Uma tentativa de limpeza nos quase 1000 Gols de Romário, nos 1283 de Pelé, nos 1497 de Gerd Müller…

É bom esclarecer desde logo: se tivesse que escolher entre Romário e Pelé para meu time, escolheria tranqüilamente Pelé, mas se fosse para conversar, escolheria Romário, autor de frases imortais como, por exemplo: “Pelé calado é um poeta”. Nada mais verdadeiro. Não tenho nada contra a comemoração do gol 1000 de Romário, ele foi / é um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Talvez seja o maior se ficarmos limitados ao pequeno espaço da grande área. Tem 1,68m, mas faz gols de cabeça como poucos. Não costuma chutar forte, faz quase todos os seus gols com um calculado toque na bola. Não bate faltas de fora da área, mas tem 999 gols.

Mesmo que eu considere Pelé – eu o vi jogar muitas vezes, tenho 51 anos – um jogador superior e mais completo do que Romário, um pequeno estudo das estatísticas disponíveis colocará Romário e Pelé como artilheiros de calibre muito próximo.

Farei uma tentativa de “equalizar” as estatísticas de ambos e a de Gerd Müller, pois os critérios – ou a falta de – e o fator histórico influenciaram todas as contagens. Assim sendo, considerarei apenas os jogos oficiais, numa tentatica de “limpar” as listas.. A fonte para a separação dos gols por categorias foi este blog do jornalista Paulo Vinícius Coelho. Nele, há detalhes sobre os 1283 gols de Pelé, sobre os de Romário e depois sobre os 1497 gols do ex-centroavante da seleção alemã e do Bayern de Munique – outro baixinho – Gerd Müller.

A comparação entre os gols que eles fizeram em jogos oficiais é equilibrada:

– Pelé fez 794 gols em partidas oficiais,
– Romário fez 744.

É isso. A conta acima inclui todos os jogos de campeonatos que eles realizaram em seus clubes e na seleção brasileira.

A diferença, antes de 1283 para 999, diminuiu bastante, mas não fico boquiaberto. Na época de Pelé, os grandes times excursionavam e, com um calendário bastante livre, faziam inúmeros amistosos. O Santos, com seu Rei Pelé, era uma atração mundial e os gols de seu maior jogador eram desejados pelos empresários, pela platéia e até pelos adversários. Muitos desses amistosos foram contra equipes africanas e asiáticas – algumas improvisadas na última hora -, que, na época, nem sabiam a forma correta de bater um lateral. Desta forma, Pelé tem um número incrível de gols em amistosos caça-níqueis, como vocês, meus sete queridos leitores, podem comprovar abaixo:

Santos – 1086 gols – 714 em jogos oficiais, 372 em amistosos
Seleção – 95 gols – 43 em jogos de campeonato, 52 em amistosos
Cosmos – 65 gols – 37 em jogos de campeonato, 28 em amistosos
Seleção do Exército – 15
Combinado Santos/Vasco – 6
Seleção Paulista – 11
Sindicato dos Atletas – 3
Seleção do Sudeste – 1
Seleção Amigos do Garrincha – 1

Total: 1283 gols.

E Gerd Müller?

Segundo o livro Bomber der Nation, publicado por Walter Grueber, citado pelo PVC, Gerd Muller marcou 1497 gols, 690 deles em amistosos do Bayern. Ou seja, era um contemporâneo de Pelé, também era da época em que as equipes tinham muito tempo para ganhar dinheiro em festins. Se fizermos o cálculo de jogos oficiais para Müller, teremos 722 gols, o que o colocaria atrás da dupla brasileira.

Eis o registro dos 1497 gols de Muller, discriminados no livro “Bomber der Nation”.

No TSV Nordlingen:
Championship: 51
Friendlies: 18

No Bayern Munich:
Bundesliga: 365
Regionalliga: 33
Bundesliga Play-off: 6
German Cup: 78
Regional Cup: 2
European Cups: 67
European Supercup: 3
Club-World-Cup: 1
League-Cup: 12
Reserve-Team: 6
Indoor: 26
Friendlies: 690

No Ft. Lauderdale Strikers (EUA):
NASL: 38
Play-offs: 2
Friendlies: 4

Na Seleção da Alemanha:
Competition: 68
Friendlies: 20
U-23: 1

Outras seleções:
World-Team: 2
Farewell-Game: 1
Munich-Team: 1
Combinado Munich/Nuremberg: 2

Total de gols: 1497

Ou seja, as posições de alguns jornalistas mau humorados e passadistas que dizem que a lista de gols de Romário é espúria e a de Pelé justa, são equivocadas. O baixinho não é mole. Mesmo. Seja com 1000 ou com 744.

Internacional, Campeão do Mundo 2006

Publicado em 17 de dezembro de 2006

Quero agradecer a todas as manifestações dos amigos sobre a conquista de hoje. Destaco especialmente – e quem mora no sul sabe o quanto isto é raro em nosso futebol – a elegância e a grandeza dos amigos gremistas Afonso XX o Chato, Ery Roberto e de minha mulher, assim como o e-mail emocionado do colorado Marcelo Backes, que hoje mora no Rio de Janeiro.

Fiquei até tarde na festa da Av. Goethe e tenho algumas fotos que estão na máquina fotográfica do meu filho. Meu sobrinho Filipe bateu todos os recordes e deu uma volta na quadra em que mora, correndo e berrando, com uma bandeira do Inter na mão. Detalhe: ele trajava apenas cuecas. Infelizmente, não conseguimos ainda a liberação das fotos.

Ceará e Wellington Monteiro conseguiram o que só Parreira fizera antes: impedir Ronaldinho de jogar. Fabiano Eller, Edinho, Vargas e Iarley (o melhor em campo) cumpriram atuações perfeitas e Adriano Gabiru – o jogador mais odiado pela torcida colorada – fez-nos engolir o melhor sapo de todos os tempos. Agora, cada vez que nos lembrarmos do título de hoje, vamos lembrar dele. Um sapo nietzschiano, portanto, retornando eternamente.

