Morganah Marcon é diretora da Biblioteca Pública do Estado do RS e cliente da Bamboletras.
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No Facebook, a Elena já fez um merecido elogio ao programa de ontem de Gregório Duvivier, o Greg News, chamado “Leveza”. O tema foi a necessidade da arte e teve um final absolutamente emocionante, com a família de Gregório — ele é filho de Olivia Byington — cantando lindamente “Menina amanhã de manhã” (“Vai”), de Tom Zé. Ele, sua mãe e irmãs arrasaram num final digno para um texto sobre a presença das artes na pandemia. E, como escreveu a Elena, fazendo um contraponto com outra família que nos tortura diariamente com suas desnecessidades de tantas coisas que prezamos na civilização.
Ignoro os autores do texto, mas devem ser o próprio Gregorio Duvivier com a habitual colaboração de Bruno Torturra e Alessandra Orofino. O programa vai ao ar toda sexta-feira às 23h, na HBO.
Deve ser fácil encontrar o programa no Youtube. Uma pesquisa de ‘Greg News Leveza’ deve resolver a questão.
Aliás, está aqui:
Eu aprendi uma coisa curiosa naqueles dias da virada dos anos 60 para os 70, mais exatamente entre 1969 e 75, quando fui aluno do Colégio Estadual Júlio de Castilhos. Tal ensinamento grudou em mim, desde aquela época em que o Julinho vivia seus últimos dias de auge e tinha algumas características educacionais bem próprias e libertárias, mesmo durante a ditadura.
O ensinamento era o seguinte: quando alguém denunciava um colega por ter cometido um erro ou alguma coisa fora das regras da escola ou do razoável, uma dura punição acabava sendo dirigida a ambos, ao delatado e ao dedo-duro, o delator. Porém, quando alguém confessava seu ilícito, a punição era bem menor. Pois delatar seria uma forma de filha-da-putice, uma canalhice, deslealdade, traição. E não confessar também.
Eu adquiri tal postura. Quando faço algo errado, seja uma brincadeira equivocada ou um ato mais grave, me entrego logo de cara., peço desculpas, etc. Porém, quando outro comete mancadas, jamais acuso, mesmo que saiba. Tive uma colega e amiga que fazia o mesmo, e então comprovei como esta nobre postura também pode ser péssima. No trabalho como jornalista, ela tinha a mesma função de outra funcionária, que sempre acabava por montar nela. Todo erro dela era criticado em voz alta pela colega — algumas vezes por e-mail para a chefia e colegas –, a qual jamais recebia uma resposta de mesmo calibre. A acusadora acabou tida como pessoa correta e intocável, apenas caindo no conceito da minha amiga, o que não tinha significado nenhum na dinâmica do grupo. Pior, minha amiga silenciosamente corrigia os erros cometidos pela dedo-duro, tudo em nome do “time”. Se o Papa a conhecesse, lhe concederia a canonização.
Lembro que ela nunca virou seu caminhão de lixo ou de ressentimento sobre a outra. Todos a viam como uma jornalista mais ou menos competente e nada sacana. Eu só observava. Um dia, após um discurso da filha da puta, dei-lhe os parabéns e disse que, a propósito, não era de meu feitio apontar os erros de outros para a chefia. Resultado: ela passou a me perseguir.
Mas ela não sabia administrar o sarcasmo alheio e nisso… Bem, nisso eu sou bom demais.

O ótimo A vida invisível de Eurídice Gusmão é o mais brasileiro dos livros. Ou é um retrato tão fiel, mas tão fiel da condição feminina no Brasil nos anos 40 e 50, que boa parte das posturas e ações foram identificadas por mim como sendo das gerações passadas de minha família. Se a ação do livro se passa nos anos 40, eu nasci em 1957 e convivi muito com a família de Cruz Alta (RS) de minha mãe. E, meu jesus cristinho, a sociedade cruz-altense dos anos 60 era a do Rio de 20 anos antes. Havia a mulher decente, a fofoqueira, a que era obrigada a trabalhar (coitada), a puta, todas elas com algo em comum, a infelicidade.
