As melhores Cantatas de Bach
Escolher as “melhores” das mais de 200 cantatas sacras de Johann Sebastian Bach é uma tarefa assustadora, pois cada uma delas parece perfeita. Mas três grandes especialistas em Bach aceitaram o desafio.
Traduzido da dw.com
Peter Wollny, diretor do Arquivo Bach em Leipzig, Michael Maul, novo diretor do Bachfest, e Sir John Eliot Gardiner, maestro britânico, presidente do Arquivo Bach, escolheram as que consideram as “maiores” cantatas de Bach. Maul identificou 33, Gardiner tinha um total de 38 e Wollny 52.
Cada um do trio fez sua lista individualmente e 15 cantatas apareceram nas três relações. Então, já juntos, Wollny, Maul e Gardiner reduziram a lista para 33.
Isto foi feito nas primeiras 48 horas do Bachfest de Leipzig, em agosto de 2018. Depois, todas as 33 Cantatas foram apresentadas durante o Festival.
Então, o que é uma Cantata? O termo vem do italiano “cantare” e tem a ver com canto. A cantata é um trabalho vocal com duração de cerca de 20 minutos que compreende várias peças menores — árias, corais, recitativos, sinfonias.
Uma Cantata geralmente leva o mesmo nome que um hino de igreja, e as melodias e motivos musicais do hino — frequentemente o próprio hino – soam ao longo da peça. No tempo de Bach, cantatas sacras eram apresentadas durante os cultos da igreja, e os textos cantados tinham a ver com o tema da leitura do evangelho naquele domingo. É por isso que existem Cantatas para os domingos e feriados específicos do ano litúrgico.
Bach compôs Cantatas semana após semana e mandou tocá-las pelos meninos do coral de St. Thomas e por quaisquer instrumentistas que pudesse arranjar. Poderia ele sonhar que, 333 anos após seu nascimento, a performance de 33 de suas cantatas em seu último local de trabalho seria notada em todo o mundo? Só se pode especular.
Não é um ribeiro, é um oceano!
“Ele não deveria se chamar Ribeiro, mas Oceano!”é uma frase atribuída a Ludwig van Beethoven. É um jogo de palavras: “Bach”, em alemão, significa “ribeiro” ou “riacho”. Beethoven estava se referindo à quantidade e à qualidade universal da obra de Bach. Nesse oceano, as cantatas são ilhas menos conhecidas do que muitos de seus outros trabalhos, mas definitivamente valem uma visita — ou uma revisão. A música é atraente na primeira audição, e torna-se ainda mais interessante quando cresce a familiaridade.
E aqui estão os 33 “melhores” selecionados por Peter Wollny, Michael Maul e Sir John Eliot Gardiner:
· Nun komm der heiden Heiland, BWV 61
· Wachet auf, ruft uns die Stimme, BWV 140
· Ich habe genug, BWV 82
· Wie schön leuchtet der Morgenstern, BWV 1
· Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen, BWV 12
· O Ewigkeit, du Donnerwort, BWV 20
· Ich hatte viel Bekümmernis, BWV 21
· Es erhub sich ein Streit, BWV 19
· Schwingt freudig euch empor, BWV 36
· Wachet! Betet! Betet! Wachet !, BWV 70
· Unser Mund sei voll Lachens, BWV 110
· Sede de Saba alle kommen, BWV 65
· Jesus schläft, was soll ich hoffen, BWV 81
· Liebster Emanuel, Herzog der Frommen, BWV 123
· Sehet, wir gehen hinauf gen Jerusalem, BWV 159
. Herr Jesu Christ, Mensah und Gott, BWV 127
· Himmelskönig, sei willom, BWV 182
· Der Himmel lacht! die Erde jubilieret, BWV 31
· Bleib bei uns, denn es will Abend werden, BWV 6
· Ihr werdet weinen und heulen, BWV 103
· Ewiges Feuer, O Ursprung der Liebe, BWV 34
· Die Himmel erzählen die Ehre Gottes, BWV 76
· Die Elenden Sollen Essen, BWV 75
· Brich dem Hungrigen dein Brot, BWV 39
· Ach Gott, vom Himmel sieh darein, BWV 2
· Herr, gehe nicht ins Gericht, BWV 105
· Ich will den Kreuzstab gerne tragen, BWV 56
· Komm, süße Todesstunde, BWV 161
· Liebster Gott, Wann Wird ich sterben, BWV 8
· We weß, we have the mir mein Ende, BWV 27
· Christus, der ist mein Leben, BWV 95
· Nimm von uns, Herr, du Geu, BWV 101
· Jesus, der meine Seele, BWV 78
Obs. do blogueiro: Eu não estou muito disposto a discutir com o Gardiner e companhia, mas a 106 e a 80 tinham que estar na lista! Agora, achei ótimas as presenças das pouco citadas 36, 75, 95 e 127. A 106, a 80 e a 82 são minhas preferidas, além da incrível 198. E a sensacional 78?
Eu não sou o Ministro
Sou LIVREIRO, proprietário da melhor livraria de Porto Alegre, a Bamboletras. Sou ateu, da esquerda independente, colorado e não tolero evangélicos fora da igreja. Eles são um dos principais pontos de apoio do fascista Bolsonaro.
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P. S. — Tô tentando lembrar onde fiz meu doutorado…
Um Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe
Um Diário do Ano da Peste é uma leitura óbvia — uma releitura, no meu caso — neste período de pandemia, pois é um livro que nos dá uma perspectiva peculiar, uma visão do passado sobre nossa crise atual. Mas não é apenas isso: ele também tem sido por séculos fonte de admiração, com suas histórias “de uma Londres estranhamente alterada”, onde, durante 18 meses em 1665 e 1666, a cidade perdeu 100.000 pessoas — quase um quarto da sua população. García Márquez e Anthony Burgess eram grandes admiradores da obra que narra jornalisticamente, em um texto sem divisões por capítulos, uma distopia semelhante a que estamos vivendo hoje.
A primeira coisa que devemos dizer sobre Um Diário do Ano da Peste é que não é, estritamente falando, um registro in loco. O livro foi publicado em 1722, mais de 50 anos após os eventos que descreve. Quando a praga assolava Londres, Defoe tinha cerca de cinco anos. Mas o autor afirma que o livro é um relato contemporâneo genuíno — a página de rosto afirma que o livro consiste de “Observações e recordações dos acontecimentos mais extraordinários, sejam públicos ou privados, ocorridos em Londres durante a última grande epidemia em 1665. Escrito por um CIDADÃO que permaneceu o tempo todo em Londres. Nunca publicado antes” e credita o livro a HF, entendido como seu tio Henry Foe.
