Mudança, de Mo Yan

Mudança, de Mo Yan

Maravilhoso livrinho agridoce do chinês Mo Yan. Mudança só é passível de ser encontrado em sebos porque se trata de uma edição da pranteada Cosac Naify. Uma pena.

Bem, Mo Yan é um mestre. Mudança é um livro de memórias. Porém, além de lançar flashes biográficos com muito humor, o autor se propõe a mostrar algumas mudanças ocorridas na China durante a segunda metade do século XX. Digamos que ele vai da revolução à corrupção (última linha do livro).

Alternando com histórias de dois colegas de escola, Mo Yan cria um retrato singular e simpático da vida na China. Retrato singular e simpático da DIFÍCIL vida na China. É curiosa a participação que dois caminhões soviéticos Gaz 51 têm na narrativa. Delicadamente, em tom menor, Yan conta sem ênfases ou dramas como saiu do campo para o quartel e depois para a literatura.

Em 2012, Mo Yan (1955) se tornou o primeiro cidadão chinês a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Ele nasceu na província de Shandong, numa família de trabalhadores rurais. Deixou a escola durante a Revolução Cultural e, com 20 anos, alistou-se no Exército Popular de Libertação, as forças armadas do país. Nessa época começou a escrever. Seu pseudônimo foi escolhido logo no início da carreira e significa “não fale”. Numa entrevista recente explicou que o nome se refere ao período revolucionário da década de 1950, quando seus pais o instruíam a não falar tudo o que pensa quando em público.

A Cia. das Letras publicou faz poucos anos o também elogiadíssimo As Rãs.

Mo Yan: mestre.

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Um Outro Amor (Minha Luta 2), de Karl Ove Knausgård

Um Outro Amor (Minha Luta 2), de Karl Ove Knausgård

Neste segundo volume, lá perdido no texto, Knausgård diz que “apenas está tentando ser uma pessoa decente”. E céus, como é complicado! É óbvio que a tentativa dele me atinge profundamente, página a página, linha a linha. Difícil largar o livro. E aí a gente entende porque o título geral da obra é “Minha Luta”. 5 livros já foram traduzidos. Falta o sexto.

Impressiona a enorme capacidade do autor em transformar a vida comum em grande literatura. Além disso, a semelhança que vejo entre os pensamentos, modos, atitudes da criança, adolescente e adulto lá na fria Noruega e eu e as pessoas que conheço aqui no Brasil me deixam muito pensativo.

Depois de A Morte do Pai, neste segundo livro de sua autobiografia precoce, Karl Ove Knausgård está vivendo o início de seu segundo casamento e terá três filhos com Linda, uma poetisa sueca com aspirações à atriz pela qual teve súbita paixão. No volume, ele dá novo salto no tempo, indo direto para o período posterior ao final do primeiro casamento, quando decide sair da Noruega e ir morar na Suécia, praticamente de um dia para o outro.

Mas nada é tão fácil quanto parece. O casal discute e se irrita muito, a existência dos filhos muda suas vidas e os pressiona de todos os modos. Todos os problemas conjugais são descritos com a habitual franqueza do autor, que se irrita com a mulher e as crianças, que quer muitas vezes se isolar, que sofre humilhações que só ele nota…

Há também problemas de adaptação ao novo país. O autor chama os suecos de estúpidos, pensa que o politicamente correto adotado pelo país, com suas regras e posturas sociais, sufocam a individualidade. Knausgård é muitas vezes visto como um selvagem, tão notáveis são as diferenças entre as posturas norueguesas e suecas.

Este volume consegue o milagre de ser ainda mais fluido que o primeiro. Há muitos e bons diálogos, tanto entre o casal como entre seu melhor amigo Geir e grupos de amigos. Aliás, a arte de Knausgård torna bons quaisquer diálogos.

Também permanecem as digressões e saltos no tempo. Como “Em busca do tempo perdido” é impossível prever como será o próximo capítulo. O que novamente surpreende é a narrativa sem reservas — sem a menor intenção de esconder eventuais pontos escuros, egoístas e violentos — e a onipresença de fatos onde o autor decididamente não brilha.

O motivo do sucesso internacional? Ora, os temas são universais e humanos, narrados com notável franqueza, expondo a si, a mulher, os filhos e os amigos de uma forma pouco usual. Quem não morre de amor por seus filhos, ao mesmo tempo que se vê sufocado por eles, quem não se desespera? Knausgård descreve tudo isso com ritmo, fazendo-nos mergulhar em vidas completas, profissionais e íntimas. Dele e dos amigos.

O título sugere algum enredo romântico e ele existe. Ele, a dor, as hesitações, as idas e vindas preenchem cada espaço.

Recomendo fortemente.

Karl Ove Knausgard e sua esposa Linda | Fotos: Divulgação

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Tchékhov esteve no inferno e voltou para contar

Tchékhov esteve no inferno e voltou para contar

Do publico.pt

Tchékhov na ilha de Sacalina, em 1890: o escritor deixou a família e os amigos estupefactos ao anunciar uma viagem à temível colónia penitenciária do regime czarista

A perigosa viagem de Tchékhov ao lugar maldito do Império do Czar, para estudar a vida dos condenados a trabalhos forçados, mantém-se episódio mais estranho da vida do grande autor russo. “A Ilha de Sacalina” acaba de ser publicado (também no Brasil).

Em 1889, com o agravamento dos seus sintomas de tuberculose, o ainda jovem médico Tchékhov (1860-1904) – então já um conhecido autor nos meios literários russos – torna-se pessimista em relação ao seu estado de saúde. Nesse ano, morre-lhe um irmão vitimado pela mesma doença. Após assistir ao enterro, Tchékhov decide iniciar uma série de viagens aparentemente sem rumo (segundo disse mais tarde, essa constante mudança de ares salvou-lhe a vida). Mas é em Janeiro do ano seguinte que deixa a família e os amigos estupefactos, ao anunciar uma viagem ao longínquo Leste da Rússia, à temível colónia penitenciária dos desterrados do Império Czarista, no oceano diante da costa siberiana, a ilha de Sacalina. “Em redor o mar, no meio o inferno.”

Tchékhov prepara a viagem durante meses. Procura toda a informação disponível e lê o que encontra escrito pelos exploradores, quer sejam geógrafos, agrónomos, cartógrafos ou navegadores. O amigo e editor Suvórin empresta-lhe os rublos necessários para essa viagem arriscada e perigosa. Por essa época, ainda não existia o comboio transiberiano, e a viagem teria de ser feita de carruagem puxada por cavalos através da taiga e das estepes; o barco até à ilha seria a parte mais fácil. Contava demorar 30 dias de carruagem e o resto na “coberta de um navio”. Mas as coisas não correram assim: entre inesperadas paragens e incidentes, demorou 11 semanas a chegar ao porto onde subiria a bordo do barco que o levaria à ilha. É nessa cidade de Nikolaievsk, onde os habitantes vivem na “indolência e na bebedeira”, que ele inicia a narrativa, a 5 de Julho de 1890. Espera três dias até que o barco levante ferro: durante um almoço, ouve falar de um prestidigitador que chegou à cidade e de “um japonês que arranca os dentes com os dedos”. Mas as primeiras impressões a bordo parecem anunciar bons presságios: “Farto de leituras que só me falavam das tempestades e dos gelos, esperava encontrar a bordo caçadores de baleias com vozes roucas e a cuspirem tabaco de mascar; no entanto, só encontrei pessoas de estatuto social bem elevado.”

Mas não sabia o que o esperaria, apesar das muitas leituras. O seu espírito mantinha-se alerta e receptivo ao que os ventos e as ondas lhe trouxessem. O motivo da viagem era estudar o sistema prisional de modo científico, pagando assim, acreditava, o tributo que devia à medicina, outra das suas paixões para além da literatura. No entanto, receia ter cometido uma frivolidade, pois não leva cartas de recomendação, ou de autorização, apenas um documento que o apresenta como jornalista, mas do qual ele nunca fará uso pois não é sua intenção escrever alguma coisa do que vir em jornais. Passados três dias de mar, aproxima-se da ilha. Aquilo é “terra incógnita”. “O sentimento que se apossa de nós é sem dúvida semelhante ao de Ulisses, ao navegar num mar desconhecido e pressentindo vagamente que ia encontrar seres fabulosos.”

Um rebanho numa cloaca

Desembarca no Norte da ilha, sabe que “Sacalina não tem clima, só mau tempo”. Mais tarde consultará os registos meteorológicos para ficar a saber que a temperatura média anual da região é de 0,1º centígrados. Nos primeiros tempos fica hospedado em casa de um médico “parecido com Ibsen” que não gosta das autoridades da ilha.

Tchékhov consegue então obter autorização do governador para visitar todos os presídios e falar com os prisioneiros e os condenados a trabalhos forçados, à excepção dos presos políticos. Manda então imprimir dez mil exemplares de um questionário que ele próprio idealizou e mete mãos (e pés) ao trabalho. Percorre as partes Norte e Sul da ilha durante cerca de três meses. Não se limita aos inquéritos que faz aos presos e às suas condições. O livro, que são as suas notas de viagem, apresenta descrições da flora, da fauna, dos tipos de solos, das vias de comunicação, das paisagens, do quotidiano das populações (incluindo as nativas), da hipocrisia e da incúria dos funcionários, do sistema de servidão aproveitado pelos colonos, etc. E conclui que tudo é deplorável e pouco melhor do que o tratamento que é dado aos condenados. “(…) numa cela exígua onde se encontram uns vinte evadidos recentemente recapturados: esfarrapados, sujos e acorrentados, trazem nos pés sapatos disformes atados com trapos ou cordas; de um lado do crânio têm cabelos desgrenhados; do outro, os cabelos rapados há alguns dias já começam a crescer. Estão todos muito magros – parecem animais na muda da pele.”

Mas o “investigador” é também já o escritor; as histórias narradas, no seu estilo conciso, interrompido de vez em quando para introduzir descrições e reflexões, trazem agarradas as personagens tchekhovianas – alguns dos casos descritos são autênticos contos. Nos retratos que faz, quer de carcereiros, funcionários ou prisioneiros – os que vivem “esta vida de rebanho encerrado numa cloaca” – está já o Tchékhov da crítica social, o denunciador de injustiças, o que se insurge contra a “desproporção das penas em relação aos crimes”, como notam os tradutores (trabalho exímio) no interessante e informado prefácio que escreveram.

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Os 100 anos da Revolução Russa em seus artistas (III): Mikhail Bulgákov, o homem que recebia ligações de Stálin

Os 100 anos da Revolução Russa em seus artistas (III): Mikhail Bulgákov, o homem que recebia ligações de Stálin

Stálin tinha real interesse por arte, costumando ir a concertos, óperas e peças de teatro. Foi ele, pessoalmente, quem assistiu, reprovou e fez proibir uma ópera de Shostakovich, por exemplo. Também assistiu quinze vezes — não é exagero — à peça Os Dias dos Turbin, de Mikhail Bulgákov. Simplesmente adorou. Stálin também costumava telefonar de madrugada para assessores e outras pessoas quaisquer com quem tivesse assuntos a tratar. Sofria de insônia e, com sua fama, é claro que assustava quem recebia as ligações. Telefonou uma vez para Bulgákov após este lhe enviar quase uma centena de cartas pedindo permissão para emigrar. A lenda diz que foram várias ligações, mas uma aconteceu com certeza.

O conteúdo desta ligação é bem conhecido. Bulgákov ficou com medo e teve receio de insistir quando Stálin disse que preferia que ele permanecesse na URSS. O líder prometeu-lhe um emprego em um teatro, o que acabou acontecendo. Assim ele encontrou trabalho no Teatro da Juventude de Trabalho de Moscou (TRAM), e depois no Teatro de Arte de Moscou. Neste século, o dramaturgo espanhol Juan Mayorga escreveu uma peça que começa com o famoso telefonema de Stálin para Bulgákov, chamada Cartas de Amor para Stálin.

Leia mais:
— Os 100 anos da Revolução Russa em seus artistas (I): Dmitri Shostakovich
— Os 100 anos da Revolução Russa em seus artistas (II): Serguei Prokofiev

Anos depois da conhecida ligação, Bulgákov tentou se tornar um escritor “soviético”, dentro dos padrões do realismo socialista. Em 1939, ele começou a trabalhar em uma peça laudatória ao líder. Mas Stálin, ao ler os esboços, parece não ter ficado satisfeito e, sem falar com o autor, indiretamente proibiu Bulgákov de terminá-la, não permitindo o acesso do escritor e de sua esposa aos arquivos em Batumi, cidade georgeana onde Stálin iniciou sua vida política. A peça era cheia de clichês socialistas, nada era vivo. E o Secretário-Geral sabia como Bulgákov podia escrever.

Nós também. Bulgákov morreu em 1940 e sua maior obra, O Mestre e Margarida, veio a público somente em 1966-67. Ou seja, ela permaneceu desconhecida de seus contemporâneos. Mas ele já tinha publicado peças de teatro e outras obras em prosa, como as extraordinárias novelas Os Ovos Fatais e Um Coração de Cachorro. Sua arte é de absoluto virtuosismo. Se o campo onde se sente melhor é o da sátira corrosiva, ele também sabia descrever cenários bíblicos, como fez em partes de O Mestre.

