Pianistas 1

Pianistas 1

Certa vez, estava em Londres com minha filha Barbara. Eu amo a cidade, mas infelizmente talvez jamais volte pra lá. Evitemos os assuntos monetários, eles me fazem mal.

Pois estávamos em Londres e fomos a um recital de piano de um sujeito de cujo nome não lembro, mas que, se estava no Wigmore Hall à noite, tinha que ser MUITO BOM. Ele tocou Bartók, Beethoven e Schubert. Foi lindo. Daqueles recitais pra gente sair da sala eufórico.

Ao final, o público pedia um bis. Ele pediu para falar e disse algo assim:

— Amigos, hoje cedo, de madrugada, eu ainda estava em Moscou. Vim às pressas tocar para vocês em razão da doença do pianista X., como vocês sabem (eu não sabia nem de doença, nem que ele era o substituto de alguém). Estou bem cansado, porém vou dar o bis. Só que desta vez vou tocar a música que costumo tocar quase todos os dias antes de dormir e que não é um erudito. É algo para relaxar. Vou tocar Peace Piece, de Bill Evans. Não durmam, por favor.

Depois das risadas… Olha, o que o cara fez de Peace Piece foi de arrepiar até o dedão do pé. Durante a execução, eu estava até com medo de respirar, se me entendem. Não queria e não podia atrapalhar, seria um crime.

.oOo.

E a história de Peace Piece, de Bill Evans, é particularmente bonita porque a peça nasceu por acaso, durante uma sessão de gravação.

Evans estava trabalhando, em 1958, na trilha do filme Some Came Running, de Vincent Minnelli. O diretor queria uma versão de “Some Other Time”, de Leonard Bernstein. Evans começou a tocar no piano uma figura repetitiva, muito simples, com a mão esquerda: dois acordes que se alternavam continuamente. Sobre esse ostinato, começou a improvisar livremente com a mão direita. O que deveria ser apenas uma introdução acabou se transformando em outra coisa. O produtor percebeu o que estava acontecendo e tacou o dedo no botão de “Gravar”. Evans continuou improvisando — e nasceu Peace Piece.

O aspecto extraordinário está justamente na maneira como ela é construída. A mão esquerda repete obsessivamente um padrão de dois acordes, quase como um ground barroco, enquanto a mão direita parece flutuar sem nenhuma pressa, inventando melodias que não chegam a uma conclusão. Há pouquíssimo movimento, mas enorme quantidade de movimento interior. Evans consegue fazer com que pequenas alterações de intensidade, duração e articulação produzam a sensação de que a música está sempre mudando.

E há outra curiosidade deliciosa: Evans afirmou posteriormente que não planejou nem compôs propriamente “Peace Piece”. Para ele, a mão direita era uma improvisação que simplesmente aconteceu naquele momento. Por isso a gravação original, de 1958, tem uma qualidade tão particular: ouvimos um pianista descobrindo a música enquanto a toca.

Talvez seja essa a razão de Peace Piece continuar soando tão moderna. Ela está entre o jazz, a música de concerto e uma espécie de meditação — e antecipa, em certa medida, procedimentos que seriam explorados muito mais tarde pela música minimalista e pela improvisação contemplativa. É uma música de uma simplicidade enganadora: quanto menos Evans faz, mais profundamente somos obrigados a escutar. E o pianista de Londres, após maravilhosas peças escritas, nos fez levitar com aquela música não composta.

(Para Augusto Maurer, Francisco Marshall, José Beltrame Cusco, Norberto Flach e Rodrigo Nassif).

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