Mas voltemos a 1722 e pensemos que os escritores costumavam dar ares de realidade a tudo. Por exemplo, Defoe também afirmou que Robinson Crusoe foi escrito por um homem que realmente viveu em uma ilha deserta por 28 anos, e que seu livro sobre o célebre ladra Moll Flanders foi escrito “a partir de seus próprios memorandos”. Ele até coloca essa afirmação no enorme título, que vale a pena reler na íntegra: As aventuras e desventuras da famosa Moll Flanders, que nasceu na prisão de Newgate e que, ao longo de uma vida de contínuas peripécias, que durou três vintenas de anos, sem considerarmos sua infância, foi por doze anos prostituta, por doze anos ladra, casou-se cinco vezes (uma das quais com o próprio irmão), foi deportada por oito anos para a Virgínia e, enfim, enriqueceu, viveu honestamente e morreu como penitente. Escrito com base em suas próprias memórias.
Digo isso reconhecendo a extraordinária qualidade e o enorme significado literário e histórico de Um Diário do Ano da Peste. É possível, claro, que tenha sido baseado nos diários do tio de Defoe. É certo que o próprio Defoe pesquisou longa e detalhadamente sobre o assunto e que usou seu enorme talento para dar vida a ele. O livro está cheio de descrições vívidas da maneira como a praga se deslocou pelos diferentes bairros de Londres, as precauções tomadas para combatê-la e o progresso assustador das carroças carregadas de cadáveres acompanhadas por gritos de “tragam seus mortos”. Também há percepções notáveis sobre o comportamento humano sob a sombra de uma pandemia, sem mencionar os casos de mau comportamento e loucura, como o demonstrado por um cidadão chamado Solomon Eagle, que desfilou pelas ruas denunciando os pecados dos cidade, às vezes completamente nu. Os relatos de médicos, de charlatães vendedores de “remédios milagrosos”, de padres e padeiros são sensacionais.
O próprio Defoe também é um assunto intrigante. Além de escrever mais de 300 livros e folhetos sob quase 200 pseudônimos diferentes, ele viajou amplamente, administrou uma fábrica de azulejos e tijolos e encontrou tempo para participar da desastrosa rebelião de Monmouth que tentava derrubar James II. Foi rico e perdeu tudo várias vezes… Possuiu navios e uma propriedade rural, acabando várias vezes na prisão de devedores… Também foi preso por fingir argumentar, em sua sátira de 1702 The Shortest Way with Dissenters, que a melhor maneira de lidar com rebeldes religiosos era bani-los do país e matar seus pregadores. Houve gente que não entendeu a piada e a Câmara dos Comuns queimou o livro e mandou o autor para a prisão de Newgate por calúnia, enquanto seus amigos aproveitavam a oportunidade para divulgar mais seus panfletos.
Tudo isso ocorreu antes de ele realmente começar a escrever livros. Seu romance mais famoso, Robinson Crusoe, foi publicado em 1719 e Um Diário do Ano da Peste seguiu-o em 1722. Em seus últimos anos, ele também escreveu um grande livro de viagens sobre a Grã-Bretanha , o mencionado Moll Flanders e mais de uma dúzia de outros romances. Na época de sua morte, em 1731, ele estava novamente escondendo-se dos credores.
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Ao reler um Um Diário do Ano da Peste, os primeiros ecos de 2020 vêm na primeira página 1. O narrador nos diz que ele e seus vizinhos ouviram que a praga “voltara da Holanda”. Somos informados de que o governo recebeu avisos, mas não achou algo digno de preocupação. E os navios daquele país continuaram chegando.
Os paralelos para com nossa despreocupada reação inicial a um problema distante — a pandemia iniciou na China — são tão impressionantes que parece quase ridículo apontá-los. Depois, vire a página e leia o primeiro relatório das “contas semanais” mostrando o aumento de mortes em cada paróquia de Londres. Tais estatísticas são obsessivamente observadas pelo nosso narrador ao longo de seu relato. Os registros fornecem comentários sombrios sobre o terror da doença, assim como os números de mortes que agora recebemos todos os dias há semanas.
Então, descobrimos que esses registros podem não ser confiáveis. Os números das autoridades são sempre baixos. Que coincidência, há subnotificação! “Os números da peste apontavam 17, mas os enterros em St. Giles eram 53″.
Os paralelos continuam. O narrador observa que as medidas necessárias para conter o surto foram tomadas tarde demais. Em outras passagens, há descrições assustadoras do vazio das ruas, “pois quando as pessoas chegavam às ruas, elas as viam vazias, as casas e lojas fechadas, com uns poucos andando no meio da rua, um bem afastado do outro”. Não temos o hábito de pintar cruzes vermelhas nas portas das casas onde há infectados ou de colocar guardas do lado de fora para que as pessoas que contraíram a doença não possam escapar. Também não impusemos o período de isolamento de 40 dias, o que dá nome à “quarentena”. Mas hoje qualquer leitor reconhecerá o medo e a piedade com que o narrador fala das pessoas que têm a doença e podem transmiti-la, especialmente daquelas que o fazem sem querer:
Quero falar daqueles que receberam o contágio e o tiveram realmente em seu sangue, mas que não mostraram as conseqüências disso em seus semblantes: ou melhor, nem eles próprios eram sensíveis, pois muitos não são por vários dias. Sem saber, expiravam a morte sobre todos os lugares e sobre todos os que se aproximassem deles, Suas próprias roupas retinham a infecção e suas mãos infectavam as coisas que tocavam.
Uns expiravam e outros aspiravam a morte, outra coincidência! Não é de surpreender que todo mundo, na Londres de Defoe, esteja nervoso. Mas hoje sabemos que o contágio não vinha das pessoas: a culpa era de ratos e pulgas. Há poucas menções aos ratos cujas pulgas transmitiam a peste bubônica — mas há preocupações sobre animais domésticos. Defoe observa que um número prodigioso desses animais foi morto. Foram mortos 40 mil cães e 200 mil gatos…
Defoe também nos fala dos ricos que fogem para o interior e levam a morte — na verdade alguns ratos — com eles, observando como os pobres estiveram muito mais expostos à doença. Mais uma coincidência… Ele descreve como charlatões vendem curas falsas e de como pobres “até se envenenavam de antemão por medo do veneno da infecção”.
As correspondências são tão claras que parece estranho lembrar que Defoe estava descrevendo eventos de 355 anos atrás — e que Um Diário do Ano da Peste, publicado em 1722, nem sequer seja uma descrição em primeira mão. Mas nisso, pelo menos, há esperança. Ele escreve no final:
Terrível peste esteve em Londres
no ano de sessenta e cinco
cem mil almas levou consigo
mesmo assim, estou vivo!
Espero que eu e você possamos dizer o mesmo no final da atual pandemia.
RECOMENDO MUITO!

Incrível, o futebol já tem data para voltar
O futebol retorna ao RS no dia 23 — daqui exatas duas semanas — com a sequência do Campeonato Gaúcho. A rodada terá Gre-Nal de portões fechados no Beira-Rio. O treinos estão liberados a partir do dia 13.
A federação apresentou um protocolo a ser cumprido e o governador aceitou.
Eu sei lá, acho que o time mais infectado deveria ser declarado campeão.