Mikhail Bulgákov (1891-1940) nasceu em Kiev, na Ucrânia, que era então parte do Império Russo. Ele foi o primeiro filho de Afanasiy Bulgákov, professor da Academia Teológica de Kiev. Seus avôs eram clérigos da Igreja Ortodoxa Russa. Em 1916, formou-se médico na Universidade de Kiev e depois, junto com seus irmãos, alistou-se no Exército Branco. No início da Primeira Guerra Mundial, como médico voluntário na Cruz Vermelha, foi imediatamente enviado para o front, onde foi gravemente ferido em duas ocasiões.

Após a Guerra Civil, com a derrota dos brancos e a ascensão do poder dos soviéticos, sua família emigrou para o exílio em Paris.  Apesar de sua situação relativamente privilegiada durante os primeiros anos da Revolução, Bulgákov viu-se impedido de emigrar da Rússia devido a um insistente tifo. Nunca mais viu sua família.

As lesões da guerra tiveram graves efeitos sobre sua saúde. Para aliviar sua dor crônica, especialmente no abdômen, foi-lhe administrada morfina. Ficou viciado, mas parou de injetá-la em 1918. O livro Morfina, publicado em 1926, atesta a situação do escritor durante esses anos. Em 1919, ele decidiu trocar a medicina pela literatura.

Elena Shílovskaya

Em 1932, Bulgákov casou-se com Elena Shílovskaya, que seria a inspiração do personagem Margarida de sua novela mais famosa. Durante a última década de sua vida, Bulgákov trabalhou em O Mestre e Margarida, além de escrever peças, fazer revisões, traduções e dramatizações de romances. Alguns foram para o palco, outros não foram publicados e ainda outros foram destruídos.

Para quem hoje lê Bulgákov, o fato do escritor não apoiar o regime comunista é apenas uma informação complementar. O que interessa é que ele foi o mais brilhante dos gozadores, dos zombeteiros. O autor ria da burocracia e dos governantes. Porém, como dissemos acima, Stálin adorava de uma de suas peças. Não obstante o amor do chefe, o escritor suportou grande assédio da NKVD, que chegou a procurá-lo em casa e prendeu-o em mais de uma ocasião.

Muitas evidências sobreviveram sobre a atitude do escritor em relação ao poder soviético na década de 1920.  Entre eles há artigos na imprensa branca e materiais de interrogatórios. Porém, curiosamente, os brancos o criticavam por ser pró-revolução e os revolucionários pelo motivo contrário. Para os comunistas, sua arte era um “brancovanguardismo” e ele seria um “reacionário social”; para os brancos, ele seria apenas um vendido. É curiosa a posição de admiração de Stálin, apesar da polêmica. Muitos escritores que não apoiaram a liderança de Stálin foram presos. Bulgákov não.

Bulgákov morreu de um problema renal em 1940, aos 48 anos.

Dois assessores do diabo numa escultura em Moscou: o gato Behemoth e Korovin com seu monóculo quebrado

Em vida, Bulgákov ficou conhecido principalmente pelas obras com as quais contribuiu para o Teatro de Arte de Moscou de Konstantín Stanislavski. Foram muitas comédias e adaptações de romances para o teatro, casos, por exemplo, de Dom Quixote e Almas Mortas. Bulgákov também escreveu uma comédia grotesca fazendo com que Ivan, o Terrível, aparecesse em Moscou na década de trinta. Um sucesso.

Em meados de 1920, Bulgákov conheceu os livros de H. G. Wells e, profundamente influenciado, escreveu várias histórias com elementos de ficção científica. Um exemplo é a extraordinária novela Um Coração de Cachorro, onde Bulgákov critica abertamente — e com impressionante cinismo e ironia — a primeira década do poder soviético. Outro é a hilariante Os Ovos Fatais.

Morfina merece menção especial. Trata-se do diário de um companheiro do protagonista, o médico Poliakov. É uma crônica da autodestruição, escrita em termos perturbadores. Ele escreve no início do livro: “Eu não posso ajudar a louvar quem primeiro extraiu a morfina das cabeças das papoulas”. No mais, é uma história clínica escrita por um mestre. “Como viciado, eu declararia que o ser humano só pode funcionar normalmente após uma injeção de morfina, mas eu era médico”.

A grande obra-prima

A novela satírica O Mestre e Margarida, escrita para a gaveta, sem chances ou tentativas de publicação durante sua vida e que foi publicada por sua esposa vinte e seis anos após a morte do escritor, certamente lhe garante a imortalidade literária. Por muitos anos, o livro só pôde ser obtido na União Soviética como samizdat, antes de sua aparição por capítulos na revista Moskva. É o grande romance do período soviético e que contribuiu para criar várias expressões do dia a dia russo.

Sabem aqueles livros que valem por cada palavra? Que é engraçado, profundo, social, histórico, existencial e grudento? Pois O Mestre e Margarida satisfaz todas as condições acima. A influência do livro pode ser medida pelo reflexo da obra não somente na cultura russa, mas na mundial. O livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, tem clara e confessa influência de Bulgákov; a letra da canção Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, foi escrita logo após Mick Jagger ter lido o livro, assim como Pilate, do Pearl Jam, e Love and Destroy da Franz Ferdinand, a qual é baseada no voo de Margarida sobre Moscou. Mas nem só a literatura e o rock homenageiam Bulgákov: o compositor alemão York Höller compôs a ópera Der Meister und Margarita, que foi apresentada em 1989 na ópera de Paris e lançada em CD em 2000.

A recente e excelente edição da 34.

O romance começou a ser escrito em 1928. Em 1930, o primeiro manuscrito foi queimado pelo autor após ver censurada outra novela de sua autoria. O trabalho foi recomeçado em 1931 e finalizado em 1936. Sem perspectiva alguma de publicação, Bulgákov dedicou-se a revisar e revisar. Veio uma nova versão em 1937 e ainda outra em 1940, ano de sua morte. Na época, apenas sua mulher sabia da existência do romance.

Uma versão modificada e com cortes da censura foi publicada na revista Moscou entre 1966 e 1967, enquanto o samizdat publicava a versão integral. Em livro, a URSS só pôde ler a versão integral em 1973 e, em 1989, a pesquisadora Lidiya Yanovskaya fez uma nova edição — a que lemos atualmente — baseada em manuscritos do autor.

Uma amiga russa me escreve por e-mail: “Eu tinha uma colega de quarto que lia apenas O Mestre e Margarida. Ela terminava e voltava ao início. E dava gargalhadas e mais gargalhadas. Na Rússia o livro foi tão lido que surgiram expressões coloquiais inspiradas por ele. A frase dita por Woland, Manuscritos não ardem, é usada quando uma coisa não pode ou não será destruída. Outra é Ánnuchka já derramou o óleo, para dizer que o cenário de uma tragédia está montado”.

As cenas de Pôncio Pilatos, a do teatro, a do belíssimo voo de Margarida e a do baile são citadas aqui e ali com enorme admiração. E a fama é justa.

A ação do romance ocorre em duas frentes, alternadamente: a da chegada do diabo a Moscou e a da história de Pôncio Pilatos e Jesus, com destaque para o primeiro. O estilo do romance varia espetacularmente. Os capítulos que se passam em Moscou têm ritmo vivo e tom de farsa, enquanto os capítulos de Jerusalém estão escritos em forma clássica e naturalista. Em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Korovin — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno Azazello e a bruxa Hella, sempre nua.

Arte: Elena Martynyuk

Moscou surge como um caos: é uma cidade atolada em denúncias e na burocracia, as pessoas simplesmente somem e há comitês para tudo. No livro, o principal comitê é uma certa Massolit (abreviatura para sociedade moscovita de literatura, que também pode ser interpretada como literatura para as massas) onde escritores lutam por apartamentos e férias melhores. Há também toda uma incrível burocracia, tão incompreensível quanto as descritas por Kafka, mas que formam uma atordoante série de cenas hilariantes.

Naquela Moscou o diabo está em casa e podem deixar tudo com ele, pois Woland e sua trupe demonstram notável criatividade para atrapalhar, alterar, sumir e assombrar. O escritor Bulgákov responde sempre à altura das cenas criadas. A cena do teatro onde é distribuído dinheiro e a do baile — há ecos dos bailes dos romances de Tolstói — são simplesmente inesquecíveis. Falei em Tolstói, mas a base de criação de Bulgákov é outro cômico ucraniano: Gógol.

O livro pode ser lido como uma comédia de humor negro, como alegoria místico-religiosa, como sátira à Rússia soviética ou como crítica à superficialidade das pessoas. Há mais pontos bem característicos: Bulgákov jamais demonstra nostalgia da Rússia czarista — apenas da religião — e Woland não está em oposição direta a Deus. Ele é como um ser que pune os maus e a covardia — é frequente no livro a menção de que a covardia é a pior das fraquezas. E as punições de Woland são criativas, desconcertantes.

Em 2006, o Museu Bulgákov, em Moscou, foi vandalizado por fundamentalistas. O museu fica no antigo apartamento de Bulgákov, ricamente descrito no romance e local dos mais diabólicos absurdos. Os fundamentalistas alegavam que O Mestre e Margarida era um romance satanista.

Mikhail e sua Margarida

Nas imagens finais de O Mestre, Mikhail Bulgákov dá uma dura avaliação do mundo que encontrou. Ele seria infernal e sem esperança. Era óbvio que as tentativas de se tornar parte do mundo soviético falharam. Ele não entendia aquele novo idioma.

Obs.: A tradução de Zoia Prestes, para a Alfaguara, é bastante superior à antiga, lançada lá por volta de 1993 pela Ars Poetica. Mas a mais recente, de Irineu Franco Perpétuo, para a Editora 34, é ainda melhor.

~ Curiosidades ~

A venda da alma

Sabe-se que Bulgákov foi muitas vezes ao Bolshoi para ver e ouvir a ópera Fausto, de Charles Gounod. Esta ópera sempre o animava, ele voltava feliz para casa. Mas, um dia, Bulgákov voltou do teatro em estado muito sombrio. Ele tinha começado a escrever sua peça sobre Stálin, Batumi. Bulgákov reconheceu-se na imagem de Fausto. Como escrevemos acima, a peça jamais foi concluída por ter sido indiretamente reprovada por Stálin.

Personagem desaparecido

Em 1937, nos 100 anos de aniversário da morte de Pushkin, vários autores apresentaram peças dedicadas ao poeta. Entre elas, havia uma de Bulgákov. Alexander Pushkin distinguia-se das obras de outros autores pela ausência do personagem principal. Bulgákov acreditava que a aparição do homenageado no palco tornaria tudo vulgar e insípido. Sua peça foi considerada a melhor daquele ano.

Tesouro

No romance A Guarda Branca, Bulgákov descreveu com bastante precisão a casa em que morara em Kiev. Lá, haveria um tesouro. Os novos proprietários da casa quase a derrubaram, quebrando paredes ao tentar encontrar o dinheiro descrito no romance. É óbvio que não encontraram nada e ainda ficaram irritados com o escritor.

História de Woland

Woland recebeu seu nome a partir do Fausto de Goethe. No Fausto, ele é citado apenas uma vez, quando Mefistófeles pede para que espíritos malignos abram espaço pois “O nobre Woland está chegando!” Em outros Faustos ele aparece como Faland ou Phaland. A primeira edição de O Mestre continha uma descrição detalhada (15 páginas manuscritas) de Woland. Esta descrição está perdida. Além disso, na versão inicial, Woland era chamado Astaroth (um dos demônios mais altos do inferno, de acordo com a demonologia ocidental). Mais tarde, Bulgákov o substituiu.

O protótipo de Behemoth

Em russo, diz-se Begemot. O ultrafamoso assistente de Woland tinha um protótipo real, só que este não era um gato, mas um cachorro: o grande cão preto de Bulgákov chamava-se Behemoth. Esse cachorro era muito inteligente. Uma vez, quando Bulgákov estava comemorando o Ano Novo com sua esposa, logo após o relógio de parede dar doze badaladas, o cachorro também latiu 12 vezes, embora ninguém lhe tivesse ensinado.

Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons

Memória

Desde os primeiros anos de vida, Bulgákov demonstrou possuir uma memória excepcional. Lia muito. Diz a lenda que ele leu tantas vezes o romance Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que o sabia de cor.

Coleção

Bulgákov tinha todos os ingressos de teatro — peças, ópera e concertos — a que compareceu.

Crítica soviética

O escritor também colecionava, coladas em um álbum, recortes de jornais e revistas com críticas de suas obras. Dava ênfase às mais devastadoramente hostis. De acordo com Bulgákov, ali havia 298 críticas negativas e apenas 3 elogiosas.

Defesa de Stanislavski

A primeira produção no Teatro de Arte de Moscou de Os Dias dos Turbin foi garantida por Konstantín Stanislavski. Ele simplesmente afirmou que, se a peça fosse banida, fecharia o teatro.

Stálin e Os Dias dos Turbin

Stálin gostava muito da peça e assistiu-a peça pelo menos 15 vezes, aplaudindo com entusiasmo desde o camarote destinado a membros do governo. Oito vezes ele desceu para falar com os artistas após a peça, a fim de incentivar a necessidade da luta política na literatura.

