebem salários bons, muitas vezes de nível executivo, certamente de classe média, quase sempre passam o dia em jogos de computador ou atualizando seus perfis de Facebook. Quem sabe, atendendo o telefone duas vezes por dia. Deveriam estar felizes por ser malandros, certo? Mas não são.
As pessoas contratadas para tais trabalhos relatam, regularmente, que estão deprimidas. E se lamentarão, e praticarão bullying umas contra as outras, e se apavorarão com prazos finais porque são de fato muito raras. Porém, se pudessem buscar uma razão social no trabalho, uma boa parte de suas atividades desapareceria. As doenças psicossomáticas de que as pessoas padecem simplesmente somem, no momento em que elas precisam realizar uma tarefa real, ou em que se demitem e partem para um trabalho de verdade.
Segundo seu livro, a sociedade pressiona os jovens estudantes para buscar alguma experiência de emprego, com o único objetivo de ensiná-los a fingir que trabalham.
É interessante. Chamo de trabalho real aquele em que o trabalhador realiza alguma coisa. Se você é estudante, trata-se de escrever. Preparar projetos. Se você é um estudante de Ciências, faz atividades de laboratório. Presta exames. É condicionado pelos resultados e precisa organizar sua atividade da maneira mais efetiva possível para chegar a eles.
Porém, os empregos oferecidos aos estudantes frequentemente implicam não fazer nada. Muitas vezes, são funções administrativas onde eles simplesmente rearranjam papéis o dia inteiro. Na verdade, estão sendo ensinados a não se queixar e a compreender que, assim que terminarem os estudos, não serão mais julgados pelos resultados – mas, essencialmente, pela habilidade em cumprir ordens.
E os empregos tecnológicos ou na mídia. Seriam, também, de merda?
Certamente. Por meio do Twitter, pedi às pessoas que me relatassem seus empregos mais sem sentido. Obtive centenas de respostas. Havia um rapaz, por exemplo, que desenhava bâners publicitários para páginas web. Disse que havia dados demonstrando que ninguém nunca clica nestes anúncios. Mas era preciso manipular os dados para “demonstrar” aos clientes que havia visualizações – para que as pessoas julgassem o trabalho importante.
Na mídia, ha um exemplo interessante: revistas e jornais internos, para grandes corporações. Há bastante gente envolvida na produção deste material, que existe principalmente para que os executivos sintam-se bem a respeito de si próprios. Ninguém mais lê estas publicações.
A automação é vista, muitas vezes, como algo negativo. Você discorda deste ponto de vista, não?
Certamente. Não o compreendo. Por que não deveríamos eliminar os trabalhos desagradáveis? Em 1900 ou 1950, quando se imaginava o futuro, pensava-se: “As pessoas estarão trabalhando 15 horas por semana. É ótimo, porque os robôs farão o trabalho por nós”. Hoje, este futuro chegou e dizemos: ”Oh, não. Os robôs estão chegando para roubar nossos trabalhos”. Em parte, é porque não podemos mais imaginar o que faríamos conosco mesmo se tivéssemos um tempo razoável de lazer.
Como antropólogo, sei perfeitamente que tempo abundante de lazer não irá levar a maioria das pessoas à depressão. As pessoas encontram o que fazer. Apenas não sabemos que tipo de atividade seria, porque não temos tempo de lazer suficiente para imaginar.
Pergunto: por que as pessoas agem como se a perspectiva de eliminar o trabalho desnecessário fosse um problema? Deveríamos pensar que um sistema eficiente é aquele em que se pode dizer: “Bem, temos menos necessidade de trabalho. Vamos redistribuir o trabalho necessário de maneira equitativa”. Por que isso é difícil? Se as pessoas simplesmente assumem que é algo completamente impossível, parece-me claro que não estamos em um sistema eficiente.
Um dos pontos mais interessantes do livro são suas observações sobre como os empregos socialmente valiosos são quase sempre menos bem pagos que os empregos de merda.
Foi uma das coisas que, pessoalmente, mais me chocou na fase da pesquisa. Comecei a tentar descobrir se algum economista havia observado o fenômeno e tentado explicá-lo. Houve antecedentes, na verdade. Alguns eram economistas de esquerda; outros, não. Alguns eram totalmente mainstream.
Mas todos chegaram à mesma conclusão. Segundo eles, há uma tendência: quanto mais benefícios sociais um emprego produz, menor tende a ser a remuneração – e também a dignidade, o respeito e os benefícios. É curioso. Há poucas exceções e não são tão excepcionais como se poderia pensar. Os médicos, é claro, são um caso notório: é evidente que são pagos com justiça e oferecem benefícios sociais.
Porém, há um argumento recorrente: “Não seria bom que pessoas interessadas apenas em dinheiro ensinassem as crianças. Não se deve pagar demais aos professores. Se o fizéssemos, teríamos gente gananciosa na profissão, em vez de professores que se sacrificam”. Há também a ideia de que se um trabalhador sabe que sua atividade produz benefícios, isso pode ser o bastante. “Como, você quer dinheiro, além de tudo?” As pessoas tendem a discriminar qualquer um que tenha escolhido um emprego altruísta, sacrificante ou apenas útil.
Aparentemente, você é pouco favorável à ideia de garantia de trabalho, defendida entre outros por Bernie Sanders [candidato de esquerda à presidência dos EUA], por preferir a garantia de renda cidadã.
Sim. Sou alguém que não quer criar mais burocracia e mais empregos de merda. Há um debate sobre garantia de trabalho – que Sanders, de fato, propõe, nos EUA. Significa que os governos deveriam assegurar que todos tenham acesso ao menos a algum tipo de trabalho. Mas a ideia por trás da renda universal da cidadania é outra: simplesmente assegurar às pessoas meios suficientes para viver com dignidade. Além desse patamar, cada um pode definir quanto mais deseja.
Acredito que a garantia de trabalho certamente criaria mais empregos de merda. Historicamente, é o que sempre acontece. E por que deveríamos querer que os governos decidissem o que podemos fazer? Liberdade implica em nossa capacidade de decidir por nós mesmos o que queremos e como queremos contribuir para a sociedade. Mas vivemos como se tivéssemos nos condicionado a pensar que, embora vejamos na liberdade o valor mais alto, na verdade não a desejamos. A renda básica da cidadania ajudaria a garantir exatamente isso. Não seria ótimo dizer: “Você não tem mais que se preocupar com a sobrevivência. Vá e decida o que quer fazer consigo mesmo”?
Esta não é bem uma resenha, nem uma palestra, são anotações que nem são 100% minhas. Encontrei-as num arquivo word perdido no micro. Há frases minhas e outras “roubadas” sei lá de quem. Mas vale a pena fazer referência a este livro engraçadíssimo. Qualquer referência.
O livro é narrado por Alexander Portnoy durante uma consulta ao psicanalista. Como em toda terapia que se preze, ninguém da família escapa. Alex é um judeu viciado em sexo e masturbação, incapaz de estabelecer um relacionamento duradouro, e que tem uma relação complicada com os pais, especialmente com a mãe castradora. Como o livro é um monólogo de Alex, não dá pra saber até que ponto a mãe é realmente tudo aquilo que ele fala. O que fica claro é que ele também sente desejo pela mãe. E pela irmã.
O pai aparece como um moleirão vendedor de seguros, submisso à mulher, vítima de uma prisão de ventre permanente e de um desespero mudo.
A mãe superprotetora, a própria e folclórica mãe judia, entra em pânico quando descobre que o seu Alex, criança, come hambúrguer escondido, e também quando constata que ele, adulto, adquiriu um tapete gasto, propenso a escorregões.
Quando Alex começou a demorar mais que o usual no banheiro, ela logo se preocupou com umas supostas diarreias. Só poderiam advir da comida de lanchonete. À entrada fechada do banheiro, ela exigia que o filho confessasse ter andado comendo guloseimas industrializadas ao sair do colégio. Ordenava, esmurrando a porta, que ele lhe deixasse examinar o produto de seus intestinos. Ou seja, enquanto o pobre adolescente Portnoy tentava se concentrar em suas fantasias sexuais durante a masturbação, a mãe lhe interrogava através da porta a respeito do que havia comido. Não havia nenhum espaço privado.
Um homem judeu com os pais vivos é um recém-nascido indefeso!”, diz Portnoy ao dr. Spielvogel. “Por favor, me ajude e depressa! Me liberte desse papel de filho sufocado numa piada judaica! Porque está começando a perder a graça aos 33 anos!.
