Minha cultura sobre livros policiais é mínima. Gosto muito de Simenon, um pouco de Rex Stout e li aquela maravilha chamada Edições Perigosas, de John Dunning. Nunca fui adiante. Soube pelo próprio Biajoni que o termo “giallo” (“amarelo” em italiano) refere-se a um tipo de romance policial publicado na Itália. O nome surgiu a partir de 1929, em razão das capas amarelas distintivas de uma popular série de livros de crime e mistério. Ficou bacana no nome do livro, né?
Bem, o título não engana e é claro que acontece um crime no tal edifício. Antes do crime, Biajoni constrói de forma muito bem feita o contexto da comunidade de moradores. Creio que ele se divertiu muito criando aquele microcosmo onde acontecerá um assassinato. Para mim, é o melhor do livro. Tava nem aí para quem seria o assassino, pois adorei o grupo de personagens… Tem a família que construiu o prédio e que ocupa dois apartamentos — um para o pai construtor, outro para família da filha, formada por esta, marido e filha –, o vizinho que namora uma policial fortona e o simpático vizinho recém chegado, que logo se revela um festeiro barulhento. A neta do construtor trata de conhecer as tais festas, enquanto o restante do prédio quer ver o vizinho, ainda por cima preto e gay, fora dali.
E o crime acontece. E aqui nesta resenha você não saberá quem mata e quem morre, claro. Mas saberá que O Crime no Edifício Giallo é delicioso. Luiz Biajoni, com sua prosa coloquial e debochada, cria um livro que é tão suspense quanto sátira da sociedade maluca que mora num edifício de alta classe em São Paulo. Como disse, em momento nenhum me preocupei sobre quem seria o assassino — esta é uma falha de caráter minha ao abordar livros e filmes policiais –, estava era me deliciando com as sutis críticas àquele grupo de pessoas privilegiadas e problemáticas.
O ritmo do livro é avassalador em suas acelerações e puxadas de freio. A gente acaba com a impressão que está no Giallo subindo e descendo nos dois elevadores.
Recomendo.




Diferentemente de suas novelas iniciais, as ótimas e sacanas Sexo anal: uma novela marrom, Bucet@: uma novela cor-de-rosa e Boquete: uma novela vermelha, A Viagem de James Amaro é muito mais sombria e introspectiva. E interessante. Também há sexo nela, mas o cerne está na amizade entre dois personagens que, bem… não transam: James e Alex.





Há dois livros de títulos um tanto incorretos (capas abaixo) e que são incríveis.
Olha, são livros deliciosos e inacreditáveis. Árbitros voltando para o estádio montados a cavalo nos anos 20 a fim de fazer a torcida voltar para a arquibancada, torcedores preparando uma forca para um juiz (que foi salvo no último momento sendo levado para o hospital com graves ferimentos e comoção cerebral), corrupção generalizada, uma beleza. Tchê, são histórias inauditas e que dão o que pensar sobre a importância do futebol para nossos vizinhos. Brasil, o país do futebol? Só na linda música do meu xará Nascimento.
Penso que o título deste livro de Franciel Cruz não seja irônico ou casual. Claro, são crônicas sobre futebol, mas também sobre aquilo que gira em torno dele: a infância, o humor, a pobreza, a sociedade maluca de nosso país. Tá pensando que tudo é futebol? fala do futebol como raiz de identidade e contradição. A pergunta provocativa do título — que parece vinda de alguém que detesta o ludopédio — pode ser alterada para o futebol está em tudo ou tudo pode ser futebol. Mais do que um livro de curiosas crônicas sobre o esporte ganha densidade ao se tornar um mapa de esperanças, ilusões e decepções — como aqueles que existem fora das quatro linhas.