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Os pseudo escritores já começaram a falar no “grito silencioso” dos estádios vazios. Que a volta do futebol com tantos mortos seria “o barulho do silêncio”.
Aí são duas coisas a criticar: a má ideia de fazer voltar o futebol agora e falta de ideias de determinados escribas. Pô, vamos pensar em algo diferente do tal “silêncio ensurdecedor”?
A morte de Eric Dolphy, um negro
Nestes dias em que se fala tanto em racismo e onde pessoas brancas deixam escancarados seus preconceitos, gostaria de lembrar como morreu o genial saxofonista e claronista Eric Dolphy, um negro do qual brotava sons alegres, vanguardistas, criativos e de desconformidade.
Na tarde de 18 de Junho de 1964, Dolphy caiu nas ruas de Berlim e foi levado a um hospital. Os enfermeiros, que não sabiam que ele era diabético, pensaram que ele havia tido uma overdose e deixaram-no num leito até que passasse o efeito das “drogas”. E ele morreu aos 36 anos…. Foi um enorme artista.
Miguel Torga (1907-1995) escreveu em seus Diários:
É um fenômeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, como, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.
Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados.
Miguel Torga
No dia anterior, ele tinha anotado em seu diário:
O covid-19 no Japão
O Japão não fez lockdown, mas o resultados obtidos contra o covid-19 foram os mesmos de como se tivesse feito. A mortalidade lá é uma menores do mundo, comparável ao Uruguai e à Nova Zelândia. A esmagadora maioria das pessoas vive em grandes cidades e a população é velha. A grande Tóquio tem 37 milhões de habitantes, por exemplo. Então, como conseguiram?
O segredo é a educação do povo, que ouviu o governo quando este aconselhou a população para evitar três coisas:
— lugares fechados com pouca ventilação,
— lugares lotados com muita gente e
— contato próximo em conversas.
E a usar máscaras.
Simples, né? Ou nem tanto, pois educar não é simples.
Ah, mais uma coisa: o governo pede, tem credibilidade, o povo escuta.
O PUM dá a sua opinião a respeito do covid-19 de Bolsonaro
O Partido Utópico Moderado vem aos brasileiros explicar o que rola no Planalto. Espreitamos o quarto de Boçalnato e o que ouvimos entre paredes?
— Presidente, a cloroquina é um placebo em seu caso.
— O que é placebo?
— É tipo o seu governo.
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Armação Ilimitada II:
Bolsonaro foi convenientemente esfaqueado em 2018. Agora, contrai um oportuno Covid-19. É o governo Neymar. Em qualquer dificuldade, rola no chão.
Perigo de extinção: livreiros em pé de guerra
Um relatório divulgado há alguns dias pela Câmara Argentina do Livro (CAL) traz números alarmantes: nos últimos cinco anos, as quedas acumuladas na produção da indústria editorial são imensas. Para as livrarias, a pandemia foi um fenômeno devastador: hoje elas vendem entre 20 e 25% do que faturavam antes. Dado esse panorama, as livrarias de Buenos Aires podem desaparecer? Os envolvidos respondem.
De Natalia Viñes
Publicado originalmente em Perfil.com
Tradução apressada de Milton Ribeiro
As livrarias estão passando pela maior crise de sua história. É difícil calcular seu futuro quando o presente se afunda em uma distopia impossível de se imaginar há três meses. A realidade que os afeta desde o confinamento muda abruptamente a cada semana, e eles vêm enfrentando um profundo problema durante os primeiros meses do governo do Cambiemos.
As livrarias continuarão a existir após o crescimento das vendas de livros na Internet durante o isolamento? O que acontecerá em Buenos Aires, a capital mundial das livrarias, quando a pandemia acabar? Alguns dias atrás, especialistas do setor previram um possível fechamento maciço de livrarias. Consultados por este jornal, os livreiros contam sobre sua situação atual, seu estado de alerta e incerteza e as possíveis consequências.
A Argentina é o país com o maior hábito de leitura da região e Buenos Aires é a cidade com o maior número de bibliotecas por habitante no mundo: 8 mil habitantes para cada uma. Há um total de 350 livrarias que representam 63% das livrarias de todo o país, de acordo com o último relatório estatístico (2018) da Câmara de Publicações da Argentina (CAP). No mesmo relatório, observou-se que o setor editorial mantinha uma estrutura tradicional que ainda tinha um longo caminho a percorrer em direção a novas tecnologias.
Essa situação está sendo refletida durante a pandemia, com diferentes consequências nas vendas das livrarias. Algumas já incorporaram sistemas de vendas on-line que funcionavam bem desde antes do isolamento. A situação atual acelerou processos que, em muitos casos, nem foram planejados. A maioria das livrarias se interessou pelas vendas on-line pela primeira vez, com resultados ainda bastante ruins; os editores adicionaram urgentemente carrinhos de compras em suas páginas da web; e sites de vendas de livros virtuais, como o Mercado Libre ou o Busca Libre, aumentaram exponencialmente suas vendas, enquanto novas plataformas semelhantes apareceram da noite para o dia, como as Sakura Libros, Colorín Colorado e Mandolina Libros, entre muitos outros.
O fim das livrarias de Buenos Aires?
No início do isolamento, as livrarias foram fechadas por um mês, com uma perda de ganhos de 100%. Em seguida, a venda por entrega foi autorizada e, a partir de 12 de maio, o governo de Buenos Aires autorizou a reabertura. Mesmo assim, as livrarias que não estavam preparadas para venda on-line calculam suas perdas entre 60 e 80% em suas vendas e concordam que precisam de ajuda especial para o setor.
Pablo Braun, proprietário da livraria Eterna Cadencia e de uma cadeia de quatro bibliotecas da Station Book, que fica nos shoppings, diz: “Por um lado, estávamos muito bem preparados na Eterna com vendas on-line e que quase supriam o que estava sendo vendido antes. Mas, por outro lado, há quatro shopping centers fechados. Há quase quarenta pessoas trabalhando. Felizmente, existe o auxílio estatal para salários, que funciona para nós, mas não sei quantos meses mais eles podem fazê-lo. Essa é uma catástrofe total e absoluta, vendendo cinco livros por dia”. No mesmo sentido, Sandro Barrella, da Librería Norte, percebe que, quando as vendas on-line começaram, eles conseguiram faturar entre 40 e 50% do que estavam vendendo normalmente. Com a abertura da livraria física, eles começaram a vender 40% a mais do que vendiam apenas on-line. “A livraria tinha uma estrutura em torno do site que estava em funcionamento há muitos anos e que permitiu nos instalássemos rapidamente. Então é uma corrida do dia a dia, porque o livro vem de uma crise de quatro anos muito difícil.”