Uma das últimas fotos. Mikhail Bulgakov, com sua esposa Elena Shilovskaya

(*) Com pesquisa de Elena Romanov

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXIV – Anna Kariênina, de Liev Tolstói

KariêninaEm meio a leitura fiz a seguinte anotação:

Li rapidamente um terço do livro de 814 páginas. Incrível como minha lembrança do romance era distorcida. É ainda melhor do que eu lembrava. Tolstói não é aquele estilista perfeito — usa estranhas pontuações e repete palavras tal como o tradutor Rubens Figueiredo (excelente) referiu no prefácio. Por exemplo, nas páginas 241-242 há um parágrafo de quase uma página onde a palavra “camponeses” aparece 15 vezes. Sem problemas, o homem sabe contar uma história como ninguém. Tais repetições não revelam descaso com o texto. Tolstói era um escritor cuidadoso, revisava muitas vezes seus textos que depois eram passados a limpo à noite por sua mulher. Ele usa as repetições em seu hábil discurso livre indireto, inserindo-se nas idiossincrasias e vícios de linguagem dos personagens.

Outra coisa é que as descrições nunca são contadas sem o filtro e a emoção de um personagem. Não são descrições mortas, sem ação, Tolstói integra tudo, fica lindo. Vemos a propriedade de Liêvin enquanto o mesmo sofre e trabalha nela. Nada para, tudo narra.

Esta tremenda obra de arte muito bem planejada é cheia de pequenos detalhes significativos. Há dois personagens principais, Liêvin e Anna. Em torno deles gira toda a ação, com apenas dois ou três pontos de contato mais claros, Kitty, Oblónski e sua mulher Dolly. Duas perspectivas da mesmíssima Rússia. Um painel? Sim, mas um painel de câmara, sem e com maior grandiosidade do que em Guerra e Paz.

Tal como na primeira leitura, que fiz aos 17 anos, o bovarismo de Anna me parece mais antipático do que o da heroína de Flaubert, mas sua impulsiva irreflexão é um dos pontos altos do romance. Uma coisa de que não lembrava era da ironia de frases que se contradizem em grande parte do romance. Às vezes umas contra as outras, às vezes internamente.

(Paixão de outros: estou num banco para falar com uma gélida gerente de contas. Ela se levanta para ver se um cartão está na agência. Quando volta, interrompe arregalada o ato de sentar. Fica suspensa olhando para o livro de Tolstói e me diz lenta e saborosamente: Anna Kariênina… eu simplesmente amo esse livro! Senta-se e começa a falar comigo com se fôssemos velhos amigos).

.oOo.

Bem, alguns dias após a leitura, procurando olhar o livro com impossível distância — durante um mês travei de grande intimidade com todos aqueles russos e não dá para negar que me envolvi com eles… — , dá para notar que a obra-prima de Tolstói funciona como um Gioco delle coppie (Jogo das Duplas). A narrativa vai todo o tempo em dois focos: de Anna-Vronski para Liévin-Kitty e de volta para Liévin para Anna. Mas há também Moscou e São Petersburgo (Moscou parece São Paulo; Petersburgo, Rio de Janeiro…), Vronski e Kariênin, os dois filhos de Anna, o campo e cidade, Aglaia e a modenidade. E podemos formar outras duplas contrastantes entre Liévin e seus irmãos, Anna e Kitty, etc.

Além da boa e famosa trama, da extrema habilidade de Tolstói como narrador — que se manifesta de forma espetacular quando das crises de Anna e na cena do parto de Kitty –, chama atenção o caminhão de realismo despejado pelo autor sobre seus personagens. Anna está a léguas de poder aspirar a condição de boa pessoa do século XIX ou de qualquer tempo. Na época, ser virtuoso era o que mais contava e ela, passando por cima de Kitty, largando o marido por pura concupiscência (OK, bom motivo), renegando a filha ainda bebê e sendo suscetível a atitudes muito, mas muito impulsivas, está longe da perfeição e muito próxima do que vemos por aí. Tolstói não faz o gesto de justificá-la assim ou assado. O leitor da época devia ter ficado bastante desconfiado… Vronski, o amante, é bem melhor, mas sua entrada no romance é a de um militar bonito (o autor gosta de citar seus dentes perfeitos), vaidoso e bastante chato. Kariênin, o marido traído, é um carola que obedece aos mandamentos divinos e consegue errar em tudo, principalmente na avaliação de si mesmo. Melhor é Liévin, o alter ego das maluquices idealistas de Tolstói que tem consciência de que todos o acham meio louco. Talvez, à exceção de Anna, que vive de amor e de impulsos, seja muita gente bem intencionada vivendo junto.

Oblónski, irmão de Anna, é o brilhante personagem que liga os dois lados do romance, o de Anna e o de Liévin. É um tipo bem Turguêniev: é simpático, tem impecável trato social, trai a esposa sem deixar margem à dúvidas e vive muito feliz, endividado e endividando-se. Mas chega de personagens.

O livro de Tolstói é de açambarcante virtuosismo. As descrições estão totalmente permeadas de humanidade, a trama e os mais mínimos conflitos são construídos com cuidado. As cenas de amor pelo povo e pelo campo, protagonizadas por Liévin, poderiam ser um porre na mão de um escritor médio. Na mão de Tolstói, deixam a gente repleto de literatura.

Não me arrependi de modo nenhum de relê-lo. Foi um bom investimento em 814 páginas perfeitas.

Ah, a tradução do russo de Rubens Figueiredo acompanha pari passu a qualidade de Tolstói.

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O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

Vendedor de Passados AgualusaExcelente livro de José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados tem como narradora principal uma lagartixa. E esta conta a história de Félix Ventura, um negro albino que vende passados para quem não gosta muito do seu. Seus clientes são prósperos empresários, políticos e militares que têm assegurados seus futuros em Angola. Todavia, falta-lhes um passado que possa ser divulgado. O cartão de visitas de Ventura diz: “Dê a seus filhos um passado melhor”. A lagartixa Eulálio acompanha o trabalho de Félix dentro de sua enorme biblioteca, cheia de recortes de jornais e revistas de várias épocas, para consulta. Afinal, o passado tem de ser plausível, se possível colorido e sedutor. Deve ser real, ou quase.

Se a história de Agualusa é boa, a execução é ainda melhor. Sem spoilers, posso dizer que um dia aparece na casa de Félix um estrangeiro que precisa de uma nova identidade, uma identidade angolana. O livro foca-se neste trabalho. Félix arranja-lhe um passado caprichado, que é curiosamente bem complementado pelo cliente. Tudo acaba de forma surpreendente, deixando em pé a narrativa de Agualusa, a qual conta, ao final, com outros narradores. Não é possível  em alguns trechos identificá-los.

Diz Felix Ventura, citando um escritor:

Sou mentiroso por vocação. Minto com alegria. A literatura é a maneira que um verdadeiro mentiroso tem para se fazer aceitar socialmente.

E o próprio Félix acrescenta:

Acho que aquilo que faço é uma forma avançada de literatura. Também eu crio enredos, invento personagens, mas em vez de os deixar presos dentro de um livro dou-lhes vida, atiro-os para a realidade.

É claro que o livro é uma bela fantasia lúdico-poético-política de Agualusa. Ao final do narrativa, há uma súbita e bem construída tensão. Sim, o cliente não tinha tido vida fácil.

O Vendedor de Passados (2004) foi multi-premiado. É um raro livro simples que não é raso, inteligente sem ser pedante, porém, um tanto paradoxalmente, requer atenção para ser degustado adequadamente.

Recomendo!

A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.

José Eduardo Agualusa
José Eduardo Agualusa — fantasia lúdico-poético-política.

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Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo

Caderno de Memórias ColoniaisO impacto deste livro em Portugal foi imenso. Isto deve-se ao fato de que o texto quebrava o mito de certa versão cor-de-rosa que boa parte da sociedade portuguesa seguia cultivando sobre o período colonial africano. Este teria sido muito mais um auxílio ao continente do que violência e opressão… Mas o livro de Isabela Figueiredo vai adiante de meras observações sociológicas, tratando da traição da autora às opiniões e à memória de seu pai, um colonizador daqueles bem típicos. Na verdade, Isabela sempre foi uma loira-negra, permanecendo solidária ao sofrimento dos negros e identificado-se com sua cultura. Seu pai era excelente como pai e a autora o amava, mas havia o lado B do colonizador que podia agredir funcionários e tinha a opinião de que todo e qualquer negro era incapaz de se organizar e era tolo, mesmo que sua pele tivesse sido salva por um deles, seu vizinho.

A autora sabe do que fala. Nasceu em Lourenço Marques, hoje Maputo, e permaneceu no país até alguns dias depois da descolonização. Na verdade, saiu fugida porque os colonizadores estavam sendo perseguidos. É um livro raro porque há pouca informação sobre a vida real nas colônias, mesmo sob a perspectiva dos retornados. e retornadas. Caderno de Memórias Coloniais (Todavia, 180 págs.) nos conta tudo isso em 51 brilhantes textos escritos na primeira pessoa do singular, sem poupar detalhes. O livro reescreve a história oficial, mostrando desde o racismo do dia a dia — nosso íntimo também no Brasil — até às agressões que sofreram os colonos depois do 25 de Abril.

O testemunho de Isabela nos mostra a diferença de tratamento através dos olhos de uma criança que se retirou do país aos 13 anos, também fala da exploração do trabalho — os “pretos do meu pai” — e o medo colonial que gera e justifica a violência.

Há também o sexo. Os colonos gostavam de transar com as negras e as pagavam na frente de seus maridos, humilhando-os. As mulheres dos colonos “compreendiam” tal atração: afinal, as negras estariam mais perto da natureza, teriam a vagina mais aberta (?), fácil e convidativa… Isso era o que elas diziam.

Porém, além de toda a informação, há a excelente escritora que é Isabela Figueiredo. Sua prosa é de primeira qualidade, ao mesmo tempo clara e lírica. Se fosse um livro comum, ficaria como documento. Seu sucesso de crítica e público deveu-se à linguagem de Isabela, que catalisa sentimentos, impulsiona e dá colorido adequado a tudo que é contado.

Recomendo fortemente!

Isabela Figueiredo
Isabela Figueiredo

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O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

Já tivemos Ian McEwan no Fronteiras. Ele comentou um livro seu, Enclausurado, cujo narrador era um feto. Pois o narrador de O Vendedor de Passados é uma lagartixa. E esta conta a história de Félix Ventura, um negro albino que vende passados para quem não gosta do seu. Ou seja, ele prepara e vende árvores genealógicas, criando passados mais amenos e bonitos. Seus clientes são prósperos empresários, políticos e militares que têm assegurados belos futuros em Angola. Todavia, falta-lhes um passado digno. A lagartixa Eulálio vive nas paredes da casa de Félix acompanhando seu trabalho de comerciante. Conta-nos sobre a enorme biblioteca de Félix e dos recortes de jornais e revistas de várias épocas que guarda e consulta. Além disso, ele frequenta lojas de antiguidades e sebos, a fim de buscar inspiração. Afinal, o passado tem de ser plausível, se possível colorido e sedutor. E acaba negociando objetos comprobatórios, pois seu trabalho de “romancista” não vai para as páginas de livros, deve ser real, ou quase.

Vendedor de Passados Agualusa

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXIII — Ao Farol, de Virginia Woolf

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXIII — Ao Farol, de Virginia Woolf

ao_farol_virginia_woolfUm crítico escreveu algo assim: “Li Ao Farol da mesma forma como costumo comer chocolate, pretendendo fazê-lo aos poucos entre outros afazeres, só que logo me deu aquela vontade incontrolável de ler tudo sem parar”. Certamente isso não se deveu a uma trama envolvente, nem a casos românticos para os quais ele precisasse saber do desenlace. E realmente, os livros de Virginia Woolf quase deixam de lado a trama e se fixam nas minúcias humanas, mesmo que a seção central de Ao Farol fale de como uma casa se deteriora. O curioso é que sou um sujeito que pede alguma profundidade dos romances, mas a diluição de VW jamais me incomoda, pois há profundidade de observação — mesmo que seja de coisas secundárias –, assim como qualidade narrativa, clareza estrutural e estupenda criação de personagens.

O livro trata da família Ramsay, casal, oito filhos e agregados em férias. A personagem central é a Sra. Ramsay, uma bela mulher que usa seu charme e trato social para manter a harmonia entre todos. Mas ela parece ser sabotada pelo próprio marido, um homem “do contra” e amargo.

O livro é dividido em 3 capítulos. A janela funciona como uma apresentação dos personagens, temperada pela inteligente e sutil dinâmica de Virginia. Tudo se passa em um só dia na casa de veraneio da família, próxima a um farol que James Ramsay, o filho caçula, deseja muito visitar. Só que a previsão do tempo conspira contra os planos. James alimenta ódio pelo pai, por ele ser tão grosseiro em suas colocações sobre o passeio. O tempo passa, além de mostrar a degradação da casa, revela acontecimentos cruciais na família Ramsay. Já O farol é o momento em que realmente acontece o tão esperado passeio, porém de uma forma muito diferente.

Ao Farol poderia ser um livro denso escrito em insistentes “fluxos de consciência”, mas é leve ao acompanhar o vaivém dos pensamentos, dos medos e vacilações de seus personagens. Estes são mostrados em extrema proximidade no microscópio de Woolf e a compreensão das pessoas é o que vale neste extraordinário romance. Que personagem notável é Lily Briscoe! Que descrições maravilhosas temos do que lhe ocorre enquanto pinta! Não são pensamentos extraordinários ou filosóficos — na verdade, pelo contrário, ela e os outros personagens são intelectuais bastante convencionais, do tipo que se encontra em muitos livros. Pode ser dito que eles não oferecem nada novo, mas um mundo interior muito semelhante ao nosso, com pensamentos completos ou incompletos e livres-associações as mais absurdas.