Ou era igual em todo o mundo, tanto que o livro já foi multitraduzido, tendo versões em inglês, francês, alemão, etc.
Este livro de Martha Batalha é de 2016 e cumpriu um longo trajeto. Não obteve editora no Brasil, sendo aceito ANTES em outras línguas. Acabou na maior editora brasileira, virou filme e agora faz crescente sucesso, após a autora ter sido finalista do Jabuti por com seu segundo livro, Nunca houve um castelo.
Este livro conta a história de Eurídice, uma mulher dotada de boa dose de inteligência que poderia ter sido o que quisesse, mas que acabou como dona de casa. Tudo o que ela planejava fazer de forma independente acabava em um não do pai, da mãe ou do marido. E ela tenta tocando flauta, escrevendo um livro de receitas, iniciando uma carreira como costureira, lendo e escrevendo, tudo. A resposta de quem manda nela é sempre um não.
Ela tem uma irmã muito bonita chamada Guida, que também sofre, mas em outro âmbito.
Martha Batalha escreve com mão segura e algo ousada ao fazer com que outras histórias subitamente se atravessem na narrativa. Essas interrupções são tão longas que a gente pensa, como se lesse o Manuscrito de Saragoça, de Jan Potocki: será que ela voltará à história que estava contando antes? Mas todas estas histórias que surgem servem para mostrar a vida sofrida de outras mulheres e para dar potência à história de Eurídice.
Então, A vida invisível de Eurídice Gusmão fala sobre vidas de mulheres submetidas a um machismo sistêmico. O marido de Eurídice, por exemplo, é um bom homem que chega a um alto cargo no Banco do Brasil. só que ele acha que a mulher deve ficar em casa tratando dos filhos e das refeições, já que traz dinheiro mais do que suficiente. E, protegendo e “melhorando” a vida de sua família, ele diz não às novidades da mulher. Para a sociedade da época, parece o homem ideal, só que não… Deste modo, sendo “bom, cuidadoso e correto”, ele impõe à Eurídice uma rotina desesperadora, que destrói sua felicidade, criatividade e brilhantismo.
Restou-lhe o silêncio de uma atividade muito conhecida.
Não pensem em um livro feminista que grita, pensem em um bem delicado e muito, muito forte e convincente.
Recomendo muito!

Ninguém duvida que Stravinsky fosse um gênio, mas há uma história dele que poucos conhecem e que demonstra notavelmente sua igualmente jamais contestada habilidade social. Em sua primeira visita à União Soviética, promoveram um encontro entre ele e Shostakovich. Como Shosta era silencioso por natureza — e ainda mais quando observado pela KGB –, Igor ficou matutando em como trazê-lo para a conversa geral. E procurou em sua mente algo que ambos certamente detestariam. E encontrou Puccini! Shostakovich fez uma cara feia, mas depois a dupla conversou a noite inteira e não só sobre o italiano. Como veem, o ódio pode ser motor de coisas boas.
Robson de Freitas Pereira é psicanalista, membro da APPOA e cliente da Bamboletras. Publicou, entre outros: O divã e a tela – cinema e psicanálise (Porto Alegre: Artes & Ofícios, 2011) e Sargento Pimenta forever (Porto Alegre: Libretos, 2007).
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Laura Backes é artista, educadora e cliente da Bamboletras. Transita por diferentes terrenos das artes, particularmente focada na experimentação vocal. Foi professora de corpo e voz na UFRGS e na Ufpel, e hoje dá aulas de voz e movimento para o Grupo Experimental de Dança da prefeitura, assim como na oficina Dança, Educação Somática e Criação, que acontece no Centro Cultural da UFRGS.
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Dias desses, eu peguei um motorista de Uber hiper qualificado. O cara sabia tudo sobre cinema. E começou a falar sobre os filmes que influenciaram Bergman. Eu conhecia alguns de nome, de ter lido entrevistas e livros do mestre, mas ele os tinha visto. E sugeriu que eu assistisse este filme mudo de Victor Sjöström, realizado em 1920. Sim, Victor é o ator velhinho de Morangos Silvestres. Ele garantiu que eu entenderia muitas coisas de meu diretor predileto olhando os escandinavos mudos e dos anos 30. E aqui está o filme que ele chamou de 100% obrigatório. (Sim, o Brasil é triste. O cara deveria estar dando aulas de cinema, mas estava me levando a uma distribuidora de livros).