E não adianta: em decisões, quase sempre ganha quem se defende melhor. Aí está o principal mérito de Abel Braga e do comando seguro de Fabiano Eller lá atrás. Se a defesa de um dos times mostra-se firme, o adversário se descontrola e acaba tomando um golzinho… Para finalizar o post: quem fez aquela cobrança de falta do Ronaldinho ir para fora fomos eu, a Helen, o Saad, o Vítor, a Bárbara e o Bernardo. Nós desviamos aquela bola para fora com nossos olhos. Tenho certeza.

O mico que veio do espaço

Não sou jornalista nem publicitário, mas penso que meus 51 anos me deram um pingo de sabedoria para poder refletir sobre meus erros e os de outrem. Quando a agência W3Haus (aqui e aqui, posts alusivos no blog da agência) intermediou a compra do nome de uma estrela por parte do Grêmio, deveria ter pensado em todas as piadas e no simbolismo que envolveria um negócio estranho como este. Por exemplo, uma coisa que a agência deveria ter considerado é que nossos clubes costumam pôr estrelas em suas camisetas. É como se desejassem imprimir suas maiores realizações no firmamento. Até aí tudo bem, o ser humano é ridículo mesmo. Só que tais estrelas são conquistadas, nunca compradas. Será que não pensaram que estariam dando de graça uma piada aos colorados e expondo seu cliente ao ridículo ao adquirir uma estrela num ano sem títulos?

Para uma pessoa da minha geração, o fato também lembra aquele dilacerante e várias vezes repetido especial da Rede Globo sobre Elis Regina, produzido em 1983, um ano após sua morte. Chamava-se Agora sou uma estrela. O especial utilizava escritos que a própria Elis deixara em diários e que eram, no programa, interpretados por Irene Ravache. A frase agora sou uma estrela, repetida à exaustão nas propagandas e no especial, tinha claro significado: morri, agora estou no céu, agora sou uma estrela. Aquilo ficou na cabeça de minha geração, mas acredito que a relação não exista apenas para nós, pois se consultarmos os livros de História e relacionarmos todos os povos que pensavam em seus mortos ao olhar para o céu — ou nas religiões que os enviavam e enviam para o mesmo local após a morte –, concluiremos que é coisa atávica.

Há mais: falei que o torcedor gosta de estrelas na camiseta, mas gosta ainda mais de estrelas em campo. Uma equipe cheia delas é “galáctica” como o Real Madrid. Eu compreenderia que uma instituição riquíssima comprasse uma estrela no céu para demonstrar aos outros que já tem tudo o que deseja na Terra, eu entenderia também que um time recém campeão do mundo adquirisse uma estrela para significar que aguarda, quem sabe, agremiações marcianas capazes de vencê-la. Mas não entendo que qualquer endividado clube brasileiro — ainda mais um abstinente de títulos — faça uma compra tão estapafúrdia.

Mas há muito mais: se os compradores de nomes de estrelas tivessem alguma habilidade com a Internet, poderiam descobrir facilmente o mico total, integral, definitivo:

The International Star Registry is not in the business of officially assigning star names; it is in the business of finding people willing to part with their money for a piece of paper that in a scientific sense means precisely nothing.

“We produce a good product, a fun product. We may have planted a seed with people, educated them even slightly about astronomy, about the stars,” said Rocky Mosele, vice president of marketing and advertising for ISR. “For people to say, ‘Well, it’s not official’ — I think people are OK that it’s not official. I’m sure of it. I know because customers call again and again and again.”

Ou seja, o vice-presidente de marketing da ISR, sigla que lembra outra a qualquer gremista desta galáxia, admite que a compra de estrelas é um fun product, uma brincadeira ou talvez um presente de cunho romântico, como fez Nicole Kidman ao presentear Tom Cruise com a estrela “Forever Tom” ou Winona Ryder com Johnny Depp. A compra de nomes de estrelas não é oficial, nem reconhecida pelos astrônomos. A IAU (International Astronomical Union), fundada em 1919, com 8300 membros individuais e 66 países membros, é a única instituição autorizada a nomear corpos celestes. E o Grêmio comprou o seu da ISR.

Basta comparar os linques acima. Com toda a razão, a IAU declara que a ISR é um deplorável truque comercial. Fundada em 1979, a ISR já comercializou 1 milhão de estrelas por US$ 50 cada. Todos os donos receberam belos certificados. Como há mais de 400 bilhões de estrelas disponíveis apenas em nossa galáxia, é um baita negócio.

Porém, mesmo que a culpada seja a agência de propaganda que o induziu a um mico, acreditamos que o Grêmio tenha acesso à rede mundial para descobrir a fama da ISR e seja PLENAMENTE MERECEDOR de todas as piadas (eu descobri a farsa em 5 minutos). Afinal, na noite de 11 de dezembro de 2008, na Sociedade Libanesa, em Porto Alegre, a diretoria do Grêmio anunciou séria, feliz e em grande estilo a adoção de uma certa Estrela Grêmio, localizada na Constelação de Órion, a mais brilhante. Se isso em nenhum momento lhes soou como uma compra de indulgências – cujas vendas fez Martinho Lutero escrever 95 teses em 1517 –, CÉUS, afirmaria que são um bando de tolos. Ou siderados.

Quando os gremistas pensavam estar extinta a voz de Flávio Obino cantando as maravilhas do Trovão Azul e do site, quando silenciaram os comentários sobre a alegre poltrona 36, chega-lhes um curioso problema de outro mundo: a fama de comprador de uma grande e distante estrela paraguaia.

E dizem que nem pode ser vista a olho nu.

A propósito do post abaixo, minha irmã pergunta ao Ministério Público:

— E o caminhão do Brasinha, onde se enquadra? Passa diariamente em frente ao hospital onde atendo meus pacientes, tocando a todo volume o hino do Grêmio, certamente superando o nível permitido de decibéis. Interrompo o trabalho por causa do barulho. Ele circula pela cidade à revelia da lei e o dono ainda é vereador pelo PTB…

(Eu não disse para vocês que ela era adorável?)