Por outro lado, José Rosa, da Librería de las Luces e delegado da Câmara de Livreiros, até agora registra uma queda de 80% nas vendas. “As pessoas não vêm ao centro se não houver movimento normal. Se a quarentena continuar, terei que pensar no fechamento”, diz o proprietário da livraria histórica fundada em 1965.” Só agora estamos começando a vender on-line. Mas isso representa dez por cento. É como abrir um novo negócio, que é suicídio hoje em dia. Precisamos de ajuda especial para o setor, porque as livrarias são um negócio com rentabilidade muito baixa”.
Gabriel Waldhuter, da Livraria Waldhuter, diz que “as vendas por entrega representam 15% da venda total de uma livraria; muitos deles, principalmente os pequenos, não possuem site e recorrem ao Mercado Libre, que, entre impostos, comissões e custos de envio, representa um desconto de 20%. Uma pequena livraria obtém 35 a 40% de desconto na editora.
Portanto, nessa pequena venda que fazemos, a lucratividade é nula. Com a reabertura da livraria, se antes cerca de cem pessoas entravam, agora entram dez. A venda de abril de 2020, em comparação a abril de 2019, foi 80% menor. Imagino que a perda anual será de 60 a 70%, dependendo, é claro, de como evoluirá a pandemia. As despesas fixas são mantidas e a receita não para de cair. Tudo sugere que as livrarias serão fechadas. A preocupação é muito grande. A cadeia de pagamentos está completamente quebrada. O setor de publicação e livreiro está sangrando.”
Enrique Avogadro: “Devemos defender livrarias independentes”
Ecequiel Leder Kremer, diretor da Librería Hernández e colaborador e participante da Câmara de Bibliotecas da Fundação el Libro e da Câmara Argentina del Libro (CAL), afirma que “as perdas são importantes. No momento, estamos tendo uma queda de 60%. Embora os 40% que recebemos sejam essenciais porque nos permitem cumprir nossas obrigações, pagar salários com a ajuda do ATP (Programa de Assistência a Trabalho e Produção) e pagar a nossos fornecedores, isso apresenta um cenário que não é bom. Os auxílios estatais são muito importantes e o comportamento das pessoas está definindo o que a situação lhes permite fazer do ponto de vista econômico e de saúde.
Adicionado a esse panorama, há 15 dias uma notícia explodiu como uma bomba: a Editorial Planeta abriu sua própria loja on-line no Mercado Libre. Por meio das redes e sob a hashtag LasLibreríasImportan, um grande grupo de livrarias emitiu uma declaração expressando seu profundo desconforto. A partir desse momento, livreiros, escritores e leitores se juntam à hashtag todos os dias para expressar seu apoio às livrarias.
A Editorial Planeta respondeu há alguns dias , através de Santiago Satz, gerente de imprensa da empresa: “Isso não implica que mais livrarias não sejam mais pontos de venda, elas são nossa prioridade”. No entanto, isso não acalmou os livreiros que, como resultado, estão se reunindo para ver como podem se organizar contra o que consideram uma ameaça.
A Planeta pode legalmente abrir um canal direto com o Mercado Libre (e também não é a única editora que vende diretamente por essa plataforma), mas por ser um colosso, graças ao seu poder econômico, pode se posicionar para obter visibilidade muitas vezes maior que a o das livrarias que vendem e sobrevivem nesse canal no momento. Por sua vez, a lógica do Mercado Libre direciona, através de seus algoritmos, as buscas pelos produtos com maior rentabilidade. Essa confluência de forças é o que as livrarias apontam como um possível efeito devastador em suas instalações. “
A Biblioteca do Norte está em total desacordo com o que Planeta está fazendo. A ideia é manter uma postura crítica, ver quais ações podem ser tomadas em um coletivo de livrarias e também junto às editoras para ver qual proteção pode ser dada ao setor “”, afirma Sandro Barrella.
Parece para Pablo Braun que “isso pode mudar as regras do jogo e, se isso acontecer, a reconversão pode ser mais profunda. Se o Mercado Libre alterar as regras e decidir, por exemplo, vender diretamente através de editoras e não através de livrarias, como a Amazon faz nos Estados Unidos, esse canal pode ser perigoso. E para uma grande editora também. Se o Mercado Libre disser: ‘Se você não me fizer 60%, não comprarei você’. Parece-me que o melhor, apesar de muito difícil, é estar atento ao que o Mercado Libre faz ”, conclui.
A situação não é estranha aos especialistas da área. Alejandro Dujovne, pesquisador e especialista na indústria do livro, diz que “a Planeta (com essa decisão) quebra um certo pacto implícito existente” e que é essencial que haja mesas para conversas e espaços para o diálogo. “O problema é ter um setor fragmentado e uma crise que não contribui para fortalecer esses espaços de conversação. Penso que, se deixar o mercado com suas próprias regras, iremos para uma situação de maior vulnerabilidade das livrarias “.
Brincando de esconde-esconde com o leitor argentino
Por seu lado, Natalia Calcagno, socióloga especializada em economia cultural, acredita que “a prática da Planeta é prejudicial às livrarias em um momento de emergência e seria necessário reagir, nesse sentido, para protegê-las”. Mas ele diz que lhe parece que não é possível que os editores ponham em risco o canal da livraria: um intermediário não pode existir sem eles. Calcagno considera que é necessário solicitar regulamentos ao Estado e que “existem muitas leis culturais de emergência em outros países, como Alemanha, Espanha, Canadá ou França.
Propostas
Consultado dias atrás, Enrique Avogadro, Ministro da Cultura de Buenos Aires, comentou sua disposição de prestar atenção à questão: “Devemos defender livrarias independentes”. Ele mencionou que o governo de Buenos Aires permitiu a reabertura das livrarias e que estão sendo feitos progressos em reuniões com o setor para analisar quais medidas paliativas podem ser tomadas. “Estamos incentivando as livrarias a se estruturarem como associação ou grupo, pelo menos para trabalharem juntas”, afirmou.
Por seu turno, a Câmara Argentina do Livro (CAL) divulgou na terça-feira 9 um documento que relata o estado do setor da indústria do livro e propõe propostas para aplicar na pandemia e mesmo depois dela. Entre as medidas que envolvem diretamente as livrarias, eles propõem um trabalho conjunto com o Correo Argentino para reduzir os custos logísticos das vendas on-line. A ideia seria considerar uma taxa especial para livros e frete grátis em alguns casos. No momento, esses custos favorecem a concentração das cadeias de livrarias e plataformas de vendas e reduzem o percentual de faturamento das livrarias para menos de dez por cento.
O Centro Regional de Promoção de Livros da América Latina e do Caribe (Cerlalc-Unesco) publicou em maio deste ano um documento urgente para entender a situação do setor editorial ibero-americano. Ele afirma que “analistas como Bernat Ruiz, Manuel Gil ou Guillermo Schavelzon concordam que a principal medida do governo para a recuperação do setor não apenas passa pela compra de livros, mas que deve ser dada prioridade às livrarias, pois é o elo mais fraco do mercado. As livrarias precisarão de uma injeção rápida de liquidez que lhes permita evitar o fechamento, diminuir os retornos e continuar fazendo pedidos”, diz Ruiz.