Em outro trecho, o mesmo apelo: “Chega de ser um bom menino judeu, agradando meus pais em público e esfolando o ganso no meu quarto!”.
Um relato das idas mensais com o pai à sauna:
Fico em posição de sentido entre as pernas de meu pai enquanto ele me cobre da cabeça aos pés com uma grossa camada de espuma de sabão e olho com admiração para o que pende do banco de mármore em que ele está sentado. Seu escroto parece um rosto comprido e encarquilhado de um velho com um ovo enfiado em cada lado da papada caída, já o meu lembra mais uma bolsinha mínima e rosada pendurada no pulso de uma boneca de menina…
Ele prossegue:
Quanto ao “shlong” dele, a mim, que tenho um pinto do tamanho da ponta de um dedo mínimo, ao qual minha mãe gosta de se referir em público (está bem, foi só uma vez, mas bastou essa vez para durar a vida inteira) como a minha “coisinha”, o “shlong” dele me faz pensar nas mangueiras de incêndio que ficam enrodilhadas nos corredores da escola.
Em seu caudaloso desafogo, Portnoy implica tanto com os “góis” como com seus próprios pares — “Me faça um favor, meu povo, pegue seu legado de sofrimento e enfie no cu”. Mas não escapa do dilema de se sentir ao mesmo tempo atraído por aqueles e amado por estes.
Dentre os personagens masculinos de Philip Roth, Portnoy é o que tem maior verve desbocada, uma verdadeira visão de mundo ao mesmo tempo anarcoerótica e pessimista. É um personagem com o infatigável pênis em riste. Tem a masturbação como uma das belas-artes.
O personagem-narrador, Alexander Portnoy, que desde a primeira página deita num divã pra contar sua vida ao psicanalista, expõe uma das mais bem elaboradas subjetividades da literatura contemporânea, e das mais engraçadas.
A culpa está presente em todo o romance. Não é fruto da fragilidade de Portnoy, que, em verdade, tem atitudes até bem corajosas perante o moralismo judaico e os valores familiares tradicionais. Ele discute com os pais. Nega a existência de Deus diante deles. Professa opiniões políticas liberais. O problema não é tanto a psicologia de Portnoy, pretensamente frágil, mas a força descomunal dos valores que lhe puseram na cabeça desde a mais tenra infância.
Claro que o livro é escrito por um narrador não muito confiável, então devemos ter cuidado com todas as informações jogadas no livro.
Esse jovem masturbador se transforma num adulto bem-sucedido e adequado, mas cheio de culpa por achar-se pervertido.
Giacomo Joyce é um opúsculo de oito páginas (frente e verso) manuscritas, escritas em 1914. O texto esteve esquecido durante muitos anos e acabou sendo encontrado em Trieste por um irmão de Joyce, onde o escritor viveu. Hoje, pertence a um colecionador. O texto foi criado após Retrato do Artista Quando Jovem, antes de Ulysses e narra de forma muito poética a atração do autor por uma jovem aluna judia daquela cidade. Um amor, digamos, proibido. Giacomo era como os italianos chamavam o escritor, uma tradução para James. O texto surgiu em forma de livro apenas em 1968. Esta bonita edição da Bestiário é bilíngue, com excelente tradução para o português de Roberto Schmitt-Prym. Não é uma narrativa circunstanciada, trata-se de um texto para ser lido com calma, ouvindo-se sonoridades e sentindo seu indiscutível erotismo. Parecem meras anotações poéticas escritas em formas livres que escondem um texto verdadeiramente belo.
Alguns trechos:
Lanço-me numa onda fácil de fala mansa: Swedenborg, o pseudo-Areopagita, Miguel de Molinos, Joaquim Abbas. A onda gasta. Sua colega de classe, retorcendo o corpo torto, ronrona num mole italiano vienense: “Che coltura!” As longas pálpebras piscam e se alçam: uma ponta de agulha em brasa pica e palpita na íris veluda.
Saltos altos estalam secos nos ressonantes degraus de pedra. Ar invernal no castelo, cotas de malha patibular, candeeiros de ferro tosco sobre as espirais das escadas circulares. Tique-taques de saltos, ecos altos e ocos. Alguém lá embaixo quer falar com a senhorita.
(…)
Saio apressado da tabacaria e a chamo pelo nome. Ela se volta e se detém para ouvir minhas confusas palavras falando de lições, horas, lições, horas: e lentamente suas pálidas faces se iluminam de inflamada luz opalina. Calma, calma, não tenha medo!
(…)
Minha voz morrendo nos ecos de suas palavras, morre como a voz exaustissábia do Eterno chamando a Abraão através das colinas ecoantes. Ela se encosta contra a parede acolchoada: feito odalisca na luxuriante escuridade. Seus olhos beberam meus pensamentos: e na mornez úmida e submissa de sua ingênua feminidade minha alma, dissolvendo-se, fluiu e verteu e inundou uma líquida e abundante semente… Agora que a possua quem quiser!…
A Morte do Pai é o primeiro volume da série Minha Luta, da qual já foi traduzido o quinto volume, sempre pela Cia. das Letras. O livro insere-se na categoria da autoficção, com o autor norueguês contando lentamente e fora de qualquer ordem cronológica sua autobiografia, sempre acompanhada de carradas de reflexões e lembranças, mais ou menos no gênero de Em Busca do Tempo Perdido. É claro que tudo depende da forma e da capacidade de Knausgård de ser interessante. E ele é. Muito interessante.
Este primeiro volume pode ser dividido em duas partes: na primeira o autor nos conta de sua adolescência e dos primeiros equívocos amorosos, na segunda é descrita a morte do pai do escritor. A morte do pai alcoolista é uma tragédia, mas Karl Ove pontua cada fato e objeto de um tal número de lembranças que a descrição da morte não chega a ser algo chocante, apesar do absoluto realismo de tudo o que é narrado.
As duas partes são ótimas. As sensações e impressões do adolescente bateram fundo em mim. Na verdade, pareciam minhas, totalmente minhas, apesar da distância cultural entre um jovem porto-alegrense e um norueguês. Já o luto de Karl Ove é lentamente trabalhado, bem, com seu trabalho de limpar a casa do pai após sua morte, antes do enterro.
Nada do que ocorre no livro é excepcional, o que garante a qualidade da narrativa é o próprio Knausgård, que repetidamente demonstra que tudo interessa. É um autor que nos aproxima de nós mesmos e nos comove contando pormenores de sua vida íntima com grande elegância, sinceridade e riqueza de detalhes.
Karl Ove Knausgård escreve com dolorosa honestidade. Lembra sua adolescência, seus pequenos grandes amores, sua relação com o rock e com sua distante mãe. E a perda do pai. Ele mostra nossa luta pela vida. É um trabalho profundo e hipnotizante que recomendo fortemente.
Acho que vou ler uns dois livrinhos e volto ao autor para ler o volume 2.
Todo ano é a mesma coisa. Ainda bem. Desde o final da década de 20 do século passado, sempre no dia 16 de junho, um número crescente de leitores e admiradores de James Joyce reúnem-se para celebrar o autor de Ulysses (1922), obra que se passa no dia 16 de junho de 1904. Naquelas quase mil páginas, há sexo por todo lado e, em uma palestra que dei para o Bloomsday de 2012, tratei desse assunto. Claro, não é uma palestra acadêmica e dei risadas com a primeira pergunta que surgiu após a mesma: “Já assisti mais de dez palestras em Bloomsdays, porque só me diverti nesta aqui?”.
Abaixo, está todo o texto de preparação que escrevi para aquele dia.
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A única exigência que faço a meu leitor é que dedique a vida inteira à leitura de minhas obras.
(The only demand I make of my reader is that he should devote his whole life to reading my works).
JAMES JOYCE
Clique para ampliar
Esta é uma piada de Joyce, mas tem gente que se assusta muito com ela e mais ainda com aquilo que é dito sobre Ulysses. Se quiséssemos estabelecer uma categoria de livros mais elogiados, citados, incensados e menos lidos, Ulysses, de James Joyce, talvez encabeçasse a lista. Este é um fenômeno que surpreende, pois contrariamente a, por exemplo, O homem sem qualidades, de Musil, Ulysses é um livro escandalosamente colorido, engraçado e divertido. E sexual. Uma leitura desatenta torna certamente o livro uma chatice, uma leitura interessada já basta para torná-lo um grande romance, mesmo que não se queira entrar nos enigmas e quebra-cabeças que manterão os professores ocupados durante séculos, conforme disse o autor. A leitura 100% compreensiva talvez seja inalcançável ao leitor comum, porém, como sublinhou Karen Blixen (Isak Dinesen), não há nenhum problema em não entender inteiramente um escrito poético. Obviamente, Ulysses se beneficia com outras leituras, com a crítica, com consultas e com uma vasta cultura, porém, como assegura o tradutor da última versão brasileira, Caetano Galindo, Ulysses pode ganhar mais se for apresentado sozinho, sem notas explicativas. É importante lembrar que Ulysses é, em primeiro lugar, um romance, um dos maiores de todos, não um quebra-cabeça. Isto não anula de modo algum todo o aparato que costuma cercá-lo, apenas diz que tal parafernália pode estar em outro lugar que não atrapalhando a leitura.