Dêem mais ocupações a estes homens, por favor

Eles ganham bem, fazem um trabalho muito útil contra a violência nos estádios, mas desejam também a fama. São como blogueiros, querem se expressar, certo? Só que em vez de aguardar os visitantes, eles atacam.

Ontem, os juízes Marcelo Mairon Rodrigues e Felipe Keunecke de Oliveira, do Juizado Especial Criminal que funciona nos estádios em dias de jogos, requisitaram à Polícia Civil investigações sobre a origem do avião que passou sobre o Estádio Olímpico portando uma faixa com os dizeres “Inter, o único campeão de tudo”. Fato gravíssimo…

Segundo eles, o Artigo 39, parágrafo 1, do Estatuto do Torcedor reza que “o torcedor que promover tumulto, praticar ou incitar a violência, ou invadir local restrito aos competidores ficará impedido de comparecer às proximidades, bem como a qualquer local em que se realize evento esportivo, pelo prazo de três meses a um ano, de acordo com a gravidade da conduta, sem prejuízo das demais sanções cabíveis”.

O avião seria “incitação à violência”… O fato ocorreu aos 40 minutos do segundo tempo do jogo Grêmio 2 x 0 Atlético-MG.

Ora, isso já aconteceu tantas vezes em Porto Alegre… Já foram tantos os aviões gremistas e colorados… Já tivemos tantos episódios que o tal avião faz parte da história da cidade. Todo mundo ri dele, é tradicional. Quem sabe os doutores querem também proibir quaisquer brincadeiras, as buzinas, os cantos das torcidas — muitos deles agressivos –, as piadas que nos chegam pela Internet, etc. A partir de agora, a partir da importância que as sumidades deram ao tradicional aviãozinho portoalegrense é que podemos ter violência nas próximas aparições. Sugiro aos juízes proibirem o uso das camisetas dos clubes na ruas, pois é claro que a aparição de um gremista pode transtornar um colorado ou vice-versa.

Acho muito mais convidativa à violência a faixa da torcida do Grêmio “Jamais nos matarão”. Isso é uma clara convocação ao confronto e à luta. Mas não dá mídia atacar uma e apenas uma faixa da Geral…

O futebol é algo tão hipertrofiado em nossa sociedade que ele mesmo regula suas manifestações públicas mais tresloucadas. Por exemplo, o folclórico ex-presidente Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, espécie de Eurico Miranda dos pampas, declarou num conhecido programa de rádio de Porto Alegre que milhares de torcedores do Inter fugiram de meia dúzia de gremistas durante o último Grenal… No dia seguinte, os protestos foram tantos que o irresponsável ex-dirigente foi obrigado a pedir desculpas.

O mesmo ocorreu quando desta faixa racista colocada há muitos anos…

… e retirada rapidamente pelos tricolores.

Não quero dizer que não haja violência entre torcedores e nem que a lei não esteja melhorando a situação. Por exemplo, sou favorável à Lei Seca nos estádios, implantada há poucos meses. Depois dela, vi menos brigas e ninguém mais dependurou-se na minha camiseta do Figueroa berrando com aquele hálito maravilhoso bem em frente a meu nariz que eu era possuidor da coisa mais preciosa do mundo. Poderiam também proibir os cigarros. Já o fizeram no Uruguai. Não incitam nada, só são muito chatos.

Mas o nosso aviãozinho de cada conquista… Que bobagem.

P.S.- Meus exemplos foram inteiramente colorados. Sei, porém, que as torcidas são formadas por pessoas da mesma sociedade e agem igual. Há violência de ambos os lados. Apenas, por preferência clubística, lembro mais as do Grêmio…

Campeões de Tudo

Eu estou no andar de cima, depois da placa do Jornal do Comércio. Cheguei em casa às 2h45.

Em 27 meses, ganhamos todos os títulos internacionais possíveis: Libertadores, Mundial, Recopa e Sul-Americana. Temos todos os campeonatos do calendário atual brasileiro e do continente: Estadual, Copa do Brasil, Brasileiro e os já citados. Nas últimas 12 decisões, vencemos 11.

E ontem, pressentindo Nilmar, publiquei este texto no Impedimento:

Ah, antes porém, publico cópia do e-mail de Luis Felipe dos Santos, colaborador do Impedimento:

Caro Joseph Blatter,

Solicitamos por meio deste autorização para disputar outros torneios continentais, na Europa, América do Norte, África e Ásia. Como nos consagramos campeões de tudo que existe, ficou muito complicado estabelecer prioridades de agora em diante. Estamos em busca de novos horizontes, portanto, achamos que você poderia nos fazer essa cortesia.

Com carinho,
S.C.I

P.S.: não temos planos de ganhar a segunda divisão, favor não insistir.

Colorados em chamas…

Horror a intermediários

No dia 7 de novembro de 2001, saí da Feira do Livro e fui direto para o Beira-Rio. Jogavam Inter x São Paulo. Pelo Inter, entravam em campo João Gabriel; Barão, Gilmar Lima, Fábio Luciano e Wederson; Leandro Guerreiro, Carlinhos, Silvinho e Jackson; Daniel Carvalho e Luís Cláudio. Pelo São Paulo vinham Rogério Ceni; Reginaldo Araújo, Émerson, Júlio Santos e Gustavo Nery; Maldonado, Fábio Simplício, Kaká e Júlio Baptista; Luís Fabiano e França. E eu estava confiante.

Começa o jogo e o Inter, cheio de entusiasmo, parte para cima do São Paulo. Dava pena de ver. Era um banho de bola. Aí Kaká puxou um contra-ataque e cruzou para França fazer 1 x 0. Um detalhe, claro, ainda mais que no minuto seguinte Silvinho empatava o jogo e nós, os trouxas que assistíamos a partida, nos preparávamos para ver a virada. Empilhávamos chances de gol, nossos gols estavam maduros, podres até, vários deles. O primeiro tempo terminou empatado. 1 x 1.