Sobre o futuro das livrarias. Quando a pandemia termina, os livreiros acreditam que muitas livrarias podem fechar. Dizem que não é fácil saber como as coisas vão acontecer, mas não vêem que a livraria, a figura do livreiro e a tradição cultural que temos aqui, terminem. No entanto, eles não podem arriscar uma visão clara do que o futuro lhes reserva após essa transformação que estão começando a conhecer agora.
Pablo Braun diz que “há uma mudança no paradigma do consumo das pessoas. Parece-me que há as telentregas vieram para ficar. Este é um golpe muito forte e todos nós vamos ter que mudar. Não consigo imaginar um futuro sem livrarias. Haverá menos, haverá menos pessoas trabalharão, é muito difícil. Coisas assim podem começar com os editores que vendem direto. Há algo que não tem nada a ver com o mundo do livro, tem a ver com o fato de que todo mundo quer matar o intermediário. E isso teria consequências muito sérias, porque, se não houver intermediários, o que eles acabarão comprando?
Gabriel Waldhuter acredita que “isso está apenas começando, tenho imagens de 2001, acho que essa crise de saúde será pior. Agora, se a vacina muito desejada aparecer, voltaremos a visitar livrarias, para continuar as que possuíamos.
As livrarias não vão desaparecer
Para Ecequiel Leder Kremer, “Provavelmente existe uma prática residual de fazer compras através dos canais digitais, mas parece-me que, como muitos estão esperando para voltar ao cinema, muitos leitores estão esperando para retornar às livrarias com tudo o que isso implica: o relacionamento com a livraria, a possibilidade de percorrer a livraria, percorrer os setores temáticos, identificar editoriais. Isso não substitui a tela do computador.”
Sandro Barrella: “Não tenho escolha a não ser ser otimista, porque é isso que me permite a possibilidade de trabalhar. Então, se tudo desmorona, desmorona. Parece-me que existe um espaço além da mística para pequenas livrarias. Se não houver mais condições uniformes para competir, será muito complicado.”
O que desaparece se as bibliotecas desaparecerem?
Natalia Calcagno: “Quando você entra em uma livraria para conversar, olhar, um mundo de diversidade se abre por recomendação do livreiro. O tema da exposição é essencial para conhecer. Caso contrário, você está limitando a venda. Temos dezenas de milhares de títulos por ano produzidos na Argentina. Além disso, há o que é produzido em outros países. E também a livraria é a possibilidade de a pequena editora se aproximar do leitor ”
Alejandro Dujovne: “Há várias perguntas a serem pensadas, uma delas é qual é o valor social e qual é o valor cultural que uma livraria tem. É uma discussão que a sociedade e a política precisam adotar para ver o que fazer com isso. As livrarias são mais do que apenas um canal de marketing. Embora sua dimensão mercantil ou comercial não deva ser negligenciada, porque muitas pessoas vivem disso. Ao mesmo tempo, são, do nível de produção de valor do livro, um lugar muito importante, porque têm a ver com a experiência da leitura, com a maneira como a literatura e o livro se relacionam com a sociedade como um todo. e como os livros circulam. As livrarias agregam valor e dão visibilidade.”
O escritor Jorge Carrión, que acaba de publicar na Argentina Contra a Amazon, diz que “prevaleceu a lógica que Jeff Bezos (fundador e CEO da Amazon) inventada há mais de vinte anos: o que importa é rapidez e, portanto, é necessário eliminar os números dos intermediários (como o editor, com a editoração eletrônica, ou o livreiro, com a compra na web). Mas essa lógica, se você pensar sobre isso, é bastante absurda. Elimine a caminhada, o desejo, a história que o une com a aquisição e leitura de um livro, a descoberta, a possibilidade de um encontro ou um café. Assim como Buenos Aires protegeu seus cafés notáveis, agora deve proteger suas livrarias. Mas acima de tudo, os leitores devem fazê-lo.”

Morre, aos 91 anos, o compositor Ennio Morricone
Morricone escreveu seu próprio obituário:
Ennio Morricone está morto. Anuncio assim a todos os amigos que estiveram próximos e àqueles um pouco distantes, a quem saúdo com grande afeto. É impossível nomear todos, mas uma recordação particular vai para Peppuccio e Roberta, amigos fraternos muito presentes nos últimos anos de nossa vida. Há apenas uma razão que me faz cumprimentar todos dessa maneira e ter um funeral de forma privada: não quero dar trabalho. Saúdo com tanto afeto Ines, Laura, Sara, Enzo, Norbert, por terem compartilhado comigo e minha família grande parte da minha vida. Quero recordar com amor minhas irmãs Adriana, Maria, Franca e seus parentes e dizer o quanto as quis bem. ma saudação plena, intensa e profunda a meus filhos Marco, Alessandra, Andrea, Giovanni, a minha nora Monica e a meus netos Francesca, Valentina, Francesco e Luca.
Espero que saibam o quanto os amei. Por último, Maria (mas não a última). A ela, renovo o amor extraordinário que nos manteve juntos e o qual lamento abandonar. A ela, o mais doloroso adeus.

Sempre foi e sempre será assim
Por Elena Romanov
Tarde chuvosa de domingo. Muitos dias sem sair de casa. Não, não vou xingar os irresponsáveis… Tenho impressão de que nesse mundo sempre foi e sempre será assim.
Quem se destacava antes do isolamento — como Mônica Salmaso, por exemplo –, continua dando jeito de se destacar durante. Com a mesma energia e beleza. Sempre foi e sempre será assim.
Hoje, passei bastante tempo “brincando de massinha”. Muito legal transformar as coisas com as mãos. O processo é quase artístico. Farinha, água, sal, óleo. Brincamos bastante com os tamanhos e formas. Dividimos. E a coisa se transforma. Brincamos com as temperaturas e a coisa se transforma em comida e se torna irresistível.
Acho que a essência da arte é essa. Brincar e fazer descobertas com a alegria de uma criança. A arte não se acumula com os pesos dos resultados guardados. O mais importante é a impressão volátil. A gente sabe que sentiu. Mas não sente para sempre. Passou.
Sempre foi e sempre será assim. 🤔
A História da Música em menos de 7 minutos
101 dias
São 13 dias de março, mais os 30 de abril, os 31 de maio, sem esquecer os 27 deste mês. Já são 101 dias em que a Livraria Bamboletras começou o súbito e necessário aprendizado de trabalhar sem balcão, quase só na telentrega. Não reduzimos a equipe — importante ponto –, mas as tarefas se alteraram radicalmente, com mais da metade do pessoal trabalhando de casa. Trabalhando muito e sob tensão. A loja permanece bonita, só que pouca gente a vê, o que a gente faz é desejar que o telefone toque, que o Whats apite, que o Messenger se apresente. E passa a buscar os livros, nosso glorioso produto.