O habitual é que as pessoas se aproximem de Ulysses com cuidado. Livro difícil, cheio de armadilhas. Tudo se passa num só dia, em 16 de junho de 1904. São 18 capítulos, cada um com aproximadamente uma hora de ação; cada um escrito num estilo diferente; cada um deles sendo uma paródia de um episódio da Odisseia de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo humano é alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas, como escreveu o ensaísta Idelber Avelar.
Joyce orgulhava-se do fato de Ulysses quase não possuir enredo
Porém, a história não pode ser mais simples e Joyce ufanava-se do fato de seu romance ter quase nada de trama. Como escreve Idelber, naquele dia, hoje conhecido como Bloomsday, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia pelas margens do Liffey; Leopold Bloom, vendedor, efetivamente muito pouco atormentado pelas repetidas traições de Molly, sua mulher, toma café da manhã, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a uma carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando Gerty MacDowell tendo por background um ofício religioso, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim; Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim.
A imagem ao lado pode ser eficaz para demonstrar as diferenças de Joyce em relação a um autor muito mais lido, Franz Kafka. Imaginem a literatura moderna dentro de um modelo matemático de abscissas e ordenadas, um modelo plano, simples e, principalmente, redutor. Considerem que a gente deva colocar os autores espacialmente e que a abscissa seria o grau de complexidade narrativa e a ordenada seria a complexidade dos temas. Pois bem, então comparemos Joyce com outro autor canônico, Franz Kafka. Enquanto Joyce cria histórias rotineiras dentro de narrativas complexas, Kafka seria sua antítese, com narrativa mais convencional, porém, com temas e histórias insólitas e — para repetir o termo e dar exatidão matemática (?) à analogia — , complexas. Em nosso modelo, eles estariam bem longe um outro. É claro que estamos desconsiderando uma importante terceira dimensão, o arsenal de referências joyceano e uma quarta, o grau de representação social. Sem esta última, certamente não omemoraríamos o Bloomsday.
No Brasil, Ulysses foi traduzido três vezes. A primeira tradução foi a que o filólogo Antônio Houaiss fez em 1966 para a Civilização Brasileira. A segunda tradução foi a da filósofa, professora emérita e tradutora Bernardina da Silveira Pinheiro. É uma tradução mais coloquial e menos pudica que o intrincado e envergonhado trabalho de Houaiss. Em 2012, tivemos a terceira tradução, do professor e doutor em linguística Caetano Galindo para a Penguin / Companhia das Letras. Esta última tradução é superior às duas anteriores. Coloca-se entre a Ítaca do coloquialismo de Bernardina e a possível Troia de Houaiss. De bônus, traz um excelente ensaio do crítico irlandês Declan Kiberd, uma das maiores autoridades em Joyce, um sujeito que escreveu um best seller de crítica literária chamado Ulysses and Us.
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Odisseu, rei de Ítaca, casado com Penélope, depois de ter se distinguido durante dez anos na guerra contra Troia, está voltando para casa, passando por uma série de aventuras e provações, ficando muitas vezes à mercê de feiticeiros, monstros e deuses vingativos. Penélope o aguarda fielmente, embora assediada por pretendentes (sempre tão gentis, diria Chico Buarque) que aguardam no banco de reservas, ansiosos por entrarem em campo no lugar do marido desaparecido. Seu filho, Telêmaco, aconselhado pela deusa Palas Atena, sai em busca do pai. Em resumo, temos as aventuras do herói Odisseu em sua volta à pátria, a fidelidade da mulher ao marido ausente e um filho à procura do pai.
Desenho de Leopold Bloom, de James Joyce (clique para ampliar)
Pois então abrimos Ulysses e vemos a paródia da Odisseia de Homero. A Penélope de Joyce, Molly, cujo nome de nascimento é Marion Tweedy), não é nada fiel. Stephen Dedalus (Telêmaco), embora insatisfeito com o pai que tem, não está atrás de outro. (Na verdade, Bloom pranteia um filho morto, Rudy, e deseja que Stephen vá morar com ele e Molly). Bloom é um Ulisses nada heroico, um judeu irlandês de vida comum, que sabe de Molly e Blazes Boylan, mas não pretende lavar a honra com sangue. O livro, aliás, não possui situações extremas e apenas se atém a um imenso leque de experiências cotidianas. Sim, mas e o sexo?
Zurique, 1918. Nora Barnacle Joyce com os filhos Giorgio e Lucia.
Joyce refere-se a ele já no primeiro enigma do romance: a escolha da data. Por que 16 de junho de 1904? Ora, porque foi nesse dia que Nora Barnacle fez de Joyce um “homem de verdade”. Alguns críticos consideram que o livro seria uma espécie de declaração de amor que o escritor fazia a sua esposa e amante. No dia 16 de Junho de 1904, o casal saiu para um passeio pela primeira vez. Joyce não levou Nora para os cafés, teatros, nem para o centro de Dublin, mas pelas ruas que vão dar no cais. Foram até a área de Ringsend que, naquela noite, estava deserta. Nora não perdeu tempo. Desabotoou as calças de Joyce e masturbou-o com mestria, “com olhos de santa”. Era a primeira vez que Joyce tinha sexo de graça e o fato revestiu-se de grande importância.
Ulysses foi publicado no dia de aniversário de 40 anos de Joyce, em 2 de fevereiro de 1922. Antes, em 1919, alguns capítulos tinham sido publicados na revista The Egoist (Londres). Resultado: impressores e assinantes ameaçaram demitir-se em função da pornografia envolvida… Em 1921, outros capítulos foram publicados em The Little Review (Nova Iorque). Resultado: a edição foi retirada de circulação e suas editoras multadas. Acusação: grossa pornografia.
O cais em Ringsend, subúrbio de DublinPorém, conhecendo Joyce, eu apostaria em outro local bem próximo, o das proximidades da igreja de St. Patrick
Um trecho de Ulysses (Cap. 17, Ítaca):
Se ele tivesse sorrido por que teria sorrido?
Para refletir que cada um que entra (na cama) imagina ser o primeiro a entrar enquanto que é sempre o último termo de uma série precedente mesmo que seja o primeiro de uma outra subsequente, cada um imaginando ser primeiro, último, único e só enquanto que não é nem primeiro nem último nem único nem só em uma série que se origina e se repete ao infinito.
Trad. Caetano Galindo
Este trecho jamais poderia ser admitido a escritor preso aos códigos machistas da sociedade do início do século passado. Seria improvável para um homem comum do começo do século XX chegar à conclusão que Bloom chegou a respeito do adultério de Molly, da qual ele nem cogita separar-se: Assassinato, jamais, pois que dois males não perfaziam um bem. E chegamos gloriosamente ao pensador que Joyce era e, principalmente, a um leitor de Freud.
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Não faço ideia se o meu marido é um gênio ou não; o que sei, com certeza, é que ele tem uma mente bem suja.
NORA BARNACLE
Hum…
Em Ulysses, Leopold Bloom é um cidadão irlandês, pai e marido de Molly. Teve dois filhos, Milly e Rudy, sendo que o segundo morreu onze dias após o nascimento e Milly — que está com 15 anos em 16 de junho de 1904 — estuda em outra cidade. Ela aparece no romance apenas nas saudades de Bloom, o qual também lamenta muitíssimo a perda de Rudy. Ele é um bom pai de quase quarenta anos e começa o dia de forma tipicamente irlandesa. A primeira coisa que come são rins de carneiro grelhados, eles exalam um leve e inebriante perfume de urina. Porém, não vim aqui criticar a gastronomia irlandesa e britânica. Faço referência a este quarto capítulo porque nele Bloom aparece servindo sua mulher-ninfa na cama. É importante notar que é ele quem serve o breakfast, não o contrário. Bloom, que foi confessadamente criado por Joyce para ser o homem comum, o everyman, aparece sem heroísmos, com uma dimensão inteiramente humana, sem atitudes épicas.