Excelente tradução de Denise Bottmann para a L&PM.

Recomendo fortemente!

Virginia Woolf

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Tradutor brasileiro de Bolaño defende que narrativa do autor é anti-heroica

Tradutor brasileiro de Bolaño defende que narrativa do autor é anti-heroica

Publicado no site Livraria da Folha em 2010

“Não sei qual deles é melhor: “Os Detetives Selvagens” ou “2666” “, questiona-se Eduardo Brandão, 64, tradutor brasileiro do autor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

O primeiro livro foi o mais difícil para traduzir. Já o segundo, tomou mais tempo, ou melhor, mais de um ano para finalizar o volume.

Lançado um ano após a morte do autor, “2666” é composto por cinco romances, interligados por duas tramas — a busca por um autor recluso e uma série de assassinatos na fronteira México-EUA. Explicado por que a obra conviveu mais de um ano com Brandão.

Em entrevista à Livraria da Folha, ele descreveu como trabalha na tradução de uma obra, comentou sobre o processo narrativo de Bolaño, “que é mais anti-herói do que qualquer outra coisa”, entre outros aspectos. Com cerca de 140 obras traduzidas para a Companhia das Letras, o carioca começou a se dedicar à tradução de obras literárias e de ciências humanas, a partir da década de 1970.

Chegou a trabalhar como repórter do “Correio da Manhã” entre 1966 e 1968. Hoje, tem apreço especialmente pelas literaturas espanhola e hispano-americana contemporâneas.

Livraria da Folha: Bolaño faz com que o leitor sinta-se, em alguns momentos, agoniado com o desaparecimento dos personagens e surpreso com o retorno deles. No “2666”, vários personagens mal se cruzam nas histórias. Enquanto traduzia, você se sentiu perdido ou surpreso com o retorno de algum deles?

Eduardo Brandão: Não, porque eu já tinha traduzido outros romances dele como “Os Detetives Selvagens” (2006) e ele usa esse mesmo recurso. De certa maneira, ele [Bolaño] reproduz muitas vezes o que acontece na vida da gente. Você cruza com uma pessoa, conversa, conhece, de repente você nunca mais a vê, e talvez ela apareça lá na frente novamente em outras circunstâncias. Desse ponto de vista, o procedimento narrativo do personagem que vai, some e nunca mais volta a aparecer, é bem calcado na nossa realidade.

Livraria da Folha: O “2666” assemelha-se a uma matriuska –a cada “abrir” de histórias, outras aparentemente menores saltam à vista. Qual história do livro mais lhe impressionou?

Brandão: O que mais me chocou foram as histórias dos crimes no México, onde ele [Bolaño] faz uma espécie de “romance-reportagem”. Achava que era invenção, depois descobri que aquilo é pura verdade e continua existindo. Saiu outro dia no jornal.

Livraria da Folha: Você levou quanto tempo para traduzir o “2666”?

Brandão: Levei ao todo mais de um ano, mas houve algumas interrupções para fazer outras coisas não tão grandes. Não lembro exatamente quando comecei. Entreguei no começo do ano.

Livraria da Folha: A próxima tradução que você fará do Bolaño será a do “O Terceiro Reich”? Quando será lançado pela Companhia?

Brandão: Já traduzi. Vai ser lançado no ano que vem, mas não tenho certeza da programação.

Livraria da Folha: Como é seu ritmo de trabalho durante uma tradução? Você dedica quantas horas por dia? Tem uma disciplina, digamos assim?

Brandão: Sim, começo por volta das 10h e acabo lá pelas 23h30. De trabalho, deve dar umas 8h, contando as interrupções.

Livraria da Folha: Você também traduziu “Amuleto” (2008) , “Noturno do Chile” (2004), “A Pista de Gelo” (2007) e “Putas Assassinas” (2008), todos do Bolaño. Em qual deles, sentiu mais dificuldade em manter o estilo do chileno no português?

Brandão: O mais difícil de todos foi “Os Detetives Selvagens”.

Livraria da Folha: Por que?

Brandão: Porque são várias narrativas, há mais de cem narradores. Isso é mais complicado, porque ele consegue dar a cada um deles uma fala própria. Você tem que tentar reproduzir o jeito daquelas pessoas falarem. O mais complicado deles foi o Amadeu, um velho que queria bancar um jovem. Ele usa umas gírias jovens, mas bem defasadas. O jeito de falar dele, empolado, informal, criou um estilo.

Livraria da Folha: Você traduziu 140 obras para a Companhia das Letras. De literatura infantojuvenil à livros de história e filosofia. Qual tradução foi a mais complicada de ser realizada e por que?

Brandão: Os infantojuvenis me distraem mais. Foi “Os Detetives Selvagens” mesmo, inclusive pelo uso dos “mexicanismos”.

Livraria da Folha: Você recorreu a dicionários?

Brandão: Eu tive uma sorte danada com esse livro, porque acabei encontrando uma pessoa que me ajudou. Mandei um e-mail para essa moça. Ela conheceu o Bolaño lá no México e era da região onde passava boa parte das histórias do livro. Aquelas gírias “barra-pesada” que tinha ali [livro] só com ela mesmo.

Livraria da Folha: Cada parte do romance pode ser lida de forma independente. Você concorda com Bolaño ao defender que a obra fosse publicada em cinco volumes?

Brandão: Um volume foi a decisão mais sensata, inclusive foi a da viúva. Ele fez aquilo com uma preocupação não literária, vamos dizer assim, preocupado com os filhos e com a mulher. Apesar de ter histórias meio soltas, nenhuma é solta ali. Elas têm um ponto de contato.

Livraria da Folha: Na trama de “2666”, Archimboldi morreu em 2003. Em parte, ele mimetiza o que foi o século 20 e o que seria o 21. Na sua opinião, qual dos dois séculos ou nenhum deles o livro representa?

Brandão: Acho que ele está mais com o pé no 21, principalmente por toda essa questão do narcotráfico. Claro que isso já existia no século 20, de certa forma ele [Bolaño] anteviu.

Livraria da Folha: Bolaño gosta de adotar em seus romances heróis fracassados pela própria realidade na qual sobrevivem ou simplesmente anular a existência deles. Você acredita que a narrativa de Bolaño faz as vezes de herói de seus personagens e até do próprio escritor?

Brandão: Herói não, propriamente, é mais anti-herói do que qualquer outra coisa. A narrativa dele surge de uma maneira tão espontânea. Existe ali uma catarse.

Livraria da Folha: As histórias não se fecham, são deixadas no ar. Se pudesse escolher uma delas para finalizar, qual seria e por que?

Brandão: Eu não concluiria, adorei o livro assim.

Livraria da Folha: Você conhecia o Bolaño antes de traduzi-lo?

Brandão: Confesso que nunca tinha ouvido falar. O primeiro que traduzi foi “Noturno do Chile”, que achei meio estranho. Depois peguei “Os Detetives Selvagens”, adorei e virei bolañista. Quando traduzi “Os Detetives Selvagens”, não existia ainda a “bolañomania”. Agora está começando a sair um monte de coisa [refere-se às cartas e manuscritos que serão publicados], embora ele fosse reservado sobre sua vida.

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A Gorda, de Isabela Figueiredo

A Gorda, de Isabela Figueiredo

A Gorda Isabela FigueiredoA Gorda, da portuguesa Isabela Figueiredo, é uma bela sátira a respeito da auto-imagem e do preconceito. Maria Luísa, a protagonista deste romance tão engraçado quanto cruel, é uma moça inteligente, boa aluna, voluntariosa e dona de uma forte personalidade. Porém, é gorda. Essa característica física a incomoda de tal maneira que parece colocar todo o resto em xeque: sua relação com o mundo, sua vida sentimental, suas posturas. Adolescente, sofre e aguenta em resignado silêncio as piadas e insultos de companheiros de escola. Adulta, bem, não vamos contar o livro, mas garantimos que muito bom, divertido e aberto. Escancarado, na verdade. Difícil não gostar dele.

A Gorda conta, na primeira pessoa do singular, a história de Maria Luísa, uma mulher que engorda na adolescência e assim chega à maturidade. Quando não suporta mais — física e moralmente — seu peso, parte para a cirurgia de redução do estômago. Pelas fotos da autora, podemos dizer que é quase certo que a história tenha alto teor autobiográfico. “Todas as personagens e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade.” É claro que Maria sofre humilhações na escola, cansaço e desgostos de amor – o namorado que a adora começa a mostrar-se envergonhado quando é visto com ela em público… Porém, narradas em estilo cru e direto, inteligente e poético, as desventuras da Maria que não se dobra facilmente não são uma leitura especialmente pesada, deprimente ou mesmo triste. Ela é tão viva, mulher e sagaz quanto a suas motivações que não dá para ter muita pena da gorda.

“Quarenta quilos é muito peso. Foram os que perdi após a gastrectomia: era um segundo corpo que transportava comigo.” Quando Maria faz a operação, sua vida muda, mas não pensem que este é um romance apenas sobre uma pessoa que engorda, sofre, retira parte o estômago e fica feliz.

A vida de Maria Luísa é esmiuçada com a crueza que anunciamos acima e esta não é uma desgraça apesar da profissão de professora, mesmo sendo filha única, mesmo confinada a um corpo que a isola socialmente, mesmo sendo uma parábola da solidão. Suas descrições da fome — sexual e alimentar — são arrebatadoras.

A figura materna é muito importante, assim como o passado colonial (Moçambique) de seus pais. “Gosto dela. Não a suporto. Quando morrer, não me resta mais ninguém. Nunca mais morre. Não morras.” A mãe também atrapalha a sensualidade de Maria, trazendo a repressão e o passado colonial para dentro da casa portuguesa. Ou seja, não é um romance que se foque apenas na questão do peso, mas no contexto social de Maria.

Destaco igualmente a prosa de Isabela Figueiredo, que usa o palavrão de forma explícita sem jamais perder a qualidade de seu texto.

Recomendo fortemente.

Isabela Figueiredo
Isabela Figueiredo

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Textos para o Sarau Clara Corleone (IV): Rapidamente, sobre o Ulysses de Joyce

Textos para o Sarau Clara Corleone (IV): Rapidamente, sobre o Ulysses de Joyce

Odisseu, rei de Ítaca, casado com Penélope, depois de ter se distinguido durante dez anos na guerra contra Troia, está voltando para casa, passando por uma série de aventuras e provações, ficando muitas vezes à mercê de feiticeiros, monstros e deuses vingativos. Penélope o aguarda fielmente, embora assediada por pretendentes – sempre tão gentis, como diria Chico Buarque — que aguardam no banco de reservas, ansiosos por entrarem em campo no lugar do marido desaparecido. Em super resumo, estas são as aventuras do herói Odisseu em sua volta à pátria.

James Joyce em Paris com sua editora Sylvia Beach.
James Joyce em Paris com sua editora Sylvia Beach.

Pois então abrimos o Ulysses de Joyce e vemos a paródia da Odisseia de Homero. A Penélope de Joyce, Molly, não é nada fiel. Bloom é um Ulisses nada heróico, é antes um judeu irlandês de vida comum, que sabe das traições de Molly e Blazes Boylan, mas não pretende lavar a honra com sangue.

Assassinato nunca, visto que dois erros não tornam um certo.

O livro, aliás, não possui situações extremas e apenas se atém a um imenso leque de experiências cotidianas.

Um trecho de Ulysses (Cap. 17, Ítaca):

Cada um que entra na cama imagina ser o primeiro a entrar enquanto que é sempre o último termo de uma série precedente mesmo que seja o primeiro de uma outra subsequente, cada um imaginando ser primeiro, último, único e só, enquanto que não é nem primeiro nem último nem único nem só.

Boa parte do enredo de Ulysses gira em torno do casal Molly e Leopold e de sua inaptidão para sentir prazer físico e emocional um com o outro. Seja através da narração onisciente, seja por monólogos interiores, o texto documenta minuciosamente abordagens sexuais inteiramente diversas de tentativas românticas do casal. E estas ocorrem sempre SEPARADAMENTE. Durante o curso do dia, Molly comete adultério com Blazes Boylan, enquanto Bloom envolve-se com práticas sexuais voyeuristas e masturbatórias. Mesmo que Bloom participe ativamente destes encontros, é curioso como Joyce obtém mantê-lo longe do estereótipo do fauno sedento por sexo e prazer. Bloom é o anti-herói, o low profile, o personagem simpático, agradável, amistoso e apagado. Mesmo o erotismo evidente de certas participações de Bloom, acaba diluído em gentileza e bonomia. Ele é mais pai e marido, possuidor de qualidades maternas, pacifistas, até femininas.

Ulysses é um texto que procura minar as noções de gênero. O romance não promove a superioridade masculina, mas sim eleva as mulheres e a feminilidade. Não só Joyce inverte a hierarquia social predominantemente masculina, como confunde a noção de gênero com a criação de um casal formado por um homem delicado e feminino e uma mulher decidida. Nesta combinação, o casal Molly e Leopold, está fora dos estereótipos da virada do século XIX para o XX, que definem a masculinidade como agressiva e dominadora e a feminilidade como passiva e reservada.