Começou o segundo tempo e Luís Fabiano cruzou para França desempatar. Uma sacanagem, jogávamos muito melhor. Continuamos perdendo gols quando Gustavo Nery cruzou para Luís Fabiano fazer o terceiro. Mas reagimos e parecia que parte da injustiça seria sanada porque nossa pressão era irresistível. Sim, chegaríamos ao empate. Só que Gustavo Nery mandou uma bomba de longe e ficou 4 x 1. Meu deus, que bosta, que injustiça.

No dia 30 de junho de 2002, entravam em campo Brasil e Alemanha. O Brasil trazia Marcos; Lúcio, Edmílson e Roque Júnior; Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos; Rivaldo e Ronaldo. A Alemanha vinha com Kahn, Linke, Ramelow, Metzelder e Frings; Hamann, Jeremies, Schneider e Bode; Neuville e Klose. Eu estava em Bento Gonçalves, curiosamente com um grupo de alemães. O jogo foi igual: o que a gente fazia aqui, eles faziam lá. Era uma partida perigosíssima, mas vocês lembram muito bem como terminou. Rivaldo, Ronaldo e Kahn fizeram a toda a diferença e os alemães discutiam entre si, dizendo que seu time igual ao nosso, só que…

É por isso que gosto dos jogadores decisivos. Você pode empilhar dez Luís Cláudios no seu time que eles não farão um Luís Fabiano. Pior, o São Paulo poderia enfiar 18 Maldonados em seu meio campo que eles não chegariam à eficiência de um França. Exagero? Claro que sim, os gregos criaram a figura da hipérbole para intensificar um fato até o inconcebível e os lógicos adoram hipérboles. Por isso, digo que 23 Rivarolas não fazem um Jardel, 34 Ramelows não criam fenômeno nenhum, 52 Edmílsons não superam um Rivaldo e 61 Baideks não fariam o que um Renato fez em Tóquio.

É por isso que gosto dos jogadores decisivos. Hoje à noite, podem estar em campo 43 Edinhos, mas os importantes serão Alex, Nilmar e Lauro, nossos caras terminais. Os goleadores, com frieza de toureiro e sangue frio de assassino esquizofrênico, são sempre os mais valiosos jogadores em campo. É por saber o momento do tiro ou por aproveitarem a passagem burra do touro descontrolado a sua frente, que vimos Romário jogar e fazer gols até os 67 anos, que vemos Túlio goleador aos 84 anos e é por isso que são tolos aqueles que criticam Alex quando ele trota em campo. Alex não jogou nada na Bombonera? Ora, não me façam rir. Na hora do cruzamento de D`Alessandro, ele estava lá fazendo o que poucos sabem fazer.

E é por isso que gosto também de grandes goleiros. O cara que fica ali não pode falhar, ainda mais num jogo decisivo. O mundo não lembrará de Kahn pelos 112 campeonatos alemães que levantou, mas nunca esquecerá que, quando Rivaldo chutou aquela bola, ele a soltou e ficou nadando no ar enquanto o matador Ronaldo Fenômeno chutava a bola para as redes com a certeza do toureiro matador que sabe que ou é o touro ou é ele mesmo (então, que seja ele!). O são-paulino mais fanático sempre lembrará de Ceni no Japão, mas nunca esquecerá que ele facilitou as coisas para Fabiano Eller naquele segundo de auto-suficiência. O colorado mais fanático sabe de seus títulos, porém sempre lembrará de Clemer como um goleiro nervoso e hesitante, sabendo que só um doido varrido esquizo alucinado e viciado terá a coragem e calma de pegar um escanteio batido por Nelinho com uma mão só, pois a outra tinha, naquele dia, escondidos sob a luva, seus dedos retorcidos novamente quebrados.

Num time campeão, até o roupeiro vence, mas só alguns são decisivos. Decisiva para a vida da batata é a mão que a planta e os dentes de quem a come. O resto são contingências. Decisivo na vida da galinha é quem a choca e minha avó que, caminhando e sem deixar de conversar comigo, pegava o bicho e, para meu horror, torcia docemente o pescoço de nosso almoço. O resto é milho, cacarejos e carregadores de pianos.

Por Milton Ribeiro.

A batalha de La Plata


Ah, que equipazo el inter!! por dios!! mejor que aquel campeón de America inclusive… imparables, e impasables.

O primeiro e-mail do Sr. 1:

Miltão,

estaremos, todo o STAFF colorado, assistindo a Inter e Estudiantes Boca no bar X. Trata-se de um bar sujo, fétido e mal-freqüentado, mas de muita personalidade. Fica na Rua Y, quase esquina com a Z (rua do lado da Igreja tal). Estaremos por lá a partir das 21h45.

A resposta do Sr. 2:

Creio que verei o jogo em casa. Ando precisando ECONOMIZAR um pouco.

O Sr. 1 retorna:

Eu acho temerário não ver o jogo na Estância de Dom A., sempre ganhamos lá, mas tudo bem. Aliás, 2, posso cobrir.

Eu escrevo para os dois:

Eu tb posso dar cobertura financeira… O 1 dá a outra.

O Sr. 2 torna-se épico:

2 a 1 para o Colorado. Será interrompida a seqüência de 43 jogos invictos do Estudiantes em seu estádio e mais um “copero” rastejará diante do gigante de armadura vermelha.

Cada vez mais percebo que me torno uma pessoa extremamente VOLÚVEL quando o assunto é convite para bares. Pois então vamo-nos embora pinchar aquelas ratazanas.

Já estou com uma sede enlouquecedora.

ahuahah

Abraços.

Fomos. Resultado: Estudiantes 0 x 1 Inter

Saio cedo, logo após a partida, à meia-noite. Acordo às 6h30.

Novo e-mail do do Sr. 2:

Eu tento, eu vou atrás dos times COPEROS, mas todos eles querem até a morte se abaixar pra chupar a GLANDE VERMELHA. Continuaremos, sempre e sempre, buscando uma CHINA mais difícil.

Gazela, cabrita, RATAZANA, é tudo a mesma merda.