A primeira página de Ulysses no manuscrito de Joyce
Em 1905, Joyce escreveu a seu irmão Stanislaus:
Você não acha a busca pelo heroísmo uma tremenda vulgaridade? Tenho certeza de que toda a estrutura do heroísmo é, e sempre foi, uma mentira e que não há substituto para a paixão individual como força motriz de tudo.
O amor de Bloom manifesta-se diferentemente, ignorando posturas machistas, nas atitudes e nos pensamentos em relação à família, mas uma das surpresas de Ulysses é como esta rotina é contraposta à sexualidade que aparece no romance. Boa parte do enredo de Ulysses gira em torno do casal Molly e Leopold e de sua inaptidão para sentir prazer físico e emocional um com o outro. Seja através da narração onisciente, seja por monólogos interiores, o texto documenta minuciosamente as abordagens sexuais inteiramente diversas e as tentativas românticas do casal. E estas ocorrem sempre SEPARADAMENTE. Durante o curso do dia, Molly comete adultério com Blazes Boylan, enquanto Bloom envolve-se com práticas sexuais voyeuristas, masturbatórias e, por que não dizer?, masoquistas. Mesmo que Bloom participe ativamente destes encontros, é curioso como Joyce obtém mantê-lo longe do estereótipo do fauno sedento por sexo e prazer. Bloom é o anti-herói, o low profile, o personagem simpático, agradável, amistoso e apagado. Mesmo o erotismo evidente de certas participações de Bloom, acaba diluído em gentileza e bonomia. Ele é pai e marido, possuidor de qualidades maternas, pacifistas, até femininas.
Os limites rígidos que compunham a prática religiosa e as normas sociais na virada do século XX são demasiadamente sufocantes para a expressão de Joyce da individualidade e do desejo carnal. No episódio em que Bloom masturba-se na praia, observando Gerty MacDowell, tendo por fundo um culto religioso, Joyce não apenas justapõe religião e erotismo, mas incorpora uma prática sexual não convencional.
Bloomsday em Dublin. Leopold põe os olhos em Gerty MacDowell.Maão no bolso… No filme Bloom, o ator Stephen Rea na cena da praia
Com isto, ele desafia o senso comum do que seria a sexualidade na virada do século XX e utiliza seu romance como um veículo através do qual pode expressar seu desejo de fundamentar sua crença no instinto e no físico — não esqueçam que cada capítulo do Ulysses refere-se também a uma parte do corpo humano. Para Joyce, a sexualidade é um ato de expressão da natureza. Neste sentido, concordava inteiramente com D. H. Lawrence, o qual desejava conceder ao corpo um reconhecimento igual ao que era dado à mente. É claro que tais intenções do romance iam ao encontro das teorias de Freud — o desejo sexual como energia motivacional primária da vida humana –, mas ia contra a moral vigente da virada do século. Os encontros de Bloom com mulheres no livro parecem servir de alívio para a exclusão social e a traição de Molly, são o meio utilizado por ele para adquirir o equilíbrio ou equanimidade entre sua existência e a de Molly.
Sandymount Strand, onde Stephen Dedalus caminha imaginando-se cego e onde Leopold Bloom encontra Gerty McDowell em Ulysses
Ulysses é um texto que procura minar e redefinir as noções de gênero e de hierarquia na sociedade patriarcal da época. O romance não promove a superioridade masculina, mas eleva as mulheres e a feminilidade. Não só Joyce inverte a hierarquia social predominantemente masculina, como confunde e desafia a noção de gênero na dicotomia da criação de um casal formado por um homem delicado e feminino e uma mulher decidida. Nesta combinação, o casal Molly e Leopold, desafia os estereótipos que definem a masculinidade como agressiva e dominadora e a feminilidade como passiva e reservada.
Salman Rushdie escreveu em seu ensaio The Short Story: “Comumente o que é pornográfico para uma geração, é clássico para a geração seguinte”. A frase parece ser perfeita para Ulysses: enquanto a censura do início do século XX considerava o texto imoral e inadequado, ele agora oferece para nós um quadro riquíssimo para a exploração e análise da sexualidade de personagens extremamente bem construídos, sendo que um deles era “o homem comum”.
Poderíamos definir a pornografia como a apresentação de cenas destinadas a despertar desejo sexual no observador? Assim como num filme de sexo explícito, Ulysses rastreia movimentos e sensações corporais, realizando (ou escandalizando) o desejo do leitor de observar com precisão a mecânica do corpo. No entanto, Joyce não faz pornografia: aqui, a predição de Rushdie funciona perfeitamente: apesar de possuir elementos pornográficos, Ulysses oferece a transformação da pornografia em uma forma de arte clássica. Tendo lido e estudado psicanalistas como Freud, Joyce nos oferece não apenas uma nova ficção e linguagem, oferece-nos um ponto de vista original para entender o sexo. A atitude perante a sexualidade estava mudando após a virada do século, especialmente na esfera psicanalítica, e Joyce reflete em Ulysses este novo interesse na sexualidade, o crescimento de uma ciência sexual e o desenvolvimento de novos conceitos que rompiam cabalmente a associação entre sexualidade e reprodução. Joyce pertencia ao grupo de grandes pensadores da época, que procuravam entender e redefinir a sexualidade. Declan Kiberd afirma jocosamente que “Ulysses era não apenas um exemplo de um empreendimento comercial de alto risco, mas também um manual muito particular que extrapolava em muito questões literárias”.
É importante salientar a relação de Joyce com a tradição inglesa do romance. A Irlanda estava sob o domínio inglês. Os ancestrais de Joyce abandonaram lentamente o gaélico — ainda falado em regiões rurais da Irlanda — pelo inglês. Deste modo, os irlandeses viviam a uma certa distância da literatura inglesa ou ao menos utilizavam a língua com menor respeito, muitas vezes com insolência. Deste modo, há, além das ideias de Joyce, um aspecto sociológico que torna a quebra da tradição um ato até desejável de afirmação de nacionalidade. Joyce não falava mal de Dublin e da Irlanda, como alguns afirmam, mas era, sim, contra a sentimentalização do passado, revoltava-se contra o provincianismo de achar que o passado — mesmo um inventado, como o dos gaúchos tradicionalistas — ia voltar.
O Rio Liffey e a Ponte Ha’penny Bridge em Dublin, Irlanda
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Os monólogos interiores de Ulysses ainda eram uma novidade na época do lançamento do livro. Na verdade, o stream of consciousness não foi uma invenção de Joyce e sim do francês Édouard Dujardin, cujo livro Os loureiros estão cortados foi lançado pela editora porto-alegrense Brejo, em 2005, com prefácio explicativo de Donaldo Schüller. O monólogo interior permite ao leitor de Joyce, fazer o contraste entre a riqueza da vida imaginativa de um indivíduo contra o fundo da pobreza de suas relações sociais. Quando comparados com a vida interior dos personagens, os diálogos de Ulysses não são grandemente satisfatórios. Leopold Bloom não perdoa as traições de Molly verbalmente, porém sabemos detalhadamente, por seu íntimo, que ela está perdoada. Os personagens do Ulysses são enorme, imensamente fluentes em seus interiores, mas não são nada articulados verbalmente. Vão embora sem dizer o que têm em mente e é apenas na solidão que alcançam suas verdadeiras vozes. O que dizer do monólogo final de Molly Bloom? Ali ela expõe-se de uma forma muito transgressora — não está sozinha enquanto o marido dorme ao lado? — , tem fantasias que surpreendem mesmo um século depois. Joyce, escrevendo de dentro dos pensamentos do cérebro de Molly, constrói o gozo feminino com primeiro com liberdade e depois com humor, celebrando como nunca antes o desejo da mulher numa época em que a psicanálise ainda não o fazia.
Os encontros, como o de Bloom com Gerty MacDowell, são em geral sem palavras, conduzidos pelo corpo. Há muitas frases pela metade. Por exemplo, após masturbar-se na praia, Bloom escreve na areia “sou um”. O casamento com Molly também serve para ilustrar a falta de articulação. É uma ligação silenciosa de duas pessoas que compartilham uma casa, uma cama, quem sabe amor, mas não uma vida.