Salman Rushdie escreveu em seu ensaio The Short Story: “É muito comum que o que é pornográfico para uma geração, seja clássico para a seguinte”. A frase parece perfeita para Ulysses: enquanto a censura do início do século XX considerava o texto imoral e inadequado, ele agora oferece para nós um quadro riquíssimo para a exploração e análise da sexualidade de personagens extremamente bem construídos, sendo que um deles era “o homem comum”.

Bloom comporta-se estranhamente para um homem da virada do século. Arruma a cama, limpa o lençol, tem sentimentos de empatia para com a mulher grávida, preocupa-se com a filha, morre de saudades do filho morto, têm fantasias de que está grávido. Mais: Bloom sente-se inconformado e invejoso pela centralidade da mulher no processo dar à luz. Seis semanas antes de seu filho Rudy nascer, é visto comprando uma lata de alimento infantil, o que prova para seus amigos que ele não é bem um homem. Pior: dizem que ele, uma vez por mês, fica com dor de cabeça “como uma franguinha menstruada”. Também, como talvez uma mulher o fizesse, ele evita que Gerty o veja de perfil, quer que ela veja seu melhor ângulo. Depois, Gerty faz o mesmo.

Bloom não deseja impedir o adultério de Molly com Blazes Boylan. Ele chega a imaginar uma cena na qual entrega sua esposa a Boylan. Essencialmente, ele permite a infidelidade da esposa para que ela possa experimentar o prazer enquanto ele procura a sua própria e particular satisfação.

Em seu ensaio prévio à última edição do Ulysses, Declan Kiberd afirma que, na verdade, Bloom e sua esposa comportam-se como verdadeiros andróginos. Eles seriam “encarnações das palavras de Freud de que mulheres dominadoras e viris são atraídas e atraentes para os homens femininos”. A sensibilidade associada à feminilidade e a agressividade associada à masculinidade não funcionam para o casal. No entanto, as qualidades femininas de Bloom e as dominadoras de Molly não garantem uma vida sexual em comum e a impressão que fica é de uma incompatibilidade confortável para ambos. Antes do famoso monólogo de Molly, Bloom recapitula o primeiro encontro sexual com a mulher, em consonância com que já sabíamos: “Ela me beijou. Fui beijado. Estava à sua mercê e ela arrumou meu cabelo. Beijado. Ela me beijou.” (A simbologia adquire mais força quando ele recorda que Molly, em seu primeiro encontro, mastigou um pedaço de bolo e, beijando-o, colocou-o quente e mastigado em sua boca).

Ulysses borra a distinção entre os sexos. No episódio “Penélope”, o famoso monólogo de Molly, o leitor entra nos pensamentos dela na cama ao lado de Bloom, que dorme ao final do dia. O monólogo revela a promiscuidade de Molly, suas lembranças de relacionamentos anteriores e memórias de família. Quando lembra da amamentação da filha, ela recorda que algumas vezes amamentou simultaneamente também a Bloom: “Eu pedi para ele chupar meus seios, ele disse que o que saía era doce e mais espesso do que o das vacas”. Enquanto muitos acharam e ainda acham isso o cúmulo da pornografia, talvez seja melhor relacionar a cena à sugestão de que a mulher pode ser a provedora familiar ou que pode rebaixar o homem a uma posição infantil.

Porém, em qualquer hipótese, o texto de Joyce afunda e afunda a masculinidade.

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A sociedade dos empregos de merda

A sociedade dos empregos de merda

POR DAVID GRAEBER
Do Outras Palavras
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Como o capitalismo contemporâneo cria sem cessar ocupações inúteis, enquanto remunera muito mal as mais necessárias. Quais as alternativas? Garantia de trabalho? Ou Renda Cidadã Universal?

David Graeber, entrevistado por Eric Allen Been, na Vice| Tradução: Antonio Martins

Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, no final do século 20, países como os Estados Unidos teriam – ou deveriam ter – jornadas de trabalho de 15 horas semanais. Por que? Em grande medida, a tecnologia tiraria de nossas mãos tarefas sem sentido. Claro, isso nunca ocorreu. Ao contrário, muitíssimas pessoas, em todo o mundo, estão submetidas a longas jornadas como advogados corporativos, consultores, operadores de telemarketing e outras ocupações.

Mas enquanto muitos de nós julgamos nossos trabalhos muito aborrecidos, algumas ocupações não fazem sentido algum, segundo o escritor anarquista David Graeber. Em seu novo livro, “Bullshit Jobs: A Theory” [“Trabalhos de Merda: Uma Teoria”], o autor argumenta que os seres humanos consomem suas vidas, muito frequentemente, em atividades assalariadas inúteis. Graeber, que nasceu nos EUA e que já havia escrito, entre outras obras, Dívida: Os Primeiros 5000 anos e The Utopia of Rules [ainda sem edição em português] é professor de Antropologia na London School of Economics e uma das vozes mais conhecidas do movimento Occupy Wall Street (atribui-se a ele a frase “Somos os 99%”).

A “Vice” encontrou-se há pouco com Graeber para conversar sobre o que ele define como “emprego de merda”; por que os trabalhos socialmente úteis são tão mal pagos, e como uma renda básica assegurada a todos poderia resolver esta enorme injustiça.

Em primeiro lugar, o que são empregos de merda e por que existem?

David Graeber: Basicamente, um emprego de merda é aquele cujo executor pensa secretamente que sua atividade ou é completamente sem sentido, ou não produz nada. E também considera que se aquele emprego desaparecesse, o mundo poderia inclusive converter-se num lugar melhor. Mas o trabalhador não pode admitir isso – daí o elemento de merda. Trata-se, portanto, em essência, de fingir que se está fazendo algo útil, só que não.

Uma série de fatores contribuiu para criar esta situação estranha. Um deles é a filosofia geral de que o trabalho – não importa qual – é sempre bom. Se há algo em que a esquerda e a direita clássicas frequentemente estão de acordo é no fato de ambas concordarem que mais empregos são uma solução para qualquer problema. Não se fala em “bons” trabalhos, que de fato signifiquem algo. Um conservador, para o qual precisamos reduzir impostos para estimular os “criadores de emprego”, não falará sobre que tipo de ocupações quer criar. Mas há também partidários da esquerda insistindo em como precisamos de mais ocupações para apoiar as famílias que trabalham duro. Mas e as famílias que desejam trabalhar moderadamente? Quem as apoiará?

Até mesmo os empregos de merda garantem a renda necessária para que as pessoas sobrevivam. No fim das contas, por que isso é ruim?

Mas a questão é: se a sociedade tem os meios para sustentar todo mundo – o que é verdade – por que insistimos em que os trabalhadores passem sua vida cavando e em seguida tapando buracos? Não faz muito sentido, certo? Em termos sociais, parece sadismo.

Em termos individuais, isso pode ser visto como uma boa troca. Mas, na verdade, as pessoas obrigadas a tais trabalhos estão em situação miserável. Podem considerar: “estou ganhando algo por nada”. Bem, as pessoas que recebem salários bons, muitas vezes de nível executivo, certamente de classe média, quase sempre passam o dia em jogos de computador ou atualizando seus perfis de Facebook. Quem sabe, atendendo o telefone duas vezes por dia. Deveriam estar felizes por ser malandros, certo? Mas não são.

As pessoas contratadas para tais trabalhos relatam, regularmente, que estão deprimidas. E se lamentarão, e praticarão bullying umas contra as outras, e se apavorarão com prazos finais porque são de fato muito raras. Porém, se pudessem buscar uma razão social no trabalho, uma boa parte de suas atividades desapareceria. As doenças psicossomáticas de que as pessoas padecem simplesmente somem, no momento em que elas precisam realizar uma tarefa real, ou em que se demitem e partem para um trabalho de verdade.

Segundo seu livro, a sociedade pressiona os jovens estudantes para buscar alguma experiência de emprego, com o único objetivo de ensiná-los a fingir que trabalham.

É interessante. Chamo de trabalho real aquele em que o trabalhador realiza alguma coisa. Se você é estudante, trata-se de escrever. Preparar projetos. Se você é um estudante de Ciências, faz atividades de laboratório. Presta exames. É condicionado pelos resultados e precisa organizar sua atividade da maneira mais efetiva possível para chegar a eles.

Porém, os empregos oferecidos aos estudantes frequentemente implicam não fazer nada. Muitas vezes, são funções administrativas onde eles simplesmente rearranjam papéis o dia inteiro. Na verdade, estão sendo ensinados a não se queixar e a compreender que, assim que terminarem os estudos, não serão mais julgados pelos resultados – mas, essencialmente, pela habilidade em cumprir ordens.

E os empregos tecnológicos ou na mídia. Seriam, também, de merda?

Certamente. Por meio do Twitter, pedi às pessoas que me relatassem seus empregos mais sem sentido. Obtive centenas de respostas. Havia um rapaz, por exemplo, que desenhava bâners publicitários para páginas web. Disse que havia dados demonstrando que ninguém nunca clica nestes anúncios. Mas era preciso manipular os dados para “demonstrar” aos clientes que havia visualizações – para que as pessoas julgassem o trabalho importante.

Na mídia, ha um exemplo interessante: revistas e jornais internos, para grandes corporações. Há bastante gente envolvida na produção deste material, que existe principalmente para que os executivos sintam-se bem a respeito de si próprios. Ninguém mais lê estas publicações.

A automação é vista, muitas vezes, como algo negativo. Você discorda deste ponto de vista, não?

Certamente. Não o compreendo. Por que não deveríamos eliminar os trabalhos desagradáveis? Em 1900 ou 1950, quando se imaginava o futuro, pensava-se: “As pessoas estarão trabalhando 15 horas por semana. É ótimo, porque os robôs farão o trabalho por nós”. Hoje, este futuro chegou e dizemos: ”Oh, não. Os robôs estão chegando para roubar nossos trabalhos”. Em parte, é porque não podemos mais imaginar o que faríamos conosco mesmo se tivéssemos um tempo razoável de lazer.

Como antropólogo, sei perfeitamente que tempo abundante de lazer não irá levar a maioria das pessoas à depressão. As pessoas encontram o que fazer. Apenas não sabemos que tipo de atividade seria, porque não temos tempo de lazer suficiente para imaginar.

Pergunto: por que as pessoas agem como se a perspectiva de eliminar o trabalho desnecessário fosse um problema? Deveríamos pensar que um sistema eficiente é aquele em que se pode dizer: “Bem, temos menos necessidade de trabalho. Vamos redistribuir o trabalho necessário de maneira equitativa”. Por que isso é difícil? Se as pessoas simplesmente assumem que é algo completamente impossível, parece-me claro que não estamos em um sistema eficiente.

Um dos pontos mais interessantes do livro são suas observações sobre como os empregos socialmente valiosos são quase sempre menos bem pagos que os empregos de merda.

Foi uma das coisas que, pessoalmente, mais me chocou na fase da pesquisa. Comecei a tentar descobrir se algum economista havia observado o fenômeno e tentado explicá-lo. Houve antecedentes, na verdade. Alguns eram economistas de esquerda; outros, não. Alguns eram totalmente mainstream.

Mas todos chegaram à mesma conclusão. Segundo eles, há uma tendência: quanto mais benefícios sociais um emprego produz, menor tende a ser a remuneração – e também a dignidade, o respeito e os benefícios. É curioso. Há poucas exceções e não são tão excepcionais como se poderia pensar. Os médicos, é claro, são um caso notório: é evidente que são pagos com justiça e oferecem benefícios sociais.

Porém, há um argumento recorrente: “Não seria bom que pessoas interessadas apenas em dinheiro ensinassem as crianças. Não se deve pagar demais aos professores. Se o fizéssemos, teríamos gente gananciosa na profissão, em vez de professores que se sacrificam”. Há também a ideia de que se um trabalhador sabe que sua atividade produz benefícios, isso pode ser o bastante. “Como, você quer dinheiro, além de tudo?” As pessoas tendem a discriminar qualquer um que tenha escolhido um emprego altruísta, sacrificante ou apenas útil.

Aparentemente, você é pouco favorável à ideia de garantia de trabalho, defendida entre outros por Bernie Sanders [candidato de esquerda à presidência dos EUA], por preferir a garantia de renda cidadã.

Sim. Sou alguém que não quer criar mais burocracia e mais empregos de merda. Há um debate sobre garantia de trabalho – que Sanders, de fato, propõe, nos EUA. Significa que os governos deveriam assegurar que todos tenham acesso ao menos a algum tipo de trabalho. Mas a ideia por trás da renda universal da cidadania é outra: simplesmente assegurar às pessoas meios suficientes para viver com dignidade. Além desse patamar, cada um pode definir quanto mais deseja.

Acredito que a garantia de trabalho certamente criaria mais empregos de merda. Historicamente, é o que sempre acontece. E por que deveríamos querer que os governos decidissem o que podemos fazer? Liberdade implica em nossa capacidade de decidir por nós mesmos o que queremos e como queremos contribuir para a sociedade. Mas vivemos como se tivéssemos nos condicionado a pensar que, embora vejamos na liberdade o valor mais alto, na verdade não a desejamos. A renda básica da cidadania ajudaria a garantir exatamente isso. Não seria ótimo dizer: “Você não tem mais que se preocupar com a sobrevivência. Vá e decida o que quer fazer consigo mesmo”?