Eu era leitor de Sérgio Andrade Sant’Anna, depois tomei-me amigo dele no Facebook — dialogamos alegre e gentilmente algumas vezes, falamos de seus livros e de como ele era fisicamente muito parecido com outro grande amigo meu — e sua morte me afeta muito. Foi-se um grande escritor, vítima do coronavírus. João Gilberto, Srta. Simpson, Simulacros, Manfredo Rangel e A Tragédia Brasileira são livros que guardo no ventrículo esquerdo, que é onde o coração bate mais forte. Dias atrás, ele escreveu sobre a grande escuridão. Ele tinha receio que ela estivesse chegando. Puxa vida, Sérgio, não precisava ter acertado, né? Homem íntegro, combateu a ditadura militar e tinha todas as ironias do mundo para nossa atual tragédia.
Foi -se e é mais uma tristeza a marcar esses dias.
Texto publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo de hoje
Ouvir uma obra da juventude de Beethoven e logo depois outra da maturidade é um choque. Poucos compositores evoluíram tão espetacularmente. Mozart vinha fazendo o mesmo, mas viveu 21 a menos e não alcançou o romantismo. Beethoven alterou sua linguagem de tal forma que acabou por tornar-se a própria transição da música do período clássico para o romântico. Isto deu-se certamente por uma necessidade interna, mas fatores externos também o influenciaram.
A vida de Ludwig van Beethoven (1770-1827) mostrou-se tão adequada a romances e filmes que as lendas em torno de sua figura foram se criando de forma indiscriminada, às vezes criando paradoxos. Sua surdez, por exemplo, contribuiu muito para popularizá-lo e para que fosse lamentado. Victor Hugo dizia que sua música era a de “um deus cego que criava o Sol”, mas quem o conhecesse talvez reduzisse o tom de piedade. Beethoven era uma pessoa absolutamente segura de seu talento – não mentiríamos se o chamássemos de arrogante – e tinha perfeita noção de quem era e do que representaria.
Também não foi uma pessoa fácil. Em seus anos de aluno, Beethoven utilizava harmonias que eram consideradas inadmissíveis. Quando lhe diziam que eram estranhas, perguntava: “Quem as proibiu?”. Há um fato muito curioso em sua formação. Desde cedo o compositor teve uma noção muito clara daquilo que lhe faltava: conhecer literatura. Ele sabia que seu talento poderia naufragar sem um arcabouço cultural. Com entusiasmo, ele atirou-se à leitura de Homero, Shakespeare, Goethe e Schiller. Pensava que só assim – e tendo bons professores de composição – poderia ser o que tinha planejado para si: tornar-se o Tondichter da Alemanha, o poeta dos sons de seu país.
As obras escritas antes de seus 30 anos obedeciam e traíam seus mestres. Apesar de respeitar as estruturas aprendidas, já são claros os procedimentos expressivos que utilizaria nas fases seguintes – os temas curtos e afirmativos, os súbitos silêncios, o uso simultâneo de graves e agudos do teclado, a primazia do ritmo. O seu “classicismo vienense” era muito pessoal. É tradicionalmente aceito dividir a vida artística de Beethoven em três fases, mas prefiro dividi-la em quatro. A primeira começa com a mudança para Viena, em 1792. Uma fase leve e ousada como Mozart.
Nove anos depois, em 1801, Beethoven afirmou não estar satisfeito com o que compusera até então, decidindo tomar um “novo caminho”. Tudo parecia levá-lo ao épico e, em 1803, surge o primeiro grande fruto: a Sinfonia Nº 3, Eroica. A obra seria dedicada a Napoleão Bonaparte — Beethoven tinha admiração por ele e pelos ideais da Revolução Francesa. Porém, quando o corso autoproclamou-se imperador da França em maio de 1804, Beethoven foi até a mesa onde estava a sinfonia já pronta, pegou a primeira página e riscou o nome de Napoleão com tanta força que ficou um buraco no papel. Perdeu Napoleão.