Angelina Ball no filme Bloom (2003), de Sean Walsh
E Bloom, como dissemos, comporta-se estranhamente para um homem da virada do século. Arruma a cama, limpa o lençol, tem sentimentos de empatia para com uma mulher grávida, preocupa-se com a filha, morre de saudades do filho, têm fantasias de que está grávido. Mais: Bloom sente-se inconformado e invejoso pela centralidade da mulher no processo dar à luz. Seis semanas antes de seu filho Rudy nascer, é visto comprando uma lata de alimento infantil, o que prova para seus amigos que ele não é bem um homem. Pior: eles dizem que ele, uma vez por mês, fica com dor de cabeça “como uma franguinha com as regras”. Também como talvez uma mulher fizesse, ele evita que Gerty o veja de perfil, quer que ela o veja em seu melhor ângulo. Depois Gerty faz o mesmo.
Ulysses borra a distinção entre os sexos. No episódio “Penélope”, o leitor entra nos pensamentos de Molly enquanto ela se encontra na cama ao lado de Bloom, ao final do dia. O monólogo revela a promiscuidade de Molly, suas lembranças de relacionamentos anteriores e memórias de sua família. Quando lembra da amamentação de Milly, ela fala que algumas vezes amamentou simultaneamente também a Bloom: “Eu pedi para chupar meus seios, ele disse que o que saía era doce e mais espesso do que o das vacas”. Enquanto muitos acharam e ainda acham isso o cúmulo da pornografia, talvez seja melhor relacionar a cena à sugestão de que a mulher pode ser uma provedora familiar ou que pode rebaixar o homem a uma posição infantil. Nas duas hipóteses, o texto de Joyce subverte a masculinidade.
Em seu ensaio prévio à última edição do Ulysses, Declan Kiberd afirma que na verdade, Bloom e sua esposa comportam-se como verdadeiros andróginos. Eles seriam “encarnações das palavras de Freud de que mulheres dominadoras e viris são atraídas e atraentes para os homens femininos”. A sensibilidade associada à feminilidade e a agressividade associada à masculinidade não funcionam para o casal. No entanto, as qualidades femininas de Bloom e as dominadoras de Molly não garantem uma vida sexual em comum e a impressão que fica é de uma incompatibilidade confortável para ambos. No monólogo, Molly exibe suas características masculinas na recapitulação de seu primeiro encontro sexual com Bloom em Howth Head, em consonância com que já sabíamos de Bloom: “Ela me beijou. Fui beijado. Estava à sua mercê e ela arrumou meu cabelo. Beijado. Ela me beijou.” (A simbologia adquire mais força quando ele recorda que Molly, em seu primeiro encontro, mastigou um pedaço de bolo e, beijando-o, colocou-o quente e mastigado em sua boca), como se fosse uma mamãe pássaro.
Howth headHowth Head map
Bloom não deseja impedir o adultério de Molly com Blazes Boylan. Ele chega a imaginar uma cena na qual entrega sua esposa a Boylan. Essencialmente, ele permite a infidelidade da esposa para que ela possa experimentar o prazer enquanto ele procura a sua própria e particular satisfação com as mulheres de Dublin.
Em Ulysses, Joyce tenta descrever outras situações da sexualidade humana, ainda não presentes em romances. Joyce não julga nem demonstra desejo de advogar como acertadas, entre aspas, determinadas práticas ou condutas sexuais, mas revela a inconsistência dos comportamentos estereotipados de gênero, ao mesmo tempo que coloca o desejo no centro de muitas, muitíssimas de nossas ações.
Além de contradizer a sociedade, Joyce igualmente contradiz a religião. A masturbação de Bloom é justaposta a um serviço religioso, claramente a fim de comentar as restrições que a religião coloca sobre as expressões sexuais pessoais. Descrevendo o Bloom onanista, com o serviço religioso ocorrendo em background, Joyce faz várias citações bíblicas, transformando Gerty num piedoso emblema de uma Virgem Maria de natureza libidinosa, que incita Bloom. Joyce parece fazer piada com a possibilidade da religião dominar o desejo carnal, apresentando a concupiscência como um componente óbvio e intrínseco a toda a existência humana. E segue desafiando modelos quando Bloom se envolve em encontros voyeuristas durante sua jornada em Dublin.
Joyce conhecia e respeitava Freud, porém Ulysses não necessariamente se encaixa nas obras dos psicanalistas da época. A incorporação da sexualidade pelo Ulysses exemplifica principalmente um não-conformismo. Durante todo aquele 16 de junho, os protagonistas do Ulysses tiveram que enfrentar muitas coisas. Porém, quando focamos uma lente crítica sobre as representações de sexo no romance, podemos notar como Joyce foi cuidadoso ao construir e apresentar os apetites sexuais de cada personagem. Ao usar o sexo como uma ligação entre seus personagens e leitores, James Joyce foi capaz de criar representações universais formadas por muitas camadas. Notem como o romance é finalizado com o orgásmico “sim” de Molly, algo que é final e evidentemente muito afirmativo. Foi certamente a primeira vez que tivemos acesso a tamanha interioridade. O recurso narrativo do fluxo de consciência, despregado das limitações dialogais, demonstra claramente cada identidade.
Segundo Álvaro Lins citado em artigo do escritor Franklin Cunha, Joyce foi “um revelador do caos num mundo em desordem”. Consciência e subconsciência, angelitude e animalidade, idéias e instintos, natureza física e natureza psíquica, é o ser humano sempre por inteiro que Joyce busca apresentar em sua obra. No imenso mar joyceânico nenhuma concepção é ignorada, elas estão no livro e nas mentes dos personagens bem como estão as realidades que as representam. Segundo Edmund Wilson, Joyce, a partir desses eventos,” edificou um quadro espantosamente vivo e fiel do mundo cotidiano, o qual possibilita uma devassa e um acompanhamento das variações e complexidades de tal mundo, como nunca foi feito antes.
Estilisticamente pantagruélico, Joyce, em Ulysses, não apenas constrói o romance moderno como o ameaça com um catálogo aparentemente interminável de temas e estilos. E, dentro deste amplo cenário, invoca Eros como metáfora universal da condição humana..
Falta uma semana para o Dia dos Namorados e a Bamboletras criou uma listinha despretensiosa dos mais importantes casais da literatura. Muitos deles estão em nossas estantes.
Claro, o legal da data é estar junto e celebrar a relação, mas sabemos que um presente sempre abre um sorriso. Ainda mais quando este é um livro escolhido com cuidado. E, se você já observou seu amor lendo, sabe que ler é sexy.
Nossa listinha (reclamações nos comentários):
Romeu e Julieta — Romeu e Julieta Capitu e Bentinho — Dom Casmurro Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy — Orgulho e Preconceito Bibiana Terra e Rodrigo Cambará — O Tempo e o Vento Bridget Jones e Mark Darcy — O Diário de Bridget Jones Scarlett O’ Hara e Rhett Butler — E o vento levou… Tristão e Isolda — O Romance de Tristão e Isolda Abelardo e Heloísa — Abelardo e Heloísa Heathcliff e Catherine Earnshaw — O Morro dos Ventos Uivantes Jay Gatsby e Daisy Buchanan — O Grande Gatsby Blimunda e Baltasar — Memorial do Convento Diadorim e Riobaldo — Grande Sertão: Veredas Anna Kariênina e o Conde Vronski — Anna Kariênina Florentino Ariza e Fermina Daza — O Amor nos Tempos do Cólera Estella Havisham e Philip Pirrip — Grandes Esperanças Werther e Carlota — Werther Lara e Iúri Jivago — Doutor Jivago
É curioso – não creio que isso tenha sido observado até agora – que os países tenham escolhido indivíduos que não se parecem muito com eles. Seria o caso de imaginar, por exemplo, que a Inglaterra escolheria o dr. Johnson como seu representante; mas não, a Inglaterra escolheu Shakespeare, e Shakespeare é – por assim dizer – o menos inglês dos escritores ingleses. O típico da Inglaterra é o understatement, é o fato de dizer um pouco menos das coisas. Shakespeare, porém, tendia à hipérbole na metáfora, e se ele tivesse sido italiano ou judeu, por exemplo, não haveria nada de surpreendente.
Outro caso é o da Alemanha; um país admirável, tão facilmente fanático, e que escolhe justamente um homem tolerante, que não é fanático e que não está muito preocupado com o conceito de pátria; escolhe Goethe. A Alemanha é representada por Goethe.
A França não escolheu um autor, mas a tendência é Hugo. Evidentemente, sinto uma grande admiração por Hugo, mas Hugo não é tipicamente francês, Hugo é estrangeiro na França; Hugo, com aquelas grandes decorações, com aquelas vastas metáforas, não é típico da França.