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Textos para o Sarau Clara Corleone (I): alguma coisa sobre “O Complexo de Portnoy”, de Philip Roth

Textos para o Sarau Clara Corleone (I): alguma coisa sobre “O Complexo de Portnoy”, de Philip Roth

Complexo de PortnoyEsta não é bem uma resenha, nem uma palestra, são anotações que nem são 100% minhas. Encontrei-as num arquivo word perdido no micro. Há frases minhas e outras “roubadas” sei lá de quem. Mas vale a pena fazer referência a este livro engraçadíssimo. Qualquer referência.

O livro é narrado por Alexander Portnoy durante uma consulta ao psicanalista. Como em toda terapia que se preze, ninguém da família escapa. Alex é um judeu viciado em sexo e masturbação, incapaz de estabelecer um relacionamento duradouro, e que tem uma relação complicada com os pais, especialmente com a mãe castradora. Como o livro é um monólogo de Alex, não dá pra saber até que ponto a mãe é realmente tudo aquilo que ele fala. O que fica claro é que ele também sente desejo pela mãe. E pela irmã.

O pai aparece como um moleirão vendedor de seguros, submisso à mulher, vítima de uma prisão de ventre permanente e de um desespero mudo.

A mãe superprotetora, a própria e folclórica mãe judia, entra em pânico quando descobre que o seu Alex, criança, come hambúrguer escondido, e também quando constata que ele, adulto, adquiriu um tapete gasto, propenso a escorregões.

Quando Alex começou a demorar mais que o usual no banheiro, ela logo se preocupou com umas supostas diarreias. Só poderiam advir da comida de lanchonete. À entrada fechada do banheiro, ela exigia que o filho confessasse ter andado comendo guloseimas industrializadas ao sair do colégio. Ordenava, esmurrando a porta, que ele lhe deixasse examinar o produto de seus intestinos. Ou seja, enquanto o pobre adolescente Portnoy tentava se concentrar em suas fantasias sexuais durante a masturbação, a mãe lhe interrogava através da porta a respeito do que havia comido. Não havia nenhum espaço privado.

Um homem judeu com os pais vivos é um recém-nascido indefeso!”, diz Portnoy ao dr. Spielvogel. “Por favor, me ajude e depressa! Me liberte desse papel de filho sufocado numa piada judaica! Porque está começando a perder a graça aos 33 anos!.

Em outro trecho, o mesmo apelo: “Chega de ser um bom menino judeu, agradando meus pais em público e esfolando o ganso no meu quarto!”.

Um relato das idas mensais com o pai à sauna:

Fico em posição de sentido entre as pernas de meu pai enquanto ele me cobre da cabeça aos pés com uma grossa camada de espuma de sabão e olho com admiração para o que pende do banco de mármore em que ele está sentado. Seu escroto parece um rosto comprido e encarquilhado de um velho com um ovo enfiado em cada lado da papada caída, já o meu lembra mais uma bolsinha mínima e rosada pendurada no pulso de uma boneca de menina…

Ele prossegue:

Quanto ao “shlong” dele, a mim, que tenho um pinto do tamanho da ponta de um dedo mínimo, ao qual minha mãe gosta de se referir em público (está bem, foi só uma vez, mas bastou essa vez para durar a vida inteira) como a minha “coisinha”, o “shlong” dele me faz pensar nas mangueiras de incêndio que ficam enrodilhadas nos corredores da escola.

Em seu caudaloso desafogo, Portnoy implica tanto com os “góis” como com seus próprios pares — “Me faça um favor, meu povo, pegue seu legado de sofrimento e enfie no cu”. Mas não escapa do dilema de se sentir ao mesmo tempo atraído por aqueles e amado por estes.

Dentre os personagens masculinos de Philip Roth, Portnoy é o que tem maior verve desbocada, uma verdadeira visão de mundo ao mesmo tempo anarcoerótica e pessimista. É um personagem com o infatigável pênis em riste. Tem a masturbação como uma das belas-artes.

O personagem-narrador, Alexander Portnoy, que desde a primeira página deita num divã pra contar sua vida ao psicanalista, expõe uma das mais bem elaboradas subjetividades da literatura contemporânea, e das mais engraçadas.

A culpa está presente em todo o romance. Não é fruto da fragilidade de Portnoy, que, em verdade, tem atitudes até bem corajosas perante o moralismo judaico e os valores familiares tradicionais. Ele discute com os pais. Nega a existência de Deus diante deles. Professa opiniões políticas liberais. O problema não é tanto a psicologia de Portnoy, pretensamente frágil, mas a força descomunal dos valores que lhe puseram na cabeça desde a mais tenra infância.

Claro que o livro é escrito por um narrador não muito confiável, então devemos ter cuidado com todas as informações jogadas no livro.

Esse jovem masturbador se transforma num adulto bem-sucedido e adequado, mas cheio de culpa por achar-se pervertido.

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Giacomo Joyce, de James Joyce

Giacomo Joyce, de James Joyce
Giacomo Joyce de James Joyce
Giacomo Joyce de James Joyce

Giacomo Joyce é um opúsculo de oito páginas (frente e verso) manuscritas, escritas em 1914. O texto esteve esquecido durante muitos anos e acabou sendo encontrado em Trieste por um irmão de Joyce, onde o escritor viveu. Hoje, pertence a um colecionador. O texto foi criado após Retrato do Artista Quando Jovem, antes de Ulysses e narra de forma muito poética a atração do autor por uma jovem aluna judia daquela cidade. Um amor, digamos, proibido. Giacomo era como os italianos chamavam o escritor, uma tradução para James. O texto surgiu em forma de livro apenas em 1968.  Esta bonita edição da Bestiário é bilíngue, com excelente tradução para o português de Roberto Schmitt-Prym. Não é uma narrativa circunstanciada, trata-se de um texto para ser lido com calma, ouvindo-se sonoridades e sentindo seu indiscutível erotismo. Parecem meras anotações poéticas escritas em formas livres que escondem um texto verdadeiramente belo.

Alguns trechos:

Lanço-me numa onda fácil de fala mansa: Swedenborg, o pseudo-Areopagita, Miguel de Molinos, Joaquim Abbas. A onda gasta. Sua colega de classe, retorcendo o corpo torto, ronrona num mole italiano vienense: “Che coltura!” As longas pálpebras piscam e se alçam: uma ponta de agulha em brasa pica e palpita na íris veluda.

Saltos altos estalam secos nos ressonantes degraus de pedra. Ar invernal no castelo, cotas de malha patibular, candeeiros de ferro tosco sobre as espirais das escadas circulares. Tique-taques de saltos, ecos altos e ocos. Alguém lá embaixo quer falar com a senhorita.

(…)

Saio apressado da tabacaria e a chamo pelo nome. Ela se volta e se detém para ouvir minhas confusas palavras falando de lições, horas, lições, horas: e lentamente suas pálidas faces se iluminam de inflamada luz opalina. Calma, calma, não tenha medo!

(…)

Minha voz morrendo nos ecos de suas palavras, morre como a voz exaustissábia do Eterno chamando a Abraão através das colinas ecoantes. Ela se encosta contra a parede acolchoada: feito odalisca na luxuriante escuridade. Seus olhos beberam meus pensamentos: e na mornez úmida e submissa de sua ingênua feminidade minha alma, dissolvendo-se, fluiu e verteu e inundou uma líquida e abundante semente… Agora que a possua quem quiser!… 

Joyce pensando em molhar a semente...
Joyce pensando em…

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A Morte do Pai (Minha Luta 1), de Karl Ove Knausgård

A Morte do Pai (Minha Luta 1), de Karl Ove Knausgård

A Morte do PaiA Morte do Pai é o primeiro volume da série Minha Luta, da qual já foi traduzido o quinto volume, sempre pela Cia. das Letras. O livro insere-se na categoria da autoficção, com o autor norueguês contando lentamente e fora de qualquer ordem cronológica sua autobiografia, sempre acompanhada de carradas de reflexões e lembranças, mais ou menos no gênero de Em Busca do Tempo Perdido. É claro que tudo depende da forma e da capacidade de Knausgård de ser interessante. E ele é. Muito interessante.

Este primeiro volume pode ser dividido em duas partes: na primeira o autor nos conta de sua adolescência e dos primeiros equívocos amorosos, na segunda é descrita a morte do pai do escritor. A morte do pai alcoolista é uma tragédia, mas Karl Ove pontua cada fato e objeto de um tal número de lembranças que a descrição da morte não chega a ser algo chocante, apesar do absoluto realismo de tudo o que é narrado.

As duas partes são ótimas. As sensações e impressões do adolescente bateram fundo em mim. Na verdade, pareciam minhas, totalmente minhas, apesar da distância cultural entre um jovem porto-alegrense e um norueguês. Já o luto de Karl Ove é lentamente trabalhado, bem, com seu trabalho de limpar a casa do pai após sua morte, antes do enterro.

Nada do que ocorre no livro é excepcional, o que garante a qualidade da narrativa é o próprio Knausgård, que repetidamente demonstra que tudo interessa. É um autor que nos aproxima de nós mesmos e nos comove contando pormenores de sua vida íntima com grande elegância, sinceridade e riqueza de detalhes.

Karl Ove Knausgård escreve com dolorosa honestidade. Lembra sua adolescência, seus pequenos grandes amores, sua relação com o rock e com sua distante mãe. E a perda do pai. Ele mostra nossa luta pela vida. É um trabalho profundo e hipnotizante que recomendo fortemente.

Acho que vou ler uns dois livrinhos e volto ao autor para ler o volume 2.

Karl Ove Knausgård
Karl Ove Knausgård

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Hoje, Bloomsday, poderíamos conversar sobre o sexo — e algo mais — em Ulysses?

Hoje, Bloomsday, poderíamos conversar sobre o sexo — e algo mais — em Ulysses?

Todo ano é a mesma coisa. Ainda bem. Desde o final da década de 20 do século passado, sempre no dia 16 de junho, um número crescente de leitores e admiradores de James Joyce reúnem-se para celebrar o autor de Ulysses (1922), obra que se passa no dia 16 de junho de 1904. Naquelas quase mil páginas, há sexo por todo lado e, em uma palestra que dei para o Bloomsday de 2012, tratei desse assunto. Claro, não é uma palestra acadêmica e dei risadas com a primeira pergunta que surgiu após a mesma: “Já assisti mais de dez palestras em Bloomsdays, porque só me diverti nesta aqui?”.

Abaixo, está todo o texto de preparação que escrevi para aquele dia.

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A única exigência que faço a meu leitor é que dedique a vida inteira à leitura de minhas obras.
(The only demand I make of my reader is that he should devote his whole life to reading my works).

JAMES JOYCE

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Esta é uma piada de Joyce, mas tem gente que se assusta muito com ela e mais ainda com aquilo que é dito sobre Ulysses. Se quiséssemos estabelecer uma categoria de livros mais elogiados, citados, incensados e menos lidos, Ulysses, de James Joyce, talvez encabeçasse a lista. Este é um fenômeno que surpreende, pois contrariamente a, por exemplo, O homem sem qualidades, de Musil, Ulysses é um livro escandalosamente colorido, engraçado e divertido. E sexual. Uma leitura desatenta torna certamente o livro uma chatice, uma leitura interessada já basta para torná-lo um grande romance, mesmo que não se queira entrar nos enigmas e quebra-cabeças que manterão os professores ocupados durante séculos, conforme disse o autor. A leitura 100% compreensiva talvez seja inalcançável ao leitor comum, porém, como sublinhou Karen Blixen (Isak Dinesen), não há nenhum problema em não entender inteiramente um escrito poético. Obviamente, Ulysses se beneficia com outras leituras, com a crítica, com consultas e com uma vasta cultura, porém, como assegura o tradutor da última versão brasileira, Caetano Galindo, Ulysses pode ganhar mais se for apresentado sozinho, sem notas explicativas. É importante lembrar que Ulysses é, em primeiro lugar, um romance, um dos maiores de todos, não um quebra-cabeça. Isto não anula de modo algum todo o aparato que costuma cercá-lo, apenas diz que tal parafernália pode estar em outro lugar que não atrapalhando a leitura.

O habitual é que as pessoas se aproximem de Ulysses com cuidado. Livro difícil, cheio de armadilhas. Tudo se passa num só dia, em 16 de junho de 1904. São 18 capítulos, cada um com aproximadamente uma hora de ação; cada um escrito num estilo diferente; cada um deles sendo uma paródia de um episódio da Odisseia de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo humano é alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas, como escreveu o ensaísta Idelber Avelar.

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Joyce orgulhava-se do fato de Ulysses quase não possuir enredo

Porém, a história não pode ser mais simples e Joyce ufanava-se do fato de seu romance ter quase nada de trama. Como escreve Idelber, naquele dia, hoje conhecido como Bloomsday, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia pelas margens do Liffey; Leopold Bloom, vendedor, efetivamente muito pouco atormentado pelas repetidas traições de Molly, sua mulher, toma café da manhã, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a uma carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando Gerty MacDowell tendo por background um ofício religioso, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim; Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim.

