Para descobrirmos a ideologia de uma pessoa, basta saber como ela trata seu dinheiro.
IVAN OSÓRIO (1)
Para identificarmos um mau caráter, basta observar como ele trata as crianças. Se ele as despreza ou humilha, não é incontestável, mas o cara tem boas possibilidades de ser um deles.
N. F. (1)
Caso 1. Meu primo J.R. é engenheiro e não sei se é de esquerda, centro ou direita. Ele gosta de dormir, mas tem que chegar ao trabalho às 8h da manhã. Então, calculou a forma mais otimizada de fazê-lo. Sabe como deve fazer para dar o menor número de passos dentro de sua casa e o algoritmo ideal para não precisar entrar duas vezes no banheiro. Sabe igualmente as melhores ruas para trafegar e que, acordando às 7h10, pode ficar 3 minutos rolando na cama. Nem mais, nem menos. É organizado, confiável, correto, bem humorado. Parece viver feliz. Ele é inteiro. (2)
Caso 2. Meu amigo A. é matemático e comuna. Ele gosta do trabalho de sua empregada, a Nenê, que vai a sua casa há trinta anos, três vezes por semana. Eu soube que um dia A. chegou em casa fora do horário habitual e Nenê estava lá, sentada, olhando pela janela. Não era dia de faxina e ele perguntou o que ela estava fazendo. Ela respondeu constrangida que estava com problemas em casa e achou que podia passar alguns momentos de tranquilidade no apartamento dele. Ele arranjou uma desculpa, pegou qualquer coisa sobre a mesa e disse-lhe que ficasse à vontade. A propósito, ele é inteiro. (2)
Caso 3. Meu amigo T. é ecologista e pensa ser um liberal de esquerda. Gosta de criar belas metáforas e analogias para ornamentar seus discursos, mas nem todos as entendem. Sabe como criá-las utilizando suas idéias. São bonitas. Quando estava por se separar, pensou se não seria ecológico para sua alma tentar fazer renascer o amor entre ele e sua mulher. Deu certo. É adorado por ela. Hoje estão juntos. Sob outros acordos. Ele é inteiro. (2)
Caso 4. Minha amiga P. é violinista, budista e de direita. Ela gosta de Bach e tatuou aqueles dois esses que furam o tampo frontal dos violinos e violoncelos, ladeando as cordas. Ela os têm ladeando sua espinha dorsal, pouco abaixo da nuca, como se ela toda fosse um violino. Ficou sexy, sabe? Que som terá? Como budista, ela tenta aprimorar-se e evoluir em tudo. Em dez anos, tornou-se excelente musicista e a mulher mais agradável, interessada e gentil que conheço. É impressionante como nos sentimos bem com ela por perto. Ela é inteira. (2)
Caso 5. Minha amiga X. é a socióloga e intelectual de esquerda mais culta que conheço. Gosta de pontificar brilhantemente durante horas, mas não tem tempo para tornar-se militante de nada, só do instituto de beleza. Sabe como poucos amassar adversários em discussões. Era casada com meu amigo I. que é de centro. Quando se separaram, ele entrou em depressão, parou de trabalhar e perdeu muito dinheiro. Orientada pelo pai, ela fez com que ele assinasse a passagem de todos os bens para ela, além de ter negociado um acordo que, a rigor, o arruinaria. Ela é… Os cacos do espelho espalharam-se pelo mundo. (3)
Caso 6. Minha amiga A. é blogueira, provavelmente historiadora, de esquerda e relaciona-se com o mundo através da ironia. Gosta de ridicularizar aquilo que acha vulgar. Escreve posts semelhantes às notícias de Caras ao lado de outros com interessantes análises políticas. Sabe ser engraçada e parece inteligente, mas L. sempre desconfiou de quem zomba e conhece tanto sobre a vulgaridade alheia. L. fez um comentário no estilo de A., tendo como mote um erro cometido por ela. Ela teve um chilique ao ver-se alvejada. Deletou o post inteiro. Ofendeu-se e ofendeu. Ela é… Os cacos do espelho espalharam-se pelo mundo. (3)
Caso 7. X. é petista e quer ajudar todo mundo. Mas ocorreram problemas em seu terceiro ou quarto casamento e ela não apenas trocou as chaves de casa, deixando seu ex-marido na rua, como mentiu a amigos sobre ele. Ele usava o dinheiro dela, queria roubar sua casa numa partilha, detestou-a pelo fato de ela não poder ter filhos, era desinteressado sexualmente, etc. Ela também repete o padrão de odiar a ex-mulher do atual marido e de tentar cooptar os filhos no ex-casal para sua área de influência. Ela é… Os cacos do espelho espalharam-se pelo mundo. (3)
Pergunto: Onde começa a ideologia? Ela vem do íntimo e sobe para a vida social ou é o contrário? Por que nem sempre ela invade o comportamento? Como alguém pode isolar as ideias que professa de sua práxis íntima? E o contrário faz alguém feliz?
(1) Afirmações reais de amigos reais, falsa e idealmente ouvidas à noite, em torno de uma mesa, com boa bebida, comida idem.
(2) Pessoa inteira: do jargão psi. Trata-se de uma pessoa centrada, mas não auto-centrada ou em faixa própria. Alguém que possui uma trajetória com um conceito, com uma essência que o apóia. Pessoa de ética inabalável, não casuísta. Simplificando, o “inteiro” é o mesmo em qualquer circunstância, não diz uma coisa e faz outra, nem tem duas caras.
(3) Em A Rainha da Neve (1845), de Hans Christian Andersen (1805-1875), o diabo fabrica um espelho que exagera os menores defeitos dos objetos refletidos. Ao elevá-lo ao céu, com o objetivo de lá refletir os anjos, o espelho escapa das mãos do demônio, partindo-se em milhões de pedaços. Estes penetram nos olhos e nos corações dos homens, que passam a ver apenas o mal e a fealdade a seu redor. Neste conto, há a frase Os cacos do espelho espalharam-se pelo mundo.
