Outro caso ainda mais curioso é o da Espanha. A Espanha poderia ter sido representada por Lope, por Calderón, por Quevedo. Mas não, a Espanha é representada por Miguel de Cervantes. Cervantes é um homem contemporâneo da Inquisição, mas é tolerante, é um homem que não tem nem as virtudes nem os vícios espanhóis.
É como se cada país achasse que precisa ser representado por uma pessoa diferente, por uma pessoa que possa ser, um pouco, uma espécie de remédio, uma espécie de teriaga, uma espécie de antídoto para seus defeitos.
Canção de Ninar é um thriller espetacularmente bem montado sobre um tema que afeta a quase todas as famílias de classe média urbana: as babás, a criação dos filhos, a vida profissional das mães. E Slimani dificulta sua própria tarefa ao anunciar na primeira página que o bebê estava morto e que a menina ainda estava viva, mas que não iria resistir. O que lemos depois é todo o processo que leva a babá perfeita (e perturbada) a uma série de frustrações que pensa ser insuportáveis. As poucos, Slimani nos joga detalhes que vão fazendo a tensão crescer. No fundo, fica clara a violência entre classes.
A família é a clássica: um pai, uma mãe, uma filha e um filho pequeno. No primeiro momento, a mulher, uma advogada, deixa a carreira profissional para ficar em casa com a filha. Depois vem outra criança e ela entra em crise. A rotina é o algoz que deixa suas aspirações profissionais ficam longe. Ela ama seus filhos, só que… Então ela resolve voltar a trabalhar – mesmo que seu salário dê apenas para pagar o da babá.
Ela faz uma seleção e encontra a babá perfeita, obsessiva e boa para com as crianças. Para completar, tem excelentes — e verdadeiras — referências. Louise preenche com sobras os requisitos: cuida bem das crianças e também de todos os detalhes do apartamento. Limpa tudo, faz comidinhas. É um anjo. O casal progride na profissão, mas a paz não vem. A babá não é da família, não é a família. Mas quer ser de alguém, quer ter o seu lugar.
A figura de Louise é tudo, menos a da louca caricatural de filme americano. Ela não espuma e nem fica cometendo atrocidades a la Glenn Close. O personagem e o clima de absoluto suspense são excepcionalmente bem criados. Quando nos perguntamos se os pais não suspeitaram, se não notaram nenhum sinal, pode-se responder que é mais confortável não vê-los e seguir a vida que estava indo bem.
Canção de Ninar é um livro grudento, daqueles que nos obriga a ler mais um capítulo antes de fechá-lo. E está longe de ser mero entretenimento. A coisa é perturbadora mesmo.
O primeiro parágrafo:
“O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados, parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulmões estavam perfurados e a cabeça tinha batido com violência contra a cômoda azul.”
Eu lia as histórias de Farinatti em seu extinto blog, então, para mim, é impossível considerá-lo um estreante. Sempre gostei de seu estilo fluido e focado na história. Mas lia seus contos à medida que ele os publicava, espaçados no tempo. O conjunto de 12 contos de Verão no fim do mundo — lidos em duas sessões de 6 contos — teve efeito catalisador e me surpreendeu positivamente. Há unidade nas 125 páginas do livro, não há pontos fracos. Hábito que tenho quando gostei muito do que li, o final do livro fez com que eu girasse o volume em minhas mãos frias de maio, sem desejar abandoná-lo. Bom sinal. E quais foram os motivos principais disso? O caráter profundamente humano daquilo que tinha lido, o fato do autor não participar do livro em digressões e a facilidade da leitura. Como bônus, vai um tanto de bom humor, principalmente no conto Reunião Dançante.
O ambiente mais comum das histórias é o da região de Santa Maria e periferia. Creio que apenas Copacabana e O rio pela janela passam-se fora daquela região, no Rio de Janeiro e em Paris. Mas não esperem regionalismo. O que há são as peculiaridades dos habitantes da região, perfeitamente integradas às histórias. Em Laranja azeda, uma velha senhora que está perdendo sua moradia orgulha-se e vê vantagem em algo inusitado. Em Lembrança dos teus familiares são mostradas contradições entre quem conhece e desconhece o morto. Em Forasteiros, temos o descontrole em uma região onde a presença policial é rarefeita. Farinatti sabe envolver e finalizar suas histórias. Como Ernani Ssó escreveu abaixo, há semelhanças com as obras não-Maigret de Simenon.
Mas meu conto preferido é mesmo a história-título, cheia de cortes e lacunas.
Ou seja, a coleção é muito boa. Há voz própria, a abordagem é variada e criativa, o texto é fluido e envolvente. Sei que Farinatti passou muito tempo revisando e reescrevendo estes contos. Afirmo que valeu a pena. Muito.
Recomento fortemente.
Lançamento de Verão no fim do mundo em Porto Alegre:
Neste sábado, 9 de junho, às 18h
Na Livraria Bamboletras
Centro Comercial Nova Olaria
Rua Gen. Lima e Silva, 776
Luís Augusto Farinatti (foto retirada do perfil do autor no Facebook)
Passei um medo danado a semana passada: recebi um livro de um amigo. Não estou de brincadeira, não. Imagina se eu não gostasse? Pra piorar, trata-se de livro de estreia. Pelas minhas contas, livro de estreia bom só acontece um ou dois por década e olhe lá.
Previ noites de insônia e suores frios, mesmo que eu tenha visto esse amigo apenas duas vezes. Sabe o que é? Devido à educação que recebi (por culpa de uma avó pra quem a sinceridade era matéria de fé) aliada a um distúrbio acho que glandular, costumo dizer o que penso, principalmente em matéria literária e política. Isso nunca acabou em tragédia, mas, convenhamos, minha vida social é complicada. Enfim, o terceiro encontro com meu amigo poderia ser constrangedor.
Não deu nada. Gostei demais dos contos do Luís Augusto Farinatti. Agora pretendo mostrar as provas ou pelo menos dar minhas razões. Também meus desconsertos. Uma resenha é um espaço muito limitado.
O Verão no fim do mundo (editora Modelo de Nuvem) tem doze contos. Pelo quarto ou quinto, comecei a me perguntar: a quem Farinatti leu mais? Eu não via influência de ninguém que eu conheço. Seus contos estão na linha do Tchekhov – gente comum, dramas cotidianos, silêncios nas horas certas -, mas isso não quer dizer absolutamente nada, porque uns oitenta por cento dos contos seguem a linha aberta por Tchekhov e muitos autores nem precisaram ler Tchekhov pra isso, tal a marca que o homem deixou.
Lembrei então do Sérgio Faraco. Farinatti tem uma prosa tão clara e seca, tão organizada e sólida como a dele, mas pensei no Faraco mais pelo cenário, o Rio Grande do Sul da fronteira, as cidadezinhas cheias de tédio, o conhecimento das coisas do campo. Aos apressadinhos, aviso logo: não há regionalismo algum no Farinatti, tipo uma ode à chula, nem é necessário um glossário – como também não é necessário conhecer Copacabana ou Paris pra ler os contos ambientados por lá. A massinha de modelar do Farinatti são as pessoas, e as pessoas, sabe-se, são mais ou menos bestas em qualquer lugar.
Enfim, é bem possível que seja ignorância minha, como em tantos outros casos. Mas acho que o Farinatti não deixa pistas porque não teve pressa de publicar. Ficou quieto, trabalhando duro, até amadurecer. Pela cara dele não se diria. Vá acreditar em cara.
Ao chegar ao fim do volume, tive de olhar o índice e pensar: do que foi mesmo que gostei mais? Sim, o conjunto é bem parelho, mas a dificuldade de escolha foi porque no começo senti a literatura em segundo plano. Eu lembrava de umas pessoas, dos dramas delas. O escritor tinha ficado oculto, sem ostentações de linguagem e sem comentários explicativos. Essa confiança no que se narra e essa confiança na perspicácia do leitor não se aprendem de um dia pro outro. Outra coisa é que pra apostar totalmente nas pessoas é preciso conhecer um tiquinho delas.
Evidente que o escritor não tem como se ocultar no caso da escolha do drama e da comédia que aborda e, digamos, no gerenciamento deles ao longo dos parágrafos. Foram a escolha e o gerenciamento que me levaram aos contos preferidos: oito, alguns mencionados abaixo. Os detalhes: a naturalidade e intensidade com que as pessoas e suas dores são apresentadas, a revelação às vezes súbita do desvão de um sentimento dúbio (o que ultrapassa o mero retrato), a história se fechando sem pontas soltas, embora deixe portas e janelas abertas ou semifechadas pra quem quiser se arriscar.