A imagem ao lado pode ser eficaz para demonstrar as diferenças de Joyce em relação a um autor muito mais lido, Franz Kafka. Imaginem a literatura moderna dentro de um modelo matemático de abscissas e ordenadas, um modelo plano, simples e, principalmente, redutor. Considerem que a gente deva colocar os autores espacialmente e que a abscissa seria o grau de complexidade narrativa e a ordenada seria a complexidade dos temas. Pois bem, então comparemos Joyce com outro autor canônico, Franz Kafka. Enquanto Joyce cria histórias rotineiras dentro de narrativas complexas, Kafka seria sua antítese, com narrativa mais convencional, porém, com temas e histórias insólitas e — para repetir o termo e dar exatidão matemática (?) à analogia — , complexas. Em nosso modelo, eles estariam bem longe um outro. É claro que estamos desconsiderando uma importante terceira dimensão, o arsenal de referências joyceano e uma quarta, o grau de representação social. Sem esta última, certamente não omemoraríamos o Bloomsday.

No Brasil, Ulysses foi traduzido três vezes. A primeira tradução foi a que o filólogo Antônio Houaiss fez em 1966 para a Civilização Brasileira. A segunda tradução foi a da filósofa, professora emérita e tradutora Bernardina da Silveira Pinheiro. É uma tradução mais coloquial e menos pudica que o intrincado e envergonhado trabalho de Houaiss. Em 2012, tivemos a terceira tradução, do professor e doutor em linguística Caetano Galindo para a Penguin / Companhia das Letras. Esta última tradução é superior às duas anteriores. Coloca-se entre a Ítaca do coloquialismo de Bernardina e a possível Troia de Houaiss. De bônus, traz um excelente ensaio do crítico irlandês Declan Kiberd, uma das maiores autoridades em Joyce, um sujeito que escreveu um best seller de crítica literária chamado Ulysses and Us.

.oOo.

Odisseu, rei de Ítaca, casado com Penélope, depois de ter se distinguido durante dez anos na guerra contra Troia, está voltando para casa, passando por uma série de aventuras e provações, ficando muitas vezes à mercê de feiticeiros, monstros e deuses vingativos. Penélope o aguarda fielmente, embora assediada por pretendentes (sempre tão gentis, diria Chico Buarque) que aguardam no banco de reservas, ansiosos por entrarem em campo no lugar do marido desaparecido. Seu filho, Telêmaco, aconselhado pela deusa Palas Atena, sai em busca do pai. Em resumo, temos as aventuras do herói Odisseu em sua volta à pátria, a fidelidade da mulher ao marido ausente e um filho à procura do pai.

Desenho de Leopold Bloom, de James Joyce (clique para ampliar)

Pois então abrimos Ulysses e vemos a paródia da Odisseia de Homero. A Penélope de Joyce, Molly, cujo nome de nascimento é Marion Tweedy), não é nada fiel. Stephen Dedalus (Telêmaco), embora insatisfeito com o pai que tem, não está atrás de outro. (Na verdade, Bloom pranteia um filho morto,  Rudy, e deseja que Stephen vá morar com ele e Molly). Bloom é um Ulisses nada heroico, um judeu irlandês de vida comum, que sabe de Molly e Blazes Boylan, mas não pretende lavar a honra com sangue. O livro, aliás, não possui situações extremas e apenas se atém a um imenso leque de experiências cotidianas. Sim, mas e o sexo?

Zurique, 1918. Nora Barnacle Joyce com os filhos Giorgio e Lucia.

Joyce refere-se a ele já no primeiro enigma do romance: a escolha da data. Por que 16 de junho de 1904? Ora, porque foi nesse dia que Nora Barnacle fez de Joyce um “homem de verdade”. Alguns críticos consideram que o livro seria uma espécie de declaração de amor que o escritor fazia a sua esposa e amante. No dia 16 de Junho de 1904, o casal saiu para um passeio pela primeira vez. Joyce não levou Nora para os cafés, teatros, nem para o centro de Dublin, mas pelas ruas que vão dar no cais. Foram até a área de Ringsend que, naquela noite, estava deserta. Nora não perdeu tempo. Desabotoou as calças de Joyce e masturbou-o com mestria, “com olhos de santa”. Era a primeira vez que Joyce tinha sexo de graça e o fato revestiu-se de grande importância.

Ulysses foi publicado no dia de aniversário de 40 anos de Joyce, em 2 de fevereiro de 1922. Antes, em 1919, alguns capítulos tinham sido publicados na revista The Egoist (Londres). Resultado: impressores e assinantes ameaçaram demitir-se em função da pornografia envolvida… Em 1921, outros capítulos foram publicados em The Little Review (Nova Iorque). Resultado: a edição foi retirada de circulação e suas editoras multadas. Acusação: grossa pornografia.

O cais em Ringsend, subúrbio de Dublin
Porém, conhecendo Joyce, eu apostaria em outro local bem próximo, o das proximidades da igreja de St. Patrick

Um trecho de Ulysses (Cap. 17, Ítaca):

Se ele tivesse sorrido por que teria sorrido?

Para refletir que cada um que entra (na cama) imagina ser o primeiro a entrar enquanto que é sempre o último termo de uma série precedente mesmo que seja o primeiro de uma outra subsequente, cada um imaginando ser primeiro, último, único e só enquanto que não é nem primeiro nem último nem único nem só em uma série que se origina e se repete ao infinito.

Trad. Caetano Galindo 

Este trecho jamais poderia ser admitido a escritor preso aos códigos machistas da sociedade do início do século passado. Seria improvável para um homem comum do começo do século XX chegar à conclusão que Bloom chegou a respeito do adultério de Molly, da qual ele nem cogita separar-se: Assassinato, jamais, pois que dois males não perfaziam um bem. E chegamos gloriosamente ao pensador que Joyce era e, principalmente, a um leitor de Freud.

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Não faço ideia se o meu marido é um gênio ou não; o que sei, com certeza, é que ele tem uma mente bem suja.

NORA BARNACLE

Hum...
Hum…

Em Ulysses, Leopold Bloom é um cidadão irlandês, pai e marido de Molly. Teve dois filhos, Milly e Rudy, sendo que o segundo morreu onze dias após o nascimento e Milly — que está com 15 anos em 16 de junho de 1904 — estuda em outra cidade. Ela aparece no romance apenas nas saudades de Bloom, o qual também lamenta muitíssimo a perda de Rudy. Ele é um bom pai de quase quarenta anos e começa o dia de forma tipicamente irlandesa. A primeira coisa que come são rins de carneiro grelhados, eles exalam um leve e inebriante perfume de urina. Porém, não vim aqui criticar a gastronomia irlandesa e britânica. Faço referência a este quarto capítulo porque nele Bloom aparece servindo sua mulher-ninfa na cama. É importante notar que é ele quem serve o breakfast,  não o contrário. Bloom, que foi confessadamente criado por Joyce para ser o homem comum, o everyman, aparece sem heroísmos, com uma dimensão inteiramente humana, sem atitudes épicas.

A primeira página de Ulysses no manuscrito de Joyce

Em 1905, Joyce escreveu a seu irmão Stanislaus:

Você não acha a busca pelo heroísmo uma tremenda vulgaridade? Tenho certeza de que toda a estrutura do heroísmo é, e sempre foi, uma mentira e que não há substituto para a paixão individual como força motriz de tudo.

O amor de Bloom manifesta-se diferentemente, ignorando posturas machistas, nas atitudes e nos pensamentos em relação à família, mas uma das surpresas de Ulysses é como esta rotina é contraposta à sexualidade que aparece no romance. Boa parte do enredo de Ulysses gira em torno do casal Molly e Leopold e de sua inaptidão para sentir prazer físico e emocional um com o outro. Seja através da narração onisciente, seja por monólogos interiores, o texto documenta minuciosamente as abordagens sexuais inteiramente diversas e as tentativas românticas do casal. E estas ocorrem sempre SEPARADAMENTE. Durante o curso do dia, Molly comete adultério com Blazes Boylan, enquanto Bloom envolve-se com práticas sexuais voyeuristas, masturbatórias e, por que não dizer?, masoquistas. Mesmo que Bloom participe ativamente destes encontros, é curioso como Joyce obtém mantê-lo longe do estereótipo do fauno sedento por sexo e prazer. Bloom é o anti-herói, o low profile, o personagem simpático, agradável, amistoso e apagado. Mesmo o erotismo evidente de certas participações de Bloom, acaba diluído em gentileza e bonomia. Ele é pai e marido, possuidor de qualidades maternas, pacifistas, até femininas.

Os limites rígidos que compunham a prática religiosa e as normas sociais na virada do século XX são demasiadamente sufocantes para a expressão de Joyce da individualidade e do desejo carnal. No episódio em que Bloom masturba-se na praia, observando Gerty MacDowell, tendo por fundo um culto religioso, Joyce não apenas justapõe religião e erotismo, mas incorpora uma prática sexual não convencional.

Bloomsday em Dublin. Leopold põe os olhos em Gerty MacDowell.
No filme Bloom, o ator Stephen Rea na cena da praia
Maão no bolso… No filme Bloom, o ator Stephen Rea na cena da praia

Com isto, ele desafia o senso comum do que seria a sexualidade na virada do século XX e utiliza seu romance como um veículo através do qual pode expressar seu desejo de fundamentar sua crença no instinto e no físico — não esqueçam que cada capítulo do Ulysses refere-se também a uma parte do corpo humano. Para Joyce, a sexualidade é um ato de expressão da natureza. Neste sentido, concordava inteiramente com D. H. Lawrence, o qual desejava conceder ao corpo um reconhecimento igual ao que era dado à mente. É claro que tais intenções do romance iam ao encontro das teorias de Freud — o desejo sexual como energia motivacional primária da vida humana –, mas ia contra a moral vigente da virada do século. Os encontros de Bloom com mulheres no livro parecem servir de alívio para a exclusão social e a traição de Molly, são o meio utilizado por ele para adquirir o equilíbrio ou equanimidade entre sua existência e a de Molly.

Sandymount Strand, onde Stephen Dedalus caminha imaginando-se cego e onde Leopold Bloom encontra Gerty McDowell em Ulysses

Ulysses é um texto que procura minar e redefinir as noções de gênero e de hierarquia na sociedade patriarcal da época. O romance não promove a superioridade masculina, mas eleva as mulheres e a feminilidade. Não só Joyce inverte a hierarquia social predominantemente masculina, como confunde e desafia a noção de gênero na dicotomia da criação de um casal formado por um homem delicado e feminino e uma mulher decidida. Nesta combinação, o casal Molly e Leopold, desafia os estereótipos que definem a masculinidade como agressiva e dominadora e a feminilidade como passiva e reservada.

Salman Rushdie escreveu em seu ensaio The Short Story: “Comumente o que é pornográfico para uma geração, é clássico para a geração seguinte”. A frase parece ser perfeita para Ulysses: enquanto a censura do início do século XX considerava o texto imoral e inadequado, ele agora oferece para nós um quadro riquíssimo para a exploração e análise da sexualidade de personagens extremamente bem construídos, sendo que um deles era “o homem comum”.

Poderíamos definir a pornografia como a apresentação de cenas destinadas a despertar desejo sexual no observador? Assim como num filme de sexo explícito, Ulysses rastreia movimentos e sensações corporais, realizando (ou escandalizando) o desejo do leitor de observar com precisão a mecânica do corpo. No entanto, Joyce não faz pornografia: aqui, a predição de Rushdie funciona perfeitamente: apesar de possuir elementos pornográficos, Ulysses oferece a transformação da pornografia em uma forma de arte clássica. Tendo lido e estudado psicanalistas como Freud, Joyce nos oferece não apenas uma nova ficção e linguagem, oferece-nos um ponto de vista original para entender o sexo. A atitude perante a sexualidade estava mudando após a virada do século, especialmente na esfera psicanalítica, e Joyce reflete em Ulysses este novo interesse na sexualidade, o crescimento de uma ciência sexual e o desenvolvimento de novos conceitos que rompiam cabalmente a associação entre sexualidade e reprodução. Joyce pertencia ao grupo de grandes pensadores da época, que procuravam entender e redefinir a sexualidade. Declan Kiberd afirma jocosamente que “Ulysses era não apenas um exemplo de um empreendimento comercial de alto risco, mas também um manual muito particular que extrapolava em muito questões literárias”.

É importante salientar a relação de Joyce com a tradição inglesa do romance. A Irlanda estava sob o domínio inglês. Os ancestrais de Joyce abandonaram lentamente o gaélico — ainda falado em regiões rurais da Irlanda — pelo inglês. Deste modo, os irlandeses viviam a uma certa distância da literatura inglesa ou ao menos utilizavam a língua com menor respeito, muitas vezes com insolência. Deste modo, há, além das ideias de Joyce, um aspecto sociológico que torna a quebra da tradição um ato até desejável de afirmação de nacionalidade. Joyce não falava mal de Dublin e da Irlanda, como alguns afirmam, mas era, sim, contra a sentimentalização do passado, revoltava-se contra o provincianismo de achar que o passado — mesmo um inventado, como o dos gaúchos tradicionalistas — ia voltar.

