Dois verdadeiros artistas, dois verdadeiros poetas. O maestro francês Martin Lebel e o pianista suíço Homero Francesch nos trouxeram, junto à Ospa, toda a dimensão do por si imenso Concerto nº 2 para Piano e Orquestra de Johannes Brahms. Obra da maturidade do compositor, eles fizeram com que tudo o que fosse humano na sala se arrepiasse.
Como disse o pianista e professor Fernando Rauber Gonçalves nas Notas de Concerto, há compositores tardios (como também Bach) que não estão requentando velhas fórmulas, como alguns de seus contemporâneos pensavam, mas indicando caminhos. Arnold Schoenberg, o cúmulo da vanguarda em sua época, citado por Rauber, considerava Brahms um compositor inovador e revolucionário, cunhando o famoso ensaio “Brahms, o progressivo”, de 1947. Schoenberg, primeiro em palestras pelo rádio e depois por escrito, defendia que Brahms não era um tradicionalista, mas alguém que expandiu a linguagem musical — até estraçalhar nossos corações, completo eu.
E talvez seja justamente isso que torna o Segundo Concerto tão extraordinário. Sua arquitetura monumental não é um tour de force, mas uma construção profundamente humana. Brahms escreve para um instrumento gigantesco — a orquestra — e, ao mesmo tempo, para o íntimo de quem escuta. Há momentos de enorme força e som, mas também há delicadezas de suspender o tempo. O segundo movimento, com sua fúria e seu lirismo, e sobretudo o terceiro, com aquele maravilhoso diálogo entre piano e violoncelo…
Aliás, no começo do terceiro movimento — o Nº 2 tem quatro –, sentado no meu mezanino de sempre, consultei o ChatGPT e fiz a pergunta “O Concerto 2 de Brahms não parece ter 2 primeiros movimentos?”. As IAs gostam de dar estímulos positivos, enchendo a bola da gente, né? Ela respondeu que era uma observação genial de minha parte… Não, não há nada de gênio em mim, os dois primeiros movimentos são de tempos rápidos, grandiosos, daqueles que pedem aplausos. Pô, fica muito claro que Brahms não está seguindo o modelo tradicional de concerto em três movimentos. Ele expaaaaande a forma. O segundo movimento muda o centro de gravidade da obra antes de chegarmos ao verdadeiro movimento lento. Eu não sei porque ele fez aquilo, sei que o “desequilíbrio” funciona.
O primeiro movimento começa de maneira quase desconcertante. Em vez de uma abertura triunfal, temos aquele tema da trompa, lindo e interrogativo, que convida o piano a entrar. Este entra respondendo à orquestra. É uma música de enorme extensão, mas o drama é sobretudo interior. A relação piano-orquestra é muito mais complexa do que a de solista contra acompanhamento. Quando termina, pensamos que lá vem o movimento lento.
Mas não. Entra um Allegro appassionato. É quase como se alguém tivesse aberto uma porta e, de repente, estivéssemos em outro lugar (ou com outro compositor). A diferença de caráter é enorme. A música fica mais física, mais violenta. O piano deixa de ser aquele interlocutor do primeiro movimento e passa a participar de uma verdadeira luta dramática. E o mais curioso é que Brahms chamava isso de scherzo. Não vou discutir com ele.
Só que não há praticamente nada daquele scherzo leve e brincalhão tipo Beethoven e Bruckner. É algo sombrio e apaixonado, talvez trágico.
É aí que surge a impressão de que existem dois primeiros movimentos.
Há uma história deliciosa: quando Brahms foi estrear este Concerto pela primeira vez, em 1881, teria dito um amigo que “A nova peça é muito bonita, mas é pequena”. (Dizem que ele estava velho e tocava mal seu próprio concerto).
Já Francesch, de 78 anos e em perfeita forma, tocou Brahms com um som muito convincente e entendendo que o piano não era o protagonista absoluto. O instrumento respirava dentro da orquestra. E Lebel levou a coisa sem muito peso, de forma muito moderna, deixando aflorar o movimento e a tensão que nunca deixam a música repousar completamente.
A duração de 50 minutos do concerto me deixou mobilizado por todo o tempo. É longo, sim, mas não senti o tempo passar. Sim, foi um momento raro. Brahms não pareceu um compositor do passado. Pareceu alguém que estava ali, descobrindo algo conosco. É para isso que existem os grandes músicos: para fazer com que uma obra que conhecemos nos pareça, de repente, desconhecida.
E para que, por algumas horas, tudo o que há de humano numa sala se arrepie.