Lá pelas tantas me lembrei do Georges Simenon, escritor focado apenas no drama e no que está estreitamente conectado a esse drama, considerando literatura ou excrecência tudo o que entrar no texto apenas por si mesmo. Ele disse, numa entrevista, que as cartas que recebia de leitores não eram cartas comentando seu belo estilo ou coisas assim. Eram pra contar que tinham vivido algo parecido com o que tal personagem tinha vivido em certo livro, ou pra contar seus próprios problemas, como se Simenon fosse um padre ou médico.
Não sei bem por quê, mas acho que os leitores do Farinatti não vão se confessar com ele. Agora, pode apostar, vão contar histórias dos vizinhos, de um cunhado encrenqueiro ou ridículo, do filho drogado de um conhecido. Coisas assim. Por mais besta que seja a história, ou até por isso mesmo, o Farinatti a salva com sua mágica: recria o contexto e dá peso humano a cada gesto. Mágica simples, como se vê, mas de fatura complicadíssima.
Ver pra crer? Leia “Laranja azeda”, o segundo conto do volume. Com um mínimo de fatos, como fazer um doce de laranja azeda e pegar dois ônibus, temos uma situação, uma velha sem ânimo, um sobrinho ativo e ganancioso que nem aparece, mas está presente demais, uma vizinha indignada, dois advogados conformados com a incompetência e umas lembranças descosidas – tudo gente nítida e emoções turvas. Como se isso não bastasse, lemos com interesse. Pra encerrar, um exemplo de revelação súbita de um sentimento esquivo: quando a velha se admira, com uma espécie de orgulho, que seu processo tenha sido enviado a Porto Alegre e não lamenta ou não compreende sua derrota, temos o traço mais profundo e talvez mais cruel sobre essa pessoa.
Por falar em nitidez, o Farinatti faz uma coisa que a maioria dos escritores contemporâneos desaprendeu: seus personagens (sabemos sempre quem é quem e como se sente) se movem num mundo concreto. Com pequenos toques, ele indica onde estamos, se faz sol, se venta, se há mais gente por perto. Atenção: ele não para a narrativa pra descrever. O ambiente está integrado à ação. Daí que temos uma grande sensação de solidez, de realidade em três dimensões. O texto nunca é um exercício de linguagem, mas um objeto, uma coisa feita de madeira, sei lá. Isso acontece mesmo em contos como “O rio pela janela”, que acontece mais na cabeça do rapaz do que num apartamento em Paris.
Depois dos primeiros contos, passei a confiar no taco do Farinatti. Mesmo assim, às vezes me peguei ansioso, temendo que ele estragasse o final da história, como em “Forasteiro”. Havia tudo pra uma derrapada. Mas não. Ele nos dá um desenlace surpreendente e ao mesmo tempo de uma naturalidade à prova de balas. Talvez até tenha nos levado de propósito a pensar num lugar-comum do tipo mais usado nos mais reles filmes gringos. O personagem segue em frente e o Farinatti sai de fininho, nos deixando na mão.
É isso, o autor oculto ou esquivo se revela mais quando silencia. Também é mais eloquente quando silencia. O silêncio está em toda parte no Verão no fim do mundo, mas em contos como “Lembrança dos teus familiares” (as informações contraditórias e a mudez de quem conhece o morto) e “Tarde de domingo” (como o assassino, se é mesmo um assassino, reagiu?), se você prestar atenção, pode ouvir ao fundo o risinho sacana do Farinatti.
Uma última coisa: disse que ele manja de gente. Como o silêncio, esse conhecimento está em toda parte, em detalhes, falas, atmosferas, tristezas. Meu exemplo favorito é o final do conto “Reunião dançante”, talvez o mais divertido e com certeza o mais bem-humorado. Sim, o adolescente às voltas com um amor romântico é atropelado pela vida. Sabe-se, a vida não dá moleza, a vida nos vira pelo avesso a três por quatro. Às vezes nos vira do avesso deliciosamente. Os sinais de que topei com alguém adulto, quer dizer, que aceita a vida sem precisar cobri-la com o merengue de qualquer tipo de fé, me faz bem.
Meus reparos a esses contos são tão pequenos que nem vale a pena falar. Corte de uma que outra palavra, melhoria de uma que outra frase, coisas que às vezes podem ser descontadas em minhas manias. Mas do final de “Isaura e o Toco” não abro mão. Acho que devia ser apenas uma insinuação.
No mais, encontro você na livraria Bamboletras, dia 26 de maio, às 18 horas. Ou vai ficar em casa lendo best-seller de americanos iletrados? A gente precisa vencer o Bananão em todas as frentes.
Daniela Arbex é uma jornalista mineira, autora de Holocausto brasileiro, eleito melhor livro-reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte em 2013 e segundo melhor livro-reportagem no prêmio Jabuti de 2014. Depois, em 2016, Arbex voltou com Cova 312, que recebeu o Jabuti de 2016 na categoria livro-reportagem.
O tema de Holocausto é o Hospital Colônia de Barbacena (MG), manicômio onde milhares de pacientes foram internados por “problemas pessoais”, muitas vezes sem diagnóstico importante de doença mental — epilépticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas pelos patrões, moças que haviam perdido a virgindade antes de casarem –, onde muitas vezes eram torturados, violentados e mortos.
Cova 312 conta a história real de como as Forças Armadas torturaram e mataram o jovem militante político Milton Soares de Castro. Depois, completaram o crime forjando seu suicídio e fazendo sumir seu corpo. A autora reconstitui a trajetória de Milton, morto em 1967 aos 26 anos, de seus companheiros e de sua família. E o segue até descobrir seu corpo na anônima Cova 312 que dá título ao livro.
Seu terceiro livro-reportagem é este Todo dia a mesma noite, onde dá a real dimensão da tragédia ocorrida na Boate Kiss, de Santa Maria, na madrugada de 27 de janeiro 2013. E não somente a dimensão, mas também as consequências em sobreviventes e familiares. Arbex gravou centenas de horas de depoimentos de pessoas que participaram de alguma forma da tragédia: vítimas sobreviventes, familiares dos que morreram, equipes de resgate e profissionais da área da saúde.
O livro é um memorial contra o esquecimento. As pessoas nos banheiros da Kiss em busca de ar, o ginásio onde pais foram buscar seus filhos mortos, os celulares tocando e tocando, os hospitais onde se tentava desesperadamente salvar vidas, a negligência de empresários, políticos e cidadãos, a indiferença de religiosos, os aproveitadores. Tudo isso em contraposição às pessoas que até hoje fazem tratamento psiquiátrico, às doenças mentais que eclodiram, às tentativas de suicídio.
A obra é resultado de dois anos de trabalho. Arbex também examinou as 20 mil páginas do processo da Kiss na Justiça.
É um livro cheio de delicadeza e empatia pelas vítimas. As histórias se confundem ao serem contadas em recortes, em coexistência umas com as outras. O fundo da cena é duro e conhecido: um país que não se vê representado seja no âmbito da Justiça, seja no político. Um país com uma democracia muito periclitante, e com instituições tão despregadas da realidade que podem ignorar luto e tragédia.
— Para escrever romances não é preciso imaginação — disse Bolaño. — Só a memória. Os romances são combinações de lembranças.
— Todas as boas narrativas são narrativas reais, pelo menos para quem lê, que é o único que conta.
Javier Cercas, Soldados de Salamina
Soldados de Salamina, de Javier Cercas, é um grande, excelente livro. Não é bem um romance, é antes uma reportagem, mas a história contada é tão inacreditável que mais parece um romance. Melhor dizendo, pode-se supor algumas poucas liberdades criativas, poucas. O grosso da história é verídica. O que lemos é uma série de surpresas, formando um mosaico de imenso efeito. Quando parece vamos respirar, entra em cena de Roberto Bolaño iluminando o relato de uma forma que só lendo.
A célebre Batalha de Salamina ocorreu entre a frota persa de Xerxes I e a grega, comandada por Temístocles. A vitória foi grega e, de certa forma, decidiu o destino da Europa.