As pessoas não esquecem da Bamboletras. Ou às vezes esquecem, mas voltam sempre. E vêm com pedidos às vezes muito complicados — quero um livro que li na infância e que esqueci o nome, era um infantil de capa rosa que e era a história de uma menina chamada Soraia… Na retaguarda, é um pedir livro sem fim para as distribuidoras. Tem os fornecedores legais e outros nem tanto assim. Há o que estão sempre disponíveis como nós e os que apenas abrem uma vez por semana (em um turno). Há o fornecedor que aceita esperar um pouco (obrigado!), o que pede que façamos uma proposta de parcelamento (obrigado, obrigado!) e o durão. Há que ver o saldo bancário para não deixá-lo crescer para baixo. Há os clientes legais que até adiantam uma graninha e recriam o velho esquema do caderninho, há os que ficam perplexos quando ouvem que um livro pode demorar ou é impossível e os que ficam encantados quando ele chega logo ou tem na loja. Há a indignação com a lentidão do Correio — o que podemos fazer? –, há os que não gostam de não poder entrar na livraria e os que amam ver seu livro chegar de bike e que depois nos escrevem (obrigado!).
(Teve gente que entrou durante o relaxamento e que gritou ‘Como é bom estar numa Livraria!’)
E há que, fundamental e criteriosamente, cuidar da saúde e se esconder da COISA.
Até aqui foi um filme de terror, mas estamos na luta. Ontem, vi o colega ao lado desmontar seu bar. Hoje, ao chegar na livraria, vi outro — um enorme caminhão de mudança esconde sua fachada na meio da Lima e Silva. É sábado — teoricamente um dia de relaxar — e já estou apavorado antes das 10h. Sim, há muita gente na pior.
Entrei na livraria repetindo para mim mesmo que nosso dia não vai chegar. E dale trabalhar.
Para Lya Luft, agora arrependida…
Pra mim, quem votou no Bolsonaro não tem perdão. É um cego político. Ou é muito burro, credo.
Tudo o que ele está e não está fazendo foi anunciado e reanunciado. Todo mundo sabia e votou nele porque quis ou porque não se informa. Ou porque gosta de ditadura ou é um fascista e racista enrustido, etc.
Seu amor à morte, aos milicianos, aos machos — desde que brancos, claro –, aos pequenos roubos e à elite mais podre do país é evidente há anos.
Lembro que o balcão da Bamboletras virou um divã de psicanalista no dia da eleição do Bozo. Houve uma desconsolada uma reunião improvisada de umas quinze pessoas, o clima era de luto. Naquele domingo terrível, as pessoas foram se refugiar numa livraria. (E não foi na Amazon de nosso descontentamento…) Teve gente que chorou.
O bom leitor sabe, o bom leitor sempre sabe.
.oOo.
E o Wellington Mendes segue: “Exato. Cego político é pouco. O discurso do canalha sempre foi claro e o mesmo, de destruição, crime, opressão, fascismo… Não venham dizer que se enganaram. Quem apoiou sabia o que estava fazendo. São responsáveis por mortes e agressões, por arruinarem o país em diversos sentidos. Devem pagar com vergonha e ostracismo. Se arrependidos, suicidem-se. Paguem por fazer roleta russa com o destino dos outros. Desgraçados.”
Especialistas pedem regulamentação após o mais recente fracasso em restauração de arte na Espanha
Pintura da Imaculada Conceição de Murillo foi supostamente limpa por restaurador de móveis
No The Guardian
Traduzido por Milton Ribeiro

Especialistas em conservação na Espanha pediram maior rigor nas leis que controlam os trabalhos de restauração depois que uma cópia de uma pintura famosa do artista barroco Bartolomé Esteban Murillo se tornou a mais recente da longa linha de obras de arte que sofreram reparos ruinosos.
Um colecionador de arte particular em Valência teria sido cobrado em € 1.200 por um restaurador de móveis para limpar a imagem da Imaculada Conceição. No entanto, o trabalho não correu conforme o planejado e o rosto da Virgem Maria ficou irreconhecível, apesar de duas tentativas de restaurá-lo ao seu estado original.
O caso resultou inevitavelmente em comparações com o infame incidente do Macaco Cristo, de oito anos atrás, quando uma tentativa de um paroquiano devoto de restaurar uma pintura do Cristo açoitado, que estava na parede de uma igreja nos arredores da cidade espanhola de Borja, foi alvo de manchetes em todo o mundo.
Paralelos também foram traçados com a restauração fracassada de uma estátua policromada de São Jorge e dos dragão do século XVI no norte da Espanha, que deixou o santo guerreiro parecido com Tintin ou uma figura da Playmobil.
Fernando Carrera, professor da Escola Galega de Conservação e Restauração do Patrimônio Cultural, disse que esses casos destacam a necessidade de que o trabalho seja realizado apenas por restauradores adequadamente treinados.
“Eu não acho que esse sujeito ou essas pessoas possam ser chamadas de restauradoras”, disse Carrera ao Guardian. “Sejamos honestos: são pessoas que estragam tudo. Eles destroem arte”.
Carrera, ex-presidente da Associação de Conservação e Restauradores Profissionais da Espanha (Acre), disse que, atualmente, a lei permite que pessoas se envolvam em projetos de restauração mesmo que não possuam as habilidades necessárias. “Você pode imaginar alguém sem formação autorizado a fazer cirurgias? Ou alguém autorizado a vender quaisquer remédios sem uma licença médica? Ou alguém que não é arquiteto ou engenheiro autorizado a construir um edifício? Embora os restauradores sejam “muito menos importantes que os médicos”, acrescentou, o setor precisa ser estritamente regulamentado para o bem da história cultural da Espanha. “Vemos esse tipo de coisa uma e outra vez e, no entanto, continua acontecendo”.
“Paradoxalmente, mostra o quão importantes são os restauradores profissionais. Precisamos investir em nossa herança, mas mesmo antes de falarmos sobre dinheiro, precisamos garantir que as pessoas que empreendem esse tipo de trabalho tenham sido treinadas. ”
Maria Borja, uma das vice-presidentes do Acre, também disse que incidentes como este de Murillo eram “infelizmente muito mais comuns do que se imagina”. Na entrevista à Europa Press, onde informou “reparo” de Murillo, ela afirmou: “Nós só descobrimos que uma obra foi destruída quando as pessoas denunciam à imprensa ou nas mídias sociais, mas há inúmeras outras situações das quais só ficamos sabendo anos depois ou nunca, pois as coisas desaparecem.”.
As intervenções não profissionais, acrescentou Borja, “significam que as obras de arte sofrem e os danos podem ser irreversíveis”.
Carrera disse que a Espanha tem uma enorme quantidade de patrimônio cultural e histórico em razão da riqueza cultural de todos os diferentes grupos étnicos que passaram pelo país ao longo dos séculos, deixando para trás suas marcas e monumentos.