O ciclo épico iniciado pela Eroica seguiu com obras verdadeiramente espantosas e originais, que cantavam a força da humanidade, a paixão pela liberdade e a vitória do espírito humano. Vieram a Sinfonia Nº 5, a Nº 6, Pastoral, as sonatas Waldstein e Appassionata, assim como o Concerto para Piano Nº 5, chamado Imperador. Eram músicas intensas, triunfantes e românticas.
Ao final da primeira década do século XIX, começa a terceira fase. Ele já era reconhecido como o maior compositor de sua época, e cometeu algumas, digamos, obras polêmicas. Entre 1813 e 17, passou por uma crise criativa, levado talvez pela progressiva surdez — ele começara a se comunicar com as pessoas por gestos ou por escrito — ou pela perda das esperanças matrimoniais. Mas seguiu compondo: escreveu a pior das músicas em A Vitória de Wellington. “É uma estupidez”, admitiu, mas o público saudou o triunfalismo da obra. Era o músico nacional e tudo o que fizesse era adorado.
Sua sorte foi ter conhecido a Condessa Maria Erdödy, grande e inspiradora amiga que conseguiu retirá-lo da letargia. Ele recomeçou, em 1818, a compor lentamente as que seriam, talvez, suas maiores obras. À Condessa foram dedicadas as duas esplêndidas Sonatas para Violoncelo e Piano Op. 102.
E começou a quarta fase, a mais vanguardista. Há obras muito populares neste período — dentre elas a Sinfonia Nº 9 —, mas há também aquelas que, de tão perfeitas, serviram de base para muitos compositores que vieram depois. A irrepetível sequência perfeita e revolucionária começou com a Sonata para Piano, Op. 106, Hammerklavier. Beethoven teve que prestar explicações a seus contemporâneos, que não a entenderam, o que gerou mais algumas de suas deliciosas respostas mal humoradas. “Não pensei no pianista quando a escrevi”. “Não gostam agora? Gostarão mais tarde. Não escrevo para vocês, escrevo para o futuro.”
As sonatas seguintes, de Op. 109, 110 e 111, são inacreditáveis, considerando-se a época em que foram compostas. A Sonata Op. 111 gerou um dos mais belos momentos da literatura de todos os tempos: a aula do Prof. Kretzschmar em Doutor Fausto, de Thomas Mann. O imaginário professor Kretzschmar dá uma aula sobre o tema “Por que Beethoven não escreveu o terceiro movimento da Sonata Op. 111”. A ideia de Mann nasceu quando um descuidado pianista contemporâneo de Beethoven perguntou sobre o motivo da inexistência do mesmo. A resposta do compositor foi típica: “Não tive tempo de escrever um!”.
O futuro lhe abriria as portas como fez para poucos. No início do século XX, o escritor Romain Rolland acreditava ser o último beethoveniano. Não poderia estar mais enganado. Bartók, Xenakis, Varèse, Shostakovich e Schnittke foram decisivamente influenciados. Além disso, Beethoven tornou-se o mais popular dos compositores, o elo perfeito para aqueles que raramente ouvem a música erudita pudessem adentrar em um novo mundo.
Em 1824, surge a Sinfonia nº 9, Op.125, para muitos sua obra-prima. Pela primeira vez na história da música é inserida a voz humana em uma sinfonia. Os anos finais de Beethoven foram dedicados quase que exclusivamente à composição de quartetos de cordas. Os últimos quartetos são talvez suas obras mais profundas e visionárias. Elas foram encomendados pelo príncipe Galitzin, que pagou 50 ducados por cada. Pagou mesmo? Beethoven recebeu o pagamento apenas do primeiro. Embora o príncipe russo não negasse a dívida, os quartetos restantes só foram pagos aos herdeiros de Beethoven em 1852, 25 anos após sua morte.
Na opinião de Beethoven, o quarteto — que fora inventado por Haydn — era a manifestação mais alta da arte musical e ele utilizou-o como veículo de expressão daquilo que parecia ser um projeto de renovação de sua música.