O Rio Liffey e a Ponte Ha’penny Bridge em Dublin, Irlanda

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Os monólogos interiores de Ulysses ainda eram uma novidade na época do lançamento do livro. Na verdade, o stream of consciousness não foi uma invenção de Joyce e sim do francês Édouard Dujardin, cujo livro Os loureiros estão cortados foi lançado pela editora porto-alegrense Brejo, em 2005, com prefácio explicativo de Donaldo Schüller. O monólogo interior permite ao leitor de Joyce, fazer o contraste entre a riqueza da vida imaginativa de um indivíduo contra o fundo da pobreza de suas relações sociais. Quando comparados com a vida interior dos personagens, os diálogos de Ulysses não são grandemente satisfatórios. Leopold Bloom não perdoa as traições de Molly verbalmente, porém sabemos detalhadamente, por seu íntimo, que ela está perdoada. Os personagens do Ulysses são enorme, imensamente fluentes em seus interiores, mas não são nada articulados verbalmente. Vão embora sem dizer o que têm em mente e é apenas na solidão que alcançam suas verdadeiras vozes. O que dizer do monólogo final de Molly Bloom? Ali ela expõe-se de uma forma muito transgressora — não está sozinha enquanto o marido dorme ao lado? — , tem fantasias que surpreendem mesmo um século depois. Joyce, escrevendo de dentro dos pensamentos do cérebro de Molly, constrói o gozo feminino com primeiro com liberdade e depois com humor, celebrando como nunca antes o desejo da mulher numa época em que a psicanálise ainda não o fazia.

Os encontros, como o de Bloom com Gerty MacDowell, são em geral sem palavras, conduzidos pelo corpo. Há muitas frases pela metade. Por exemplo, após masturbar-se na praia, Bloom escreve na areia “sou um”. O casamento com Molly também serve para ilustrar a falta de articulação. É uma ligação silenciosa de duas pessoas que compartilham uma casa, uma cama, quem sabe amor, mas não uma vida.

Angelina Ball no filme Bloom (2003), de Sean Walsh

E Bloom, como dissemos, comporta-se estranhamente para um homem da virada do século. Arruma a cama, limpa o lençol, tem sentimentos de empatia para com uma mulher grávida, preocupa-se com a filha, morre de saudades do filho, têm fantasias de que está grávido. Mais: Bloom sente-se inconformado e invejoso pela centralidade da mulher no processo dar à luz. Seis semanas antes de seu filho Rudy nascer, é visto comprando uma lata de alimento infantil, o que prova para seus amigos que ele não é bem um homem. Pior: eles dizem que ele, uma vez por mês, fica com dor de cabeça “como uma franguinha com as regras”. Também como talvez uma mulher fizesse, ele evita que Gerty o veja de perfil, quer que ela o veja em seu melhor ângulo. Depois Gerty faz o mesmo.

Ulysses borra a distinção entre os sexos. No episódio “Penélope”, o leitor entra nos pensamentos de Molly enquanto ela se encontra na cama ao lado de Bloom, ao final do dia. O monólogo revela a promiscuidade de Molly, suas lembranças de relacionamentos anteriores e memórias de sua família. Quando lembra da amamentação de Milly, ela fala que algumas vezes amamentou simultaneamente também a Bloom: “Eu pedi para chupar meus seios, ele disse que o que saía era doce e mais espesso do que o das vacas”. Enquanto muitos acharam e ainda acham isso o cúmulo da pornografia, talvez seja melhor relacionar a cena à sugestão de que a mulher pode ser uma provedora familiar ou que pode rebaixar o homem a uma posição infantil. Nas duas hipóteses, o texto de Joyce subverte a masculinidade.

Em seu ensaio prévio à última edição do Ulysses, Declan Kiberd afirma que na verdade, Bloom e sua esposa comportam-se como verdadeiros andróginos. Eles seriam “encarnações das palavras de Freud de que mulheres dominadoras e viris são atraídas e atraentes para os homens femininos”. A sensibilidade associada à feminilidade e a agressividade associada à masculinidade não funcionam para o casal. No entanto, as qualidades femininas de Bloom e as dominadoras de Molly não garantem uma vida sexual em comum e a impressão que fica é de uma incompatibilidade confortável para ambos. No monólogo, Molly exibe suas características masculinas na recapitulação de seu primeiro encontro sexual com Bloom em Howth Head, em consonância com que já sabíamos de Bloom: “Ela me beijou. Fui beijado. Estava à sua mercê e ela arrumou meu cabelo. Beijado. Ela me beijou.” (A simbologia adquire mais força quando ele recorda que Molly, em seu primeiro encontro, mastigou um pedaço de bolo e, beijando-o, colocou-o quente e mastigado em sua boca), como se fosse uma mamãe pássaro.

Howth head
Howth Head map

Bloom não deseja impedir o adultério de Molly com Blazes Boylan. Ele chega a imaginar uma cena na qual entrega sua esposa a Boylan. Essencialmente, ele permite a infidelidade da esposa para que ela possa experimentar o prazer enquanto ele procura a sua própria e particular satisfação com as mulheres de Dublin.

Em Ulysses, Joyce tenta descrever outras situações da sexualidade humana, ainda não presentes em romances. Joyce não julga nem demonstra desejo de advogar como acertadas, entre aspas, determinadas práticas ou condutas sexuais, mas revela a inconsistência dos comportamentos estereotipados de gênero, ao mesmo tempo que coloca o desejo no centro de muitas, muitíssimas de nossas ações.

Além de contradizer a sociedade, Joyce igualmente contradiz a religião. A masturbação de Bloom é justaposta a um serviço religioso, claramente a fim de comentar as restrições que a religião coloca sobre as expressões sexuais pessoais. Descrevendo o Bloom onanista, com o serviço religioso ocorrendo em background, Joyce faz várias citações bíblicas, transformando Gerty num piedoso emblema de uma Virgem Maria de natureza libidinosa, que incita Bloom. Joyce parece fazer piada com a possibilidade da religião dominar o desejo carnal, apresentando a concupiscência como um componente óbvio e intrínseco a toda a existência humana. E segue desafiando modelos quando Bloom se envolve em encontros voyeuristas durante sua jornada em Dublin.

Joyce conhecia e respeitava Freud, porém Ulysses não necessariamente se encaixa nas obras dos psicanalistas da época. A incorporação da sexualidade pelo Ulysses exemplifica principalmente um não-conformismo. Durante todo aquele 16 de junho, os protagonistas do Ulysses tiveram que enfrentar muitas coisas. Porém, quando focamos uma lente crítica sobre as representações de sexo no romance, podemos notar como Joyce foi cuidadoso ao construir e apresentar os apetites sexuais de cada personagem. Ao usar o sexo como uma ligação entre seus personagens e leitores, James Joyce foi capaz de criar representações universais formadas por muitas camadas. Notem como o romance é finalizado com o orgásmico “sim” de Molly, algo que é final e evidentemente muito afirmativo. Foi certamente a primeira vez que tivemos acesso a tamanha interioridade. O recurso narrativo do fluxo de consciência, despregado das limitações dialogais, demonstra claramente cada identidade.

Segundo Álvaro Lins citado em artigo do escritor Franklin Cunha, Joyce foi “um revelador do caos num mundo em desordem”. Consciência e subconsciência, angelitude e animalidade, idéias e instintos, natureza física e natureza psíquica, é o ser humano sempre por inteiro que Joyce busca apresentar em sua obra. No imenso mar joyceânico nenhuma concepção é ignorada, elas estão no livro e nas mentes dos personagens bem como estão as realidades que as representam. Segundo Edmund Wilson, Joyce, a partir desses eventos,” edificou um quadro espantosamente vivo e fiel do mundo cotidiano, o qual possibilita uma devassa e um acompanhamento das variações e complexidades de tal mundo, como nunca foi feito antes.

Estilisticamente pantagruélico, Joyce, em Ulysses, não apenas constrói o romance moderno como o ameaça com um catálogo aparentemente interminável de temas e estilos. E, dentro deste amplo cenário, invoca Eros como metáfora universal da condição humana..

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Para inspirar o Dia dos Namorados, os maiores casais da literatura

Para inspirar o Dia dos Namorados, os maiores casais da literatura

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Falta uma semana para o Dia dos Namorados e a Bamboletras criou uma listinha despretensiosa dos mais importantes casais da literatura. Muitos deles estão em nossas estantes.

Claro, o legal da data é estar junto e celebrar a relação, mas sabemos que um presente sempre abre um sorriso. Ainda mais quando este é um livro escolhido com cuidado. E, se você já observou seu amor lendo, sabe que ler é sexy.

Nossa listinha (reclamações nos comentários):

Romeu e Julieta — Romeu e Julieta
Capitu e Bentinho — Dom Casmurro
Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy — Orgulho e Preconceito
Bibiana Terra e Rodrigo Cambará — O Tempo e o Vento
Bridget Jones e Mark Darcy — O Diário de Bridget Jones
Scarlett O’ Hara e Rhett Butler — E o vento levou…
Tristão e Isolda — O Romance de Tristão e Isolda
Abelardo e Heloísa — Abelardo e Heloísa
Heathcliff e Catherine Earnshaw — O Morro dos Ventos Uivantes
Jay Gatsby e Daisy Buchanan — O Grande Gatsby
Blimunda e Baltasar — Memorial do Convento
Diadorim e Riobaldo — Grande Sertão: Veredas
Anna Kariênina e o Conde Vronski — Anna Kariênina
Florentino Ariza e Fermina Daza — O Amor nos Tempos do Cólera
Estella Havisham e Philip Pirrip — Grandes Esperanças
Werther e Carlota — Werther
Lara e Iúri Jivago — Doutor Jivago

PAUL NEWMAN Leitores famosos

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Da sabedoria de Jorge Luis Borges

Da sabedoria de Jorge Luis Borges

É curioso – não creio que isso tenha sido observado até agora – que os países tenham escolhido indivíduos que não se parecem muito com eles. Seria o caso de imaginar, por exemplo, que a Inglaterra escolheria o dr. Johnson como seu representante; mas não, a Inglaterra escolheu Shakespeare, e Shakespeare é – por assim dizer – o menos inglês dos escritores ingleses. O típico da Inglaterra é o understatement, é o fato de dizer um pouco menos das coisas. Shakespeare, porém, tendia à hipérbole na metáfora, e se ele tivesse sido italiano ou judeu, por exemplo, não haveria nada de surpreendente.

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Outro caso é o da Alemanha; um país admirável, tão facilmente fanático, e que escolhe justamente um homem tolerante, que não é fanático e que não está muito preocupado com o conceito de pátria; escolhe Goethe. A Alemanha é representada por Goethe.

A França não escolheu um autor, mas a tendência é Hugo. Evidentemente, sinto uma grande admiração por Hugo, mas Hugo não é tipicamente francês, Hugo é estrangeiro na França; Hugo, com aquelas grandes decorações, com aquelas vastas metáforas, não é típico da França.

Outro caso ainda mais curioso é o da Espanha. A Espanha poderia ter sido representada por Lope, por Calderón, por Quevedo. Mas não, a Espanha é representada por Miguel de Cervantes. Cervantes é um homem contemporâneo da Inquisição, mas é tolerante, é um homem que não tem nem as virtudes nem os vícios espanhóis.

É como se cada país achasse que precisa ser representado por uma pessoa diferente, por uma pessoa que possa ser, um pouco, uma espécie de remédio, uma espécie de teriaga, uma espécie de antídoto para seus defeitos.

Jorge Luis Borges

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Canção de Ninar, de Leïla Slimani

Canção de Ninar, de Leïla Slimani

Canção de Ninar, Leïla SlimaniCanção de Ninar é um thriller espetacularmente bem montado sobre um tema que afeta a quase todas as famílias de classe média urbana: as babás, a criação dos filhos, a vida profissional das mães. E Slimani dificulta sua própria tarefa ao anunciar na primeira página que o bebê estava morto e que a menina ainda estava viva, mas que não iria resistir. O que lemos depois é todo o processo que leva a babá perfeita (e perturbada) a uma série de frustrações que pensa ser insuportáveis. As poucos, Slimani nos joga detalhes que vão fazendo a tensão crescer. No fundo, fica clara a violência entre classes.

A família é a clássica: um pai, uma mãe, uma filha e um filho pequeno. No primeiro momento, a mulher, uma advogada, deixa a carreira profissional para ficar em casa com a filha. Depois vem outra criança e ela entra em crise. A rotina é o algoz que deixa suas aspirações profissionais ficam longe. Ela ama seus filhos, só que… Então ela resolve voltar a trabalhar – mesmo que seu salário dê  apenas para pagar o da babá.

Ela faz uma seleção e encontra a babá perfeita, obsessiva e boa para com as crianças. Para completar, tem excelentes — e verdadeiras — referências. Louise preenche com sobras os requisitos: cuida bem das crianças e também de todos os detalhes do apartamento. Limpa tudo, faz comidinhas. É um anjo. O casal progride na profissão, mas a paz não vem. A babá não é da família, não é a família. Mas quer ser de alguém, quer ter o seu lugar.

A figura de Louise é tudo, menos a da louca caricatural de filme americano. Ela não espuma e nem fica cometendo atrocidades a la Glenn Close. O personagem e o clima de absoluto suspense são excepcionalmente bem criados. Quando nos perguntamos se os pais não suspeitaram, se não notaram nenhum sinal, pode-se responder que é mais confortável não vê-los e seguir a vida que estava indo bem.

Canção de Ninar é um livro grudento, daqueles que nos obriga a ler mais um capítulo antes de fechá-lo. E está longe de ser mero entretenimento. A coisa é perturbadora mesmo.

O primeiro parágrafo:

“O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados, parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulmões estavam perfurados e a cabeça tinha batido com violência contra a cômoda azul.”

Recomendo fortemente.

A autora Leïla Slimani
A autora Leïla Slimani

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