Outra parte do problema, acrescentou, é que “alguns políticos simplesmente não dão a mínima para o patrimônio”, o que significa que a Espanha não tem recursos financeiros para salvaguardar todos os tesouros de seu passado. “Precisamos focar a atenção da sociedade nisso, para que escolhamos representantes que coloquem a herança cultural em suas agendas”, disse ele.
“Não precisa estar no topo das prioridades, porque obviamente não é como cuidados de saúde ou emprego — mas nossa história é também importante.”
Semana futebolística
É claro que sou a favor do distanciamento social e de todas as medidas para contar o covid-19, mas mesmo assim sinto saudades do futebol e ontem vi dois bons jogos ocorridos na Espanha e na Inglaterra, ambos com portões fechados.
Como foram “meus times” nesta semana: Rio Ave 1 x 2 Benfica (1º), Sevilla 0 x 0 Barcelona (2º), Cardiff 2 x 0 Leeds (2º), St. Pauli (14º) 1 x 1 Regensburg, Everton 0 x 0 Liverpool (1º).
Roma, Inter e Brasil-Pel não jogaram.
A autoimolação de Valéri Kosolápov ao publicar Babi Yar, de Ievguêni Ievtuchenko
Por Vadim Málev, em 10 de junho de 2020
Texto de Milton Ribeiro a partir de tradução oral de Elena Romanov

Hoje é o dia dos 110 anos do nascimento de Valéri Kosolápov. Mas quem é esse Valéri Kosolápov? Por que deveria escrever sobre ele e você deveria ler? Valéri Kosolápov tornou-se um grande homem em uma noite e, se não fosse assim, talvez não conhecêssemos o poema de Yevgeny Yevtushenko (Ievguêni Ievtuchenko) Babi Yar. Kosolápov era então editor do Jornal de Literatura (Literatúrnii Jurnál), o qual publicou corajosamente o poema em 19 de setembro de 1961. Foi um feito civil real.
Afinal, o próprio Yevtushenko admitiu que esses versos eram mais fáceis de escrever do que de publicar naquela época. Tudo se deve ao fato de o jovem poeta ter conhecido o escritor Anatoly Kuznetsov, autor do romance Babi Yar, que contou verbalmente a Yevtushenko sobre a tragédia acontecida naquela assim chamada ravina (ou barranco). Por consequencia, Yevtushenko pediu a Kuznetsov que o levasse até o local e ele ficou chocado com o que viu.
“Eu sabia que não havia monumento lá, mas esperava ver algum tipo de placa in memorian ou ao menos algo que mostrasse que o local era de alguma forma respeitado. E de repente me vi num aterro sanitário comum, que era como imenso sanduíche podre. E era ali que dezenas de milhares de pessoas inocentes — principalmente crianças, idosos e mulheres — estavam enterradas. Diante de nossos olhos, no momento em que estava lá com Kuznetsov, caminhões chegaram e despejaram seu conteúdo fedorento bem no local onde essas vítimas estavam. Jogaram mais e mais pilhas de lixo sobre os corpos”, disse Yevtushenko.
Ele questionou Kuznetsov sobre porque parecia haver uma vil conspiração de silêncio sobre os fatos ocorridos em Babi Yar? Kuznetsov respondeu que 70% das pessoas que participaram dessas atrocidades foram policiais ucranianos que colaboraram com os nazistas. Os alemães lhes ofereceram o pior e mais sujo dos trabalhos, o de matar judeus inocentes.
Yevtushenko ficou estupefato. Ou, como disse, ficou tão “envergonhado” com o que viu que naquela noite compôs seu poema. De manhã, foi visitado por alguns poetas liderados por Korotich e leu alguns novos poemas para eles, incluindo Babi Yar… Claro que um dedo-duro ligou para as autoridades de Kiev e estas tentaram cancelar a leitura pública que Yevtushenko faria à noite. Mas ele não desistiu, ameaçou com escândalo e, no dia seguinte ao que fora escrito, Babi Yar foi ouvido publicamente pela primeira vez.

Passemos a palavra a Yevtushenko: “Depois da leitura, houve um momento de silêncio que me pareceu interminável. Uma velhinha saiu da plateia mancando, apoiando-se em uma bengala, e encaminhou-se lentamente até o palco onde eu me encontrava. Ela disse que estivera em Babi Yar, que fora uma das poucas sobreviventes que conseguiu rastejar entre os cadáveres para se salvar. Ela fez uma reverência para mim e beijou minha mão. Nunca antes alguém beijara minha mão”.
Então Yevtushenko foi ao Jornal de Literatura. Seu editor era Valéri Kosolápov, que substituiu o célebre Aleksandr Tvardovsky no posto. Kosolápov era conhecido como uma pessoa muito decente e liberal, naturalmente dentro de certos limites. Tinha ficha no Partido, claro, caso contrário, nunca acabaria na cadeira de editor-chefe. Kosolápov leu Babi Yar e imediatamente disse que os versos eram muito fortes e necessários.
— O que vamos fazer com eles? — pensou Kosolápov em voz alta.
— Como assim? — Yevtushenko respondeu, fingindo que não tinha entendido — Vamos publicar!
Yevtushenko sabia muito bem que, quando alguém dizia “versos fortes”, logo depois vinha “mas, eu não posso publicar isso”. Mas Kosolápov olhou para Yevtushenko com tristeza e até com alguma ternura. Como se esta não fosse sua decisão.
— Sim.
Depois pensou mais um pouco e disse:
— Bem, você vai ter que esperar, sente-se no corredor. Eu tenho que chamar minha esposa.
Yevtushenko ficou surpreso e o editor continuou:
— Por que devo chamar minha esposa? Porque esta deve ser uma decisão de família.
— Por que de família?
— Bem, eles vão me demitir do meu cargo quando o poema for publicado e eu tenho que consultá-la. Aguarde, por favor. Enquanto isso, já vamos mandando o poema para a tipografia.
Kosolápov sabia com certeza que seria demitido. E isso não significava simplesmente a perda de um emprego. Isso significava perda de status, perda de privilégios, de tapinhas nas costas de poderosos, de jantares, de viagens a resorts de prestígio …
Yevtushenko ficou preocupado. Sentou no corredor e esperou. A espera foi longa e insuportável. O poema se espalhou instantaneamente pela redação e pela gráfica. Operários da gráfica se aproximaram dele, deram-lhe parabéns, apertaram suas mãos. Um velho tipógrafo veio. “Ele me trouxe um pouco de vodka, um pepino salgado e um pedaço de pão”, contou o poeta. E este velho disse: — “Espere, espere, eles imprimirão, você verá.”
E então chegou a esposa de Kosolápov e se trancou com o marido em seu escritório por quase uma hora. Ela era uma mulher grande. Na Guerra, ela fora uma enfermeira que carregara muitos corpos nos ombros. Essa rocha saiu da reunião, aproximando-se de Yevtushenko: “Eu não diria que ela estava chorando, mas seus olhos estavam úmidos. Ela olhou para mim com atenção e sorriu. E disse: ‘Não se preocupe, Jenia, decidimos ser demitidos’.”