O Quarteto Op. 132 é absolutamente pessoal, como se vê nas anotações na partitura. Beethoven passara um inverno sem complicações de saúde, mas a primavera trouxera-lhe moléstias pulmonares, digestivas e intestinais que o debilitaram muito, a ponto de deixá-lo de cama por vários dias. Sua situação foi comentada musicalmente na obra. Na partitura, há anotações como “ação de graças de um convalescente”, “sentindo novas forças” ou “Tu (referindo-se a Deus) me devolveste a vontade de viver”. Trata-se de um caso único: um compositor comentar problemas tão terrenos em música. Normalmente, quando se fala na dor que uma música representa, em geral são dores da alma, dificilmente sofrimentos físicos.
Assim, a vida de Beethoven foi finalizada por obras de um tipo nunca ouvido antes. Seus contemporâneos tinham dificuldades de entender aqueles enormes quartetos, às vezes com sete movimentos.
Beethoven foi o primeiro romântico que fez questão de ter liberdade de expressão. Se foi condicionado por algo, foi pelo equilíbrio, pelo amor à natureza e pelos grandes ideais humanistas. Inaugurou a tradição do compositor que escreve música para si, não seguindo os desejos de um mecenas ou a moda. Em uma época em que tanta gente é chamada de gênio, convém conhecer um que verdadeiramente merece ser chamado assim. Beethoven é do tamanho de Shakespeare, Cervantes, Bach, Homero, Dante e de outros poucos, bem poucos.

Eu chego em casa e tomamos café. Aqueles pães da Elena tornam a gente falante. O café incentiva ainda mais e, se não fazemos revolução na mesa do bar — até porque o bar é impossível –, começamos a pensar alto, inspirados por Dostô e sem álcool.
Dmitri Karamázov, personagem de ‘Os Irmãos Karamázov’, de Dostoiévski, diz: “Aí lutam Deus e o Diabo. E o campo de batalha é o coração dos homens”. Assim, Dostoiévski colocava em xeque os valores do humanismo em suas várias vertentes — cristã, idealista, materialista. No espaço psíquico é onde Deus e o demônio se revelavam. Era uma luta travada em silêncio, em espaço obscuro e inconsciente.
Na nossa crise atual, há outra luta, barulhenta e furiosa. Irritante, na verdade. Podemos chamá-la de uma luta entre a razão e a paixão ou crença. De um lado, há os cientistas nos alertando sobre o que fazer — isolamento, máscaras, cuidados –, de outro há os crentes — em Bolsonaro, na onipotência de que não pegará a doença, no espaço sagrado da igreja que impede a entrada do vírus.
Por mais que a luta dostoievskiana possa resultar numa vingança ou crime individual, o debate externo é pior, pois é tão social que pode arrastar a mortes. Hoje chegamos a 10.000, não?
Foi isso. Leu até aqui? Sua vida não mudou. Nem a nossa. Tô de boa com a ciência. Me cuidando para não ter nem aquela gripezinha de todo inverno, apesar de meu histórico de atleta… Aquela gripezinha… A minha, não a do Diabo.
Cláudia Beylouni Santos tem formação em Ciências Jurídicas e Sociais, é especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional, e é estudante de Filosofia e Letras Clássicas.
Também é mãe da Sophia (nada mais justo, a Sophia foi a porta de entrada para a Bambô) e cliente da Bamboletras. É vorazmente curiosa pelo mundo, pela natureza, pelas gentes, cresceu devorando a vida através dos livros, da música e das artes em geral, até poder ir tocá-la de perto com os próprios olhos em jornadas tomando chá de manteiga de yak com nômades Khampa no Tibet; atravessando o mar de Drake como trainee de tripulação em um veleiro para chegar à península Antarctica; trocando abraços com ‘novos velhos amigos’ em tribos tradicionais etíopes; recebendo bênçãos em cerimônia privada na própria casa de uma Kumari – a deusa viva – durante as celebrações à Durga no vale de Kathmandu e muitas outras delícias mais…
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A médica Kate Carr divide seus dias entre o trabalho, os dois filhos pequenos, as contas a pagar e um amante sem graça, enquanto o marido cuida da casa e das crianças. O “trabalho” do marido resume-se a escrever uma coluna no jornal local do bairro de Holloway, Londres. São crônicas sobre como ele detesta tudo, principalmente as pessoas. Também escreve um livro, daqueles que jamais virão à luz. O título de sua coluna? Ora, O homem mais mal-humorado de Holloway. E ela, Katie, resolve se separar. Afinal, a relação com o marido dá-se através de sarcasmos dos quais ela é a maior vítima. OK, o sexo funciona, já o resto… Porém, após o anúncio da separação, David, o marido, decide mudar, transmutando-se num estranho gênero de boa pessoa.