E DÁ-LHE COLORADO!

Chamas profundas, trago infinito.

Se ganhar a Sul-Americana, o Inter terá conquistado, em 27 meses, todos os títulos internacionais da FIFA possíveis a um suda (*): Libertadores, Mundial, Recopa e Sul-Americana. Das 11 últimas finais que disputamos, vencemos 10. A única exceção foi o Campeonato Gaúcho de 2006, perdido para o Grêmio.

Não dava para escrever muito. Ainda bem que o Monólogo de toda sexta-feira já está escrito, formatado e agendado. Agora, ao trabalho!

(*) Suda: do espanhol “sudamericano”.

Ufa!

Enfim, a rodada perfeita. Estamos livres de ver o Grêmio campeão brasileiro. Apoiado no excelente trabalho de um técnico que é detestado pelos torcedores e envergonha a diretoria do clube — tanto que os dois candidatos à presidência evitaram o menor elogio ao técnico antes das eleições –, o Grêmio foi muito além do esperado pelo razoável. Teve resultados que só podem ser atribuídos ao Sobrenatural de Almeida: 2 x 1 no Botafogo, 1 x 0 no Santos, 1 x 0 no São Paulo, 1 x 0 no Ipatinga, 1 x 0 no Sport, 1 x 0 no Palmeiras e 2 x 0 no Coritiba. Foram 14 pontos ganhos com gols casuais. Todas estas vitórias, foram conseguidas através de gols contra, um gol em completo impedimento e muitas bolas que batiam em zagueiros, enganando os goleiros.

Claro que tudo isto é normal — até os erros de arbitragem são normais –, não houve corrupção nem roubo e não é proibido ter sorte, só que ela estava beneficiando sempre o mesmo time. Imaginem se o time fosse bom! Ontem, o Grêmio mereceu fazer o primeiro gol, mas é óbvio que ele só aconteceu quando um zagueiro do Vitória desviou a bola de seu goleiro. Quase enlouqueci. Para ficar maluco de vez, botei o Like Evil do Miles Davis a toda altura e ainda vi o Vitória perder dois gols incríveis e bem construídos no final do primeiro tempo. Desliguei o som e fui comprar um remédio na farmácia. Levei o rádio e ouvi o comentarista Wianey Carlet, o mais imbecil do Brasil, dizer que a vitória era merecida e que o Grêmio estava “encaminhando um importante triunfo”. Acho que ele não viu o final do primeiro tempo, algo muito promissor que só poderia ser impedido por quantidades colossais de sorte.

Ainda estava na rua quando o Vitória manteve a tendência do final do tempo inicial e, em 3 minutos, o jogo já estava empatado e logo depois já estava 4 x 1. Ufa!

Mas a rodada também teve uma vitória do maior adversário do tricolor gaúcho, o tricolor paulista e, para deixar tudo mais colorido, houve um raríssimo erro de arbitragem, pois foi contra o Flamengo, instituição sempre aquinhoada pelos homens de preto sempre temerosos de críticas. Parabéns a Carlos Simon, que nos deu a alegria de ver ontem à noite a inédita película “Eu, C. R. F., 113 Anos, Roubada, Drogada e Prostituída”.

A curta primavera da tartaruga

Na semana passada, circulou em Porto Alegre uma engraçada metáfora. Talvez ela tenha surgido em hostes coloradas, mas contou com o apoio gremista. Dizia-se que o Grêmio era uma tartaruga em cima de um poste: ninguém sabia como tinha subido até lá, mas sabia-se que cairia… Ouvi a piada ser contada por muita gente, colorados e gremistas. Parecia haver um consenso sobre a queda da tartaruga. E ontem ela caiu feio.

Foi 4 x 1 ao natural, com direito a gol antes dos cinco minutos de jogo e placar construído no primeiro tempo. Tite entrou em campo com aquela escalação cautelosa de três volantes. Estranhamente, este tipo de escalação parece favorecer a liberdade dos meias de ligação adversários. Vejam o golaço de Tcheco! Ele atravessou o campo, fazendo o mais belo gol do jogo, tendo enfrentado em sua arrancada apenas um jogador: Guiñazu. Aliás, Tcheco parecia ser o único com algum élan e categoria no time do Olímpico. O resto era um amontoado de equívocos: Pereira e Perea entraram em campo lesionados, o primeiro foi substituído a dez minutos e o outro no intervalo; Marcel e Perea formavam um ataque de asma; a saída de bola pelo lado direito com os péssimos Paulo Sérgio e Léo não funcionou, claro; e Celso Roth, após a expulsão de Tcheco e perdendo o jogo de 4 x 1, optou por preservar seu emprego abdicando de atacar. Uma tragédia. Uma tragédia maravilhosa para nós.

Enquanto isso, víamos D`Alessandro, Guiñazu e Alex triturarem o meio de campo defensivo do Grêmio. Foram inúmeras as oportunidades em que esses três e mais Nilmar chegaram tabelando aos três zagueiros de Roth. A atuação de D`Alessandro foi tudo e mais do que desejaríamos. Seu chute no primeiro gol foi espetacular e… Bem, foi um chocolate lindo de se ver.

Com efeito, a tartaruga caiu e o vento que a empurrou nem precisou ser muito forte.

Há oito rodadas, estávamos 18 pontos atrás do Grêmio; hoje, a diferença é de oito. OK, o Grêmio encarou a realidade, mas é indiscutível que estamos jogando mais.

A volta, o Gre-nal e os Filmes de Junho

Só noto o quanto gosto deste espaço quando fico sem ele. Problemas técnicos me deixaram longe do blog desde a última sexta-feira. Oh, sim, ficamos sem o Porque Hoje é Sábado e espero não ser processado por esta falta, apesar das ameaças recebidas. É pior ainda quando a mulher cuja presença nos parece tão natural viaja. O momento de adormecer, então… É desalentador. Ainda bem que as duas faltas não ocorreram ao mesmo tempo, pois quando da viagem da segunda, o primeiro já havia retornado. É um precário vaivém de contrapartidas.