Olha, é simplesmente lindo: “Decidimos ser demitidos”. Foi quase um ato heroico. Somente uma mulher que foi para a front sob balas podia não ter medo.
Na manhã seguinte, chegou um grupo do Comitê Central, aos berros: “Quem deixou passar, quem aprovou isto?”. Mas já era tarde demais — o jornal estava à venda em todos os quiosques. E vendia muito.
“Durante a semana, recebi dez mil cartas, telegramas e radiogramas. O poema se espalhou como um raio. Foi transmitido por telefone a fim de ser publicado em locais mais distantes. Eles ligavam, liam, gravavam. Me ligaram de Kamchatka. Perguntei como tinham lido lá, porque o jornal ainda não tinha chegado. “Não chegou, mas pessoas nos leram pelo telefone, nós anotamos”, contou Yevtushenko.
Claro que as autoridades não gostaram e trataram de se vingar. Artigos aos montes foram escritos contra Yevtushenko. Kosolápov foi demitido.

O que salvou Yevtushenko foi a reação mundial. Em uma semana, o poema foi traduzido para 72 idiomas e publicado nas primeiras páginas de todos os principais jornais, incluindo os norte-americanos. Em pouco tempo, Yevtushenko recebeu outras 10 mil cartas agora de diferentes partes do mundo. E, é claro, não apenas judeus escreveram cartas de agradecimento, o poema fisgou muita gente. Mas houve muitas ações hostis contra o poeta. A palavra “judeu” foi riscada em seu carro e, pior, ele foi ameaçado e criticado em várias oportunidades.
“Vieram até meu edifício uns universitários enormes, do tamanho de jogadores da basquete. Eles se comprometeram a me proteger voluntariamente, embora não houvesse casos de agressão física. Mas poderia acontecer. Eles passavam a noite nas escadarias do meu prédio. Minha mãe os viu. As pessoas realmente me apoiaram ”, lembrou Yevtushenko.
— E, o milagre mais importante, Dmitri Shostakovich me telefonou. Minha esposa e eu não acreditamos, pensamos que era mais um gênero de intimidação ou que estavam aplicando um trote em nós. Mas Shostakovich apenas me perguntou se eu daria permissão para escrever música sobre meu poema.

Esta história tem um belo final. Kosolápov aceitou tão dignamente sua demissão que o pessoal do Partido ficou assustado. Eles decidiram que se ele estava tão calmo era porque tinha proteção de alguém muito importante e superior… Depois de algum tempo, ele foi chamado para ser editor-chefe da revista Novy Mir. “E apenas a consciência o protegia”, resumiu Yevtushenko. “Era um Verdadeiro Homem.”


RIP
Anotações de um jovem médico, de Mikhail Bulgákov
O Mestre e Margarida é um dos melhores livros que já li. Então, é natural que persiga outros livros de Bulgákov. Este Anotações de um jovem médico reúne trabalhos da juventude do escritor. Algumas das histórias foram publicadas numa revista de medicina — Bulgákov foi também médico — e falam da época em que ele foi mandado para ser o único médico numa gelada comunidade rural da Rússia.
Há um pouco do humor do escritor maduro, mas o que chama a atenção é o tremendo realismo e poder de observação presentes no texto. Além disso, o texto de Bulgákov nos envolve totalmente. Enviado para assumir um posto como clínico geral em um hospital isolado da civilização, ele é, à princípio, um médico 100% inseguro. O hospital é bem provido materialmente, mas o novo médico não sabe como utilizar boa parte do que tem… E ele lidera uma pequena equipe que conta com um enfermeiro-dentista e duas parteiras-obstetras, acostumados com a liderança de seu antecessor, um médico velho e experiente. Há momentos em que o jovem doutor volta até sua casa para dar uma olhada em seus livros de medicina… Mas ele começa a trabalhar adequadamente, a salvar vidas, sua fama se solidifica e ele passa a atender mais de 100 pacientes por dia. Está sempre exausto. Se você já exerceu um trabalho de grande responsabilidade irá sentir empatia pelo jovem. A ansiedade é muito bem descrita.
Os contos não têm uma ligação cronológica rígida e retratam os episódios mais notáveis da temporada glacial do jovem doutor. Da parte dele, há sincera preocupação pelos pacientes, que costumam ser muito desinformados, chegando um deles a receber comprimidos para tomar um por dia, mas que acaba tomando todos de uma vez porque com esse negócio de um por dia ele poderia esquecer de tomá-los.
O livro também traz o famoso relato Morfina, que narra a história do vício em morfina do Dr. Poliakov, um colega do protagonista de Anotações — que vai receber o nome de Dr. Bomgard. Poliakov substitui Bomgard no hospital isolado. Usando a morfina uma vez para amenizar uma dor física, ele percebe que esta também lhe amenizava os problemas pessoais e renovava sua capacidade de trabalho. A partir daí, já viram… O conto é muito realista e doloroso.
Morfina é também autobiográfico. Bulgákov foi viciado em morfina em sua juventude, e sua primeira esposa, Tatiana Lappa, foi de extrema importância para ajudá-lo a superar a dependência. Ela é considerada o modelo para a personagem Anna, de Morfina, do mesmo modo que a terceira esposa de Bulgákov, Elena, serviu de base para a Margarida de seu maior romance.
Mas há também o conto Eu matei, que traz a aventura de um médico forçado a servir o exército de Petliura, líder nacionalista ucraniano que colaborou com as tropas alemãs durante a Primeira Guerra Mundial, resistindo aos bolcheviques durante a Revolução de 1917.
Excelente! Recomendo!

Você lê este poema e depois manda os racistas pra onde eles merecem ir
~ Casa dos Mundos Irrepetíveis ~
Se digo mãe, digo Itália; se digo avó, digo ilha,
se digo bisavô, digo Galiza; se digo trisavó, digo França
um tetravô na Grécia outro em Damasco;
um perdido na Índia cigana outra nas ruas da Palestina,
se chegar aos décimos avós sou de todos os lugares,
venho de todas as origens, concebido em todas as religiões;
venho de um pirata e seguramente de uma puta,
de um marajá e de uma cortesã, uma geisha
e um traficante de sedas; uma amazona das estepes
e um boiardo; um vizir e uma poeta,
família de assaltantes nos idos dos avós doze,
marinheiros das austrálias, perdidos nos infernos
de ser gente do mundo e no mundo parental
chego depois de várias incidências
a esta Lisboa remodelada; na Mouraria um primo
outro no Quartier, uma prima no Magrebe
outra em Moscou e mais uma no Congo
e milhares no Brasil, o meu DNA é o mundo,
as minhas células do universo
sou um homem feito de mulheres em verso.
Nas minhas veias há um refugiado profundo
Afinal onde está o meu berço?
Luís Filipe Sarmento