A primeira parte de Como ser legal é realmente muito boa. Katie conta sua história demonstrando discreta raiva, além de boas doses de aversão ao marido e ao amante. Ela também tem perfeito senso do vaudeville onde está metida, mas com uma ponta de desespero real. Uma bela construção de Hornby.
Mas aí aparece BoasNovas, um curandeiro magricela e filósofo dotado de um discurso irritante de terapias alternativas. Ele cura David, o marido, de suas antigas dores nas costas. Mas faz mais: tira do coração de David a herança de anos de cinismo e a substitui por um amor inquestionável e abrangente à humanidade. A metamorfose, manipulada habilmente por Hornby, obriga Katie a questionar o que desejava. O novo David é tudo o que ela acreditava que queria que ele fosse: gentil, aberto, amoroso. Só que, infelizmente, ele também quer escrever livros de auto-ajuda, convence seus filhos a dar seus brinquedos a órfãos e, o pior de tudo, quer que BoasNovas more com eles. O tal BoasNovas é um baita chato que quer salva o mundo alterando as posturas pessoais da gente do bairro. A mudança tem que começar por algum lugar.
Enquanto tudo isso acontece, Katie é forçada a pensar na tolerância e sacrifício que está preparada para fazer a fim de melhorar a vida mundial ou a de seu bairro. Por exemplo, David e BoasNovas bolam um modo de incentivar toda a rua a levar um sem-teto para aqueles quartos que não são habitados de suas casas. Também fazem planos para erradicar a dívida mundial na mesa da cozinha e, em uma inversão, Katie se vê no papel de escarnecedora e cínica.
Quando as coisas começam a não funcionar, o livro cai muito. Assim, a história termina de maneira insatisfatória, oscilando entre a comédia social e os entediantes compromissos de fé e amor de David e BoasNovas. Hornby parece perder o rumo. Ou talvez as perguntas que este livro se faz sejam grandes demais para o autor e para a vida que ele descreve.

Éder Silveira é Doutor em História pela UFRGS, Professor da UFCSPA e cliente da Bamboletras. É autor de Oswald – Ponta de Lança e Outros Ensaios e Tupi or not Tupi: Nação e Nacionalidade em José de Alencar e Oswald de Andrade.
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minha admiração pela bamboletras vem desde a primeira vez que eu a encontrei, quando era criança. uma tampinha amante dos livros e das livrarias, achava um lugar meio encantado, sabe? pequeno e cheio de surpresas. eu e a bambô seguimos na vida uma da outra desde então: minha prima daciara cantou na bambô quando eu era adolescente. que legal, né? cantar numa livraria! quando trabalhei como garçonete em um bar na cidade baixa, tentava ir mais cedinho pro bairro – sou moradora do bom fim – para dar um pulinho na bamboletras. comprei alguns livros do caio fernando abreu por lá que ainda conservo, com muito carinho, na minha biblioteca. ano passado, ao receber uma grana a mais, encomendei dois livros enormes do meu amor reinaldo moraes com o milton. chegaram rapidinho e foram lidos rapidinho, também. essa semana, juntinho desse aniversário tão especial, também rolou um cascalho inesperado e logo pedi ao milton para me mandar alguns livros do marçal aquino. e não posso deixar de mencionar que, honra suprema, algumas cópias do meu primeiro livro ficaram em 2019 por lá autografadas a pedido do livreiro. muito chique!
vida longa a bamboletras, ao meu querido amigo milton e a todas as livraria de porta de rua do mundo.