O Grenal foi absolutamente frustrante para nós, colorados. Jogávamos muito melhor, ganhávamos o jogo e já tínhamos chutado duas bolas na trave quando nosso goleiro resolveu cometer uma agressão a um jogador do Grêmio. A partida era leal, não havia rixas ou violência, mas Renan achou que seria adequado, após segurar um cruzamento, chutar Rodrigo Mendes. Pênalti contra nós e expulsão. No final, ainda quase desempatamos. Grandes atuações de Sorondo e Nilmar. De bom, nossa surpreendente atuação. De ruim, a perda de dois pontos para um adversário batido.

Os filmes de junho:

31 – O Labirinto do Fauno – El Laberinto del Fauno – 2006 – Espanha / EUA / México – Guillermo del Toro – 3
30 – Jornada da Alma – Prendimi L`Anima – 2003 – França / Itália – Roberto Faenza – 4
29 – Bella – Bella – 2006 – México / EUA – Alejandro Gomez Monteverde – 3
28 – Control – Control – 2007 – Inglaterra – Anton Corbijn – 4
27 – Longe dela – Away from her – 2006 – Canadá – Sarah Polley – 3
26 – A Outra – The Other Boleyn Girl – 2008 – Grã-Bretanha – Justin Chadwick – 2
25 – Sex and the City – Sex and the City – 2008 – EUA – Michael Patrick King – 3
24 – Bloom – Bloom – 2003 – Irlanda – Sean Walsh – 3
23 – Confiança – Trust – 1990 – EUA / Inglaterra – Hal Hartley – 4
22 – A Vida é um Milagre – Zivot je cudo – 2004 – Bósnia / França – Emir Kusturica – 5

Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

Futebol e identidade social, de Arlei Sander Damo

futebol_e_identidade_social_arlei_sander_damoEm primeiro lugar, preciso falar um pouco sobre como consegui este livro. Ele me foi enviado por Idelber Avelar, professor da Universidade de Tulane, em New Orleans. Em vão, tentei comprá-lo, apesar de ser um livro novo, de 2002. Em minhas tentativas, escrevi para a Editora da UFRGS, tendo recebido como resposta o mais completo silêncio. Procurei novo contato, pois queria dá-lo de presente aos criadores do Impedimento, mas nada, não parece haver ninguém por lá. Por que então existe um Fale Conosco bem aqui? Então, meu sobrinho conseguiu o e-mail do próprio autor. Foi atendido mui educadamente, obtendo a confirmação de Damo de que a obra era muito procurada, mas que só a editora podia resolver o caso. Bem, ao menos isto não é culpa da corrupção do futebol, nem de Ricardo Teixeira…

O livro de Arlei Sander Damo tem o subtítulo de “Uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes” e originou-se da dissertação de mestrado do autor, escrita entre 1996 e 1998, aproximadamente.

É obra interessantíssima para quem queira sair da mesmice das notícias diárias sobre futebol — aquelas mesmas que tanto deprimem nosso noturno cidadão de uma república enlutada — e adentrar de forma inteligente e bem conduzida na história da formação desta loucura que vemos. Damo nos explica o nascedouro da dupla Gre-nal e de sua rivalidade. “Se queres ser universal, canta tua aldeia”, dizia Tolstói de forma mais esperta que Wianey Carlet. Cantar sua aldeia é o que faz Damo, fazendo-nos descobrir claras analogias com outras cidades, estados e rivalidades clubísticas brasileiras. As explicações são do autor, as projeções são nossas; há leitura mais produtiva e agradável do que conjeturar junto com o autor? Não, né? A obra começa no início do século passado, descrevendo o início do associativismo esportivo em nossa Porto Alegre – empurrado pelos imigrantes alemães, “ficiados” em clubes – para chegar aos primórdios de uma paixão e de uma rivalidade que é boa para torcer, mas que também é boa para se pensar a respeito.

São absolutamente preciosas as argumentações sobre raça e classes sociais que faz o autor, sobre o crescimento do racismo no Grêmio à época do Dr. Py e a da salvação do clube através de seu maior presidente, Saturnino Vanzelotti, o qual resolveu enfrentar os “gremistas vigilantes”, que lhe escreviam mal-disfarçados apedidos em jornais, sempre zelosos de que a camisa tricolor não fosse maculada pelos negros. (Seus textos, sempre anônimos, parecem ter como autor um Joseph Goebbels com superego fraco.) Outros fatos significativos que são analisados são as infrutíferas tentativas do autor para descobrir a origem clara do poderio colorado dos anos 40: a célebre Liga das Canelas Pretas – o que vem comprovar a pouca documentação da história negra no Rio Grande do Sul –; a derrocada do amadorismo; um exame sobre a influência dos estádios na gangorra Gre-nal e um estudo sobre a formação das torcidas sob a ótica das raças e das classes sociais.

É apenas isto o que a Editora da UFRGS insiste em nos esconder. Ainda não devolvi o livro para o Idelber. Querem cópias…?

Observações finais:
1. Apenas o texto “Sobre o regional e o nacional no futebol brasileiro” é datado e mereceria uma recauchutagem geral.
2. Arlei Sander Damo daria um bom leitor do Impedimento.
3. Apesar de não confessar, Arlei Sander Damo é um gremista nojento.

Saudações coloradas e morte à progênie do racismo!

:¬)))

Sou do contra

Meus amigos virtuais e pessoais Douglas Ceconello e Daniel Cassol dizem que eu posso publicar no Impedimento quando quiser. É um blog incrível sobre futebol. Este texto Sou do contra resultou em 76 comentários e o anterior tinha chegado a 98. Ia publicá-lo também no OPS, mas ontem tivemos a estréia de João Luís Almeida Machado, também colunista de gastronomia, no futebol do OPS e não quis entrar no mesmo dia.