Porém, se o título livro de Javier Cercas faz alusão à batalha, a ação de Soldados de Salamina acontece na Espanha, durante a Guerra Civil. O livro vendeu 300 mil exemplares só no país e recebeu todo um leque de prêmios. A história gira em torno da figura real de Rafael Sánchez Mazas, escritor e ideólogo fascista da Falange Espanhola e de como ele escapou do fuzilamento. A Guerra Civil Espanhola estava acabando e as tropas republicanas se retiravam, destruindo pontes e vias de comunicação para se proteger. Sánchez Mazas, prisioneiro dos republicanos, apesar de alvejado em um fuzilamento coletivo, consegue escapar apenas com alguns furos na roupa. Quando saem em sua busca… (sim, há pessoas que detestam spoilers). A história é muito bem contada, cheia de digressões, poesia e bom humor.
Sánchez Maza não apenas sobreviveu como tornou-se ministro do ditador Francisco Franco. Na primeira parte temos uma pesquisa-reportagem onde conhecemos a história de Sánchez Mazas e na segunda uma reportagem, tudo escrito com grande beleza literária. O texto de Cercas é prazeroso e grudento. Como um repórter gonzo, Cercas se coloca na história. Conhecemos até sua namorada, talvez a única personagem fictícia do livro, mas não podemos afirmar com certeza… Na segunda parte, também entra no relato o escritor Roberto Bolaño, amigo de Cercas. O chileno deu-lhe muitas sugestões e direcionamentos.
Sánchez Mazas era um literato, um escritor nascido em uma família tradicional que, inspirado pelas ideias fascistas que conhecera na Itália, participou da fundação da Falange Espanhola e trabalhou ativamente na divulgação de suas ideias. Cercas conheceu sua história através do próprio filho do falangista. Ficou obcecado, escreveu a reportagem, mas depois Roberto Bolaño lhe diz que talvez conheça um anônimo que participou do fuzilamento como atirador. E nova busca é empreendida.
Talvez aqui tenhamos outro personagem fictício, mas novamente não podemos garantir. O fato é que Miralles, o tal atirador, é absolutamente sedutor e tem uma incrível cara de personagem de Bolaño.
Recomendo fortemente.
Javier Cercas: obra-prima | Foto: Divulgação
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Compre o livro na Livraria Bamboletras, na Av. Venâncio Aires, 113. Ah, não mora em Porto Alegre? Use o WhatsApp 51 99255 6885. A gente manda! Compre de livrarias com curadoria.
Mario Cardoso é um ator de meia-idade que decide montar uma versão do Rei Lear de Shakespeare. Ele faz o papel principal. O que era para ser uma volta por cima acaba se transformando num tiro no pé e a montagem vira um absoluto fracasso. A plateia ronca, os críticos não. Com o malogro artístico da empreitada e os teatros vazios, Mario reage paradoxalmente e começa a ter ataques de riso em momentos dramáticos da peça. O desastre, que é também financeiro, faz com que Cardoso relembre sua carreira: os sucessos no teatro, a fama gerada pela TV, o cansaço da rotina de gravações, a decadência, a aceitação de papéis periféricos, o garoto-propaganda… Paralelamente, sua mãe está com algum tipo de demência e ele é chamado a intervir.
O romance percorre o histórico recente do teatro e das novas formas de entretenimento no Brasil. A forte presença da política nas peças dos anos 60, o Cinema Novo, as pornochanchadas, a TV com suas novelas e séries, etc. O texto relaciona claramente o contexto histórico e a produção artística brasileiros. E, com Mario caminhando à beira do precipício, as situações tornam-se tragicômicas e inusitadas.
Com a imensa experiência teatral de sua família, a autora narra com firmeza a ascensão e queda de Mario. Faz claras referências a emissoras de TV e a figuras reais do mundo artístico, mas creio que Mario viva apenas na imaginação de Fernanda. O tom é coloquial e jocoso, nada indulgente. Fernanda não se apaixona pelo personagem principal, muito pelo contrário, trata-o de mal a pior.
Sabemos que tudo tem um fim, tudo sucumbe a circunstâncias sempre diversas para cada caso. Deste modo, é normal que as crônicas realistas de decadência resultem em boa literatura e que a queda e a ruína exerçam maior sedução sobre as pessoas do que a ascensão e o sucesso. Thomas Mann, Kafka, Tchékhov e a família Romanov não me deixam mentir. As várias formas da degradação sempre interessaram o público leitor e o “caso” de Mario Cardoso — com pitadas de vaidade, sexo, dinheiro, erros e burrice — faz-nos grudar no livro de Fernanda.
O narrador é o próprio Mario, um sujeito bem brasileiro, um individualista que age de acordo com o mercado e que pode saltar fronteiras ideológicas sem grandes problemas. É uma delícia perseguir as referências culturais utilizadas por Fernanda. De forma enviesada, temos lá a Rede Globo, o SBT, a Record e suas novelas evangélicas, além de alguns bem-conhecidos diretores de cinema, teatro e atores.
A Glória também traça paralelos trágicos entre as loucuras do Rei Lear e de Macbeth. O bobo da corte de Lear parecia saber mais do que o Rei, assim como as bruxas de Macbeth. Sabemos que esses personagens shakespeareanos demonstram maior intuição e sabedoria do que os personagens principais das peças. E suas percepções são ignoradas. No livro de Fernanda, o personagem Jackson parece servir de aviso a Mario mostrando-lhe, como Shakespeare escreveu em Troilus e Créssida, que “o orgulhoso se devora a si mesmo”.
O final do romance é surpreendentemente bonito, mas erra feio quem pensar numa redenção. Fernanda não dá chance.
Recomendo.
Fernanda Torres: força narrativa e certo ódio | Divulgação
Arthur perdeu o emprego em Porto Alegre. Acontece que plantava maconha em sua casa. No início, a produção tinha fins medicinais — ele apenas desejava diminuir as dores da mãe que sofria de câncer no útero. Porém, após a morte dela, Arthur seguiu produzindo para uso pessoal. Um dia, foi denunciado e a polícia chegou fazendo confusão. O fato foi para os jornais e Arthur, professor de História num colégio particular, acabou demitido. Afinal, não ficaria bem para a instituição manter um professor com esta “mácula” no currículo.
Então, em vez de estudar para fazer concursos ou um doutorado, ele procura recomeçar a vida nos EUA, no condado de Mendocino, norte da Califórnia. Esta região é uma das maiores produtoras de maconha nos EUA. O produto, legalizado para uso recreativo em 2016, movimentara um comércio ilegal de 23,3 bilhões de dólares em 2015. Neste mesmo ano, foram apreendidos quase três milhões de pés de maconha na Califórnia.
Tem na Livraria Bamboletras Rua General Lima e Silva, 776 Lj 3 Aberta diariamente das 10 até às 22h. Encomendas pelo tel. 51 3221 8764 ou pelo e-mail [email protected]
Talvez buscando correspondência com o produto-tema do livro, o texto de Bensimon é descansado e envolvente. O livro parece uma série de crônicas que contam uma história interessantíssima. O cruzamento de temas e a riqueza de detalhes resulta em um bem-realizado e ambicioso projeto, que combina ficção, tese e história. A narrativa está organizada entre a vida californiana e porto-alegrense de Arthur. Também há capítulos dedicados a personagens locais — reais e fictícios — que dão sentido à luta política e cultural que marcou a descriminalização.
Carol, indo e vindo temporalmente, vai construindo a complexa teia de informações e influências que formam o panorama da região. O livro é tanto uma história pessoal, como um retrato muito sedutor do que sobrou da geração hippie, assim como uma inteligente defesa da descriminalização da maconha. Também temos belos retratos do segundo grupo de personagens: o velho Dusk, a solitária Sylvia e Tamara, a namorada norte-americana de Arthur.
Mendocino é um local rural, pouco povoado e nada conservador. Também há um curioso conflito de gerações, onde os velhos são pessoas da contracultura dos anos 60 e 70 que buscaram modos de vida alternativos — Orgulhoso de ser tudo o que a direita odeia, diz um adesivo na lataria de um carro –, e que acabam por sugestionar os mais jovens, mesmo que seja apenas para criar um Airbnb numa antiga comunidade hippie.
Com tantos temas disponíveis e tendo feito vasta pesquisa, Bensimon acerta ao utilizar capítulos curtos, às vezes até intercambiáveis, criando uma bonita estrutura rarefeita, brilhante e original retrato da geração hippie e de seu legado.
Para criar O Clube, Carol pesquisou por três anos e viveu seis meses no Condado de Mendocino, onde alugou uma cabana na zona rural. Seus outros livros de ficção são Pó de Parede (Não Editora, 2008), Sinuca embaixo d’água (Companhia das Letras, 2009) e Todos nós adorávamos caubóis (Companhia das Letras, 2013).