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Por Marcos Nunes
Eu era cliente da livraria Leonardo da Vinci, no Rio, que fechou nos antigos moldes e reabriu em novos, o que a tornou equivalente a outras do ramo, como a Livraria da Travessa, ainda que não a supermercados sem caráter como a Saraiva, a Cultura e a Fnac.
Quando mais jovem, comprava na Livraria Eldorado, na Tijuca, e andava pelos sebos do Centro (tempos bicudos).
Agora sou cliente de uma única livraria, a Bamboletras, onde nunca fui, e com 99% de probabilidades nunca irei, pois moro a quase 1.900 km dela.
Pelo que vi nas fotos do lugar, é um estabelecimento pequeno, porém bem fornido, tipo aquele boteco pequenino e bem transado que a gente ama, pois tem tudo o que gostamos e conta com donos e atendentes de uma simpatia que é quase amor.
Recebo, é claro, meus livros pelo correio, sendo eles quase todos bons muito bons, exceções de praxe não contando, é claro. Alguns me são indicados; outros, escolho depois de vaguear por sites e recomendações avulsas em redes sociais.
Contudo, jamais, jamais mesmo!, compro livros em sites do gênero Amazon. Fazendo como faço agora, ainda me sinto, nesse meu imaginário de poeta e louco que todos têm um pouco, a impressão de circular pelos apertados vãos entre prateleiras repletas de livros, sentindo os cheiros de papel e tinta, olhando para uma eventual e bela cliente, ou atendente, e até para o sorriso bobão do Milton, que suspeito ser assim, bobão, uma vez que nunca nos vimos e sequer nos falamos pelo telefone.
É, a vida virtual pegou a gente e assim são nossos sonhos no século XXI: impossíveis abraços afetuosos em amigos e amantes unidos tantas vezes por um só interesse. Neste caso específico, os livros.
E, nos dias de quarentena, há pouca coisa melhor para fazer do que ler.
Óbvio, podemos também ficar na rede, beber umas garrafas de vinho, fazer um sexo geriátrico, ver uns filmes pirateados na Internet, ou tecer comentários no Facebook, Twitter e coisa que o valha, sem esquecer dos prazeres da cozinha e do simples vagar dos olhos pela paisagem (quando se tem uma à frente que não seja composta somente de prédios, casas, muros, fiações e automóveis).
Tenho visto, claro, nesses dias de muito ócio (e por isso muito prazer) as postagens de porto-alegrenses (e demais habitantes desse estranho país que é um estado) acerca do aniversário de 25 anos do estabelecimento, há uns tempos sob a gestão do colorado e dublê de jornalista Milton Ribeiro. São sempre palavras de muito carinho, muita força e consideração pela luta que é manter um comércio de livros atuante e alerta entre lojas de lingerie e sanduíches de bosta enlatada.
Escrevo, então, minha cartinha de plena solidariedade a esses compadres que leem, escrevem, fazem contas e pagam impostos, e suprem minha sede por palavras impressas em folhas de papel, enquanto existirem árvores e uns poucos leitores como eu, que de fato leem. Para dar um pouco de alegria aos mencionados compadres de nossa república do compadrio que não chega até nós — aliás, vem se estreitando e o número se compadriados cada dia diminui; acho que estamos criando algo novo no mundo: a república minimalista, que vive somente na Praça dos Três Poderes, e o resto é só o resto.
Sigo apoiando a brincadeira de adultos que é ter uma loja repleta desses estranhos objetos que não fazem parte da vida de quase ninguém, que são como as bruxas nas quais quase ninguém acredita – mas que elas existem, existem.

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Quem não conhece e admira Neltair Abreu, o Santiago? Pois é, ele é mais um cliente da Bamboletras. Ele colaborou em diversos veículos, recebeu mil prêmios como ilustrador e chargista e aqui temos seu depoimento nos 25 anos da Bamboletras. Ah, temos quadros dele para vender em nossa loja!
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José Francisco Botelho é escritor e jornalista, autor de Cavalos de Cronos e A árvore que falava aramaico, ambos publicados pela Zouk, além de premiado tradutor de Shakespeare, Chaucer, Conan Doyle, etc.
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