Crônica esportiva é problema no Brasil tanto quanto a política, esta muito mais grave. Há algo de muito errado com a falsa parcialidade, raramente quebrada por exceções como Juca Kfouri, que leva os cronistas e os textos a uma posição inteiramente artificial para quem aborda o futebol. Os artigos “equilibrados” e descompromissados que lemos são um saco. De certa forma, uso a experiência jornalística do pessoal do Impedimento para criar uma persona esportiva mais franca porém aberta a discussões. E que não esconda suas preferências, pois isto não tem nada a ver com desonestidade. Estou aprendendo. No texto que segue até exagero, entrando de sola, de forma furibunda e provocativa, mas o resultado foi uma discussão cheia de idéias. A melhor pergunta que apareceu por lá foi esta: por que o futebol brasileiro é tão menos próspero do que o mexicano e o turco, países economicamente semelhantes a nós e que são compradores? Cartolagem e corrupção? As “parcerias” entre dirigentes e empresários são mais lucrativas em nosso país?

Sou do contra

Eu não torço para a seleção brasileira e o motivo nem é o de ela não possuir técnico.

Minhas motivações são mais, digamos, indiretas. O que desejo é uma grande crise! Vejamos o que pensa este beócio escriba.

O Brasil é o país que menos se orgulha de si mesmo na América Latina. Nosso complexo de vira-latas é uma herança portuguesa. Eles são iguaiszinhos; odeiam-se tanto quanto nós. Aqui é tudo ao contrário: no mundo inteiro a direita é nacionalista, aqui não. Ou seja, os que governaram o país durante a maior parte de sua história sempre o viram com restrições. Por toda nossa história, desde D. Pedro I, fomos dirigidos por pessoas semelhantes às que escrevem na Veja, a fina flor que molda a opinião da direita brasileira.

E então a seleção brasileira entra em campo com seus jogadores… Todos eles saíram jovens de nosso país (de merda) para ganhar rios de dinheiro no eldorado. Todos eles ouviram falar que a Seleção é um sonho e objetivo de todos, mas pergunto:

– Se você fosse, por exemplo, o Gilberto Silva e estivesse no final de seu contrato com o Arsenal após toda uma carreira no exterior, você arriscaria sua perninha por quem não paga seu salário, por um país que é seu, mas de onde você fugiu na primeira oportunidade que teve e onde você jogou apenas alguns meses? O que um cara como Gilberto ganha correndo com um louco pelo Brasil-sil-sil. Ele já não é conhecido? Seus contratantes acompanham Paraguai x Brasil? Uma boa atuação neste jogo lhe garante um contrato melhor?

Não, né? E nem sobra o amor da disputa. Se o Gilberto olhar para o banco e ver aquela COMOÇÃO TÉCNICA formada por Dunga e Jorginho talvez uma voz interior lhe faça a pergunta “O que estou fazendo aqui?”.

Ele e Kaká – que foi liberado pelo Milan, mas mentiu que não tinha sido – não buscam mais glórias. Muitos dos jovens também não a buscam pois não são ufanistas e julgam estar no topo de suas carreiras. Creio que chegar à Seleção é um pedido que os empresários fazem a seus atletas para alcançarem grandes contratos no exterior. E só. Se o atleta obtiver sucesso no exterior, suas convocações tornam-se sinônimo de incomodação. Uma boa carreira na Seleção não é garantia de sucesso financeiro, mas sim um belo Campeonato Italiano, Espanhol ou Inglês. São eles que pagam.

A Seleção tornou-se apenas um passo dentro de um plano de carreira todo projetado para a Europa.

Agora, que crise desejo? Ora, uma bem grave que deixe o Brasil fora de uma Copa. Uma que crise que nos obrigue a repensar MESMO toda a estrutura do futebol brasileiro. Uma que faça com que tenhamos calendário europeu para que nossos times não mudem em meio às disputas. Uma que segure nossos jogadores até determinada idade, pois só aqui nascem em tal quantidade e os melhores sempre sairão. Uma que obrigue o comprador europeu a pagar um valor decente ao clube formador. Uma que permita contratos longos mesmo para jovens pré-púberes. Uma que torne a Seleção Brasileira uma importante vitrine para carreiras de jovens talentosos que, decididamente, acabarão no exterior. Uma que torne melhor nossos campeonatos.

30 horas

As últimas 30 horas do fim de semana foram algo como um carrossel de emoções (como dizia a Bia).

1. Visita a minha mãe na UTI: ela sofre do Mal de Alzheimer ou de algo perto disso; foi fazer uns exames e, fraca, acabou na UTI. Sedada, deitada e intubada (*), era uma visão deprimente.

2. Inter 2 x 1 Botafogo: meu filho queria porque queria ir ao jogo. Não sei se queria mesmo ou se sua intenção era a de me afastar do trabalho e do hospital. Ganhamos o jogo. Surpreendentemente, a estréia do Tite foi boa.

3. Esplêndido convite: liga a Astrid, mulher do meu amigo Augusto, perguntando se temos programa para o sábado à noite. Não tínhamos. Então, ela perguntou quantos nós éramos, pediu que arrumássemos a mesa com pratos fundos, colher, garfo e faca, além de copos para água e vinho. Precisaríamos produzir uma sobremesa para esperá-los? Que vinho escolheríamos? Não, nada disso, ela e o Augusto trariam absolutamente tudo, da comida à sobremesa, passando pelo vinho. Noite inesquecível, companhia e música perfeitas. Só o meu cansaço destoava.

4. UTI: nova visita a minha mãe no domingo pela manhã. A mesma coisa. Inconsciente como quase sempre está.

5. Longe dela: talvez pelo contexto, quis ver o filme em que Julie Christie faz uma personagem que sofre de Alzheimer. Um filme muito bom que, se não nos dá a extensão do trabalho e do horror, dá o tamanho psicológico da perda.

6. Control: em seguida, mais um filme. Putz, e era mais deprimente ainda. Trata da curta vida de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division. A atuação dos atores é digna dos mais rasgados elogios. Notável.

7. Dunga: fico sabendo da derrota brasileira e penso na crônica que escreverei para o Impedimento. Explicarei meus motivos para comemorar este tipo de resultado.

(*) ENTUBAR – Entubar ou Intubar?
Entós (grego)= posição interior. Documenta-se em vocábulos introduzidos na linguagem científica a partir do século XIX.
Intus (latim)= para dentro.
Como tubo(cânula endotraqueal) vem do latim tubus, a palavra correta é intubar.

Retirado do Dicionário das Agressões Médicas à Língua Portuguesa.

Feliz no Futebol

Andrezinho E Fernandao

Uma derrota em Curitiba por 2 x 0 na semana passada. Hoje, 42.000 colorados no Beira-Rio; eu e meu filho entre eles; um jogador nosso cai desmaiado a um minuto de jogo; tomamos um gol aos dois. Resultado: uma virada – Inter 5 x 1 Paraná. Fernandão foi o dono da festa.

Uma grande partida. A primeira comoção foi a queda de Jonas, que, aos 22 segundos, voou sobre Índio e caiu de costas no chão. Farejei desgraça, mas o menino tinha “apenas” desmaiado após a queda, deixando uns dentes pelo gramado. O Paraná começou a perder o jogo ao não aceitar o pedido dos jogadores do Inter de pararem o jogo para que Jonas recebesse atendimento médico. Foi uma completa falta de fair-play e os caras quase fizeram um gol enquanto pedíamos para que o jogo fosse paralisado. Depois da entrada do carro-maca, o Paraná foi novamente ao ataque e fez 1 a 0. Tudo isso em dois minutos. Devido ao saldo qualificado, precisávamos fazer quatro gols. Fizemos cinco.

A ambulância ainda estava à beira do gramado quando Andrezinho empatou em cruzamento de Bustos. O Paraná reclama da arbitragem e ela realmente foi localista. Wagner Tardelli é amigo dos grandes. Rouba-nos contra o Corínthians, mas dá uma mão contra o Paraná, time da segunda divisão, como o Corínthians… Bem, esqueçam! A expulsão de Ângelo, aos 21, foi justa, mas Magrão testou a boa vontade do árbitro ao acertar violentamente Daniel Marques quando já estava 3 x 1. Tardelli achou a entrada de Magrão normal. Muito obrigado!

O Paraná é ruim de doer, só que não é fácil ter que fazer quatro gols para se classificar e conseguir. Há dois excelentes jogadores no Paraná que mereceriam estar num bom time brasileiro, mas que certamente estarão em julho no exterior: o jovem Giuliano (10) e Leo (5). Esses incomodaram, porém o resto é mais ou menos como o time do Grêmio.

Não descreverei a virada gol por gol. É monótona a história dos vitoriosos. Eu gostaria de me referir novamente a Fernandão. Orientou o time, correu como na final da Libertadores contra o São Paulo (palavras de Abel), deu passes perfeitos (muitos, muitos), desarmou como nunca, mostrando que decisão é com ele. É difícil agüentar Fernandão durante o ano. Parece desinteressado, esperando um jogo maior… Pois ontem ele teve.

Upgrade: Não percam o antológico comentário do gremista Tarsis, do Pensar Emburrece.

A Confissão de Sexy Hot

Digamos que o Grêmio superou em muito as expectativas coloradas. Acostumamo-nos a nos divertir com os desempenhos pungentes e dolorosos do tricolor, mas nunca, nem em nossos mais loucos desejos, aspiramos a que ele saísse de cena. E agora? Neste mundo politicamente correto, vamos zombar e nos distrair com quem nos próximos trinta dias?

Aproveito para lhes deixar aqui uma informação de cocheira, ou melhor, de academia. O treinador do Grêmio, Celso Roth – também conhecido como Sexy Hot em algumas rodas – é ou era meu colega na academia Sal da Terra, que ostenta sua bicho-grilice há vinte anos na Av. José de Alencar, em Porto Alegre. Digo “era” porque não o vi mais depois que assumiu o imortal fardo. Pois, pasmem vocês… Não deixem-me antes abrir novo parágrafo.

Pronto. Pois pasmem que Sexy Hot, três dias antes de ser entronizado como técnico da equipe banana, disse informalmente a mim entre um supino e uma flexão plantar:

– Ou o Grêmio contrata cinco bons jogadores ou não chega nem à final do campeonato gaúcho. Cinco, não menos.

Não contratou ninguém e, quando vi que não chegou nem às semifinais e que as oitavas-de-final da Copa do Brasil passaram igualmente ao largo do Estádio Olímpico (*), pensei:

– Puxa, então ele não se enganou com aqueles 19 jogos de invencibilidade. Esse conhece!

Desculpe, Hot. Nunca seja tão franco próximo a um blogueiro. Somos pouco confiáveis.

P.S.- A propósito, quando foram as Olimpíadas de Porto Alegre?

A Derrota Mais Inacreditável

35553Vamos falar sério. Vi o final do primeiro tempo e todo o segundo. O Grêmio tinha tanta certeza da vitória que entrou negligente em campo. Era uma formalidade, apenas, e o tricolor só acordou quando já perdia por 3 x 0. Aliás, todos pensavam que era uma formalidade, principalmente nós, colorados. Eu nem ia ver o jogo, estava desinteressado e só passei a arrastar o olho para a TV quando vi que tinha potencial dramático.

Esses jogos são curiosos. Começam melancólicos, devagar; de repente, o mais fraco vê que pode dar uma pedradas e o mais forte está tão anestesiado que custa a reagir. O Grêmio há anos forma times modestos. Mas sua superioridade sobre o Juventude é indiscutível. Com oito homens, tomando 3 x 0, foi até o 3 x 2. Gostei de sua eliminação, claro, mas não foi perfeito. Perfeito seria se o dirigente mais truculento e bronco do sul do país, Paulo Pelaipe, e o jogador mais maldoso do Brasil, Eduardo Costa, fossem empurrados um pouco mais para o canto.

Porém, eles permanecerão e quem fica na marca do pênalti é quem chegou há 50 dias e não contratou ninguém: o “simpático” Celso Roth, que está rico com as múltiplas demissões que sofre…